EntreContos

Detox Literário.

Escalpo Urbano – Conto (Rinaldo Ramos)

A saga de um índio e a redenção de um homem.

Início dos anos 80

Após longa caminhada, finalmente “Aynatu” chega ao seu destino. O sol está forte. Cansado, para debaixo da sombra de um enorme, e florido oiti. Em seguida, pega um cantil que está pendurado em seu cinturão, leva a boca, e engole lentamente vários goles de água. Também deixa cair na calçada uma pesada mochila de pano que carrega às costas, assim como seu arco e flechas. À sua frente, do outro lado da rua, ergue-se o enorme prédio da Faculdade Federal de Direito, e como havia sido difícil chegar até ali.

Uma semana antes partiu sozinho de sua aldeia em uma canoa, depois rodou de ônibus por longas estradas esburacadas, e de olhos bem fechados, atravessou o país em um avião. Amanhecia quando pousou no aeroporto. Ali mesmo comprou um mapa da cidade, e veio caminhando pelas ruas guiado por ele. Aproveitava e olhava para todos os lugares, decorando seus nomes, e localizações. Queria conhecer bem o lugar que o iria acolher por um longo período.

Mirando ao longe, avistava vastas montanhas rodeando a grande metrópole, o que muito o agradava, pois assim, colocaria em prática uma das coisas que mais gostava de fazer, que era praticar com seu arco.

A emoção que sente, só se compara ao dia em que caçou e matou sozinho com uma flechada certeira um porco do mato, isso aos sete anos de idade, pouco antes de ser comunicado por seu pai dessa grandiosa missão. Agora está ali, a poucos passos de dar início à última etapa desse objetivo.

Recompondo-se, pega do chão seus apetrechos, atravessa a rua, e passa firme pelo portão de entrada. O porteiro pede que se identifique, ele tira do bolso da camisa seu cartão de estudante mostrando o documento. Quando vai fazer uma pergunta, o porteiro já lhe vira as costas voltando para a guarita de onde viera. Resignado, segue em frente e adentra o pavilhão.

Observa as pessoas passando apressadas, trombando umas contra as outras, incomoda-se um pouco com isso. Desorientado para no meio do pátio e nota, perto dali, um grupo de rapazes que o apontam e conversam sorridentes. Ele se aproxima de forma amistosa, e quando vai perguntar onde fica localizado o alojamento dos estudantes, é surpreendido por um dos indivíduos;

— “Índio”, a gente estava aqui observando você, tentando adivinhar o que tu veio fazer por aqui, e vou te dizer uma coisa índio, nisso todos nós concordamos. Deve ser para limpar os banheiros e desentupir as privadas cheias de merda, não é isso “índio”?

Acertamos?

“Aynatu” já está calejado com esse tipo de tratamento. O preconceito que existe contra todos os índios que se aventuram sair da floresta, é sempre o mesmo. Já perdeu a conta de quantas vezes foi hostilizado, desde criança, quando saiu pela primeira vez de sua aldeia para dar início ao seu alfabetizado junto aos meninos brancos.

Então, ele apenas acena levemente com a cabeça para o grupo, e fala rapidamente, já se virando para sair dali;

— “Assim como vcs, sou estudante”.

Depois de dar dois passos, ele escuta mais um comentário vindo daquela turma;

— Vamos te dar um trote “índio”. No final das aulas será um prazer indescritível escalpelar essa cabeleira toda.

Ouvindo aquilo, seus olhos se inflamam de ódio, e quando começa a se virar pensando em voltar para tirar satisfação, é surpreendido por alguém que toca em seu ombro. Um rapaz que em tom amistoso, lhe pede que o acompanhe. Desconfiado, o índio vai com ele. Sentam-se em um banco;

— Meu nome é “Silvio”, embora me chamem de “Cara-de-Mau”. Sou um cara da paz e não gosto daqueles idiotas que falaram com você. Seja muito bem vindo, como você se chama?

— Me chamo “Aynatu”. Queria apenas saber onde fica localizado o alojamento dos estudantes, e eles, logo vieram me insultando.

— Então você é estudante “Aynatu”, que legal, meus parabéns, mas o que vou te dizer agora será muito difícil de entender e aceitar, porém, eu tenho o dever de te alertar. Aqueles imbecis são conhecidos como “os cruéis”, são cinco idiotas que se divertem humilhando os outros, principalmente calouros como você. O que querem é te dar um trote, que significa que pretendem cortar seus cabelos. Uma tradição idiota que todo ano se repete.

Quando o sinal tocar ao final das aulas, eles estarão te esperando do lado de fora dos muros. Se você sair por aqueles portões, o porteiro vai fechá-los em seguida, e a partir daí, tudo estará por sua conta e risco.

Quanto aos outros alunos, eles também estarão lá, mas apenas para se divertirem, afinal, ninguém vai querer perder a cena de um índio sendo escalpelado ao vivo e a cores. Acorda parceiro, a coisa é muito séria mesmo. Isso pode se transformar em um pesadelo.

Em silêncio, “Aynatu” apenas observa atentamente o que o novo amigo lhe fala, enquanto ao lado, “Cara-de-Mau” continua com seu relato;

— Aquele que te xingou tem o apelido de “Bradog”, chefe e o mais violento do grupo. Além do tamanho e dos músculos, também carrega um canivete que maneja muito bem e está sempre afiado em seu bolso, o cara já foi até expulso de uma academia de artes marciais por seu comportamento violento nas ruas, um verdadeiro tormento para todos.

O que fala mais é ‘Cdf”, seu braço direito, cara muito inteligente e com bom potencial, mas um babaca escroto envolvido com os caras errados. Gosta muito de falar e dar uma de valente, mas sei que não passa de um tremendo covarde. Um dia, alguém lhe dá uma boa lição e mostra quem ele é de verdade.

Também tem “Bigmau”, um sequelado demente que carrega cento e cinquenta quilos de banha por aí e só pensa em comer e andar colado a seu primo “Bradog”. “Palavrão”, um cara sujo, asqueroso e desprezível, que só fala merda o tempo todo e ainda passa na frente das garotas soltando peidos nojentos, tudo isso para divertimento de sua gangue.

E por último “Calado”, sujeito estranho, de poucas palavras, e perigoso como uma cobra venenosa.

Todos totalmente devotados ao comando supremo de “Bradog”. Te aconselho que desapareça enquanto pode, vá para algum lugar seguro, e só volte daqui uma ou duas semanas, aí sim, os trotes já terão terminado, e os dias estarão mais tranquilos.

É sua única chance, guerreiro, e espero sinceramente que aceite o meu conselho.

— Então o amigo me pede que fuja dessa corja de covardes?!. Quando cheguei aqui, o que logo vi foram as vastas montanhas verdejantes rodeando essa grande cidade. Eu poderia facilmente fugir para lá me escondendo, e me alimentando da caça e frutas silvestres, mas jamais faria isso!!! Sei muito bem me defender e tenho pena do primeiro infeliz que entrar na minha frente barrando o meu caminho; responde “Aynatu”.

— Companheiro, o recado está dado. Ano passado presenciei uns trotes sinistros. Assim como esses otários, também sou veterano, porém, nunca concordei com essas humilhações.

Geralmente vou embora mais cedo justamente para não presenciar essas babaquices. Por isso te digo e repito, sendo você um índio eles serão ainda mais cruéis. Agora vamos andando que estamos atrasados e te levo até sua sala de aula.

Quanto ao alojamento, passamos por lá durante o intervalo para que você guarde seus pertences, fica atrás do prédio, e assim, aproveitamos para dar prosseguimento em nossa conversa. Até porque, por agora, já falei demais né. Também confesso que estou muito curioso para saber como diabos você veio parar por aqui; conclui “Cara-de-mau”.

— Obrigado irmão Cara-de-mau, te agradeço pelas sábias e generosas palavras. Sim, depois com certeza continuaremos nossa conversa. Também te digo que estou curioso pra saber porque você carrega esse apelido de “Cara-de-Mau”; finaliza “Aynatu” esboçando um tímido sorriso.

No decorrer das aulas, o “índio” percebe ser observado por todos. Vê também que algumas poucas moças o olham com certa simpatia enquanto as outras, assim como todos os homens, com indisfarçável hostilidade. Os turnos se sucedem e os professores também são indiferentes a sua presença.

Ao descer para o pátio durante o intervalo, ele é abordado por “Bradog” e seus lacaios.

— “Aí índio, diz “Cdf”, o negócio é o seguinte. Quando tocar o sinal indicando o final das aulas, tu vai passar pelo portão quietinho, que lá estaremos te esperando. Se você não reagir e aceitar a brincadeira, nós iremos cortar seus cabelos numa boa, sem violência, isso faz parte da nossa tradição e todos aceitam sem problemas”.

“Agora, se tu vier de neurose e querer bancar o palhaço, além do cabelo, também vamos cortar sua orelha e te encher de porrada, sacou a parada”.

“Bradog” interrompe “Cdf” e continua;

– “É isso mesmo índio, fica na tua que tudo não levará mais que cinco minutos e te garanto que não vai doer nada. Depois, essa cabeleira toda cheia de piolhos cresce novamente”.

Tentando se controlar, “Aynatu” olha para todos e responde calmamente;

– “Entendam uma coisa, meu cabelo jamais foi cortado, apenas levemente aparado com dentes de peixe piranha. Nele segundo minha tradição, está registrada a minha raça, minha honra, e minha história. Respeito muito todos vocês, e peço humildemente que esqueçam isso. Essa é uma tradição de vocês, não minha. Deixem que eu siga o meu caminho em paz”.

“Cdf” dá uma sonora gargalhada e fala olhando pra turma;

— “Peixe piranha, essa é boa, esse “índio” é mesmo uma comédia”.

“Bradog, retesado onde está, quase não se contém com seu olhar intimidador. “Bigmau” ri de forma totalmente insana. “Palavrão” cospe seguidas vezes próximo aos pés de “Aynatu”, enquanto “Calado” olha para o índio afiando uma grande tesoura com uma pedra de amolar, o barulho que o contato faz se torna irritante.

Voltando-se para “Aynatu”, “Cdf” continua;

– “Olha aqui “índio”, se liga na parada. Quem você pensa que é para mudar uma tradição centenária. Aqui suas opiniões não valem nada, só lá no meio do mato de onde você nunca deveria ter saído Aqui quem manda somos nós, os homens brancos. Duvido que se fosse ao contrário, lá no meio da floresta, você e seus parceiros não arrancavam nossa pele. Diz olhando para “Bradog”, nota seu olhar de aprovação, e continua com a provocação”.

— “E digo mais, estaremos te esperando lá do lado de fora, e nada que diga ou faça mudará alguma coisa, finaliza “Cdf”.”

Ouvindo aquilo, “Aynatu” perde de vez a paciência, e responde em tom desafiador;

— “Seus vermes malditos. Venho de muito longe, e foi com muita dificuldade que consegui chegar até aqui. Vim em busca do conhecimento de suas leis a fim de proteger minha aldeia, e de todos os povos indígenas, de abutres como vocês, que se acham os donos do poder, que se veem no direito de fazer o que querem passando por cima dos outros. Digo que estão enganados quanto a mim, e cometendo um erro muito grande se metendo em meu caminho. Se querem, e insistem mesmo em procura por uma boa briga, é isso que terão. Ao final das aulas, sairei por aqueles portões de cabeça erguida e com meus cabelos ao vento, e que o criador de toda vida perdoe o infeliz que atravessar meu caminho. Agora, saiam da minha frente e deixe-me passar.”

“Aynatu” sai andando não sem antes, como sempre, ouvir gargalhadas as suas costas. Sentindo fome, vai caminhando meio atordoado em direção à cantina, quando vê “Cara de-Mau” chegando, e falando ao seu lado;

— “E aí amigo, estava observando de longe, como foi o papo com aqueles cretinos?”

— “Nada bom. Parece que eles estão mesmo decididos. Nunca fugi de nada, e não será dessa vez que um bando de covardes me fará correr. Não sei como vai ser, só na hora vou saber; responde o índio amargurado.”

— “Guerreiro, insiste “Cara-de-Mau”, esqueça essa história, você não tem a mínima noção do que esses idiotas são capazes de fazer. Até mesmo já divulgaram seu trote para todo o campus. Todos que estiverem lá fora ao final das aulas assistirão um verdadeiro espetáculo. Até mesmo liberaram os outros calouros do trote, coisa inédita por aqui.”

Eles querem apenas você. Tu vale por todos. Já estão chamando o evento de o trote do século. Dizem que teremos um escalpo de índio. Um escalpo urbano. Fuja enquanto pode, tô te dizendo, isso vai dar merda.

— “Sei disso meu amigo, sinto o cheiro de sangue e já não tenho mais dúvidas quanto a isso, só te peço que não insista mas nessa história de fuga. Não se preocupe, fique tranquilo. Sei me defender, derrubando o líder deles o resto vai se encolher. Também te peço que não se envolva mais nisso. Faça como disse e vá embora mais cedo. Sua amizade e apoio até agora já me foram de grande ajuda, e nem tenho palavras para agradecer. Agora me prometa que não vai ficar aqui até o fim para ver o que vai acontecer. Prometa meu amigo “Silvio”, ou como gosta de ser chamado, “Cara-de-Mau”.”

Contrariado, “Cara-de-Mau”, sem nada dizer, apenas concorda acenando com a cabeça. Terminam de lanchar e em seguida caminham para fora do prédio em direção ao alojamento. O quarto onde “Aynatu” vai se alojar está vazio, e rapidamente ele escolhe uma cama e guarda suas coisas. Na volta, sentam em um banco no pátio, e “Cara-de-Mau” pede para que seu novo amigo lhe conte um pouco de sua história. Pela primeira vez, ele percebe o índio relaxar, esboçando um radiante sorriso.

Então, com um gesto afirmativo com a cabeça, “Aynatu” começa seu relato;

— “Bem, a história é um pouco longa, meu amigo, mas vou tentar resumi-la para você. Sou filho de “Aynaru”, chefe de minha aldeia localizada na Amazônia. Há muitos anos, meu pai vinha observando cada vez mais bandos de homens brancos se aproximando das terras dos índios, invadindo, tomando, expulsando, ou exterminando todas as tribos que se colocavam em seu caminho. A cada ano que se passava eles se aproximavam cada vez mais perigosamente de nossas fronteiras. Muito preocupado, certa noite ele se reuniu com o conselho formado pelos anciãos da aldeia, para saber se eles tinham algum valioso conselho para lhe passar, o que poderiam fazer, antes que a aldeia fosse a próxima a ser invadida, e todos eles vítimas dessa tragédia. Muitos ali, eram tão velhos que pertenciam à gerações passadas, com muitas histórias para contar, e também, segredos a revelar. Então, um velho muito sábio de nome “Aymene”, se levantou, e passou acontar uma história que se passou com ele muitas e muitas luas antes, quando ele ainda era muito jovem, no tempo em que o chefe da tribo ainda era o avô de “Aynaru”, o grande “Aynamu”. Ele disse que por essa época, matou por acidente com uma flechada seu melhor amigo.”

Diante da imensa tristeza que o abateu, fugiu antes que os outros da aldeia percebessem a tragédia. Vagou sem destino pela floresta, caçando e se alimentando, até esbarrar com um grupo de pescadores que o acolheu. Como ele mostrou ser muito bom com seu arco, caçando muitos peixes e pequenos animais silvestres, deixaram que ficasse lhe dando em troca alguns trapos de roupas, uma pequena barraca feita de pano como teto, e mais dois pratos de comida por dia.

“Aymene” não tinha mesmo nada para fazer e aceitou a nova vida. Por dez anos, viveu por ali na pequena comunidade ribeirinha de pescadores até decidir voltar para sua aldeia. Nesse tempo de convívio, aproveitou para aprender um pouco com eles de seu idioma e seus costumes.

E foi assim, sempre curioso e atento a tudo o que diziam uns para os outros, que ele descobriu o que “Aynaru” deveria saber, e fazer. Somente com um bom advogado alguém poderia manter para si alguma terra desse mundo. Existiam as leis da terra, e os brancos respeitavam e cumpriam essas leis. O advogado era aquele indivíduo, que através de muito estudo, aprendia essas leis, e as usava em favor de quem o contratava.

Sem ele, só fazendo guerra, expulsando, matando, porque como os pescadores diziam em suas conversas, toda terra sempre tinha um dono, com, ou sem direito a ela, e esse direito, só quem garantia era o bom advogado. Por esse tempo já existia próximo a comunidade, e ainda deve existir uma pequena cabana que servia de escola e alfabetizava os meninos da região. É muito longe, mas dá pra ir de canoa, conheço um atalho. Posso levar seu filho “Aynatu”. Podemos trocar couro de jacarés com os brancos, eles adoram. Vou trocar por tudo que “Aynatu” precise. Estou velho, mas acredite, ainda tenho forças suficientes para esse encargo. Ele começa a estudar agora, e no futuro, poderá ser esse bom advogado de que tanto precisamos.

Será difícil, talvez impossível, mas penso ser essa a nossa única esperança. Me dê seu filho, grande “Aynaru”. Deixe que eu o leve ao conhecimento das leis do homem branco. Prometo que cuidarei e o protegerei com minha vida.

“Aymene” terminava dizendo que sem isso, mais tempo, menos tempo, todos teríamos que abandonar a aldeia e fugir para as terras altas e distantes, onde a caça era pouca, a terra infértil e a água escassa.

Meu pai a tudo escutou muito atento, agradeceu “Aymene” pelos sábios conselhos, e encerrou a reunião. Ele tomou sua decisão antes mesmo que voltasse para nossa oca e conversasse com minha mãe “Aniole” sobre tudo que ouvira do velho “índio”. Minha mãe, muito contrariada, afinal eu era seu único filho, concordou com ele. Já no outro dia, pela manhã, fui despertado com essa amarga novidade. O destino de nosso povo, e de toda nossa aldeia, estava em minhas mãos.

Assim, aos oito anos de idade, comecei a estudar na escolinha próxima à comunidade de pescadores. A cabana ainda estava lá, e “Aymene” percebeu que pouca coisa havia mudado. Saíam de canoa no meio da madrugada, e só retornavam ao anoitecer do outro dia. O velho índio conseguiu tudo que precisavam, trocando as peles por documentos, sapatos, uniformes, cadernos, livros…, mas foi graças à dedicação total da professora da escola, que tudo pode realmente acontecer. Seu nome era “Ana”, uma senhora viúva, sem filhos, e que praticamente me adotou.

Vendo diariamente que os outros poucos alunos nada queriam com os estudos, faltando a maioria das aulas, enquanto eu estava sempre atento aos seus ensinamentos, querendo aprender mais, passou os próximos dez anos de sua vida me preparando e passando tudo que me seriam úteis, acreditando, e principalmente me fazendo acreditar, que ao final eu conseguiria meu objetivo. Ao final desses dez anos, já alfabetizado, foi ela que conseguiu permissão do governo para que eu fizesse a prova de vestibular a distância. E também foi ela que mostrou a mim e “Aymene” o cartão de aprovação para o curso de direito. Essa mulher magnífica lutou muito por mim e infelizmente, já bastante idosa, faleceu de um mal súbito poucos dias depois da gente se despedir antes de minha viagem para cá. Sem sua inestimável ajuda nada disso teria acontecido. Deixei para trás pai, mãe, amigos, mestre “Aymene”, e principalmente “Sunye”, a moça que desde criança sempre amei, e que estará me esperando quando eu retornar para aldeia, formado advogado.

É isso meu amigo e agora que começou a etapa final dessa luta, infelizmente me aparecem esses cretinos tentando estragar esse sonho, mas te digo que não conseguirão.

Com muito esforço, “Cara-de-Mau” disfarça a emoção que sente, segurando as lágrimas que insistem em querer cair de seus olhos.

— “Nossa amigo, que luta a sua, que viagem! Já eu, “Aynatu”, sou órfão de pai e mãe, cresci sozinho, e me alfabetizei em um orfanato. Enquanto termino meus estudos, moro aqui no alojamento. Mas te digo uma coisa meu amigo, assim que me formar, farei como você, sairei pelo mundo sempre em busca de uma boa causa para defender. Agora vamos andando que as aulas logo irão recomeçar.”, finaliza ele.

Então se despedem cordialmente com um aperto de mãos e, ao passar pelo pátio em direção a sua sala, “Cara-de-mau” é abordado por “Cdf”, que o adverte a não se meter onde não é chamado, no que este responde gritando bem alto, que todos eles iriam se arrepender, pois não sabiam com quem estavam se metendo.

Finalmente o sinal toca, anunciando o fim das aulas de um longo e enfastiado dia.

Saindo da sala, “Aynatu” se vê cercado por algumas moças, as mesmas que o olhavam com simpatia durante as aulas, e todas elas falam para ele praticamente as mesmas coisas, e ao mesmo tempo;

— “Estamos sabendo do trote que os “Cruéis” querem fazer com você, e por isso, decidimos sair todas juntas contigo, assim eles te deixarão passar em paz. Eles não seriam loucos de nos agredir. Seus cabelos são tão bonitos, além de que você é um gatinho. Já decidimos, sairemos todas abraçadas com você, e o levaremos em segurança até seu alojamento.

Sentindo-se constrangido, mas muito feliz com tamanha expressão de carinho, “Aynatu” sente suas energias sendo renovadas, e responde afetuosamente;

— “Agradeço muito pelo apoio, meninas, e nem tenho palavras para agradecer. Mas digo a vocês que essa luta é apenas minha, e de mais ninguém. Além disso, vocês poderiam sair machucadas, e isso eu não posso permitir. Obrigado, do fundo do meu coração. Agora, deixe-me passar, vamos ver se esses Cruéis são mesmos valentes.”

Assim todas se afastam, não sem antes beijá-lo e abraçá-lo. Descendo as escadas, “Aynatu” começa a ouvir gritos que vêm do lado de fora dos muros. O sangue começa a ferver em suas veias enquanto ele escuta nitidamente;

“Queremos escalpo” – gritam – “Escalpo Urbano”.

Aquilo já estava passando dos limites, pensou alto. Estariam todos loucos? Seria tão difícil entender que seu cabelo pertencia somente a ele, assim como seu sangue, e sua raça. O ódio começou a aumentar em seu coração, enquanto caminhava em direção ao portão de saída. Já podia ver seus perseguidores.

“Calado” na frente, com uma tesoura nas mãos, acompanhado de perto por sua turma. Todos gritando em completa histeria;

“Hoje teremos escalpo, escalpo de índio, escalpo urbano”.

Impassível, o porteiro o espera atravessar o portão para fechá-lo às suas costas. Quando ele vai passando, “Cara-de-mau” surge inesperadamente, não se sabe de onde, e coloca-se ao seu lado, dizendo entre dentes, e com uma cara medonha, que nada que ele disser mudará sua atitude.

Olhando para o amigo, “Aynatu” fala com um ligeiro sorriso;

— “Tá explicado, olhando agora para seu rosto entendo porque o chamam de “Cara-de-mau”.”

Assim, com passos firmes, os dois cruzam juntos o grande portão, que se fecha em seguida. “Bradog” e seu bando já estão no caminho criando uma barreira, e este diz olhando para os dois;

— “Cara-de-mau”, essa parada não é contigo, caia fora agora mesmo antes que se machuque pra valer, esse é seu último aviso.

Olhando para “Aynatu”, “Cara-de-mau” dá uma piscadela no mesmo momento em que se vira para desferir um potente soco na cara de “Bradog”, que pego de surpresa, cai para trás com o violento impacto.

A briga tem início.

Muito ágil, “Aynatu” logo derruba “Palavrão” e “Cdf” com sucessivos golpes de mãos e pés.

O gigante “Bigmau” aproxima-se sorrateiro, e com seus braços roliços, abraça “Aynatu” pelas costas no momento em que o índio se preparava para pegar sua faca presa à parte de trás do seu cinto.

“Calado”, aproveitando-se da situação, se aproxima perigosamente com a tesoura na mão. “Aynatu” tenta libertar-se de todas as formas do abraço de urso imposto por “Bigmau”, mas não consegue, no que se aproveita “Calado” investindo rapidamente com a tesoura em direção aos seus cabelos,

Surgindo como um raio na frente de “Aynatu” na intenção de defender o amigo, “Cara de mau” recebe em seu pescoço um certeiro golpe da tesoura afiada. O violento impacto faz o sangue esguichar longe acertando em cheio os olhos de “Bigmau”, fazendo com que finalmente o gigante solte “Aynatu”. Assustado com o que vê, “Calado” recua, enquanto o “índio”, agora livre, vibra potente chute nos testículos do mastodonte jogando-o por terra.

Diante da tragédia, “Cdf” segura “Bradog” que já investia contra “Aynatu”. Juntando toda gangue, eles levantam “Bigmau” e saem em disparada, assim como toda a multidão que assistia ao sangrento espetáculo.

Abaixando-se, “Aynatu” coloca a cabeça do amigo com todo cuidado em seu colo enquanto grita como louco por socorro. Diante da gravidade da situação, o porteiro ressurge e aciona a polícia. Também disca para o pronto-socorro pedindo uma ambulância. De sua guarita, passivamente ele observa o acontecido.

Olhando para o “índio”, “Cara-de-mau” tenta gesticular algumas palavras , mas não consegue. “Aynatu” tenta desesperadamente estancar o sangue que esguicha do pescoço do amigo, mas sabe ser impossível, a tesoura acertou uma das veias jugulares, o ferimento é fatal.

Quando o índio começa a escutar a som das sirenes se aproximando, ele ouve “Cara-de-mau” falando suas últimas palavras;

— Não deixe que estraguem seu sonho, meu amigo.

Cheio de compaixão, o índio responde;

— “Obrigado por tudo, meu irmão, você mostrou ser um homem honrado. Vá em paz, e sem medo, ao encontro de nosso criador.”

Assim falando, “Aynatu” deita a cabeça do amigo no chão, fecha seus olhos que permaneciam abertos, e faz uma rápida oração pela alma boa que partia.

Em seguida, corre em direção ao alojamento, pega rapidamente seus poucos pertences, e sob os olhares apavorados dos estudantes que estão espalhados pelos corredores foge dali aos prantos, quase no momento em que chegam juntas polícia e ambulância.

Permanece escondido nas montanhas que circulam a cidade, descendo sorrateiramente sempre antes do amanhecer somente para ler as notícias de seu caso nos jornais.

Nas páginas policiais ele é procurado como suspeito da morte de “Cara-de-mau”, acusado por “Bradog” e sua turma. Isso aumenta ainda mais seu ódio e sua sede por vingança.

Durante esse período se esconde na mata alimentando-se de frutas silvestres e pequenos animais que caça com seu arco e flecha. Carne crua não é problema para ele. Após dez dias, as últimas notícias diziam que as buscas estavam encerradas, e que provavelmente ele já estaria bem longe dali. As autoridades não sabiam dizer exatamente de onde o índio provinha, sabiam apenas que era oriundo de uma das centenas de tribos indígenas que viviam na Amazônia. As investigações seguiam lentamente, e aparentemente sem interesse público. Afinal, como leu, “Cara-de-Mau” era órfão, e não tinha ninguém que pedisse justiça por ele.

Um cara rejeitado. Assim como ele.

Agora sentia-se pronto.

Durante a noite, e como sempre aproveitando-se da escuridão, ele desce a montanha se escondendo no alto do velho oiti e camuflado por seus pelos galhos e folhas, a mesma árvore que o abrigou com sua sombra no fatídico primeiro dia de aula em que esteve por ali. Enquanto aguarda o amanhecer, aproveita para afiar sua faca de caça, presente dado por “Aymene” no dia que recebeu a notícia de sua aprovação no vestibular. Pensa em seus pais, e amigos, que talvez nunca mais volte a ver. Lembra da promessa feita a seu pai de só voltar para aldeia formado advogado.

Lembra de sua mãe, que no dia de sua partida tanto chorou, e implorou, para que se cuidasse e voltasse vivo.

E “Aymene”, já muito velho, doente e cansado, a se lamentar por não poder acompanhá-lo nessa última etapa da missão. Pensa em “Sunye”, que com certeza o espera com todo seu amor. Lembra da última noite antes dele partir quando, jogados na relva e amparados pela luz da lua cheia, fizeram amor pela primeira e única vez.

Com essas lembranças a martelarem seus pensamentos, seu coração amolece e lágrimas brotam de seus olhos. Pensa em desistir, se entregar à polícia, contar toda a verdade, e o que de fato aconteceu.

Mas será que eles acreditariam nas palavras de um índio, em vez de darem mais valor às palavras de garotos mimados e abastados da sociedade, vermes inúteis que usam as dependências de uma universidade para promover desordem e barbárie. Volta a pensar em “Cara-de-mau”, em todo seu apoio, lealdade, bravura, e sua morte estúpida, e brutal.

O sangue volta a ferver em suas veias, e seu coração volta a se fechar.

Sim, “Os cruéis”.

Eles não queriam seu escalpo. Pois agora iriam ter a guerra que procuraram. Iria caçá-los como animais e nada nesse mundo o deteria.

O sol desponta, e seus primeiros raios aquecem ainda mais seu sangue. Observa os portões sendo abertos pelo porteiro para mais um dia de aulas. Os alunos começam a chegar, e lá está a corja um a um a entrar. Sempre juntos, com “Bradog” e “Cdf” a guiá-los. As horas passam e “Aynatu” murmura cantos místicos de sua tribo. O dia passa lentamente e finalmente o sinal toca indicando o final das aulas, e com ele, todos seus sentidos são despertados. Aos poucos os alunos vão saindo, enquanto a primeira flecha é colocada no arco. No meio da multidão que se aglomera caminhando na saída, poucos percebem quando “Calado” e “Palavrão” são atingidos no tórax por flechadas sucessivas desabando no chão como estátuas de pedra. Em segundos, “Bigmau” também é atingido por três flechas certeiras no peito enquanto “Bradog” e “Cdf” se protegem atrás de seu corpanzil.

O pânico se estabelece, e todos correm em todas as direções procurando salvar suas vidas, sem saber ao certo o que está acontecendo.

Quando “Bradog” e “Cdf” finalmente conseguem sair debaixo do corpo inerte e sem vida de “Bigmau”, observam, para surpresa de um, e pânico do outro, “Aynatu galgando os galhos do velho oiti com a rapidez de um leopardo, saltando e caindo a poucos metros dos dois. Com os olhos injetados de ódio, o índio fala para eles:

— Agora canalhas, defendam suas miseráveis vidas!!!

“Cdf”, em um acesso de delírio e pavor, ajoelha-se humilhantemente implorando por sua vida.

“Com nojo de tamanha demonstração de covardia, “Aynatu se abaixa, levanta a cabeça de “Cdf”, e com potente golpe de sua afiada faca de caça, decepa uma de suas orelhas. Caído no chão, o covarde segura o ferimento enquanto grita de dor em profunda agonia. “Bradog, que a tudo observa estupefato, puxa seu canivete e ataca “Aynatu”, começando assim um feroz combate. “Cdf”, que em meio a dores lancinantes, percebe um olhar de “Bradog” no momento em que o índio, de costas para ele, dá um passo para trás em sua direção.

Então, sem que “ Aynatu” perceba, “Cdf” puxa uma de suas pernas fazendo com que o índio se desequilibre. Aproveitando-se disso, “Bradog” se aproxima rapidamente e enterra com toda força seu canivete na barriga do índio. Livrando-se de “Cdf” com potente chute no rosto, “Aynatu” vira-se com dificuldade ficando de frente para “Bradog”, que agora o encara com indisfarçável sorriso de vitória. O índio puxa o canivete enterrado em sua barriga e o sangue começa a jorrar abundantemente do ferimento. Então ele se ajoelha fingindo estar derrotado, e, sem que “Bradog” sequer imagine, flexiona os joelhos e, soltando um terrível grito de guerra, dá um inacreditável salto de onde está caindo em frente a “Bradog”. Este mal tem tempo de perceber ou esboçar alguma reação quando sente a faca do índio sendo enterrada até o cabo no seu coração e já caindo morto instantaneamente. Exausto e já com as forças a lhe faltar, “Aynatu” escuta, pela segunda e última vez, o barulho das sirenes se aproximando.

Voltando-se para “Cdf”, que jogado num canto chora copiosamente, ele com muito esforço se aproxima e diz:

— “Pouparei sua vida, verme inútil, para que diga a todos o que realmente aconteceu desde o primeiro dia que cheguei por aqui. Foi com muita dificuldade que vim para faculdade aprender suas leis, e assim poder ajudar meu povo contra a ganância do homem branco, sempre querendo e tomando as terras dos índios. Tudo que encontrei foi ódio, preconceito, covardia e mortes inúteis. Inclusive de “Cara-de-mau”, um amigo que fiz aqui de muito valor e obrigado a conviver no meio de idiotas como vocês.”

“Cdf” como te chamam, ele me falou de você, que é um sujeito muito inteligente, que tem potencial para melhorar. Então prove que ele estava certo “Cdf”, que você pode mesmo ser melhor do que essa desgraça que se tornou. Esqueça tudo que se passou e seu passado de vergonha. Me prometa que a partir de hoje você fará de sua vida algo que realmente valha a pena. Que ao se formar advogado, tome o meu lugar na minha luta e olhe pela minha tribo, por todos os povos indígenas da floresta. Não deixe que os brancos nos expulsem, nos matem, e se apossem de nossas terras. Lute conosco usando a lei.

Sou “Aynatu”, filho de “Aynaru”, chefe dos Caparoas. Ouço e vejo os espíritos de meus antepassados aguardando minha presença.

Em um esforço derradeiro, o índio segura firme as mãos de “Cdf” enquanto rapidamente lhe passa um papel amassado e sujo de sangue. Em seguida, deita-se no chão dando seu último suspiro. A polícia vai chegando e encontra “Cdf” petrificado e coberto de sangue ao lado dos corpos de “Aynatu’’ e de “Bradog”, e repetindo sem parar, “eu prometo, eu prometo, eu prometo”…

Início dos anos 90.

É uma manhã cinzenta, quando uma canoa com um homem branco a bordo se aproxima da aldeia dos Caparoas. De longe, “Aynaru”, observa que ele vem sentado e remando bem devagar.

Ao desembarcar, o homem calmamente pega de dentro da canoa uma pequena caixa de madeira e caminha em direção a “Aynaru”, que parado, apenas observa atento o homem se aproximar. O homem para alguns metros de distância e finalmente deposita a caixa no chão.

Com o semblante fechado e cercado por uma comitiva de guerreiros armados com seus arcos prontos para disparar, “Aynaru” se aproxima e fala olhando fixamente para o homem;

— “Sou “Aynaru”, chefe dos Caparoas. Aprendi um pouco de seu idioma com “Aymene”, um velho sábio da aldeia, já falecido, e agora te pergunto homem branco. O que o traz a terra dos Caparoas, e o que é essa caixa que traz consigo?

O homem responde;

— “Grande chefe “Aynaru”. Venho de muito longe, e cheguei até aqui guiado por um mapa desenhado por seu filho “Aynatu”. Meu nome é Sérgio, e trago aqui comigo guardados nesta caixa os restos mortais de seu filho.

Em seguida ele coloca a caixa próximo aos pés do grande chefe.

Ouvindo aquilo, “Sunye”, que ao lado de “Aniole” acompanhava de perto toda conversa, irrompe da comitiva trazendo pela mão uma criança, e gritando na língua Caparoa;

— “ O que ele disse, grande “Aynaru”, ele falou o nome de “Aynatu”? Diga a ele que este é “Aynanu”, filho de “Aynatu”, gerado que foi na noite anterior que ele partiu pra não mais voltar.”

“Aynaru” olha com carinho para ela, para o menino, e fechando novamente o semblante, diz mirando o homem à sua frente;

— “Este é “Aynanu”, filho de meu filho “Aynatu” e a mulher que o traz pela mão é sua mãe “Sunye”.

O homem olha carinhosamente para o garoto, que o encara de semblante fechado segurando firmemente sobre a cabeça a machadinha que fora de seu pai. Também olha de forma amistosa para “Sunye” que timidamente o observa, e voltando-se para “Aynaru”, continua seu relato;

— “Sou advogado, e vim de muito longe para, se o senhor assim o permitir, prosseguir com a honrosa missão dada a seu filho. Deixei tudo para trás, e estou aqui para defender as terras dos Caparoas e de todas as terras indígenas que estejam ameaçadas pelo homem branco. Prometi isso a “Aynatu” na hora de sua morte, e passados dez anos aqui estou pronto para honrar com este compromisso. Também me ofereço para cuidar de “Aynanu” e da bela “Sunye”, se esta for a sua vontade, grande chefe.

Olhando fixamente nos olhos do homem, “Aynaru pergunta:

— “Aynatu teve uma morte honrada?”

— “Sim. Cinco inimigos queriam humilhá-lo cortando seus cabelos, e para se defender, ele matou quatro do bando.”

Após um silêncio que pareceu durar uma eternidade, finalmente “Aynaru” perguntou;

— “ Você me diz que eram cinco inimigos de meu filho “Aynatu”, ele matou quatro, então me diga homem branco, o que aconteceu com o quinto?”

— O quinto, grande chefe, foi poupado para que continuasse a missão de seu filho. Teve apenas uma de suas orelhas cortadas, para que sempre se lembrasse da nova chance oferecida por “Aynatu”.

Assim falando o homem tirou o chapéu que até aquele momento lhe encobria toda cabeça revelando a falta de uma de suas orelhas. Perplexo, “Aynaru” olha para o homem e a falta de sua orelha. Após muito refletir ele diz;

— “Que assim seja. Vejo que pretende cumprir com sua promessa feita a meu filho, que com certeza, poupou sua vida por ver em ti capacidade de se tornar um homem honrado. Que seja feita a vontade de meu filho Aynatu e de “Aynaru”, chefe de todos os Caparoas.”

Enquanto “Aynaru” explica a “Sunye” o acordo feito com “Sérgio”, “Aniole” permanece agachada e abraçada a caixa ao lado onde estão guardados os ossos de seu filho. Ela chora e murmura antigos cantos fúnebres evocando os espíritos da floresta para que recebam seu filho “Aynatu”.

3 comentários em “Escalpo Urbano – Conto (Rinaldo Ramos)

  1. Elisabeth Lorena
    27 de abril de 2021

    Assisti um filme lendo esse conto. E odiei a morte de Aynatu. Eu odeio trote desde pequena. Meu avô chamava de “incivilidade” e, quando cheguei aqui no Amazonas tive problemas com isso. Xinguei feio os babacas e, como previ, a maioria nem se formou, passaram todo o tempo criando novos trotes. Acho que isso me aproximou demais do índio. Mas matar o Cara de Mau e também o índio foi triste,
    O trote e o preconceito junto tem matado e ferido de morte muitos jovens nas Universidades Brasileiras e, na minha opinião, a permissividade das autoridades acadêmicas são o entrave para que isso acabe. Se expulsar quem faz, isso acaba e não teremos outros Aynatu mortos e pior, caluniados. Porque é assim, infelizmente, o jovem ferido ou morto sempre será culpado de sua própria derrota. O pior mesmo é que desde o primeiro trote, em 1831, já houve morte. E tem o jovem asiático que morreu na USP.
    Eu sei que seu texto não é apenas sobre isso, mas, infelizmente, não há como não associar Aynatu ao jovem Edison Tsung Chi Hsueh. Os diferentes sempre sofrem mais nesses espaços.
    No seu Conto a inversão entre civilidade e selvageria é marcada desde o princípio com a existência dos cruéis. Eles, zombando de uma cultura milenar que faz sentido, agem como todo colonizador, impetrando sobre quem quer conquistar uma nova tradição, para tirar a individualidade do indígena, planejam raspar seus cabelos.
    Em tempo, não consigo perdoar esse CDF. Aff, Uma orelha foi pouco.
    Parabéns pelo belo texto..

    • Rinaldo Ramos
      28 de abril de 2021

      oi querida, sempre tive cabelo grande, filho de uma índia que sou e na juventude também passei por uma situação bem difícil, daí a inspiração para criar essa história. Cara de mal bebi da fonte de Shakespeare e seu Mercutio e vc tem razão, escrevo sempre em linguagem cinematográfica com a intenção de atingir o audiovisual. Obrigado, suas críticas são sempre muito construtivas.

      • Elisabeth Lorena
        28 de abril de 2021

        Sinto mesmo por sua experiência. E Parabéns por dosar sua escrita com Shakespeare. Quanto as minhas críticas, que bom que lhe agradam.

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Informação

Publicado às 27 de abril de 2021 por em Contos Off-Desafio e marcado .