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Detox Literário.

A persistência da memória – Conto (Aline Cruz)

O nascer do sol iluminava o terraço do café. Ao fundo, estava o semeador no campo de papoulas. Me sentei à sombra de um manacá e uma cesta de maçãs me acompanhava…

Me lembrei de quando era criança, vendo os meninos soltando pipa.

Ah! Que saudade da casa amarela! Do almoço na relva, quando reuníamos toda a família! Eram dias de banquete, de festa… O que eu mais gostava era quando uma mulher com violão começava a cantar. Eu me sentava na poltrona vermelha e ficava admirando…

Mas o que eu mais sinto falta mesmo, é do passeio ao crepúsculo com meu pai… Era quando ele me contava coisas sobre a vida, e que muitas delas só fui entender depois de grande…

Quando eu chegava em casa, a noite estrelada me dizia que era hora de descansar. Após um banho, a última ceia. Na cama, o beijo de minha mãe findava meu dia…

Quem diria, que agora eu era só mais um caipira picando fumo!

11 comentários em “A persistência da memória – Conto (Aline Cruz)

  1. Kelly Hatanaka
    22 de abril de 2021

    Fiquei intrigada com seu conto. Alguns elementos dele fizeram com que eu me sentisse em várias pinturas diferentes. A poltrona vermelha, a noite estrelada, o almoço na relva, por algum motivo essas imagens me deram a sensação de passear por um museu e viajar numa história contada pelas pinturas.

    Muito lindo!

  2. Wilson Barros
    19 de abril de 2021

    Uma viagem cronológica pelo quadro “Caipira Picando Fumo” de Almeida Júnior, passando pelo “Campo de Papoulas” de Monet.

    O quadro retrata a visão do pintor do “caipira”, seus hábitos e habitat, através de detalhes: a casa de varas, o barro e a porta gastos, a escada improvisada. O caipira sentado nos degraus, a faca comprida, descalço, o rolo de fumo, a concentração.

    Por sua vez, a escritora também dá sua visão plástica da obra, que recua no tempo, com sua visão da vida “caipira”: almoços na relva, o indispensável violão, passeios, a família. É como se fosse outro retrato, só que dinâmico, vivo. Muito interessante.

  3. Fabio D'Oliveira
    19 de abril de 2021

    Eu li esse conto no dia da publicação, só não comentei por estar com o PC inacessível (através do celular sempre dá algum problema). Acho que li esse continho quatro vezes. Ele é ágil, singelo e com uma narrativa muito gostosa. Meio poético, meio íntimo. Adoro isso.

    O que mais gostei no conto, Aline, foi a forma como você desenrolou a lembrança do caipira sem nos entregar sua história, apenas sua essência. Explico: não sabemos sua origem, se veio de berço de ouro ou de casebre humilde, apenas os detalhes que marcaram sua infância são apresentados, aqueles momentos que foram especiais para ele. Seu personagem transpira simplicidade. E não é o tipo de simplicidade que acompanha o matuto ignorante.

    Na época em que vivi no interior de Santa Catarina, aventurei-me num trabalho de colheita num vilarejo próximo da cidade de Lages, onde morava. Conheci duas pessoas que me marcaram na época. O primeiro era um jovem que nunca tinha saído daquela vila, mas que conversava sobre filosofia de igual pra igual comigo. Ficávamos horas coletando morango e conversando sobre a vida. E tinha um senhor, que encontrava no ônibus de volta, que sempre conversava comigo. Ele era de São Paulo, capital, e tinha largado tudo que tinha pra viver mais perto da natureza. Era engenheiro civil, mas agora passava as noites sozinho na varanda da casinha isolada dele.

    Imagino quantas pessoas do interior fogem do estereótipo criado pelo Monteiro Lobato, o grande Jeca Tatu. Cada pessoa com sua história.

    Exatamente por isso, de fato, não consigo concordar com a opinião da Andrea nesse conto. Até porque, além da realidade nos mostrar que nem todo caipira fala engraçado e é ignorante, cabe ao autor escrever como deseja, do fundo do coração, sem se curvar para regras dessa natureza. Gramática e estrutura, tudo bem, são características objetivas, que influenciam na leitura literal, mas delinear como o escritor deve se expressar? Não acho justo.

    Mas é uma opinião válida, como todas.

    Continue escrevendo da forma como seu coração manda. É a melhor forma de nos encontrarmos na arte. Você já escreve muito bem, então, acredito, vai entregar apenas coisas bonitas como essa. Parabéns pelo trabalho e obrigado pela leitura! Gostei bastante.

  4. antoniosbatista
    18 de abril de 2021

    Um conto curto, bem escrito, coeso, mostrando a vida no campo, a vida do caipira. A imagem é uma pintura de Almeida Junior, que se dedicou a pintar figuras simples da vida interiorana. A história dele também é bem interessante. Uma história de amor. traição, vingança e morte.

  5. Anderson Prado
    17 de abril de 2021

    Está bem escrito, mas é um tanto solene. A linguagem é poética e o final surpreende. Foi um bom exercício de escrita (partindo de uma imagem). Parabéns!

  6. Anna Clara Soares
    17 de abril de 2021

    Que texto maravilhoso. Minha professora colocou no status do Whatsapp e vim arriscar a leitura. Entendi o que ela disse ter a esperança refrescada. Um conto levinho, saboroso.
    Clara

  7. Priscila Pereira
    17 de abril de 2021

    Oi Aline!
    Que bonita estreia no EntreContos! Seja muito bem vinda!
    Gostei do seu conto, muito bem escrito, com uma descrição rica e precisa, tudo narrado com firmeza e beleza.
    Se posso te dar uma dica, vi potencial para muito mais nessa história, assim como está, poderia ser o prefácio de uma história muito maior, onde acontecem coisas com o caipira que ele não poderia imaginar. Eu leria!
    😘

  8. Elisabeth Lorena
    17 de abril de 2021

    Aline,
    Amo quando um autor consegue fugir da caricatura e dos perfis marcados, como se todo caipira fosse desprovido de conhecimento e do uso do pensamento complexo e da fala formal. Parabéns pelo belíssimo texto. E parabéns pela escolha da imagem de Almeida Junior, “Caipira picando fumo”. Amo essa imagem, ver algo tão gostoso de ler sendo ilustrada por ele me deu uma esperança tão refrescante.
    Elisabeth

    • Andrea Nogueira
      18 de abril de 2021

      Não acho que é questão caricaturar, nem diminuir os saberes e a fala de um ‘caipira”, mas justamente o contrário. Devemos, no exercício da ficção, respeitar seu lugar de fala, seu linguajar e sua visão de mundo, caso contrário nós escritores estaremos intermediando e obstaculizando sua expressão. Aí sim faremos seu arremedo, conferindo uma narrativa ‘culta’ a quem tem uma linguagem popular (e não vai aqui nenhum desmerecimento a ela).

  9. Andrea Nogueira
    17 de abril de 2021

    Descobrir ao final que o relato era de um caipira foi uma grande surpresa. A linguagem, o encadeamento das ideias, a visão das coisas não parecem pertencer ao caipira da imagem, mas sim de alguém mais estudado e articulado, com uma origem remediada e vida mais confortável. O texto é poético, nos faz viajar para o mundo e o tempo relatados, nos remete à nossa própria infância. Mas falta adequar a voz do narrador ao perfil de sua auto-definição.

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Informação

Publicado às 17 de abril de 2021 por em Contos Off-Desafio e marcado .