I
A luz aparecia e desaparecia e aparecia de novo, o estampido das badaladas de três horas repicava pela cidade no bronze maciço do sino do tribunal, suaves ventos de abril rebentavam a fonte em lâminas multicoloridas, até que a plumagem refletia e- vibrava, enquanto Grover entrava na Praça. Ele era uma criança, circunspecta e de olhos escuros, uma marca de nascença no pescoço – uma mancha em marrom cálido -, de rosto meigo, muito quieto e atento para sua idade. Os sapatos puídos do menino, as meias três-quartos, de nervuras grossas, a calça curta, na altura do joelho, de corte reto e com três pequenos botões inúteis na lateral, o blusão de marinheiro, o velho boné amassado e deformado, colocado de banda sobre a cabeça negra e brilhante, a bolsa de lona, velha e suja, a tiracolo, vazia agora, mas esperando pelo papel áspero dos jornais da tarde – esses trajes amigáveis e surrados, configurados por Grover, revelavam-no. Ele virou, seguiu pelo lado norte da Praça e, nesse momento, viu a união do Para Sempre com o Agora.
A luz aparecia e desaparecia e aparecia de novo, a grande plumagem da fonte vibrava, e os ventos de abril espalhavam-na pela Praga num borrifo de gaza multicolorida. Os cavalos do corpo de bombeiros tamborilavam pelo solo, com passos pesados e duros, muito informais, e dando secas sacudidas em seus rabos toscos e hábeis. Os bondes invadiam a Praça, vindos de todas as partes da circunferência, e paravam abruptamente, como brinquedos movidos a corda, em sua formula familiar de um quarto de hora. Uma carroça, puxada por um cavalo magro e velho, chacoalhava pelas pedras arredondadas do pavimento, do outro lado, em frente à oficina de seu pai. O sino do tribunal ressoava sua solene advertência das imediatas três horas, e tudo era simplesmente igual ao que sempre fora.
Grover via com olhos calmos aquela miscelânea de formas enfadonhas – aquela mixórdia de arquiteturas destoantes que formavam a Praça -, e não se sentia perdido. Pois “aqui”, ele pensou, “aqui é a Praça, como sempre foi – e a oficina de papai, o corpo de bombeiros e a prefeitura, a fonte vibrando com sua plumagem, os bondes entrando e parando no quarto de hora, a loja de ferragens lá na esquina, a fileira de velhos edifícios de tijolos deste lado da rua, as pessoas passando e a luz que aparece e muda e que sempre aparecera de novo, e tudo que vem e vai e muda na Praça, e mesmo assim será novamente igual”. E “aqui”, o garoto pensou, “está Grover com sua sacola de jornais. Eis aqui o nosso Grover, quase doze anos de idade. Eis aqui o mês de abril de 1904. Eis aqui o sino do tribunal, e as três horas. Aqui está Grover, na Praça que nunca muda. Aqui está Grover, surpreendido nesse ponto do tempo”.
Parecia-lhe que a Praça, ela própria uma acidental alvenaria de muitos anos, aglomeração casual do tempo e de esforços despedaçados, era o centro do universo. Era, para ele, na imagem de seu espírito, o coração de granito da imutabilidade, o eterno lugar onde todas as coisas chegavam e de onde partiam, e ainda assim eterno domicílio, e que nunca mudaria.
Passou pelo velho barracão da esquina – todo de madeira, um prato feito para incêndios, onde S. Goldberg administrava sua banca de salsichas de Viena. Depois passou pela loja da Singer, ao lado, com sua cintilante exposição de máquinas novas, que ele viu e admirou, mas sem sentir nenhuma alegria. Elas trouxeram-lhe de volta o zumbido diligente de serviços domésticos e de mulheres costurando, a complexidade de coser e tecer, o mistério do estilo e do modelo, a lembrança de mulheres inclinadas sobre agulhas reluzentes, os pés nos pedais, o zunido diligente. Era trabalho de mulheres: enchia-o de estranhas associações de tédio, e de vaga depressão. E sempre, também, de uma momentânea pontada de horror, pois seu olho escuro seguiria sempre a direção daquela agulha alinhavando para cima e para baixo, tão rápida que o olho nunca conseguia acompanhá-la. Então lembrava-se de como sua mãe uma vez lhe dissera que atravessara a agulha pelo dedo; e sempre, quando passava por aquele lugar, lembrava disso, e por um momento esticava o pescoço e virava a cabeça para outro lado.
Então continuou em frente, mas teve que parar de novo, diante da loja vizinha, a loja de música. Ele sempre precisava parar em lugares onde houvesse coisas brilhantes, perfeitas. Adorava lojas de ferragens e vitrines cheias de ferramentas geométricas e precisas. Adorava vitrines cheias de martelos, serrotes e mesas de plaina. Gostava de vitrines cheias de enxadas e ciscadores novos e fortes, com cabos intactos, de madeira branca e perfeita, marcados de forma vívida e sólida pelo selo do fabricante. Adorava ver essas coisas nas vitrines das lojas de ferragens. E verdadeiramente cobiçava-as, e pensava que algum dia teria seu próprio conjunto de ferramentas. Além disso, sempre parava diante da loja de música e pianos. Era uma loja esplendida. Na vitrine havia um cachorrinho branco, sentado sobre os quadris, a cabeça empinada com determinação para o lado, um cachorrinho – branco que nunca se mexia, que nunca latia, que escutava atento ao funil cintilante de uma corneta para ouvir “A voz de seu Dono” – uma corneta para sempre silenciosa, uma voz que nunca falava. E lá. dentro havia pianos maravilhosos, em muitos formatos, magníficos e brilhantes, um ar de esplendor e riqueza.
Então, nesse instante, ele foi realmente pego, manteve-se em suspense. Um bafejo de ar tépido, carregado de chocolate, invadiu-lhe as narinas. Tentou passar pela fachada branca da pequena loja de dois metros e meio; fez uma pausa, brigando com sua consciência; não pôde continuar. Era a pequena loja de doces, administrada pelo velho Crocker e sua esposa. E Grover não pôde seguir adiante.
“Esses velhos Crocker sovinas!”, ele pensou, com desdém. “Não entro lá de novo. Mas…” – enquanto a fragrância alucinante do saboroso chocolate cozinhando penetrava-o novamente – “vou apenas olhar a vitrine e ver o que tem.” Parou por um momento, olhando com seus olhos escuros e quietos para a vitrine da lojinha de doces. A vitrine, limpa, sem uma única mancha, estava repleta de bandejas de doces frescos. Seus olhos se detiveram numa bandeja de pastilhas de chocolate. Inconscientemente ele lambeu os lábios. Bastava pôr uma delas na língua e aquilo logo dissolvia, feito açúcar. E depois as bandejas cheias de doce de chocolate caseiro. Olhou desejoso para a massa compacta do doce de chocolate, pensativo para o doce de nozes, com maior espírito crítico, embora também desejoso, para os bombons de hortelã, os nogados, e todas as outras guloseimas.
“Esses velhos Crocker sovinas!”, Grover pensou mais uma vez, e virou-se para ir. “Não vou entrar lá de novo.”
Ainda assim não foi embora. Eles podiam até ser “Esses velhos Crocker sovinas”, mas realmente faziam o melhor doce da cidade, o melhor, de fato, que ele já experimentara.
Pela vitrine olhou para dentro da lojinha e viu a senhora Crocker. Um freguês entrara e fizera uma compra; quando Grover olhou, viu a senhora Crocker com sua cara de passarinho, seus traços encolhidos, inclinar-se e examinar meticulosamente a balança. Ela tinha um pedaço de doce de chocolate entre seus dedinhos limpos e ossudos; enquanto Grover olhava, partiu-o, com cuidado, em suas mãozinhas ossudas. Colocou um pedaço na balança, que baixou de maneira alarmante com o peso; e os lábios estreitos da senhora Crocker comprimiram-se. Pegou de volta o pedaço de doce e partiu de novo, com cuidado. Desta vez a balança oscilou, desceu bem devagar, e tornou a subir. A senhora Crocker cuidadosamente pôs o pedaço restante de volta na bandeja, depositou o outro num saco de papel, embrulhou e entregou ao freguês; contou o dinheiro com muito cuidado e distribuiu-o na gaveta da máquina registradora, os pence num compartimento, e as moedas de cinco centavos em outro.
Grover continuava parado lá, olhando desdenhoso. “Essa velha Crocker sovina… com medo de desperdiçar migalhas!”
Ele resmungou desdenhoso, e novamente virou-se para ir. Mas nesse memento o senhor Crocker saiu da pequena sala onde eles faziam todos os doces, trazendo uma bandeja de doce de chocolate fresquinho em suas mãos esqueléticas. O velho Crocker cambaleou para a frente, rumo ao balcão, e ali colocou a bandeja. Ele realmente cambaleou. Era aleijado. E, como sua esposa, uma criaturinha encolhida e enrugada, de mãos ossudas, lábios finos, rosto contraído e magro. Uma das pernas era alguns centímetros mais curta que a outra; na primeira, havia uma bota enorme, de sola grossa, com uma espécie de pega de madeira móvel, pelo menos quinze centímetros mais alta, para compensar a deficiência. Sobre esse cavalete o senhor Crocker cambaleava, com um sorrisinho cuidadoso e apreensivo, como se receasse perder alguma coisa.
– Esse velho Crocker sovina! – Grover murmurou. – Hum! Ele não daria nada a ninguém!
Mesmo assim… não foi embora. Permaneceu ali, curioso, espiando pela vitrine; seu rosto meigo e escuro concentrava-se agora, atento e alerta, o nariz achatado contra o vidro. Inconscientemente ele coçou, com a biqueira puída e gasta de seu velho sapato, o tecido de nervuras grossas de uma das meias. O cheiro vivo e fresco do doce de chocolate novo em folha era delicioso. Era um tanto alucinante. Meio contrafeito, começou a remexer no bolso da calça; tirou sua carteira, uma preta, surrada e gasta, de fecho quebrado. Abriu-a e pro curou Iá dentro.
O que encontrou não era nada animador – uma moeda de cinco centavos, dois pence e, esquecera-se deles, os selos. Tirou os selos e desdobrou-os. Havia cinco de dois centavos, e oito de um; todos tinham sobrado de um total de um dólar e sessenta centavos que Reed, o farmacêutico, lhe dera por seus serviços como menino de recados, uma ou duas semanas antes.
“Esse velho Crocker”, Grover pensou, e olhou melancólico para a pequena forma grotesca que tornava a cambalear pela Ioja, em volta do balcão, e depois para o outro lado. “Bom…” – de novo olhou vagamente para os selos em suas mãos – “ele aceitou os outros. Pode ser que aceite esses também.”
Então, apaziguando sua consciência com um bocado de desdém, entrou na Ioja e ficou olhando as bandejas no balcão de vidro; até que, enfim, decidiu-se. Apontando com um dedo ligeiramente encardido para a bandeja de doce de chocolate fresquinho, disse:
– Quero quinze centavos desse aqui, senhor Crocker.
Fez Uma pausa, lutando contra seu constrangimento, depois ergueu o rosto sombrio e continuou, com calma:
– E, por favor, tenho que pagar com selos de novo.
O senhor Crocker nada respondeu. Não olhou para Grover. Pressionou meticulosamente os lábios. Saiu cambaleando e pegou a concha de doce; voltou, abriu a porta corrediça do balcão de vidro, pôs o doce na concha, foi cambaleando até a balança, e começou a pesar o doce. Grover observava-o examinar e olhar de esguelha; observava-o franzir e pressionar os lábios; viu-o pegar um pedaço do doce de chocolate e quebrar em duas partes. E depois o velho Crocker quebrou duas partes ao meio de novo. Pesou, olhou de esguelha e cambaleou; então Grover sentiu que, por ter chamado a senhora Crocker de sovina, era culpado de uma injustiça repulsiva. Mas finalmente, para grande alívio seu, o trabalho estava terminado; a balança estava suspensa lá, estremecendo apreensiva, no fio mesmo, muito fino, do equilíbrio nervoso, como se até a própria balança temesse que mais um movimento do velho Crocker fosse arruiná-la.
Então o senhor Crocker pegou o doce e colocou num saco de papel; cambaleando de novo ao longo do balcão, dirigindo-se ao garoto, disse, seco:
– Onde estão os selos?
Grover entregou-os a ele. O senhor Crocker tirou suas garras do saco de papel e largou-o sabre o balcão. Grover pegou o saco e guardou em sua mochila de Iona; depois, lembrou-se:
– Senhor Crocker… – De novo sentiu o velho constrangimento, que era quase como uma dor forte. – Dei dezoito centavos em selos. O senhor… o senhor só tem que me devolver três.
O velho Crocker não respondeu. Estava ocupado, suas mãozinhas ossudas desdobravam os selos e alisavam-nos sobre o balcão de vidro. Quando terminou, examinou-os com olhar penetrante por um momento, impelindo seu pescoço esquelético para a frente, e correndo o olho para cima e para baixo, como um guarda-livros que soma fileiras de cálculos.
Depois disso, observou, mordaz:
– Não gosto desse tipo de negócio. Se você quer doce, devia ter dinheiro. Não sou correio. Da próxima vez que você vier aqui e quiser alguma coisa, vai ter de me pagar em dinheiro.
Uma raiva violenta subiu até a garganta de Grover. Seu rosto verde-oliva tingiu-se de uma coloração irada. Seus olhos de breu enegreceram mais e brilharam. Estava a ponto de dizer: “Então, por que pegou meus outros selos? Por que vem me dizer, só agora, que não os quer, depois de ter pego todos os selos que eu tinha?”.
Mas ele era um menino, um menino de onze anos, quieto, meigo, um menino pensativo e circunspecto, a quem haviam ensinado como respeitar os mais velhos. Então ficou apenas parado ali, olhando com seus olhos negros de breu. O velho Crocker, comprimindo de leve a boca, sem confrontar com o olhar de Grover, pegou os selos em seus dedos magros e ressecados, e saiu cambaleando com eles, em direção à gaveta da máquina registradora.
Pegou os selos de dois centavos, dobrou-os e colocou-os num compartimento arredondado; depois pegou os de um centavo, dobrou-os e colocou-os no compartimento vizinho. Então fechou a gaveta e começou a cambalear para o outro canto. Grover, agora com o rosto calmo e sério, continuou a olhar para ele, mas o velho Crocker não lhe dirigiu os olhos. Ao invés disso, começou a pegar pedaços de papelão timbrado e a dobrá-los em caixas.
Num certo momento, Grover disse:
– Senhor Crocker, pode me dar os três selos, por favor?
O velho Crocker não respondeu. Continuou a dobrar as caixas, comprimindo rapidamente os lábios finos enquanto fazia seu trabalho. Mas a senhora Crocker, de costas para o marido, também dobrando caixas com suas mãos de passarinho, murmurou, sarcástica:
– Hum! Eu não daria nada a ele!
O velho Crocker ergueu o rosto, olhou para Grover, e perguntou:
– O que você está esperando?
– Pode me dar os três selos, por favor? – Grover repetiu.
– Não lhe dou nada – respondeu o senhor Crocker. Largou sua tarefa e veio cambaleando até o balcão.
– Agora, saia! E não volte mais aqui com esses selos.
– Eu gostaria de saber onde e que ele arranja esses selos… É só isso o que eu gostaria de saber – observou a senhora Crocker.
Não ergueu os olhos para dizer essas palavras. Inclinou um pouco a cabeça para o lado, em direção ao marido, e continuou a dobrar as caixas com seus dedos ossudos.
– Saia daqui! – repetiu o velho Crocker. – E não volte aqui com selos de novo… Onde você arranjou esses selos?
– É exatamente isso o que eu me pergunto – insistiu a senhora Crocker. – Tenho pensado nisso o tempo todo.
– Há duas semanas que você vem aqui com selos – continuou o velho Crocker. – Não gosto nada disso. Onde arranjou esses selos?
Sob sua pele verde-oliva, Grover embranquecera. Seus olhos perderam o brilho. Pareciam duas bolas de breu, atordoadas e opacas.
– Com o senhor Reed – respondeu. – Consegui os selos com o senhor Reed.
Depois explodiu, desesperado:
– Senhor Crocker… O senhor Reed pode lhe dizer como consegui os selos. Fiz uns serviços para o senhor Reed, ele me deu os selos há duas semanas.
– O senhor Reed… – disse a senhora Crocker, mordaz, sem mover a cabeça. – Eu diria que isso é muito engraçado.
– Senhor Crocker – insistiu Grover –, se puder me devolver os três…
– Dê o fora daqui! – gritou o velho Crocker, e começou a cambalear em direção a Grover. – E não me volte aqui de novo, menino! Tem alguma coisa de muito engraçada nessa história toda! Não gosto nada disso. Se você não pode pagar como as outras pessoas, então não quero negócio com você.
– Senhor Crocker – disse Grover, mais uma vez; e sob a pele verde-oliva, seu rosto estava cinzento. – Se puder me devolver os três…
– Dê o fora daqui! – o velho gritou, cambaleando até a ponta do balcão. – Se você não sair, garoto…
– Se fosse eu, chamaria um policial. Era isso o que eu faria – ameaçou a senhora Crocker.
Cambaleando, o velho Crocker deu a volta pela ponta mais baixa do balcão. E veio mancando até Grover.
– Saia daqui!
Pegou o garoto e empurrou-o com suas mãozinhas ossudas; e Grover sentiu-se nauseado e desolado até a boca do estômago.
– O senhor tem que me dar os três selos – insistiu ele.
– Dê o fora daqui! – relinchou o velho Crocker. Agarrou a porta de tela, abriu-a num puxão e empurrou Grover para fora. – Não volte aqui de novo – disse, parando um instante e estreitando os lábios finos.
Virou-se e voltou cambaleando para dentro da loja. A porta de tela bateu atrás dele. Grover ficou parado Iá na calçada. E a luz apareceu e desapareceu e apareceu de novo na Praça.
O garoto continuou parado ali, e uma carroça passou, chacoalhando. Havia algumas pessoas passando, mas ele não notou. Continuou parado ali, às cegas, sob a espreita do sol, sentindo que aquilo era o Tempo, aquele era o centro do universo, o coração de granito da imutabilidade; e sentindo, esse é Grover, essa é a Praça, isso é o Agora.
Mas alguma coisa daquele dia dissipara-se. Sentiu a culpa esmagadora e profunda que todas as crianças, e todos os homens de bem na terra sentem desde que o Tempo começou. E até mesmo a raiva esvaíra-se, submergira nessa revoltosa maré de culpa, e “Essa é a Praça”, Grover pensou, como antes. “Esse é o Agora. Ali é a oficina de meu pai. E tudo está como sempre foi – exceto eu.”
E a Praça girava embriagada à sua volta, a luz desaparecia em obscuros ciscos indecifráveis diante de seus olhos, a fonte rebentava em multicolorida iridescência, e voltava de novo para sua plumagem pulsante e presunçosa, e “Eis aqui a Praga, e eis aqui a permanência, e eis aqui o Tempo – e tudo igual ao que sempre foi, exceto eu.”
As botas puídas do menino perdido moviam-se e tropeçavam às cegas. Os pés entorpecidos cruzaram a calçada, alcançaram a rua de pedras arredondadas, alcançaram a Praça quadriculada e central, os quadrados de grama e os canteiros de flores, que em breve estariam carregados de gerânios vermelhos.
“Quero ficar sozinho”, Grover pensou, “em algum lugar onde não possa ir para perto dele… Ah, Deus, espero que ele nunca saiba, que ninguém nunca conte a ele…”
A plumagem rebentou; a lâmina iridescente de água atingiu-o. Ele seguiu em frente, olhou para o outro lado, atravessou a rua, e… “Ah, meu Deus, se papai souber!”, Grover pensou, enquanto seus pés entorpecidos subiam a escada da oficina do pai.
Observou os degraus e sentiu-os – a largura e a espessura da madeira velha, de seis metros de comprimento. Viu tudo: as colunas de ferro na varanda de seu pai, pintadas no monótono e anômalo verde-e-preto em que se transformavam todas as colunas naquela região e naquela atmosfera; dois anjos, salpicados de moscas, e as pedras à espera. Mais adiante, e por todos os lados, na oficina do canteiro, formas frias, de pedras de mármore brancas e arredondadas, o anjo lânguido, de mãos amorosas, em mármore forte.
Desceu o corredor, as formas brancas a rodeá-lo. Dirigiu-se para o fundo da oficina. Ali ele conhecia bem: o pequeno forno de ferro fundido no canto esquerdo, empastado, marrom coberto de bolhas de calor, e o braço da longa chaminé atravessando a oficina e erguendo-se para fora; a janela alta e suja mirando o Mercado da Praça Iá embaixo, em direção a Niggertown; as velhas prateleiras rudes, de tábuas grossas, uma madeira antes polpuda que suave, como o pelo rijo de um animal; sobre as prateleiras, cinzéis de todos os tamanhos, e uma camada de poeira de pedra; uma roda de esmeril acionada por alavanca; e uma porta que dava no beco; e ainda o beco a uns três metros abaixo. Ali, na oficina, dois cavaletes daquela madeira rústica e perfurada, sobre os quais repousavam lápides; e numa delas, seu pai trabalhando.
O garoto olhou, viu que o nome na lápide era Creasman; viu o resultado entalhado de John, a simetria do “s”, o sentimento artístico encerrado sob o nome e a data: “John Creasman, 7 de novembro de 1903”.
Gant ergueu a cabeça. Era um homem de cinquenta e três anos, de rosto macilento, bigode bem aparado, muito comprido e alto e macilento. Usava roupas fortes e escuras – pesadas, compactas –, embora não estivesse de casaco. Trabalhava em manga de camisa, usando um colete trespassado por uma grossa corrente de relógio, colarinho de ponta virada, gravata preta, um avental listrado que subia até os ombros, e punhos surrados; tinha pomo-de-adão, testa ossuda, nariz ossudo, olhos suaves, rasos, frios e um tanto solitários. Numa das mãos trazia uma enorme marreta redonda, de madeira, como um martelo de açougueiro; na outra, um cinzel potente e frio.
– Como vai, filho?
Não ergueu o rosto para falar. Falava com calma, distraído. Trabalhava com o cinzel e a marreta de madeira, como um joalheiro trabalharia num relógio, exceto por que no homem e na marreta de madeira havia força também.
– O que foi, filho? – ele perguntou.
Moveu-se ao redor da mesa, a partir da cabeceira, e começou a trabalhar de novo no “J”.
– Papai, eu não roubei os selos – disse Grover.
Gant soltou a marreta, largou o cinzel na mesa. Rodeou o cavalete.
– O quê? – perguntou.
Quando Grover piscou seus olhos de breu, eles iluminaram-se, e as lágrimas quentes escorreram.
– Eu não roubei os selos.
– Ei, o que foi? – o pai repetiu. – Que selos?
– Que o senhor Reed me deu, quando o outro garoto estava doente e eu trabalhei lá por três dias… O velho Crocker pegou todos os selos. Eu contei a ele que o senhor Reed me deu. E agora ele me deve três selos… e não acredita que são meus. Ele disse… ele disse que eu devo ter arranjado os selos em algum lugar – Grover desabafou.
– Os selos que Reed deu a você… hein? – disse o canteiro. – Os selos que você ganhou…
Ele umedeceu o polegar nos lábios, arremessou a cabeça para trás e, devagar, lançou um olhar para o teto; depois virou-se e saiu da oficina rapidamente, com passadas largas, em direção ao depósito.
Voltou quase que de imediato. Enquanto passava pela divisória de madeira, pintada em cinza, pigarreou, umedeceu o polegar e disse:
– Agora, nós vamos ver isso…
Virou-se, avançou para frente de novo, pigarreou:
– Nós vamos ver isso agora mesmo…
Deu meia-volta e foi de novo até o fundo; quando voltou pelo corredor, entre as fileiras de lápides, disse a meia voz:
– Por Deus que agora…
Pegou Grover pela mão, e saíram depressa. Descendo o corredor, passaram por todas as lápides, pelos anjos salpicados de moscas, parados ali, e pela escada de madeira, até que atravessaram a Praça. A fonte pulsava, a plumagem rebentando em lâminas iridescentes e precipitando-se sobre eles. Um velho cavalo cinzento, com um olhar pacífico sobre seus lábios abertos, sugava um monte de água fria da gamela enquanto Grover e seu pai cruzavam a Praça; mas eles não o perceberam.
Atravessaram rapidamente para o outro lado, numa linha reta em direção à loja de doces. Gant ainda estava usando seu longo avental listrado, e continuava segurando a mão de Grover. Ele abriu a porta de tela e entrou.
– Dê os selos a ele – ordenou.
O senhor Crocker veio cambaleando por trás do balcão, com o olhar meticuloso e cuidadoso, que agora era uma espécie de sorriso.
– Mas foi apenas… – Crocker começou.
– Dê os selos a ele – Gant repetiu, jogando algumas moedas no balcão.
O velho Crocker saiu cambaleando e pegou os selos. Voltou cambaleando.
– Eu apenas não sabia se… – continuou ele.
O canteiro pegou os selos e entregou ao garoto. E o velho Crocker recolheu as moedas.
– Aconteceu apenas que… – ele recomeçou, sorrindo.
Gant pigarreou:
– Você nunca foi pai – disse. – Não conhece os sentimentos de um pai, nem entende os sentimentos de uma criança; por isso é que agiu do jeito que agiu. Mas você já tem o castigo que merece. Deus amaldiçoou você. Atormentou você. Fez de você o aleijado sem filhos que você é… aleijado e sem filhos, miserável como você é. Vai para o túmulo e logo será esquecido!
A mulher de Crocker, como sempre esfregando uma na outra suas mãozinhas ossudas, disse, implorando:
– Oh, não… Oh, não diga isso, por favor não diga isso.
O canteiro, pigarreando ainda e segurando firme a mão do garoto, saiu da loja. A luz apareceu de novo sobre o dia.
– Bern, filho – observou ele, colocando a mão nas costas do garoto. – Bern filho, agora não se preocupe.
Atravessaram a Praça, o jato de luz iridescente precipitando-se sobre eles, o cavalo encharcando-se na água da gamela, e:
– Muito bem, filho – disse o canteiro.
O cavalo velho inclinou-se, batendo suas patas nas pedras arredondadas do pavimento.
– Muito bem, filho – o canteiro repetiu –, seja um bom menino.
E então seguiu seu próprio caminho, em passadas largas, de volta para sua oficina.
O menino perdido ficou parado na Praça, perto da varanda da oficina de seu pai.
“Isso é o Tempo”, Grover pensou. “Aqui e a Praça, aqui é a oficina de meu pai, e aqui estou eu.”
E luz aparecia e desaparecia e aparecia de novo – agora, porém, não mais como antes. O menino observava o feitio daquelas formas familiares, e sabia que elas eram simplesmente iguais ao que sempre haviam sido. Mas alguma coisa escapara daquele dia, e alguma coisa surgira de novo. Um certo brilho desaparecera do campo de visão daqueles olhos quietos; e alguma cor mais intensa penetrara neles. Ele não podia dizer, não sabia através de quais sombras transformadoras a vida passara naquele quarto de hora. Sabia apenas que algo se perdera – algo que para sempre estava ganho.
Nesse exato momento uma charrete dava a volta na Praça. Fixado em sua traseira, havia um cartaz onde se lia: “St. Louis” e “Excursão” e “A Feira”.
II – A Mãe
Quando nós atravessamos Indiana – você era muito pequeno, filho, para lembrar, mas eu sempre penso em todos vocês do jeito como estavam naquela manhã, quando atravessamos Indiana, indo para a Feira de Exposições. Todas as macieiras desabrochavam, era abril; o começo da primavera no sul de Indiana, e tudo começava a ficar verde. Claro que aqui não temos fazendas como aquelas de Indiana. As crianças nunca tinham visto fazendas como aquelas, por isso creio que, crianças como eram, tiveram muita coisa para ver.
Todas elas ficavam correndo pra cima e pra baixo nos corredores – quer dizer, menos você e Grover. Você era muito pequeno, Eugene. Tinha só três anos, eu mantinha você bem perto de mim. Quanto a Grover… Bom, vou lhe contar tudo sobre isso.
Mas os outros ficavam correndo pra cima e pra baixo, e de uma janela para outra. Chamavam e gritavam uns pelos outros sempre que viam alguma coisa nova. Tentavam olhar para todos os lados, em todas as direções, como se quisessem ter olhos atrás da cabeça também. Era a primeira vez que qualquer um deles visitava Indiana, por isso creio que tudo parecia estranho e novo.
Daí que nunca estavam satisfeitos. Parecia que nunca ficariam quietos. Continuavam a correr pra cima e pra baixo, pra frente e pra trás, gritando e berrando uns para os outro, até que: “Sou capaz de jurar, crianças, que nunca vi uma coisa dessas!”, eu disse. “Toda essa correria pra cima e pra baixo, pra frente e pra trás, sem que fiquem quietos por um minuto nunca vi nada igual a isso”, eu disse.
Você entende, elas estavam excitadas com a ida a St. Louis e muito curiosas por tudo que viam. Não conseguiam controlar-se, e queriam ver tudo. Mas aí: “Eu juro!”, disse. “Se vocês, crianças, não se sentarem e descansarem, vão ficar exaustas antes mesmo de chegar a St. Louis e a Feira!”
Com exceção de Grover. Ele, não, senhor! Ele, não. Agora, filho, quero lhe dizer uma coisa: eduquei todos vocês… então posso muito bem dizer que não havia nenhum abobalhado no grupo. Mas Grover! Bem, todos vocês estão crescidos agora, todos já foram embora, nenhum é mais criança… Claro que espero, como dizem, que vocês já tenham alcançado a posição digna de um homem. Creio que já têm discernimento de homens crescidos… Mas Grover! Grover já tinha desde aquele tempo!
Ah, mesmo quando ele era criança – você sabe, numa época em que eu quase tinha medo de confiar que o resto de vocês saísse da barra de minha saia –, eu podia contar com Grover. Ele podia ir a qualquer lugar, eu podia mandá-lo a qualquer lugar, e sempre sabia que voltaria a salvo, e que faria exatamente o que eu lhe dissera!
Ora, eu não precisava nem mesmo dizer. Você podia mandar aquela criança ao mercado e dizer a ela o que você queria; pois ela voltava para casa com duas vezes mais coisas do que você poderia comprar com o mesmo dinheiro!
Você sabe que sempre fui considerada uma boa negociante. Mas Grover!… ora, a coisa chegou a tal ponto que, no fim, eu já não dizia mais nada a ele. Seu pai me avisou: “A melhor coisa que você pode fazer é dizer a ele o que você quer, e deixar o resto com ele. Porque…”, seu pai dizia, “… já não tenho mais nenhuma dúvida de que ele é melhor negociante que você. Ele consegue mais coisas com dinheiro do que qualquer pessoa que conheço”.
Born, eu tinha que admitir, você sabe. Tinha que confessar francamente. Grover, mesmo quando criança, era muito melhor negociante que eu. Verdade, pois a cidade inteira dizia isso dele. Diziam que todos os homens do mercado, todos os fazendeiros, o conheciam. Começavam a rir quando o viam aproximar-se; comentavam: “Cuidado. Aí está Grover! Aí está um negociante que vocês não enganam!”.
E eles estavam certos! Que menino! Eu falava: “Grover, que tal se você desse uma corrida até a cidade para ver se tem alguma coisa boa para comer hoje?”… Bastava eu piscar para ele, sabe, e ele entendia tudo. Nem precisava dizer o que eu queria exatamente, bastava comentar: “Só pensei que talvez alguma coisa fresca possa estar chegando do campo… então, que tal você pegar esse dólar aqui e ir ver o que pode conseguir com ele?”.
Sim, senhor, isso era o bastante. No momento em que você dizia àquela criança que contava com seu bom senso, ela ia até o fim do mundo por você… e, deixe-me confessar uma coisa, nunca falhava!
Os olhos dele ficavam pretos feito carvão… Ah! o jeito como aquele menino olhava para nós, uma expressão cheia de inteligência e bom senso. Ele respondia: “Sim, senhora! Não se preocupe, mamãe. Pode deixar comigo… vou fazer tudo direitinho!”.
Daí ele saía feito um raio de relâmpago e… ah, meu Deus! Era como seu pai me dizia: “Vivo nessa cidade há quase trinta anos; vi a cidade crescer a partir de uma vila de encruzilhada, e pensei que conhecia tudo que havia para ser conhecido aqui… mas esse menino …”, seu pai dizia, ”ele conhece lugares de que nunca ouvi falar!” … Ah, ele ia direto lá naquele canto, debaixo da oficina de seu pai, onde os carroceiros e os camponeses costumavam estacionar suas carroças… ou então ia até aqueles velhos terrenos, na rua Concord, onde os fazendeiros guardavam as carroças. E, mesmo criança como era, ia logo para o meio deles, sim senhor… Grover ia!… entrava e barganhava com eles como um homem!
E quando voltava, as coisas que tinha comprado eram de arregalar os olhos da gente… Uma vez chegou aqui com outro menino, arrastando uma cesta completamente cheia de tomates maduros. “Mas Grover!”, eu disse. ‘”Como vamos conseguir usar tudo isso? Vão estragar antes de conseguirmos acabar com eles.” Então ele respondeu: “Bem, mamãe, eu sei” – ah, tão solene quanto um juiz – “mas eram os últimos que o homem tinha, e ele queria ir para casa, por isso comprei tudo por dez centavos. Estavam tão baratos que achei uma pena deixá-los Ia; imaginei que o que não conseguíssemos comer você podia preparar em conserva!” Ah, o jeito como ele disse isso… tão sincero e sério, eu tive que rir. “Sou capaz de jurar!”, eu comentei então. “Você bate todos eles!…” Mas este era Grover! assim ele era naquele tempo! Como todo mundo dizia, desde criança ele tinha o bom senso e o discernimento de um homem… Filho, filho, eu vi todos vocês crescerem, e todos vocês eram brilhantes o bastante. Não havia nenhum palerma na minha família. Mas em inteligência versátil, discernimento e habilidade geral, Grover superava o grupo inteiro. Nunca vi ninguém igual a ele, e todos os que o conheceram quando criança dirão a mesma coisa.
Então, é isso o que respondo a eles agora, quando me perguntam sobre todos vocês. Tenho que contar a verdade. Eu sempre disse que você era bastante inteligente, Eugene… mas quando eles aparecem por aqui e gabam-se de você para mim, e de como você conseguiu sucesso e um certo nome, você sabe que eu não dou com a língua nos dentes. Fico sentada Iá e deixo que falem. Não me vanglorio de você… se eles querem vangloriar-se, e problema deles. Durante toda a minha vida, eu nunca me gabei de nenhum de meus filhos. Na época em que meu pai nos criou, nós éramos educados para acreditar que não seria bonito pôr filhos no mundo para nos gabarmos deles. “Se os outros quiserem fazer isso”, meu pai dizia, “tudo bem, deixe que eles façam. Nunca deixe transparecer por uma única palavra ou um único gesto que você sabe do que estão falando. Deixe que eles falem, e não diga nada.”
Então, quando aparecem por aqui e me contam tudo sobre as coisas que você fez, não revelo nada, nunca digo uma palavra. Pois é! Você sabe que, há cerca de um mês, aquele fulano apareceu aqui, um homem bem-vestido, você sabe… Parecia inteligente, esse tipo de pessoa importante. Disse que vinha de New Jersey, ou de algum lugar naquela região do país e começou a me fazer todo tipo de pergunta: como você era quando garoto e coisas assim.
Simplesmente fiz de conta que estava pensando no assunto e depois disse: “Ah, sei”, assim, bem séria, você sabe. “Ah, sei… E, acho que devo saber um pouquinho sobre ele. Afinal, Eugene é meu filho do mesmo jeito que todos os outros são. Eduquei-o do mesmo jeito que eduquei todos os outros. E…”, eu disse, tão solene que você não imagina, “… ele não era um mau garoto. Ora, até os doze anos de idade era igual a qualquer garoto… um menino normal e bom, na média.”
“Ah”, ele perguntou, “mas a senhora não percebia nada? Não havia nada de estranho? Alguma coisa diferente, que não percebia nas outras crianças?”
Eu não disse nada, você sabe. Apenas entendi tudo e me fiz tão solene quanto uma coruja; fingi que pensava no assunto tão séria que você não imagina.
“Ah, não”, respondi, bem devagar, depois de ter pensado no assunto. Pelo que me lembro, ele era um tipo de menino bonzinho, comum e normal como todos os outros.”
“Sei”, ele continuou, muito ansioso, entende? “Mas a senhora não notou o quanto ele era brilhante? Eugene devia ser mais inteligente que os outros!”
“Born”, comentei, fingindo que pensava no assunto. “Deixe-me ver…”, disse, olhando nos olhos dele, tão solene que você não imagina. “Ele se saía muito bem… é, sim. Acho que era um garoto bem inteligente sim. Não tenho queixas a fazer dele quanto a isso. Era brilhante sim. O único problema é que era preguiçoso.”
“Preguiçoso!”, ele exclamou. Você precisava ver a expressão do rosto dele… o homem deu um pulo, como se alguém tivesse espetado um alfinete nele. ”Preguiçoso!”, repetiu. “Ora, a senhora não quer dizer que…”
“É”, respondi … sem deixar escapar o menor sorriso. “Eu disse a mesma coisa a ele, na última vez que o vi. Disse que era muita sorte ele ter o dom das palavras. Claro que ele frequentou a faculdade e leu muitos livros; acho que foi lá que arranjou essa fluência de linguagem que dizem que ele tem. Mas, como eu disse a ele na última vez em que o vi: ‘Agora, olhe aqui’, eu disse, ‘se você consegue se sustentar fazendo esse tipo de trabalho leve que você faz, é porque tem muita sorte; nenhum outro parente seu teve uma sorte dessas. Tiveram que trabalhar duro para ganhar a vida’.”
Ah, eu contei mesmo, você sabe. Contei assim, na cara. Não fiz mistério nenhum. E, vou lhe dizer urna coisa, gostaria que você tivesse visto a cara dele. Era uma enorme interrogação.
“Bom”, ele comentou no final. “A senhora tem que admitir urna coisa, não? Ele foi seu filho mais brilhante, não foi?”
Simplesmente olhei para ele por um momento. Eu tinha que dizer a verdade. Não podia mais enganá-lo. Daí respondi: “Não. Ele era um menino bom e inteligente; não tenho reclamação a fazer sobre ele nesse ponto, mas o mais brilhante de meus filhos, aquele que superava todos os outros em bom senso, inteligência e discernimento – o melhor filho que tive, o garoto mais esperto que já conheci… foi… bem, não foi Eugene. Foi outro”.
Olhou-me por um momento e perguntou: “Qual deles foi?”.
Born, fiquei olhando para ele e sorri. Balancei a cabeça. Não diria a ele, você sabe. “Eu nunca me gabo de meus filhos”, respondi. “Você terá que descobrir sozinho.”
Mas para você eu tenho que dizer; e você sabe por si próprio; criei todos vocês, conheço cada um. E você pode acreditar no que digo: o melhor de todos era Grover!
Quando penso em Grover, em como ele era naquele tempo, sempre o vejo sentado lá, tão sério e circunspecto, o nariz achatado contra a janela, quando atravessávamos Indiana naquela manhã, indo para a Feira de Exposições.
Durante toda aquela manhã, descemos ao longo do rio Wabash – o rio Wabash atravessa Indiana, e o rio sobre o qual fizeram aquela canção. E eu ia ali, sentada, com todos vocês amontoados à minha volta, enquanto cruzávamos Indiana, indo para St. Louis, para a Feira.
E Grover, sentado lá, tão calmo e sério, ia olhando pela janela, e nem se mexia. Ia sentadinho ali feito um homem. Tinha somente onze anos e meio, mas tinha mais bom senso, discernimento e compreensão do que qualquer criança que já conheci.
Então, estava sentado ao lado de um senhor, e olhava muito pela janela. Eu não conhecia aquele senhor, nem mesmo perguntei o nome dele, mas vou lhe dizer uma coisa! Era um homem bonito, bem-vestido, uma pessoa importante, e pude ver que ele gostou muito de Grover. Daí Grover, sentado ali, olhando pela janela, virou-se para aquele senhor, tão sério e circunspecto quanto um homem adulto, e perguntou: “Que tipo de plantação cultivam aqui, senhor?”. Então o homem moveu a cabeça para trás e deu uma risadinha. “Bem, vejamos se posso lhe dizer”, ele respondeu. E ficou conversando com Grover, você sabe, os dois conversando, e Grover entendeu tudo, tão solene que você não imagina, e perguntou ao homem todo tipo de coisa: que tipo de árvores havia, o que crescia ali, de que tamanho eram as fazendas… todo tipo de pergunta, que o senhor respondia. Até que, em certo momento, eu disse: “Grover! Você não devia fazer tantas perguntas assim. Vai acabar chateando esse moço”.
O homem então moveu a cabeça para trás e riu. “Tudo bem. Não se preocupe com o garoto. Ele não me chateia nem um pouco. Se eu souber a resposta para as perguntas dele, responderei. E, se não souber, ora, direi a ele que não sei. Mas com ele está tudo bem”, ele disse, e pôs o braço em volta dos ombros de Grover. “Não se preocupe. Ele não está me chateando.”
Ainda me lembro da expressão de Grover naquela manhã; de seus olhos negros, de seu cabelo preto, e de sua marca de nascença no pescoço – tão sério, tão quieto, tão circunspecto –, enquanto ia sentado ali, a janela do trem, olhando as macieiras, as fazendas, os celeiros, as casas e as orquídeas, observando tudo. Pois creio que tudo era estranho e novo para ele.
Foi há tanto tempo, mas quando penso nisso, tudo volta, como se tivesse acontecido ontem. Agora todos vocês cresceram, ou morreram, ou foram embora, e nada é igual ao que era naquele tempo. Mas todos vocês estavam ali comigo naquela manhã; e acho que deveria me lembrar de como os outros eram; não sei por que não me lembro. Mas ainda consigo ver Grover exatamente como ele era, como ele estava naquela manhã em que atravessamos Indiana, ao longo do rio, para a Feira de Exposições.
III – A Irmã
Você se lembra, Eugene, de como Grover era? Da marca de nascença, dos olhos negros e da pele verde-oliva, quero dizer. O sinal de nascença estava sempre a mostra, por causa daquelas blusas de marinheiro abertas, que as crianças costumavam usar. Mas acho que você era muito pequeno quando Grover morreu… Outro dia eu estava olhando aquela velha fotografia. Sabe a qual me refiro? Aquela foto que tem mamãe e papai, e todos nós, crianças, diante da casa da rua Woodson. Mas você não aparece ali, Eugene. Você não entrou na foto. Você ainda não tinha nascido quando ela foi tirada… Lembra-se de como você ficava quando a gente dizia que você não passava de um pano de prato pendurado no céu, quando acontecia alguma coisa?
Você era o bebê. É o preço que paga por ser o bebê. Você não lembra da foto, lembra?… Outro dia mesmo eu estava olhando essa velha foto. La estávamos nós. E, meu Deus, o que significa tudo isso? Quero dizer, quando você vê como a gente era – Daisy, Ben, Grover, Steve, e todos nós… e como todo mundo acaba morrendo ou crescendo ou indo embora … E depois, olhe só para nós agora! Você não se sente engraçado? Quero dizer, não se sente estranho quando tenta imaginar essas coisas? Você frequentou a faculdade, deve saber a resposta; e eu gostaria que me dissesse qual é, se souber.
Meu Deus, quando penso às vezes em como eu era… nos sonhos que costumava ter. Tocando piano, praticando sete horas por dia, pensando que algum dia seria uma grande pianista. Tomando lições de canto com a tia Nell, porque sentia que um dia teria uma grande carreira na Opera… Você consegue entender isso hoje? Consegue imaginar? Eu! Na Opera dramática!… Quero perguntar isso a você hoje. Gostaria de saber.
Meu Deus! Quando vou até a cidade e desço a rua, e vejo todos aqueles meninos e meninas tão engraçados rondando a farmácia… você acha que algum deles tem ambições como as que nós tínhamos? Acha que alguma daquelas menininhas engraçadas pensa numa grande carreira na Opera?… Você nunca viu aquela foto da gente? Outro dia mesmo fiquei olhando para ela. Foi tirada diante da velha casa da rua Woodson; papai parado lá, de fraque, e mamãe a seu lado… e Grover, Ben, Steve, Daisy e eu, montados em nossas bicicletas. Luke, coitadinho, tinha só quatro ou cinco anos. Não tinha bicicleta ainda. Mas lá estava ele. E lá estávamos nós, todos juntos.
Bom, e lá estava eu, e minhas pobres peras finas, e meu vestido branco e comprido, e dois rabos-de-cavalo pendurados nas costas. E todas aquelas roupas engraçadas que nós usávamos, com todos aqueles enfeites… Mas acho que você não se lembra. Você ainda não tinha nascido.
Mas a gente era um grupinho bem simpático, se é que posso dizer isso. E lá estava o “nº 86”, daquele mesmo jeito que era, com a varanda, as videiras e os canteiros de flores na frente da casa – e a “Senhorita Eliza”, de pé ali, ao lado de papai, com um berloque espetado na cintura… Eu não devia rir, mas a “Senhorita Eliza”… bom, mamãe era uma mulher bonita naquele tempo. Sabe o que eu quero dizer? A “Senhorita Eliza” era uma mulher bem bonita, e papai, em seu fraque, um homem bonito. Lembra-se de como ele costumava se vestir aos domingos? E de como nós o achávamos maravilhoso? E de como me deixava pegar o dinheiro dele para contar? E de como pensávamos que ele era rico? E de como aquela lojinha minúscula da Praça era importante para nós?… Consegue entender agora por que achávamos que papai era o maior homem da cidade e… Ah, nem me diga! Nem me diga! Ele tinha lá seus defeitos, mas papai era um homem maravilhoso. Você sabe que ele era!
E lá estávamos Steve, Ben, Grover, Daisy, Luke e eu, alinhados diante da casa, com um dos pés apoiado em nossas bicicletas. E eu fiquei pensando sobre tudo isso. Tudo voltou. Você se lembra de alguma coisa sobre St. Louis? Você só tinha três ou quatro anos na época, mas deve lembrar alguma coisa… Lembra como você costumava berrar quando eu te esfregava? Como você gritava por Grover? Coitadinho de você, costumava gritar por Grover toda vez que eu colocava você na banheira… Ele era uma criança muito doce, e era louco por você… praticamente criou você.
Naquele ano Grover estava trabalhando na Pousada Inside, lá no pavilhão da Feira de Exposições. Lembra-se da velha Pousada Inside? Daquela coisa enorme, de madeira velha, dentro da Feira? E de como eu costumava levar você até lá, para esperar Grover sair do trabalho? E do gordo Billy Pelham, da banca de jornais… de como ele costumava te dar chicletes?
Todos eles adoravam Grover. Todo mundo gostava dele… E como Grover se orgulhava de você! Lembra-se de como costumava exibir você? De como levava-o para passear e conversar com Billy Pelham? E com o sr. Curtis, no escritório? E de como Grover tentava fazer você dizer ‘”Grover”? Mas você não conseguia… não sabia pronunciar o “r”. Dizia “Gova”. Esqueceu-se disso? Não deveria esquecer isso, porque você era um garoto bem bonitinho naquele tempo… Ha, ha, ha… não sei onde isso foi parar, mas você era um tremendo sucesso naquela época… Pode acreditar, garoto, você era mesmo Alguém naquele tempo.
E eu pensei sobre tudo isso, outro dia, quando estava olhando aquela fotografia. Sobre como costumávamos ir encontrar Grover lá, e como ele nos levava para o parque de diversões. Lembra-se do parque de diversões? Do Comedor de Cobras, do Esqueleto Vivo, da Mulher Gorda, do tobogã, do trem fantasma e da roda gigante? De como você gritou naquela noite em que levamos você na roda gigante? Você quase morreu de berrar… eu tentei gargalhar mas, pode acreditar, também estava com medo. Naquele tempo, tudo aquilo era uma grande novidade. E de como Grover riu de nós e disse que não havia perigo? Meu Deus! Pobrezinho do Grover. Ainda não tinha doze anos na época, mas parecia tão grande para nós. Eu era dois anos mais velha, mas achava que ele sabia de tudo.
Era sempre desse jeito com ele. Olhando para o passado agora, parece às vezes que foi Grover quem nos criou. Ele estava sempre cuidando de nós, dizendo-nos o que fazer, trazendo-nos alguma coisa – um sorvete ou um doce, qualquer coisa que comprava com o dinheirinho que recebia na Pousada.
Depois comecei a pensar na tarde em que fugimos de casa. Mamãe tinha saído para algum lugar. Grover e eu entramos no bonde e fomos a cidade. Meu Deus, pensávamos estar indo a algum lugar especial. Naquela época, era a isso que chamávamos de viajar. Andar de bonde era algo para se escrever numa carta para casa, naquele tempo… Ouvi dizer que há muitas construções novas por lá agora.
Então, entramos no bonde e percorremos todo o caminho até o setor comercial de St. Louis. Descemos na rua Washington, e ficamos andando para cima e para baixo. E, pode acreditar, garoto, achávamos aquilo fantástico. Grover levou-me a uma padaria e me deu uma soda. Depois passeamos um pouco mais, até o posto do sindicato, e seguimos em direção ao rio. Nós dois estávamos mortos de medo pelo que tínhamos feito; e imaginávamos o que mamãe diria se descobrisse.
Ficamos por lá até começar a escurecer; então paramos numa lanchonete – uma espelunca cheia de cadeiras de um braço só e de pessoas sentadas em bancos, e comendo no balcão. Lemos todos os cartazes para ver o que havia para comer, e quanto custava; acho que não havia nada por mais de quinze centavos no cardápio, mas nem se fosse o Delmonico’s poderia parecer tão maravilhoso para nós. Então ficamos parados lá, com o nariz achatado contra a janela, olhando para dentro. Duas crianças magrinhas, nós dois mortos de medo, experimentando ao máximo a aventura da vida. Entende o que quero dizer? Sentindo o cheiro de tudo, com todas as nossas forças, e pensando como tudo cheirava bem… Daí Grover virou-se para mim e sussurrou: “Venha, Helen. Vamos entrar. Está escrito quinze centavos pela carne de porco com feijão. Eu tenho dinheiro. Tenho sessenta centavos”.
Eu estava com tanto medo que não conseguia falar. Nunca estivera num lugar como aquele antes. Mas continuava pensando: “Ah, meu Deus, se mamãe descobrir”. Sentia-me como se estivéssemos cometendo um grande crime… Você sabe como é, quando a gente é criança, não sabe? Era uma aventura e tanto… não consegui resistir. Daí entramos e nos sentamos naqueles bancos enormes, diante do balcão, e pedimos carne de porco com feijão e café. Acho que estávamos tão amedrontados com o que tínhamos feito que na verdade não conseguiríamos saborear nada. Simplesmente engolimos tudo, depressa, e bebemos o café num trago só. Não sei se foi por excitação… acho que o coitadinho já estava doente quando entramos lá, e não sabia. Virei-me e olhei para ele; estava branco feito papel… E quando perguntei o que ele tinha, não respondeu. Era muito orgulhoso. Disse que estava bem, mas eu via que estava quase morrendo de tão doente. Então ele pagou a conta. Deu quarenta centavos… Nunca vou esquecer aquilo enquanto eu viver… Daí, juro, nem bem saímos, tudo aconteceu … ele mal teve tempo de alcançar o meio-fio.
O pobre garoto estava tão amedrontado e envergonhado. O que o amedrontava tanto não era o fato de ter vomitado, mas de ter gasto todo aquele dinheiro à toa. E de que mamãe descobrisse… Pobre garoto, ficou parado Iá, olhando para mim, e sussurrou: “Olhe, Helen. Não conte nada a mamãe. Ela vai ficar muito brava se descobrir”. Depois fomos depressa para casa; e ele ainda estava branco feito um lençol quando chegamos.
Mamãe estava à nossa espera. Olhou para nós – você sabe como a “Senhorita Eliza” olha para nós quando acha que fizemos alguma coisa que não devíamos. Ela perguntou: “Mas onde diabos vocês dois se meteram?”. Acho que estava preparada para nos dar um belo pito. Daí deu uma olhada na cara de Grover. Foi o suficiente. Disse: “Meu Deus, filho, o que foi isso?”. Ela própria ficou branca feito um lençol… E tudo o que Grover conseguiu responder foi: “Mamãe, estou me sentindo mal”.
Ele estava mesmo muito doente. Caiu na cama, mamãe e eu tiramos-lhe a roupa, ela pôs a mão na testa dele e saiu para o hall; estava tão branca que até mesmo um giz faria um traço preto em seu rosto… Então me disse, num sussurro: “Vá depressa chamar o doutor, ele está ardendo em febre”.
E lá fui eu, correndo rua acima, meu rabo-de-cavalo voando, para a casa do doutor Packer. Trouxe-o de volta comigo. Quando ele saiu do quarto de Grover, disse à mamãe o que devia fazer, mas acho que ela nem ao menos ouviu.
Tinha o rosto branco feito giz. Olhou para mim com olhos penetrantes. Mas não me enxergou nem um pouco. Meu Deus, nunca vou esquecer o jeito como ela me olhou, como meu coração parou de bater e quase me subiu até a garganta. Eu não passava de uma garotinha magricela de catorze anos. Mas era como se ele estivesse morrendo bem ali, na minha frente. Se acontecesse alguma coisa a ele, eu sabia que ela nunca superaria, nem se vivesse até os cem anos de idade.
Coitada de mamãe. Você sabe, ele sempre foi a menina dos olhos dela. Você sabe disso, não sabe? Enquanto todos nós, os outros, não! Não, senhor! Sei do que estou falando. Sempre foi Grover… ela sempre pensou mais nele do que em qualquer um de nós. E – pobre garoto! – ele era uma criança tão doce. Ainda posso vê-lo deitado lá, e me lembro de como estava doente e do quanto eu tinha medo! Não sei por que tinha tanto medo. Tudo o que fizemos foi fugir de casa e parar numa lanchonete… mas eu me sentia culpada por tudo aquilo, como se a culpa fosse minha.
Tudo isso voltou-me a lembrança outro dia, quando eu olhava aquela fotografia; e pensei: meu Deus, éramos duas crianças ali, juntas; eu era apenas dois anos mais velha que Grover, e agora tenho quarenta e seis anos… Você acredita? Consegue imaginar? Como a gente cresce, muda e vai embora? Meu Deus, Grover parecia tão adulto para mim. Era um menino tão quieto… acho que por isso parecia mais velho que todos nós.
Fico pensando no que Grover diria hoje se visse aquela foto. Todas as minhas esperanças, todos os meus sonhos e todas as minhas ambições resultaram em nada; e tudo foi há tanto tempo que é como se tivesse acontecido num outro mundo. Aí tudo volta, como se tivesse acontecido ontem… Às vezes fico acordada de noite, deitada na cama, pensando em todas as pessoas que já existiram e se foram e no quanto tudo é diferente do que pensávamos que seria. Depois saio para a rua no dia seguinte, e vejo os rostos das pessoas que passam por mim… Elas não lhe parecem estranhas? Você não acha que tem algo de engraçado nos olhos das pessoas, como se todas elas estivessem perplexas com alguma coisa? Como se elas se perguntassem o que aconteceu desde que eram crianças… O que foi que perderam?… Será que você entende o que quero dizer, ou por acaso estou louca? Você cursou a faculdade, Gene, e quero que me diga se sabe a resposta. As pessoas parecem assim para você também? Nunca percebi essa expressão nos olhos das pessoas quando eu era criança… e você?
Meu Deus, como eu gostaria de saber a resposta para essas coisas. Gostaria de descobrir o que está errado, o que mudou desde então, e também se temos a mesma expressão esquisita em nosso olhar. Será que isso acontece a todos nós, a todo mundo?… Grover, Ben Steve, Daisy, Luke e eu todos nós ali, diante da casa da rua Woodson, em Altamont… lá estamos nós, e ali se vê como éramos… e como tudo se perdeu. O que é, afinal, que as pessoas perdem?
Como é que nada acontece do jeito que pensamos que seria? Tudo se perde a tal ponto que parece nunca ter acontecido… a ponto de ser algo com que sonhamos em algum lugar… Entende o que quero dizer? É como se acabasse precisando ser algo de que ouvimos falar em algum lugar… que aconteceu com outra pessoa. E depois tudo volta de novo.
E de repente você se lembra apenas de como era tudo; vê novamente aquelas duas criancinhas magricelas, engraçadas e amedrontadas, com o nariz achatado contra a janela suja daquela lanchonete, trinta anos atrás. Você se lembra da sensação, do cheiro de tudo, até mesmo do cheiro estranho da velha despensa daquela casa em que morávamos. Da escada diante da casa, e de como eram os quartos. Daqueles dois garotinhos em roupas de marinheiro, que costumavam andar pra cima e pra baixo, em triciclos, na frente da casa. E da marca de nascença no pescoço de Grover… Da Pousada Inside… de St. Louis e da Feira de Exposições.
Tudo volta como se tivesse acontecido ontem. E depois vai embora de novo, e parece mais distante e estranho do que se tivesse acontecido em sonho.
IV – O Irmão
– Essa é a rodovia King’s – o homem disse.
Então Eugene olhou e viu que era apenas uma rua. Havia alguns prédios altos e novas, um hotel grande, alguns restaurantes e churrascarias do tipo moderno, a palidez monótona das luzes de neon, o tráfego incessante de carros – tudo isso era novo, mas tratava-se apenas de uma rua. Ele sabia que sempre fora somente uma rua, e nada mais; de qualquer forma, porém, ficou parado lá, olhando, perguntando-se o que mais ele esperara encontrar.
O homem continuava olhando para ele, com olhos interrogativos; Eugene perguntou-lhe se a Feira de Exposições não ficava por ali.
– Claro, a Feira ficava bem ali, onde agora é o parque. Mas essa rua que você está procurando… não se lembra do nome dela?
Eugene disse achar que o nome da rua era Edgemont, mas não tinha certeza. Pelo menos era um nome parecido. E disse que a casa ficava na esquina daquela rua com uma outra.
– E qual era essa outra rua? – o homem perguntou. Eugene disse que não sabia, mas que a rodovia King’s ficava mais ou menos a um quarteirão de distância, e que uma linha interurbana passava a meio quarteirão de onde ele morava.
– Que linha era essa? – o homem perguntou, fixando-lhe o olhar.
– A linha interurbana – Eugene respondeu.
O homem encarou-o de novo, e por fim acrescentou:
– Não conheço nenhuma linha interurbana.
Eugene disse tratar-se de uma linha que passava atrás de algumas casas, que havia cercas de madeira e grama margeando a linha férrea. De todo modo, não poderia dizer que era verão naquele tempo, que se podia sentir o cheiro dos dormentes, um cheiro de madeira e piche, e sentir uma espécie de vazio invadir a tarde, depois que o bonde passava. Disse apenas que a linha interurbana ficava em algum lugar ali atrás, entre os quintais de algumas casas e velhas cercas de madeira, e que a rodovia King’s ficava a um ou dois quarteirões.
Não disse que a rodovia King’s não era uma rua naquele tempo, mas sim uma espécie de estrada que saía de algum mundo encantado e ia serpenteando até alguma terra sombria e mal-assombrada; e que, no meio do caminho, confundia-se com Tom, o filho do tocador de flauta, com pãezinhos doces da Páscoa, com toda aquela luz que aparecia e desaparecia, com a travessia de Indiana pela manhã, com o cheiro de fumaça da locomotiva, com o posto do sindicato e, sobretudo, com vozes distantes e há muito tempo perdidas, que diziam “rodovia King’s”.
Não disse nada disso sobre a rodovia King’s, porque olhou a sua volta e viu o que era a rodovia King’s. Tudo o que podia dizer era que a rua ficava perto da rodovia King’s, que era na esquina, e que uma linha interurbana de bondes ficava próxima também. Disse que era uma casa de pedra, que havia uma escada de pedras na frente, e uma faixa de grama. Achava que a casa tinha um torreão num canto, mas não tinha certeza.
O homem tornou a olhar para ele, e confirmou:
– Essa aqui é a rodovia King’s, mas nunca ouvi falar em nenhuma rua como esta.
Eugene deixou-o então, e continuou andando até encontrar o lugar. Finalmente virou na rua, encontrando o local onde as duas esquinas cruzavam-se, o quarteirão apinhado, o torreão, a escada; parou um instante, olhando para trás, como se a rua fosse o Tempo.
Ficou parado ali por alguns momentos, esperando por uma palavra, por uma porta que se abrisse, por uma criança que aparecesse. Esperou, mas nenhuma palavra foi pronunciada; ninguém apareceu.
Mesmo assim, tudo estava exatamente igual ao que sempre fora, exceto porque a escada era mais baixa do que ele pensava, o pórtico nem tão alto, a faixa de grama menos larga. Todo o resto estava como ele sabia que estaria. Os três andares, a fachada de pedras cinzentas, o telhado de ardósia, inclinado, a lateral em tijolo vermelho e cheia de janelas, e ainda, no centro, a velha entrada em arco, para uso do médico.
Havia uma árvore na frente, e um poste; atrás, e na lateral, mais árvores do que ele imaginaria que houvesse. E todas as empenas de ardósia nos torreões, todas as empenas de ardósia nas janelas, formando pontas, e as duas janelas arqueadas, em pedra forte, no quarto da frente.
Tudo era tão forte, tão sólido, e tão feio – e tudo tão duradouro e bom, do jeito como ele se lembrava, exceto por que não sentia o cheiro do piche, a aridez calafetadora e quente dos velhos dormentes rachados, não via as cercas de madeira dos quintais, a grama áspera e abafada, o vazio da tarde quando o bonde ia embora, os gêmeos bem vestidos em suas roupas de marinheiro, sacudindo-se em seus triciclos numa furiosa barulheira pra cima e pra baixo, na frente da casa, não experimentava a sensação da tarde quente e de que todos tinham ido à Feira, de que estavam ausentes.
Exceto por isso, tudo o mais era igual; exceto por isso e pela rodovia King’s, que agora era uma rua; exceto por isso e pela criança que não aparecera.
Era um dia quente. A escuridão chegara. O calor aumentara, sufocava e pairava sobre St. Louis como um lençol encharcado. Era um calor úmido, e todos sabiam que não haveria alívio ou aragem de noite. Quando se tentava pensar em que momento o calor terminaria, dizia-se: “Não pode durar. Está fadado a terminar logo”, como sempre dizemos nos Estados Unidos. Mas ninguém acreditava nisso. O calor encharcava, e os homens sufocavam-se nele: o rosto das pessoas ficava gorduroso e pálido por causa do calor, e revelava uma aflição paciente. Era então que se sentia aquela espécie de desolação que se sente ao fim de um dia quente, numa grande cidade americana – quando a pessoa mora longe, do outro lado do continente, pensa em toda aquela distância, em todo aquele calor, e percebe: “Meu Deus! Como esse país e grande!”.
Tudo o que se sente é vazio, o vazio e a desolação da América, a solidão e a tristeza do céu tão alto e quente, e a noite chegando, atravessando o Meio-Oeste, a terra abafada e mergulhada em calor, as cidadezinhas solitárias, as fazendas, os campos, o forno sufocante de Ohio, Kansas, Iowa e Indiana no fim do dia; e vozes, vozes indefinidas em pleno calor, vozes nas pequenas estações, calmas, ocasionais, meio enfraquecidas naquela imensa vacuidade e fadiga do calor, do espaço e dos céus mais imensos, mais tristes, mais altos terríveis.
Depois ouve-se de novo a locomotiva e o maquinismo, o gemido do apito e o sino, o som de deslocamentos no pátio de manobras, e perambula-se pela rua, perambula-se pela rua, sob os feixes de luzes intensas, perto de gente de rosto inclinado; e mergulha-se em desolação, em nenhuma criança.
Ele se sente como qualquer pessoa se sente quando volta, e sabe que não devia ter vindo; no fim das contas, quando percebe isso, a rodovia King’s não passa de uma rua; e St. Louis, o nome encantado, não passa de uma cidade comum, grande e quente sobre o rio, sufocando num calor fatigante e úmido; já não e uma cidade tão sulista, nem qualquer outra coisa que a faça melhor.
Antes não era assim. Lembrou-se do quanto costumava fazer calor, e do quanto o calor era bom; de como ele ficava deitado num colchão inflável, no quintal, e de como o colchão esquentava, secava e cheirava como um colchão quente e ensolarado; de como o sol despertava-lhe uma vontade de dormir, e de como, às vezes, ele descia até o porão para sentir o frescor; de como o porão tinha o cheiro que todos os porões têm um cheiro fresco, de mofo, de teias de aranha e garrafas imundas. Lembrou-se de como, ao abrir a porta lá embaixo, o cheiro subia até ele: fresco, bolorento, rançoso, úmido e enigmático, e de como a ideia do porão escuro sempre invadia-o de uma espécie de excitação entorpecida, uma espécie de expectativa visceral.
Lembrou-se de como costumava esquentar de tarde, e do quanto ele experimentava uma sensação de vazio e vaga tristeza naquelas tardes, quando todos iam embora. A casa parecia tão sozinha; às vezes ele ficava sentado lá dentro, no segundo degrau da escada, e escutava o som do silêncio e do vazio na tarde. Sentia o cheiro de cera no chão e na escada, via a porta corrediça em seu verniz marrom e sua cortina de contas; enfiava as mãos entre as cordinhas de contas, enrolava-as em seus braços e deixava-as bater uma na outra, um leve tilintar de contas ao redor de seu corpo. Sentia a escuridão, o vazio, a escuridão de verniz, a luz colorida que penetrava na casa pelos vitrais da janela da escada, pelos pequenos vitrais da porta, luz colorida e vazio, silêncio e cheiro de cera no chão, e a vaga tristeza na casa, numa tarde quente. Todas essas coisas tinham uma espécie de vida própria: pareciam esperar atentas, muito vívidas e tranquilas.
Ele ficava sentado lá, escutando. Ouvia a menina da casa vizinha praticando suas lições de piano de tarde, o bonde aproximando-se das cercas dos quintais, meio quarteirão adiante· sentia o cheiro seco e abafado das cercas, da grama áspera quente, marcada por rodas de carro na tarde, do piche, dos dormentes rachados e secos, das flanges reluzentes de tão gastas; e sentia a solidão daqueles quintais na tarde, o vazio quando o bonde passava.
Depois desejava que a noite chegasse e as pessoas voltassem; queria o raio oblíquo de luz, pés cruzando a rua, os gêmeos andando de triciclo em suas roupas de marinheiro, o cheiro do jantar, o barulho de vozes na casa, e Grover voltando da Feira.
Foi assim quando ele entrou na rua, encontrou o lugar onde as duas esquinas se cruzavam e, por fim, virou-se para ver se o Tempo estava ali. Passou pela casa; algumas luzes estavam acesas, a porta aberta, uma mulher sentada na varanda. Logo ele virou-se, voltou e parou diante da casa. A luz da esquina despejava-se em cheio sobre a casa. Ficou parado, olhando para ela, e pôs o pé na escada.
Então perguntou à mulher que estava na varanda:
– Esta casa … desculpe, mas poderia por favor me dizer quem mora nessa casa?
Sabia que suas palavras eram estranhas e vagas, nem tinha dito o que desejava dizer. A mulher olhou para ele um instante, perplexa.
– Eu moro aqui. Quem está procurando? – disse ela.
– Ah, estou procurando …
Interrompeu-se, pois sabia que não poderia dizer-lhe o que era que estava procurando.
– É que antes havia uma casa… – continuou ele.
A mulher lançava-lhe agora um olhar severo.
– Acho que já morei aqui – Eugene concluiu.
Ela nada respondeu. No mesmo instante ele continuou:
– Morei aqui nessa casa, quando era garotinho.
Ela permaneceu em silêncio, olhando para ele, até que disse:
– Ah! Tem certeza de que era nessa casa? Lembra-se do endereço?
– Esqueci o endereço – ele respondeu. – Mas a rua era Edgemont, e ficava numa esquina. E sei que a casa é esta.
– Essa não é a rua Edgemont. Chama-se Bates.
– Bom, devem ter trocado o nome da rua. Mas a casa é essa mesma, não mudou.
A mulher ficou em silêncio por um momento, depois inclinou a cabeça, confirmando:
– É. Mudaram mesmo o nome da rua. Lembro que, quando eu era criança, ela tinha um outro nome. Mas isso foi há muito tempo. Quando foi que você morou aqui?
– Em 1904.
De novo ela ficou quieta, olhando para ele. Em seguida disse:
– Foi o ano da Feira. Você estava aqui, então?
– Estava sim – ele respondeu, rápido agora, mais confiante. – Minha mãe alugou a casa, e passamos sete meses aqui. O proprietário era o doutor Packer. Alugamos dele.
– É verdade – a mulher confirmou, inclinando a cabeça. – A casa era do doutor Packer. Ele já morreu, há muito tempo. Mas é verdade, a casa era dos Packer sim.
– Aquela entrada na lateral – disse Eugene –, onde a escada sobe, era para os pacientes do doutor Packer. A entrada para o consultório dele.
– Ah, eu não sabia disso – a mulher respondeu. – Sempre me perguntei para que servia. Não sabia.
– E essa sala grande, aqui na frente – ele continuou –, era o consultório. Tinha portas corrediças; e do lado uma espécie de alcova para os pacientes …
– É verdade. A alcova ainda existe, só que tudo foi transformado numa única sala … e eu nunca consegui saber para que servia a alcova.
– Havia portas corrediças também, deste lado, que abriam para o hall… e uma escada que subia desse lado aqui. E no meio da escada, no patamar, tinha uma janelinha de vitrais … e aqui, na porta corrediça do hall, uma espécie de cortina feita de cordinhas de contas.
Ela inclinou, a cabeça, sorrindo.
– É, está tudo do mesmo jeito. Ainda temos a porta corrediça e a janela de vitrais na escada. Só não há mais a cortina de contas, mas me lembro que tinha. Sei o que você quer dizer.
– Quando morávamos aqui – ele continuou –, usávamos consultório do médico como sala de estar… a não ser no último, ou nos últimos dois meses… que usávamos como quarto.
– Também é um quarto agora – disse ela. – Sou eu quem cuida da casa… alugo quartos. Todos os quartos lá de cima estão alugados; mas tenho dois irmãos, que dormem aqui nesse quarto da frente.
Ambos calaram-se por um momento. Depois Eugene disse:
– Meu irmão ficava aí também.
– No quarto da frente?
– É – ele respondeu.
A mulher fez uma pausa, e perguntou:
– Não quer entrar? Acho que não mudou muito. Gostaria de ver?
Ele agradeceu, disse que gostaria e subiu a escada. Ela abriu a porta de tela para que Eugene entrasse.
Lá dentro, tudo estava do mesmo jeito: a escada, o saguão, a janela de vitrais na escada. Tudo igual, a não ser pelo vazio, pela luz colorida do vazio na tarde, e pela criança que um dia se sentara ali, esperando na escada.
Tudo estava do mesmo jeito, exceto que, quando criança, ele se sentara ali, sentindo que as coisas estavam em Algum Lugar – e agora ele sabia. Sentara-se ali, sentindo que um rio quente e imenso ficava em algum lugar – e agora ele sabia! Sentara-se ali, perguntando-se o que era a rodovia King’s, onde começava e onde terminava – agora ele sabia! Sentara-se ali, obcecado pela mágica das palavras “centro da cidade” – que agora ele conhecia –, pelo bonde que passava, e por todas as coisas que apareciam e desapareciam e tornavam a aparecer, como as sombras das nuvens que passavam por uma floresta sem que nunca fossem capturadas.
E sentiu que, se pudesse apenas sentar ali na escada mais uma vez, na solidão e no vazio da tarde, conseguiria trazer tudo de volta. Conseguiria se lembrar de tudo o que ele fora e vira – o breve resumo de si próprio, o universo de seus quatro anos, com toda a luz do Tempo sobre ele –, daquele universo que era tão pequeno para medir, e mesmo assim tão distante, tão infinito para relembrar. Conseguiria ver de novo seu próprio rosto pequeno, afundado no espelho escuro do hall, examinar mais uma vez os olhos sombrios da criança que ele fora, e descobrir ali, naquele quieto indivíduo de três anos, a integridade solitária do “eu”, sabendo: “Eis aqui a Casa, e a Casa escutando; eis aqui o Vazio, o Vazio na tarde: e eis aqui, nessa Casa, nesse Vazio, meu cerne, meu centro – eis aqui eu”.
Mas enquanto pensava nisso, sabia que, mesmo se sentasse ali sozinho e trouxesse tudo de volta, tudo iria embora tão logo fosse capturado, da mesma forma como acontecia antes: primeiro chegava, feito os numerosos e entorpecidos rumores da Feira distante e encantada; depois esvaía-se feito sombras de nuvens numa colina, partia feito rostos num sonho; aparecia, desaparecia, aparecia, podia-se agarrar e ter, mas nunca capturar – como vozes perdidas na montanha há muito tempo, e como os olhos escuros e o rosto circunspecto do menino sombrio, perdido, seu irmão que, nos ritmos misteriosos de sua vida e de seu trabalho, costumava entrar na casa, depois sair, e voltar de novo.
A mulher levou Eugene até o fundo da casa, atravessando o hall. Ele contou a ela sobre a despensa, disse onde ficava, apontando para o local, mas agora já não estava ali. E contou-lhe sobre o quintal do fundo, sobre a velha cerca de madeira que havia ao redor. Mas a velha cerca de madeira desaparecera. Contou-lhe também sobre o galpão da carruagem, que era pintado de vermelho. Mas agora havia somente uma pequena garagem. O quintal continuava lá, mas menor do que ele pensava, e agora havia uma árvore.
– Não sabia que tinha uma árvore – disse ele. – Não me lembro de nenhuma árvore.
– Talvez ainda não houvesse – ela respondeu. – Em trinta anos uma árvore pode crescer.
Depois voltaram para dentro da casa e pararam diante da porta corrediça.
– Posso ver esse quarto? – ele perguntou.
Ela abriu a porta. Suavemente as folhas da porta abriram-se, numa lentidão ruidosa, como costumavam fazer. Então ele reviu o quarto. Estava do mesmo jeito. Havia uma janela na lateral, as duas janelas arqueadas na frente, a alcova, a porta corrediça, a lareira de ladrilhos matizados em verde, de consolo em madeira de lei escura, os suportes do consolo, um toucador e uma cama, no mesmo lugar onde o toucador e a cama ficavam tanto tempo atrás.
– É este o quarto? – a mulher perguntou. – Não mudou?
Ele disse que estava igual.
– E seu irmão dormia aqui, onde meus irmãos dormem?
– É, esse é o quarto dele.
Calaram-se. Ele virou-se para sair e disse:
– Bom, obrigado por ter me mostrado.
Ela respondeu que fora um prazer, que não fora trabalho nenhum.
– E quando você encontrar com sua família, pode dizer a eles que viu a casa – continuou. – Meu nome é senhora Bell. Pode dizer a sua mãe que a casa pertence a uma senhora Bell agora. E quando encontrar com seu irmão, diga-lhe que viu o quarto onde ele dormia e que achou que estava do mesmo jeito.
Então Eugene contou-lhe que seu irmão morrera. A mulher fez silêncio por um momento. Depois olhou para ele e perguntou:
– Ele morreu aqui, não foi? Nesse quarto?
Ele respondeu que sim.
– Bom, então – ela continuou –, eu sabia. Não sei como, mas quando você disse que ele dormia aqui, entendi logo.
Ele nada respondeu. Em seguida a mulher perguntou:
– De que ele morreu?
– Tifo.
Ela pareceu chocada, confusa, e disse, sem querer:
– Meus dois irmãos…
– Acho que não é preciso se preocupar – Eugene interrompeu. – Isso foi há muito tempo.
– Claro, eu não estava pensando nisso. É que… saber que um garotinho… seu irmão… esteve-aqui nesse quarto onde meus dois irmãos dormem agora…
– Bem, talvez eu não devesse ter contado a você. Mas ele era um bom menino… e se você o tivesse conhecido, não se importaria.
Ela não disse nada. Rapidamente ele acrescentou:
– Além disso, ele não ficou aqui muito tempo. Na verdade esse nem era o quarto dele… mas na noite em que voltou da rua com minha irmã ele estava tão doente que nem o tiraram daí.
– Ah, sei… – a mulher respondeu. – Você vai contar a sua mãe que esteve aqui?
– Acho que não.
– Eu… eu imagino como ela deve se sentir sobre esse quarto.
– Não sei. Ela nunca fala nisso.
– Ah … Quantos anos ele tinha?
– Doze anos.
– Você devia ser bem pequeno, então.
– Tinha quase quatro anos.
– Daí você … você só queria rever o quarto, não é? Foi por isso que voltou.
– Foi.
– Bom – a mulher disse, vagamente –, acho que conseguiu rever então.
– Consegui sim, obrigado.
– Você não deve lembrar direito dele, não é? Acho que não deve lembrar mesmo.
– Não, não muito.
Os anos retiravam-se um a um, como folhas caídas: o rosto voltou-lhe novamente, o ovalado suave e sombrio, os olhos escuros, a marca em marrom cálido no pescoço, o cabelo negro e brilhante, tudo curvando-se, aproximando-se – a figura aparecendo-lhe de maneira fantasmagórica, instantânea e atenta.
– Agora diga: Grover!
– Gova.
– Não… “Gova” não… Grover!… Diga!
– Gova.
– Ah-ha… você não disse. Você disse “Gova”. Agora diga… Grover!
– Gova.
– Olhe, vou lhe dizer o que vou fazer se você falar certo. Quer ir até a rodovia King’s? Quer que Grover leve você? Tudo bem, então. Se você disser “Grover” certinho, levo você até a rodovia King’s e te compro um sorvete. Agora fale direito: Grover!
– Gova.
– Ah-ha, você… Você é o garotinho mais maluquinho que já vi. Não consegue nem mesmo dizer “Grover”?
– Gova.
– Ah-ha … Seu Língua-Presa, é isso o que você é… Mas tudo bem, vamos, vou te comprar um sorvete de qualquer jeito.
Tudo voltou, e sumiu, e se perdeu de novo. Eugene virou-se para ir embora, agradeceu a mulher e despediu-se.
– Bom, adeus então – a mulher respondeu, enquanto trocavam um aperto de mãos. – Eu ficaria feliz se pudesse lhe mostrar. Ficaria feliz se… – interrompeu-se, mas por fim continuou. – Bem, mas já faz tanto tempo. Aposto que você achou tudo muito mudado agora. Fizeram muitas construções por aqui… e daquele lado ali também, onde ficava o pavilhão da Feira. Você vai achar tudo diferente.
Não tinham mais nada a dizer. Ficaram parados ali na escada por um momento, ela apertou-lhe a mão mais uma vez.
– Bom, adeus.
De novo ele encontrava-se na rua, tornou a encontrar o local onde as esquinas cruzavam-se, e pela última vez virou-se para ver para onde o Tempo se fora.
Sabia que nunca mais voltaria, e que a magia perdida também não haveria de voltar de novo. Perdido agora estava tudo: a rua, o calor, a rodovia King’s, Tom, o filho do tocador de flauta, tudo misturado ao murmúrio numeroso e entorpecido da Feira, à sensação do vazio na tarde, à casa que esperava, e à criança que sonhava. E fora daquela floresta encantada, daquele matagal da memória humana, Eugene sabia que o olho escuro e o rosto quieto de seu amigo e irmão – pobre criança, um estranho na vida, um exilado na vida, perdido como todos nós, uma cifra num labirinto sem saída, há tanto tempo –, o menino perdido, tinham partido para sempre, e não voltariam.
A princípio pensei que a primeira seção tivesse aquele excesso descritivo devido ao estilo da época, mas as duas seções do meio, em primeira pessoa, se sobressaem pela fluidez, a última seção voltando à terceira pessoa e tendo algo daquelas descrições estendidas que iniciam o conto. No fim, a experiência foi positiva e suspeito que essas mudanças de estilo casam com a própria temática do conto com toda aquela imagem da cidade e da oficina do pai nos sendo apresentadas como uma cenário que logo se tornará fugidio à memória dos membros da família Gant. Não só o espaço, mas também a figura central da história, primeiro apresentado em um momento de perda de inocência e, depois, reaparecendo nas rememorações dos seus familiares, Grover Gant, o menino perdido. É sobretudo nessas três seções posteriores que se tem uma presença maior de trechos dedicados à reflexão quanto à passagem do tempo e os limites da memória. Quando a irmã questiona acerca da expressão de perplexidade das pessoas, por exemplo, chega a doer, pois é algo que começo a ter mais nota na fase da vida em que estou. Outra proeza do texto é a diferença de cada voz narrativa, em especial da mãe para irmã, na primeira pesando o luto e um certo tipo de crueldade que a detenção nesse sentimento causa a ela. Amo textos que remetem ao tempo e a memória e este toca nesses temas de forma magistral.