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Detox Literário.

Cerco de água – Conto (Simone Mattos)

Ah, se eu pudesse voltar atrás, ao porto seguro da minha juventude, jamais escolheria a vida no mar. Afastar-me-ia deste cerco de água e horizontes monótonos, onde o tempo corre para envelhecer o corpo e se arrasta para enlouquecer a mente. Em noites como esta, a escuridão também invade meu espírito. Já não suporto sentir a névoa salgada e o movimento da marés até nos fluidos do corpo, e ouvir o barulho seco da proa contra a correnteza. Não fossem as lembranças das ondas macias dos cabelos de Madalena, eu me jogaria daqui e me deixaria engolir pelo oceano. Abreviaria a viagem.

Equilibro-me, apertando o corrimão enferrujado do convés, sentindo que o sacolejo revira meus pensamentos e traz imagens para a superfície. Posso jurar que ouço sussurros e a vejo girando no ar, cercada de luz, com cabelos soltos e um vestido amarelo esvoaçante, tocando a ponta dos pés descalços nas ondas mais altas. Estou a um passo de alcançá-la. Ela me estende os braços. Eu me debruço no parapeito e sinto o perfume de flor cada vez mais intenso.

 ― Ouvindo o canto da sereia, marujo?

As vozes e as gargalhadas dos outros tripulantes me trazem de volta. Estão numa roda no piso superior em frente ao passadiço, dividindo cachaça pura. Transformam o convés em palco, em confessionário e, vez ou outra, em ringue. Nunca me misturei com eles, nem a bordo, nessas bebedeiras, nem em terra, nas orgias dos portos.

Madalena uma vez me perguntou sobre aventuras que afogam a solidão dos marinheiros, mas antes que eu jurasse fidelidade, ela disse:

 ― Não! Não me conte, nem me esconda, só esqueça.

   Recolho-me agora para me proteger do vento que arranha narinas como lascas de gelo. Deito numa das camas estreitas da cabine coletiva, observando a fumaça do cigarro se espalhar. Conto nos dedos os pequenos que sustento em terra e que não vi nascer. Gosto de pensar que são todos meus, mas não posso afirmar, embora Madalena seja ardente nas minhas chegadas e chorosa nas partidas.

Eu visito de olhos fechados meu lugar, minha felicidade. Passo por cima da cancela de madeira, como fazem as crianças. Atravesso o jardim pelo caminho de cimento cru. A porta está aberta e há uma vela acessa no oratório ao lado do meu retrato. Vejo os bibelôs de vidro barato, que ela trata como se fossem fino cristal, bem arrumados sobre a mesinha de centro. Passo pelo corredor até nosso quarto. A cama larga ainda está coberta pela colcha bordada por ela, ponto a ponto, com linha amarela, durante minhas longas ausências. Lembro de seu pedido na última despedida, ela quer sementes de girassol para encher de amarelo os canteiros.

E se ela pudesse voltar atrás? Pergunto-me se faria a mesma escolha, um homem que não aquece sua cama por meses a fio.

Agora, as vozes do lado de fora se tornam mais altas e agressivas. De certo, não há mais alegria na roda dos embriagados. Já vi cenas assim outras tantas vezes, xingamentos e pancadaria. Não vou deixar este canto quente para apartar briga, pelo menos até terminar o maço e dar a última baforada.

Gritos de “homem ao mar a boreste” me fazem correr para o convés.

Ali eu encontro olhos atônitos. Alguns usam lanternas de mão na direção da água, outros chegam com binóculos, outros lançam boias de emergência. O oficial de máquinas está sentado num canto com o rosto escondido entre os joelhos.

― Quem foi? ― eu pergunto.

― O Bastião  — alguém me responde.

Eu bem sei, os outros também, que mar aberto engole rápido e não devolve o corpo. Ainda mais naquela noite sem lua e de mar agitado. Não pergunto como aconteceu o infortúnio, mas eles se apressam em relatar.

―  O infeliz pulou. Foi muito rápido. Enlouqueceu.

Ainda há muita água pela frente, uma eternidade, então adiro ao silêncio cúmplice.

O comandante aparece entre nós. Parece muito assustado. Ele escuta de várias bocas a história do suicidio. Ordena que desacelerem o navio, que acendam todas as luzes, e que tentem iluminar os arredores com holofotes. A manobra de retorno ele não mencionou. Sabemos que além de arriscada seria em vão. Depois de algum tempo, ele pede que o telegrafista dê ciência do ocorrido à capitania. A notícia também chegará à família do Bastião. Em seguida ele determina que nas primeiras horas da manhã façamos a solenidade fúnebre. Agora todos devem se recolher. Essa é a ordem. O grupo de abatidos se dissolve, mas eu desobedeço. Fico no convés pensando no desamparo da viúva. O que será dela? Capaz de aceitar assédio para sustentar os filhos.

Lembro do desespero da minha mãe quando meu pai não voltou de uma pescaria em dia de tempestade. Foi naquele dia que eu decidi entrar para a Marinha, pois era sonho dele me ver de farda.

Puxo bem fundo o ar gelado e volto a pensar em Madalena. Ela ainda tem a mim. Sempre voltarei. Mais velho ou talvez adoentado do corpo ou das ideias, eu voltarei para ela.

As máquinas voltam com toda a força, deixando para trás uma verdade submersa. Encomendo aos céus a alma recém-liberta, com a cabeça inclinada e as mãos unidas à frente dos lábios trêmulos. Meus olhos perdidos no escuro profundo me mostram um brilho longe que se aproxima no sentido contrário à rota do navio. Cresce e toma forma de silhueta masculina. Os passos largos sobre a lâmina de água, como se pisassem em terreno firme, aos poucos revelam sapatos brancos, calça de vinco marcado, camisa abotoada até o pescoço, cabelos bem cortados escondidos pelo quepe, rosto com barba bem feita e um sorriso largo de quem está regressando para casa.

O frio congela minhas palavras, mas grito em pensamento.

― Se puder, Sebastião, passa também na minha casa, a amarela do final da rua do cais, e deixa no ar esta maresia, que é pra Madalena se lembrar de mim.

4 comentários em “Cerco de água – Conto (Simone Mattos)

  1. antoniosbatista
    30 de abril de 2021

    O que eu gostei mais foi do jeito que a história é contada. Muito boa escrita, descrições, conexões frasais carregadas de emoção;.

    • Simone
      2 de maio de 2021

      Obrigada! Fico feliz que tenha lido. Abraço!

  2. Elisabeth Lorena
    29 de abril de 2021

    Que triste, Simone.
    O mar ilude e enlouquece tanto quanto seduz e inspira. A mesma solidão que cria as melhores artes destrói planos e sonhos inimagináveis. Pobre bastião, não suportou seu tormento e sucumbiu.
    Seu conto me iludiu bem. Por algum tempo pensei que toda a ação estava posta no narrador justo porque ele se apresenta como diferente. Depois, quando uma personagem sem nenhum vínculo comigo se lança ao mar, as divagações que poderiam levar aos desfechos imaginados por mim no processo de leitura voltam ao âmbito simples da saudade. E, para coroar minha nova percepção a alma de Bastião se em seu novo corpo e recebe a honrosa missão de ir mexer com a saudade/amor de Madalena.
    Para minha leitura a aceitação das supostas traição da mulher era apenas uma incursão introspectiva sobre sua vida e seus laços e, por acaso, Bastião se mata.
    Foi uma sacada bem feita, enredo e narrador muito bem construídos.
    Parabéns

    • Simone Mattos
      29 de abril de 2021

      Obrigada pela leitura e comentário Elisabeth Lorena. Você é gentil. O conto nasceu das minhas lembranças dos relatos do meu pai sobre a vida no mar.
      Abraço!

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Informação

Publicado às 29 de abril de 2021 por em Contos Off-Desafio e marcado .