Observou-se no espelho. Este o devolveu uma forma. Lembrou-se de quando era marujo. Agora, estava transformado, nos fios brancos, nas rosáceas. Ainda era o mesmo. A aniquilação não mais se mostrava como montanha translúcida no horizonte. Encontrava-se debaixo de sua sombra.
Saiu do quarto. Avistou sua versão menor, com um casaquinho de botões rosas. Deu-lhe o que o espelho não pôde. Sorriu, como quem sorri para si. Não era ele, mas participava do seu ser.
E sua prosa
Narrada pro fim enquanto memória
Inexplicável teorema
Dos botões rosas
Compreendeu o fim de sua história
E a prosa virou poema
O projeto de concretizar a metamorfose indo de um gênero a outro é bem interessante e possibilita, dado o tema metamorfose, uma rica relação entre forma e conteúdo. Mas me parece que falta uma transição entre esses dois estados da matéria literária. O que temos é uma justaposição entre uma seção de prosa e uma de poesia, o que até seria cabível caso houvesse materiais verbais comuns entre elas. Mas não: tanto na forma (o gênero) quanto no conteúdo há um salto muito grande. Mal e mal os botões rosa servem de eixo, mas são insuficientes para sustentar a unidade. Penso que toda transformação implica a permanência de valores em vários parâmetros, pois é precisamente ela que nos faz compreender que aquilo que está se metamorfoseando ainda é a mesma coisa. Se nada se mantém, não há metamorfose, há meramente ruptura.
A metamorfose é ontológica, Martim… Busque além dos botões!
Não confunda metalinguagem com metamorfose… quem sabe minha metafísica não ajude?
beijos
Gosto da sonoridade do conto, quase poética a ligação de pai e filha.
Fiquei tocado! Esse texto brinca com identidade e memória de forma delicada e poética.