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Detox Literário.

Só isso – Crônica (Ana Maria Monteiro)

A sua presença fazia-se anunciar pela voz, antes dele próprio. Cantava e tocava e a voz emitia toda uma música que era outra, que era sua.

Os versos que lhe ouvia de Florbela Espanca, “Meus nervos, guizos de oiro a tilintar, Cantam-me n’alma a estranha sinfonia, Da volúpia, da mágoa e da alegria, Que me faz rir e que me faz chorar!”, misturavam-se a ele, e escorriam como seiva da árvore. Prosseguia encadeando outros poemas de outros poetas e tudo fazia sentido dito assim, parecia um poema só, um autor só, o próprio.

A nitidez do som e da voz eram cada vez mais verdadeiros à medida que a distância diminuía.

Sentia o apelo dessa voz por dentro.

Até que se tornou visível. Era um homem normal, desses que cantam na rua e têm na sua frente, aberta para receber algumas moedas, o estojo da própria viola.

Aparentava trinta e poucos anos, bem conservados, apesar do aspeto sujo e da roupa própria de qualquer sem-abrigo.

Ele não podia ser um sem-abrigo. Não, tinha de haver ali história.

A conversa não foi fácil. O degrau de pedra era desconfortável e o frio que emanava trespassava as calças de ganga e arrefecia o rabo.

— Pois sim, menina, é o que a vida faz a um homem.

“Menina”, boa!, ele tinha no mínimo, menos vinte anos em cima.

As perguntas continuavam, mas era como tentar espremer líquido duma pedra. Talvez um café quentinho ajudasse a quebrar as barreiras impostas também pelo frio da brisa.

— Obrigado, mas, se não fosse pedir muito, ia melhor uma bejeca.

O tom de voz era familiar, costumava ouvi-lo de toxicodependentes mal disfarçados de desnecessários arrumadores de carros, sugadores do dinheiro que tentam cravar a qualquer um que passe.

Não podia ser. Ainda ouvia a voz, o canto, ainda sentia a essência.

Trouxe-lhe a cerveja, sempre aproveitara a ida à pastelaria para desentorpecer as pernas e fazer o sangue circular de novo pelo rabo e aquecê-lo.

Foi impossível conversar, o homem não tinha nada para dizer, não se lhe arrancava mais que uns “iás” ou uns “bués”, umas olhadelas de lado, de quem está a medir se a velha se estará “a mandar” a ele e se valerá o sacrifício.

— Então, boa tarde. Não incomodo mais. Prazer.

— Não incomoda nada, dona. Uns cinco euritos é que vinham a calhar agora – pra uma sopa.

“Ok. Pega lá os cinco euros.”

Afastei-me, triste e vazia.

Mas a mulher que sentiu o apelo daquela alma era verdadeira e existe.

Também o homem que daquela forma canta é real e existente.

Mundos paralelos, infinitamente poliédricos, por vezes ligados pelos vasos comunicantes de alguma das suas infinitas faces, só isso.

21 comentários em “Só isso – Crônica (Ana Maria Monteiro)

  1. Kelly Hatanaka
    22 de abril de 2021

    Lindo! Um desencontro no meio de um encontro. Um encontro que aumentou a sensação de solidão. O fragmento de um instante, duas almas que poderiam ter se tocado verdadeiramente, mas que não conseguiram ultrapassar o abismo que existe entre elas. Adorei a maneira poética com que você disse tanta coisa em poucas linhas.

    Parabéns!

  2. antoniosbatista
    22 de abril de 2021

    Muito bom. Como sempre, uma obra carregada de emoções, ponto alto de sua escrita.

  3. Anderson Prado
    17 de abril de 2021

    Bonita crônica, Ana! Muita sensibilidade! Parabéns!

  4. Wilson Barros
    16 de abril de 2021

    O fluxo de consciência é claro no texto. A música traz os belos versos de Florbela, a seiva da árvores escorre em outros poemas. Lembra o estilo da escritora brasileira Clarice Lispector, em sua “Maçã no Escuro”. Os dois penúltimos parágrafos acenam ao existencialismo, vertente filosófica e literária de Sartre e Clarice. O parágrafo final, belíssimo, confirma a técnica do fluxo.

    Sextou, hoje é dia de “bejeca”.

    • Ana Maria Monteiro
      19 de abril de 2021

      Olá, Wilson. Que elogio! Muito obrigada. Sou fã incondicional de Sartre e, para mim, nada poderia ser mais elogioso que ser colocada nesse patamar de equivalência; Clarice não conheço tão bem, mas sinto-me muito feliz também com esse aceno. Sim, foi mesmo um processo de fluxo de consciência. Um grande abraço.

  5. thiagocastrosouza
    16 de abril de 2021

    Eita, que beleza de texto! O que vemos e ouvimos enquanto seres sensíveis, o que somos de fato enquanto seres reais, materializados na lógica do cotidiano. Um texto sobre a arte que produzimos e consumimos, assim como sobre as pessoas que a fazem e consomem. Há o desejo de encontrar a beleza por trás da poesia, mas quem a conduz é, simplesmente, um sobrevivente. Esse tipo de artista é presente em toda grande cidade, e eu mesmo me vi um pouco nesse papel quando toquei nas ruas de Lima para conseguir alguns trocados; quando o dia não era bom, qualquer conversa mais atrasava meu lado do que me elevava espiritualmente: tocar era uma delícia, mas era preciso pagar o almoço!

    Parabéns Ana!

    • Ana Maria Monteiro
      19 de abril de 2021

      Obrigada, Thiago. O seu comentário foi muito valioso, vondo de alguém com uma certa experiência da situação. Que bom que gostou. Obrigada e um grande abraço.

  6. Fernanda Caleffi Barbetta
    16 de abril de 2021

    Oi, Ana Maria, seu texto é de uma beleza ímpar. Verdadeiro, forte em seu conteúdo e, ao mesmo tempo, tão leve e gostoso na forma como narra. Adoro ler textos de portugueses e caçar aqui e ali palavras que soam diferentes, mas que são belas e em nada perdem no entendimento. Parabéns.

    • Ana Maria Monteiro
      19 de abril de 2021

      Obrigada, Fernanda. Que bom que gostou. Sei que gosta de agregar palavras novas, é sempre bom, também já peguei algumas vossas. Um grande abraço.

  7. Andrea Nogueira
    16 de abril de 2021

    Gostei desse que texto que me soa a um devaneio. Demorei um pouco a entender certas frases e o uso de certas palavras até me dar conta que a escrita é de autora portuguesa. Sua voz me soou como um blues – chorosa, forte, original. Lembrou-me Clarice Lispector que via num instante, num encontro fortuito, a mágica da descoberta do mundo.

    • Ana Maria Monteiro
      19 de abril de 2021

      Andrea, obrigada pela leitura e comentário. Esse evocar de Clarice é um elogio grande de mais. Obrigada mesmo. Um abraço.

  8. CLAUDIA ROBERTA ANGST
    15 de abril de 2021

    Que texto mais sensível ao abordar uma realidade tão cotidiana! Não teve um final feliz nem infeliz, mas realista. Sim, existem aquela mulher e aquele homem em mundos paralelos, mas não naquele instante. A decepção é algo inevitável, mas a verdade é o que é, e devemos seguir sem lhe colocar panos coloridos por cima. Parabéns pelo texto. Gostei imenso.

    • Ana Maria Monteiro
      19 de abril de 2021

      Oh, Claudinha, esse “imenso” você adotou do nosso português daqui, não foi? Fico feliz que tenha gostado. Um beijo.

  9. Elisabeth Lorena
    15 de abril de 2021

    Ana Maria…
    Deu uma tristeza ler-te hoje. Ainda estou propensa a isso, mas o que me colocou em sintonia com seu texto foram as muitas outras histórias reais e sem sentido de outras vidas perdidas no álcool ou na rua.
    Anos trabalhando com pessoas assim, em situação de rua, como diz aqui, mas acho que vou aderir ao seu sem-abrigo. Faz sentido, porque parece que a casa que lhes falta é além da parede e seu texto mostra isso. Ficar esperando um desfecho feliz e então a realidade nua e crua bate na nossa face feito navalha na pele, arrancando as nossas esperanças.
    Trabalhando como agente social, tanto no meu ambiente cristão, quanto no ambiente civil, em que estive inserida até meu acidente, vi muitas histórias lindas sim. Algumas que conseguimos recontar com a ajuda, com apoio psicológico, retorno à família, assistência familiar continuada e essas atitudes sociais necessárias para a reinserção familiar e reconquista do amor próprio. Entretanto, as histórias como a que retratas, são muitas, reais, não imaginadas. Infelizmente muitos artistas até estão perdidos nesse espaço, como se arte que reproduzem fosse o sino vazio do Coríntios 13… De uma forma ou outra tentamos ajudar, mas não querem ajuda…
    Parabéns pela escrita linda!
    Elisabeth

    • Ana Maria Monteiro
      19 de abril de 2021

      Oh, Elisabeth, sei que anda triste e tem motivo para isso, mas a vida é assim, também nós partiremos um dia. Temos de seguir em frente e encarar os desafios de cada dia. Um grande abraço.

    • Ana Maria Monteiro
      19 de abril de 2021

      E obrigada pela leitura e comentário, claro. Beijinhos.

  10. Fabio D'Oliveira
    15 de abril de 2021

    É uma história real. Não acontece o que você espera. A vida é imprevisível mesmo. Já li muitas crônicas pedantes, que tentam enfiar uma mensagem pela “goela ocular” do leitor. Mas essa, ah, não, ela não faz isso. Ela mostra a realidade, do jeito que ela é, desde o momento em que idealizamos até o desfecho frustrante e duro. Mostra, também, como estamos afastados, mas, ainda assim, conseguimos nos reconectar, nem que seja por breves momentos, através da arte. É aquela lindeza triste, sabe? Por isso almas que se abraçam, mostram suas vulnerabilidades sem medo, são raras. Temos que valorizar essas conexões e fazer nossa parte para mudar o mundo. Como acontece em “Waking Life”, não quero ser uma formiga.

    Bela crônica, Ana.

    • Ana Maria Monteiro
      19 de abril de 2021

      Obrigada, Fábio. Realmente não gosto de meter coisas pela “goela abaixo”, até porque prezo muito as minhas próprias goelas e fico sempre incomodada quando leio algo que tenta fazer isso. Obrigada pelo seu comentário.

  11. Juliana Calafange
    15 de abril de 2021

    Ah, querida Ana Maria, como gosto dos seus textos! A gente se deixa levar e quando vê já está lá com você, sentindo o cheiro que vem da brisa d’além mar.
    Doce abraço!

    • Ana Maria Monteiro
      19 de abril de 2021

      Oh, Juliana, obrigada pela leitura e comentário genoroso. Grande abraço.

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Publicado às 15 de abril de 2021 por em Crônicas e marcado .