EntreContos

Literatura que desafia.

Sentimento (Vinícius Camara)

Os dois tinham quase a mesma idade. Foram casados por muitos e maravilhosos anos. Tinham filhos e netos. Tinham irmãos de sangue, irmãos de sentimento e irmãos que nem sabiam que tinham. Tinham longos anos longe da terra em que nasceram, a terra e barro que os construíram. Eles próprios já haviam construído sua história. Ao mesmo tempo em que eram dois, eram também um. Ao mesmo tempo em que foram gigantes, foram pequenos em suas próprias fraquezas. Ao mesmo tempo em que caíram, levantaram. Superaram. Fizeram. Foram. E então se foram.

Quando uma pessoa deixa a vida, ela talvez esteja recebendo uma nova chance. Uma chance de recomeçar ou uma chance de continuar sendo ainda melhor. Quando uma pessoa escolhe buscar essa chance, ela escolhe deixar essa vida. Ela ainda era feliz quando o amor de sua vida lhe deu seu último boa noite. Ela não chorou. Ela sorriu. Lembrou dos anos que passaram juntos. Lembrou de cada momento. Lembrou das mãos que foram dadas, dos beijos roubados nas manhãs de domingo, dos abraços que por muitas vezes os transformaram em um. Ela não chorou, e sorriu por ter feito sua escolha, mesmo que inconsciente. Pouco tempo depois, deu seu primeiro bom dia em um novo mundo.

Aqueles que ficam choram, se desesperam, demoram a aceitar. Veem a perda em sua mais pura realidade, a perda em si, bruta e brutal, ofegante. Aqueles que ficam com os que ficam se compadecem da dor e desejam não ter de passar por ela tão cedo. Aqueles que vão apenas vão, sem volta. Ele foi sabendo o motivo, sentindo no peito a dor de sabê-lo. Ele chorou. Por dentro e muito brevemente, mas chorou. Lembrou dos anos que passou junto à mulher de sua vida. Lembrou de tudo que viveu ao lado dela, de cada momento juntos e de cada momento separados, nos quais tinha a certeza de encontrá-la em breve. Agora já não tinha mais. Estava indo para um mundo desconhecido. Não sabia o que o esperava, quem o esperava e muito menos até quando iria esperá-la. E então sorriu. Sorriu por saber que o destino agora era realmente infinito. Por saber que, depois do encontro, não haveria desencontro. Era o que ele esperava de um lado e o que ela esperava de outro. E é o que eu espero.

Mas quem sou eu para conhecer o que realmente aconteceu? Quem sou eu para conhecer duas pessoas tão bem a ponto de imaginar o que elas sentiram ou deixaram de sentir? Eu apenas escolho a história mais bela, o destino ideal, as melhores palavras em meu curto dicionário. Eu escolho finais felizes. Apesar de finais, felizes.

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Informação

Publicado às 10 de maio de 2015 por em Contos Off-Desafio e marcado .