EntreContos

Detox Literário.

Ele não sabia quem era sonho e quem era pesadelo (Galo)

Os homens naquela roda sabiam que os traços desenhados na terra pelos capitães não passavam de uma orientação dispensável, limitada a dizer por onde começar a atacar. Nenhum deles, mesmo o padre, era iniciante no apresamento do gentio. Na sangrenta tradição que em alguns anos ficaria conhecida como guerra brasílica, a escaramuça era um desenrolar de grito, fumaça, músculos fatiados e ossos esmigalhados. Havia nisso muito pouco da escola militar do além-mar e muito mais do que homens armados e desesperados fariam para sobreviver.

Enquanto passavam as instruções, Martim sentia sobre si o pesar dos olhos desconfiados. Carregava em sua pele as marcas da doença que eles tinham trazido, falava razoavelmente a língua imposta, os guiara mata adentro e dividira das farinhas e caças. Mesmo assim, era um dos que se armava apenas com sabre, a artilharia ficando sob encargo daqueles que julgavam fiáveis. Um nativo como ele não se armaria de fogo.

Os capitães revisaram o planejado, distribuíram doses de aguardente e puseram os homens em marcha. Que aquela fosse uma bandeira de dois chefes era situação que já tinha gerado muito atrito, com sucessivas discordâncias e discussões, o capitão Gomes nunca deixando passar a oportunidade de zombar da religiosidade do capitão Andrade.

O retorno dos batedores confirmou a proximidade dos carijós fugidos que perseguiram nos últimos dias. Apesar de seus atritos e divergências teológicas, os dois capitães desanimaram igualmente com a notícia de que suas presas constituíam um grupo de mulheres e velhos, algumas crianças e poucos guerreiros. Os demais homens da bandeira, entretanto, abriram sorrisos largos e especulativos dos espólios que os aguardavam. Encontraram suas vítimas e montaram cerco.

Era um dia sereno em que nada apontava para carnificina. O que as copas das árvores deixavam transparecer expunha um céu tomado de nuvens claras, de onde escapava uma chuva fina, mas intensa. Alguns micos dourados observavam com cautela o círculo de homens que se fechava sobre as pessoas pardas e desnudas que, pouco a pouco, também pressentiam o começo do fim, os poucos homens do grupo sitiado buscando suas armas. Pássaros coloridos piavam e dançavam em seus poleiros naturais, dando melodia ao gotejar do chuvisco. O cheiro de terra molhada chamou a atenção de tudo isso para Martim, que com um suspiro acolheu aquela que não era a sua primeira calmaria antes da tempestade. Foi quando viu Joana.

Seu coração apertou e, agora um homem atrasado no cerco que formavam os seus companheiros, precisou mudar o peso sobre os pés para não cair. Era ela, seus cachos castanhos emoldurando o rosto ovalado que o encantara tantas vezes. Sempre foi Joana que sem questionar o abrigava em seu colo enquanto ele chorava e amaldiçoava toda a selvageria humana que presenciava nessas incursões. Ela sempre perguntava o impossível: e se ele não fosse? Se os deixasse adentrar a mata sozinhos? E se fugissem e vivessem em uma terra onde homens não põem outros homens em grilhões? Martim a enxergou a apenas alguns metros de si, posicionada entre o apaixonado e a matança a ocorrer.

Um dos homens chiou para que se adiantasse. A primeira das flechas foi certeira, fazendo do chamado desse colega as suas últimas palavras. Martim viu o céu branco reluzir na seta ensanguentada que brotava na garganta do seu companheiro. Joana se fora, agora ele via apenas o gentio que vinha em sua direção correndo e gritando. A essa altura estavam todos se esgoelando, cada um anunciava o seu mantra de morticínio e assim a floresta era preenchida por deus, dom sebastião, portugal, nomes de esposas e putas, além de berros indefinidos que se prolongavam ou cessavam ao ritmo da violência. Seu primeiro oponente era um homem como ele, de pele amarronzada e cabelos negros, olhos puxados e nariz fino. Matou-o com três golpes de sabre. Urrando, Martim avançou e repetiu a dose de homicídio naqueles que o opuseram. Os arcabuzes e escopetas estouraram, substituindo o perfume da chuva pelo odor ácido da pólvora queimada. Os capitães incentivavam os seus homens, Gomes a xingamentos e Andrade com um insensato discurso missionário, ambos iguais, entretanto, no assassinato que orquestravam e do qual participavam. A rendição veio logo, os velhos demais e os muito feridos dos vencidos foram logo postos à espada enquanto os guerreiros derrotados eram acorrentados e as mulheres eram sistematicamente afastadas das crianças, dos maridos e dos cadáveres, levadas para a mata densa pelos colonos mais afobados. Elas choravam o que podia ser pelos mortos, pelos meninos chorosos pelas mães e, certamente, por aquilo que estava prestes a lhes acontecer. E então suas lamúrias não foram mais ouvidas, substituídas por grunhidos e ganidos de outra demoníaca natureza.

Martim se virou para um novo som, de uma língua morta que jamais soaria boa aos seus ouvidos. O padre Diniz escalara uma árvore próxima, apoiando-se no galho mais grosso como se em um púlpito. De costas para o massacre, banhado por um fio d’água que corria entre as folhas, o jesuíta abria os braços e orava como no colégio de padres. Martim conhecia a oração e conhecia ainda mais aquele missionário. Era o homem que o capturara ainda garoto e o “fizera bom cristão”. O jovem brasil, agora um guia das bandeiras e para sempre um assassino dos seus iguais, contemplou aquela imagem e se lembrou das belas histórias que se contavam da primeira ocasião em que caravelas aportaram e um homem de batina levantou uma cruz para pregar aos naturais curiosos e ingênuos. Vendo seu algoz professar as santas palavras, Martim pensou que não poderia ter sido assim. A primeira missa daquele lado da América ferida certamente se pareceu mais com esta chacina em que estava.

Todos os sons de mata tinham cessado. Os pássaros voaram, os macacos saltaram, a chuva parou. O grito, o choro, o tilintar das correntes e o latim moroso do jesuíta era tudo o que havia. A floresta emudeceu.

***

Os dois capitães concordaram que precisavam apurar o ocorrido. Distantes do acampamento, aguardavam o jesuíta e o seu índio. Apesar dessa convergência, Gomes espiava Andrade sem esconder o seu desdém. Desconfiava que o odiava por inveja. Andrade era um sujeito benquisto na vila, figura assídua na igreja e conhecido por todos pelo espírito comunitário, homem procurado quando se precisava de uma liderança. Gomes também tinha fama própria.

Que viera para a América como criminoso era fato conhecido, mas o que variava era seu crime. Ladrão, assassino ou estuprador, a lista de seus possíveis delitos seguia de mal a pior.  Após cruzar o mar acorrentado ao porão de um navio feito negro escravo, forçaram-no de armas na mão contra selvagens canibais até que um ou outro caísse morto. Se alguma vilinha miserável a serviço de Vossa Majestade havia prosperado na costa daquele continente maldito, Gomes se julgava como um dos responsáveis. Preso por roubar, seu castigo foi assassinar e desde então não havia parado. Por isso, enquanto observava seu companheiro de mando, concluía que o sucesso na vila se tornava piada mata adentro.

Avistou os dois que esperavam. Excluída a batina, o jesuíta Diniz poderia muito bem se passar por um sertanista, dada a barba grisalha e desgrenhada que se avolumara sobre o rosto marcado de picadas de insetos. Um exame atento denunciava mais do que um clérigo perdido nas brenhas de um continente amaldiçoado. Gomes percebia naquele homem a astúcia maliciosa dos que sobreviviam e era por isso que, vendo o menino gentio atrás dele, uma cabeça mais alto e perceptivelmente mais forte, conseguia compreender porque o garoto obedecia sem questionar. Gomes distinguia o ódio do índio, mas, quando na presença do sacerdote, era o medo que sobressaía. O capitão se indagava como o padre reduziu um guerreiro a um capacho.

O que promoveu aquele encontro ocorrera algumas horas antes, quando brilhavam as últimas luzes do poente e os homens arrumavam suas redes. Uma das prisioneiras havia tirado uma lâmina tosca de algum lugar e cortado a garganta de uma companheira. Seus captores não tinham se importado em verificar qual era a relação entre as índias e tampouco se surpreenderiam se aquele assassinato se pretendesse como clemência. Não tiveram tempo de pensar em uma punição, pois acabaram tendo que proteger a assassina das outras mulheres, que se lançaram sobre ela gritando suas palavras ininteligíveis.

Os homens pediram uma explicação do índio e depois do choque o rapaz finalmente respondeu que se tratava apenas de xingamentos, o que satisfez a curiosidade supersticiosa dos demais. Mas Gomes viu que o menino mentia e soube que na presença do jesuíta falaria a verdade. Acertou. Diante dos dois capitães e do sacerdote, o garoto explicou que a mulher oferecera sacrifício a um demônio da floresta para que fossem vingadas. As outras sabiam que isso significava condená-los todos.

Essa história não prendeu Andrade por muito tempo, que saiu resmungando sobre barbarismo. O padre aproveitou para reclamar dos abusos contra as mulheres e Gomes o lembrou que aquela era, afinal, uma guerra justa, e que esta era a maneira de fornecer a mão-de-obra para o seu Colégio e para os colonos produzirem o trigo que os alimentava todos. Entre princípio e fim, os meios atravessavam as sombras da floresta e dos corações dos homens, assim era a guerra. Nem o padre e nem o capitão discutiram a legalidade desse artifício. Se precisavam da autorização da Coroa, não esperariam que esta cruzasse o mar.

Os rumos da conversa intrigaram o capitão, então perguntou ao moleque o que achava da guerra justa. Depois de um momento Martim respondeu que era justa se fosse contra infiéis e que os índios sabiam dever lealdade à coroa. Gomes achava que dessa vez o rapaz mentira melhor. Quando os dois saíram, deteve-os com um grito, lembrado de mais uma curiosidade. Recordava-se que, ao espancarem sua companheira homicida, as índias persistiram em gritar uma palavra. Gomes quis saber o que era.

Quase xingou para que o menino se adiantasse em responder, mas enfim teve a resposta. Tratava-se do nome do demônio. A palavra era Kuru’pir.

***

Vinha se firmando um entendimento mais arrazoado de que a natureza não era amaldiçoada ou diabólica e que nem tudo era monstros, mas apenas circunstâncias a serem dominadas por um conhecimento técnico. Apesar disso, a catástrofe da bandeira de Gomes e Andrade ensinaria aos seus homens que, em seu caso, a floresta estava mesmo tentando matá-los.

Os roçados que deixavam pelo caminho foram destruídos, havia pegadas por toda parte, até nas árvores, e segui-las não os levava a lugar algum. Mandavam um batedor em linha reta para oeste e ele aparecia pelo leste. As árvores fecharam um denso dossel acima de suas cabeças, escondendo o céu. Os homens que escalaram aquelas árvores não encontraram o topo e, descendo, não acharam o solo. Os que saltaram encontraram a morte no chão, os ossos espatifados como se tivessem se jogado de um penhasco. Os que ficaram agarrados foram abandonados enquanto pediam socorro. O pio da anhupoca, que anunciava o alvorecer, passou a ser ouvido a todo momento, sem que nunca encontrassem as aves. Não se sabia mais se era dia ou noite.

As doenças vieram ao mesmo tempo em que insetos e aranhas começaram a cair sobre eles como uma chuva. Os gentios prisioneiros ou sumiam ou morriam e a essa altura nenhum homem se importava com nada que não fosse o salve-se quem puder. Quando foi a vez de morrer do capitão Andrade, seu pedido pelo último sacramento não foi concedido, pois ao iniciar as palavras derradeiras o jesuíta Diniz se engasgou com um besouro. Aquele capitão deu seu último suspiro aos delírios, implorando que alguém anotasse seu testamento, mas havia pum ou outro que soubesse escrever e ninguém tinha papel. O maior choque daquele momento foi o choro inconsolável do capitão Gomes, quem pensavam odiar o morto.

Apenas três sobraram. O capitão já desistira de escapar e vingança era tudo o que queria. Perseguia as pistas irascível. As pegadas se iluminavam no solo como se abrasadas, uma a uma. Seguindo aqueles sinais, o capitão Gomes sumiu para sempre na floresta. O jesuíta Diniz gritava para que o capitão desistisse de sua busca, distraído e assustado demais para se defender do golpe com o qual Martim cortou os seus calcanhares.

Para Martim, o Carijó, a libertação era sua última aposta. Pegou pelos cabelos o homenzinho, a batina que o escravizara pela maior parte da vida, e posicionou o gume na sua garganta. Achava que se esquecera, mas seu guarani saiu inconfundível.

Kuru’pir! Uma alma te trouxe aqui. Ofereço outra para me deixar sair!

O jesuíta Diniz em nenhum momento implorou, mas não cessou de amaldiçoar. Aos diabos entregou Martim e Joana, pois algoz e vítima ambos sabiam que esta era a verdadeira razão de estar ali. O padre compreendia que aquela garota e seus olhos sonhadores eram o mais próximo de liberdade que o jovem Carijó experimentara. E o pároco jamais poderia permitir. O que o jesuíta entendia era que aquele índio era seu.

O misterioso piado da anhupoca teve o seu dono revelado. Nas sombras da floresta avistaram um bruxulear, uma chama dançante coroava um par de olhos faiscantes. O que o jesuíta não conseguia distinguir, mas também do que não conseguia desviar o olhar, era para Martim uma figura conhecida, ouvida por ele dos anciões de quem vira a morte pela espada colonial. A fogueira que constituía a cabeleira do Kuru’pir era a coroa que ele crescera temendo. A verdadeira Majestade daquele lugar.

E com aquele rei das florestas Martim desejava negociar.

***

Sem o céu, media o tempo com o seu próprio corpo. Sua pele enrugara, seu corpo estava esquelético, poucos dentes sobravam e as raízes dos cabelos tinham recuado até expor uma cabeça calva. Nunca em sua perdição encontrou comida que não carniça ou águas que não empesteadas. Reduzido a um abutre das matas, comeu e bebeu. Ele sabia que jamais morreria. Uma miséria atrás da outra era tudo o que conhecia e se houve algo antes disso, antes da última bandeira, ele não se lembrava.

Um dia acordou com uma suçuarana o cheirando, o animal fugiu assim que despertou. Como outros predadores, o rejeitou. O abutre deu atenção a algo verdadeiramente inédito: os raios dourados de um sol esquecido. Seguir a luz o levou para fora da mata. Ele, um arremedo do homem, as articulações quebradiças e cobertas de estilhaços de madeira, musgo verde crescendo entre dentes e nos cantos dos olhos… ergueu os bracinhos para se proteger da luminosidade, mas os baixou assim que a viu. Não se lembrou de tudo, mesmo a reconhecendo. Metros adiante, de frente para os limites da floresta e do monstro que acabara de pisar os pés fora dela, estava Joana. Um rapaz parou ao lado dela, acolhendo-a em um abraço protetor. O abutre o reconheceu também, aquele lá era Martim.

E se ele não fosse? E se ficasse para trás, ficasse com ela? Sonho e pesadelo se olharam. Martim olhou para Martim, deu meia volta e foi embora.

45 comentários em “Ele não sabia quem era sonho e quem era pesadelo (Galo)

  1. opedropaulo
    13 de outubro de 2021

    O tal comentário ao qual fiz prévias em várias respostas aqui, tal qual publicado no grupo do Facebook, para, quem sabe, futuros leitores e tal:

    Oi, pessoal! Em outros desafios havia uma publicação que reunia os ‘bastidores”, mas neste os autores publicaram individualmente para falar dos seus contos. Farei o mesmo SOBRE “ELE NÃO SABIA QUEM ERA SONHO E QUEM ERA PESADELO”. Respondi aos comentários individualmente e em mais de um disse que escreveria um comentário à parte sobre alguns pontos que foram tocados por mais de um entrecontista. Então, a quem interessar vai alguns pontos, especialmente sobre a proposta do conto e sobre a questão do tema, abordada por muitos.

    O CONTO E O FINAL: Bom, em primeiro lugar o conto veio de uma ideia antiga que era simplesmente um grupo de sertanistas lutando pela sobrevivência em uma floresta que é a palma da mão do Curupira. A princípio, eu pensei neste texto para participar do desafio do EntreMundos, que tinha entre os temas “monstros” e “realidades alternativas”. Eu queria escrever algo que abraçasse mais de um tema, então pensei que, por um lado, o Curupira preenchia a cota de monstruosidade (e os sertanistas também, certamente) e, por outro e aí veio a novidade, resolvi incluir o final ambíguo. De qual Martim eu estaria falando quando escrevo que ele dá as costas e vai embora? O que reencontra a sua amada, sonho, ou o que nunca mais vê a luz para além da mata, pesadelo? Seria o elemento de “realidades alternativas”, tanto uma ambiguidade intencional como um aproveitamento dos plenos poderes que dou ao Curupira e a sua floresta que extrapola realidades. Pesquisando, eu perdi o prazo do EntreMundos. Ainda bem, pois então me sobrou tempo para escrever e reescrever com o esmero que deu nesse texto. Mesmo com os defeitos e com muito do pesquisado não tendo influído diretamente no conto, deve ser a melhor coisa que já escrevi e fiquei satisfeito como resultado e com a satisfação!

    O TEMA E A RELAÇÃO ENTRE OS SERTANISTAS E A CONTRAVENÇÃO DA LEI: Veja, nesse ponto eu preciso primeiro assumir que, sim, o texto não transmite com clareza ou muito desenvolvimento o que vou argumentar abaixo, exceto por um trecho que recortarei mais adiante. Além disso, aqui o teor dessa exposição fica mais histórico do que literário, embora eu vá aproximar a discussão para o meu conto.

    Alguns entrecontistas argumentaram que a ação sertanista de escravizar indígenas compunha a normalidade da colonização e que, portanto, minha intenção teria sido de propor o apresamento do nativo como um “crime humano”, mas essa suposta unidimensionalidade da escravização indígena não é bem verdade e, tampouco, foi minha intenção enquadrar uma situação de 450 anos atrás no viés dos recentíssimos direitos humanos.

    Durante a colonização, a relação do colono com o indígena foi multifacetada em diversos ângulos, inclusive o jurídico. Entre os fins do século XVI e o início do XVII, mais de uma legislação foi emitida, indo e voltando atrás, para dar condições para o apresamento e o extermínio dos povos nativos (tendo havido um breve período que todos os indígenas foram reconhecidos como inatamente livres!). Isso porque nunca foi fácil se associar ao indígena com uma relação trabalhista, fosse pela escravização, dado que era mais fácil ao nativo opor resistência com fuga e guerra, fosse por algum tipo de trabalho livre, já que a lógica mercantilista não fazia sentido algum para os interesses dos indígenas em suas organizações. Além disso, a justificativa moral da colonização era a catequese dos “inocentes” da América, e jamais poder-se-ia escravizar outros cristãos, o que colocava mais um impeditivo. Com a integração do mercado de almas na África, a escravização do indígena ainda ocorria, mas em segundo plano, predominantemente em outras atividades econômicas e, muitas vezes, de forma ilegal. Nas leis outorgadas, parte das condições que permitiam a escravização do indígena era a guerra justa e a permissão expressa da Coroa.

    Agora, no tocante aos sertanistas, como eu argumentei acima, a ação bandeirante não era sempre declaradamente encaminhada a escravizar o nativo. Na verdade, a justificativa oficial era muitas vezes algo que era muito importante para a Coroa: a procura por pedras preciosas que os vizinhos espanhóis não demoraram a encontrar no outro lado da América. Então muitas vezes, omitindo suas reais intenções e partindo para procurar ouro, prata ou diamantes, o sertanista na verdade procurava apresar o indígena à revelia da Coroa e, portanto, da lei. No conto, há o trecho em que Gomes e Diniz conversam a respeito, onde escrevi: “Gomes o lembrou que aquela era, afinal, uma guerra justa, e que esta era a maneira de fornecer a mão-de-obra para o seu Colégio e para os colonos produzirem o trigo que os alimentava todos (…) Nem o padre e nem o capitão discutiram a legalidade desse artifício. Se precisavam da autorização da Coroa, não esperariam que esta cruzasse o mar.” Muitas dessas guerras só chegaram a conhecimento da Coroa após já terem sido declaradas, lutadas e vencidas.

    Ligação fraca? Admito que sim, mas fiz essa exposição para mostrar que houve sim uma tentativa de encaixar o conto no tema via contexto e que minha intenção não foi pelo viés do direito humano, o que realmente seria anacrônico. Ademais, assim que a moderação liberar terão os comentários individuais tocando em outros pontos, para quem queira conferir.

    Obrigado a todos pela participação, pelos contos, pelas leituras e parabéns pelas classificações. O sexto lugar em nada me perturbou quando vi acima e abaixo do meu contos de que gostei bastante. Abraços!

  2. Bruno Raposa
    9 de outubro de 2021

    Olá, Galo.

    Numa vã tentativa de ser mais objetivo, resolvi, para este desafio, pegar emprestado o modelo de comentários do EntreMundos. Então vou dividir meu comentário em ambientação, enredo, escrita e considerações gerais.

    A eles.

    Ambientação: Boa. Havia muitos elementos para equilibrar: o contexto histórico, a descrição da floresta, a inserção do aspecto sobrenatural. E você o fez com muita habilidade. Porém, o excesso de acontecimentos da trama dificulta a criação da atmosfera do conto. É difícil saber exatamente o que sentir, para quem torcer, que rumo a história pretende tomar. Assim, fica tudo meio “solto”, prejudica o engajamento na narrativa, cria-se um distanciamento. Não faltaram boas descrições do ambiente, mas o envolvimento do leitor fica um pouco prejudicado por essas questões, que também fazem parte da ambientação como um todo. Falta uma maior unidade.

    Enredo: Como já dito, sofre com o excesso de acontecimentos. São muitas tramas e personagens se aglomerando em pouco espaço. Assim, não há lugar para aprofundamento. O que é uma pena, porque todos os elementos me geraram interesse: o conflito entre os capitães, a relação do jesuíta com o índio, a história pregressa desses personagens, a história da bandeira em si, a aparição do curupira de uma forma mais séria e aterradora da que estamos acostumados. Eu leria um conto sobre cada uma dessas histórias individualmente. Ou um romance costurando todas. Porém, espremidas num conto de 2.500 palavras, elas acabam mais competindo do que colaborando. Também achei a trama envolvendo a paixão de Martim e Joana a mais fraca dentre as que aparecem, e é justamente a que serve de motivação para o desfecho do conto. Desfecho que, confesso, não entendi muito bem, rs.

    Mas aqui vem o plot twist: apesar disso tudo, eu gostei do enredo, rs. Reconheço os problemas, mas gosto de contos que resgatam contextos históricos. E há muito aqui para se gostar: os personagens, ainda que apenas pincelados, são interessantes; o uso do nosso folclore nesse contexto de terror ainda é algo pouco explorado, e é satisfatório ver por aqui; o conto é bastante visual e as descrições da bandeira, incluindo o ataque, são muito boas. Então, pessoalmente, o texto falou comigo.

    Escrita: Muito boa, ainda que um pouco carregada. Há um claro domínio narrativo aliado a um bom vocabulário. Mas sinto que, em alguns momentos, na tentativa de embelezar, o autor pesa a mão. Por exemplo:

    “Era um dia sereno em que nada apontava para carnificina.” – É uma frase bonita, entendo o valor poético, mas não faz muito sentido. Nenhum dia aponta para carnificina. Tendo em vista que o parágrafo inteiro que vem a seguir já é carregado de lirismo, acho essa frase dispensável.

    Em alguns pontos esse pendor lírico torna a leitura cansativa. Não digo que seja um recurso do qual o autor deva abrir mão. Ao contrário, é um ponto positivo. Apenas entendo que poderia ser um pouco mais dosado.

    Considerações gerais: É um conto que peca pelo excesso de tramas e tem uma escrita um pouco pesada, o que talvez afaste alguns. Mas há muitos méritos também. Eu valorizo o resgate histórico e o uso do nosso folclore. O tema do desafio, porém, aparece de maneira muito pálida. Há muitas histórias de crimes cometidos por bandeirantes, mesmo que se leve em conta o contexto da época, mas aqui eles não ganham destaque. Há muito pouco de fora da lei aqui, e, quando o elemento sobrenatural aparece, o resto se torna irrelevante. Então, dentro do desafio, o conto acaba perdendo força.

    Desejo sorte no certame.

    Abraço.

    • opedropaulo
      13 de outubro de 2021

      Oi, Bruno. Infelizmente, não sei se chegará a ler a minha resposta.

      Mas bem, quanto à questão temática, repito que tratarei noutro comentário, mais precisamente no próximo. Já quanto ao texto trazer muita história para 2.500 palavras, o senhor sabe mais do que ninguém que originalmente seria para 3.000 palavras!!

      E eu ainda teria bastante dificuldades.

      Obrigado pelo comentário e pelos desafios, meu caro.

    • opedropaulo
      13 de outubro de 2021

      Ah! Acrescento aqui como é audacioso que me critique no tema, pois eu não teria feito a ligação entre bandeirantes e foras-da-lei se não tivesse exemplificado em sua sugestão ao montar o certame. Mass, ao mesmo tempo, acho que há forte ligação, o que procurarei evidenciar em breve.

      A grande falha foi na execução, o que eu acho que conseguiria garantir com mais espaço, embora não fosse o meu foco.

  3. Priscila Pereira
    8 de outubro de 2021

    Olá, Galo!

    Ambientação: boa, da pra visualizar a mata, os índios, os bandeirantes e tudo o mais.

    Enredo: meio confuso, não entendi bem o último parágrafo… Talvez pelo pouco conhecimento que tenho da lenda do curupira…

    Escrita: boa, mas meio arrastada, o texto não fluiu muito bem e eu queria desistir da leitura no meio, mas li tudinho.

    Considerações gerais: Bem, é um bom conto, que mistura a lenda do curupira com o massacre dos índios, mas querendo contar uma história grande em um limite estreito, não aprofundou nos personagens, o que deixou a história rasa e sem impacto.

    Boa sorte!
    Até mais!

    • opedropaulo
      13 de outubro de 2021

      Oi, Priscila.

      Confesso não saber muito mais do Curupira para além do essencial, o que espero preencher com futuras leituras em manuais folclóricos como aquele citado pelo Ângelo, mas, eu tenho convicção de que extrapolei bastante as potencialidades do Curupira, o que espero fazer novamente em outras histórias. Tenho esses pés virados como uma personagem com muito para aproveitar!

      Agradeço pelo comentário e lamento que não tenha sido uma leitura agradável.

  4. Felipe Lomar
    4 de outubro de 2021

    Oi, José de Alencar! Hahahaha brincadeiras a parte, o conto realmente lembra muito as histórias de “bons selvagens” do século 19. A história, por mais que as vezes seja “contada” demais e acabe tendo um ritmo um pouco mais lento depois do primeiro ato, é muito boa e densa em significados. Interessante a dualidade do índio, gerada justamente por esse resgate do indianismo. Ao mesmo tempo que é puro ante à corrupção dos europeus, ele tem a liberdade e o instinto de um bicho da selva, que lhe faz ir embora da batalha ao ponderar sobre seu amor. Sendo assim um arquétipo ao mesmo tempo humano e selvagem.

    • opedropaulo
      13 de outubro de 2021

      Oi, Felipe.

      Veja, eu sei o que senhor está brincando, mas confesso que essa comparação com o José de Alencar, bem como o comentário em si, chateou-me um pouco. Do Alencar li apenas “Iracema”, mas sei que em seu indianismo romântico o autor escreveu pelo menos mais dois romances com protagonistas indígenas.

      Bom, deixe-me explicar exatamente o que me chateia. Alencar é um nome daquele idealismo tipicamente oitocentista do qual não penso ter me aproximado em nenhuma instância. A única semelhança seria temática e não acho que um conto, uma novela ou um romance que tenham indígenas como protagonistas façam da história necessariamente “indianista” – o que vou acolher como categoria referente exclusivamente às abordagens do tipo do Alencar. Até porque, os indígenas não viveram apenas em um contexto colonial, mas vivem – e lutam, isso não mudou – até o tempo presente.

      Além disso, não vejo o “bom selvagem” em nenhum lugar do meu conto. Sei que eu trouxe apenas uma perspectiva indígena, mas é a de um personagem em conflito consigo mesmo e com o lugar que ocupa na sociedade brutal na qual vive. Os nativos apresados também mostram nuances quando uma escolhe pelo sacrifício de outra e os demais tentam impedir preferindo a sobrevivência naquelas condições à morte nas mãos do Curupira… São pessoas que, afastadas de suas vidas e impelidas à fuga, se veem entremeio a novas violências e têm que fazer suas escolhas… Escrevi essas pessoas para terem facetas, sim, mas de modo algum entre “bichos da selva” e “puros”.

      Agradeço pelo comentário.

  5. Emanuel Maurin
    4 de outubro de 2021

    Eu sempre achei que os bandeirantes eram bandidos da pior estirpe, então o conto está dentro do tema. A leitura flui, não encontrei erros, gosto das imagens e da estrutura. Sei que o autor teve certo trabalho pra pesquisar e por isso o resultado final ficou legal. Boa sorte

    • opedropaulo
      13 de outubro de 2021

      Oi, Emanuel!

      Hahaha, amei a sua firmeza quanto ao tema. Obrigado pelo comentário!

  6. Elisa Ribeiro
    29 de setembro de 2021

    Um conto com contexto histórico que a meu ver abordou o tema por um viés anacrônico: jesuítas e bandeirantes como malfeitores no Brasil colonial. Não deixa de ser uma abordagem interessante, embora controversa.

    Indo direto ao ponto, seu conto me pareceu uma espécie de condensado de algo maior. Talvez um conto mais longo, uma novela ou até mesmo um romance comportassem de forma mais adequada o enredo que você narra. Há muito personagens e intercorrências além de contexto e ambientação para uma história tão curta de modo que o efeito, ao menos para essa leitora, foi o de uma abordagem superficial, sobretudo dos conflitos dos personagens. Soma-se a isso parágrafos longos, bem escritos até, embora um pouco pomposos, e tem-se um conto definitivamente com sotaque de romance.

    A escrita é segura em termos gramaticais, a única coisa que observei foram alguns probleminhas na harmonização verbal nada comprometedores.

    Finalizo ressaltando o acerto na focalização em um contexto histórico e parabenizando pelo esmero na pesquisa, que transparece ao longo de toda narrativa.

    Parabéns pelo trabalho. Desejo sorte no desafio e em tudo mais. Um abraço.

    • opedropaulo
      13 de outubro de 2021

      Oi, Elisa! Muito obrigado pelo comentário.

      Antes do seu comentário e do Ângelo acho que nunca fui chamado de pomposo, embora uma vez tenha tido um comentário doloroso que chamou atenção para o meu texto começar com “uma frase de efeito que não tem efeito”. Acho que me saí melhor aqui.

  7. opedropaulo
    28 de setembro de 2021

    Cheguei, enfim, ao tal conto colonial do qual falava Thiago!

    Olha, achei uma abordagem revigorante para o tema, tentando trabalhar a temática do certame ao recuar alguns séculos na nossa história e explorar um assunto que nem sempre é lembrado, que é a escravização do indígena. Cheio de trechos poéticos, apesar do contexto brutal que retrata, o texto tem dificuldade de conciliar seus vários personagens, apresentando-os só na superfície. Se a essas personagens falta mais profundidade, é verdade que os conflitos entre eles e seus lugares na narrativa ficam claros, a adição do elemento folclórico servindo bem para mexer com a balança que foi apresentada no início do texto, em que a violência dos colonos até então prosperava. Apesar da abordagem até então inédita no desafio, vou dizer que tive dificuldade de enxergar como o tema de fora-da-lei é relacionado aqui. É mencionado que um dos personagens era um criminoso, sim, mas os sertanistas agiam dentro dos ditames da ordem colonial, então nesse ponto o conto perde um pouco diante dos demais, apesar de inventivo e bem redigido.

  8. Antonio Stegues Batista
    27 de setembro de 2021

    O Conto tem um enredo baseado nos sertanistas do período colonial que penetravam nas matas em buscas de metais preciosos e indígenas para escravizar. A narrativa é cheia de detalhes, alguns dispensáveis que não fazem falta na trama, como é o caso da animosidade entre dois bandeirantes que não leva a lugar nenhum. Martim é um índio civilizado que se tornou guia dos bandeirantes, também culpado pelo genocídio. Há uma história interessante entre ele e Joana, que foi resumida. O conto tem material para um romance. Ou é um texto maior que foi resumido? Há trechos embolados de informações e pouco explicados. Ali tem drama, aventura e sobrenatural. É um enredo nebuloso que precisa de claridade. De qualquer forma é uma boa ideia.

    • opedropaulo
      13 de outubro de 2021

      Oi, Antônio!

      Eu defendo um pouco o espaço que dei à animosidade entre jesuítas. Foi uma forma de discutir o contexto, expondo a colonização em duas pontas: uma de justificativa religiosa e outra de justificativa pragmática, ambas unidas pelo fio da violência. Além disso, há o trecho em que Gomes chora a morte do seu companheiro de liderança. Antes investi um tanto em enfatizar as desavenças entre os dois, mas nesse momento tentei, acredito que fracassadamente, mostrar que o choro de Gomes era não por gostar daquele sujeito, mas por acreditar que a única forma de fugir das garras florestais do Curupira seria por meio da fé e um dos homens de fé morrera sem testamento ou extrema unção. Eu sei que foi uma tentativa bem no vazio, mas era meio querendo afirmar que nem Deus chegava ali.

      Enfim, obrigado pelo comentário!

  9. Andre Brizola
    27 de setembro de 2021

    Olá, Galo!

    Conto muito bem escrito. Muito bem escrito, de fato. Existiu, no momento de sua concepção, um cuidado muito grande em criar passagens bonitas, poéticas até, mas que conseguissem refletir toda a crueza e barbárie de nosso período colonial, a quase total erradicação dos brasileiros nativos e a danosa inserção do cristianismo à força.

    Achei interessante trazer para o contexto a figura folclórica do Curupira. Mas não aquele que é retratado nas aulas do primário, protetor dos animais e das florestas. Não, o que vemos aqui é um espírito, um diabo que faz pactos e causa distúrbios que beiram a loucura.

    Pra mim, o grande mérito do conto é a descrição do período, através de cenas e eventos. Toda a relação entre homens da fé e os guerreiros do mato, a busca e violência com os índios. É um conto tenso, pois coloca o leitor frente à uma realidade dura, horrível, mas que é geradora da condição atual do brasileiro.

    Mas há um senão a apontar. Não entendi qual é a relação do conto com o tema do desafio. Os bandeirantes estão dentro de suas próprias leis. Martin, personagem que é a ferramenta pela qual temos acesso aos eventos, pode ser encarado como um fora da lei no momento em que demonstra querer negociar com o curupira, embora seja uma relação muito tênue com o tema, de fato. Talvez a índia que fez o pacto com o diabo, a ponto de enfurecer suas colegas? Não sei, realmente. Achei que a relação do conto com o tema não existiu.

    Bom, é isso. Boa sorte no desafio!

    • opedropaulo
      13 de outubro de 2021

      Oi, André!

      Muito obrigado pelas observações do que achou de positivo no texto. São pontos em que realmente me esforcei! Sobre a questão temática, escreverei em um comentário à parte.

      Abraços.

  10. Jowilton Amaral da Costa
    26 de setembro de 2021

    Ambientação: Muito boa. O linguajar e algumas palavras da época nos joga diretamente dentro de um Brasil antigo.

    Enredo: O enredo é bom, no entanto é um texto difícil de ler, a imersão é feita através de muita concentração, para não deixar passar os pormenores da história e acabar se perdendo na leitura. Como disse com relação a ambientação, somos jogados diretamente neste Brasil antigo e dentro da história contada sem nenhuma preparação que nos situe e nos prepare, e isso, ao meu ver, foi o que mais me dificultou na leitura, mesmo sabendo que foi feita propositadamente. Acho que poderia usar este conto como um capítulo, talvez o último, num romance ou novela, que conte a história de Martim desde o início. O conteúdo é interessantíssimo e pede muito mais palavras, talvez assim, deixando a narrativa um pouco mais leve, sem que perca a contundência.

    Técnica: Achei a técnica boa e a linguagem usada foi bastante adequada para a época em que se passa a história.

    Considerações gerais: Um bom conto Histórico.

    • opedropaulo
      13 de outubro de 2021

      Oi, Jowilton!

      Concordo que o texto é denso em enredo e escrita, carecendo de mais espaço, mas não sei se eu me esforçaria por dar mais contornos específicos ao contexto. Isto é, não faria uma introdução a la Star Wars com: “EM 1578, EM UMA TERRA TRANSATLÂNTICA BEM DISTANTE, OS SERTANISTAS FAZEM MAIS UMA INVESTIDA CONTRA (..)”.

      Sei que não foi bem o que quis dizer, mas comecei a achar graça do que seria um pergaminho subindo com letrinhas dando uma introdução ao contexto da história. Enfim, agradeço pelo comentário!

  11. misapulhes
    25 de setembro de 2021

    Olá, Galo.

    Resumo: em meio a incursões bandeirantes de jesuítas no Brasil, a história de dois capitães, um nativo, sua amada, e outras circunstâncias mais.

    Comentários: o conto tem inúmeras qualidades já ressaltadas pelos colegas entrecontistas. O conhecimento histórico, a pesquisa, a interpolação duma história interessantíssima no meio desse contexto todo, o uso do folclore de forma meio “fantástica”, o domínio do tipo de linguagem escolhida, e algumas frases magistrais como “A primeira missa daquele lado da América ferida certamente se pareceu mais com esta chacina em que estava”.

    Eu, como leitor e “escritor” amadoríssimo tenho até medo de fazer, a partir de então, algumas importantes ressalvas. Mas é como me saiu a leitura: apesar dos indiscutíveis méritos apontados, a minha sensação ao ler não foi das melhores e tento justificar:

    1) É um texto muito longo. O mal não é ter palavras demais, mas que, dado o estilo detalhista de relato histórico, a história vai se tornando pesada.

    2) Paradoxalmente, é um texto muito curto. Quero dizer com isso, o que espero complementar o ponto acima, que me soa como se a história necessitasse de mais espaço, mais respiro, mais cadência. Talvez o tema seja interessante demais para 2.500 palavras. Uma noveleta ou novela abarcaria melhor o que há aí.

    3) Falta de foco. São muitas histórias, são muitos detalhes, há muitos “protagonistas”. Reforço o item ‘2’: tamanhos detalhes contextuais, tão interessantes personagens e conflitos praticamente demandam mais espaço, tempo. Talvez a coisa tenha se mostrado tão arrebatadora na mente do autor que, tendo só as 2.500 palavras, resolveu colocar tudo ali. De forma que ficamos querendo saber mais sobre muitas coisas, mas não há espaço para elas, e acabam, então, aparecendo sem o devido foco. O exemplo mais claro talvez seja justamente o do romance de Martim com Joana.

    De modo que minha conclusão, enquanto lia, e ao término da leitura, foi a de que tudo tinha sido exposto tão rápido e tão aos montes, que foi impossível mergulhar no enredo.

    O que, claro, não elimina os méritos já apontados.

    Parabéns! E muito boa sorte do desafio!!

    • opedropaulo
      13 de outubro de 2021

      Oi, Pulhes!

      Veja, é comum que, nesta tarefa de responder comentário a comentário eu vá me cansando, especialmente por responder pontos comuns entre os comentários. De fato, acabou pontuando alguns dos elementos já abordados. Neste caso em específico, concordo com todos, com a história ser densa em sua escrita e em seu enredo.

      O que vou salientar aqui é a sua menção ao trecho da primeira missa. Cara, essa primeira parte do texto é algo de que realmente me orgulho de ter escrito. Lembro de ter acabado e pensado que, se quisesse, poderia fazer alguns poucos ajustes e deixar de fora toda a maldição do Curupira e tudo o mais, encerrando ali. Mas sobre o trecho da missa, ele foi escrito como uma contraposição proposital à obra do artista Victor Meirelles: “Primeira Missa no Brasil”. A reflexão de Martim do que “não seria” a primeira cerimônia católica naquele lado da América é praticamente uma descrição do quadro.

      Agradeço pelo comentário.

  12. Fabio D'Oliveira
    25 de setembro de 2021

    Buenas, Galo!

    Nesse desafio, irei avaliar três fatores: aparência, essência e considerações pessoais.

    O que ele veste, o que ele comunica e o que eu vejo.

    É uma visão particular, claro, mas procuro ser sincero e objetivo. E o intuito é tentar entender o texto em sua totalidade, mesmo falhando miseravelmente, hahaha.

    Vamos lá!

    APARÊNCIA

    Eu fiquei impressionado com a qualidade da narrativa.

    Ela é rebuscada, mas também é clara, mas que não se perde nos próprios floreios. Continua precisando de uma leitura mais cuidadosa e pausada, mas isso é inevitável num texto desse naipe.

    Isso é uma grande virtude, no meu ponto de vista.

    O estilo contado, dentro da narrativa escolhida, não ficou ruim, mas criou, naturalmente, um espaçamento entre enredo e leitor. Apreciamos a leitura, em sua forma, mas não existe uma imersão profunda. Se a história é o corpo de um conto, o personagem é a alma. Como vamos torcer pelo relacionamento de Martim e Joana se, afinal das contas, só temos uma breve menção do que ela significa para ele?

    Acredito que mantendo o foco num único personagem, como Martim, poderia ter expandido a relação do leitor com o texto. Desenvolver quatro personagens num conto, ainda mais no espaço limitado que temos, acaba deixando tudo meio acabado. Aprendi isso da pior maneira, hahaha.

    ESSÊNCIA

    Esse é o primeiro conto que fiquei em dúvida quanto ao tema.

    Quando falamos sobre as leis, não estamos nos referindo ao certo e errado, à moral e ética, mas sim das regras de uma sociedade.

    O elemento mais próximo do tema são os carijós em fuga. Eles estavam quebrando uma regra dos colonizadores. Por isso estavam sendo caçados. Mas o foco do conto é o índio evangelizado e o grupo de bandeirantes. Isso acaba deixando o tema do certame no plano de fundo, quase inexistente.

    Eu fiquei pensando no seguinte: se Kuru’pir tivesse aparecido sem nenhum sacrifício, apenas atrás de Martim, por ele ter quebrado as leis daquelas terras, tendo ajudado no massacre de seu próprio povo, estaria completamente dentro do tema. Mas Kuru’pir pune todos, inclusive os carijós. Fiquei com a sensação de que era um demônio estúpido, ao invés de ser justo e digno da coroa que carrega.

    A história é muito boa. Eu gostei. Mas o tema ficou muito diluído e fora de foco.

    CONSIDERAÇÕES PESSOAIS

    O conto é excelente, mas um pouco fora do tema, pra mim. É um risco quando criamos muitos focos e personagens. Nesse vaivém, o leitor se perde, pois como o espaço é pequeno, tudo é desenvolvido de forma apressada (vide a mudança do ritmo depois da primeira menção de Kuru’pir).

    Parabéns pelo trabalho, Galo!

    • opedropaulo
      13 de outubro de 2021

      Oi, Fábio!

      Desde o seu comentário em “Voz”, da Liga em 2018, aguardo os seus comentários. Você escrever muito bem também aumenta essa ansiedade, embora não veja com rivalidade. Fico feliz que tenha gostado da forma com que escrevi, em que, para além da pesquisa histórica já abordada em outras respostas, indiquei uma referência literária que foi influente, ao responder o Ângelo.

      Quanto à questão temática, escreverei mais a respeito em um comentário à parte, mas discordo um pouco da sua perspectiva quanto ao Curupira, apesar de concordar que é um pouco insatisfatório que os nativos que o veneram e convocaram também sejam punidos. Acho que não tive espaço para desenvolver mais essa parte, o que pode ser lido como contribuição para o mistério em torno dessa figura mítica, mas, também, esvazia a complexidade dessa relação… Acho que se eu pudesse desenvolver mais, porém, cuidaria de mostrar que os povos nativos mais temeriam do que cultuariam essa figura (na minha versão, é claro). Seria como André pontuou: um demônio com que se faz contratos, uma soberania mística da mata.

      Agradeço pelo comentário!

  13. claudiaangst
    24 de setembro de 2021

    De acordo com o meu ponto de vista, o conto abordou o tema proposto pelo desafio.
    Nota-se admirável trabalho de pesquisa no qual ser baseia o enredo. O toque diferencial foi incluir uma figura do nosso folclore: Curupira. E como defensor da floresta, não devia estar nada satisfeito com Martin.
    Há alguns detalhes que escaparam da revisão, mas nada que turve o texto. No geral, é um conto muito bem escrito.
    A narrativa é cheia de referências e carrega uma densidade que torna a leitura nem sempre fácil. Tive a impressão de que o texto alongou-se além dos (meus) limites.
    O ritmo é lento e cuidadoso, o que talvez seja causa da pouca fluidez.
    O último parágrafo trouxe um tom dúbio que funcionou bem dando impacto ao desfecho.
    Parabéns pela participação e boa sorte no desafio.

    • opedropaulo
      13 de outubro de 2021

      Oi, Cláudia!

      O desacordo temático foi mais comum entre os leitores, então fico feliz que tenha me favorecido nesse ponto. Agradeço pelas impressões em seu comentário.

  14. Jorge Santos
    22 de setembro de 2021

    Olá. Enquanto português e pertencendo à família Andrade, não podia deixar de sentir algum desconforto ao ler este texto. Tenho duas certezas: nenhum povo colonizador foi inocente e o Portugal de agora já expurgou a sua culpa há muito tempo. Quanto ao texto, pareceu-me ser uma reconstituição bem feita, mas que não dá espaço para que o leitor se ligue à história. Neste tipo de textos, que gosto bastante de fazer, prefiro sempre contar a história do ponto de vista de uma personagem e evitando fazer uma mera lista de aconteximentos. Foi isto que senti ao ler o texto, que tinha um grande potencial.

    • opedropaulo
      13 de outubro de 2021

      Olá, Jorge!

      Poxa, eu não concordo que o texto seja uma lista de acontecimentos. Penso ter dado alguma personalidade aos personagens, pelo menos o bastante para não resumir a leitura ao que é feito e ao que acontece. Mas, de todo modo, agradeço pelo comentário!

      Concordo, com certeza, de que não há inocência em qualquer que seja a colonização. Acredita que há uns broncos que acreditam piamente que uma colonização inglesa ou holandesa nos teria “elevado”? Pois é!

  15. Angelo Rodrigues
    20 de setembro de 2021

    18 – Ele não sabia quem era sonho e quem era pesadelo

    Conto muito bem escrito, de boa construção e pesquisa histórica.
    Gostei do conto, embora a leitura não seja simples e rápida. Exige um pouco de paciência na compreensão.
    Creio que represente uma ficção histórica com viés folclórico. Não ficou mal, talvez faltando um pouco mais de simplicidade narrativa quando se arrasta em muitas construções um tanto ou quanto pomposas. Entendo que, sendo histórico, de época (que não é explicitada, estendendo-se o período colonial por alguns séculos), o conto tomou um rumo formal. Não creio que precisasse, embora isso não tire o brilho da história.
    Curupira, que representa um dos mais espetaculares entes das florestas brasileiras, poderia dar um pouco mais de brilho ao texto, entretanto, sua figura, por excelência espantosa, com seus pés virados, sua cabeleira vermelha e corpo de anão, poderia ter sido mais explorada. Figura de muitas possibilidades.
    Numa pesquisa rápida no Dicionário do Folclores Brasileiro, de Luis da Camara Cascudo, descobri que o Estado de São Paulo, pela lei de 11 de setembro de 1970, institui o Curupira como símbolo estadual do guardião das florestas e dos animais que nelas vivem. Legal isso, um diabo guardando as florestas de São Paulo. Parece que não deu muito certo para as matas…
    Conto legal de ler, com possíveis sólidas referências (não conferi), dando a ele um ar de “relato histórico” das bobagens que se fez por aqui por muitos anos.
    A estátua de Borba Gato lambendo em incêndio recente, dá o tom do desejo e da posição do autor.
    A única coisa que lamento (embora irrelevante na avaliação) é a explicita ausência de um fora da lei. Nos anos das bandeiras, nenhuma atrocidade cometida poderia ser vista como tal. Matar era do jogo, roubar também. Eram criminosos, de modo geral todos, de padres a indígenas “convertidos”, cometendo crimes numa terra de poucas leis. O Império era a Ganância, e com ela tudo que nela coubesse.
    Parabéns e boa sorte no desafio.

    • opedropaulo
      13 de outubro de 2021

      Oi, Ângelo!

      A escrita carregada já foi referida por outros leitores como uma tentativa de ambientar, mas sabe que não foi? Acho que foi uma tentativa de emular o Comarc McCarthy em “Meridiano de Sangue”. Essa obra dele – a única que li do autor – em si já tem um segundo título, provisório, mas eu daria um terceiro, que é “Mil formas de descrever um deserto”. McCarthy também não poupa uma escrita embelezada mesmo na descrição de atrocidades e violências que permeiam toda a leitura. Foi mais ou menos essa a intenção: dar um peso imagético à história.

      Quanto ao Curupira símbolo paulista, devolvo com outro fato anedótico de nossa memória pública, que reencontrei enquanto procurava o texto do Napolitano que linkei na resposta a Luciana Merley. No Rio de Janeiro tem a Praça Tiradentes, em que se ergue uma pomposa estátua de D. Pedro I, neto da autoridade que legitimou a execução brutal do inconfidente. Num ensaio, Napolitano explora as reações a essa contradição, que acho pelo menos engraçada, não? Uma praça homenageando um republicano ostentando a estátua de um monarca.

      Quanto ao seu descontentamento… Bem, como tentarei evidenciar mais à frente, houve uma sucinta iniciativa de aproximar o conto mais do tema ao apelar pela essência ambígua da ação sertanista. Além disso, o personagem Gomes é literalmente um fora-da-lei. Admito que não há nenhuma forma de saber, mas a sua mudança de degredado para capitão de bandeiras certamente não teria sido por vias legais. Que o autor escreva “certamente” para aludir a um personagem é porque concordo que não há trechos que deixem implícito e que não há como o leitor adivinhar.

      Obrigado pelo comentário!

  16. Anderson Prado
    17 de setembro de 2021

    1. o tema do desafio aparece medianamente, já que houve uma associação entre bandeirantes e a ideia de “foras da lei”. Ocorre que apenas é possível considerar os bandeirantes foras da lei se a lei tomada como parâmetro for a lei contemporânea, já que no contexto da colonização os bandeirantes não eram foras da lei, ao contrário, eram bem adequados à sociedade da época, que não só valorizava seus serviços como deles dependia. O erro que o entrecontista cometeu é bastante comum: julgar o passado com os olhos do presente. Dessa maneira, melhor teria saído o entrecontista se não tivesse emitido juízo de valor sobre as atividades e estilo de vida dos bandeirantes, limitando-se a apresentá-los, reservando eventuais juízos de valor aos leitores. Deveria ter narrado fatos ao invés de julgá-los;

    2. a grandiloquência da prosa não foi suficiente para esconder a desorientação do enredo. O entrecontista pareceu querer contar muito mais do que o espaço de duas mil e quinhentas palavras permite. O cerne do conto se tornou um relacionamento amoroso colocado no enredo sem qualquer tipo de preparação: vínhamos acompanhando uma bandeirada quando, na última linha do quinto parágrafo, deparamo-nos com um relacionamento amoroso entre dois indígenas (um integrado e outro não). Tão rápido quando surge, o relacionamento é logo deixado de lado e, já aí, retomamos a bandeirada não sem uma longuíssima viagem até as origens do protagonista, o desentendimento entre cativos, a roga da praga e as consequências dela advindas. O entrecontista tinha muita matéria interessante sobre a qual se debruçar, mas o destaque dado ao relacionamento amoroso (e o consequente desfecho escolhido) obscureceu toda a magia da bandeirada e suas muitas nuances;

    3. o domínio da língua e das técnicas de narração é bom, mas o vocabulário, apesar de riquíssimo, não deixa de ser um tanto hermético. Para além das palavras escolhidas, também contribui para a hermeticidade o excesso de metáforas e de recursos imagéticos. Nota-se que o entrecontista possui veia poética, o que ora se presta a enriquecer o texto, ora se presta a contaminar a prosa;

    4. não compreendi o motivo pelo qual “sebastião”, “portugal” e “brasil” foram grafados com iniciais minúsculas; algo similar ocorre com “deus” e “sol”;

    5. o entrecontista soltou um “pum” em “mas havia pum ou outro que”;

    6. é um texto bom, da mesma forma que “Cem anos de solidão” e “Macunaíma” também são. Ainda assim, prefiro, dos mesmos autores, “O amor nos tempos do cólera” e “Amar, verbo intransitivo”. Nem tudo é pra todos. E nem toda leitura é para todas as horas. Talvez o conto até se revele o melhor do desafio, talvez eu até lhe dê a nota mais alta, mas ele seguirá sendo um conto que ficou me devendo alguma coisa, possivelmente mais foco, objetividade e comedimento.

    • opedropaulo
      13 de outubro de 2021

      Oi, Anderson! Já deve imaginar que os seus comentários são sempre dos mais ansiados por mim. Responderei ponto a ponto.

      6. Das obras citadas eu só li “Cem anos de solidão” e já ouvi bastante sobre “Amor nos tempos de cólera”, obra da qual já ouvi falarem muito bem e que agora tenho bastante curiosidade para ler. O que seria? Um Marquez mais “pé no chão”? Ainda devo a leitura de Macunaíma, que está ali na estante, e agora sinto que devo acompanhá-la de mais essa referência à qual opôs o clássico do Mário de Andrade.

      5. Este é o erro de revisão mais constrangedor e engraçado que cometi!

      4. Até aquele momento no texto, a perspectiva era a de Martim, um nativo que viajava na companhia e ao auxílio de colonos brancos, em direção ao aprisionamento de seus iguais. Essa breve rememoração é só para lembrar que o primeiro parágrafo em que o apresento é já delineando a desconfiança dos seus companheiros de viagem para com ele, além de um certo ressentimento do personagem. Essas palavras próprias, certamente solenes aos súditos da Coroa Portuguesa, não tem o mesmo significado para Martim. Deixá-las com iniciais minúsculas foi uma tentativa de mostrar mais uma vez que a adesão dele à ordem colonial não era completa. Um degrau em direção à sua rebelião catártica e desesperada, mais à frente.

      Tentei por algo parecido em “1888”, aquele conto lá do desafio Loucura, talvez lembre. Os escravizados foram primeiro referidos por títulos tipicamente escravocratas e deixei de usar essas nomenclaturas na medida em que os personagens percebiam a própria liberdade.

      3. Concordo que o texto ficou denso.

      2. Concordo que o enredo sofreu com um excesso de informações, mas discordo de que o problema tenha sido a direção da história. Quando contei a colegas e amigos que escrevia um conto, sempre o resumi como “uma bandeira malfadada”. Este texto é uma ideia antiga que, em síntese, seriam sertanistas brutalmente perseguidos e enlouquecidos pelo caçador que é o Curupira. Algumas novidades nessa velha ideia foi incluir um protagonista nativo e também tentar dar um contorno temático exigido pelos desafios. Sim, desafios. Este texto não foi escrito para este certame, mas falarei disso mais adiante.

      1. Quando li o seu comentário eu estava em meio a um trabalho, um bico. Precisei respirar fundo e dar voltas no recinto para não engajar em respondê-lo de imediato. Já refleti bastante sobre e sempre decido que o mais correto é evitar responder aos comentários durante a fase de leitura em desafios abertos. Afinal, se tudo der certo eu terei leitores e não espero estar sobre os seus ombros, a lhes dizer como ler minhas palavras. A leitura pertence ao leitor, apesar do EntreContos ser uma troca.

      Mas por que fiz essa breve introdução ao responder esse ponto? Não me isento de cometer o equívoco do anacronismo, mas a minha formação faz pelo menos mais difícil que aconteça e, aqui, eu fui cuidadoso. A falha está mais na execução, certamente dificultada pelo limite de palavras, mas isso procurarei expor num comentário à parte. Não fiz julgamento de valor dos meus personagens e não escrevi intentando que as violências cometidas e sofridas fossem como punições. Entre a escravização colonial e a punição mística, a violência é a verdadeira ordem que relaciona essas personagens, não uma espécie de moralização da história.

      Nos comentários do Wilson e do Thiago há uma alusão ao conto propor que a História do Brasil se constrói sobre uma pilha de crimes. Respondi ao Wilson, mas não ao Thiago, que esse não foi o meu objetivo. Tentarei expor a relação entre sertanistas e a margem da lei em outro comentário, além de chamar atenção para a tentativa pífia que fiz de tentar evidenciar essa faceta contraventora dos sertanistas. Há um trecho no conto que foi escrito para essa salvaguarda, mas falhei, pois não foi o bastante.

      Enfim, respondo que este primeiro ponto do seu comentário é um equívoco, mas que todo o comentário é uma joia. Obrigado pela leitura, pelas impressões e pelo surpreendente 10, amigo.

  17. Marcia Dias
    17 de setembro de 2021

    Até aparecer a palavra Kuru ‘pir o conto seguia uma narrativa muito interessante, de rememorar os tempos em que a igreja católica e a coroa portuguesa impunham a “civilização” aos residentes brasileiros a ferro e fogo. Porém, após a primeira abordagem do demônio, o conto rumou para o lado místico, o que só enriqueceria ainda mais a história, se não fosse a rapidez com que as maldições pululam. Isso trouxe um outro ritmo para a história, mais acelerado, o que me incomodou um pouco. Tive a impressão de ter lido uma história até a primeira metade e outra na segunda.

    Friso aqui uma passagem que gostei muito (dentre outras), a qual descreve as ações dos dois capitães, um missionário e um outro, ladrão, igualmente aprisionando homens para a construção de uma “nação”: “Gomes a xingamentos e Andrade com um insensato discurso missionário, ambos iguais, entretanto, no assassinato que orquestravam e do qual participavam”.

    Dos contos que li até agora este foi, sem dúvida, um dos mais criativos, pelo escritor ter alçado voos mais altos e arriscados, em se tratando do tema foras da lei, tendo em vista que nem lei humana havia na terra brasilis! Havia, entretanto, a lei sobrenatural! E dessa ninguém escapava porque a natureza tudo via e condenava! É o meu segundo conto preferido até o momento! Li 17.

    • Júlio Alves
      17 de setembro de 2021

      Entendo seu entusiasmo, mas existia civilização nas Américas antes da invasão. Havia lei humana – e muito mais humana do que a europeia.

      E concordo, é um dos melhores sim.

      • Marcia Dias
        17 de setembro de 2021

        Aff, você está corretíssimo, Julio! Me perdoe essa palavra “humana” era de outro comentário! hahahaha Claro que existia civilização antes da chegada dos europeus! Não havia lei europeia tal qual se conhecia. kkkkk

    • opedropaulo
      13 de outubro de 2021

      Oi, Márcia!

      A terceira parte do conto é a mais sofrível de todas! O primeiro rascunho tinha 3.400 palavras e a maior parte dos cortes de fez nessa terceira seção em que o Curupira se torna uma ameaça cada vez mais próxima dos sertanistas. Pretendo (como sempre, mas sem nunca realmente praticar) desenvolver o texto e com certeza a parte que mais seria alterada seria essa, além de aproveitar a liberdade em espaço para desenvolver mais os personagens.

      Enfim, enfatizo a correção do Júlio de que havia sim leis humanas nas américas, embora se diferenciassem bastante daquelas trazidas do “Velho Continente” e, depois, houve uma relação entre essas legislações escritas e não-escritas. Sincretismo é uma palavra importante no vocabulário colonial.

  18. Wilson Barros
    17 de setembro de 2021

    O início já prenuncia o que vem: crimes historicamente construídos contra os povos habitantes da América, as pilhagens, a escravidão , o genocídio.
    Entendi também como uma espécie de lamento pelo país ter sido construído por ladrões, assassinos e estupradores. Tudo depois gira em torno desses crimes, e as relações disso com o demônio.
    Algumas imagens de destaque:
    “Alguns micos dourados observavam com cautela o círculo de homens”
    “As pegadas se iluminavam no solo como se abrasadas”
    “Sonho e pesadelo se olharam. Martim olhou para Martim, deu meia volta e foi embora”
    Um conto muito bom, com um toque do “último dos moicanos”.

    • opedropaulo
      13 de outubro de 2021

      Oi, Wilson!

      Sabe? Escreverei sobre isso mais adiante, mas nunca foi a minha intenção pautar a ação escravocrata dos sertanistas e a resposta mística do Curupira como, respectivamente, crime e castigo. Isto é, o massacre, o estupro e a escravização são crimes na ótica humanista que temos atualmente, mas eu tentei aludir a um verdadeiro crime institucional que é um tanto definidor da relação entre sertanistas e Coroa Portuguesa.

      Mas falarei disso mais adiante.

      Agradeço pelo comentário!

  19. Júlio Alves
    17 de setembro de 2021

    Primeiramente: brabo.

    Até agora, o preferido do desafio para mim. Sem comentários para a história, para a narrativa e as personagens: tudo bem costurado, bem narrado, e bem pesquisado. Nota-se que quem escreveu o conto entende a história brasileira e o que se sucedeu de lá até aqui.

    Nem tenho muito o que comentar, na verdade. Tudo muito bem feito.

    De ressalva, apenas o pum que foi solto em lugar indevido e, em poucos momentos, a pesquisa apareceu demais e, como o texto está muito bom, fica mais fácil de reparar.

    Parabéns pelo conto.

    • opedropaulo
      13 de outubro de 2021

      Começar chamando o meu texto de “brabo” fez do seu comentário um dos meus preferidos. Foi muito difícil acompanhar as discussões no grupo do Facebook e vi repetir o elogio ao pautar a pesquisa. Mais especificamente, escreveu que meu conto “pôs para mamar” na pesquisa, o que é mais uma forma lisonjeira de expressar! De fato, tenho me empenhado mais quanto à pesquisa em meus contos e fico muito feliz em ser reconhecido. Lamento pela sua desistência no desafio e por não ter lido o seu texto. Agradeço pela leitura e pelos comentários!

  20. Kelly Hatanaka
    17 de setembro de 2021

    Oi Galo.

    Um texto excelente, escrito com linguagem correta, cheia de estilo e domínio. Dá pra ver que o autor conhece muito sobre o período e fez uma boa pesquisa. Também gostei dos personagens, bem definidos e coerentes.

    A história é interessante e conduz muito bem o leitor, embora eu tenha achado a leitura um tanto difícil em alguns pontos, pouco fluida. Não foi um texto que consegui ler de uma vez. Precisei parar, voltar e reler para compreender. Claro que isso não é um defeito da escrita e, sim, da leitora. Mas acho que é uma escolha. Escrever como se falava na época e tornar o texto mais desafiador para o leitor ou usar uma escrita mais contemporânea e trair a correção histórica. Também fui confrontada com esta escolha, é difícil…

    O final me deixou meio perdida, mas de um jeito bom. Fez o título fazer sentido. No começo, achei que fosse Gomes quem tivesse ficado perdido na mata. Mas, na última frase, entendi que foi Martim e que aquele sonho fazia parte de sua maldição. Kur’ upir não aceitou a barganha. Talvez o tivesse considerado um traidor além de qualquer possibilidade de perdão.

    Parabéns.

    • opedropaulo
      13 de outubro de 2021

      Oi, Kelly!

      Fico muito feliz que tenha gostado do texto e agradeço. Quanto ao final, farei uma breve exposição mais adiante e, quanto à escrita, outros leitores também comentaram pela falta de fluidez no conto. “Denso”, “pesado” e outros adjetivos foram empregados para descrever a redação, e realmente concordo em ter pesado a mão, apesar de não me arrepender.

      Abraços!

  21. thiagocastrosouza
    14 de setembro de 2021

    Galo, você propôs, em seu conto, uma abordagem bastante original sobre o tema do desafio. A ideia de que uma série de crimes foram cometidos ao longo da história desse país, geralmente chancelado pela coroa e pela igreja, como bem sabemos, foi o estopim para uma trama que se apresenta muito mais densa e elaborada do que se poderia imaginar. A justiça, pelo menos no conto, acontece apenas pelo apelo ao sobrenatural e místico, na figura do curupira que, de forma igualitária, pune todos aqueles que estão em suas florestas; uma alma por outra alma.

    É preciso destacar também o trabalho de pesquisa que salta aos olhos. Li, durante minha graduação, um capítulo do livro História da Vida Privada no Brasil e até resgatei o título do artigo, pois muita coisa que estava lá, aqui também está. Formas Provisórias de Existência: a vida cotidiana nos caminhos, nas fronteiras e nas fortificações. A autoria é da Laura Mello e Souza.

    Então, tudo o que a autora desdobra no artigo está aqui: as travessias, a plantação de pequenas roças ao longo do caminho, a relação com a religiosidade através de oratórios móveis, o ataque infernal dos insetos, a queda das aranhas (haviam bandeirantes que se enterravam para conseguir ter uma noite possível de sono), enfim, além de uma série de outras coisas que dão muita credibilidade na ambientação do seu conto. O elemento fantástico aparece com um acréscimo bem-vindo e dá coerência ao final que poderia soar um tanto hermético.

    Gostei muito!

    Boa sorte!

    • opedropaulo
      13 de outubro de 2021

      Oi, Thiago!

      Cara, eu lembro de ter ficado assombrado quando o senhor foi capaz de, não só perceber a obra de onde tirei parte dos estudos para reste conto, mas também de nomear o capítulo mais importante entre as minhas leituras de pesquisa. Não pude acompanhar o debate que se abriu no grupo quanto à pesquisa, mas li a sua resposta e me lembro de ter aludido a uma angústia que é dedicar muito tempo à pesquisa e acabar incluindo na ficção pouco do que foi lido. Passei por isso nesse texto, pois para além do capítulo da Laura de Mello e Souza também li alguns capítulos da coletânea do Fragoso do “Brasil Colonial” e fiz outras leituras, sem ter me dado o tempo de assistir a documentários. Muito do que estudei acabou não realmente ajudando, exceto por algumas informações pontuais que pude acolher. Falarei de outras influências em outro texto, mas o resumo aqui é que você acertou precisamente o texto acadêmico que mais me ajudou a ambientar o conto.

      O que me deixa até inseguro se eu não deveria ter ampliado minhas referências. Obrigado pelo comentário e pela simpatia dada ao texto!

  22. Luciana Merley
    8 de setembro de 2021

    Ele não sabia quem era sonho e quem era pesadelo (Galo)

    Olá.
    Uma mistura de histórias num texto bastante rico e denso.

    Quero reconhecer, antes de tudo, a minha admiração por uma construção tão arduamente trabalhada, com um repertório linguístico invejável. Além da disposição em desenvolver um tema tão complexo como essas escolhas terríveis feitas por nossos antepassados e que, indubitavelmente, nos trouxeram até aqui. A partir de agora, gostaria de tecer algumas considerações obedecendo, não meu gosto pessoal apenas, mas, segundo alguns critérios já consagrados na avaliação de contos.

    Coesão – Poderia dizer que o texto é acerca de uma monstruosidade histórica, que sabemos, oprimiu e dizimou grande parte dos nativos da terra e dos que aqui foram trazidos para a continuidade de sua escravidão. Minha ressalva é exatamente a quantidade de focos narrativos e conflitos apresentados e que, considerando tais critérios, dificilmente poderiam coexistir num conto ideal. A saber: o episódio da invasão e a violência envolvida, a relação nada esclarecida entre Martin e Joana (quem era Joana? Era do povo? Era uma escrava?), a relação entre o jesuíta e seu “selvagem de estimação”, a figura do mito Curupira (era uma visão de Martin?). Enfim, muitas pontas soltas, relações não esclarecidas e que, ao que me parece, exigiriam um texto longo, como um romance ou novela, para que fossem mais bem trabalhados.

    Ritmo – É um texto rico em vocabulário, em cenas e em conflitos, como já disse, logo, bastante denso. A leitura segue agarrada, não flui muito facilmente, até mesmo pelo alto nível das construções frasais. Texto difícil não é problema de maneira alguma e o seu segue o ritmo de um bem exigente.

    Impacto – Gosto de textos desafiadores. São difíceis, mas gosto. Não consegui compreender a totalidade, especialmente essa relação sonho e pesadelo. Fiquei perdida nesse ponto e ele parece ser essencial ao seu enredo. Logo, desculpe. Percebi que necessita de alguma revisão, mas nada que tenha interferido no seguimento da leitura.
    Gostei bastante da seguinte construção: “Entre princípio e fim, os meios atravessavam as sombras da floresta e dos corações dos homens, assim era a guerra.” Essa é uma definição perfeita para a maioria dos grandes equívocos históricos e as nossas maiores carnificinas, sejam as de exploração por “uma boa causa religiosa” ou as por “uma boa causa revolucionária”. A receita é a mesma e o resultado é sempre desastroso.

    Por fim, não deixando de observar a foto do Borba Gato sendo incendiada, fico com a opinião de Laurentino Gomes: “Sou contra. Estátuas, prédios, palácios e outros monumentos são parte do patrimônio histórico. Devem ser preservados como objetos de estudo e reflexão”. Ou seja, coisa de uma geração que “pensa” que o mundo começou no dia em que nasceram ou ganharam o primeiro celular. De imbecilóides mesmo.

    Um abraço e parabéns pelo texto.

    • opedropaulo
      13 de outubro de 2021

      Olá, Luciana.

      Lembro de ter lido o seu comentário no início de mais uma madrugada de trabalho e de ter ficado bastante feliz já nas primeiras linhas pelo reconhecimento desse texto como um “trabalho árduo”. De fato, os outros colegas perceberam o empenho por detrás da escrita e não consigo deixar de ficar satisfeito com esse reconhecimento, pois, diferentemente do conto enviado para o último desafio, por exemplo, este foi um trabalho ao qual dediquei dias de escrita, revisão e edição. Agora respondendo aos pontos específicos que comentou.

      Também foi comum entre os demais leitores a reclamação de que o desenvolvimento dos personagens é raso e a relação entre eles é, se em uma avaliação positiva, pouco explorada, e, se em uma negativa, frouxa. De fato, estou ciente de que há muitos personagens se considerar o espaço da narrativa e enquanto escrevia tive a preocupação de tentar, através de breves interações ou impressões mútuas entre eles, delinear relacionamentos longevos e profundos, no que pareço ter falhado. Esse esforço se reflete, por exemplo, quando Martim se refere ao padre Diniz como o seu “algoz”, relação que volta a ser enfatizada na perspectiva de Gomes e mais próximo ao fim, quando vítima ataca carrasco e eu dou uma linha para dizer que a única razão da presença do padre é a proximidade entre Martim e Joana. Tentei implicar que o casal era o mais próximo da liberdade do rapaz e que, por isso, o padre decidiu acompanhá-lo para segurar a “corrente” mais de perto.

      A questão do “sonho e pesadelo” é algo que vou escrever um comentário à parte, acredito que republicado no Facebook, afim de tentar explicar o que tentei passar e por que optei por este final.

      Enfim, sobre a imagem, eu lembro que estava para enviar o conto quando percebi que não tinha selecionado uma figura para acompanhá-lo, elemento que sempre considero importante para dar uma personalidade a mais para o texto. Pensei em uma copa de árvore dando poucas vistas do céu acima, representando a parte do conto em que os sertanistas estariam aprisionados. O título quase foi “Acima, só copas”, aliás. Mas selecionei a fotografia como uma clara provocação à reflexão, o que também está representado no pseudônimo. Concordo com as palavras de Laurentino quanto à preservação do patrimônio como um objeto de estudo e reflexão, mas pondero que estátuas nunca chegam onde chegam sem serem erguidas e que se ocupam um espaço público é em forma de uma mensagem que alude à celebração de uma identidade, no caso a figura “bandeirante”, tão cara à ideia de pioneirismo e fundação da nação, além de ser parte importante do imaginário paulista. Entretanto, uma vez erguidas nas ruas, estátuas como essas estão, não só na salvaguarda do poder público, mas expostas às dinâmicas do debate público e, sim, a outras intervenções físicas. Uma estátua nada mais é do que uma intervenção, afinal, uma mensagem à qual se pode, sim, responder.

      Agora, não é dizer que o incêndio é a única forma de resposta e, para uma abordagem que faz considerações amplas e bem colocadas a respeito da situação da estátua de Borba Gato, deixo abaixo o link de um ensaio do historiador Marcos Napolitano para o Nexo Jornal, de onde transcrevo um excerto: “de todo modo, uma memória pública crítica compartilha com a historiografia o princípio de que a história nacional celebrativa e o silenciamento das vítimas e violências do processo histórico são insustentáveis sob o ponto de vista político, ético e epistemológico”.

      http://www.nexojornal.com.br/ensaio/2021/A-guerra-às-estátuas-e-a-política-pública-de-memória

      Grato por este primeiro comentário!

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Informação

Publicado em 8 de setembro de 2021 por em Foras da Lei.
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