Em casa, ria com dentes; o espelho confirmava. No trabalho, o rosto aprendia economia, um músculo por vez. Chamaram para a foto do crachá, e ele sorriu para a câmera — pouco, o suficiente. A imagem saiu correta, sem excesso. Na saída, tentou rir no elevador. O reflexo não devolveu. Foi aí que entendeu que o crachá não dizia quem ele era, apenas onde deveria ficar. Guardou o riso no bolso e passou a usá-lo só aos domingos.
Parabéns pela participação, Sombra!
O sorriso simboliza a dignidade humana. Em casa, ambiente de conforto, o personagem gargalha à vontade. Já no espaço laboral — onde a humanidade é violada pelas horas extras não remuneradas, pelo acúmulo de funções, pela escala 6×1, pelo salário insuficiente, pela rispidez dos superiores, etc. —, ele guarda o sorriso, pois percebe não existir lugar para descontração. A metamorfose consiste na mudança de comportamento condicionada pelo ambiente. Em domicílio, ele é um; no trabalho, outro.
“Guardou o riso no bolso e passou a usá-lo só aos domingos” é um trecho cirúrgico, porque sublinha a posse do personagem sobre o sorriso, um acessório que a empresa ainda não conseguiu roubar. Ainda! Acredito, então, que seja um ato de resistência. Domingo é seu dia de folga, sua única oportunidade de estar em casa, confortável, praticando um hobby, consumindo cultura, passando tempo de qualidade com familiares e amigos, enfim, desfrutando da migalha de dignidade que lhe restou.
No crachá, está estampada a face do personagem, que pôde sorrir controladamente para a foto. Curioso. Raro instante em que o espaço laboral “autorizou” o gesto. Talvez seja um método utilizado para vender uma imagem humanizada às pessoas alheias à insalubridade do ambiente corporativo.
O trecho “Foi aí que entendeu que o crachá não dizia quem ele era, apenas onde deveria ficar” aborda a desumanização do indivíduo, que passa a ser considerado uma ferramenta facilmente substituível.
Por último, a escrita não carece de retoques. Ortografia e gramática estão sólidas. Quanto ao ritmo, os períodos curtos otimizam a leitura e conferem objetividade — um dos pontos mais fortes do microconto.
Eu também guardo meu riso para os Domingos…
Ola Sombra,
Interessante a ideia de metamorfose trazida aqui, onde não apenas o funcionário se transforma ao iniciar seu trabalho em uma empresa, mas também se transforma quando entra lá todos os dias, sendo ele apenas nas folgas, ou seja, aos domingos.
A transformação entre pessoa e profissional.
Gostei. Parabéns!
Opa! Já assistiu a “Ruptura”? Foi o que me lembrou esse micro, mas de uma forma menos visceral e sci-fi do que na série. Aqui é apenas uma despersonificação e automação na posição de trabalhador, o que não deixa de ser uma cisão profunda, considerando-se o tempo que se dedica ao trabalho. Para além da sutileza como essa diferença é transmitida, para mim o que abrilhantou o micro foi a frase final, “usar o sorriso somente aos domingos”. Poxa, acho que eu mesmo acabarei adotando essa! Ótima abordagem do tema.
Olá, Sombra! Tudo bem?
Eu diria que eu gostei da narrativa proposta. Dialoga bastante com o individualismo e a competição que observamos em corporações. Você foi muito feliz em conseguir aplicar esse ambiente duro dentro do micro.
Minha única ressalva neste micro é a sensação que essa frase “Foi aí que entendeu que o crachá não dizia quem ele era, apenas onde deveria ficar.” sobrou no micro. Pelo contexto, deu para inferir.
No mais, parabéns pelo trabalho!
Atenciosamente,
Givago
Homem consegue emprego em uma grande empresa, no primeiro dia ele sorri, satisfeito, mas quando ganha o crachá, vê estampado ali, o cargo que ocupa, seu sorriso murcha. O cargo é muito baixo, talvez porteiro, office-boy, que ele acha indigno para si. Bom, mas ele sabia disso quando fez a entrevista, mas parece que é orgulhoso demais para se aceitar como porteiro. Como precisa do emprego, melhor porteiro do que nada, deixa o sorriso para ser exibido só aos domingos, em casa; Acho que ele tem medo da esposa. Ela deve o ter chamado de vagabundo, quando esteve desempregado.
Olá, Sombra, pois é. O crachá que não apresenta o rosto do funcionário, mas apenas representa o papel que se deseja seja desempenhado por ele no escritório. Ele que sorria com os dentes, sorria só com um músculo de cada vez no trabalho. Gostei do conto, gostei da forma como você foi criando a narrativa. Parabéns e que tenha sucesso no desafio.
Excelente, compacto e realista retrato do cotidiano do trabalhador corporativo. Inteligente e crítico. Um doloroso convite à reflexão.
Olá, autor(a), tudo bem?
O tema proposto pelo desafio foi abordado de forma clara: a metamorfose do protagonista ocorre para que ele possa se adequar ao ambiente onde transita. Em casa é sorridente, alegre, no trabalho, economiza sorrisos. Duas caras para duas situações/realidades diferentes.
Linguagem objetiva, mensagem transmitida com clareza.
Não encontrei falhas de revisão.
Parabéns pela participação e boa sorte.
Sombrio e realista, um ótimo conto. O mundo, não apenas o corporativo, tem trazido um nível de infelicidade e hipocrisia associados. Parabéns!
Olá Sombra, parabéns pelo micro. Muito bem escrito. Sucinto. Seco como um corte, como deve ser um micro conto. Melancólico. Felicidade e alegria homeopática.
Olá, é um conto bastante interessante sobre o mundo do trabalho e como o vivenciamos. Lembrou a série Ruptura, nosso eu e as vivências partidas para garantir a sobreviência. Admito que a primeira leitura foi truncada, mas, ao rever, entendi a profundidade e dou os parabéns para “a sombra” que escreveu. A falta de imagem é uma ilustração da secura do conteúdo, foi tudo bem pensado. Provavelmente entrará nos favoritos…
Olá, Sombra! Tudo bem?
Seu micro é triste… trata da metamorfose que acontece quando estamos em um trabalho ruim, que suga nossa alma e nossa alegria. Em casa de um jeito, no trabalho de outro… lembrei de uma época em que chegava domingo a noite e eu já ficava angustiada de ter que ir trabalhar no outro dia… graças a Deus essa época da minha vida já passou 🙏
Gostei bastante! Parabéns!
Boa sorte no desafio!
Até mais!
Achei seu microconto interessante. O tema da metamorfose aparece nos diversos tipos de sorriso que o personagem principal ostenta ao longo das cenas. É um texto bastante atual que fala sobre as máscaras que precisamos usar nas diversas situações da vida e também sobre a nossa busca por autenticidade.
A temática do cotidiano ganha um peso maravilhoso quando abordada com tal sensibilidade. Parabéns.
Achei incrível!
Fiquei com a sensação de quanto a rotina e o trabalho moldam quem somos.