EntreContos

Detox Literário.

Édipa (Edipiana)

Os Olhos

Abelardo era louco pela filha. Passava horas debruçado no berço, só olhando a pequena: “Não é linda? Não é a cara do pai?” De fato, o bebê se parecia muito com ele. Mas um detalhe o incomodava: a criança tinha olhos azuis, destoando dos olhos escuros, quase negros, de seus pais. O homem ficava encafifado. Sua mulher era uma santa, mas como não desconfiar?

A menina foi crescendo e os amigos começaram a comentar. 

— Que olhos lindos, Abelardo! Puxou a alguém da sua família? — Constrangido, Abelardo desconversava:

— Deve ter puxado à avó de Sueli. Uma que já morreu. — Mas ele mesmo nunca tinha visto a tal velha, e morria de medo duma decepção.

Um dia não se agüentou e foi falar com a mulher:

— Escuta aqui, Sueli. Como é possível que nossa filha tenha olhos azuis? Ninguém da sua família tem olho azul, nem da minha. O que você me diz?

— Minha avó, Abelardo! Minha avó tinha o olho azulzinho, da cor dum céu de praia.

— Quero ver uma foto. Me dá uma foto dela, Sueli!

— Não tem, Abelardo, não tem! Mas eu juro, juro por estes olhos que não são azuis. A Judite puxou à minha avó.

O homem sossegou. Não queria mesmo motivo para briga. A mulher era uma santa, ótima esposa, e a filha ficava cada vez mais linda, para que brigar?

 

Os namoradinhos

Mas foi tanto mimo que a menina ficou enjoada. Não trabalhava, só gostava de roupa cara, achava-se uma princesinha. A mãe protestava. Não queria que o pai gastasse tanto com a filha.

— Eu quase não tenho o que vestir e você fica comprando sapato para a Judite! E eu, Abelardo? E eu!?!

O homem deu razão à mulher. Conversou com a filha, disse que Sueli também tinha suas necessidades. Não era sempre que poderia agradar às duas. A menina se fez de compreensiva. Mas não cedeu. Antes encontrou um jeito malicioso de convencer o pai. Quando ia pedir alguma coisa, desfazia-se em carinhos. Abraçava-se ao homem, roçava-se toda no corpo dele. Enchia-o de elogios: “Você sabe que eu te amo, não é, paiêêêêê?” Abelardo se desmanchava todo, acabava sempre fazendo as vontades da filha.

Um dia foram ao cinema. Judite quis agradar:

— Não vou te chamar de pai, não, tá? Você é um quarentão muito charmoso, deixe as pessoas pensarem que somos namorados.

O homem transbordou de vaidade.

— Filha, você tem cada coisa…  Se a sua mãe souber…

— Ah, pai! Aquela chata! Olha, sinceramente, às vezes acho que o senhor merecia coisa melhor.

— Quê é isso, filha!?!

 

O Acidente

Dona Sueli não agüentava mais. Os dois viviam grudados, não pareciam pai e filha, mas um casal de namoradinhos. Cinema, praia, pizzaria. Judite fazia um curso técnico de comércio. Abelardo dava a desculpa de estar ensinando à filha os truques da profissão. Mas os dois só falavam de filmes e futilidades. Judite era indiscreta, perguntava sobre as namoradas do pai. Abelardo, que, de fato, não tinha sido grande namorador, procurava desconversar. Judite insistia.

— Você, pai, tão bonito, deve ter partido muito coração.

— Quê é isso, filha! Tive só umas duas antes da sua mãe…

— Conta, pai, conta! Como elas eram? Por que você terminou?

O papo ia pela noite a fora, e dona Sueli, em casa, perguntando-se que diabo os dois tinham tanto para conversar.

Um dia, o telefone assustou Abelardo. Era sua filha, não parava de chorar. Uma amiga pegou o aparelho: “seu Abelardo, vem de pressa.” Abelardo foi e, atônito, descobriu que a mulher tinha morrido. Edema cerebral. Foi rápido, ela não sofreu.

No velório, arrasado, chorava nos braços da filha. De repente viu seus olhos e lembrou-se da dúvida antiga. E se ele não fosse o pai? Mas a pergunta agora ganhava nova conotação. A menina estava tão linda… Se ele não fosse o pai…

A idéia passou a torturá-lo. Nem lembrava da morte da mulher. Noite e dia, só pensava naquilo. Por fim, não se conteve e foi falar com Judite.

— Olha, minha filha, nunca falei nada com você, porque não queria ofender sua mãe. Mas agora tenho de falar, não agüento mais!

— Ai, pai, fala!

— Sabia que você pode não ser minha filha?

— Quê é isso, pai? Tá maluco?

— São esses olhos, Judite. De quem você os puxou? Nunca entendi esses olhos…

— Mas a mamãe…

— Eu sei, eu sei! Ela era muito honesta, que Deus a tenha! Mas quem sabe ela não fez uma loucura? Todo mundo tem seus pecados, filha, você não sabe?

Judite ficou assustada. Ela tinha seus pecados, por que a mãe não teria?

— Temos de tirar essa história a limpo, pai!

— Mas como, filha?

— Hoje existe esse exame de DNA. Vamos já para o laboratório!

O exame era muito caro, mas Abelardo precisava saber a verdade. E se a garota não fosse sua filha? Era tão bonita, tinha um corpo…  Ser pai de uma mulher daquelas era uma tortura!

 

O Resultado

O resultado chegou pelo correio. Abelardo não acreditou: “Meu Deus! Não pode ser!” Mas era. Ficou um tempo pensando, depois chamou a filha.

— É isso filha, chegou o resultado.

— Fala, pai, pelo amor de Deus, fala!

— Olha, o mais importante é você nunca odiar sua mãe. Isso foi um deslize, uma loucura de juventude, entende? Ela era uma santa, sempre me tratou com o maior carinho.

— Então é verdade, pai? Não sou sua filha, não sou sua filha?!? Mas eu te amo, pai, sempre vou te amar!

— Eu também, filha! A gente vai ficar junto, sempre, sempre. Nunca vamos nos separar.

O abraço comovente, as faces quentes se esfregando… Abelardo não se conteve e a beijou. Judite também se entregou. Gostava do pai de uma forma intensa e estranha.

Os dois saíram da firma. O resultado ficou em cima da mesa. “99,99% de chance de descendência legítima”, era o que estava escrito. Mas Judite nunca leu. Deitada na cama da mãe, entregou-se a Abelardo e tornou-se mulher.

14 comentários em “Édipa (Edipiana)

  1. Cícero G Lopes
    6 de dezembro de 2021

    Abelardo é um pai amoroso, além da conta. Parece amar também, e mais que isso, de certa forma venera sua esposa, Sueli. Tudo seria perfeito, não fossem os olhos azuis da filha, Judite. A moça tem pelo pai uma dedicação extremada. A dúvida o castiga até que a mulher morre e decidem fazer um teste de paternidade e… como cantou Chico: “danem-se os astros, os autos, os signos, os dogmas, os búzios, as bulas, anúncios, tratados, ciganas, projetos, Profetas, sinopses, espelhos, conselhos, se dane o evangelho e todos os orixás! Serás o meu amor”!
    Vou fazer apontamentos, só para ser chato! Primeiro; por que Édipo, se temos Electra? Por que realizar um exame de DNA se “a fome e a vontade de comer”, eram portas escancaradas? Querido (a) autor (a) seu conto é uma boa e divertida releitura da tragédia grega e o incesto é fundamental para legitimá-la como tal. Talvez, mas aí é devaneio meu, podias colocar mais elementos e traçar uma ironia maior, mas… A obra é tua! Parabéns e sucesso.

  2. Fabio D'Oliveira
    28 de novembro de 2021

    Buenas!

    Nesse desafio, irei avaliar quatro fatores: aparência, essência, autenticidade e considerações pessoais.

    O que ele veste, o que ele comunica, o que ele tenta ser e o que eu vejo.

    É uma visão particular, totalmente subjetiva, mas procuro ser sincero. E o intuito é tentar entender o texto em sua totalidade, mesmo tendo minhas limitações.

    Vamos lá!

    APARÊNCIA

    Resume-se numa palavra: agilidade.

    O conto é pura dinâmica. Desde o encaixe perfeito das cenas, até a divisão de capítulos. Juntando isso ao ritmo bem cadenciado e lógico, você entrega um texto fácil de ler. E gostoso, por sinal.

    Existe alguma coisa cativante na escrita, uma poesia leve e encantadora. Nessa questão, você arrasou.

    ESSÊNCIA

    Você escolheu narrar dum ponto de vista polêmico: através dos olhos de Abelardo.

    Seu desejo reprimido transborda no conto, o tempo inteiro, tanto que, no final, ele mente para alcançar o que tanto almeja. Os personagens são complexos e vemos isso nos detalhes, o que é outra qualidade, no meu ponto de vista.

    Não enxergo o conto como uma ode ao incesto, diferente de outros comentadores. Eu vejo um conto com técnica apurada que escolheu um caminho polêmico. Do ponto de vista de Judite, poderia ser bem diferente.

    AUTENTICIDADE

    O mito de Édipo toca em vários assuntos, sendo o incesto apenas um deles. No caso deste conto, o foco é inteiramente a relação incestuosa pai-filha, mostrando como ela se formou e se consolidou. O fato de explorar algo desgastado tira um pouco do brilho do texto, preciso admitir.

    Além disso, os diálogos não se destacam, pois, de fato, parece uma fala unificada: todos falam com trajetos semelhantes. Isso dá um tom artificial para o conto, que, em si, pode ser um defeito, dependendo do ponto de vista do leitor.

    Por que estou debatendo isso no campo da autenticidade?

    Esses diálogos refletem o estilo do autor. E servem quase que exclusivamente para guiar o leitor e desnudar a trama. Nessa questão, o conto também se destaca, tendo personalidade. É contraditório, né? Ao mesmo tempo que não acho interessante a fala unificada, ainda gosto do fato de ter um estilo ensaiado, conferindo um pouco de valor ao mesmo tempo que perde, ficando empatado, hahaha.

    Às vezes divago demais, mea culpa.

    CONSIDERAÇÕES PESSOAIS

    Eu gostei bastante desse conto, como gostei muito de Lolita, sem comparar as obras, claro (Lolita está num nível que talvez nunca alcancemos).

    Trata de assuntos polêmicos de forma corajosa e amoral.

    Obrigado pela leitura! Bom desafio.

  3. Kelly Hatanaka
    28 de novembro de 2021

    Oi Edipiana,
    Minha avaliação será feita com quatro critérios: tema (2 pontos), correção/escrita (2 pontos), criatividade (3 pontos), personagens (3 pontos).
    Tema (1): O conto resvala no tema. Inspira-se na história de Édipo.
    Correção/escrita(2): Correta, clara, fluida e agradável de ler.
    Criatividade(2): Uma ótima história, bem contada e que prende a atenção. Abelardo e Judite vão se sentindo atraídos um pelo outro, à medida que Judite cresce. Alguns vácuos narrativos deixam espaço para a imaginação (muito bom!!!!) e é possível desconfiar se a morte de Sueli não teria sido causada, e o quanto Judite teria manipulado a situação. Terá sido Abelardo o “vilão” da história?
    Personagens(3): Numa história muito boa, este foi o grande destaque, em minha opinião. Abelardo, Judite e Sueli são descritos de forma sucinta, sem detalhes em excesso e o leitor pode preencher as lacunas com sua própria visão de mundo. Dependendo de quem lê, Abelardo é o vilão e Judite, uma vítima, ou Abelardo é a vítima de uma Judite manipuladora. Este tipo de coisa enriquece muito o texto e não é fácil de conseguir. Parabéns!
    Geral: um conto excelente que prendeu minha atenção desde a primeira linha.
    Parabéns e boa sorte.

  4. Emanuel Maurin
    28 de novembro de 2021

    Edipiana, olá. Tudo de bom para você?
    Pai e filha são atraídos fisicamente, o fato de a filha não se parecer com a família é a desculpa perfeita para a possível concretização do ato sexual imundo. (Freud explica) O conto é muito bem elaborado, o autor é corajoso e o final surpreendente. O texto é fluido, agradável, enxuto e a estrutura é excelente. Também acho que o tema escolhido pelo autor atende o tema mitológico proposto. Enfim, boa sorte no desafio.

  5. Lucas Suzigan Nachtigall
    26 de novembro de 2021

    Olha. Em termos de narrativa e qualidade textual, o texto está excelente. Um “de pressa” escapou, bem como outros detalhes, mas são apenas isso: detalhes.
    Agora, quanto ao conteúdo, o conto me incomodou. Não no sentido de conto mau escrito. Não. Nada disso. O conto é excelente e reconheço isso. Mas me incomodou de forma negativa. Acho incômoda e bastante problemática essa questão de romantização do incesto paternal. Ok, não é ilegal, com certeza. Mesmo assim, eu considero essencial a responsabilidade que o escritor tenha na escrita.
    Não considero que o conto se trate de uma versão do Mito do Édipo, independente de estarmos falando da peça ou do mito aristotélico. Em Édipo o incesto e o patricídio causam consequências assoladoras, seja na cidade, seja no casal, quando percebidos: a mãe se suicida e o filho enlouquece e se cega. O conto é um elogio. Acho que são bem distintos nesse aspecto. Mas é um tema delicado. Eu tenho dificuldades em tratar a respeito.

    • Emanuel Maurin
      26 de novembro de 2021

      Lucas, mas se o conto te incomodou que é legal. O legal pé chocar quem lê, que graça tem ler algo que não incomoda?

      • Lucas Suzigan Nachtigall
        5 de dezembro de 2021

        Pois é. Mas eu não tenho muito bem estrutura para comentar essas coisas. É um tema delicado pra mim. No meu trabalho eu vejo casos de incesto parental, e é sempre um negócio pesado. Então eu não sei lidar com isso de forma leve.

  6. Rodrigo
    23 de novembro de 2021

    Não chegou a haver incesto. Vejam o final. Eles descobrem, por meio do exame, que a filha não era filha biológica. A mulher tinha cometido um adultério. Mesmo assim, acho que o autor quis brincar com o mito do Édipo, no qual há um incesto real.

    • Emanuel Maurin
      24 de novembro de 2021

      Não houve incesto, mas na minha opinião fica claro que haverá.

    • Lucas Suzigan Nachtigall
      5 de dezembro de 2021

      Acho que é o oposto: o exame dá 99% de chance de sim, eles serem pai e filha. Ou eu interpretei errado. Se eu errei, alguém me avisa.

  7. Antonio Stegues Batista
    18 de novembro de 2021

    Me pareceu que a autora quis escrever uma versão de Édipo Rei, uma peça de tetro escrita por Sófocles, dramaturgo grego do século V a.c. O título do conto remete a essa ideia, mas na minha opinião o conto nada tem de mitologia. Apesar disso, o texto está bem escrito, tem um bom enredo e bons diálogos.

    • Emanuel Maurin
      20 de novembro de 2021

      Antonio Stegues, bom dia. Eu não concordo quando vc diz que o conto não tem nada de mitologia. Achei isso no Google: “Édipo Rei é um personagem da mitologia grega e também uma tragédia escrita por volta de 427 a.C. pelo dramaturgo Sófocles (496-406 a.C.). Trata-se de uma das tragédias gregas mais emblemáticas da história do teatro na Grécia. É baseada no mito de édipo e citada pelo filósofo grego Aristóteles em sua obra “Poética”.” E tem varias outras referencias se caso procurar.

      • Antonio Stegues Batista
        21 de novembro de 2021

        Foi o que eu falei. O conto é uma versão contemporânea, ou seja, acontece nos nosso tempo, há referências ao mito Édipo, principalmente o incesto. Faltou a personagem furar os olhos rsrsrs

    • Emanuel Maurin
      24 de novembro de 2021

      É quando vc fala que o “conto nada tem de mitologia que discordo”. A versão contemporânea e no Brasil é válida. Aliás o Livro Deuses Americanos é contemporâneo a trama passa nos EUA, o autor é experiente em mitologia e Deuses Americanos é o brinde do Certame. Escrever o conto com elementos mitológicos na contemporaneidade que é legal.

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Informação

Publicado em 11 de novembro de 2021 por em Mitologias.
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