EntreContos

Detox Literário.

O Pequeno Macaco de Osso – Conto (Angelo Rodrigues)

Amável leitor, dotado de bom julgamento,
Quando descobrires a sutil invenção
Deste autor, atenha-te apenas ao estilo,
E não te perguntes se é verdadeiro o que lês.
………
Au Lecteur, Sonnet de Herberay
(Nicolas de Herberay, 14??-1552)

 

 

Logo que amanheceu, Remedios correu ao quarto de Sebastian Lambert. Precisava tirá-lo da cama com urgência, tinham pressa. Havia um horário previamente acertado com possíveis clientes que desejavam conhecer a casa, talvez comprá-la, e logo chegariam.

— Arrume-se, Sebastian, vamos! Ande! Logo elas chegam. Eu disse a elas que você poderia recebê-las logo cedo, ainda nesta manhã — ela disse.

Tirou de cima dele um mundo de cobertas, abriu dez centímetros de cortina de cada uma das duas janelas do quarto e fez dançar sobre as dobras dos tecidos a pálida luz do dia que mal começara.

Remedios colocou sobre a cômoda, ao lado da cama de Sebastian, um copo de água com gelo tomada por rodelas de limão fresco, um vidro com aspirinas e um par de toalhas secas e limpas, e quis retornar às atividades para receber as possíveis compradoras da casa.

— Você disse elas, Remedios? — falou Sebastian, entredentes, virando o rosto na direção contrária à luz que chegava das janelas.

— Sim, elas, por quê? Hoje serão duas senhoras. Virão ver a casa. Talvez a comprem… mostraram-se bem interessadas… têm dinheiro, que é o que importa, e querem fazer daqui uma…

— Não me torture com isso, Remedios… essa luz imensa. Você não vê que ainda não dormi nada… — ele disse a meio caminho de despertar.

— Não seja moleirão! Você tem um compromisso, não se demore. Não perca mais essa oportunidade.

— Oportunidade? Que oportunidade? Do que você está falando, Remedios? Isso não é uma oportunidade, é uma crueldade, talvez mais que isso… Que horas são? Acabei de me deitar…

Remedios já havia deixado o quarto.

Sebastian dormira pouco e mal. A festa que dera na noite anterior, que deveria terminar por volta das duas da madrugada, havia entrado pelas horas e não teve tempo certo para terminar, só chegando ao fim quando os músicos desistiram de continuar maltratando os instrumentos; estavam exausto, alguns bêbados demais para tirar deles uma nota correta, o que não chegava a ser novidade nas festas promovidas por Sebastian, que sempre foram muitas.

Não fossem as diligências de Remedios, ele só despertaria no final da tarde, quando seu corpo estivesse completamente livre dos excessos da noite. Estava péssimo, acabado, um idoso de quarenta e cinco anos, ainda um pouco zonzo com os exageros do gim, do uísque e do jazz. Esquecera-se de tudo, principalmente dos compromissos que começariam pela manhã.

Em seus ouvidos ainda permaneciam os efeitos de um saxofone inclemente, de um piano enlouquecido e de uma bateria que se mostrou infernal por toda a noite, nas mãos de um garoto que não teria mais de vinte anos, que começou a tocá-la e não parou, horas a fio. Intermináveis improvisos que pareciam não ter fim. Todos com muito balanço. O rapaz tinha preferência por usar a caixa, o chimbal e os pratos de ataque e condução. Mostrou-se infernalmente hábil, e sabia disso. Sebastian havia gostado tanto de suas habilidades que o procurou para saber seu nome, que era… bem, já não tinha clareza do nome que ele lhe dera. Sequer sabia se havia recebido dele algum nome, ou se, de fato, teria se dirigido ao garoto para dizer-lhe algo além de balançar a cabeça algumas vezes em sinal de aprovação.

Havia ainda em seus ouvidos o barulho de mil pés que continuavam a arranhar sem dó o mais fundo de suas lembranças. Podia ouvi-los se arrastando por sobre o piso do grande salão. Vozes velozes, vozes, vozerio voraz, o som de taças se chocando, muitas vezes indo ao chão. O barulho das garrafas se movendo sobre mesas e bandejas, os risos, o cheiro do tabaco e do álcool deixando mesas e sofás para tomarem o rumo da casa inteira.

Sebastian lembrava-se de um jovem pretíssimo muito magro cujo nome era… bem, esquecera-se do nome que o jovem lhe dera ao chegar. Mas isso tinha importância. Importava-se com a sua presença. Ele tocava e cantava como Pee Wee Crayton, agitado, ritmado, e dançava como… bem, acreditava que ele não houvesse dançado. Não lembrava se o jovem havia dançado ou apenas cantado enquanto tocava uma guitarra bem ritmada. Havia nele um ralo bigode, ou era apenas a sombra de seu nariz? Não tinha certeza. Mas era certo que ele viera acompanhado de uma loura pequenina de quadris largos, que vestia uma roupa muito justa. Ao vê-la, Sebastian soube que aquela mulher poderia seduzir o homem que desejasse ter ao seu lado, em sua cama. Uma pinta posta no lado direito do rosto a deixava como uma outra Marilyn, misteriosa, seios que afrontavam a quem a olhasse, colocando-a como se usasse como sutiã um par de coadores de café feitos de aço. Era uma espiã atuando por trás das linhas inimigas num filme noir: introspectiva e sedutora. Ela permaneceu por longo tempo com um cigarro entre os dedos, que pouco levava à boca, ou fumava intensamente, não lembrava. Quando ela começou a cantar, foi como se alguém houvesse posto na vitrola um disco de Peggy Lee em seus melhores dias. Sim! Lembrava-se de seu nome, que era Louella Brown, ou Laura, ou mesmo Lola Lola, talvez Lorah Louella Brown, Loraine ou Lotte alguma-coisa, assim… não lembrava ao certo, mas tinha certeza… Bem, talvez seu nome sequer começasse com a letra L. Como fora bom tudo aquilo. Uma jam session que se estendeu por horas intermináveis.

O corpo que agora lhe negava conforto, mantinha vivas e brilhantes as lembranças agradáveis do encontro com os amigos que, como ele, também amavam o jazz. Todos amavam o jazz; quem não seria capaz de amar o jazz? Certamente alguém em cujo corpo não coubesse uma alma, ainda que bem pequenina.

Os improvisos, as vozes sempre tão animadas e os risos que pareciam nunca terminar. E como dançavam! Sebastian amava as festas que promovia, e todos o amavam, principalmente quando eram chamados à casa da prima Nadine para alguma reunião, que nunca seria menos que perfeita.

Despertar sabendo que alguém, nas poucas e terríveis próximas horas poderia comprá-la o aterrorizava. Não, saber que aquilo o aterrorizava nunca explicaria o horror que sentia por perder a casa de Nadine, distanciar-se dela. Ficava mais que devastado diante da possibilidade de alguém pôr um fim ao que mais amava: a casa de prima Nadine.

Acendeu um cigarro — o último que encontrou no estojo —, esqueceu a água com limão que o aguardava sobre a cômoda e encheu um copo com uísque e pedras de gelo. Sob os olhos críticos de Remedios, que retornara para uma nova inspeção, Sebastian tomou a direção do banheiro, levando consigo a garrafa de uísque. Suas mãos inseguras faziam as pedras de gelo se chocarem contra o cristal do copo.

Como amava os destilados! Alguém trouxera aquele uísque, um perfeito e bom amigo, alguém definitivamente especial. Tentou ler o rótulo da garrafa mas seus olhos não ajudaram, estavam secos e arruinados demais para darem a ele algum foco. Quem fora aquele bondoso que trouxera aquela garrafa de uísque? Não sabia. Foram tantos… e todos trouxeram algo de bom.

Precisava de uma ducha bem gelada, ou de um banho bem quente. Não sabia. Depois procuraria algo que o acolhesse, restaurando o que lhe restasse de ânimo. O que seria melhor? O calor ou o frio? O que lhe poderia ajudar? Nunca soubera com exatidão o que fazer após uma noite como aquela. Precisava com urgência de uma receita que fosse capaz de o trazer de volta ao mundo com a rapidez que receitara Remedios. Duas horríveis mulheres viriam ver a casa. Talvez comprá-la. Precisava com urgência de um plano, algo que…

— Remedios! — ele gritou. — O que devo fazer?

Remedios estava distante. Passava em revista o grande salão em busca de algo que não devesse estar ali, buscava por rastos e restos de uma festa que sempre julgara imprudente e excessiva.

Remedios saberia dizer o que seria melhor em horas como aquela, quando o corpo se negava a tudo que não fosse o conforto da cama, que certamente ainda estaria quente, deixando a marca do côncavo do seu corpo em suas entranhas. Clientes estavam por chegar e isso sempre lhe fora desagradável, e particularmente naquela manhã de domingo, algo inadmissível, não fosse pela insistência de Remedios.

— Maldita Remedios! — ele gritou. — E logo num domingo, Remedios… hoje ou num dia qualquer, num dia que será especialmente detestável, algum ricaço sem alma irá finalmente comprar esta casa. O que faremos, Remedios, você e eu? O que eu farei desta minha vida maravilhosa longe desta casa? E você, minha querida, sei muito bem que vai ter de voltar a Tegucigalpa… ou Córgomo… ou Algo-de-la-cruz, seja lá onde isso for… para esfregar o chão de algum barzinho de beira de estrada… não se esqueça disso…

Remedios havia retornado.

— Você vai embora, vai se mandar daqui. Terá de procurar um lugar para morar. E eu rezo todos os dias para que os novos proprietários me mantenham por aqui, em meu emprego.

— Ah, Remedios, você sempre foi cruel comigo. O que farei longe desta casa? Nunca imaginei voltar a viver longe deste lugar.

Sebastian não imaginava que alguém pudesse ser tão desumano ao ponto de o afastar da casa que tanto amava, mas, ainda assim, cumpriria a promessa que fizera à prima Nadine. Iria mostrar a casa a todo e qualquer cliente que por ela se interessasse, e cumpriria a sua obrigação, vendendo-a como era o desejo de Nadine. Seria gentil com todos que a desejassem, sempre imaginando que ninguém a desejaria mais do que ele a desejava.

— Vamos, apresse-se — disse Remedios, e deixou Sebastian na porta do banheiro, entregando a ele o par de toalhas secas que deixara sobre a cômoda.

 

Sebastian ciceronearia as possíveis compradoras pelos muitos aposentos da casa, e sentiria um enorme prazer ao fazê-las conhecer o grande salão de festas. Ele adorava a cúpula de vidro que o cobria, seus florões, a simetria dos ferros desenhando contra o céu um jardim suspenso de Primavera. Eram lindos aqueles vitrais. Por fim, as levaria aos quartos onde viveu a prima Nadine, depois ao quarto onde Celestine e Heinz tanto se amaram, onde poderia contar todas as histórias que sabia sobre as almas que um dia habitaram aquela casa — talvez fosse essa a parte de que Sebastian mais gostava. Até aquele dia, todos haviam adorado ouvir as histórias que só ele sabia contar sobre a mansão, o que nela se passou nos dias em que a família de tio Lambert ali viveu.

Se houvesse tempo e fosse consenso, também as levaria ao lago, ao galpão onde ficavam os barcos, aos jardins e às cavalariças, agora vazias. Teria a chance de caminhar com elas pelos túneis subterrâneos, que levavam às estufas, às garagens e às oficinas para os automóveis. Mas agora era hora de mergulhar na banheira, recuperar-se.

Havia meses que Sebastian vinha notando coisas estranhas acontecerem com o aquecedor de água para o banho, que parecia não funcionar como deveria, tendo humores estranhos, que se tornara desoladoramente temperamental, ora esquentando demais, ora gelando excessivamente a água. E isso variava, certamente obedecendo aos imprevisíveis humores do tempo que fazia lá fora. Aprendera que se olhasse a copa das árvores e visse um céu a nevar, ou mesmo se nuvens carregadas ou uma espessa neblina fizesse esconder dos olhos o azul do lago, saberia que chegaria até a banheira uma água friíssima; e caso o céu se abrisse num largo e momentâneo Verão, independente da Estação que dominasse os meses, as torneira certamente despejariam sobre ele um turbilhão de água fervente, sem compaixão, pronta ao pelame de suas costas. Às vezes, sem explicação, tudo voltava ao normal, como deveria ser, chegando até ele a água tépida de que gostava. Como estaria o tempo naquele exato momento?

— Remedios? Como está o tempo lá fora? — gritou bem alto.

— Tomado por urgências, Sebastian! As clientes logo chegarão para conhecer a casa. Apresse-se, vamos, e não retorne à cama! Estou de olho em você…

— Lembre-se de Tegucigalpa, Remedios, do chão de terra batida, Remedios…

— Lembre-se das clientes que estão por chegar, Sebastian…

— Clientes, clientes, clientes. Você está me parecendo uma maldita vendedora de carros usados, Remedios… estamos falando da casa da prima Nadine, não se esqueça. Não as chame de clientes, mas de… o que elas poderiam ser além de desalmadas e cruéis, Remedios?

— Boas e gentis clientes?

— Você, Remedios, parece nada temer com este seu estranho senso de dever…

— Quem sabe você não vende hoje esta casa de uma vez por todas, Sebastian…

— Não diga isso… não me maltrate assim…

— Ponha fim a esta agonia. Alguém um dia irá comprá-la. Quanto mais cedo isto acontecer, melhor para todos nós. Definirá nossas vidas…

— Todos nós, Remedios? Todos nós? Você, como elas, também é uma mulher sem alma, Remedios, por menor que lhe caiba uma nesse corpo mirrado que você tem. Sabia que você é uma mulher horrível?

— Sim, senhor Sebastian, sabia. Remedios Orozco Villareal, a criada de Madame Nadine, apenas isto! Nunca a sua criada, não se esqueça. Estou ao lado dela, não do seu.

— E quantas serão essas desalmadas que virão conhecer a casa? Será preciso um exército delas para me enfrentar…

— Serão apenas duas, já disse.

— Duas? Ah, eu suporto que sejam duas, elas não serão páreo para minhas histórias… Remedios, onde você vai? Volte aqui!

Remedios já não o ouvia. Havia corrido até a cozinha para preparar um desjejum para ambos.

Os olhos de Sebastian ainda estavam secos e ardiam. Uma luz que se mostrou feérica entrava filtrada pelas cortinas de voile das janelas do quarto e chegava ao banheiro, e tinha a capacidade de piorar o desconforto daquele abrupto despertar.

Entrou na banheira sabendo que poria em risco o seu destino, deixando que o aquecedor cumprisse as suas estranhas deliberações térmicas. Aguardou. Como um rio que flui apressado, ele pôde ouvir a água chegando através dos canos no interior das paredes, tal como uma avalanche polar, ou como os veios incandescentes derramados por um furioso vulcão.

Soube que não seria uma manhã tão ruim: uma água morna chegou e o foi cobrindo lentamente, como um cobertor aquecido, acentuando nele um sono que se insinuava confortável. Talvez aquilo fosse um aviso de que lá fora o tempo não estava bom, talvez chovesse ou nevasse, ou nuvens carregadas estivessem por chegar trazendo alguma outra desgraça. Ou seria outra a regra daquele dia? Ah, certamente seriam as visitas que já estariam virando tudo de pernas para o ar. As malditas visitas que poderiam comprar a casa. Esperava que fosse apenas o tempo modelando as vontades dos canos e do aquecedor. Seriam aquelas clientes tão cruéis ao ponto de desejarem comprar a casa da prima Nadine? Não gostava sequer de pensar nesta possibilidade.

Em poucos minutos a água mudou de humor, e se aqueceu além da conta, fazendo Sebastian imaginar que lá fora houvesse ocorrido uma súbita mudança no tempo. Talvez fossem as nuvens chegando, ou indo embora, não sabia, ou que um absurdo desejo de algum visitante de comprar a cassa se houvesse dissipado completamente, como uma nuvem ligeira que se desfaz com o vento.

A água cessou por instantes, depois voltou a fluir e se ajustou ao desejado conforto de Sebastian. Seu corpo renascia lentamente, tomado por um torpor que deixava seus músculos completamente frouxos. Voltava a se sentir confortável, seus olhos agiam como se reiniciassem em direção ao esperado funcionamento. Fechou as torneiras quando a água tocou o seu queixo, e descansou a cabeça sobre o par de toalhas secas providenciadas por Remedios.

As paredes cobertas por um mármore branquíssimo ainda o desconfortavam. Fixou os olhos na larga faixa que contornava continuamente as paredes, formando uma fina marchetaria de folhas e flores de muitas cores. Trazia até ele uma beleza melancólica quando descreviam uma espécie de tipografia floral reproduzida nos catálogos da Fonderie & Gravure Vanderborght. Sebastian gostava de imaginar que tio Lambert havia retirado aquele lindo padrão floral das páginas de alguns catálogos tipográficos. Gostava de admirar aquele mínimo jardim imóvel feito todo ele de pedras, tão simétrico quanto agradável.

Quando era ainda um menino, esteve diversas vezes ali, vendo a casa ser construída, sem pressa, sem os horríveis limitadores financeiros, bem regulada pelo excesso de dinheiro de tio Lambert. Viu quando homens pacientemente modelavam e poliam pequenas lascas de granito colorido, que se encaixariam nas paredes formando aquele lindo mosaico de intársia. Eles agiam como se fossem tipógrafos compondo uma longa linha de texto em pedra, um metro e meio acima do piso.

Tio Lambert e tia Lucette, os pais de Nadine e de Celestine, adoravam a harmonia e o equilíbrio que a Art Nouveau lhes proporcionava. Tinham a mente de quem desejava profundamente a paz e a tranquilidade. Tudo na casa, dos móveis à arquitetura, funcionava segundo as regras das plantas, das flores, dos longos galhos com suas curvas suaves que apenas o despojamento da natureza seria capaz de produzir. Nadine amava também aquela casa, e acostumara-se a dizer que tudo nela fora projetado por Edward James Lennox, dos móveis às fundações, incluindo a grande abóboda de ferro fundido que sustenta o enorme vitral sobre o salão onde Sebastian dançava em suas festas ouvindo jazz.

Não, não, definitivamente a abóboda não fora feita por Lennox, mas por Hector Guimard, talvez… bem, aquelas eram horas difíceis para fazer retornar à mente algo tão antigo, e Sebastian, naquele exato momento, estava tão sonolento que preferiu deixar de lutar em busca de lembranças que se negavam a fazer revelações por demais assertivas.

Um dia Sebastian viu chegar um enorme bloco de mármore cor-de-rosa onde foi modelado um côncavo para o banho. Ele, Nadine e Celestine deixaram as brincadeiras para acompanharem aqueles homens imensos fazendo descer de um pequeno Chevrolet o grande bloco que se tornaria a banheira onde agora ele se banhava.

Tudo se resolveu com algumas correntes, correias, cintas de lona, uma rampa de madeira. Alguns homens segurando, outros empurrando, e dentre eles um sujeito pequenino, de barba longa usando um gorro negro sobre a cabeça desprovida de pelos, que seguia comandando tudo, distribuindo tarefas, dizendo coisas, mostrando preocupação com aquele lindo bloco de mármore. De todos o mais enérgico, agitado, embora seu pequeno tamanho e ausência de músculos não lhe permitisse levar nas mãos meia dúzia de tijolos. O bloco foi levado ao galpão de trabalhos e lá começaram imediatamente a cortá-lo.

Foram dias cortando, lixando e polindo aquela pedra de um colorido esplêndido. Eram especialistas que se revezavam com cinzéis e martelos, variando suas ferramentas conforme exigiam os detalhes mais intrincados das bordas desenhadas, ou quando faziam os furos para encaixe dos encanamentos de entrada e escoamento da água. Às vezes eles paravam e olhavam sérios para aquela grande pedra, como se refletissem sobre o rumo que dariam ao trabalho que lentamente caminhava, trocando cinzéis ou martelos, e logo retornavam a cortar minúsculos pedaços de pedra, um de cada vez. Após cerca de um mês trabalhando sobre ele, o bloco foi finalmente levado até a casa e instalado, agora como a mais linda banheira que uma casa poderia ter.

Eram dois artesãos eficientes, pai e filho, se soube mais tarde. Nas horas de descanso, ambos iam até a sombra de um grande castanheiro que ficava próximo ao lago e comiam sanduíches de salame, bebiam vinho tinto e conversavam numa língua estranha, sempre cheios de alegria. Eles pareciam gostar de falar e sorrir, e amavam também o som dos cinzéis cortando e modelando aquela peça única, dentro da qual Sebastian podia se banhar. Como era bom estar ali e voltar a ter essas lembranças.

Tio Lambert mantinha-se atento ao trabalho que desempenhavam, acompanhando seus passos, observando cada mão que se estendia na direção de dar forma a alguma nova parte da casa, cada parede que levantassem ou vidro que instalassem nas janelas. Pensou outra vez em chamar por Remedios, mas achou melhor não o fazer. Remedios certamente o lembraria de compromissos, horários, qualquer coisa que o incomodasse, cobrando dele respostas que não teria para problemas que não desejava conhecer.

Correu os olhos pelas louças brancas e elegantes e chegou aos metais que os anos não conseguiam oxidar. Como era bom ver que tudo na casa se mantinha vivo, como se ali o tempo não passasse, ou passasse de forma tão lenta que se podia tê-lo como displicente. Um tempo que não cobrava nem concedia, apenas imobilizava tudo, sem afetar a idade das coisas. A casa de Nadine parecia ter sido feita de alguma magia artesanal, como se mãos mágicas a houvessem construído, mesmo nos mais simples detalhes.

 

Sebastian havia brincado sobre a grama onde hoje está a casa, passeou em barcos sobre o lago e depois, correndo nos campos com as primas Nadine e Celestine, viu a casa ser construída. Acreditava que por dois ou três verões muitos homens trabalharam para concluí-la. Eles iam e vinham, mudando conforme a necessidade construtiva. Aqueles que lidavam com coisas grandes e pesadas, os que pintavam, os que instalavam janelas, e aqueles que apenas olhavam e diziam da necessidade de que tudo fosse refeito ao perceberem que algo se mostrava insatisfatório.

Foram seis os cavalos que chegaram para ocupar as cavalariças. Animais imensos, todos gentis. Nos sábados pela manhã, toda a família passeava pela planície que fica ao sul do terreno. A Sebastian coube um dos cavalos, que se chamava… não fora ele quem dera nome ao animal que costumava montar, fora Celestine, que dissera inúmeras vezes que o detestava, sem explicação, e por isso não o queria por perto, cabendo a ele montá-lo. Era um animal quieto e dócil cujo único inconveniente seria um perpétuo resfriado, quando seus olhos estavam sempre tomados por lágrimas e suas narinas afogadas por uma interminável coriza.

Pensou novamente em chamar por Remedios e contar a ela sobre os dias em que viu a casa ser construída, como se tio Lambert, sobre uma grande mesa, montasse um jogo de armar, uma peça de cada vez. Gostava de dizer a ela que viver ali era como continuar imerso em um livro encantado de histórias. Quantas vezes havia contado essas mesmas lembranças a Remedios? As histórias se multiplicavam como tijolos numa interminável parede, transformando coisas mínimas em algo sólido e seguro, capaz de transmitir a paz e a proteção que sentia estando ali. Eram as histórias da casa, as mesmas, as mesmas modificadas, todas empilhadas, sobrepostas, acumuladas até formarem um grande emaranhado de narrativas que muitas vezes não pareciam reais. Assim ele gostava.

Remedios só conhecera Nadine quando a casa ficara sem Celestine e seu marido Heinz. De Sebastian sabia apenas das longas visitas que se estendiam por meses, até Nadine deixar Nova York e retornar definitivamente à Europa, após receber a propriedade como uma herança antecipada de tio Lambert.

Subitamente a água da banheira esfriou, contraindo os músculos de Sebastian. Ele voltou a abrir as torneiras. Queria um pouco mais de água quente, mas não sabia como o aquecedor e as tubulações reagiriam, se contra ou a favor de seus desejos.

— Remedios! — ele gritou. — Como está o tempo lá fora?

A voz de Sebastian ecoou pelos corredores.

— Já disse — falou Remedios, ao longe. — Cheio de urgências. Logo chegam as novas clientes. Apresse-se!

— Deus do Céu, Remedios! O que você tem na cabeça?

Moveu-se na banheira dando mais conforto ao corpo. Uma das toalhas caiu na água e se encharcou. Um barulho estranho, como se um animal vermicular se movesse pelos encanamentos, o fez temer ser congelado ou assado instantaneamente. A água que chegava começou a lhe parecer quente além do que poderia suportar. Fechou a torneira.

Buscou um pouco mais de conforto ajeitando a toalha seca em que depositara a cabeça, e aguardou que o tempo passasse até a chegada daquelas malditas mulheres, que poderiam finalmente tirá-lo da casa de Nadine. Seria a segunda ou a terceira visita naquele mês? Havia cinco anos que cuidava de tudo, administrando a venda da casa da prima Nadine, velando-a até que alguém a comprasse. Era essa a sua única tarefa, e teria de cumpri-la, cedo ou tarde.

Antes de partir definitivamente para a Europa, Nadine deu ordens aos advogados para que eles mantivessem o primo Sebastian Lambert na casa até que ele a vendesse. Fora-lhe concedido, também por Nadine, um bônus anual que duraria o tempo necessário à venda da casa, podendo ser complementado caso a venda demorasse. Não era pouco, embora não fosse o que desejava quando pensava na fortuna legada à prima Nadine. Embora, a rigor, a Sebastian bastasse apenas continuar vivendo naquela casa. Tinha suas economias, e essas não precisavam ser usadas, bastando-lhe, com sobras, aquilo que os advogados da prima lhe transferiam todos os anos.

Havia regras, todas impostas pela família Lambert. A mais severa de todas era de que a casa jamais fosse vendida a quem não a merecesse. Num momento de franca lucidez, Nadine documentou o fato de não a querer nas mãos de bancos, seguradoras, hotéis ou qualquer um que fosse menos que solidamente humano, que fosse capaz de amar a casa como ela fora amada por tantos anos. Vendê-la não seria uma tarefa simples, uma vez que Nadine impusera de forma contratual que o comprador deveria ser alguém que expressasse gosto refinado pela Art Nouveau francesa.

— Remedios! Homens ou mulheres? — Sebastian gritou bem alto para que Remedios o ouvisse.

— São duas mulheres, já disse — ela falou, ao longe. — Mulheres, duas mulheres. E não me pergunte mais que isso. Não as conheço, apenas falamos ao telefone.

 

Quando Sebastian deixou a banheira, Remedios já havia posto sobre a mesa em seu quarto um desjejum para dois.

— E então? — ela disse. — O que vai ser hoje? O que as espera?

— Ainda não sei… a festa de ontem me deixou sem inspiração. Minha cabeça dói e tenho ainda o som da bateria e do saxofone dentro dos meus ouvidos.

— Que tal se…

— Não, não e não, Remedios. Esqueça, minha cara. Não diga mais nada, por favor. Suas histórias são sempre terríveis e nada inspiradas…

— Há pouco tive uma ideia…

— Não quero saber de suas ideias, Remedios. Da última vez que caí numa dessas suas histórias… nem quero lembrar… aquele vaqueiro de Oklahoma, um homem definitivamente horrível, ficou tão apaixonado pela casa que quase decidiu-se por comprá-la, mesmo que eu aumentasse o preço. Não, definitivamente, não! Foi horrível. Tanto esforço e ainda assim aquele desalmado manteve a ideia fixa de comprá-la, sem se importar com o dinheiro que lhe custaria. Escapamos por pouco…

— Mas, Sebastian…

— Você e suas histórias. Não diga nada, não me venha com suas ideias novamente. É preciso sentir a alma do… comprador, digamos assim, do maldito… preciso antes avaliar tudo, saber das minúcias, do espírito, conhecer os mais fundos detalhes dessa gente que vem até aqui, e só aí começar a contar as histórias deste lugar maravilhoso. O que é isso? Parece…

— É uma compota de morangos.

— Remedios, você sabe muito bem que eu detesto morangos. Eles se parecem com pequenos corações, e comê-los me dá engulhos. Você disse que são duas? Mulheres apenas ou um casal de mulheres… você sabe…

— Como vou saber. São duas mulheres. Isso basta. Posso fazer uma compota de pêssegos para amanhã, se você quiser.

— Pêssego seria ótimo.

— Então será de pêssego.

— E isso? O que é? Que queijo é esse, Remedios? Como isso fede…

— Munster, creio. Era o que estava escrito nele. Alguém trouxe, ontem, durante a festa.

— Munster, Remedios! É essa a sua ideia? Você quer matar essas mulheres com o meu bafo, Remedios? Que mulher cruel você é. Ótimo que as espante, mas matá-las… não será preciso. Esconda isso na geladeira. Como elas são? Grandes, pequenas, louras, morenas, ricas e educadas ou apenas ricas? Velhas ou jovens? Preciso saber. Você as conheceu?

— Falamos ao telefone, já disse. Não faço ideia de como são.

— Preciso, antes de mais nada, saber o que pensam, o que pretendem fazer com a casa. Que maldito destino darão a ela…

— O que vai querer para o almoço?

— Almoço? Almoço? Você realmente não tem alma, Remedios. Como eu poderia pensar em almoço quando posso ter de ir embora daqui para sempre? Você falou a elas algo sobre o estado lastimável em que esta casa se encontra? De sua iminente derrocada? Do fim que se avizinha? Sua lastimável habitabilidade? Fungo negro pelas paredes, cupins por toda parte, essas coisas…

— E por que eu diria tudo isso? A casa está ótima, como nos primeiros dias de sua construção. Nada por aqui parece envelhecer.

— Ah!, Remedios, você me decepciona…

— Você sabe que não sei mentir, ou sei mentir pouco…

— Deus do Céu, Remedios! De que lado você está? Temos um mundo de coisas que não podem ser vistas. Os encanamentos, a rede subterrânea de esgotos, o estado interno das paredes, as vigas de madeira que sustentam os telhados, a fiação elétrica. Que falta de imaginação, Remedios! Tudo isso pode estar por um fio, pronto a desmoronar com essa infinidade de cupins que nos atacam dia e noite, esses constantes curtos-circuitos que destroem os aparelhos elétricos, os pequenos incêndios que vimos combatendo, o vento cortante que invade tudo durante as tempestades noturnas, sem falar das infinitas goteiras que não nos dão sossego… e você…

— Mas não há cupins ou goteiras por aqui, nunca houve, nem mesmo um curto-circuito. Não vamos vender a casa?

— Remedios, sua tola e insistente honestidade faz com que eu me sinta mais leviano do que apaixonado por esta casa. Vendê-la? Claro que irei vendê-la, mas só no futuro. E você sabe muito bem que entre hoje e o futuro pode caber uma eternidade de anos. Preciso pensar, ver como as coisas vão se encaixar com essas senhoras, as desalmadas que estão por chegar. Talvez elas acabem por desistir da compra e partam daqui correndo como um par de lebres no campo.

— Estava pensando…

— Não ouse pensar, Remedios, nem por um minuto…

— Sobrou muitas coisas da festa… poderíamos fazer para o jantar…

— Remedios, como você pode continuar pensando assim… comida, comida… definitivamente você não tem coração.

 

Terminado o desjejum, Sebastian foi ao closet acompanhado por Remedios, que o ajudaria na escolha das roupas que vestiria para receber as duas clientes. Usaria um par de sapatos antigos; ainda estavam macios e em ótimo estado. Sim talvez os usasse. Escolheu uma camisa de algodão e uma calça azul-marinho com vincos permanentes, um paletó cor de alfazema e usaria também uma bengala com castão prateado na forma de um cachorro astuto apontando na direção de uma caça abatida. Remedios o fez tirar o paletó cor de alfazema e o substituiu por um casaco de couro antigo, com muitas marcas de uso. Estaria melhor assim, mais esportivo, menos formal. Dependendo das clientes, se necessário, ele poderia retornar ao paletó cor de alfazema; bastando para isso observar as roupas que elas estariam usando.

Da bengala ele não se afastaria. Gostava de apontar coisas segurando-a pelo castão, como um general dando instruções a uma pequena tropa de duas clientes: Aqui um quarto; ali uma sala; Do outro lado, o grande retrato de Nadine na beira do lago; Mais adiante o próprio lago; Logo em seguida, a estufa de plantas e a casa de barcos, as cavalariças. Impressionava ter uma bengala nas mãos, algo que o tornava elegante, e caso fosse preciso, se uma delas manifestasse uma irrefreável vontade de comprar a casa, Sebastian poderia espancá-la com toda a força que tinha manejando aquele longo cassetete.

Pediu a Remedios que, assim que as duas mulheres chegassem, ela corresse à vitrola e colocasse para tocar o álbum Time Out, em Take Five, de Dave Brubeck Quartet. Precisava saber se elas gostariam ou não de Brubeck, se ele as incomodaria ou manifestaria nelas algum contentamento ao ouvi-lo.

— Como alguém pode não sucumbir a tanta beleza, minha querida Remedios?

— Você terá de vendê-la, Sebastian. Já estamos nisso faz cinco anos… lembre-se da prima Nadine, do seu desejo…

— Sempre lembro… não é maravilhosa? Sempre amei esta casa. Cinco anos? Deus do Céu, como o tempo passa ligeiro…

 

Cerca de meia hora mais tarde, entrou pelos portões da propriedade um Range Rover negro, que contornou o jardim frontal da mansão e estacionou diante da escadaria que levava ao grande salão. Quando as portas do veículo se abriram, foi como se a carruagem de Cinderela despejasse no calçamento diante da casa duas abóboras maduras. Sebastian, que havia permanecido à janela do segundo pavimento, observava as visitantes. Precisava saber como elas se moveriam, como olhariam a casa. Do que eram feitas.

Eram duas mulheres que passavam bastante do peso ideal para a idade que tinham, passadas dos sessenta, eram duas matrioscas de cabelos brancos vestidas como se prontas para enfrentar uma noite de bingo numa igreja de bairro. Deixaram o veículo após o motorista lhes abrir a porta, e se puseram a olhar a construção, sem saber o que fazer diante de uma casa que nunca imaginaram existir. Remedios se apressou em recebê-las, e na passagem até à porta, como recomendado por Sebastian, pôs Dave Brubeck no toca-discos a todo volume. Take Five.

A menor delas, a mais atrapalhada, tinha na mão uma bengala e era conduzida pela maior, que a segurava pelo ombro, como se ambas encenassem A Parábola dos Cegos, de Bruegel, prontas a cometerem algum tropeço antes de irem ao chão. Do alto da escadaria, Remedios sorriu para elas. Mostrava-se feliz com a chegada daquelas que poderiam finalmente comprar a casa de Nadine.

— Imagino que não tenha sido difícil chegar até aqui — disse Remedios. — As estradas estão bem-sinalizados.

— Nem me fale, minha filha — disse a maior delas. — Uma lonjura este lugar… espero que compense todo esse nosso esforço de vir até aqui. Quase uma selva, este lugar.

— Ah, não tenho dúvidas que irá compensar. É uma casa maravilhosa. Vamos, entrem. Foi comigo que a senhora falou ao telefone. Sou Remedios. Lembra-se?

— Claro que me lembro, ainda não estou caduca ou coisa parecida, minha filha…

A mulher maior, que se chamava Orlanda, conduziu a pequenina pela mão, que usando uma bengala com pouca habilidade, seguiu insegura ao lado da outra. Chamava-se Hipolita e tinha olhos ruins.

— Deus do Céu, minha querida, que música é essa? — disse Orlanda.

Sebastian chegava ao grande salão nesse exato momento.

— É Dave Brubeck. Jazz. A senhora não gosta?

— E tem alguém que goste disso, meu filho? E quem é o senhor? — disse Hipolita.

Je suis Sebastian Lambert, e vou lhes mostrar a casa, e tenho certeza de que irão gostar dela. É belíssima, cheia de mistérios e histórias inesquecíveis. Principalmente histórias…

— E o senhor é o dono?

Non, bien sûr que non, madame. Sou apenas o primo da proprietária, Madame Nadine, que infelizmente não estará aqui para recebê-las, cabendo-me esta honra. Sou apenas um primo prestativo e, bem, sem a fortuna de prima Nadine…

— E por onde anda essa tal Madame alguma-coisa?

— Sim, Madame Nadine Lambert. Se lhe fosse possível, ela estaria aqui em pessoa, não tenham dúvidas. Ela ama tanto esta casa. Imaginem como está sendo doloroso para ela vender o lugar onde cresceu e viveu por tantos anos.

— E onde ela está?

— Vive agora na Suíça, descansa como merece. Uma mulher de muitos recursos, que já não tem o que fazer com esta casa vivendo tão distante daqui. Mas, vamos, vamos conhecer a casa. Remedios, por favor, tire essa música horrível, que só nos traz desconforto. Ponha algo como… como… o que as senhoras gostariam de ouvir?

— O silêncio seria ideal — disse a pequena Hipolita, que fazia questão de parecer intolerante.

— Isso, não se preocupe — reforçou Orlanda. — Não gostamos muito de música. Melhor mesmo é desligar essa coisa infernal.

— Ouviu isso, minha cara Remedios? Temos aqui uma unanimidade. Só você parece gostar desse horror barulhento. Desligue isso, imediatamente. Cest pourri! Isso também me desconforta, e bastante.

— Isso aqui é bem grande, hein! — disse Orlanda. — Gostamos de lugares grandes. Fomos criadas correndo no chão de fábricas, vivendo nossos dias em enormes galpões. Grandes espaços nunca nos intimidaram. Somos ambas do Texas.

— Ah, vieram de famílias de grandes industriais?

— Oh, sim, tanto eu quanto Hipolita. Nossos pais tinham exportadoras, grandes exportadoras, fazendas também. Grandes fazendas. Eram sócios inseparáveis, como nós também nos tornamos.

Bien sûr e exportavam…

— Carnes enlatadas. Éramos líderes no mercado de carnes enlatadas. Europa, Américas, África… coisas assim, que já nem me lembro. Grandes fazendas de porcos e outros animais de corte. Tudo uma fartura sem tamanho. Uma vida saudável correndo nas fábricas e pelos estábulos dos animais.

— E ainda continuaram nesse ramo tão promissor?

— Deus me livre! Assim que herdamos o que nos cabia, vendemos tudo e aplicamos aquela montanha de dinheiro em imóveis, ações, títulos, essas coisas que já nem me lembro e nem tenho cabeça para lembrar. Os advogados cuidam de tudo, se é que cuidam e não nos roubam o que conseguem sem que saibamos. É o que de melhor eles fazem. Sei muito bem. Mas vamos logo ver essa casa…

— Por onde começamos? Temos a casa em si, os jardins, as estufas para plantas, as cavalariças…

— Esqueça essas coisas para cavalos. Com o peso que ganhamos, precisaríamos de um animal bem maior que cavalos para nos carregar. Esqueça, esqueça… outra coisa…

— Vejamos a casa, então — disse Hipolita, buscando concordar com Orlanda.

— Bem, já que estamos aqui, tão próximos, podemos começar pelo Grande Salão de Festas.

— Sim, seria bom — disse a grande Orlanda.

— Quantas alegrias tivemos aqui. Mas a isso só dei importância quando cheguei à adolescência. Eram todos tão elegantes. As mulheres com seus vestidos longos, homens usando fraques, outros chegavam até aqui usando cartolas, e sempre tinham motoristas atenciosos que calçavam luvas e usavam quepes. Saltavam apressados para abrir a porta dos automóveis e deixavam sair lá de dentro pessoas maravilhosas. Nadine sempre foi encantadora. No Verão, as festas se estendiam até aos jardins. Vocês puderam ver quando entraram. Mesas, cadeiras, grandes barracas ornamentadas, tochas que iluminavam os caminhos que levavam ao ancoradouro na beira do lago. Muitas vezes tomávamos um dos barcos e íamos passear, de onde víamos os fogos iluminando o céu sobre a casa quando em datas festivas. Foi num desses dias que a querida prima Celestine Lambert, irmã de Madame Nadine, conheceu o senhor Heinz von Chutz, que acabou se tornando seu esposo. Nadine fazia questão de receber todos os convidados, falar com cada um deles. Conhecia a todos, e quando ainda não conhecia, levava-os a conhecer o grande salão de festas. Imaginem, ele foi construído sobre os desenhos de Edward James Lennox, o mesmo que construiu, no primeiro quarto do Século XX, em Toronto, a Casa Loma. Certamente conhecem a Casa Loma? Já foram à Casa Loma?

— Conhecemos, Hipolita? Já não lembro. Aliás, nem lembro se alguma vez fomos a Toronto, mas devemos ter ido, não é mesmo, Hipolita? Vamos a tantos lugares…

— Por lá eles chamam este espaço de Conservatory Loma, mas aqui, sem medo de parecer presunçoso, digo que é apenas o nosso Salão de Festas. E é talvez ainda mais bonito do que lá. Tem piso de mármore italiano, os painéis laterais são de mármore grego e canos com vapor quente mantêm os canteiros de flores aquecidos quando o inverno é mais rigoroso. Esta cúpula, dizem, foi também projetada pelo próprio Lennox, mas não tenho certeza; talvez tenha sido projetada por Hector Guimard. Já não me é possível saber. Conhecem o grande Guimard?

— Infelizmente não fomos apresentadas a ele. Podemos passar adiante? Toda essa gente da qual nunca ouvi falar está me deixando tonta… — disse Hipolita, que parecia aborrecida por não conseguir ver com detalhes o que era descrito por Sebastian.

— Prima Nadine adorava estar aqui. Quando criança, deitava-se no chão, cabeça posicionada bem no centro da cúpula, e observava esses desenhos maravilhosos como se o teto fosse um grande caleidoscópio; quando se tornou adulta, gostava de dar aqui as suas festas intermináveis. Todos a adoravam. Houve até mesmo um prefeito que quis dar o nome Nadine a uma rosa silvestre que ainda cresce nos campos entorno da casa. Rosa Nadine Lambert. Mas prima Nadine não aceitou. O orgulho e suas costumeiras tolices nunca foram nela uma característica, ao contrário, ela sempre buscou se mostrar uma mulher discreta.

— E todos esses retratos. Quem são essas pessoas? — disse Orlanda.

— Excelente que tenha perguntado, minha cara senhora Orlanda. Estão todos aqui. A família Lambert, franceses de muitas gerações. Tio Lambert era descendente direto de Michel Eyquem de Montaigne, filho do filho do filho… de sua filha Léonor de Montaigne, até chegar a ele. Imaginem a alegria e o orgulho que temos de nossa família!

— Montaigne? E qual era o ramo dele? Nunca ouvi falar.

— Bem, na verdade ele nunca foi grande coisa, passou a vida no ramo dos livros — disse Sebastian.

— Ah, isso realmente nunca deu dinheiro… — disse a pequena Hipolita.

— Bem, há também outros retratos. — Disse Sebastian. — Aquela criança sou eu, no colo de minha mãe, que era a única irmã de tio Lambert. Eu tinha dois anos nessa época e ainda vivíamos em Paris. Logo em seguida vem tio Lambert com sua esposa, tia Lucette, seguida de Nadine, que posou para esta pintura quando estava com cerca de dezoito anos. Ao lado dela está Celestine, com quinze, e, mais adiante, na moldura dourada, a própria Celestine, já uma mulher feita, com o marido Heinz von Chutz, o russo.

— Russo? Deus do Céu, ela se casou com um russo? — voltou a falar Hipolita.

— Bem, ele não era realmente russo, mas alemão. Russo era como diziam dele, mas só pelas costas. Foi o último retrato a ser pintado. Depois lhes falo com detalhes sobre cada um deles, os que deram fama e alma a esta casa.

— Temos horror a essas coisas antigas, acredita? — disse Orlanda. — Preferimos tudo muito alegre, talvez alguns quadros com flores que mandaremos arranjar em algum lugar… e depois que comprarmos a casa, o senhor pode ficar com todos eles, faça com eles o que bem quiser…

— Sim — disse Hipolita —, o que faríamos com essa gente que nunca vimos mais gorda…

— Seria uma honra tê-los comigo. Guardam boas lembranças. Aliás, toda a casa é feita de lembranças. A própria construção tem a sua história. Quando tio Lambert pressentiu a iminência da Grande Guerra na Europa…

— Virgem! A Primeira ou Segunda? — disse Hipolita.

— A Segunda, que foi de fato a Grande, bem Grande mesmo. Quando tio Lambert entendeu que haveria guerra na Europa, vendeu todos os seus bens e pôs sua enorme fortuna em bancos suíços, que sabia seguiriam neutros sob qualquer conflito. Sendo também do ramo da navegação, tio Lambert ficou apenas com um grande navio de carga para fazer o que propunha: pôs a todos nele e o encheu com materiais para construir esta casa, deixando a Europa para trás. Foram tijolos e telhas de Marseille, madeiras de Riga, encanamentos ingleses, marchetaria espanhola e serralheria francesa. Comprou tudo que encontrou disponível naqueles dias difíceis, e pôs em seu navio, deixando a Europa em 1938. Em setembro de 1939, Hitler invadiu a Polônia, e, logo em seguida, França e Reino Unido declararam guerra à Alemanha. Tio Lambert foi premonitório: não demoraria para que os nazistas logo chegassem a Paris. Em 1940, a Alemanha atacou a Franca e conquistou Luxemburgo, os Países Baixos e a Bélgica. Novos donos da França, os nazistas instalaram uma administração militar. Nesse dia, já aqui em Nova York, sob esta casa, sem que esperássemos, tio Lambert foi mordido pela acídia, que o levou a adoecer…

— Deus do Céu, e há muitas delas por aqui? — disse Hipolita.

Mon Dieu, quoi? O quê?

— As malditas acídias! O que mais seria? — disse Orlanda, reforçando o pavor da pequena Hipolita.

Oui, oui, há muitas ao redor da casa. E elas mordem como cães negros raivosos.

— Cães negros? — disse Hipolita mostrando seu temor pelas acídias.

— Não exatamente um cão negro, mas algo parecido. Modo de falar. Bem, desse dia em diante, tio Lambert ficou possuído por uma profunda melancolia, só vindo a se recuperar após a libertação de Paris, em agosto de 1944. Foram anos terríveis para todos nós, embora distantes do conflito. Ele pensou em retornar a Paris quando a França ficou livre de Hitler, mas estava sem forças, e resolveu continuar por aqui. Esta casa e Nova York eram a sua velha Paris.

— No que fez muito bem — falou Orlanda. — Mas vamos continuar, antes que as acídias acabem nos atacando…

Oui, ce serait plus intéressant. A partir desse dia, tio Lambert, já sem a esposa, que falecera envolta em algum mistério, passou a ocupar um quarto no alto da torre mais alta da casa, e como um dia dissera seu ancestral, Michel de Montaigne, ele também nos disse: Tenho aqui o meu lugar. Pobre do homem que não tenha lugar algum em sua casa onde possa estar a sós consigo, onde possa cortejar a si mesmo em particular, onde possa se esconder! Em sua torre de marfim, tio Lambert trocou as suas costumeiras ações quotidianas por seus pensamentos circulares, e sob o domínio deles permaneceu por muitos anos.

— De novo como nas malditas acídias? — disse Hipolita, mostrando-se temerosa.

— Certamente as acídias o acossavam. Como os malditos cães negros.

— Posso imaginar… cães enormes… — disse Hipolita.

— Bem, tio Lambert permaneceu em sua torre acompanhado apenas de uma jovem governanta manca e um pouco corcunda. Mulher fiel e devota, embora um pouco suja para o gosto de quem vivia na casa. Ela o assistia em suas necessidades mais básicas, embora ela própria precisasse de assistência, mas ela parecia não se importar consigo mesma, preferindo cuidar apenas de tio Lambert, um solitário pensador, lendo e escrevendo coisas às quais nunca tivemos acesso. Segredos, diziam, terríveis demais para serem revelados ao resto da família. Com ele permaneceu apenas o seu pequeno macaco de osso, que nunca deixou de o acompanhar, onde quer que fosse.

— Um macaco de osso? Que negócio é esse?

Exactement. Un petit singe tout en os, algo que cabia na palma de sua mão. Uma pequenina escultura que ainda na juventude tio Lambert trouxe com ele da África Central, quando iniciou a construção da sua imensa fortuna sobre o que restou do regime colonial de Leopoldo II, da Bélgica, enriquecendo enquanto administrava o que havia sobrado da Companhia do Catanga, explorando a borracha nativa e recursos minerais num Congo destruído pelo Rei dos Belgas. Tio Lambert nos dizia que fora aquele pequeno macaco de osso, seu inseparável talismã, quem havia proporcionado a ele toda a sua fortuna. Ele e seu pequeno macaco de osso viviam em perfeita harmonia simbiótica, inseparáveis, embora nos dissesse da maldição que aquela pequena peça poderia proporcionar a quem a possuísse. Um terrível jogo duplo. Como todos sabemos, não há bem onde não haja o mal, nem o mal onde possa haver o bem. Ambos não se dão no vazio um do outro. Tinha com aquela pequena peça um frágil equilíbrio de poder e destruição.

— Ele era doido? E que fim levou esse tal tio Lambert?

Non, sans doute pas. Tio Lambert nunca foi doido, embora se tenha tornado um místico contumaz, sabe-se lá o motivo… o seu talismã, talvez… como saber? Adiante conto a vocês um pouco mais sobre esse tal macaco de osso e a sua trágica maldição. Será uma história inesquecível. Que tal subirmos as escadas? Vamos passar ao segundo pavimento?

— Deus do Céu! Com todas essas escadas? Hipolita, lembre-me de mandar quebrar algumas dessas paredes e pôr um elevador neste lugar — disse Orlanda, que retirou da bolsa um lenço de seda com peônias e o passou sobre o rosto. Estava tomada por suores.

Jhallucine! Elevadores? — disse Sebastian. — Mon Dieu, jusqu’à quand…

— Se a casa nos agradar, vamos construir aqui uma clínica para gente rica e doente dos olhos. A mais perfeita, uma que possa devolver a Hipolita a saúde dos seus olhos, que estão cada vez mais fracos — disse Orlanda muito feliz com seus planos.

— Ela se chamará Clínica de Olhos Santa Lúcia de Siracusa. Até aqui virá gente do mundo todo, grandes especialistas — disse a pequena Hipolita com entusiasmo.

Mon Dieu! Não foi dessa santa que um soldado romano arrancou os olhos?

— Sim, sim, mas eles renasceram, como novos, instantaneamente. E os romanos já não fazem mais essas coisas horríveis, embora adorem nos roubar a bolsa quando visitamos o Coliseu, com suas lambretas que passam voando por nós… É o que esperamos que aconteça com a pobre Hipolita, que está se tornando insuportável, cheia de manias por conta dos olhos fracos que ganhou com a velhice. Seus olhos renascerão em nossa nova clínica — falou Orlanda.

— Que maravilha! Uma clínica para gente com olhos ruins! Não imaginava algo tão… como diria… apropriado… — disse Sebastian.

 

Os quatro subiram as escadas até onde ficavam os quartos de dormir. A construção fora feita de modo a que o quarto principal, o de tio Lambert e sua esposa Lucette, ficasse exatamente sobre a entrada principal, com quatro janelas viradas, um pouco oblíquas, em direção ao sol da manhã. Um quarto amplo forrado por cortinas e tapetes; uma mesa de refeição para duas pessoas; uma pequena escrivaninha para escrever cartas; poltronas para ligeiras conferências e uma biblioteca de bom tamanho. Havia ainda uma cama com dosséis circundada por uma gaze fina, quase transparente. Na direção do Sul ficavam os quartos para os hóspedes, e ao Norte os quartos reservados ao restante da família.

— Imagino que este seja um bom lugar para uma sala de cirurgias… — disse Orlanda enquanto olhava na direção de Hipolita, que assentiu sorrindo.

— O espaço é grande o bastante — disse Remedios, concordando com Orlanda e Hipolita.

— Remedios sempre é de grande ajuda, como as senhoras podem ver. Se quiserem ficar com ela após comprarem a casa, me fariam um grande favor… — disse Sebastian. — Bem, logo ao lado, temos o quarto de Madame Nadine. Ela viveu nele toda a sua vida, da infância até o dia em que partiu. Ao lado fica o quarto de Celestine, que, mais tarde, após seu casamento, tornou-se o quarto do casal Celestine e Heinz, o russo. Não é lindo?

Enquanto falava, Remedios ia arrumando as coisas, remexendo naquilo que percebia fora de ordem, passando com discrição uma flanela sobre os lugares onde o pó acumulado pelos anos se mostrava mais visível.

— Não abrimos este quarto há algum tempo — ela se desculpou enquanto guardava no bolso o pano sujo de pó.

— Remedios sempre foi imprescindível à prima Nadine. É inspirador saber que ela sempre estará por perto quando dela se possa precisar. Saibam que a prima Nadine a tirou da Espanha, de algum lugar pedregoso e tomado de mato que um dia visitou, em Córgomo. Encontrou-a limpando mesas num restaurante para peregrinos que se perdiam no mato enquanto tontamente procuravam pelo Caminho de Santiago, numa rodovia sem fim, toda de terra batida. Ela está sempre pronta para nos ajudar… — disse Sebastian.

— Talvez este quarto possa se tornar uma grande enfermaria. Bem arejado, com essas duas grandes janelas… — disse Orlanda debruçando-se sobre o parapeito e olhando os jardins e o lago diante da construção.

Ne sont-ils pas merveilleux? Sim, eles não são lindos? — disse Sebastian. — Ambos se completam: os jardins, e, logo adiante, o belo lago. Acredito que vocês irão amá-lo. Quando criança, passávamos as tardes de Verão brincando em suas águas. Eu com as primas Nadine e Celestine, durante as férias escolares. Tudo tão acolhedor que quando entrava o Outono era uma tristeza ter de ficar distante deste lugar. Creio que as primas também sentissem a minha partida tanto quanto eu em deixá-las.

— Não se preocupe — disse a grande Orlanda. — Se tudo der certo, quem sabe?, poderemos aterrar uma boa parte desse lago e construir um grande estacionamento. Virá gente de longe, certamente chegarão em seus automóveis. Muitos médicos, enfermeiras, clientes… Bem, os clientes terão de vir acompanhados de gente com olhos bons. Imagine um bando de quase cegos dirigindo por aí. Que catástrofe! Virão acompanhados e precisaremos ter um grande estacionamento. Talvez possamos fazer também um pequeno hotel em alguma parte do terreno para acolher todo esse pessoal. Isso aqui é uma lonjura sem tamanho…

— Como não pensei nisso, Remedios? Realmente essa é uma boa solução… água demais, sem dúvida…, et jen ai ras le bol! Uma casa transformada — disse Sebastian. — Já nem precisarei mostrá-lo, isso nos poupará tempo para conhecer outros lugares. Vamos ao quarto de Celestine, um pouco mais amplo que este, afinal, nele viveram duas pessoas. Verão como é lindo, tal como o quarto da prima Nadine. Não fosse haver nele uma grande cama de casal, seriam praticamente idênticos na decoração.

Num momento ruim, a pequena Hipolita confundiu-se quanto ao local de saída, e se chocou contra o portal do quarto de Celestine e Heinz ao querer se apressar. Precisava sentar-se em algum lugar. Escolheu uma poltrona e se deixou cair.

— Vocês podem ver o tamanho dessa cama? Ali dormiram Heinz e Celestine. Ele era um homem grande e elegante, mais elegante que qualquer um, um gigante, mais forte que qualquer homem que tive a chance de conhecer. Dizia-se hábil em barcos, no manejo de grandes embarcações. E não mentia ao falar assim, pois na festa em que conheceu Celestine, tomou em suas mãos o maior dos barcos, mandou que subíssemos a bordo e nos levou a todos como se conduzisse uma pequena canoa. Ele o levou sem ajuda alguma, apenas com seus predicados de hábil marinheiro. Com as tochas que carregávamos, pudemos ver seu corpo por inteiro, quando tirou as roupas para melhor manobrar velas e cordames, e vimos também, em seu corpo quase nu, algo que ao mesmo tampo nos provocou admiração e repulsa. O corpo de Heinz von Chutz era completamente tomado por tatuagens, milhares delas. Com exceção de suas mãos e o rosto, sua pele havia desaparecido sob infinitas imagens gravadas em tatuagens que se podia dizer, iam de magníficas a terrivelmente horrendas.

“Imediatamente, prima Nadine falou-me ao ouvido de sua repulsa ao ver aquele homem quase nu com suas tatuagens, ao passo que Celestine, que já caía de amores por Heinz, mostrou-se encantada, pondo-se afetuosamente ao seu lado como uma adolescente que já não era. Aquele homem imenso suava por todos os poros enquanto afrouxava e esticava cordames, manipulava as velas, direcionava o leme ao mesmo tempo explicando-nos os segredos dos ventos. Durante todo o tempo em que passamos com ele, falou-nos com entusiasmo de suas experiências no mar que tanto amava. Sempre mares bravios.

“Por haver-nos afastado muito do cais e os ventos não ajudassem, mesmo com as habilidades de Heinz, só pudemos retornar à casa esta casa quando todos haviam partido, com tudo tomado pelo silêncio. Assim que pisamos em terra, Nadine se refugiou em seu quarto. Disse-me que não conseguiria ficar perto daquele homem, e pediu que eu apenas a acompanhasse até seu quarto, até que se recompusesse, pois desejava ficar só. Quando caminhava de volta ao meu quarto, pude ver, porta entreaberta, que Celestine acolhia Heinz em sua cama. Um mês após aquele dia, retornei a esta casa para acompanhar o casamento de Celestine com Heinz.

— Um espertalhão, esse sujeito… um russo, isso sim… — disse a pequena Hipolita. — Aposto que passou a perna nessa tal Celestine… ah, isso jamais aconteceria com a gente, não é mesmo, Orlanda?

— Sim. Esse tal Heinz não passa disso…, realmente, um espertalhão… — concordou Orlanda.

Non, non et non, mesdames pas du tout. Celestine e Heinz realmente se amavam perdidamente. Passando a viver aqui, ele e Celestine, estavam sempre juntos. Cavalgavam, tomavam banhos no lago, corriam pelos campos como dois jovens que já não eram. Isto não lhes foi, de maneira alguma, empecilho. À tarde, quando havia vento, Heinz descia ao ancoradouro, preparava um dos barcos, sempre o maior deles, e saía com Celestine para navegar. Heinz nunca tentou tirar da esposa nada além do seu amor.

— Não seria isso que eu esperaria de homens que perde tanto tempo se tatuando como um vagabundo de alguma prisão russa, ou alemã, já nem sei… — disse Orlanda.

— Odeio tatuagens — disse Remedios, sendo acompanhada pela pequena Hipolita.

— Foi num desses dias de perfeita harmonia, que reinava no seio do casal, que veio a desgraça que nos choca até hoje.

— Deus do Céu, mas o que houve? — Pergunto Orlanda.

— Desgraça? Que desgraça? Nunca soube de desgraça alguma nesta casa — disse Remedios, espantada com o que Sebastian acabara de dizer.

— Sim, minha cara Remedios. Poucos sabem dos fatos, e a até mesmo prima Nadine, que sempre fora uma mulher de nervos de aço, dobrou-se ao fato, preferindo esquecê-lo, ou melhor, não o registrar inteiramente na memória. A coitada da governanta, cuidadora de tio Lambert, com sua perna estropiada e sua corcunda que parecia se avolumar em suas costas, dia após dia, desceu as escadas correndo, chocando-se contra as paredes como seria de se esperar, chorosa, direto para nos dizer que tio Lambert estava morto, que se enforcara em seu quarto. Uma cena terrível se avizinhava naquele momento. Não sabíamos o que ainda nos esperava.

— E quando foi isso, Sebastian, que nunca soube de nada — disse Remedios, espantada com aquela trágica morte que parecia desconhecer.

— Ah, minha cara Remedios. Segredos de família: poucos sabem, e os que sabem preferem não lembrar para que nada possam revelar a outros. Ou fingem que nada aconteceu, dando tio Lambert como um homem vivo e de ótima saúde, até hoje. Bem, corremos todos até ele.

“Tio Lambert havia passado dois dias trancados em seu quarto, possivelmente morto, pois sequer a corcundinha tinha acesso a ele. Indignando-se com aquela ausência, sua cuidadora arrombou a porta e lá estava: tio Lambert pendurado a um caibro do teto, língua para fora. Roxo como um dedão do pé após uma bruta topada. Heinz o segurou enquanto eu, do alto de uma cadeira, cortei a corda e deixei que tio Lambert caísse nos braços daquele gigante alemão. Dois dias antes, o dia efetivo de sua morte, completavam-se dez anos da morte de tia Lucette, a mulher que sempre fora a luz e a paixão de tio Lambert. E essa não foi a maior surpresa que tivemos…

— Não? O que mais poderia? — a pequena Hipolita cortou Sebastian.

— Deus do Céu — disse Remedios —, quantos segredos tem esta casa?

— Ah! Cara Remedios… incontáveis… — disse Sebastian.

— E ainda há mais? — Inquiriu Hipolita.

— Pois saibam que ainda duas outras coisas nos apavoraram no momento que vimos tio Lambert nos braços de Heinz, pois logo notamos que não havia olhos nas órbitas de tio Lambert, e que tinha nas mãos a marca do pequeno macaco de osso, que fora impressa em sua palma por uma intensa queimadura. E lá estava impresso aquele horror. Uma cabeça, uma cauda e pernas e braços esparramados, virados à direita, fazendo-se semelhante a uma suástica com cabeça e rabo.

“Imediatamente olhamos em volta em busca daquela pequena estatueta e não a encontramos. Seu pequeno talismã, que agora se mostrava também seu algoz, além de haver desaparecido após arrancar seus olhos e queimar sua mão, estava perdido em algum canto desta casa. E sua maldição se fez cumprir: deu a tio Lambert as chances da fortuna na juventude, tirou dele seus olhos azuis e brilhantes na velhice.

— Deus do Céu! Tirou dele os olhos? Ele tinha olhos azuis! Oh, que terrível! — disse Hipolita, que se derramara sobre a poltrona em que permanecera sentada.

— Sim, azuis. Azuis e brilhantes, sem nunca haver precisado de um par de óculos para ver qualquer coisa, das mais pequeninas às mais distantes. E assim, sem mais, foram-lhe os belos olhos que tinha. Certamente obra do seu pequeno macaco de osso por decorrência de alguma cobrança não recompensada pelo que tio Lambert fez ao povo do Congo em seus anos como explorador implacável naquele país atormentado pelo Império Belga. Quem poderia saber dos segredos que ambos guardavam, tio Lambert e o seu pequeno macaco de osso? Sua fortuna e sua desgraça.

Orlanda, que se havia mantido de pé todo o tempo, moveu-se na direção de Hipolita, sentou-se sobre o braço da poltrona onde ela estava e passou os braços em torno do seu pescoço.

— E nunca acharam o tal macaquinho? — disse Hipolita.

Non, mesdames, nous ne l’avons jamais trouvé. Jamais o encontramos. Continua perdido em algum lugar desta casa maravilhosa, e sabe-se lá com que olhos nos pode ver aquele pequeno demônio símio, se com os olhos da fortuna ou se com os olhos da vingança contra algum mal que havemos de ter cometido, ainda que de forma involuntária.

“Foram dias terríveis, particularmente porque, independente da morte de tio Lambert, ou, ao contrário, justamente pela interferência do diabólico macaco de osso, a harmonia entre as primas Nadine e Celestine entrou definitivamente em colapso. Ora eu imaginava que tudo não passava de um terrível ciúme de prima Nadine relativamente à felicidade da irmã, ora imaginava haver naquilo tudo a ação diabólica daquele pequeno demônio em forma de macaco, que nos conduzia em direção a compreender que vivíamos, aqui, nesta casa, sob o signo de eventos perpetuamente dissonantes.

“Todas as vezes que Heinz e Celestine se dirigiam a alguns dos prazeres que desfrutavam, chamavam prima Nadine para com eles partilhar suas alegrias. Estavam sempre dispostos a tê-la nos barcos navegando com eles no lago, correrem juntos, montados a cavalo, pelos campos, ou mesmo ter com prima Nadine conversas amistosas. Mas Nadine nunca cedeu, nunca aceitou estar ao lado de ambos. Prima Nadine sentia um pavor verdadeiro por aquele homem, pelo seu corpo coberto de desenhos, que eram monstros, figuras exóticas além do impossível, pavorosas.

“Nos primeiros convites que recebera, Nadine arquitetou desculpas, as mais bobas até, mas quando percebeu que desculpar-se seria uma rotina enfadonha, passou a evitar de forma acintosa o cunhado Heinz. Mas Heinz e Celestine estavam tão apaixonados que, ao evitá-lo, Nadine evitava também a irmã que a amava. Foi quando a frágil ligação que as unia se rompeu. Nadine mergulhou na solidão. Queria estar definitivamente longe, tanto de Heinz quanto Celestine. Com poucas opções, por viverem todos na mesma casa, Nadine refugiou-se em seu quarto, onde ficava da janela olhando os jardins, observando as grandes árvores, as aves que voavam sobre o lago, os diminutos veículos que passavam numa estrada distante. Ao longe podia olhar as nuvens que traziam as chuvas, ou vendo o sol nascer por trás dos maravilhosos carvalhos centenários nascidos no alto de uma colina ao Leste. No fim da tarde, corria até uma janela oposta para ver o sol se pôr. Estabelecera esta rotina, dia após dia.

“Quando Heinz e Celestine se deram conta de seu distanciamento, passaram a procurá-la sob a janela, querendo que ela os acompanhasse. As desculpas não bastando, Nadine selou as janelas, cerrou as cortinas e nunca mais as abriu para saber se o sol nascia, se punha, ou se os dias se mostravam úmidos, secos ou nublados.

“Preocupados com a sanidade de prima Nadine, Heinz e Celestine pediram para que eu a acompanhasse. Deixei minha casa, que ficava ao norte daqui, e fui instalado no quarto onde estou agora, e passei a fazer a melhor companhia que pude à prima Nadine. Uma companhia silenciosa, dado que ela passava os dias lendo, ou simplesmente, entre suspiros, esperando que o dia terminasse para se deitar. Serviam-nos no próprio quarto as refeições pouco tocadas por prima Nadine. À noite, eu mesmo me encarregava de trazer até ela algo que a mantivesse alimentada até a manhã seguinte.

“Certo dia, entrando em seu quarto, tive a trágica surpresa de perceber que prima Nadine tinha nas mãos o pequeno macaco de osso, ou pensei ter visto. Não pude ter certeza. Ela o escondeu, não deixando que eu me certificasse de que ela o achara em alguma parte da casa, ou que ele tenha ido até ela, aquele pequeno talismã maldito. Não tive certeza disso, mas não achava uma explicação melhor para aquele lento enlouquecimento de Nadine que não fosse a posse do pequeno macaco de osso de tio Lambert. Minha dedicação por ela se acentuou, embora tomado pelo medo que não conseguia evitar. Quando tudo se agravava, e percebia seu extremo ensimesmamento, eu pegava alguns livros e começava a ler para ela em voz alta, agia como um bufão, fazia vozes estranhas imitando personagens, tentando alegrá-la. Nadine apenas sorria, algo complacente, como se me agradecesse pelo esforço inútil em buscar nela um sorriso verdadeiro.

“Fora do quarto, ouvíamos as vozes de Heinz e Celestine. No grande salão, podíamos ouvir que punham discos alegre e dançavam. Heinz tinha uma voz potente e refinada em aulas de canto que tomara em Hamburgo, de onde viera. Acompanhava algumas óperas sobrepondo sua voz aos cantores do disco com grande facilidade. Celestine ria, e parecia estar sempre feliz.

“Nadine guardava especial atenção aos passos que ouvíamos nas escadas, nos corredores, e quando percebia que Celestine e Heinz se recolhiam ao quarto, ela pedia para que eu retornasse ao meu quarto, que a deixasse só.

“Descobri mais tarde que ela os ouvia através das paredes que separavam seus quartos. Com isso podia saber que Celestine percorria o corpo de Heinz descobrindo suas tatuagens ao que ouvia seus sussurros, talvez seus beijos, surpresas, e sabia do movimento de seus corpos. Às vezes vislumbrava no abafado de vozes um gritinho de espanto, quando Celestine descobria algo inusitado ou assustador desenhado na pele do marido. Noites seguidas Nadine ouvia os passeios de Celestine pelo corpo de Heinz. Sabia dos seus braços cobertos por monstros horríveis, mitológicos, que pareciam passear sobre ele como demônios vivos. Transitavam fugazes pelas mãos de Heinz, retornavam com rapidez, movendo-se entre seus dedos, pelas palmas, retornado aos cotovelos até se enroscarem em seus ombros, passearem em seu peito e tomarem o rumo do seu dorso, quando se misturava a outros animais medonhos. Tudo isso podia saber Nadine ouvindo-os através das paredes.

“Nadine os ouvia, a tudo, e isso a repugnava. Soube que o tórax de Heinz abrigava enormes caravelas fantasmas, monstros de algum mar profundo, esqueletos que cavalgavam peixes enormes despidos de carne, esqueletos de ossos brancos perdidos num mar de espuma que os faziam mergulhar sob barcos, e imensos animais que emergiam da escuridão do céu e caíam direto no mar. Estranhos capitães, marinheiros, corsários e piratas com seus olhos que lacrimejavam o sangue daqueles que haviam assassinado em trágicas lutas oceânicas. Todos habitando barcos em frangalhos que navegavam pelo corpo de Heinz, transitavam sob sua pele e se perdiam em borrões de tinta cor de ardósia, que se modelavam em figuras ainda mais horrendas.

“Aves enormes deixavam o corpo de Heinz e voavam pelo quarto. Nadine podia ver que elas atacavam Celestine, que desejava abrigar-se em alguma lugar seguro e não conseguia, pois estava ligada irremediavelmente àquele homem e a seus horrores. Algumas vezes, tomada por essas visões, Nadine corria até meu quarto para que eu a protegesse e a consolasse. Após a primeira vez que isso aconteceu, passei a deixar a porta apenas encostada para que Nadine pudesse entrar livremente. Então ela se deitava ao meu lado com o coração disparado e me relatava o que podia ver e ouvir no quarto de Celestine e Heinz.

“Os dias de sol escureceram para Nadine. Com os ouvidos atentos, sabia dos passos de Heinz e de Celestine quando eles acordavam. Aquele demônio acordava e estava sempre feliz como em todos os dias. Então eles vestiam suas roupas de navegar e corriam aos barcos. Passavam as manhãs navegando e só retornavam para o almoço. Com certeza havia algo de feitiçaria naquilo tudo, contou-me Nadine, pois Celestine, a despeito de tantos horrores, mantinha-se feliz ao lado de Heinz.

“Os anos passavam e a harmonia entre Heinz e Celestine persistia como se fossem eles dois jovens apaixonados. Nadine se transformara, como se possuída por algum poder que Heinz tivesse sobre todos naquela casa, pois, a despeito dos horrores que Nadine via naquele homem, Celestine sempre se mostrava feliz. Nadine os imaginava cúmplices, falsamente perfeitos sob uma terrível maldição que os enredava, sabia de tudo isso, embora não se percebesse minimamente potente para salvar a irmã daquele homem.

“Sem qualquer explicação que nos parecesse razoável, Heinz von Chutz faleceu. Puff! De uma hora para outra. Muito se especulou acerca de sua morte, embora nada se tenha comprovado. E lá estava novamente, queimada na mão daquele homem imenso, a marca do macaco de osso. Foi nesse dia que novamente tive a impressão de ver Nadine, em seu quarto, feliz como nunca a havia visto, e outra vez ela escondeu de mim o pequeno talismã que fora de tio Lambert. O pequeno macaco de osso.

— Deus do Céu! E os olhos dele? E os olhos? — perguntou a pequena Hipolita.

— Os olhos, diga dos olhos desse russo maldito… — completou Orlanda.

Quelque chose de terrible, un mystère Nenhum de nós, ao vê-lo morto nesta mesma cama que as senhoras podem agora ver, teve coragem de levantar suas pálpebras murchas para descobrir o que certamente já sabíamos haver acontecido… sim, os olhos…

— De novo o maldito macaco de osso, podem apostar… — disse Remedios.

C’est vrai Tudo tem um preço, embora não saibamos de todos os custos que nos impõe a vida: poucos dias após a partida de Heinz, Celestine também se foi, deixando Nadine com a certeza de que ambos foram sempre o ar do mundo um do outro, e poucos dias bastaram para que Celestine expirasse sem causa relevante. Nesse mesmo dia, Nadine compreendeu que se pode morrer por amor, ainda que esse amor seja fruto de um feitiço. Celestine havia morrido de amor por aquele homem repugnante, sabendo-o um feiticeiro, um tirano a fermentar na irmã um amor inventado, impossível, hipnótico, induzido por aquele corpo tomado por monstros, e suas dóceis fantasias e trágicas maldições.

“Com seus encantos, Heinz fez chegar a luz ao mundo de Celestine, e bastou que essa luz se apagasse para que a irmã também se fosse. Imersa na escuridão solitária deixada por aquele homem, Celestine experimentou uma morte pacífica, no mesmo leito onde Heinz havia sucumbido. Nadine jamais imaginou que a morte daquele homem pudesse causar a morte da irmã que amava.

— Deus do Céu! Que diabo terrível esse homem… — disse Orlanda. — E ainda por cima era um cretino de um russo…

— E o que houve com Madame Nadine? Diga! Diga! — Falou a pequena Hipolita, que se agarrara à protetora Orlanda.

— Amargou dias de pesadelos sem fim. Eram as memórias dos dias em que ouviu o que se passava no quarto da irmã que não a deixavam se dominar. No Inverno seguinte, prima Nadine contraiu tuberculose e foi se tratar no Sanatório de Berghof, próximo ao Schatzalp, em Davos, na Suíça, onde ficou até que a construção fosse demolida pelos herdeiros do homem que o havia criado em 1924. Logo em seguida, Nadine se ordenou Irmã da Misericórdia e foi viver no Waldsanatorium, próximo à Floresta Kreuzlinger, e por lá vive até esses dias, onde é cuidada por médicos e irmãs dedicadas, como ela foi um dia.

— E o pequeno macaco de osso, onde ele foi parar? — Perguntou Orlanda.

— Sim, o macaco de osso… onde ele foi parar? — Apressou-se Remedios.

Eh bien, intéressant… Esta é uma pergunta para a qual nunca se teve uma resposta satisfatória. Sabe-se que certamente ele não seguiu com a prima Nadine, pois antes de deixar esta casa, ela se havia tornado uma religiosa ferrenha, certamente houve por bem abdicar da propriedade daquele pequeno demônio, se é que realmente ela o teve consigo e o dominou… ou foi dominada por ele. Por suposto, ele ainda está perdido nesta imensa propriedade, em algum lugar.

— E o senhor nunca mais voltou a ver a coitada?

Mais non. Nous n’avons jamais abandonné la cousine Nadine. Nunca a abandonamos, embora isso em pouco a tenha ajudado. No Verão passado, visitei-a no Waldsanatorium, e não foi pouco o meu espanto quando, ao me ver, ela gritou em minha direção Ja! Ich bin die Baronin von Chutz! Imaginem as senhoras… imaginem como fiquei…

— E o que isso significa, Deus do Céu?

Oui! Je suis la baronne von Chutz!Sim! Eu sou a baronesa von Chutz. Transformara-se na baronesa Heinz von Chutz, como devem ter entendido. É Alemão. Não é possível saber se ela, Nadine, se confundia com a irmã Celestine, ou se, sendo ainda Nadine, casara-se com o cunhado Heinz por amá-lo ainda mais que a irmã, mesmo após sua morte, que talvez fosse negada por ela.

“Poucos podem compreender o que fora dito por ela ao me ver novamente, não fosse eu saber o que acontecera nesta casa durante os anos em que Heinz aqui viveu ao lado de Celestine. Prima Nadine já não fala outra língua que não seja o alemão, sendo considerada louca por todos no Sanatório. Isso deixou claro, ao menos para mim, que Nadine sempre fora apaixonada por Heinz von Chutz, particularmente quando veio a descobrir, quando retornou à Europa, que Heinz era também um nobre e rico barão alemão.

“Nadine viveu anos sem poder revelar a si mesma e aos outros o que de fato sentia pelo homem que pertencia à sua irmã. E agora, com a perda da razão, me revelou sua paixão de forma sofrida, pela via da loucura. Creio que esse tenha sido o preço por ter herdado de tio Lambert, além de boa parte de sua fortuna, também o seu pequeno e amaldiçoado macaco de osso.

— Deus do Céu! Que horror! Tudo por conta daquele pequeno macaco… — disse Orlanda.

Oui, oui, le petit singe en os. O pequeno demônio que permanece perdido nesta casa. Bem, mas chega de histórias. O que importa é a casa. Vamos agora conhecer os túneis que levam aos jardins e às cavalariças? Não reparem ao fato de que por lá não há energia elétrica, são escuros os túneis, e teremos de levar algumas tochas e castiçais que possam iluminar os caminhos, ou preferem conhecer a torre onde tio Lambert um dia pôs fim à sua vida?, não fica distante… — disse Sebastian.

 

Sebastian fora chamado a se ausentar da casa. Havia negócios particulares que precisava cuidar. Os bancos, sempre os malditos bancos, o acossavam para que fizesse o pagamento de algumas Notas Promissórias assinadas num empréstimo que fizera para comprar um novo automóvel. Havia se apaixonado por um Mercedes-Benz 300SL Gullwing que vira numa exposição de automóveis europeus em Nova York. Passou uma semana distante buscando amigos que o auxiliassem com dinheiro rápido e desembaraço de documentação. Não foi difícil encontrar quem o auxiliasse, e logo tudo se resolveu.

— Alguém me ligou nesses dias que passei fora, Remedios?

— Madame Nadine e Madame Celestine ligaram. Deixaram a Suíça e estão agora em Paris com tio Lambert e tia Lucette. Herr Chutz viajou para a Alemanha, foi ver a família. Queriam saber da casa, como está a venda.

— Disseram em que hotel estarão?

— No de Crillon, foi o que disse Madame Nadine.

— Ah, sim, depois lhes telefonarei para falar das dificuldades com a venda… E Orlanda e Hipolita? Ligaram dizendo se comprariam ou não a casa?

— A grande Orlanda ligou. Agradeceu dizendo que ela e Hipolita dariam preferência a uma outra propriedade, próxima da cidade. Quis que lhe falasse um pouco mais sobre o tal macaco de osso.

— E você…

— Disse-lhe que o assunto era algo de família, que pouco sabia a respeito.

— Alguém ligou querendo ver a casa?

— Não. Ninguém ligou, mas tem lá no seu quarto uma tal de Louella ou Laura ou Lotte, não guardei o nome. Foi um jovem preto muito magro usando bigode quem a trouxe e logo foi embora. Ela disse que precisa muito falar com você e se alojou por lá. Fuma e bebe há dois dias. Às vezes vai até a cozinha para comer algo. E volta para a cama.

— Ah!

7 comentários em “O Pequeno Macaco de Osso – Conto (Angelo Rodrigues)

  1. Gustavo Araujo
    17 de outubro de 2024
    Avatar de Gustavo Araujo

    Quando eu era jovem tive a chance de conhecer a Muckross House, no interior da Irlanda. Era um museu, mas antes tinha sido a casa de alguém importante. Uma construção enorme erigida no início do século XIX, se não me engano, feita de pedra, situada num vale onde prevalecia o verde e uma chuva constantes. Confesso que me apaixonei pelo lugar, pelas histórias que cada cômodo contava, pelos quartos, pela cozinha, pelo local onde se fazia a comida, pelas cavalariças, pelo lago, pela ponte em arco também feita de pedra.

    Este conto me trouxe à mente esse lugar e, de repente, eu me vi na pele de Sebastian, como uma espécie de dono da Muckross House, me metendo a falar gaélico em vez de francês, mas de todo modo, tentando espantar eventuais compradores com histórias fantásticas recheadas de superstições maledicentes.

    Isso porque a prosa do conto é envolvente, prazerosa. Não tem como não gostar dos maneirismos do Sebastian, torcer por ele, para que ele, ao fim, espante as senhorinhas e que permaneça ali, talvez para sempre, envolto em festas na companhia de Remedios.

    Se a ideia de um conto é tragar o leitor para o universo criado — e aqui temos o plus de uma história dentro da história — este texto teve pleno sucesso.

    De qualquer maneira, espero um dia voltar à Irlanda e procurar um talismã de macaco em algum ponto da Muckross House. O feitiço funcionou comigo, tanto lá como aqui.

    • Angelo Rodrigues
      20 de outubro de 2024
      Avatar de Angelo Rodrigues

      Olá, Gustavo,

      Obrigado pela leitura e comentário.

      Este conto tem origem, curiosamente, na mesma (ou quase) experiência que você viveu. Começou quando conheci a Casa Loma, em Toronto, no Canadá. Passei alguns dias por lá em viagem à China e ao Japão, logo em seguida.

      A Casa Loma teve sobre mim um efeito mágico, como tentei passar por meio da casa do conto (gosto de textos que falem de casas. A Casa de Adelle, A Presença de meu Pai, etc. etc., textos que dão vida a uma casa), embora eu tenha fantasiado quanto à Art Nouveau, dado que a Casa Loma foi concebida como um pequeno castelo neo-romântico. Mas estão no conto os mesmos recursos que vi por lá, como cavalariças, túneis, os quartos, as pequenas quebradas de um quase-castelo, e por aí vai: https://pt.wikipedia.org/wiki/Casa_Loma

      Juntei tudo ao terminar de ler um livro muito curioso e bom de ler: Graziella, de Alphonse de Lamartine, publicado aqui pela Carambaia. Estão no conto, ainda que com muita fantasia, o ambiente (a casa) e o clima romântico do livro, a viagem.

      O conto é, de certa forma, um mergulho em sensíveis experiências pessoais: a música (particularmente Take Five, de Brubeck, o jazz em geral, as tatuagens fantasmagóricas, o sarcasmo e a paixão pelo que é realmente amado etc. etc. Tudo mergulhado no interior de Sebastian e seu contraponto Remedios.

      Valeu, Gustavo, pela leitura e comentário. Grande abraço.

  2. vlaferrari
    10 de outubro de 2024
    Avatar de vlaferrari

    Me lembrou as narrativas de grandes clássicos, com digressões bem pontuadas, enfeitando a imaginação do leitor para performar um quadro sobre o bon vivant Sebastian. Por um momento cheguei a imaginar um rumo diferente. Uma narrativa limpa e digna de um romance. Parabéns.

  3. Kelly Hatanaka
    8 de outubro de 2024
    Avatar de Kelly Hatanaka

    Oi Angelo.

    Um conto riquíssimo, com uma ambientação impecável. As palavras nos transportam diretamente para aquele mundo, aquele tempo. Os personagens, muito bem definidos, diálogos precisos. O amor pela casa e a falta de visão prática da vida de Sebastian em contraposição ao materialismo e vulgaridade das compradoras foi muito divertido de acompanhar.

    É preciso fôlego para contar uma história tão longa e sua narrativa não perdeu tônus em nenhum momento.

    Parabéns!

    Kelly

    • Angelo Rodrigues
      9 de outubro de 2024
      Avatar de Angelo Rodrigues

      Olá, Kelly,

      Obrigado pela leitura e comentário.

      Legal que tenha gostado do conto. É longo, como imaginei que teria sido longa a construção da casa de Nadine. Usei muitas referências literárias, uma delas está no final, quando a suposta Nadine enlouquece e se imagina uma baronesa: “Ja! Ich bin die Baronin von Chutz!

      Esta é uma das frases finais de um livro que gosto e recomendo. Maravilhoso, curto e rico ao mesmo tempo. Trata-se de “Utz”, de Bruce Chatwin, publicado aqui no Brasil pela Companhia das Letras. O uso da frase é uma gag com esse livro.

      Outras referências, como o Waldsanatorium, tem relação com a Montanha Mágica e assim vai.

      Nadine e Celestine são antagônicas, como em Nadine -> Nada e Celestine -> o Céu, Tudo, aquela que atinge a felicidade ao passo que a irmã, Nadine, sucumbe em sua inveja. História inventada, dado que na “vida real”, ambas as irmãs estão bem e curtindo a vida no melhor hotel da Europa, o de Crillon.

      Mais uma vez, valeu, Kelly, pela leitura e comentário.

  4. Priscila Pereira
    3 de outubro de 2024
    Avatar de Priscila Pereira

    Olá, Ângelo! Tudo bem?

    Gostei demais do seu conto! Quase uma novela, heim!

    A ambientação está riquíssima, podemos quase ver a mansão, as festas de jazz, os bailes antigos, o decadente e esperto Sebastian!

    Os personagens também está muito bem caracterizados e bem fundamentados e mesmo sabendo que tudo o que o Sebastian contou sobre a família é mentira, foi narrado de uma forma tão competente que até acreditamos, tudo muito verossímil e bem amarrado, uma mentira perfeita!

    A escrita é deliciosa e mesmo o texto sendo longo, não vemos o tempo passar! Você poderia muito bem fazer um romance sobre essa história! Ficaria muito bom! O Sebastian é um personagem que renderia ótimas histórias e Remédios poderia ser melhor aproveitada em um romance.

    Parabéns pelo conto, amei! 😍

    Até mais!

    • Angelo Rodrigues
      4 de outubro de 2024
      Avatar de Angelo Rodrigues

      Olá, Priscila,

      Obrigado pela leitura e comentário… e pela coragem de ler um texto tão grande! Gosto muito do Sebastian, e da Remedios. A história das tatuagens vem do conto anterior, do Ibn Khaldun, que publiquei anteriormente. Achei legal dar continuidade às tatuagens que tomavam vida própria.

      Valeu, Priscila!!

E Então? O que achou?

Informação

Publicado às 2 de outubro de 2024 por em Contos Off-Desafio e marcado .