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Detox Literário.

O ouro do agreste – Conto (Andrea Nogueira)

“Já tive Mandacaru, planta forte da caatinga

É resistente como o ‘cabra nordestino’

Que aguenta a fome, o árido e a sequidão

Dá lindas flores, mas completa seu destino

Anunciando a chuvarada no sertão”

Epaminondas, o ‘Epa vaqueiro’ como era conhecido lá pros lado de Euclides da Cunha, resolveu arregaçar as mangas e furar poços para enfrentar a seca e ajudar seu povo.

Todo ano a mesma paisagem, o mesmo céu que não chorava, o mesmo esturricar da terra, a mesma miséria. Era muito duro assistir criança sem banho, mulher sem água pra cozinhar, gado morrendo à míngua.

Se o governo não assistia o povo do sertão, se lhe virava as costas como se irmãos não fossem, era preciso agir com a arma que Deus lhe dera: seus braços e, na extensão, as ferramentas criados pelos homens. Ele dispunha de enxadas, pás, picaretas para cavar, um trator velho para carregar a terra e uma disposição que, dia a dia, só fazia crescer cheia de indignação.

Em torno de si, Epa conseguiu reunir um grupo porreta de homens lavradores e vaqueiros como ele, todos dispostos a minimizar as consequências da falta daquele bem essencial que era a água.

Também sua companheira Joana, que nem mais força tinha para deitar lágrimas tanta a desgraceira e embuxada pela primeira vez, ajudava seu homem madrugando todos os dias  preparando seu farnel que contava na sua parca despensa, que Epa levava para aguentar o longo e pesado dia de trabalho.

E lá se ia Epa, cavar poços, junto aos companheiros, aqueles homens que resistiam a deixar o sertão. Ele reafirmava para quem quisesse ouvir que nunca engrossaria as fileiras de retirantes que, ano a ano, abandonavam aquele chão e os seus, em busca de um destino incerto.

Enquanto cavavam em busca de água, eram observados por muitos locais, homens velhos e cansados, mulheres puxando o terço e um bando de crianças em algazarra como se aquela movimentação de braços tivesse o caráter de uma festa.

A cidade parecia mais viva do que nunca, naqueles dias. Um novo ânimo marcava os rostos precocemente envelhecidos e lhes enchia de esperança o coração.

Ocorre que depois de alguns dias dessa labuta, a notícia da busca por água ganhou estrada e correu  como rastilho de pólvora indo chegar à capital e nos ouvidos dos donos de terra.

– Isso não é nada bom, diziam os coronéis.

– Isso cheira a insurreição do povo, decretaram logo. Era preciso sufocar, cortar na raiz a onda de insatisfação que ganhava corpo na Vila.

Para as forças do poder, aquilo tinha todo jeito de um embrião de revolta. Não se davam conta de que aqueles braços armados de picaretas e pás desenhavam gestos de puro desespero de uma gente que não tinha com quem contar. Assim como os pobres sertanejos, em sua luta contra a seca pela sobrevivência, também não tinham consciência de sua força na luta por uma vida digna.

A vida nessa época era assim: os ricos dividindo o povo, submetidos pelo cabresto, como gado; os pobres, amortecidos pela fome e pela sede, consideradas uma sina, buscando  em Deus o consolo. Uma gente pobre presa a um chão que lhes negava sustento e futuro, como a simbólica flor do Mandacaru, que seguia teimando em não se abrir e anunciar chuva. Viviam ao Deus dará.

Não demorou muito tempo e já um bando de jagunços do mais poderoso coronel local começou a ameaçar Epa e seus companheiros. Armados até os dentes fizeram de tudo para dispersá-los:

– Isso não pode! A terra é do coronel, não podem cavar poços por aqui!

Epa tentou lhes explicar as reais intenções dos buracos abertos e que não o de ocupar a terra, pois respeitavam a propriedade alheia. Só queriam encontrar água, coisa de necessidade para não mais mortes assistir.

Sem convencer com conversa, naquele dia Epa e os outros foram forçados a voltar cedo para casa, expulsos que foram daquelas terras. Recolheram seus apetrechos e partiram, não sem levar a garganta apertada e uma ardência nos olhos já secos de tanto pedir aos santos.

Às pressas, Epa chamou uma reunião, em sua casa para aquela noite mesmo. Agora a luta era contra dois inimigos: a aridez da terra e a secura do Céu, mas também às ameaças dos homens que tudo tinham e lhes negavam “o ouro do agreste”.

– Essa gente de mando, disse ele aos companheiros, parece muito da ignorante. Esses cabras enxergam curto: se não temos água, nada podemos plantar e nem saúde teremos para trabalhar a terra dos coronéis.

 Só com os homens em paz e fixados na terra, na labuta da roça, o lucro dos donos pr’o ano seria certo.

 – Gente alimentada trabalha com gosto. Pelo jeito, para os coronéis de nada valemos, preferem que a gente se bandeie daqui, esbravejava Epa.

Essa sua fala, e já alçado a líder por sua gente, calou fundo e acendeu uma chama ainda maior na luta do povo por esse direito.

A despeito das ameaças, eles voltaram à carga em busca de água, nos dias que se seguiram. Ele e seus companheiros, atingidos em sua dignidade, não cederam ao medo e passaram a cavar poços em terras sem dono conhecido. Eles queriam água, não enfrentamento. Assim, duplicaram esforços, pois de tempo não dispunham, com a escalada da seca. A sede e sua irmã, a fome, tinham pressa.

Não tardou a receberem pelas ruas da Vila uma horda de macacos, polícias da ordem vindos da Província. Eles mais pareciam um bando de desordeiros, bulindo com as mulheres, lotando as vendas atrás de aguardente e depois embriagados faziam ameaças despropositadas a quem lhe cruzasse o caminho.

Era uma tentativa orquestrada pelos coronéis, apoiados pela Corte, de criar o terror e, assim, por fim à mobilização popular. O movimento de um grupo de ‘poceiros’, poceiros com “c” e não com dois ‘s’ entenda-se bem, era incomum naquelas paragens; com o apoio do povo, incomodava não só os coronéis locais, mas também às autoridades do Estado.

Aquela invasão do vilarejo pela polícia, criando o medo e impondo o ‘toque de recolher’ e, assim, coibir reuniões, fez Epa tomar consciência da força que um povo unido pode alcançar na luta por conquistas sociais. A abertura de poços deixara de ser apenas um ato desesperado de populares atrás de água e tornara-se um caso de polícia-política, colocando o populacho em confronto com as forças da elite agrária.

Epa e seus homens não pensavam em ceder e, na calada da noite, levantaram barricadas em torno dos poços recém-abertos, mas já fundos o suficiente que deixavam ver pequenos veios de nascentes de água. Era a esperança que se materializava em riqueza, a que mais desejavam aqueles homens.

Durante todo o dia, por trás das barricadas de cada poço, postaram-se divididos em pequenos grupos munidos de pás e enxadas, para salvaguardar seu tesouro.

Não é preciso dizer que a cena retratava uma situação-limite, prestes a estourar em guerra. A paz daquele vilarejo, com suas vidas a preço, encontrava-se sob ameaça.

Chegaram, então, à Província notícias que davam conta do impasse. As autoridades não tinha controle da população de Euclides da Cunha, que se manifestava com rebeldia à imposição de força política. Concluíram que não haveria condição de conter aquela força social que se formara sem uma negociação. A Corte não queria sujar suas mãos de sangue e no confronto uma chacina seria inevitável.

Chamados à negociação Epa e seus companheiros acorreram, sem titubear, mas decididos a resistir, a uma audiência improvisada na casa de um dos coronéis, o mais rico e poderoso da região. 

Os coronéis presentes, representados por um militar de carreira, tentavam esfriar os ânimos exaltados e mais quentes que o calor do chão árido, ponderando sobre os desdobramentos da corrida ao ouro líquido.

Foi então, aproveitando a pacificação dos ânimos, que Epa pediu a palavra e afirmou:

– Nosso gesto é de paz e nossa luta pelo bem comum. Com água chegando à Vila poderemos garantir nossa sobrevivência e as condições de trabalho na terra. Não queremos nada, além disso, só água. Falo em nome de nossa gente. Deixem-nos encontrar água e ver vida florescer, no nosso quinhão de terra. Nossa luta é contra a seca, mas será contra os coronéis caso não nos permitam seguir. Se não querem nos ajudar que não nos atrapalhem, é só o que pedimos.

E, assertivo, emendou:

– Euclides da Cunha é feita de uma gente honesta, gente trabalhadora e de brio. Gente temente a Deus. Só com nossos braços é que a vila pode prosperar. Peço que nos deixem trabalhar e assegurar nosso futuro. Palavra de Epaminondas.

E como a palavra de Homem ainda tinha valor naqueles confins, e os coronéis conheciam a teimosia dos sertanejos, selou-se um acordo de paz em que o direito à água servisse ao populacho.

Se toda palavra é uma semente e a ‘lavoura’ o preparo daquela gente, pronto! Estava plantada a semente de lutas que viriam por mais avanços sociais.

Junto ao ganho de consciência de que ‘gente unida vence’, a semente germinaria para, quem sabe, dar a colheita a outras conquistas. 

7 comentários em “O ouro do agreste – Conto (Andrea Nogueira)

  1. Kelly Hatanaka
    22 de abril de 2021

    Oi Andrea! Gostei do cenário brasileiro, do reginalismo, da temática muito real e do final feliz. Estão na luta, mas ganharam uma batalha. Muito bom! Parabéns!

  2. Fabio D'Oliveira
    15 de abril de 2021

    Olá, Andrea!

    Não costumo gostar muito desse tipo de história, ainda mais com um final tão otimista. Sim, sou um amante da tragédia, hahaha. Infelizmente, não foi diferente dessa vez. Mas a leitura não foi ruim, preciso adiantar. Sua escrita é tão boa que me conduziu até o final sem me cansar ou perder o interesse. Isso é vitória, não é? Para mim é uma grande virtude que qualquer escritor possa ter.

    Vi que apontou alguns erros que cometeu, mas não são graves. Esses probleminhas se resolvem rápido com uma revisão mais detalhadas. Agora, a alma do texto, que é toda a harmonia criada entre as letras, palavras e frases, é algo muito mais difícil de tratar. E seu conto, aqui, mostra que tem alma. É algo do seu sangue.

    Eu entendo o valor da história que decidiu contar, sabe? Adoro o mito da Caixa de Pandora e enxergo a importância de termos esperança, apesar de muitas vezes, em alguns conceitos modernos, esse nobre sentimento ser transformado num martírio; pois há quem acredite que quem tem esperança, de fato, apenas espera, não age. De certa forma, atualmente, parece ser real, mas o que você mostrou no texto, de fato, é a verdadeira face da esperança personificado por Epaminondas (interessante usar o nome do político grego que movimentou grandes mudanças em seu tempo, além de ter um significo que indica excelência). É aquilo que cura as feridas e move pra frente. É o sentimento que faz nascer a ação. Consegui ver um pouco da mensagem que vemos no mito da Pandora no seu conto.

    Gostei do seu trabalho, Andrea. Parabéns e continue nos presentando com seus textos!

    • Andrea Nogueira
      22 de abril de 2021

      Obrigada pelos elogios, que bom que você viu tantas qualidades no meu conto. Final otimista? As lutas continuam até hoje! Esperançando!

  3. Wilson Barros
    14 de abril de 2021

    Escrita clara, fluente e agradável. História interessante e atraente, agradável de ler. E bastante verossímil, além de bela. A gramática é perfeita, sem erros e bem construída. Enfim, um conto modelo, que revela grande talento.

  4. thiagocastrosouza
    13 de abril de 2021

    Bonito texto, Andrea. Adorei o uso sertanejo presente na voz do narrador, além do final otimista, raro nesse tipo de narrativa onde a corda sempre estoura para o lado mais fraco. Há também um tom encorajador sobre as inúmeras lutas que foram e ainda serão travadas por justiça nesse Brasil.

    Otimismo não quer dizer ingenuidade.

    Parabéns pela estreia!

  5. Anderson Prado
    13 de abril de 2021

    O texto emprega bem o regionalismo e está bem revisado. O enredo desperta curiosidade e mantém o interesse pela leitura. É um bonito retrato da vida do sertanejo. Se se me destacou algum reparo, foi ter percebido um tom um pouco didático em alguns momentos. Parabéns, Andrea!

    • Andrea Nogueira
      13 de abril de 2021

      Oi Anderson. Acho que fiz um certo ‘proselitismo’ não é?! Fui explícita demais em se tratando da ‘lição moral’; fui didática, sim! Concordo.

      Quanto à revisão, não fui tão eficiente deixando alguns erros talvez de digitação, talvez de concordância e regência que registro a seguir: 3o. parág.: “(a)o povo do sertão; 5o. parág.: “(com o) que…”; 13o. parág.: ” o povo, submetido…; 18o. parág.: “à(a)s ameaças; 24o. parág.: “a quem lhe(s) cruzasse”. E, talvez, outros que vcs possam apontar.

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Publicado às 13 de abril de 2021 por em Contos Off-Desafio e marcado .