É a velhice, minha filha… É esse cancro, esse eclipse que se aproxima e faz retornar em mim aquele sentimental que fui quando você bem menina… Essa homilia ele ecoava para si mesmo, uma ou outra alteração a cada reinício, enquanto levava no colo a criança para o berço. Ela precisava dormir. Desde cedo acordada, correndo pela casa, tão viva essa menina… Reduziu o volume de luz, vestiu o berço com o cortinado. Percebeu, pai zeloso, ela ainda não dormia: olhos semicerrados, gerando o breve frio na espinha de quando se está perante alguém morto.
Nem pensou duas vezes: do fundo daquele baú imaginário recuperou o violino, muita poeira e lembranças por sobre. Sopro. Longamente afinação. Fechou os olhos, saudades do pai que gostaria de realmente ter sido. Friccionou o passado nas cordas e recheou o ar o antigo acalanto composto tão logo ela nascera, sempre usado para fazê-la nanar. A combinação das notas o faziam lembrar-se de um tempo, de um tempo… Como era mesmo?
O instrumento e seu arco foram ao chão. Adormeceu na cadeira, embalado por si mesmo, absolutamente certo de que sua filha também dormira. Como sempre. Mas não. Descortinasse o berço veria os olhos prosseguindo entreabertos. No entanto, justiça seja feita, Rebeca não fosse apenas um cadáver há meses fora de sua sepultura, é muito provável adormecesse.
Um conto curto e forte. Logo, percebemos que há algo estranho no modo que o pai nina a criança. Não por ser um velho, afinal homens podem ser pais com idade avançada, mas pelo clima trabalhado pelo autor.
O misto de lirismo e horror cai bem, assim como o violino produzindo uma cantiga de ninar ou um réquiem talvez para a menina. A filha só se apresenta como um fantasma (material e da memória). Gostei!
Querido Eduardo, parabéns por sua verve. Delicadeza e horror andam de mãos dadas nesse conto. Muito bom.
Impactante e bastante sonoro. Construção diferenciada (tentarei isso algum dia). Parece que a ação ocorre antes da ação. Curioso.
Oi Eduardo, seu conto tem um tom meio sinistro logo no começo, porque percebemos que alguma coisa não combina… um homem velho ao ponto de estar meio senil não teria uma criança pequena, de berço… ele tem saudade do tempo que ela era bem criança, mas a trata como quase um bebê. É muito interessante ir sendo levado pelo suspense, pela mente deteriorada pelo tempo… O texto é delicioso de ler, profundo, e o final combina perfeitamente com o todo. Parabéns!!
Leitura muito boa e final bem inesperado. Não percebi pistas de algo assim ao longo da narrativa, então me parece que o autor precisava deixar mais no ar antes de fazer a revelação. Entretanto, demonstrou bem aspectos da velhice e da loucura.