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Detox Literário.

O aniversário – Conto (Elisabeth Lorena Alves)

No dia anterior, comprei tudo o que precisava para fazer um bolo, alguns brigadeiros, uma torta e sanduíches para a pequena comemoração.

No dia, preparei tudo. Bolo enfeitado, brigadeiros enrolados, torta pronta na geladeira. Refrigerantes gelados. Deixei a mesa pronta. Tudo perfeito, esperando que todos chegassem para que cantássemos “parabéns” e celebrássemos.

Às dezoito horas, tocou o celular. Precisava urgentemente correr até o escritório da Associação mantenedora da Escola onde eu trabalhava. Um aluno fora aprovado no Vestibular e precisava de cópias dos documentos referentes à sua estadia no Colégio. Peguei o primeiro ônibus que passou pelo ponto. Todos que por ali passavam me deixariam no centro. Cheguei ao escritório, encontrei os papéis necessários e, depois de escaneá-los, anexei ao e-mail recém-digitado e enviei. Mas havia um contratempo: eu deveria esperar o contato de recebimento, que não veio logo. Acho que a Internet do tal aluno era a carvão e a madeira estava molhada… A resposta veio depois das vinte e uma horas.

Desliguei tudo e desci para o ponto de ônibus. Sendo domingo, dá para imaginar a dificuldade de se conseguir um transporte público rápido. Desisti e resolvi subir a pé para a casa onde morava. A subida foi cansativa… E tinha um pedaço da Rua Otelo Augusto Ribeiro que sempre estava escuro, ali perto do Hospital Geral. Insisti em ir. Estavam me esperando. Não podia deixar de ir.

Trinta minutos de caminhada. As primeiras pessoas conhecidas que vi foram minha irmã e meu cunhado. Tinham cansado de esperar. Pedi que voltassem. Não poderiam, tinham trabalho pela manhã. Eu também – pensei comigo. E então, a título de despedida, minha irmã falou:

– Não se preocupe. Cantamos “parabéns” e comemos.

Eu sorri, sem graça. Abraços – frios de minha parte – sorrisos murchos de todos, segui sozinha.  Sem sonhos. Sem ilusões. Sem medos.

Agora sem pressa. A festa já havia acontecido. Tinham cantado “parabéns”!

E eu, a aniversariante, não estava lá.

19 comentários em “O aniversário – Conto (Elisabeth Lorena Alves)

  1. iolandinhapinheiro
    30 de abril de 2021

    Que triste esta história, querida. Coitada da sua personagem E que família¹ A minha jamais faria isso comigo. Seu conto é curto, mas em poucas palavras você consegue envolver o leitor e fazê-lo sentir toda a frustração, ansiedade e chateação que a a moça vive. Isso é muito difícil de conseguir , o que mostra a escritora que conduz a história com segurança e competência. Parabéns.

    Aproveito para agradecer ao seu tão carinhoso comentário na minha história. Um grande abraço.

  2. Ana Maria Monteiro
    27 de abril de 2021

    Elizabeth, este conto é uma crónica, mesmo que não seja real, (e provavelmente não é) não deixa de ser uma crónica. Nesse sentido, está muito boa, pois reflete exatamente o que o aniversariante sentiria no lugar da pobre protagonista. >Acho muito plausível e decerto já sucedeu com alguém. É chato, mas é a vida como ela é.
    Gostei. Parabéns.

    • Elisabeth Lorena
      28 de abril de 2021

      Verdade, Ana Maria.
      Pode ser classificado como crônica, mas participei de um concurso com ele concorrendo como conto moderno. Não sei o que isso quer realmente dizer. hehehe
      E aconteceu, comigo. Só doeu na hora.

  3. simone mattos
    26 de abril de 2021

    Gostei bastante. Tenho uma crônica sobre decepção de aniversariante também. Creio que pode acontecer exatamente assim. Na minha opinião é triste e possível.

  4. Claudia Roberta Angst
    26 de abril de 2021

    Espero, sinceramente, que a crônica não seja baseada em fatos ocorridos com a autora. Que tristeza uma festa sem a aniversariante. Como se o mais importante fosse comemorar, beber e comer, e a celebração valesse pra qualquer coisa. Bem escrito, com linguagem clara e sem rebuscamentos, o conto traz a esperança de se comemorar a vida com todos os preparativos festivos encontrando uma dolorosa realidade – pessoas tão ocupadas que não podem esperar pela personagem principal. Doeu, mas valeu. Beijos.

    • Elisabeth Lorena
      28 de abril de 2021

      Claudia, minha diva dos contos, agarrei-me à sua linda análise: “Bem escrito, com linguagem clara e sem rebuscamentos, o conto traz a esperança de se comemorar a vida com todos os preparativos festivos encontrando uma dolorosa realidade – pessoas tão ocupadas que não podem esperar pela personagem principal. Doeu, mas valeu. ” Vindo de você, valeu o desencanto de meu aniversário sem minha presença.

  5. mariasantino1
    26 de abril de 2021

    Uau! Que triste!

    Seu texto, apesar de curto, expõe bem a frustração da personagem e, observando pelo lado pessimista das coisas, mostra que mesmo por uma boa ação, mesmo seguindo o escript e sendo um cidadão na média, ainda assim não há recompensa, não há reconhecimento. É, de fato, uma puta falta de respeito comer, beber e celebrar sem a motivação principal para a festa (a aniversariante). Tudo é variável, e acho bacana mesmo quem possui familiares que não seriam capazes de fazer tamanha afronta, pois sei que isso é possível sim (o que deixa as coisas ainda mais tristes).
    Gostei bastante!

    • Elisabeth Lorena
      28 de abril de 2021

      Oi. as únicas marcadas que dei no texto foi a frustração. A decepção inicial se deu basicamente como narrei, de resto, subi sem pressa mais para pensar em outra coisa que de fato por chorar o leite derramado. No entanto, pensei exatamente nesse ponto que você frisou: “mesmo seguindo o escript e sendo um cidadão na média” tem hora que a gente leva umas porradas idiotas da vida. Só que fatos assim são comuns no tipo de família biológica que tenho. Já as minhas famílias adotivas agem de forma diferente. Se for na casa deles no dia de meus anos, comemoro em todas.
      Abraços

  6. Wilson Barros
    26 de abril de 2021

    O que eu achei incrível foi alguns acharem o conto incrível e outros crível demais. Pra ver como cada juiz é uma sentença. Eu acho que pode sim, embora seja de uma terrível desconsideração. A família estava, obviamente, muito mais interessada em comer que homenagear o aniversariante. Deixaram pelo menos algum presente?

    • Elisabeth Lorena
      28 de abril de 2021

      Oi, Wilson.
      Nem presente, nem bolo, só a louça suja.
      Mas Jesus faz aniversário em uma data humana e muitos comemoram sem pensar nEle.
      Abraços

  7. gisellefiorinibohn
    26 de abril de 2021

    Oi, Elisabeth!
    Que texto melancólico… eu o li com o fôlego meio suspenso, tanto por ser curtinho quanto pela temática, que, ao narrar uma tentativa de se estar no lugar onde se deve estar, deixa a gente pensando “vá, vá, que ainda dá tempo!”.
    Um retrato delicado da vida cotidiana e seus desencontros: bem do que eu gosto.
    Adorei!
    Parabéns!

    • Elisabeth Lorena
      28 de abril de 2021

      Oi, Giselle. Pior é a maioria esquecer que fez isso. Mas estou acostumada, tanto com ser esquecida, quanto com o ser lembrada.
      Agradeço por gostar. E sim, esse “vá, vá, que ainda dá tempo!” sempre dá uma rasteira.
      Abraços.

  8. Anderson Prado
    26 de abril de 2021

    Elisabeth, apesar do texto estar bem escrito, o enredo me decepcionou, pois não me pareceu crível que um grupo de pessoas tenha se reunido para comemorar o aniversário de alguém sem a presença do aniversariante. Na minha opinião, alguns elementos ficaram faltando para tornar o enredo mais convincente: quem eram exatamente essas pessoas?; como entraram na casa (tinham a chave)? Ainda que superado essa questão do acesso ao imóvel, ainda me soaria pouco verossímil que tivessem batido o parabéns – que tivessem a chave do imóvel ou o encontrassem aberto e que comessem o bolo e os doces, ainda até (com a alguma desconfiança) daria para eu admitir, mas, daí, chegar ao extremo de bater o parabéns?! Aí não. Eu poderia ter aceitado o “parabéns” como uma espécie de metáfora, mas não consegui. Pode até ser que o texto seja “baseado em fatos reais”, mas, quando se transplanta um dado da realidade para a ficção, corre-se o risco do absurdo e do inusitado não ser admitido pelo leitor. De toda sorte, o texto não é ruim. Mais lapidado, poderia se tornar muito bom. Parabéns!

  9. Zulmira
    26 de abril de 2021

    Difícil acreditar que seja ficção e não um relato de um acontecimento real. Deu pra sentir a decepção e a tristeza da protagonista.
    Parabéns.

    • Elisabeth Lorena
      28 de abril de 2021

      Olá, Zulmira.
      Eu criei muito pouco. Infelizmente é real. Ou felizmente. Certos acontecimentos nos fortalecem.
      Obrigada pela leitura.

  10. Priscila Pereira
    26 de abril de 2021

    Oi, Elisabeth!
    Que triste… e real…
    Nem parece um conto e sim uma crônica, algo que realmente aconteceu. Espero que não…
    O conto passa muita verdade, muito sentimento!
    Gostei bastante!
    Parabéns!
    😘

    • Elisabeth Lorena
      28 de abril de 2021

      Priscila, olá.
      Aconteceu, mas calejada que já era, doeu menos em mim do que em minha narração. Que bom que gostou.

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Informação

Publicado às 26 de abril de 2021 por em Contos Off-Desafio e marcado .