─ Tiê-sangue!
─ Meu rubro tiê-sangue, em afeição e carinho lhe envio esta remissa…
─ Basta Agápi, está tudo terrivelmente errado. Você não pode compará-la a um tiê-sangue, e somente os machos desta espécie tem a plumagem vermelha. E que raio de palavra é remissa, não é missiva? Meu Deus!
─ Por que não tiê-sangue? São tão belos. Está certo que eu ignorava este pequeno detalhe acerca das plumagens, mas ela também nem deve saber.
─ Mas tiê-sangue? Se é pelo canto, porque não rouxinol? Ou use saíra-apunhalada, elas são belíssimas.
─ Pelos cabelos de Sif, Parakleto! Não é pelo canto ou pela beleza (e mesmo que fosse, quem chamaria uma donzela de saíra-apunhalada?) é pelo je ne sais quoi do tié…
─ Je ne sais quoi ? Que diabos de je ne sais quoi tem um tiê-sangue?
─ Talvez seja o nome científico. Ramphocelus bresilius. Tem um que de mistério, uma aura mística. Poderia ser o nome de um parapsicólogo catalão do século XII ou de uma dançarina de polka suíça ou de um adestrador de babuínos que morreu ao olhar para um espelho enquanto chovia.
─ Agora você está apaixonado por um parapsicólogo catalão do século XII, Pepi?
─ Arre Kletus, isto não é hora de sarcasmo, tenho de terminar a carta logo, para enviá-la no correio das três.
─ Está certo. Se quiser ficar entre as aves, porque não usa bem-te-vi? A meu ver, são bem interessantes, mas não conheço seu nome científico.
─ E eu tampouco, mas parece uma boa ideia. Vamos lá.
─ Meu rubro bem-te-vi, em afeição e carinho lhe envio esta missiva…
─ Pepi, bem-te-vis não são vermelhos, são acinzentados e amarelos na cabeça e no peito.
─ Certo.
─ Meu aure-prata bem-te-vi, em afeição e carinho lhe envio esta missiva…
─ Muito formal, não estamos mais no século XVI.
─ Certo.
─ Meu bem-te-vi cinzento com ligeiras manchas amarelas, em afeição e carinho lhe envio esta carta…
─ Meu amigo, você realmente está fazendo isto?
─ Estou nervoso, acho que a coisa não está fluindo muito bem, sabe.
─ Você acha? Sua remissa-missiva-carta está deplorável. Eu diria até abominável.
─ Ah, o que eu faço?
─ Posso lhe ajudar?
─ Sim.
─ Dê-me o papel.
(…)
─ Que tal?
─ Minha cara Puella, com afeição lhe envio esta carta que é símbolo de meu carinho desmedido por sua pessoa. Cada segundo desde a última vez que te vi tem sido um martírio sem fim. Por isso lhe convido para um passeio amanhã à tarde se lhe convier. Tenciono levá-la ao Lago-espelho. Aguardo ansiosamente sua resposta.
─ Está razoável, vou enviá-la.
(…)
─ A resposta chegou!
─ Pois leia depressa.
─ Meu caríssimo tiê-sangue, (desculpe o gracejo, mas eu amo pássaros) estou lisonjeada pelo convite, mas terei de recusar. Ando muito atarefada com minha tese, tenho de apresentá-la mês que vem na Catalunha em um congresso de parapsicologia. Que nosso encontro se dê em ocasião mais favorável. Com carinho, Puella Cantat.
─ Deveria ter usado bem-te-vi.
Leve e bem-humorado.
Gostei!