Aprendi que resenhar é recomendar ou não uma obra, construindo uma argumentação em torno desse veredito. Com isso em vista, nesta resenha senti ser mais necessário dedicar o início deste texto a uma breve caracterização da minha posição como leitor da obra resenhada. Em primeiro lugar, importa dizer que é uma releitura. Aliás, é a primeira vez que releio um livro e, coincidindo como primeira experiência, quando peguei o livro antes desta ocasião também foi a minha primeira leitura deste premiado autor, que logo me levou a ler outros livros de sua autoria. Adianto que a releitura apenas confirmou a admiração que tive na primeira vez e sei que poderia voltar a este livro no futuro. Mas há ainda outras circunstâncias da experiência que me levou a este texto.
Como se pode imaginar, este romance de Saramago ficcionaliza a jornada do titular caim, um dos filhos de adão e eva, famigerado por sua afronta ao senhor logo após inaugurar em uma só saraivada de golpes o homicídio e o fratricídio. O caim de Saramago não é, de nenhuma forma, um símbolo do mal, da inveja e do ressentimento. Aqui, caim é escrito como uma acusação ao criador não só por sua própria desavença com o todo-poderoso, mas por todas as injustiças que as deliberações divinas encadeiam sobre a humanidade. Considerando minha lista de leituras, há uma coincidência. Sem planejar, parti a “Caim” logo após de ler “Frankenstein ou o Prometeu Moderno” de Mary Shelley, outra obra magistral e famosa por abordar o confronto entre criador e criatura.
E, enfim, outro aspecto relevante da minha posição como leitor é o meu ateísmo. Não cresci em um lar notoriamente religioso, o meu contato durante infância e adolescência foi sempre superficial e na transição à vida adulta entendi ser mais coerente me tomar como ateu. Acho válido pontuar esse aspecto, pois em “Caim” Saramago é sarcástico e ácido na caricatura que faz das desventuras bíblicas e, sobretudo, do que apreende da hipocrisia divina. Ou, nas palavras do protagonista, da imagem que faz de um senhor que se não é louco, só pode ser maligno. A mim, foi uma (re)leitura divertida, mas também reflexiva, que pelo plano de fundo de sua narrativa leva inevitavelmente aos questionamentos universais sobre o bem, o mal e os mistérios das origens. A outros olhos, talvez seja uma leitura mais incômoda.
O estilo que encontrei como novidade da minha primeira leitura de “Caim” é aquele que já havia deixado Saramago famoso nas suas outras obras. Sua prosa é de longos parágrafos, não usa letras minúsculas para iniciar nomes próprios e não traz travessões para marcar diálogos ou os pontua com exclamações e interrogações, normalmente delimitando os falantes com vírgulas. Pode mesmo desorientar, mas a maestria de Saramago é justamente em criar um fluxo orgânico para a leitura, de modo que a voz narrativa tem a verossimilhança de uma pessoa contando uma história, mas, neste caso, um narrador erudito.
Outra das marcas desse estilo narrativo é a constante reiteração de pormenores da narração, o que imbui o texto de um tom de diálogo com quem lê e complementa o tom já bem-humorado do texto quando, por exemplo, o narrador pondera que está ciente de que pessoas dos primórdios da humanidade não falariam da maneira como escreveu ou noutras situações que aponta abertamente a falta de lógica do que ocorre ou do que os próprios personagens fazem, mascarando e por isso mesmo acusando as inconsistências dessas histórias míticas. O bom humor é a verdadeira força desse texto, o que não o impede de ter seus momentos mais dramáticos e sensíveis.
O protagonista caim é, como já se sabe, obrigado à errância. Neste livro, no entanto, seu vagar ocorre entre tempos e lugares distintos, sem ordem ou controle de seu destino. Passa a galope pela torre de babel justo quando ninguém se entende; pasma com a mesquinhez divina diante das agruras de job; lamenta até o fim os gritos das crianças de sodoma e gomorra sob a chuva de enxofre; encontra o seu primeiro amor em lilith; embarca na arca de noé. Já nesse contexto há algo de dramático que reitera a maldição que marca o personagem principal bem na testa. Não é dono do seu ir e vir. Não tem casa ou qualquer referência, pois não precisa piscar os olhos para estar em outro tempo, em outro espaço. O vento rumoreja e pronto. E o senhor, a quem o tempo não existe e quem o castigou, sequer o acompanha, envolvido em suas próprias tramas inescrutáveis. Mas se a obra fosse apenas uma listagem da mortandade em nome do senhor e da própria mão pesada do criador a esmagar seus desafetos, seria enfadonho.
Por ser uma história que se passa nos primevos da humanidade, intriga como muito dos desenlaces entre os personagens são fundantes de paradigmas que acompanham as sociedades até hoje, consolidando relações sociais calcadas na desigualdade e na violência, no que o maior exemplo é o das relações entre homens e mulheres. O abuso da segunda pelo primeiro pode ser visto mais diretamente nos personagens de adão e eva – tratado com a leveza da ironia bem-humorada ao designar aos dois a origem da “guerra dos sexos” – ou mais indiretamente como a maneira como as mulheres são tratadas como propriedades e vítimas por excelência por outros personagens masculinos da trama.
Mais adiante na narrativa, Caim é reiterado como alguém visto como o mal, o assassino, mas a essa altura qualquer leitor atento entende que ao menos neste livro não é o caso. Esse protagonista inspira, é benevolente e corajoso sem deixar de ter suas falhas. O assassinato que define seu destino não é correto e nem ele o rememora desta forma, mas, conforme a trama avança, caim se torna a necessária – e solitária – interjeição à tirania de uma força superior. Ele mesmo fala que matou o irmão porque não poderia matar o próprio deus. Neste livro, caim é o desafio. Em um céu dogmático ele é o horizonte da questão.
Havia algum tempo que não lia Saramago e esta releitura renovou meu interesse em voltar ao autor. Tenho o e-book de “O Evangelho segundo Jesus Cristo” e me parece a opção mais certeira depois de “Caim”. Recomendo esse livro a qualquer leitor que se considere aberto a uma prosa distinta e esteja disposto a uma leitura mais reflexiva. Mesmo que não esteja, também não é um ensaio. É hilário e a história envolve, afinal.
Ponderei também sobre a minha posição como um leitor ateu. Definitivamente não se reserva só ao descrente. Estimula a perspectiva crítica a qualquer relação com o divino, ainda que passe por figuras tradicionais da mítica judaico-cristã, em especial do Velho Testamento. Acredito que para além do caráter particular de qualquer leitura, ler a partir de uma posição de fé será uma experiência fundamentalmente diferente da minha. Um trecho da obra dialoga bem com isso: “A história dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus, nem ele nos entende a nós, nem nós o entendemos a ele.” (SARAMAGO, 2009, p. 88)
Por fim, há mais um aspecto particular à minha posição como leitor. Caim é um dos nomes do meu filho, nascido em 2025 anos passados do nascimento do vosso senhor jesus cristo. Quando eu e a minha esposa passávamos pelas listas de nomes, fui eu quem avistei o nome Caim e o sugeri. Seguramente digo que se não tivesse lido esse livro há alguns anos, sequer o teria considerado como um nome plausível. Quando o sugeri, não foi por fazer nenhuma associação entre o caim do livro e o meu filho que viria a nascer, mas achei a sonoridade bonita. Entretanto, apesar da infâmia em torno do seu primeiro encontro com o senhor, eu admiro o caim de Saramago. Pensando no meu caso, talvez não tenha sido inteligente ter posto o nome do mais famoso afrontador de seu criador logo no meu filho. Ou, quem sabe, se o desafio e a questão florescerem igual no meu menino, ele esteja procedendo bem.
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