EntreContos

Detox Literário.

Fardos e Sonhos (Fátima Heluany)

A palavra exata: determinação. Eu diante do computador, determinada a construir um universo com uma ideia que pairava inofensivamente: um pequeno beija-flor, que só queria me ajudar. E eu martelava o teclado, golpeava o passarinho e ele morria em minhas mãos.

Nada estava funcionando. Nem uma linha produzida, apenas uma palavra repetida por toda a página, de alto a baixo, a mesma palavra: desastre, desastre… Uma batalha entre mim e o desastre. Eu era um desastre. Só podia ser.

Ficava de pé e fazia uma porção de exercícios. O suor escorrendo, exausta, sedenta… de histórias, mas acabava relaxando. Que diabo! Não se apresse, Ayka! Vá com calma, saia e aprenda nas ruas. O mundo está cheio de vida. Observe. Momentos rendem páginas. Precisa de um empurrão. Precisa de dinheiro.

Estava mais interessada no lado financeiro dos livros do que propriamente neles. Quanto esta editora paga e quanto paga aquela outra.

O dinheiro chegou. Três mil reais que minha mãe mandou. Avisou pelo WhatsApp:

Pague o aluguel e compre um vestido novo. Você vai conseguir. Já mostrou que pode. Rezo por você!

Eu havia chegado à idade da razão, tinha um anjo a me proteger. Era só enviar material para os editores… Qual? Não existe nenhum material. E pare de mentir para si mesma, porque você sabe que aqueles contos de antologias não prestam e nunca vão prestar.

ΑΩ

Caminhei três quarteirões. Parei em frente à Assunção de Nossa Senhora, as paredes escurecidas pela idade, a porta aberta. Por motivos sentimentais, vou entrar. O pecado é mais saudável e alegre do que a virtude, falava comigo mesmo nos degraus da igreja. Ah! Rubem Fonseca.

Ajoelhei-me — um hábito. Sentei-me. Melhor para não sujar o branco da calça. Fiz uma prece, também por motivos sentimentais: Deus Todo Poderoso, lamento…, A Paixão Segundo G.H. Ah, que livro!

Deus, vou jogar limpo: vou Lhe fazer uma proposta: faça de mim uma grande escritora e eu voltarei à Igreja. E dê alegrias à minha mãe. Amém.

O que estava acontecendo comigo? Quando garota eu rezei pedindo uma caneta. Minha prece foi atendida. Rezava de novo. Por favor, Maria, me dê uma ideia. Ela também me desertou e como Graciliano estou sozinha, aprisionada.

Os sons viajavam rápidos e seguros pela igreja, ouvi passos largos de homem. Aquele ploc-ploc-ploc me estimulou a mente:

Corra! Corra! — pensou. Mas seu corpo se recusou a entender. As pernas cederam, e caí com força. De costas, com as pernas abertas e os braços em ângulo contrário, sem poder me mexer. O agressor se ajoelhou ao lado. Os olhos por trás dos óculos eram frios. Sem alma.

— Eu a quero — ele disse. Ele tocou-me o corpo com sofreguidão, segurou minha mão direita e a girou como se fôssemos amantes. Penetrou-me uma, duas três vezes, enquanto eu desvanecia. Depois, rapidamente se levantou e a deixou-me ali violada.

Críticos aclamam livro de Ayka Abreu. Escritora narra sobre seu estupro dentro de uma igreja:

— Eu lhes recomendaria, jovens escritores, que nunca evitassem experiências.  Atraquem-se à vida em estado bruto e a golpeiem.

Ave Maria cheia de graça, descendo as escadas, não posso embarcar nessa. Se alguém me amasse, até um rato… Sou uma desgraçada, forçada a me torturar.

Peguei o celular e escrevi uma mensagem honesta para minha mãe. Contei-lhe que vinha mentindo e que, por favor, mandasse mais dinheiro, porque eu queria voltar para casa. Desisti e deletei a última parte.

Vi a placa “Café” e entrei. Sentei-me à primeira mesa.

Aquele mesmo homem da igreja na mesa ao lado — reparei envergonhada. Ele deve ter percebido que eu o encarava e puxou conversa:

— Você rói as unhas — ele apontava para minha mão. — Não devia fazer isso.

— Quem é você para me dizer o que fazer? — tirei as mãos de cima da mesa e deixei-me ficar sentada e me acostumar à excitação de ser abordada por um desconhecido — olhos negros e muito abertos. Um personagem forte.  

— Quer comer algo? — perguntou. O coração palpitou em minha garganta.

— Vou tomar este macchiato e sair daqui.

— Posso adivinhar sua profissão? — ele insistia em conversar e eu, carente.

— Sou escritora — falei. — Veja, vou lhe mostrar. Abri minha bolsa, tirei uma revista e a folheei até o ponto em que O mapa do mel e estrelas estava impresso.

— Escrevi isto — disse ao homem. — Vou autografar. — Peguei uma caneta pensando em algo agradável para dizer.

— É uma história de amor, não é? Odeio — colocando a revista fora de vista, olhou para mim de um ângulo alto, por cima dos óculos. Batia as mãos com um ar de tédio, como alguém tirando o pó das palmas. Meu ímpeto era retalhar as páginas em pedacinhos. E era o registro de tudo o que havia de bom em mim, aprovado e publicado.  

Empurrei a cadeira para trás e levantei-me para ir embora. A uns quinze metros do bar, ouvi alguém chamando. Virei-me. Era ele.

— Moça! Ei, você! Desculpe!

— Tudo bem. Não me importei.

— Não quis dizer aquilo. Vou ler seu trabalho — havia pena de mim no sorriso de arrependimento pelo que fizera.

Usamos, agora, uma só mesa e ele leu o conto. Fiquei grata. Sentia minha força voltando, até que:

— Não sabe escrever. Você parte sempre da ótica da mulher.  

— Muito obrigada — falei sem saber o que dizer.

— Mas não faz julgamentos. Isso é bom — falou ainda sobre temperamentos. O som de sua voz, contido, sugeria zombaria, uma voz que falava ao meu sangue e aos meus ossos.

— Por que estamos brigando? — ele me ignorou.

— Eu posso ajudá-la — ele conseguiu afastar o constrangimento que pairava, sólido, com uma simples frase, a única que ali cabia, a única a preencher o oco. E acrescentou que o carro estava no estacionamento ao lado, e que poderíamos ir até um parque.

Ele já tinha dado a partida quando entrei, mas não esperou que me sentasse. Ainda zombando, soltou a embreagem. Fui jogada contra o assento, depois contra o para-brisa. Sua maneira de me mostrar como eu havia sido tola?

A grama estava macia. Ficamos sentados de frente para o lago e conversamos um longo tempo. Manuseava a revista no colo e me excitava ver seus próprios dedos movendo-se contra sua carne. Olhei furtivamente para ele. Pediu-me para abraçá-lo, eu o abracei. Ele me beijou. Sorri e toquei sua mão. Era quente, macia, morena com longos dedos. Aquilo me cegou, mas continuei sorrindo, pensando se poderia talvez escrever sobre aquela cena. Anotava tudo com a mente, imaginando tudo escrito ao longo de uma página, compondo, preocupada com os adjetivos em excesso.

Você mudou, pensei novamente o espreitando. Está diferente. De repente, eu estava entregue para fazer qualquer coisa. Algo como uma flor cinzenta crescia entre nós, que tomava forma e alertava. Eu não sabia o que era. Talvez pensamentos para serem escritos… e desejo.

Estremeci e me afastei dali rapidamente. Tomei um táxi.

Assim que cheguei em casa, sentei-me ao computador e escrevi. Despejei a história como deveria ter acontecido, chicotei-a com tanta violência que o teclado ia se afastando de mim e atravessando a mesa. Na tela, eu a espreitei como uma tigresa: imagens desbotadas; e eu conseguia ressecar as coisas, ainda mais, com minhas palavras. Ah, sou, isso sim, uma impostora barata; nem escritora, nem amante; nem peixe, nem inseto.

Deletei o arquivo. O vazio baixou e bati na cabeça com os punhos; tirei o travesseiro debaixo das nádegas doloridas e fugi para a cama.

ΑΩ

No final da tarde seguinte, andava para cima e para baixo no quarteirão do Café. Pelas vidraças, havia visto que ele estava lá. Ora, ao diabo! Posso ignorá-lo. 

Foi inútil. Eu tinha de vê-lo e não me importava como o faria.

— Quero falar com você – eu disse, puxando a cadeira.

— Por favor, não.

— Vou ficar – e fiquei ali horrorizada comigo mesma, sem entender por que estava fazendo aquilo.

Cafés, parques, cinemas, teatros e conversa jogada. A paz das semanas seguintes me parecia irreal; um hipnotismo que eu mesmo criara, porque significava estar viva, estar olhando para os olhos negros de Jorge Mesquita, confrontando seu desdém com esperança e uma lascívia descarada.

Uma sensação sendo alçada, densa e sufocante a cada movimento que ele fazia — o tórax inflando, o giro do pescoço, as mãos sobre a mesa, os dedos estendidos. Estas coisas me perturbavam, um peso doce e dolorido me arrastando para um estupor.

Até que o convidei para conhecer meu apartamento. Ali pertinho.

Jorge olhou para o meu quarto: então é aqui que vive. Eu o espreitava enquanto lia alguns escritos que eu colara nas paredes. Escarneceu de tudo, fazendo gestos com os dedos, retorcendo os lábios. Olhava para mim com intolerável desprezo. Cada segredo meu parecia exposto. Fiquei de novo à deriva, quando ele me denunciou:

— Isto é literatura! Você nada sabe. — disse erguendo o volume de Amar, Verbo Intransitivo, que estava no criado.

Tentei responder, mas ele me interrompeu, murmurando sobre o absurdo de se escrever coisas banais que o mundo nunca leria.

Por que ele viera? Sentiu minha pergunta, sentou-se na cama e sorriu para mim. Inclinou-se para trás, entrelaçou os dedos na nuca e falou sonhadoramente para o teto:

— Você vai me amar, minha escritora tola; sim, vai me amar.

— Espere aí, o que é isto? — eu me assustei.

— Que importa? O fim da estrada para nós dois é o amor. Esta festa é sua — seu cheiro forte, impregnava o ambiente, a tal ponto que eu era um estranha em casa. O hálito quente, os olhos tão grandes que refletiam minha cabeça. Ah, clichês! 

Antes que me desse conta, ele estava sobre minha garganta, contra minha pele, as pontas dos dedos na minha boca e me senti delirante de desejo — oh, Deus, que boca ele tinha.

Mais tarde, quando ele se vestia, eu vi a cicatriz. Ficavam perto do sexo, um sinal de nascença ou coisa parecida. Talvez uma queimadura, um local onde a carne havia sumido.

— O que… isso aí?

— Nada, uma bobagem disse se despedindo.

Sentei-me ao PC, dedilhando as teclas ociosamente. Havia uma sineta no fundo do meu pensamento, algo vago e inominável. Mas eu  perdia as palavras e tinha de digitá-las rapidamente ou jamais se formariam. Procurei, senti os dedos da mente tateando, não chegando a roçar no que estava lá me inspirando. Cansada, farejava o ar, pensando com inquietação no que tinha acontecido e buscando parágrafos que lhe desse semântica. Preciso é  dormir!

Acordei tarde. Saí para correr, passando por pessoas que pareciam estranhas e espectrais: o mundo parecia um mito, um plano transparente. Sentia que estava próxima da vida, mas nunca a concretizava…

Então me dei conta, como um choque e um trovão, como morte e destruição. Desejava outros encontros. Não me importava tivesse mulher e filhos ou vinte anos a mais do que eu. Eu possa lhe dizer do amor (que tive) / Que não seja imortal, posto que é chama / Mas que seja infinito enquanto dure. Eu lhe agradeço, Vinícius, por indicar-me o caminho.

E então, vivi um sonho; ou um fardo. Cozinhamos, bebemos vinho, tomamos chuva. As conversas não mudavam muito: um filme que perde a beleza na dissecação dos críticos, a procura de temas e mensagens nos livros, o nome das flores, as técnicas para se fazer isso ou aquilo. Deixei os comprimidos para emagrecer por alguns dias. Comprei um rosário novo. Despejei dez reais na caixa de esmolas. Compadeci-me do mundo.

Jorge se sobressaltava, um mal-estar contínuo, observa as pessoas, equilibrando instavelmente aqueles encontros furtivos. Não houve amanhã, o real foi se tornando amargo:

— Não posso. Minha mulher está doente.

— Todos temos de morrer um dia — pensei que seria delicioso mandá-lo embora; ele tão maravilhoso à sua maneira, e forçado a sair, porque eu mandei.

Talvez uma semana tenha se passado, talvez duas. Jorge voltaria. Escrevi algumas páginas e as deletei. Li alguns livros. Estava serena: ele voltaria. Seria à tarde. Nunca pensei nele como algo a ser cogitado à noite. As muitas vezes em que me encontrei com ele, nenhuma foi à noite.  

Em vão. Passei a lutar contra a memória, expulsando-o da minha consciência, arfando de ódio. E do desespero nasceu a ideia. A primeira sólida, encorpada e limpa, linha após linha, uma puxando a outra e outra, até que se constituíram um tecido. Uma história sobre aquele homem tomou conta de mim, assombrou meus ossos, escorreu de mim. Valorizei a sua cicatriz. Romanceei. Fragmentos de Jorge, fragmentos meus, já nos confundindo. Nosso mundo coberto de palavras, de frases ordenadas; páginas que se levantavam contidas, mas promissoras. Ah, Fernando Pessoa: O poeta é um fingidor…

A escrita andava com facilidade. Nem havia cogitação; as páginas simplesmente se moviam sozinhas, esguichavam como sangue, fixavam o tempo. Trabalhei, parando de vez em quando para reler cada linha, cada frase e cada parágrafo, concentrada na tarefa de colocar minha alma idiota em ordem. Páginas se amontoavam e eu estava feliz. Era isto.

Finalmente.

ΑΩ

Terminei a história, navegando com vento a favor. A revisão acabou e enviei o material para um concurso, e então a espera, a esperança. Rezei de novo. Fui à missa.

O milagre aconteceu. Aconteceu assim:  seu livro ficou com a primeira posição. Enviando contrato. Era tudo.

Fiquei parada diante do espelho, brandindo o punho em desafio. Apontei o dedo indicador selvagemente: e quanto a você, Jorge Mesquita, quero lhe mostrar quem sou.

Recebi meu livro. Ele pesava… O peso de uma coisa muito aguardada e fazia a tarde ficar alegre, levemente palpitante, excitada. A capa tinha cores crepusculares, um amarelo escuro destacado; as linhas eram estrias de sangue e as palavras, em todos os tipos, com letras simétricas, elaboradas.

Nada mais podia acontecer a mim. Minha vida começava. Google, jornais, outros prêmios, críticas positivas, entrevistas. Ayka Abreu mergulhada em seu primeiro romance. Minhas palavras, meu livro nas livrarias, em sites consagrados; talvez presunçoso, talvez intemporal, mas meu ainda assim. Nada para fazer dia e noite a não ser escrever e pensar em literatura: ah, ver o trabalho render, preocupar-me com ele e comigo mesma

Algum dia, eu teria tantas histórias escritas que nem me lembraria de onde foram publicadas. Outras editoras haveriam de me querer. Estaria rica. Uma ocasião para reparações, para endireitar o passado: presentes e dinheiro para minha mãe.  Podia vê-los, meus biógrafos, falando com minha mãe, uma senhora velha com prótese no joelho:

— Sempre foi uma ótima filha!

Durante meses, não vi Jorge. Liguei e marquei um encontro no café. Eu era uma romancista e importante, embora fosse eu quem o dissesse. O incitamento era para ele, era minha voz lembrando nosso caso. Não falei do livro nem do contrato. Quem se importa com uma publicação, mais um miserável romance?, ele me responderia.

Não pude esperar que ele chegasse. Peguei a caneta, abri o livro na folha-de-rosto e sobrescrevi:

A Jorge, com gratidão, Ayka.

Levei o livro uns metros para dentro da desolação, imaginando o comentário que ele faria:

— Bah! Outro chick lit. Pode até vender bem, mas não é Literatura.

Pedi à moça do caixa que o entregasse ao homem da foto que lhe mostrei e saí.

Meu Deus, aqui estou eu de novo, perambulando pela cidade. Olhava para os rostos ao meu redor e sabia que o meu era como o deles: drenados de sangue, tensos, perdidos. Rostos como flores arrancadas de suas raízes e enfiadas num vaso, as cores se esvaindo rapidamente, mergulhados numa névoa de sonhos (ou fardos), que preencheriam outras páginas.

Atravessei a rua e segui pela avenida, à sombra dos prédios. Havia tempos eu não andava daquele jeito e deixei-me ir, obediente, como uma criança que já não era. Sentia-me capaz de lidar com as dúvidas que me fervilhavam a mente, quando outra lição me atraísse.

Ergui a cabeça e, alheia às ciladas do futuro, sorri aberta para a vida.

21 comentários em “Fardos e Sonhos (Fátima Heluany)

  1. Daniel Reis
    19 de junho de 2021

    Escritora fantasia e vivencia sua metaficção, explorando os limites entre o que é real e de valor e o que é irreal e perigoso. Num relacionamento abusivo com a arte e com Jorge (seria o Borges?), amante e carrasco, ela traz da sua vivência e sentimentos a essência da sua escrita.
    Gostei muito desse conto, um dos meus preferidos, não só pela abordagem do tema, mas pela primorosa técnica de condução das cenas e personagens, e pela sensualidade e frescor que emana. As cenas mais hot, que até poderiam descambar para o mau gosto, mantém o nível da narrativa, sem apelar para metáforas frouxas. Parabéns!!

  2. Bruno Raposa
    19 de junho de 2021

    Olá, Ayka Abreu.

    Esse é o último conto que comento no desafio e se você der uma passada pelos comentários dos outros contos, verá que não me furto a ser honesto com minhas impressões e nem fujo do trabalho de destrinchar o texto quando julgo necessário. Dessa forma, me sinto bastante confortável para abrir o jogo aqui: não entendi lhufas.

    Em momento algum consegui separar o que é realidade do que é fantasia, o que até acredito que tenha sido sua intenção, mas essa confusão tornou a trama completamente sem sentido pra mim. Não sei que partes da relação entre Ayka e Jorge são reais, aliás, nem sei se Jorge é uma pessoa real. Todos os momentos em que eles estão juntos são estranhos, os dois tem comportamentos que parecem injustificados. O tempo inteiro eu estava duvidando dos acontecimentos.

    Se o enredo não me capturou, a escrita também não ajudou muito. As inserções de citações a autores famosos não me pareceram nada orgânicas e algumas metáforas destoam muito no texto, parecem saídas de outro lugar. A linguagem alterna entre um tom mais poético e outro bastante coloquial, não parece haver uma unidade narrativa.

    O final otimista não me pareceu um desfecho condizente com o que fora construído até então. Mas eu não entendi quase nada do que foi construído mesmo, então nem sei ao certo, rs.

    Enfim, não é um comentário que vá agregar muita coisa, mas é honesto com minha experiência de leitura. Inclusive, li mais de uma vez, mas não saí do lugar. Talvez a culpa seja minha, sei lá, rs. Mas realmente não consegui estabelecer comunicação com o texto.

    É isso.

    Desejo sorte no desafio.

    Abraço.

  3. cicerochristino
    19 de junho de 2021

    Acompanha uma escritora na construção de um romance e seu envolvimento com uma personagem que a inspira, não somente a escrever.
    Algumas reflexões da protagonista não soam com naturalidade, outras são naturalmente poéticas.
    O devaneio sobre o estupro soou deslocado. Entendi a intenção, mas talvez o recurso não tenha sido suficientemente explorado.
    No princípio do conto, se verificam passagens de pensamento da protagonista em itálico, que acabam desaparecendo no decorrer da narrativa. Isso prejudica a ideia de unidade da construção do texto. Falta força e impacto ao arremate do texto.
    Meus parabéns e boa sorte!

  4. opedropaulo
    19 de junho de 2021

    Esta é a minha primeira leitura neste desafio, certamente um ponto de partida animador para os outros textos que lerei. O primeiro ponto a ser comentado é a escrita, para o que atribuo um destaque pelo uso certeiro da primeira pessoa, que equilibra os sentimentos e reflexões da personagem com as ações e acontecimentos por que passa. Assim sendo, sua agonia pelo bloqueio criativo continua sendo sentida durante tudo o que acontece após sua ida à igreja, quando ocorre o encontro ambíguo com o sujeito de onde acaba extraindo a sua inspiração. Li uma boa parte dos comentários e encontrei neles uma recorrência da dúvida sobre o que foi real e o que foi imaginário nesse texto, alguns encarando a ambiguidade como propositada, outros enxergando um viés fantástico. Como os colegas, não consigo indicar com precisão o que aconteceu e o que não aconteceu e nem me atrevo, pois acredito que esta tenha sido a intenção. Em todos os encontros que a protagonista tem com o abusador ela é reduzida e desprezada, o que em proporção inversa, parece alimentar o seu desejo pelo algoz e o seu ímpeto para a escrita. Parece inverossímil, mas real ou irreal, há uma mensagem clara de que essa escritora em questão extrai a sua inspiração e, consequentemente, satisfação, daquilo que a destrói. Ou seja, trata-se de uma artista com um método criativo autodestrutivo. Então não importa se aquilo foi vivido ou imaginado, o que importa é que o livro finalmente saiu e fez sucesso – embora também tenha lido uma interpretação em que essa parte também teria sido imaginada.

    Então este conto dá em uma leitura intrigante e distinta, entregando um texto muito bem redigido a respeito do processo criativo em que a autodestruição é a força motora e a satisfação é a verdadeira ilusão.

  5. Luis Fernando Amancio
    18 de junho de 2021

    Olá, Ayka!
    Seu conto contempla bem o tema artes, sendo abordada a literatura. Não bastasse a protagonista ser uma escritora, você também traz referências literárias ao longo do texto. Talvez isso tenha sido um cuidado, um reforço para ninguém dizer que seu texto não se adequava ao tema. Em todo caso, as passagens são bem costuradas e dialogam com sucesso com o tema do conto.
    Aliás, meus parabéns! Sua escrita é rica e dinâmica: delicada em alguns momentos e vigorosa em outros. A leitura é agradável e demonstra uma autora (ou autor) experiente, que tem o devido cuidado na construção do texto.
    O conto, em si, também me agradou. Suponho que encontraremos mais textos sobre artistas em crise criativa (é um tema bem recorrente na literatura). Há passagens confusas, mas creio ser uma escolha de estilo, essa mistura de sonho e realidade.
    Achei a conclusão um pouco apressada. Após a relação com Jorge, as coisas encaminham de forma um pouco precipitada para a Ayka (escrita, vitória no concurso, publicação, sucesso editorial). Claro, talvez seja apenas um sonho, como entrega o título. Como isso não fica claro, a hipótese de ser o que aconteceu com a personagem é pouco convincente. Quem conhece o mercado literário sabe como as coisas são lentas e que dificilmente uma obra de chick lit venceria um concurso.
    Aliás, é interessante sua construção do Jorge, essa representação da masculinidade que diz o que é de valor e o que não presta. Seu texto, além de uma leitura agradável, é inteligente.
    Parabéns, outra vez, e sucesso no desafio!

  6. gisellefiorinibohn
    18 de junho de 2021

    Olá, Ayka!

    Eu não sei muito bem como comentar este conto. Parecia ir pra um lado, acabou indo pra outro, e, no final, ao menos pra mim, morreu na praia.

    As inserções de trechos de outros livros ficaram boas. Achei também muito interessante a premissa, afinal, muitos de nós aqui também lutamos frequentemente com a falta de inspiração.

    Então pensei que esse seria – ou deveria ser! – o caminho a seguir: o que é, de fato, literatura?
    E aí, do nada, o conto vira um romancinho. Me perdeu. Explico por quê.

    A forma da narração não foi muito feliz, ao menos pra mim. A cena do estupro na igreja ficou muito confusa. Ok, era uma artimanha pra ter sobre o que escrever, mas não gostei do jeito que foi feito; faltou sutileza nessa transição entre fantasia e realidade. A maneira como a ação continuou dali ficou mais confusa ainda. A construção da relação dos dois protagonistas não foi, na minha opinião, bem construída. Os diálogos e as reações dos dois me pareceram totalmente forçados. Por exemplo, quem se oferece pra autografar uma revista sem o outro sequer pedir? E que negócio é esse de “por que estamos brigando?”, quando acabaram de se conhecer e ele ainda a chamava por “moça”? E ela pensar “ele está diferente”. Diferente do quê, se ela nem o conhecia direito?

    Sei lá, todo esse romance me pareceu meio sem pé nem cabeça, e acho que diluiu a boa premissa inicial. Mas eu tenho que admitir que não gosto de romancinho, pra começar, então talvez o problema aqui seja meu, não do conto.

    Há algumas frases de grande impacto, que se destacam, mas eu juro que tive dificuldade em compreendê-las no contexto. Por exemplo, neste trecho:

    “— É uma história de amor, não é? Odeio — colocando a revista fora de vista, olhou para mim de um ângulo alto, por cima dos óculos. Batia as mãos com um ar de tédio, como alguém tirando o pó das palmas. Meu ímpeto era retalhar as páginas em pedacinhos. E era o registro de tudo o que havia de bom em mim, aprovado e publicado.”

    “Batia as mãos com um ar de tédio, como alguém tirando o pó das palmas”: uma frase marcante, mas que sentido teve ali entre as orações que a precedem e a seguem?

    Há também algumas partes que me deixaram “Ahn?”, como a menção à cicatriz. Qual foi a relevância disso no texto? Fiquei esperando a justificativa.

    Mas há algumas partes boas, em especial as reflexões sobre literatura. A melhor foi esta:

    “E pare de mentir para si mesma, porque você sabe que aqueles contos de antologias não prestam e nunca vão prestar.”

    Concordo plenamente! 😊

    Parabéns e boa sorte no desafio!

  7. Fabio D'Oliveira
    15 de junho de 2021

    Antes de qualquer coisa, acho justo esclarecer o método de avaliação que aderi nesse certame. Serão três fatores: artístico, técnico e criativo. Não estou participando do desafio, mas decidi ajudar a movimentar os comentários!

    ARTÍSTICO

    Arte é uma coisa complicada. Além de comunicação, também é expressão.

    A abordagem do tema é sutil, mas bem desenvolvida. A narradora não demora em afirmar que enxerga a literatura como uma forma de ganhar dinheiro, porém, internamente, ela deixa escapar o desejo de transbordar arte.

    Pode não ser uma abordagem original, mas ela está bem executada, amadurecendo no decorrer do conto. Uma viagem de autodescoberta, digamos, nesse caso: do eu-escritora dela.

    Quanto ao valor artístico do texto, como obra de arte em si, ainda está um pouco longe de ser algo que encanta qualquer leitor. Como alguns apontaram, há problemas técnicos que impedem isso. Mas isso dá pra resolver com o tempo, prática e estudo.

    Sobre a imagem, ela não passou a impressão de ser profissional, tirando um pouco do impacto dela. Além disso, poderia ter usado a liberdade de usar mais imagens, até vídeos e músicas, para expressar algo além das palavras.

    TÉCNICO

    Precisa amadurecer um pouco mais.

    Sua escrita está bem encaminhada. Alguns trechos são sensacionais, mostrando um grande potencial, como a abertura. Porém, em alguns momentos, parece que a qualidade cai, formando algumas frases estranhas, usando termos que criam neblinas ao invés de esclarecer, etc. Destaco o trecho da igreja, onde acontece o estupro fantasioso. É uma parte bem confusa.

    Tenho uma sugestão simples: tenha mais calma.

    Escreva devagar, lapide inúmeras vezes, sem tropeçar em si mesma. É um texto com alguns erros bobinhos, de concordância, algumas trocas de tempo verbal, pontuação duvidosa, etc. Coisa que resolvemos com uma revisão mais cuidadosa. Seja paciente. Escrever é a arte da poda.

    CRIATIVO

    É uma boa história.

    Não estou comparando, mas lembrei-me um pouco de “Pergunte ao Pó”. Com exceção do final otimista, o conto transborda uma toxicidade que é rara de encontrar. Eu gosto de textos ácidos. Então, naturalmente, senti-me atraído pela maior parte da leitura. Achei o final bobinho e muito idealizado, sonhador mesmo, o que me afastou um pouco, dada a dureza abordada anteriormente.

    Relacionamentos tóxicos são ótimos motores para histórias.

    CONSIDERAÇÕES FINAIS

    O conto é bom.

    Alguns fatores me incomodaram, como mencionei acima, mas não é possível tirar seu mérito: você tem um futuro legal na escrita, se insistir nisso. É criativa, está com a escrita bem encaminhada e brilha em alguns momentos.

    Parabéns pelo trabalho e boa sorte no certame!

  8. Luciana Merley
    8 de junho de 2021

    Fardos e sonhos

    Apesar de não ter gostado nada do título (achei bem ingênuo), o texto me surpreendeu demais e gostei bastante. O impacto negativo do título foi tanto que passei por ele enquanto primeiro conto e fui para outras bandas, tamanho o desânimo que representou. Vamos aos detalhes:

    Coesão – Processo criativo, escrita, inspiração, arte enquanto representação da vida, arte mercadológica (arte???). São todas conclusões possíveis sobre o cerne do seu texto. Numa linguagem bastante esperta, inteligente, de um humor cínico, sem amarras…você foi tecendo um enredo nada previsível e bem interessante. Outras palavras que figuram no topo das sensações para seu texto é sexo e desejo. Mas tudo isso conectado à necessidade que a personagem (muito bem construída) tem de criar algo, qualquer coisa para atender a uma demanda, uma vaidade, porque não dizer. E é nesse ponto que seu texto fomenta a velha e quase desgastada discussão: Arte ou não arte. Bem, não serei eu a entrar nisso. Foco apenas no que você nos apresenta aqui. Acho que a cena na igreja tem um grande potencial, desde que você a reescreva no sentido de eliminar a dúvida. Eu entendi claramente que ela começou a imaginar um estupro para escrever, mas esse dúvida tira a energia do texto sem necessidade, a meu ver.

    Ritmo – Texto ágil, esperto, corrido como os pensamentos e sentimentos dela, confusos, por vezes, logo, um ritmo muito adequado. Não poderia ser outro. Lembrou-me um pouco o estilo do conto Cat Person (o de 1 milhão de dólares)…quem sabe hein? Se levar pra “América”, quem sabe.

    Impacto – Como disse, surpreendeu-me muito positivamente. Um texto excitante, em todos as definições da palavra. Diria que é um erótico muito bem escrito, passando longe do vulgar. Conseguir o equilíbrio nesse tipo de escrita é muito difícil. Portanto, parabenizo demais você.

  9. Fheluany Nogueira
    8 de junho de 2021

    Escritora ansiosa pelo sucesso, as idas e vindas da sua inspiração (O exercício mental do estupro, dentro de uma igreja, até para ela mesma soou demais: “não posso embarcar nessa”.)

    O tema do desafio está bem explorado: a criação e o bloqueio, a qualidade literária e a obra mais comercial, a valorização do artista, a comparação com outros, a satisfação pessoal, e…

    Um texto faz refletir, mas é leve e divertido. Estilo e linguagem se fundem nas tentativas desvairadas para alcançar o objetivo da protagonista.

    Escrita é ágil, fluida, envolvente, os diálogos soam naturais. As citações ficaram divertidas da forma como foram encaixadas.

    Parabéns pelo trabalho e boa sorte! Abraço.

  10. Fernanda Caleffi Barbetta
    7 de junho de 2021

    Fardos e Sonhos (Ayka Abreu)

    Olá, Ayka,

    Gostei da sua escrita, fluida, envolvente, com bons diálogos. Achei uma boa sacada a citação de alguns escritores, como Clarice e Rubem Fonseca, uma vez que a protagonista fala da escrita e o tema é artes.

    Algumas construções soaram estranhas, como “olhou para mim de um ângulo alto, por cima dos óculos”, poderia ter dito apenas Olhou para mim por cima dos óculos…

    A cena da igreja ficou confusa. Ela estava sentada, as pernas cedem e ela cai de costas? Sem poder se mexer ela vê os olhos do homem por trás dos óculos? braços em ângulo contrário?
    “e a deixou-me ali violada”
    Na minha opinião não fez muito sentido ela ter sido estuprada e a forma como agiu ao encontrar o mesmo homem no café.

    Há alguns cortes de cena bruscos. As divisões em partes nem sempre fazem sentido.

    “falava comigo mesmo” (mesma)

    “— Por que estamos brigando? — ele (Ele) me ignorou.”

    O vazio baixou – ?

    que eu mesmo (mesma) criara

    era um (uma) estranha

    Ficavam (Ficava) perto do sexo

    parágrafos que lhe desse (dessem) semântica.

    • Luciana Merley
      8 de junho de 2021

      Fê, claro que o texto não é meu, mas ela não foi estuprada de verdade. Apenas imaginou isso acontecendo quando ouviu o Toc Toc. Puro exercício literário da mais tarada imaginatividade (kkkkk)

  11. Jorge Santos
    7 de junho de 2021

    Olá. Este é o primeiro texto que leio neste desafio das artes e senti-me numa estranha matrioska literária: tenho de escrever um comentário sobre um texto onde se comenta um texto e onde se narram as inseguranças e vicissitudes de uma escritora a iniciar carreira. Revi-me nesta luta e só agora percebi por que razão evito ir à igreja. Faltou um passo que tive de dar para publicar o meu primeiro livro: o de pagar a uma editora do chamado “vanity publishing”. O resultado final ficou bastante bom e recuperei o investimento, mas senti-me um prostituto de luxo. Adiante. Gostei do seu conto. Está bastante real e vê-se a experiência, tanto na escrita como nas situações descritas (espero que nem todas). Achei interessante o recurso à capa do livro e ao separador dos capítulos, formado com as iniciais do pseudónimo. Revela, ao mesmo tempo, criatividade e experiência. Senti apenas que o desfecho poderia ter sido menos previsível e mais impactante.

  12. Kelly Hatanaka
    5 de junho de 2021

    Olá Ayka.

    Gostei muito do seu conto. É um bocado dolorido e bastante visceral.

    Como a primeira informação que temos da protagonista é que ela mente, passei a leitura toda sem saber o que era real e o que era a imaginação/fantasia dela. Tudo é dúvida, até a existência do Jorge é incerta para mim. O que achei muito bom. A leitura parece o passeio por um sonho. Vale o registro dos sentimentos e das sensações, muito mais do que o racional.

    A escrita é muito correta e fluida, é facil de embarcar na história.

    É uma história simples, sobre bloqueios criativos e a dificuldade de produzir. Mas está longe de ser banal.

    Parabéns!

    Kelly

  13. Elisabeth Lorena
    5 de junho de 2021

    Fardos e Sonhos (Ayka Abreu)

    Olá.
    Seu texto é assustador. Há a construção da ideia do que é arte e do que é produto e gosto disso nesse personagem. Gosto de quem é sincero e diz: “escrevo para ganhar dinheiro e não estou nem aí para perpetuar meu nome. Quero mesmo é ouro”.
    Sobre Texto, estrutura, personagens, espaço, tempo e linguagem, vamos lá: O texto convence. Principalmente nessa busca pela história que vai vender e nesse anseio quem narra vai mostrando sua construção usando a realidade como enredo inicial e exagerando nas pinceladas de fantasia. Bem doente e por isso mesmo, válido. Gosto desse pensamento megalomaníaco de ver a obra pronta, vendida, fazendo sucesso, arrumando problemas para as pessoas envolvidas e depois solucionar mostrando que é só uma espécie de crise de ansiedade. Um sofrimento ébrio de realização que não existe de fato.
    Em estrutura, é um conto. Longo e pesado, com ideias desconexas que combinam com a inspiração maluca da narradora. O bloqueio criativo é, a princípio, o subtema, mas quando a narrativa vai se abrindo, aparece a questão do que é arte e do que se pode escrever relacionando pessoas reais com ficção e quais seus perigos. Mesmo que esse não se estenda, percebe-se a que vai e como isso acabaria se não surgisse a ideia de que o livro nem existiu. Muito bom.
    Espaço e tempo misturam-se na realidade versus fantasia que a inspiração tresloucada, sem no entanto desestruturar o texto, afinal, é nisso que está a beleza da história aqui contada.
    Personagens totalmente críveis e bem elaboradas.
    Linguagem bem centrada na loucura da busca pela escrita. A busca pelo texto ideal vai moldando tanto o conto quanto a procura da narradora.
    As frases de professor de escrita de internet são muito engraçadas e fixei nesta: “Vá com calma, saia e aprenda nas ruas. O mundo está cheio de vida. Observe. Momentos rendem páginas. Precisa de um empurrão. Precisa de dinheiro.”
    E a narração é bem centrada na loucura e no exagero, tanto que aqui, ao utilizar uma redundância cria uma poética própria, elucidativa “com uma simples frase, a única que ali cabia, a única a preencher o oco. “Li rindo, imaginando alguns artigos que leio e vejo esse tipo de artifício. Um plano de significados rasos com uma pele de lirismo forçoso e que aqui, dá todo o espírito dessa escrita exacerbada que a narradora nos conta que faz.
    A parte da violação na igreja deu um ódio, porque abre uma ferida social conhecida e que no momento está de novo nas acusações e investigações das páginas policiais brasileiras. E depois, descobrir que é só fantasia traz alívio por um lado e raiva por outro. Também é interessante esses gatilhos psicológicos e sociais.
    Ainda no plano da linguagem há até algumas apostas filosóficas interessantes e achei uma bem marcante: “Sentia que estava próxima da vida, mas nunca a concretizava…” Isso é vida real pura!
    Quando a ideia do desbloqueio enfim se dá, a definição não poderia ser melhor: “Nem havia cogitação; as páginas simplesmente se moviam sozinhas, esguichavam como sangue, fixavam o tempo.” Perfeito.
    A descoberta da liberdade pós livro escrito é também muito interessante. Parabéns!
    Enfim, a linguagem de acertos bem interessantes. A escrita levou em consideração o campo dos sentidos em todos os pontos abordados. É uma colcha de retalhos que deu certo e que deu o acabamento perfeito à junção de real (fardos) com a fantasia representada pelos sonhos no nome do conto.
    Sucesso no Desafio.

  14. Regina Ruth Rincon Caires
    28 de maio de 2021

    Fardos e Sonhos (Ayka Abreu)

    Comentário:

    Li e reli. Texto denso, a mistura de realidade e fantasia exige, do leitor, atenção redobrada (astuta). No começo, imaginei que o texto fosse “feminino”. Ao final, aposto todas as fichas na possibilidade de que foi escrito por um menino (“falava comigo mesmo”).

    Escrita de sensibilidade incomum, extremamente intimista, e o autor consegue descrever a trama de maneira tão competente, que o leitor caminha ao lado. Leitor e personagem respiram juntos, e o encanto se completa quando, ambos, passam do real para a fantasia. E retornam…

    Há deslizes de escrita, creio que parte disso se deve à alteração do texto sem reler a frase. Acontece. Uma cuidadosa leitura em voz alta, geralmente, faz com que a gente perceba as “trocas”.

    Interessantíssima a sua ideia de explorar o tema do desafio justamente com literatura, muito criativo!

    A sua maneira de escrever é cativante, frases curtas, diretas, e a dinâmica utilizada prende a atenção do leitor. Há um desejo enorme de seguir a leitura e conhecer, na íntegra, o seu texto. Muito legal!

    E o que mais me encantou foi a sua lida fácil com as “doiduras” do pensamento. As fantasias são fáceis de aparecerem na mente de todos, mas colocá-las no papel, e com sentido, é coisa de gente experiente, e você fez isso brilhantemente. Escritor é doido, ser doido é fácil, difícil é “escrever” o que o doido pensa!

    Ayka Abreu (Aiko?), você fez um lindo trabalho, buliu com a consciência e a doideira de modo cuidadoso. Parabéns! Obrigada pelo presente!

    Boa sorte no desafio!

    Abraços…

  15. Mauricio Piza (@mtplopes)
    28 de maio de 2021

    Bom trabalho e bem escrito. Ao contrário do Thiago que imaginou que a cena do estupro poderia ter acontecido, e que ela seria a única fantasia, eu li a história pela primeira vez como uma sequência de fantasias. Depois da cena do estupro todas as situações me deram a sensação de serem fantasias. Inclusive o livro, o sucesso final e o novo perambular pela cidade.
    Quando reli pela segunda vez vi que isso não está tão declarado no texto assim, existem outras leituras possíveis. Como a do livro ser real, mas as situações que o geraram não, e assim por diante.
    Na verdade, depois da fantasia do estupro e do telefonema em que a personagem/autora se declara uma mentirosa para a mãe, ela passou a ser uma narradora não confiável. O resultado é que isso gera uma ambiguidade bem interessante no texto, com muitas combinações possíveis.
    Nesse momento o conto virou uma brincadeira com o próprio ato de escrever, e o autor virou personagem e depois autor e tudo se transforma em um jogo de espelhos. Brincando com Pessoa: O autor é um mitômano. 🙂 Tudo com uma boa dose de farsa e melodrama, e as citações colaboram com esse resultado.
    Muito bom.
    Parabéns e boa sorte.

  16. Anderson Prado
    27 de maio de 2021

    Olá! Tudo bem?

    Seguindo os passos da melhor revisora de todos os tempos, a dileta Claudia Roberta Angst, farei considerações sobre seu conto na forma de A-R-T-E:

    A = A arte em si = A arte aparece com sucesso no conto: conhecemos os dramas de uma escritora de romances de entretenimento.

    R = Razões para ODIAR o conto (porque sou desses) = Achei confusa a cena da igreja: não compreendi a maneira como ela se encaixa no tempo.

    T = Trabalho de escrita/narrativa = A escrita é boa: está bem encaminhada.

    E = Então, autor[a] = Achei a investida corajosa: algumas passagens beiram o vulgar, causando desencanto.

    Parabéns pela participação e boa sorte no desafio!

  17. Leonardo Philipe
    26 de maio de 2021

    Olá, Ayka! Obrigado por compartilhar Fardos e Sonhos conosco ❤

    Logo nas primeiras frases consegui identificar os sentimentos que talvez tenham motivado a criação do conto: excesso de autocobrança, medo de falhar, síndrome da perfeição; todos males que afligem muitos artistas (principalmente os amadores) da contemporaneidade.

    Cada trecho do seu conto é visceral porque ele consegue transmitir o quanto é doloroso este processo da busca por validação social/comercial da nossa arte.

    – PONTOS POSITIVOS: escolher frases curtíssimas foi uma ótima decisão, pois cada ponto final representa algum sentimento, sem espaço para frases ao acaso.

    Gostei bastante da confusão entre fatos e imaginação, fez valer o contraste do título "Fardos e Sonhos".

    "E era o registro de tudo o que havia de bom em mim, aprovado e publicado." Foi a frase que mais me marcou. Quantas vezes não damos valor ao que produzimos simplesmente porque a validação externa nunca veio?

    Ótimos elementos no final: a metalinguagem; o sentimento de liberdade que a personagem conquista na última linha é catártico.

    – CONSIDERAÇÕES: a única coisa que deixou a desejar foram algumas sequências redundantes. Cito uma como exemplo:

    "com uma simples frase, a única que ali cabia, a única a preencher o oco."

    Entendo que o uso do último trecho deste fragmento pode ser um artifício para enfatizar o sentimento, mas como é um recurso que foi utilizado mais de uma vez ao longo do conto, ficou um pouco repetitivo.

    Parabéns! ☮

    ~Dúvida aleatória: ΑΩ representa Alfa e Ômega?!~

  18. claudiaangst
    24 de maio de 2021

    Olá, Ayka, tudo bem?
    Farei considerações sobre seu conto na forma de A-R-T-E:

    A = A arte em si = O conto abordou a literatura e o processo criativo relacionado às experiências pessoais da protagonista. Tema do desafio inserido com sucesso.

    R = Revisão = Algumas passagens pareceram um tanto confusas, mas acredito que tenha sido proposital para mesclar o que era real e o que era fluxo de consciência da escritora/protagonista.
    – “e a deixou-me ali violada” > e a deixou ali violada OU “e deixo-me ali violada”. pode ter sido proposital incluir os dois pronomes como se fossem duas pessoas, mas ficou estranho.
    – “e me excitava ver seus próprios dedos” > “e me excitava ver meus próprios dedos” > aqui, novamente, aparecem dois pronomes distintos – ora ela fala de si mesma, ora da outra [personagem do seu romance?]. Se a intenção foi a dar a ideia da divisão psicológica da narradora foi um recurso bem ousado e muito ariscado.
    – “eu vi a cicatriz. Ficavam perto …” > “eu vi a cicatriz. Ficava perto…”
    – “parágrafos que lhe desse semântica” > “parágrafos que lhe desseM semântica”
    – “observa as pessoas” > “observaVA as pessoas”

    T = Trabalho de escrita/narrativa = O bloqueio criativo da escritora faz com que ela busque experiências no seu dia a dia para compor narrativas. Nessa procura, ela confunde realidade e fantasia, tornando-se também personagem do próprio potencial romance.
    Senti que a inspiração surgiu de forma violenta [como a cena do estupro na igreja – a violação em solo sagrado – o contraste entre o profano e o sacrossanto], como se tivesse de possui-la à força, arremessá-la uma realidade bastante hostil. A inspiração e o processo de criação surgem da brutalidade, do destrato emocional, e somente quando Jorge a deixa de lado , a moça consegue escrever o tal romance sonhado.
    A inclusão de citações de escritores famosos não alterou muito a leitura no meu ponto de vista, não ajudou nem atrapalhou.

    E = Então, autor[a] = Percebi a proposta para uma discussão sobre o que pode ou não ser considerado como literatura. A narradora/protagonista não defende a sua obra como sendo literatura, deixa claro que para ela o importante é ter sucesso e vender seu trabalho. E ela estando satisfeita com o resultado, o que mais importa? Dane-se Jorge e o seu intelectualismo.

    Parabéns pela participação e boa sorte no desafio.

  19. antoniosbatista
    24 de maio de 2021

    Ambientação= Como a literatura é uma arte, qualquer conto é literatura? Depende do conto, da escrita.

    Escrita= Bom domínio na construção, boas frases, embora com alguns clichês. Inclusive fazendo citações sobre escritores, que eu não acho ruim, nem errado.

    Enredo= Gostei em parte. Há mais fantasia do que realidade na questão de criação literária, o sonho de publicar o primeiro livro, na questão do bloqueio criativo. Até o personagem faz suas críticas, dizendo que não é Literatura o que a protagonista escreve. Como se a própria autora não confiasse muito no que está escrevendo. É um bom conto, sim, não estou sendo incoerente, apenas apontei os aspectos positivos e os negativos.

    Considerações Gerais= Achei que algumas partes parecem confusas, pois há trechos em que a narradora mistura fantasia com realidade. Comparei com o estilo de Federico Felini em fazer filmes, misturando realidade e fantasia. Também notei alguns clichês de narrativas francesa com os personagens conversando justamente, numa cafeteria francesa. (!)

  20. thiagocastrosouza
    24 de maio de 2021

    Resumo: Escritora tenta escrever romances pop, se envolve com um homem e, a partir de suas experiências, têm sucesso na sua primeira publicação, encontrando, inclusive, a felicidade.

    Considerações:

    Belo conto, com sustância. A aflição da personagem com o bloqueio criativo é o caminho que guia a narrativa, pois nas tentativas de se provar escritora, de recolher material, é que ela experiência os temas de sua escrita. Acho que o conto também se propõe a discutir o que é “arte”, de fato, mais especificamente, o que é boa literatura? Na pedante figura de Jorge, vemos a protagonista ser questionada constantemente sobre o seu trabalho, sobre o que gosta de escrever e o que pretende alcançar como autora. Literatura, para Jorge, é o cânone, os intocáveis, o resto é descartável, é clichê, é kitsch. Ao final, quando a autoestima de Ayka está nas nuvens, creio que a autora vai contra essa visão: ainda que o tema do romance e seu estilo seja simples (na visão do homem), popular, “literatura de entretenimento”, ou outras categorias que vemos por aí, o que vale é a caminha pessoal atravessada pela autora, sua realização enquanto ser humano, suas aspiração, percebida através da arte. Nesse ponto, o conto está perfeitamente adequado para o desafio.

    Fiquei na dúvida sobre a cena do estupro, se foi real ou exercício mental da protagonista. Pelo fato deles terem se encontrado depois, creio que a segunda opção esteja correta.

    Parabéns pelo ótimo trabalho!

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Publicado às 24 de maio de 2021 por em Artes e marcado .
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