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Detox Literário.

O Poeta Maldito – Conto (Fernanda Rodrigues)

No cômodo frio sobre o antigo prédio no centro da cidade cinza, à luz incerta das pequenas velas que se espalham aleatórias pelo chão, sombras sensuais e enigmáticas dançam nos cantos escuros enquanto em meio às garrafas vazias um jovem tomado pela loucura e pela dor rabisca versos que evocam a morte.

Há tempos ele já não mais anseia pela imortalidade que apenas as palavras podem conceder.

Desde a noite de sua perdição quando tendo como única companheira a garrafa de vinho da qual bebera insaciáveis e longos goles, colocara-se a vagar em meio à legião de anjos piedosos que habitavam o bosque de mármore, já não era possível dizer que vivia.

Naquela noite, enquanto caminhava a esmo, clamou aos espíritos que porventura habitassem aquele labirinto de solidão por ser acometido pela loucura que transforma homens em poetas e que faz brotar, em meio à melancolia da vida, as palavras que se imortalizavam em versos.

Com passos trôpegos e a consciência diluída pelo álcool, vagou em meio aos esquifes até que, exausto e certo de que suas preces jamais seriam ouvidas, aconchegou-se entre uma grinalda de lírios murchos que desvaneciam pousados cuidadosamente sobre um pequeno túmulo e ali pôs-se a observar o vasto domo repleto de estrelas que perfuravam o manto negro da noite até ser dominado por um sono febril.

Foi despertado de seus delírios por um movimento difuso que revelou em meio à névoa gélida e onipresente a imagem de uma bela jovem inteiramente vestida de renda negra, com os cabelos escuros e encaracolados derramando-se como uma cascata por sobre seus ombros até alcançar a cintura fina, as mãos cruzadas e pousadas em frente ao corpo e os lábios intensamente vermelhos.

Um anjo de beleza imortal. Uma ninfa esculpida em alva carrara.

A guardiã do descanso eterno o observava com um interesse velado e a beleza indescritível e quase inacreditável daquele rosto tão pálido quanto o luar o fez estremecer temendo acordar e perder para sempre aquela visão.

Arfando pela emoção e hipnotizado pelos movimentos fluidos daquela figura etérea, o jovem em êxtase viu-a aproximar-se dele com passos firmes e indomáveis que não temiam a desolação ao seu redor e, em seu estupor, nada mais pode fazer além de observava-la sem sequer questionar a realidade daquilo, completamente perdido naquele momento de contemplação e medo.

Quando ela estava tão próxima que lhe era possível sentir o frio que emanava do corpo branco, todo seu ser foi tomado por um êxtase de adoração e ele soube que naquele momento entregaria de bom grado sua alma imortal àqueles olhos completamente negros que o encaravam qual poços profundos que continham a imensidão da morte, a fúria da eternidade e que faiscavam como as chamas do inferno.

Aterrorizado por aquela visão que unia pavor e beleza enlouquecedora, tentou se afastar. Quis fugir, porém, estava tão profundamente impressionado pela beleza impossível daquele ser angelical que sequer podia se mexer, então, ela sorriu e seu sorriso era devastador.

Com seus dedos longos e tão frios quanto a solidão da morte, ela tocou suavemente o rosto do rapaz fazendo seu coração disparar. Acariciou seu pescoço sentindo a pulsação de seu sangue nas veias, tocou seus lábios e a pálpebra sobre seus olhos, e aquele toque o encheu de paz.

Então, subitamente ela lançou-se em sua direção e beijou sua boca de uma forma ardente e lasciva que ele sequer imaginava ser possível. O jovem desfrutou daquele beijo num misto de horror e excitação até ser tomado por uma dor lancinante.

Ela afastou-se com delicadeza para que ele pudesse ver o profundo corte em seu peito de onde o sangue jorrava quente e viscoso e, pouco antes de perder completamente a consciência, viu o lindo anjo, que agora exibia enormes assas negras, devorar o pedaço de carne ensanguentado que era seu coração e que ainda pulsava em suas mãos brancas como se nunca tivesse sido arrancado de seu peito.

Acordou em sua cama, suando em louca agonia e sentindo que sua vida e seu coração já não lhe pertenciam e, desde então, passava os dias a delirar e as noites a escrever versos em que clamava ao belo e pálido Anjo da Morte que viesse buscá-lo.

Em sua loucura, escreveu versos que eram lidos com admiração pelos poucos amigos que, preocupados com seu estado de espírito, visitavam a água-furtada onde ele vivia e que, maravilhados com suas palavras repletas de adoração pela pálida mulher, espalhavam-nas entre os jovens de seu tempo que viam naquelas palabras o mais sublime expoente do romantismo de seus dias.

Foi assim que, entre versos e poesias, o pobre rapaz deixou sua vida esvair-se e ser consumida pela ânsia de encontrar novamente aquela a quem adorava e, enlouquecido pelo amor que devorava sua alma e em meio aos suores e à febre que se alimentavam de seu corpo e de sua mente, sentindo que a dor em seu peito estava prestes a emudecer, murmurou suas útlimas palavras:

– Oh! Quão infeliz sou! Dediquei meus pobres dias à sina doida de um amor sem fruto, e minh’alma na treva agora dorme, como um olhar que a morte envolve em luto (1).

E assim, sob o olhar pesaroso de seus poucos companheiros, o jovem promissor, que fora poeta, que havia sonhado e amado durante sua curta vida, sucumbiu ao Anjo da Morte para, à sombra da cruz, descansar em paz.

(…)

2 comentários em “O Poeta Maldito – Conto (Fernanda Rodrigues)

  1. Fefa
    22 de janeiro de 2019

    Olá Givago, agradeço a leitura e comentários… só pra ficar um pouco mais óbvio, esse pequeno conto é uma homenagem a Álvares de Azevedo, meu poeta favorito, por isso é totalmente inspirado nos ultraromanticos e, inclusive, finalizado com um trecho de uma poesia do Álvares…

  2. Givago Domingues Thimoti
    20 de janeiro de 2019

    Olá!

    Tudo bem?

    O conto é bem escrito. Tem alguns erros ali e acolá que passaram pela revisão (sempre passa, é normal). Ainda assim, é possível perceber o talento da escritora.

    Achei a história um tanto quanto clichê (me lembrou bastante os poetas ultraromânticos), porém isso não significa que seja ruim. Foi bem conduzida, contudo, não trouxe nenhuma inovação.

    Parabéns pelo conto!

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Informação

Publicado às 19 de janeiro de 2019 por em Contos Off-Desafio e marcado .