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Detox Literário.

As balas (Bandido Bom é Bandido Morto)

As balas zunem desvairadas arrancando lascas no reboco e furando as paredes. Era o capitão comandante da grande vitória. A maioria dos monstros abatida, alguns poucos em desesperada fuga morro abaixo. É aí que chega o informe. Alguém viu Zeca Pirado se arrastando, ferido, rumo a um sobrado azul morro acima. “Quero o Pirado vivo. Terei a honra de sangrá-lo.” A tal casa é cercada e o inimigo grita que só se entregaria morto. No sonho dá a ordem para que não invadissem o lugar. Que o esperassem. Ao chegar manda que o fustigassem com muito pipoco para ver com quantos ele estava. Poucos tiros responderam do interior da casa. Sinal de que a munição estava no fim. Foi fácil perceber também que estava só. Acorda quando Zeca afirma que sairá da casa para morrer como homem, lutando na ponta da faca.

A realidade foi madrasta. Aconteceu exatamente o oposto. O bando morreu praticamente todo na batalha. Quando Zeca chegou ao lugar em que tinha caído já estava bastante ferido. Cuspiu nele ao mesmo tempo em que ordenava que não usassem munição em um verme morto. Chutou-o demais. Ao notarem a chegada da polícia o largaram, não sem antes terem urinado em seu rosto amassado. Riu ao reparar na lasca de dente enfiada no couro da sua bota. “Chefe, vamos dar um tiro de misericórdia nele?” “Já dei ordem para não se gastar munição com esse saco de merda. Deixa o desgraçado sofrer pelo menos um pouco antes de morrer”.

A polícia chegou e ao recolher os cadáveres constataram que vivia. Tão desfigurado que não o reconheceram. “É bandido, deixa acabar de morrer. Depois a gente leva direto para o IML.” Mas era raça muito ruim. Resistiu e ao final tiveram que deixá-lo no hospital, até porque a imprensa tinha subido e ia “dar ruim” caso o eliminassem na frente deles. Só aí foi que descobriram que era ele.

A bala explora a boca murcha. Joga-se rapidamente de cá para lá, guiada pela língua e as muitas gengivas. Parece fazer parte de um jogo de pinball, cujo objetivo é impedir que desapareça garganta abaixo. Deliciosos mesmos eram os frutos descascados do tamarindo. Ávido os sugava até que só restassem daquele azedo as sementes escuras e lisas. Cuspi-las era um ritual, fazia biquinho e enchia de ar o peito para soprá-los, no afã de lançá-los o mais longe possível. “Devo ter semeado alguns tamarindeiros por aí”, pensava de olhos fechados.

Cochilava? Ou a memória mais uma vez falhava? Além dos tamarindos sentia saudades da calma trazida por uma boa erva. A última vez que fumou morava na fazenda Los Dos Hermanos no Paraguai. Com quem estava naqueles tempos? “Ah, acho que com a índia de olhos imensos, tão pretos de quase assustar. Os cabelos lisos mais negros ainda. Eu já com meus quarenta e tantos e ela nem havia chegado aos vinte.” Ela detestava falar espanhol e isto tornava o relacionamento uma maravilha. Dizia-lhe as coisas em português e a garota a responder, sempre sorridente, em guarani. “Como era mesmo o seu nome? Merda de cabeça!”

Diferente dos companheiros, sempre foi de se apaixonar. E estando assim, ao contrário deles que sempre diversificavam a cama, donos que eram de verdadeiros haréns, sempre fora fiel à paixão de momento. Depois de voltar para São Paulo, alimentou a ideia de mandar buscar sua indiazinha, mas logo depois conheceu, meio que por acaso, a loura catarinense que, por conta dos traços europeus e de se comunicar em alemão, tornou-se mula competente no transporte de cargas para Frankfurt. Paixão à primeira vista. Ao contrário do marido da paraguaia que, de primeira, aceitou um grosso pacote de dinheiro para sumir no mundo, o alemãozinho deu uma de corno bravo. Mesmo sem querer deixar sua amada sofrendo, mandou que lhe arrumassem um acidente. Deu tempo suficiente para que a viúva ,curtisse o luto e só aí, homem correto com as mulheres, foi que tornou a investir no relacionamento.

A coisa desandou, dentre outras coisas, porque a loura, fazendo uso da autoridade de mulher do patrão, queria porque queria se meter nos negócios. Virou madame e dava palpites em tudo. Quando a prenderam em Barcelona, já não havia mais nada entre eles. Andiara e Ingrid, lembrou-se de repente. Os nomes da índia e da gringa, lhe chegaram de uma vez e a boca sorriu banguela.

Cochilou de novo e dormiu como se ainda fosse poderoso. No sonho ordenava aos advogados que investissem, mais uma vez, nas tentativas de extradição para o Brasil. Que seus capangas também trouxessem Andiara para ficar com ele. Naquela hora era totalmente irrelevante que Ingrid havia morrido de câncer no útero, lá no hospital da prisão espanhola e que a índia se tornara prostituta em Assunção e, desgostosa com a existência, terminara por se suicidar saltando em frente a um caminhão na estrada.     

Acordou e era bonito e jovem. Seus dois amores, uma de cada lado da cama alta, lhe sorriam e acariciavam o rosto De novo era feliz.   

6 comentários em “As balas (Bandido Bom é Bandido Morto)

  1. Wilson Barros
    17 de setembro de 2021

    Gostei do nome, Zeca Pirado, lembra o Zeca Diabo da novela “O Bem Amado”.
    O título me pareceu um trocadilho, ou seja, na verdade bandido depois de morto fica bondoso.
    O conto inteiro poderia ser resumido como o fluxo de consciência de um bandido prestes a morrer, nesse ponto é um pouco aterrador. Ao fim parece que ele acorda em outra vida, ou seja, não era tão mau assim.
    Muitos contos neste desafio mostraram a história do ponto de vista dos fora da lei. De qualquer maneira, um conto curto e fluente, agradável de ler.

  2. Marcia Dias
    17 de setembro de 2021

    Narrativa de estrutura regular. Escreveu na medida certa o que tinha para contar: devaneios no momento da morte de um bandido, ou sonhos e/ou lembranças de um traficante ao acordar, a gosto do leitor. As situações são clichês (tiroteio, tráfico…), mas não tiro o mérito da reescrita razoável. Não reparei falhas nem ponto alto no enredo.

  3. claudiaangst
    15 de setembro de 2021

    O conto abordou o tema proposto pelo desafio.
    Narrativa curta, mas que abarca muita informação sobre o protagonista. Ritmo bom, mas trama um tanto confusa (talvez essa tenha sido a intenção? )
    Considero que foi revelado cedo demais que se tratava de um sonho logo no segundo parágrafo. Gostaria de ter sido enganada ☺🤔 por um tempo maior.
    Ainda sobre sonhos e delírios, não entendi bem o final… se ele despertou mesmo feliz ou se tudo foi um sonho. Os pensamentos do meliante também me pareceram embolados na trama.
    Seria bom revisar o texto com atenção para torná-lo preciso.
    Parabéns pela participação e Boa sorte no desafio.

  4. thiagocastrosouza
    15 de setembro de 2021

    Texto com foco nas memórias de um fora da lei do tráfico, seus amores e hábitos. Gostei da toada do conto, muito direta e breve, um pequeno recorte de vida de um homem que vive no limite. Tive dificuldades de me situar nas viradas do conto, do terceiro para o quarto parágrafo. Pelo que entendi, Zeca sobreviveu à captura e agora, bastante sequelado, rememora os dias de glória. O conto é bastante curto, mas caso começasse nesse ponto, não teria tantas diferenças. Ainda assim, você é muito habilidoso em encadear fatos e sentimentos com tão poucas palavras, e a narrativa segue com um ritmo bom de acompanhar, bastante orgânico, talvez em acordo com os devaneios e sonhos do protagonista. O final, ainda que trágico pelo destino das mulheres de Zeca, é até positivo, pois, na ilusão, os três conseguem, ao menos, desfrutarem um pouco um do outro.

    Boa sorte no desafio!

  5. Andre Brizola
    15 de setembro de 2021

    Olá, Bandido!

    Conto que aborda os prováveis últimos momentos de Zeca Pirado, bandido envolvido com tráfico de drogas e assassinatos. Em seus devaneios, relembra alguns de seus romances, lugares por onde passou e, até, alguns hábitos mais ordinários, como cuspir sementes de tamarindo.

    Trata-se de um texto enxuto, mas de parágrafos grandes, e muita coisa a ser relatada sobre o personagem, oferecendo ao leitor um ritmo mais lento, com muitas informações condensadas em poucas palavras e com poucas pausas. O enredo não é muito criativo, permanecendo na linha em que relata os crimes do personagem e suas ramificações. O personagem é plano, de forma que não há desenvolvimento no decorrer do conto, ele termina da mesma forma que começa.

    Há, ainda, uma necessidade de revisão, sobretudo no que diz respeito à utilização de vírgulas. Há até a falta de ponto final em uma frase. Mas acho que o grande problema do conto, de fato, é a mudança brusca no ponto de vista. O texto começa com a narração dos feitos do capitão, responsável por caçar e prender Zeca Pirado. Os dois parágrafos iniciais dão a entender que o conto é sobre esse personagem. Mas, de repente, o ponto de vista muda para o de Zeca Pirado, e o capitão é esquecido completamente. Teria sido legal ter definido isso de forma mais adequada, ou então fazer a transição de forma menos brusca.

    Não é um conto ruim, de forma alguma, mas é um conto irregular.

    É isso. Boa sorte no desafio!

  6. Priscila Pereira
    15 de setembro de 2021

    Olá, Bandido Bom! 😏

    Ambientação: legal.. para um conto curto até que dá pra visualizar bem as cenas, mesmo que seja nebuloso por causa dos sonhos e delírios do moribundo.

    Enredo: enevoado. Se entendi bem, todo o conto se baseia nas lembranças e sonhos de um cara que numa briga entre bandidos, ficou quase morto e no final morre mesmo. Acertei?

    Escrita: boa. Direta e competente.

    Considerações gerais: é um conto decente, mas não parece um conto realmente e sim um pedaço de uma história maior. Não está ruim, mas podeira estar bem melhor. Parabéns!

    Boa sorte!
    Até mais!

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Informação

Publicado em 12 de setembro de 2021 por em Foras da Lei.