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Detox Literário.

Fora do meu paraíso – Conto (Wagner Martins)

— Vivíamos em cavernas, ao redor das fogueiras. Sempre agíamos em grupos. Para conectarmos um com outro contávamos histórias, sim, cavalheiro, histórias! Compartilhávamos as nossas experiências através dos olhares, dos gestos, dos sons vindo das bocas, do contato humano. Calor, calor humano! Precisamos disso mais do que nunca para a nossa sobrevivência, calor humano! — Ouvir isso em qualquer dia desses, de um mendigo mais velho do que os trapos que vestia: o estranhei, já que, fazia um longo tempo que não avistava outra pessoa desconhecida presencialmente. Daí comecei suar frio, apressei os passos, (os encontros com nossos semelhantes podem ser altamente perigosos para ambos!); Por isso, tirei meu óculos-capacete Portal Virtual X 2090, perdi uns minutos do seriado ‘online’ e interativo favorito. Naquele momento, interpretava o meu principal personagem, (arrancador de corações infectados de sentimento. Para chegar na minha vez, assisti-lo a semana toda sem intervalo, sou fascinado por essa programação! Têm também outros programas que fazem o maior sucesso, particularmente, não curto: confinam uma quantidade de pessoas, por determinado tempo. Aparentemente procuram somente despertar o pior desses indivíduos: quem for mentiroso, então minta mais ainda; quem for falso, falsifique-se mais; para quem é inclinado a trair, acha nesses lugares várias possíveis futuras vítimas suas! Para os telespectadores, ou seja, a maioria da população é o maior caso, o mundo pode até estar enfrentando um ataque alienígena, uma epidemia global, que o assunto principal é sobre os confinados favoritos; quem ganhará uma fortuna entre eles. Já eu, prefiro passar de nível!), pois, o louco gritava essas afirmações sem lógica. O delírio continuava: — Foi assim que crescemos, que chegamos até aqui, que viemos a viver numa realidade melhor do que os animais, pois, agíamos feito alcateia: lobos racionais, lobos, lobos em bando, lobos! — Nessa parte começava a uivar!

— Quase defequei na cueca: o metido a profeta da terra do nunca, no disparo veio uivando em minha direção e jurando ainda mais coisas: — Estávamos cansados de todo aquele eterno esforço que a verdadeira liberdade nos exige de matar um leão por dia. Jamais recuarmos, mas sempre avançarmos ao horizonte da igualdade e da verdade, da justiça. Sair da nossa zona de conforto para evitar sofrer no futuro. Dormirmos na hora de vigiar, de sondar para reconhecer a voz do bom pastor entre muitas vozes dos que se comportavam como tais: carismáticos, cativantes, nos prometendo que nos governos deles, nos levaria a verdejantes pastos! Quando, na verdade, foram mercenários: só buscaram o seu próprio bem, ainda que custasse metade do rebanho.

Fomos perdendo o foco dos nossos tão desejados horizontes, os nossos ideais, deixamos de ouvir a voz do sentimento de sermos cada vez mais os cidadãos respeitados, tratados com dignidade para sermos as pequenas classes sociais privilegiadas. Assim quem nos oferecesse na bandeja o que nos agradava, sem pensar no bem da maioria, esse se tornava para nós o deus, herói, nosso ídolo! Nem precisava realmente cumprir as muitas promessas, pois, na euforia de cada bandeja que abria, nem sequer prestávamos atenção para nos lembrar e cobrar os cumprimentos delas depois; coitado da geração dos nossos antepassados, virou como ovelhas sem pastor em pleno deserto de progresso!

De geração a geração fomos ficando ainda mais egoístas, jurando que isso seria o melhor caminho para alcançar a linha de chegada de uma melhor qualidade de vida. A realidade se tornou mais cruel e isso chegou ao ponto de incomodar a todos, pois, a ‘tsunami’ das consequências de tantas injustiças ignoradas veio como uma enchente inundando todos os bairros das cidades! — O velho cobriu a cabeça com o trapo do seu lençol. — Invés de mostrarmos com nossa união, a nossa coragem, provarmos novamente que vivemos para superar os obstáculos, vencer os desafios reais, não só nos esportes; preferimos nos encurralar nesses paraísos para ratos! — Notei do que estava falando era dos lugares que eram nossos modernos e gigantescos condomínios fechados que cada vez mais foi suprindo as nossas necessidades, ganhando: ‘shoppings’, hospitais, igrejas, espaço de lazer, necrotérios, cemitérios; as outras coisas eram virtuais como escolas, palestras, muitos dos trabalhos. O que não tem ao nosso alcance é só solicitar via ‘internet’; perdi o ônibus-jato por atraso de 10 segundos! Tenho que perambular por alguns minutos fora do meu condomínio ou segundo o doido, do paraíso das ratazanas.

— Na fuga, cair no chão. Para o meu espanto, o homem parou ao meu redor. Prosseguiu o discurso sobre de algo que para me soou familiar: — os lugares de adquirir o conhecimento, e assim, nos capacitar para melhorar a nossa curta, intensa e única experiência passagem aqui, nesta Terra; — dando vários pulos e giros, indicando-a. — viraram fábricas de semideuses cruéis e vazios! Invés de ingressarem nessa trajetória de aprendizagem por amor à informação ou pela paixão por seus futuros empregos: entram principalmente pelo dinheiro e pelo luxo que ele pode proporcionar. Essa espécie de motivação maior é a raiz de todos os males! É a ferrugem a corroer em todas as áreas profissionais o que diferencia o ser humano de uma máquina! Invés de serem os apóstolos da sabedoria anunciando as curas, as novas descobertas que nos tragam benefícios; muitos se formam em egocentrismo e em indiferença; na verdade, após passarem anos estudando uma função, não fazem nada além que um papagaio pode fazer: repetir informações e se gabarem por isso.


— Bem que meus pais me disseram tantas vezes: “Lá fora é perigoso! Não cruze de maneira nenhuma os portões. O que fazer lá? Onde só tem problemas e pessoas que nasceram para viverem longe de nós, fora do nosso campo de visão. Imagine, filho, esse povo é tão pobre que não pode pagar um plano de saúde! Ou seja, não pode assegurar a própria vida! Isso é um absurdo de irresponsabilidade que fazem contra ele mesmo! O culpado é ele mesmo, em vez de se esforçar para tentar escapar da lama; se espoja nela! Ficam satisfeitos com as lavagens de resto dos restos dos poderosos, dos mínimos dos tantos direitos que essa gente tem, tendo uma ou duas vezes na vida, os desfrutes desses, como a maior expressão de benevolência dos políticos!”

O transporte veio, já dentro sentado na cadeira, fiquei a refletir: “realmente, meus pais têm toda razão; me meti a jovem aventureiro… para quê sair do meu lugar natural?”

2 comentários em “Fora do meu paraíso – Conto (Wagner Martins)

  1. Elisabeth Lorena
    26 de abril de 2021

    Wagner Martins.
    Seu conto é interessante e me fez em nossas bolhas sociais. Dentro delas não vemos o outro, nos sentimos confortáveis e se temos conhecimento transitório sobre os outros humanos, buscamos um modo de fugir, de abstrair e seguir em frente. sempre ancorados no conforto do discurso que nos põe confortáveis e a salvo desses seres doentes que apregoam o fim do mundo; o mundo justo; a anarquia ou seja lá qual for as bolhas que aos outros protegem.
    Ao justificar a pobreza fora de seu espaço como resultado do próprio pobre, o discurso é tão real, tão próximo de nossos dias. Ir adiante, quebrar barreiras e ultrapassar bolhas não é um caminho seguro. Nem para o que está dentro, nem para o que está fora, O de dentro está preso no status quo, não aceita interferência e nem dividir direitos, o de fora teme perder sua individualidade e, embora queira entrar, as barreiras que o repele são difíceis de romper, Resta ao que pode, o grito desesperado de trazer o de dentro para seu lado.
    Seu conto é bom, bem elaborado e tem uma intertextualidade bem marcada: profetas; fim do mundo. mercenários e, ovelhas. Há ainda uma citação indireta do Apocalipse 22:11, reescrita de forma bem interessante: “quem for mentiroso, então minta mais ainda; quem for falso, falsifique-se mais”.
    A ideia de busca por ser célebre a qualquer custo e alienação da população também é uma denúncia social bem marcada.
    Gostei do texto.
    Parabéns.

  2. Anderson Prado
    26 de abril de 2021

    Wagner, tive um pouco de dificuldade para identificar o gênero do seu texto. Seria ficção científica? Suporei que sim para os fins deste comentário.

    De regra, não sou leitor de ficção científica. E, novamente de regra, é um gênero de que, na literatura, não gosto (no cinema, por outro lado, costumo adorar – ao menos quando a película é bem feita). Porém, existem exceções. Por exemplo, apreciei razoavelmente Admirável mundo novo, do Aldous Huxley, e me diverti bastante com Futuros (im)prováveis, da EntreContista Bia Machado.

    Bem, posso dizer que este seu continho se inseriu dentre aquelas poucas ficções científicas de cuja leitura gostei. E me é fácil explicar o porquê: não encontrei aqui “parafernalha tecnológica”. Com efeito, você se concentrou muito mais em questões sociais do futuro distópico que imaginou do que nas criações tecnológicas daquele universo.

    Você é bastante criativo. E me parece sinceramente preocupado com questões sociais (você pensa e diserta bem sobre o assunto). Nestes quesitos, você está muito bem encaminhado.

    Por outro lado, senti que sua escrita ainda padece de alguma imaturidade. No aspecto técnico, você ainda melhorará bastante. Leia mais e leia muito! E procure ler material de qualidade. Desafie-se na leitura. Leia o difícil, o indevassável. Pegue nomes consagrados ou, pelo menos, de cuja qualidade você tenha se certificado.

    Aqui mesmo no EntreContos você pode encontrar escritores e trabalhos de autores de excelência. Leia tudo do Felipe Holloway (https://entrecontos.com/tag/felipe-holloway/), do Daniel Reis (https://entrecontos.com/tag/daniel-reis/), da Paula Giannini (https://entrecontos.com/tag/paula-giannini/) e de tantos outros deste espaço.

    Quando estiver lendo textos de qualidade, procure prestar atenção no estilo, na fluidez narrativa, na construção de personagens cativantes, na criatividade, no envolvimento que o enredo provoca, na ortografia, na sintaxe, em tudo, tudo mesmo. O olhar de um escritor (durante a leitura) tem de ser diferente do de um leitor comum.

    Enfim, gostei sim do seu texto (pela criatividade, pela crítica social, pela curiosidade que desperta e pelo interesse que prende), mas me deparei com algumas deficiências técnicas. Aqui no EntreContos há uma revisora excelente: a Claudia Angst. Quando tiver um dinheiro, contrate ela para dar uma revisada minuciosa no seu trabalho – você aprenderá muito com os apontamentos que ela fizer.

    Sucesso na escrita! Parabéns pelo texto!

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Publicado às 26 de abril de 2021 por em Contos Off-Desafio e marcado .