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Detox Literário.

Augusto – Conto (Angelo Rodrigues)

Seria o primeiro emprego de Augusto. Havia estudado por meses em apostilas, cadernos, livros, anotações, o diabo. Passou num concurso cujo desejo de vitória alcançava a muitos. Com vinte anos havia conseguido ser aprovado em concurso para o ingressar no serviço público federal, um escriturário de carreira. 

Desde que soube de sua aprovação, toda semana passava na repartição para saber se estaria próxima a sua chamada. Não estava, não estava, não estava. Havia se tornado conhecido e querido por todos naquele lugar. Aguardou por meses, mais que ano, para ser chamado e tomar posse no cargo — não teve uma classificação muito boa, enfim. 

Diziam-lhe sempre que deveria esperar, e com paciência esperava.

 

Augusto era um rapaz bonito como poucos, poupado dos azares da juventude. Não lhe tomaram as acnes bravas nem as doenças que estropiavam as regras do crescimento. Era alvo na pele e louro nos cabelos, que eram fartos e encaracolados como se tivesse sobre a cabeça uma coleção de alianças douradas. Nenhum desânimo na vida ou desacerto nos ossos lhe curvou a estampa: era alto e harmônico, e caminhava como se deslizasse em nuvens, tamanha era a elegância e a suavidade com que andava. 

Adquirira, por hábito, o branco. Nos dentes, no hálito, no jeito de falar, nas roupas sempre lisas e engomadas que usava. Elegante, sem excessos, tudo na medida para agradar a si e aos outros.

As meninas da rua em que morava o idolatravam, embora de Augusto nada obtivessem como recompensa, nem um olhar interessado, nada, coisa alguma. Augusto sempre se mostrava indiferente a elas. Etéreo quanto ao sexo por não lhe haver emergido o desejo que tanto sobrava nos jovens da sua idade. Tudo lhe era indiferente e não fazia caso de maiores detalhes. Gostava de ser assim, imune, embora não claudicasse em seus desejos, que nunca se dirigiam às garotas.

 

Comprou um terno alinhado, sapatos novos que brilhavam ao sol, uma gravata discreta em listras harmoniosas em cor-de-rosa e branco e uma camisa de algodão branquíssima como a pele do ovo. Tinha pronto o enxoval. Bastava esperar a hora de tomar posse no serviço público federal — seu tempo haveria de chegar.

E o tempo chegou. Augusto foi alçado à condição de funcionário público federal concursado, inamovível, perpétuo, seguro — um sonho que finalmente se realizava. Um sentido de solidez e permanência sobre o mundo tomou conta da sua alma. Uma festa em sua cabeça, nos pais, no irmão menor, na família inteira, que era pequena como devia ser. Alguns vizinhos, que já o admiravam, passaram a vê-lo como uma autoridade pública e concursada. As meninas da rua viram que Augusto não lhes fizera feio; além da bela estampa que tinha, era inteligente e se tornara um bom partido para o casamento, bastava que escolhesse a garota que desejasse. Mas Augusto não escolhia, nunca escolhia. Era indiferente a tudo.

 

No dia da posse sua mãe o vestiu como se o levasse ao altar em casamento. Seu pai, em silêncios fortificados, exalava a paixão de uma orgulhosa indiferença. Tinha uma alegria que parecia transpirar ressentimentos quando percebia que perdia o brilho diante de um filho que mal saíra da adolescência, que o opacitava como cabe aos filhos fazer em relação aos pais. Sentia que sua insignificância natural se avolumava com tudo aquilo, com a brilhante ascensão meteórica do filho que se tornava, finalmente, um homem realizado. Na falta do que fazer, seu pai lia o jornal enquanto um desfile de honrarias e homenagens passava na linha baixa dos seus olhos. 

Vestido para o grande evento de posse, pôs sob o braço uma pastinha com os documentos de que precisava e foi ao trabalho. Era o seu primeiro dia.

O irmão mais moço, que dele não desgrudava, o acompanhou até ao ponto de ônibus com a pompa de quem manda um herói à luta: 

“Vá, Augusto, e conquiste!” 

E lá foi seu ídolo; sua vez chegaria, seria uma questão de tempo, pois tudo é uma questão de tempo. Também seria o herói de alguém, talvez da mãe, se nela coubessem dois heróis, porque o pai, aquele, havia tempo perdera o posto aos filhos.

Pois foi o primeiro dia em que Augusto se deu conta de que sobre sua cabeça pairava a aura da nulidade, da indiferença; metálica, dura como o aço, polida como um espelho. Afundou-se em si, um nada, invisível — e tanto esforço.

 

Aquele primeiro dia no trabalho passou tão lentamente que se fez duplo, e ele, também um duplo de si, denso, imerso em um ar tão espesso que lhe dificultava o movimento dos pulmões, e pouco conseguia respirar. Ouvia conversas de escritório e os assuntos vinham todos em continuação, iniciados havia anos, num fio contínuo no qual não se percebia incluído, parte dele em momento algum. E tudo que ouvia se conectava formando uma teia confusa que sentiu que jamais conseguiria compreender. Uma trama de assuntos que o enredavam a consumi-lo. Tudo ali era ralo, contínuo, impessoal. Tudo à sua volta era uma exultante banalidade, uma perpétua tolice. Melhor seria nunca ter ouvido, não ouvir nunca mais, nada mais ouvir.

Não estava ligado às coisas que o cercavam, fossem mesas, cadeiras, a bomba pneumática que sempre espocava deixando um memorando a cada meia hora, ou mesmo as pessoas, que pareciam sufocar sua alma nunca afeita àquele ambiente. Sentiu que havia matado todos os sonhos secretos de realização, alguns já prontos, outros em andamento, todos fora daquele lugar que agora era seu, inamovível, perpétuo; um funcionário público federal concursado, finalmente.

Ao chegar em casa naquele dia de descobertas e transformações, a mãe o inquiriu com o jeito de quem espera ver um destino realizado emergir na voz do filho, e se materializar em puro contentamento.

Foi singular na resposta: 

“Um ambiente inóspito, mãe, muito frio…”

“…oh, meu filho”, ela disse, “amanhã você leva um casaquinho…”

O pai, que atento a nada lia o jornal, ouviu com atenção descorada o diálogo e não fez caso; voltou às noticias do dia. Era o que importava.

 

Foi seu irmão mais novo quem viu, pela primeira vez, que sobre a cabeça de Augusto havia se formado uma auréola, ainda tênue, que se confundia com seus cabelos anelados em ouro. Esse foi o primeiro passo para especulações.

Ao disparar pela casa tal descoberta, sua mãe correu até um livro onde havia uma bela estampa de São Francisco, seu santo de devoção. Trouxe aquela imagem até a sala, esquadrinhou-a atenta e estabeleceu uma correlação clara e definitiva: não havia dúvida, a auréola era tal como aquela do santo, embora mais tênue na firmeza luminosa; não tinha ainda, o filho, a experiência milenar de um santo tão bem estabelecido, compreendia.

Seu pai, um pouco distante do burburinho, arriou um pouco o jornal que lia e, olhando por sobre os óculos, lançou um olhar de curiosidade desinteressada em relação à cabeça anelada do filho. Voltou ao jornal e às notícias do dia sem tecer especulações, dado que nada sabia de santos e, menos ainda, compreendia de auréolas, halos ou concessões divinas.

Augusto, entre a surpresa e o inusitado desconforto, tentou tirar de sobre a sua cabeça aquela auréola impossível, mas foi inútil. A auréola era dura ao ser tocada e etérea quando se tentava afastá-la. estava ali para ficar. O dia se completou, e ao dormir, não sentiu o desconforto que aquele halo pudesse produzir, pois também era fluida quando tocava seu travesseiro. 

Dormiu seu primeiro sono de anjo naquela noite.

Ao acordar pela manhã foi até o espelho esperando que tudo não passasse de uma inflexão absurda na lógica dos pensamentos, ou apenas um sonho esquisito que se desfaria à luz do dia. Mas lá estava a auréola que havia se solidificado ainda mais durante a noite. Ganhara uma luz dourada e mais se assemelhava à auréola santa de São Francisco. 

Saiu à rua na esperança de que a sua auréola não fosse invisível aos olhos dos curiosos e isso não aconteceu. Olhavam-no com curiosidade, espanto ou respeito. As meninas da rua mostraram finalmente o desânimo que nelas crescia havia anos. Não estavam felizes. Augusto era um anjo louro e bonito, inconquistável e distanciado pelas novas atribuições — talvez divinas. As meninas não tinham mais por Augusto o calor do desejo, da paixão e do sexo.

Na repartição pública, Augusto causou um enorme frisson quando entrou pela porta principal. Todos queriam saber daquela novidade. Correram até ele para constatar que ali trabalhava um anjo lindo, recém empossado no serviço público federal. Tocavam seus cabelos, sua auréola luminosa e o inquiriam sobre os poderes que certamente teria. Augusto respondia não terem os anjos vontade própria, e que pouco sabia acerca do que lhe vinha ocorrendo. 

“Aconteceu, assim, por vontade divina”, foi o que disse, e nada mais.

Aquele burburinho fez atrasar ainda mais os serviços, que já não andavam bem. O chefe do setor, zeloso e preocupado com o afluxo de gente que constantemente chagava para saber de Augusto, achou melhor que ele ocupasse uma salinha pequena, afastada dos olhares curiosos, e num gesto de sabedoria, disse-lhe:

“Anjos são mensageiros, meu caro Augusto. Pois cuide das correspondências, do telex, das cartas e dos telegramas! E seja diligente como devem ser os anjos.”

E Augusto cuidou disso por trinta e cinco anos. E esse foi o tempo que escondeu de todos que não tinha certeza de ser um anjo de verdade. Sua auréola soava o peso da indiferença e do fracasso por se haver distanciado de uma vida que queria para si, e dela se ter afastado por conquistar uma outra, longe de suas aspirações de adolescente, que mal chegara a saber quais seriam.

Sua auréola não lhe trouxe a mensagem divina ao ouvido e nem lhe foi passada nenhuma missão sobrenatural. Às vezes olhava o céu e se encantava quando um raio da lua chegava suavemente até ele, filtrado por entre as nuvens. Estava tudo ali, diante dos seus olhos, e nada conseguia ver. Sentiu que se fosse efetivamente um anjo, como em tudo, fracassara mais uma vez.

Não lhe apetecia voar pelos céus nem vagar pelo mundo imaginando que salvaria crianças com suas mãos de anjo, aquelas que estivessem na borda dos penhascos prestes a uma queda fatal. Como um anjo que parecia ser, não foi capaz de levar nenhuma mensagem a ninguém que não fosse o seu próprio chefe de seção; uma carta, um telex, um memorando.

De que serviria aquela auréola dura e pesada que circundava a sua cabeça havia tantos anos? Não conheceu o abraço, o carinho ou o beijo, nem pôde saber do sexo das meninas ou dos meninos, e jamais conheceu outro anjo a quem pudesse perguntar as regras de viver sobre esse mundo de humanos. Nada compreendia.

Augusto pairava sobre a Terra com a sua auréola dourada, dura e pesada como o aço e não lhe podia atribuir outro valor que não o fracasso colossal. Como homem, lhe tolhiam as limitações, que eram muitas: a solidão, a tristeza, a serenidade corrosiva, e tudo sem qualquer explicação que lhe fosse devida. Como anjo, nada além de uma auréola lhe atribuía qualquer valor ou relevância. Tudo inútil, concluiu.

Definhara após tantos anos com sua perpétua incompletude. Tornou-se uma figura absolutamente comum pela persistência em permanecer como sempre fora, incapaz de se transformar. Tornara-se apenas um homem que tinha uma auréola, indiferente, inútil, real e sólida sobre a cabeça. Sentia que se transformara em um fabuloso mágico com sua cartola completamente vazia de surpresas. Tinha sobre a cabeça uma imponderável ferramenta de fazeres e nada realizava. Nunca.

O que um dia foi um espanto, acabou por se transformar numa curiosidade tola, sem explicação ou serventia. Ninguém o procurava ou sequer se importava com o que havia sobre a sua cabeça. Inútil ao mundo e às coisas que o cercavam, curvou-se ao peso do tempo e de sua auréola. Seus cabelos raleavam iniciando a derrocada pelo branco que lhe tomava. Apenas sua auréola não havia perdido o vigor dos primeiros dias.

Aposentou-se, em retiro, e isso também foi indiferente aos que o cercavam. 

“Vá, Augusto, e descanse!”, foi o que de melhor ouviu no dia de sua despedida do serviço público federal. 

Houve bolo e refrigerantes, mas pouca gente apareceu. Já não se importavam com ele, já não tinham curiosidade por sua auréola. Recolheu-se a casa em pensamentos turbulentos que se multiplicavam. Cismara, definitivamente, com a imagem de duas crianças à beira de um enorme penhasco sob a proteção de um anjo cuidador. Colou essa tal imagem em uma das paredes do quarto de dormir e de sua cama, deitado como passava os dias, observava por longo tempo aquela cena, como se estivesse diante dela para a decifrar. 

Não havia crianças que precisasse salvar, pois já estariam todas salvas ou protegidas por outros anjos de verdade. Por sua história de longos fracassos, na imagem que via, sentiu que só lhe havia sobrado o abismo. Não seriam as crianças ou os anjos que Augusto teria que decifrar, mas o abismo do qual já não conseguia desviar os olhos. 

A partir daquele dia, Augusto passou a procurar por abismos sobre um mapa de sua cidade, e encontrou aquele dos seus desejos: largo, profundo e em queda sem fim, longe de tudo. Nele, seria novamente um menino e teria a chance de descobrir se o Céu lhe havia reservado um anjo para o proteger, ou ter por destino conhecer o fundo do abismo. Era o que lhe cabia, era o que sentia.

Olhou longamente aquela fundura pedregosa aos pés e experimentou a derradeira vertigem: fechou os olhos e sem hesitar mergulhou em direção ao infinito vertical, em queda desenfreada. Foi quando pôde sentir que de suas costas brotaram asas branquíssimas e grandiosas, num farfalhar de penas em movimento que jamais imaginou ser possível. Sentiu que o vento não lhe comprimia o corpo em queda; era, finalmente, o seu primeiro dia de anjo, e como um anjo tardio, voava voava voava, sem saber que sempre pôde fazê-lo.

6 comentários em “Augusto – Conto (Angelo Rodrigues)

  1. Valéria de Lima Vianna
    12 de fevereiro de 2020

    Os finais costumam me ganhar. Tanto quanto, ou mais, que os inícios. Parabéns, Angelo. Seu conto é de uma fina ironia… com a tal “vaidade das vaidades”. E um fechamento de extrema sensibilidade. Parabéns.

    • Angelo Rodrigues
      13 de fevereiro de 2020

      Valeu, Valéria. Obrigado pela leitura e comentário.

  2. Neli Espanhol
    11 de fevereiro de 2020

    Lindo conto, curioso, misterioso até seu voo final.

    • Angelo Rodrigues
      12 de fevereiro de 2020

      Obrigado pelo comentário, Neli, que bom que tenha gostado.

  3. Cilas Medi
    11 de fevereiro de 2020

    Um lirismo doce, cálido e envolvente. Uma parábola de sentimentos humanos, disfarçados no angelical modo de ser. A satisfação de se ver livre e diretamente ligado aos sentimentos de ser o que era. O esplendor da emoção ao se conhecer, finalmente. Um belo conto. Parabéns!

    • Angelo Rodrigues
      11 de fevereiro de 2020

      Obrigado pela leitura e comentário, Cilas. Esta era a ideia e você a pegou lindamente.
      Às vezes não nos damos conta de que não nos dobramos às nossas inclinações e tomamos o caminho mais curto, menos árduo, e, como numa parábola (como você colocou), descobrimos que este caminho não era exatamente o mais acertado, mas apenas o mais tranquilo de transitar.
      Bom quando ainda há tempo de rever o trajeto, às vezes trágico quando o tempo irremediavelmente passou.
      Abraços.

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Publicado às 11 de fevereiro de 2020 por em Contos Off-Desafio e marcado .