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A misericórdia divina – Miniconto (Andrea Nogueira)

Ela se negava a acompanha-lo aos cultos evangélicos, alegando cansaço. Então, lhe alimentava o espírito as leituras bíblicas que o companheiro a obrigava a ouvir, três vezes ao dia, sem poder, no entanto, interromper o trabalho doméstico.

Numa rotina exaustiva e sem fim, coroavam seus dias as muitas as cobranças exigentes dele: a pontualidade das refeições, as camisas bem passadas, o esmero na limpeza da casa.

Ela já quase não mais orava. Perdera a fé na misericórdia divina que nunca lhe cobrira.

Mas naquele dia abriu uma exceção e, até mesmo, insistiu em acompanha-lo à Igreja.

Tantas mulheres com tanto ânimo para rezar e cantar hinos, enquanto ela relutava para não dormir em pé. Era o sinal de ter alcançado o próprio limite de exaustão.

Após o final do culto, do lado de fora do templo, ela fez, de forma automática, o sinal da cruz antes de cumprir o desígnio divino e cravar no peito do companheiro a lâmina afiada do marcador da Bíblia.

Era chegada, então, a hora do juízo final, a hora da última obrigação.

12 comentários em “A misericórdia divina – Miniconto (Andrea Nogueira)

  1. Ana Maria Monteiro
    24 de abril de 2021

    Olá, Andrea. Sou sincera: vim ler o seu conto porque se queixou de ausência feminina nos comentários. Dá-se o caso de que o seu conto mistura dois temas muito distintos: a fé religiosa (e até o processo de perda dessa mesma fé, que afinal parece não se perder nunca – para quem a tem) e a sobrecarga que pesa ainda sobre a maior parte das mulheres e a sua submissão aos maridos.
    O conto termina de forma muito apropriada ao que poderia ser um excelente micro, mas é um mini. Nesse sentido, deveria ter sido um pouco mais explorado e ter sido dado um muito maior relevo ao processo da mulher do que à questão religiosa que, aqui, é só um pano de fundo. Poderia ter estendido ainda mais, abrangendo ambos os temas, mas isso daria um conto longo.
    Um bom micro seria, por exemplo:
    Extenuada por uma vida da sacrifício e deveres conjugais, a fé não a alimentava mais, já nem orava. Naquele dia, porém, quis acompanhar o marido à igreja. À saída fez o sinal da cruz antes de cumprir a sua última obrigação, cravando-lhe no peito o marcador da Bíblia. Chegara a hora do juízo final.
    Viu? Como micro, penso que teria ficado melhor. Como mini, já lhe disse, indo só por um dos temas, como conto podia abordar e entrançar os dois temas.
    Um abraço.

  2. davenirviganon
    23 de abril de 2021

    A condução foi muito boa, por mais que a minha experiência de leitor me alertasse que um final forte chegaria, não achei que seria assim até realmente acontecer. Como em um bom microconto, você colou muita coisa em poucas palavras e deixou o resto para nossa imaginação.
    Quanto ao “cultos evangélicos” no início e o “sinal da cruz” no final, se foi proposital, infelizmente não funcionou. Já vi tentarem essa mistura para criar um efeito de “não sobre apenas uma religião”, e acho que o uso de palavras mais vagas, neutras e/ou abrangentes para a maioria das religiões geraria um efeito melhor. Enfim, caso não tenha sido, é algo muito fácil de arrumar.
    O saldo geral, é positivo para seu conto!

  3. Wilson Barros
    23 de abril de 2021

    É um conto primoroso, com muitos pontos de contato com “El solitário” de Horácio Quiroga. (Eu Poria o título “O Solitário II” hahahahaha). A frase de Kassim não foi dita, mas permeia a história: “- Hago, sin embargo, cuanto puedo por ti – decía él al fin, tristemente.”. É sempre a desculpa do marido: alega que faz tudo pela esposa, e por isso a tudo pode obrigá-la. Eu conheci um, advogado, que obrigava a mulher, tonta de sono, a ler páginas e mais páginas para ele de um livro jurídico. A mulher dormia lendo e ele a acordava para ler mais. Quanto a religiões pouco entendo, e mesmo que entendesse já cansei dessas discussões por causa de “lado”. O fato é que o conto (inclusive o título) é surpreendente, e em poucas palavras foi criada uma história fascinante. Entretanto, sugiro mais cuidado na revisão, encontrei mais de meia dúzia de erros para um conto tão pequeno. Lembre-se que a roupagem é fundamental, como diz o Gustavo Araújo.

  4. Simone
    23 de abril de 2021

    Fica clara a relação opressiva nas suas palavras. Entendo o desespero dela, mas duvidei que o desfecho pudesse ser radical.
    Fui surpreendida.

  5. mariasantino1
    23 de abril de 2021

    Oi,Andrea!

    Concordo que o uso do sinal da cruz e do termo “evangélico” não tenha feito um bom casamento no texto. Também entendi seu chamado para a presença de comentários de pessoas do sexo feminino, pois esse tipo de relacionamento “de cabresto” é coisa que ainda acontece nos dias de hoje com mulheres (muito mais frequente do que com homens, devido ao uso da violência– não só física). Gosto sim desse textos que denunciam algo, que mostram uma reação (mesmo que extrema) do personagem no fim de tudo

    Bem, como sou otimista (acredite, isso não tem nada a ver com ser alguém bem humorada) procuro absorver as boas críticas e dispensar o restante. Convido vc a participar de algum desafio do site EntreContos, pois a ideia primal é postar contos de forma anônima, sem o nome da pessoa que o escreveu até o final do certame, e assim os contos são avaliados pelos participantes de forma mais impessoal possível, julgando a obra pela obra e não por coleguismo. Nesse exercício colhemos dicas e opiniões muito interessantes e, por vezes, engrandecedoras.

    Paz & Bem!

  6. Priscila Pereira
    22 de abril de 2021

    Oi, Andrea!

    Seu conto é interessante, bem escrito, criativo, com um final surpreendente. Tinha tudo para ser um ótimo conto. Mas… Eu sou evangélica e ainda queria ler um conto em que não fossemos estereotipados e descritos como gente ruim, bitolada, avarenta, mau caráter, etc… E já que toquei nesse assunto, evangélicos não fazem o sinal da cruz, só os católicos.
    Desculpe a sinceridade. O problema não é o seu conto e sim essa leitora em particular.
    Até mais! Espero ler mais contos seus!
    😘

    • Andrea Nogueira
      22 de abril de 2021

      Interessante, mas também significativo o viés de sua leitura do conto.

      Em momento algum o conto faz menção à uma denominação religiosa específica, mas dá toda a pista quando ao final da trama a protagonista faz o ‘sinal da cruz’, antes de cumprir ‘seu juízo final”.

      Como você mesma disse “evangélicos não fazem sinal da cruz”, então fica claro que o casal da história não é evangélico.

      Aliás. entre católicos também existe “gente ruim, bitolada, avarenta, mau caráter, etc.”.

      Os fanáticos, hipócritas que se dizem religiosos e os falsos profetas não são ‘privilégio’ desta ou daquela religião.

      • Bruno Raposa
        23 de abril de 2021

        Quando você abre o conto falando em “cultos evangélicos”, literalmente na primeira frase, pareceu bem claro que se tratava de um casal evangélico.

        Se não foi essa a sua intenção, então você se expressou incrivelmente mal. ¯\_(ツ)_/¯

  7. thiagocastrosouza
    22 de abril de 2021

    O enfado e o peso de uma relação em poucas linhas, até o limite do homicídio.

    Gostei do conto Andrea!

  8. Givago Domingues Thimoti
    22 de abril de 2021

    Olá, bom dia, boa tarde, boa noite!

    Então, a escrita, tanto gramaticalmente quanto na escolha de palavras, está bom, nada fora do normal, mas também nada que seja ruim.

    Microcontos são danados de escrever, são pouquíssimas palavras para explicar uma história. Por isso, eu fiquei com a sensação que a senhora matou o marido pela vida estagnada e submissa que levava. Mas ainda assim, fiquei com uma baita pulga atrás da orelha, será que havia mais coisa por trás dessa relação?

    Acho que histórias assim devem ser aprofundadas em um conto, tem mais espaço para desenvolver a história e consecutivamente os sentimentos dos personagens, o que acaba conquistando o leitor.

    Enfim, boa sorte

  9. Anderson Prado
    21 de abril de 2021

    Misericórdia! 😳 Que mulher braba! 🥴 Será que ele mereceu? Deve ter feito por onde! Parabéns pelo conto! 👏👏👏 Pena ter sido tão curto! 😪

  10. antoniosbatista
    21 de abril de 2021

    Final contundente, como convém a um bom conto. Ela não mais orava, perdera a fé na misericórdia divina, no entanto, fez o sinal da cruz como que se desse a si mesma, o perdão. Fiquei em dúvida; acompanha-lo ou acompanhá-lo? E há uma repetição de palavra na frase:…coroavam seus dias as muitas as cobranças exigentes dele. -…coroavam seus dias as muitas cobranças exigentes dele. Nota 8

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Informação

Publicado às 21 de abril de 2021 por em Contos Off-Desafio e marcado .