EntreContos

Detox Literário.

De volta a fogueira (Emanuel Maurin)

Mandei trazer a menina presa em um dos muitos cômodos de minha casa a fim de vendê-la a um destruidor de nação. Ela chegou silenciosa e triste; calçava um sapatinho baixo e trajava uma saia curta. Tinha dez anos, cabelos encaracolados e dentes muito branquinhos, ainda que não os tenha mostrado. Sentou-se em minha frente e perguntou pela mãe. Respondi que estava ausente, mas que logo se encontrariam.

Enquanto aguardava na sala onde o motorista e o capanga do senador viriam buscá-la, olhei para seu rostinho inocente e lembrei-me de quando tinha a mesma idade dela. Naquela época, para espantar a dureza da vida, eu e alguns garotos sentávamos em volta de uma fogueira para contar e ouvir histórias. Algumas eram alegres e festivas, outras metiam medo. E o que essa pobre menina faria para espantar a tristeza da tortura e do cárcere?

Em meus oitenta anos, nunca sucumbi a nenhuma das inúmeras falcatruas que cometi. Mas após refletir sobre o futuro da menina, sem qualquer conhecimento de causa, minha cabeça caiu em cochilo no encosto do sofá.

As recordações rebobinadas em minha memória se transformaram em imagens de um passado longínquo tomando um aspecto singular. Como que por metempsicose, voltei setenta anos no tempo. Não sabia se era realidade ou sonho; vi algumas crianças à beira de uma fogueira. Não pude acreditar. Há um segundo eu estava sentado na sala de minha casa, mas o que via naquele momento em outra região ia além do que determina a natureza. Como podia estar habitando o corpo de quando tinha dez anos? Será que eu sofrera um mal súbito e voltei a ser criança? Meus olhos, até então incrédulos, repousaram na fogueira. E antes de aconchegar-me junto ao fogo, perguntei-me se aquele fenômeno incompreensível acontecia apenas comigo ou também com os demais garotos que circundavam as chamas.

Aproximei-me, curioso, e sem lembrar de nenhum dos rostos, lhes cumprimentei. Festivos, responderam minha saudação. Sentei numa pedra e peguei um graveto caído no chão, mexi nas brasas para ter a certeza de que tudo aquilo era real. O calor do fogo ardeu em minhas mãos, porém, ao invés de dor, embriaguei-me de prazer. O silvo dos pássaros noturnos, o coaxar das rãs e os ruídos vindos das redondezas quase fizeram meu coração metálico amolecer. Um dos meninos começou a narrar uma das muitas histórias desaparecidas de minha memória.

— Se formou no céu azul um buraco negro, e de dentro saiu um monstro intergaláctico para prender um criminoso — falou e deu um suspiro. — “Ai, que dor! Para onde você está me levando, seu monstro?”, perguntou o bandido.

— Espera um pouco, Pedrinho — disse o garoto à minha frente, que mexeu o braseiro com um galho e tirou uma batata. Todos ficaram olhando com água na boca. Eu já havia esquecido o quanto adorava batata doce assada na brasa. Meu estômago roncou.

— Felipe, deixa esfriar que depois a gente come — disse Pedrinho. — Onde foi que eu parei?

— No monstro — falei, com muita vontade de ouvir o desfecho.

— “Seu destino é a dimensão dos amaldiçoados”, respondeu o monstro com cara de sapo, corpo de gente e tentáculos de polvo — Pedrinho retomou a palavra, levantou e começou a andar em torno do círculo de pedras. Todos os garotos o acompanharam, com olhos e ouvidos atentos.

— “Não exagero nada no que digo. Você foi nascido e criado para destruir a vida das pessoas.”

— Pedrinho, que pessoas? — perguntei, pois jurava que ele narrava minha história.

— Calma, Alexandre! — respondeu.

“Mas como Pedrinho sabe meu nome?”, pensei, enquanto ele continuava.

— “Uma família altruísta dedicou todo seu amor para criar a filhinha, e você a enviou para a morte.”

Todos ficaram tensos.

— “Durante dias, segui seus passos e descobri coisas horrorosas” — Pedrinho falou com voz pausada e sentou-se numa pedra, para criar um clima de suspense. Todos os olhos o engoliam, mas ninguém dizia uma palavra. Ele fingiu não reparar nos olhares e continuou. —“Me solta! Tire seus tentáculos gosmentos do meu corpo!”, o bandido falou, se contorcendo para tentar escapar. “Não tente fugir, sua toxidade o prende a mim, arrematou o monstro.”

Pedrinho ficou uns segundos em silêncio. Olhou para o céu carregado de nuvens negras e baixou a cabeça de olhos fechados. Algumas crianças ficaram agitadas. Entretanto, era de se esperar que algo importante acontecesse. Não me contive.

— Para de enrolar! Fala tudo! — gritei.

Todos os olhos se voltaram para mim; nos rostos dos garotos, lia-se “estraga prazer”.

— Tá bom, chega de enrolar! — disse Pedrinho e abriu os olhos desgostosos.  — Vou contar tudo num sopro só: “Não adianta tentar fugir, seu bandido, eu vou levá-lo à dimensão do sofrimento eterno.” “Não, por favor, não!”, o bandido gritava enquanto era arrastado para dentro do buraco.

Dei de ombros.

— O buraco se fechou e os dois desapareceram… Fim.

— Mas já acabou? — perguntei, completamente destituído de polidez. As outras crianças bateram palmas. Foi então que notei que deixara há muito de ser criança.

— Agora, o Alexandre vai repartir a batata — disse Felipe.

— Para oito crianças? Não vai sobrar nada para mim — reclamei, pela força do hábito.

— Fica com tudo, seu egoísta — respondeu Felipe.

— Já está tarde. Vamos! Deixa esse mesquinho aí — disse um dos garotos, chamando a turma.

O sentimento de solidão me fez ficar um pouco mais, e, em vez de tentar voltar ao meu tempo presente, sombrio e maléfico, lembrei-me de meu pobre pai a sair cedo para cortar cana e ouvi-lo dizer à mamãe que nem sempre o empreiteiro pagava o mês trabalhado. A virtude de papai sempre o fazia vencer as dificuldades, mas eu nunca o vi ter um dia glorioso. Não fazia inimigos nem amigos. Foi um escravo da brandura e mansidão. Seu maior prêmio foi a flechada da miséria. Nesse instante, senti saudades de mamãe, e julguei que seria possível ir até ela.

Nossa casa ficava a uns quatrocentos metros dali. A noite variava entre o claro e o escuro. As horas? Não fazia ideia. O caminho? Apenas matagal e barulho de animais. O passo? Rápido. Quando cheguei, a lua foi engolida pela escuridão. Já que ainda não sabia se o que vivia era sonho ou realidade, bati na porta para ter certeza de que meus pais moravam ali. O telhado da casa era de zinco; as paredes, de madeira; e o piso, de terra batida.

Minha mãe abriu a porta e me abraçou. Eu nem lembrava mais o que era ganhar um abraço. Aconcheguei-me a ela em silêncio. O interior era iluminado por uma vela, com fio à beira da extinção na frente dos pés da Nossa Senhora. Meu pai estava dormindo, porque teria que ir trabalhar de madrugada. Vendo os meus olhos espantados, para me tranquilizar, ela disse que Jesus cuidaria da minha vida. “Pobre mamãe, mal sabe ela que odeio oração”, pensei e deixei escapar uma risada. Além do mais, desde que havia roubado a caixinha de ofertas da igreja na frente da imagem de São Pedro, me tornara ladrão e ateu.  Deitei-me na minha cama rindo da lembrança e peguei no sono. Quando abri os olhos, vi que nossa família morava em um cômodo, isso era algo que eu queria ter apagado da memória. Os móveis eram uns amontoados de caixotes, o fogão era feito de tijolos sobrepostos e não tinha geladeira e nem banheiro dentro de casa. Pela força do hábito, falei:

— Meu Deus! — Mamãe logo chegou perto do meu colchão de capim dizendo que estava na hora da escola. — O que tem para comer? — perguntei, com o estômago a doer de fome.

— Nada, mas Jesus o alimentará — respondeu e ordenou: — Agora, vá à escola.

Eu conhecia o caminho; no percurso, satirizei pedindo dinheiro a Jesus, a fim de comprar comida. Mas, em vez de comida, deu-me uma dor de barriga dos infernos. Decerto por causa da batata doce. Corri para trás de uma moita e baixei as calças. Quando comecei a fazer força, perdi o equilíbrio. Para não cair, segurei na primeira moita que encontrei. Junto com o mato, veio uma nota de Mil Réis. Arranquei uma folha do caderno e limpei-me tendo a certeza de que o achado fora obra do acaso. Fui direto à padaria. Comprei pão com mortadela, café e matei a fome.

Cheguei na escola bem quietinho, sem fazer nada que chamasse atenção sobre o velho que habitava a criança. Era melhor assim, para o interesse geral, inclusive o meu. Fechei a cara e fingi que não conhecia ninguém. Até porque não reconhecia mesmo. Foi então que tive certeza de que não aceitaria de forma alguma ter uma vida igual a de meu pai: sofrer mais do que se pode imaginar e trabalhar de sol a sol para ganhar um salário miserável. Será que foi a dureza da vida de meu pai que fez nascer o meu desejo ardente de adquirir conhecimento, sede de riqueza e poder? O professor de matemática era bom, nos ensinava com sua voz mansa e tímida, mas em vez de prestar atenção na aula, cobicei a bolsinha do garoto sentado ao meu lado; saí da escola ainda pensando no que poderia ter dentro.

Na volta para casa, passei o tempo todo a pensar na pessoa medonha a qual havia me tornado. Contei sobre o achado da nota de Mil Réis para minha mãe. Ela me falou que Jesus não faz milagres sobrenaturais do tipo fazer aparecer carne dentro de uma panela, mas coloca em nosso caminho meios para mantermo-nos vivos e com dignidade.

Não acreditei numa palavra e, mesmo vendo toda a pobreza dentro de casa, não dei o troco para minha mãe. Achava que ela fazia ideia de que eu era ganancioso e mesquinho, mas coração de mãe é grande, e ela sabia que lutar contra algumas coisas que só mudam com o tempo era desperdiçar energia. Mesmo assim, naquela hora, ela levantou as mãos para o céu e começou a pedir a Deus que cuidasse de mim.

Sorri na frente de mamãe por saber que era um conhecedor da bíblia que usa a boa nova para enganar ingênuos. Pus-me a pensar em minha vida desonesta. Sabia que era um velho avarento, traficante de drogas e humanos no corpo de uma criança nada inocente. Na verdade, eu colocara o meu primeiro picolé roubado dentro do calção quando tinha seis anos. Seria triste se mamãe soubesse desse delito, por isso abracei-a, mas não pedi perdão por tudo. Sem entender o motivo do abraço caloroso, ela me confortou com cafunés. Nessa hora, pensei que daria tempo de mudar meu caminho e esquecer todos os outros.

O segurança me cutucou.

— Mamãe, mamãe! — gritei ao sentir o peito apertado pela angústia. O segurança me olhou com ar de mofa, mas tinha tanto medo de mim que não disse sequer uma palavra. — O que foi? — perguntei.

— Os homens do senador vieram buscar a encomenda.  

 Voltei à minha realidade sem olhar na cara dele e levantei do sofá, tentando me localizar no espaço e tempo.

— Nossa! Que viagem foi essa? — perguntei a mim mesmo, totalmente descrente. Pedi ao segurança que ele os mandasse aguardar e refleti por alguns minutos sobre minha infância e a pobreza na casa de mamãe… Senti, então, que algo estava a me alertar, dentro do coração. Olhei a menina trêmula sentada à minha frente. Junto com a visão, veio uma pontada piedosa no peito. Para tentar escapar da fraqueza momentânea, fui até o espelho do meu quarto e olhei minha imagem de hipócrita. Conhecia bem o que era a miséria. Por isso, passei a vida dizendo palavras agradáveis às pessoas, e por trás batendo suas carteiras. Alimentei em mim a inveja, a avareza e o ciúme. Para os que acreditavam na Bíblia, gente como eu, Jesus vomitaria pela boca.

Ainda no silêncio do quarto, sentei na cama e recordei os momentos deliciosos com os meninos em volta da fogueira, o causo do bandido sendo transportado para outra dimensão e o abraço caloroso de mamãe. Sorri por entre as lágrimas. Assim como no conto de Pedrinho, pensei na possibilidade de existir um inferno de sofrimento. Mas meu ceticismo fez as imagens se desvanecerem. Por causa da minha saúde perfeita, eu sabia que minha hora de morrer demoraria, e que ainda daria tempo de roubar muitas pessoas e aumentar minha fortuna.

Entretanto… O que fazer com toda essa fortuna, se um dia morreria? Ter uma vida miserável também não era fácil, mas daria para ser honesto, bom e piedoso sem ter a miséria como companhia. Afinal, fui privilegiado com saúde, inteligência e energia. Entendi, por fim, que quando a gente segue o caminho pela busca cega da riqueza e do poder, deve sempre esquecer as outras alternativas, tais como bondade e partilha, porque, se traçarmos uma meta e ficarmos pensando no que poderíamos ter tido se ajudássemos os outros, jamais sentaremos no trono da vitória. Essa é a resposta dos poderosos. Mas o que foi que ganhei com isso? Apenas ódio nos olhos alheios. E se eu tivesse sido uma pessoa bondosa e honesta, como seria a minha vida nesse momento? Jamais vislumbrei a comiseração ou a culpa, mas com essa indagação, algo se agitou dentro do meu corpo: um pequeno sentimento de inquietação — algo que poderia limpar ao menos uma de minhas feridas.

Então, voltei à sala; a menina, sentindo medo, olhou muito devagarinho minha velha cara enrugada. Algo parecia alertá-la sobre o que viria pela frente. Nesse instante, o espírito da maldade voltou a me atormentar. Lutei como um viciado lutaria contra a vontade e olhei para aquele rostinho indefeso. A fim de livrar-me da névoa duvidosa que rondava minha cabeça, mandei despachar a menina.

Enquanto iam saindo, ela virou o rosto e olhou nos meus olhos.

— Vou encontrar minha mãe? — perguntou, e desabou a chorar. As lágrimas, transbordando, pescaram o fiapo de bondade que havia em mim.

— Volte! — ordenei. — Deixe a menina aqui e vá dispensar os homens do senador. Nesse ínterim, chamei meu motorista e o mandei preparar o carro com a placa adulterada.

Nunca antes eu havia desistido; precisava dar uma explicação aos meus capangas, e quando meu segurança voltou, não enrolei.

— Essa menina é muito fraquinha… Não vai aguentar nem uma hora na mão do senador. Pretendo soltá-la e substituí-la.

Mandei-o sair. Não acreditava que o tenha convencido, mas ele baixou a cabeça e não respondeu nada.

Coloquei minha arma na cintura, tomei uma das mãozinhas trêmulas da criança e fomos até a garagem. O motorista abriu a porta do carro. Entramos.

Cinco minutos depois, estávamos na rua. O trânsito era intenso e os faróis dos veículos brilhavam como fogo. Mandei que o motorista estacionasse perto da casa dela.

— Vai amolecer, patrão? — falou o motorista, enquanto eu abria a porta para a menina descer.

Saquei a arma da cintura.

— Como se atreve a falar assim comigo, seu verme? — disse, irritado. A menina, apavorada, batia na casa dos vizinhos.

O motorista viu a arma na minha mão e tremeu.

Dei um tiro certeiro na cara dele. Não é porque tive uma pequena recaída que me tornei santo.

20 comentários em “De volta a fogueira (Emanuel Maurin)

  1. Bruno Raposa
    8 de outubro de 2021

    Olá, Alexandre.

    Numa vã tentativa de ser mais objetivo, resolvi, para este desafio, pegar emprestado o modelo de comentários do EntreMundos. Então vou dividir meu comentário em ambientação, enredo, escrita e considerações gerais.

    A eles.

    Ambientação: Um tanto irregular. De início somos apresentados a um criminoso, já em sua velhice, que parece se apiedar de uma de suas vítimas. Mas, antes que suas reflexões tomem conta, a trama mergulha numa espécie de viagem temporal onírica do protagonista. É uma quebra interessante até. Mas o texto passa a apresentar diversos elementos e o narrador reage a eles de forma pouco consistente, ora melancólico e arrependido, ora irônico e cruel. Dessa forma, é difícil embarcar na jornada junto com o protagonista. Sentimentos conflitantes podem existir e até enriquecer a narrativa, mas é preciso dosar com muito equilíbrio. Aqui, senti que o texto careceu de organicidade.

    Enredo: É o aspecto em que o texto é mais bem-sucedido. A opção por um criminoso já com idade bastante avançada, refletindo sobre seus atos, foi uma escolha interessante. A viagem através do sonho é curiosa, um recurso inesperado, que engaja o leitor. E o fim tem boas viradas. A previsível, com o protagonista poupando a garota; e uma mais surpreendente, que mostra que ele segue com a mesma essência. O conto não oferece uma redenção total ao seu protagonista, ele segue falho, o que o humaniza.

    Escrita: O ponto mais fraco do conto. Em vários momentos a escrita soa juvenil, recorrendo a descrições pueris, como o protagonista dizendo que seu presente é “sombrio e maléfico”. Em outros, há um apelo dramático excessivo, em particular quando a mãe entra em cena. O conto ainda apresenta uma retórica panfletária e, em alguns pontos, ilógica, como quando o narrador conta que virou ateu após roubar a caixinha de doações da igreja. Difícil entender o que uma coisa tem a ver com a outra. Os diálogos também não soam naturais. A última fala, em particular, parece saída de um filme dublado. Me parece uma escrita ainda imatura, precisando de bastante lapidação.

    Considerações gerais: É um conto razoável, com muitos aspectos a serem melhorados. Ganha pontos pela criatividade, o autor assume riscos interessantes. A volta ao passado e o desfecho com o assassinato do capanga foram elementos surpreendentes. O protagonista é uma figura curiosa, que poderia ser melhor explorada. Com um pouco mais de trabalho no texto, é possível extrair resultados bem positivos desse material.

    Desejo sorte no certame.

    Abraço.

  2. Luciana Merley
    8 de outubro de 2021

    De volta à fogueira

    Gostei. Histórias redentoras, ainda que meio às avessas, me dão esperança. Me fazem bem.

    Coesão – Nesse quesito, acho que poderia ser melhor. A transição entre a realidade e o sonho, ou a viagem ao passado, poderia ter sido melhor desenvolvida de modo a não gerar exatamente essa dúvida no leitor. Não me parece que essa dúvida seja essencial ao enredo. Não me pareceu que “a fogueira” tenha sido o canal para a auto reflexão, mas o reencontro com a mãe. Pode ser que, apesar de tentar negar a religiosidade o tempo todo, esse título signifique que o narrador personagem tenha voltado “às mãos do oleiro”, quem sabe, não é? Inclusive, a negação dos valores Cristãos, até certo modo forçada pelo narrador personagem, acaba por destacar, o que foi para mim o cerne do seu texto, a saber: o valor Cristão mais sublime – a misericórdia. Se não foi proposital, para não afastar os antirreligiosos do EC, demonstra aquilo que já sabemos: que a religião determina profundamente a cultura e os nossos valores, independentemente de fé.

    Ritmo – Um pouco prejudicado por essa transição confusa, mas, bom no geral.

    Impacto – Bom. A personalidade do velho bandido é bem marcada e o final surpreende com verossimilhança. Afinal, o bandido quase “convertido”, continuou humano.

    Grande abraço.

  3. Kelly Hatanaka
    5 de outubro de 2021

    Oi Alexandre.

    Gostei da forma como você mostrou o que ia pela cabeça do protagonista,enquanto ele sonhava/recordava seu passado. Ele sempre foi mau e continuou sendo até o fim da história, apenas com um pequeno gesto de consciência, libertando a menina.
    Foi tudo coerente com a história de vida dele, tanto o gesto de misericordia quanto o assassinato frio do comparsa, apesar de eu ter torcido por uma redenção.

    A escrita é correta e agradável e foi muito bom de ler.

    Parabéns.

  4. Anderson Prado
    5 de outubro de 2021

    1. o tema do desafio está presente: o protagonista é um fora da lei ao estilo “olha o neném com carinha de malvadão”;

    2. o enredo é confuso: pra mim, foi bastante difícil acompanhar e, mesmo, aceitar a viagem onírica, sobretudo quando uma criança decidiu contar uma história dentro do sonho da história que eu estava lendo (espaço para inserção do emoticon com o cérebro explodindo crânio a fora);

    3. o domínio das técnicas de narração ainda pode melhorar, pois há transições e viradas abruptas no texto, além de exageros retóricos e passagens descontextualizadas (incluindo tom panfletário);

    4. “dar de ombros” é um lugar comum literário, que deve ser evitado sempre que possível;

    5. há excesso de pronomes possessivos de primeira pessoa;

    6. há certa beleza no parágrafo “O sentimento de solidão…”;

    7. apesar de abrupto, o final tem sua graça: gostei do efeito e da surpresa causada pela execução do comparsa.

  5. claudiaangst
    1 de outubro de 2021

    O conto aborda o tema proposto pelo desafio.
    A trama traz um ir e vir de memórias de um ancião criminoso. Ele se vê menino, mas já sabedor dos crimes que cometeu pela vida. A miséria como justificativa do início dos seus desmandos.
    O desfecho surpreende não pela libertação da menininha, isso já estava bem previsível desde o início, mas pela volta ao papel de vilão ao atirar no motorista. No entanto, fiquei em dúvida, se o tiro foi dado ali mesmo, logo depois de deixar a menina na porta de casa. Não seria incoerente? Como ele escaparia tão rápido da cena do crime sem levantar suspeitas? Talvez se tivessem se afastado um pouco antes do disparo…
    A leitura não chega a fluir de fato, encontra alguns entraves, talvez o excesso de informações que fazem o ritmo ralentar em algumas passagens. Fiquei com a impressão de que o conto poderia ser um pouco mais curto, o que garantiria maior fluidez e impacto.
    Parabéns pela participação e boa sorte no desafio.

  6. Andre Brizola
    27 de setembro de 2021

    Olá, Alexandre!

    Viagem através de tempo e espaço fazem com que um velho criminoso, astuto, poderoso e arrogante, tenha reflexões sobre sua vida, caso tivesse enveredado por um caminho diverso daquele que escolheu para si.

    Acho que o conto tem um enredo interessante, mas que acabou sendo soterrado pela quantidade de informações que é fornecida ao leitor. E, exatamente por termos acesso a tanta coisa, fica a impressão de que nenhuma delas foi aprofundada como deveria, deixando tudo com um ar meio vago. E é claro que estamos diante de uma situação fantástica, em que não podemos esperar muita lógica nos acontecimentos. Mesmo assim fiquei com a impressão de que faltou alguma coerência nas viagens do personagem.

    Outra coisa que contribuiu para uma experiência de leitura negativa foram os deslizes na parte gramatical, incluindo aí até a do título do conto, que pedia uma crase naquele A. Normalmente não costumo me incomodar com esse tipo de coisa, sobretudo quando o enredo é bom e bem trabalhado. Aqui, infelizmente, esses deslizes ganharam espaço.

    Por outro lado, gostei muito do final. Somos levados a acreditar, por um instante, que o personagem vivia realmente uma crise de identidade, um resgate da humanidade perdida, para sermos surpreendidos com uma manutenção interessante da violência gratuita. Foi uma grande sacada, e um final extremamente adequado para o conto.

    É isso. Boa sorte no desafio!

  7. opedropaulo
    26 de setembro de 2021

    Este é um texto sobre redenção e, portanto, inclui em sua narrativa um debate acerca de virtude, com o protagonista retornando ao seu passado para, a partir de suas memórias, refletir acerca do momento em que a ganância e a desonestidade se mostraram presentes em si. É o contraste entre a sua natureza malévola e os ambientes de humildade e fé em que viveu que o desconcerta na atualidade, fazendo-o voltar atrás em mais uma horrorosa transação de almas que opera. A narração em primeira pessoa aproxima o leitor do dilema do personagem, levando-o a refletir junto consigo, mas, ainda assim, acredito que o caminho optado arrastou um pouco a trama, com muita permanência em memórias distintas, unidas mais ou menos pelas reflexões do personagem.

    Então o texto entrega um personagem bem fundamentado, tem uma narrativa eficiente e um conflito claro, mas a condução da trama é que truncou um pouco da leitura.

  8. misapulhes
    25 de setembro de 2021

    Olá, Alexandre.

    Resumo: velho criminoso traficante de crianças para prostituição decide libertar uma das suas vítimas após uma experiência de regresso à infância.

    Comentários: Achei tudo muito pesado, autor. Pouco sutil. É difícil criar uma estória séria que envolva assassinato, prostituição infantil, uma experiência de ilusão como a do protagonista…

    Enfim, essa falta de sutileza é o que mais me incomodou. Diz-se muito ao leitor, quando se poderiam ter mostrado de forma mais imagética as coisas. Como esse regresso ao passado. Primeiro que ele é muito repentino. Estamos conhecendo ambiente, personagens, temas, e, PÁ… já estamos de volta à fogueira. (Quase) Todo o miolo do 4º parágrafo me parece sobrar. O narrador protagonista fica nos contando da sua estranheza com a cena, quando o simples aparecer lá na infância já teria sido suficiente para nos fazer entender o que se estava passando, e nos espantaria, por si só, bem mais.

    Outro exemplo de exagero sentido na minha leitura: “colchão de capim”? “Por causa de minha saúde perfeita”? Isso precisava ter sido dito? Alguém aos 80 anos acha isso mesmo?

    No meio de algumas insatisfações de um leitor pro qual você talvez nem deva dar tanta atenção, uma pérola: “As lágrimas, transbordando, pescaram o fiapo de bondade que havia em mim”. Achei essa frase muitíssimo bonita.

    Mas ainda tem o final: a ideia é legal. Mas soa muito destoante do resto do texto e, de novo, repentino. Além disso: incoerente. O tiro é dado ali mesmo, onde ele havia deixado a vítima?

    Desculpe qualquer coisa e boa sorte, meu caro!

  9. Felipe Lomar
    25 de setembro de 2021

    O texto é bem escrito, não percebi erros. Também gostei das descrições de ambientacao. O problema é que é um texto muito longo para narrar um acontecimento aparentemente pontual, o que fica um pouco cansativo de ler. Da mesma forma, a história fica um pouco previsível por seguir um modelo já muito explorado de arrependimento e busca por redenção. Do começo, já sabemos que a menina não ia ser entregue para o senador.
    Boa sorte.

  10. Marcia Dias
    24 de setembro de 2021

    Um poderoso traficante de drogas e de pessoas resolve polpar a vida de uma menina, após um sonho em que recorda como era a sua dura infância. A narrativa é muito coesa e coerente pois mostra o tempo todo que o velho traficante não mudaria da noite para o dia. Não senti empatia pelo personagem (propósito do autor, acredito); já imaginava que ele pouparia a vida da menina, mas não deixaria ainda de ser o que ele era, um ganancioso. Achei coerente não ter havido mudança brusca no personagem, pois se houvesse, soaria muito inverossímil. Da forma como o enredo foi desenvolvido, fico imaginando que, daqui para a frente, outros sonhos virão para o velho traficante asqueroso e, com eles, possibilidades de boas mudanças transformando o seu caráter. Sou do bem, fazer o quê?!

  11. Priscila Pereira
    23 de setembro de 2021

    Olá, Alexandre!

    Ambientação: eu gostei, o conto tem um ar bem nostálgico, apesar de tudo.

    Enredo: tenho que te falar que já pensei sobre isso, de voltar no tempo tendo a cabeça de hj, seria bem legal, refazer algumas coisas, não fazer outras, tomar outros rumos e caminhos… Até tenho um projeto de conto ou algo maior sobre isso… Esse tema me agrada bastante.

    Escrita: É boa, nada extraordinária, mas é direta, simples e cumpre seu papel de contar a história.

    Considerações gerais: achei legal essa falsa ideia de redenção, pelo menos a menina escapou, o que já é maravilhoso, pra ela, claro. Passou também a mensagem de que algumas pessoas não querem realmente uma redenção, uma mudança. Estão satisfeitos com o estado de suas almas e preferem continuar como estão. E tudo bem. Parabéns!

    Boa sorte!
    Até mais!

  12. Emanuel Maurin
    23 de setembro de 2021

    O conto tá bem escrito, não tem erros e está bem estruturado. Os diálogos estão razoáveis. Perdoe-me a franqueza, mas achei o conto muito cansativo. Boa sorte.

  13. Jorge Santos
    22 de setembro de 2021

    Olá Alexandre. Gostei do tema do seu conto. É uma chamada de atenção séria a um flagelo terrível. Mexe com qualquer pessoa, especialmente sendo pai. No entanto, falta uma certa elegância ao seu conto. A narrativa soa forçada. A ligação da realidade ao sonho é um recurso que tem de ser usado com cautela. Da forma como ficou o texto, perdeu algum interesse.

  14. Elisa Ribeiro
    20 de setembro de 2021

    Malfeitor muito idoso reflete sobre sua vida de crimes e termina por decidir poupar garotinha sequestrada.

    No seu conto a ação iniciada é suspensa por um longo flash back, disfarçado de delírio, que mostra a infância e os primeiros passos no crime do malfeitor protagonista. Não ficou de todo ruim essa postergação da ação no caso da sua narrativa porque o flash back é tão longo que ficou parecendo uma história dentro da história.

    O ponto alto do seu conto para mim é a reviravolta dupla que finaliza seu texto. Primeiro você nos surpreende ao abandonar o tom moralista do final da reflexão do velho retomando o sequestro da menina. Depois, ao final nos surpreende de novo com um fecho de bastante impacto.

    Parabéns pela participação. Desejo sorte no desafio e em tudo mais. Um abraço .

  15. Jowilton Amaral da Costa
    20 de setembro de 2021

    Ambientação: Achei a ambientação confusa. A primeira vista achei que se tratava de um dono de escravos, e que a história se passaria no passado. No entanto, o conto parece que se passa nos dias atuais.

    Enredo: O enredo não me convenceu muito. O protagonista tem uma viagem no tempo, durante um sonho e se ver novamente como criança, mas com a mente do homem que é no presente, depois dessa viagem ele tenta expurgar os pecados de sua vida, ou algo assim. Achei algumas descrições muito dramáticas, chegando a pieguice, o que enfraqueceu o texto para mim. O final, como numa reviravolta, não funcionou comigo.

    Técnica: A técnica é competente, a leitura fluiu sem nenhum entrave. O modo como foi contada a história é que me incomodou, como disse antes, com a questão do drama exagerado, além disso, os clichês inseridos na história não foram bem executados, por conta da forçada de barra que ocorre.

    Considerações Gerais: Um conto médio, bem escrito que gerou em mim um impacto pequeno.

  16. Angelo Rodrigues
    19 de setembro de 2021

    16 – De Volta a Fogueira

    Conto tomado por reminiscências. Um velhusco faz uma viagem algo lisérgica e se encontra novamente em torno de uma fogueira comendo babatas doces com “amigos” de infância.
    Acho que o conto passa tempo demais com questões infantis, que não fazem desenvolver a trama, que não conduzem necessariamente a um lugar de tensão.
    Há no texto coisas pouco recomendadas para gerar interesse, particularmente clichês acerca de pobreza e atos bandidos. Refiro-me a surrupiar a caixinha de ofertas da igreja. Não é relevante, não implica em comportamento moral futuro, e assim sendo, não deve tomar o tempo do leitor.
    Notei neste certame que fartou a ideia de que a criminalidade se está por completo associada à pobreza, quase numa linha direta. Um erro. De modo geral a pobreza só gera mais pobreza, não necessariamente o crime e do crime à riqueza de quem o pratica.
    Realmente fiquei em dúvida se o autor estava contar uma história a sério. As cenas que se seguem às defecações do protagonista são tão desnecessárias a levar a trama adiante que me surpreenderam pela banalidade. Pão com mortadela. Acho que o conto merecia mais, o leitor merecia mais.
    Boa sorte no desafio.

  17. Fabio D'Oliveira
    18 de setembro de 2021

    Buenas, Alexandre!

    Nesse desafio, irei avaliar três fatores: aparência, essência e considerações pessoais.

    O que ele veste, o que ele comunica e o que eu vejo.

    É uma visão particular, claro, mas procuro ser sincero e objetivo. E o intuito é tentar entender o texto em sua totalidade, mesmo falhando miseravelmente, hahaha.

    Vamos lá!

    APARÊNCIA

    Costumo fazer uma leitura dinâmica antes de abraçar o conto. E, durante essa primeira leitura, já percebi o esmero que você teve na hora de escrevê-lo.

    Existe uma preocupação constante em ser correto e deixar as pontas amarradas. Isso é admirável, pois mostra que você se preocupa com o leitor. Às vezes, porém, ela se torna excessiva, ocasionando algumas repetições de ideias; como o reforço de que, mesmo tendo um retorno onírico para o passado e refletindo sobre suas decisões, o protagonista não mudaria.

    Esse tipo de reforço, quando repetido várias vezes, acaba quebrando o ritmo da leitura. O leitor pode ficar cansado e distraído. Eu me senti assim, infelizmente.

    Aliás, se almeja um estilo mais ágil, consideraria simplificar alguns trechos, como a abertura do conto. Ao invés de justificar o que aconteceria com a menina naquele ponto, deixaria apenas a primeira parte, com algo do tipo: “mandei trazer a menina para a sala”. E, somente depois da apresentação dela, revelar seu destino cruel. Por quê? Com essa abertura, durante a apresentação da menina, o leitor já está um pouco distraído com a informação anterior, procurando sua justificativa. Inserir esse tipo de informação com sutileza pode tornar a leitura mais prazerosa, sabe? Você não precisa falar que vai vendê-la, apenas sugerir. E no tempo certo. Isso basta para o leitor, em geral, e deixa o texto mais limpo.

    Não tenho nenhuma sugestão de revisão. Não encontrei nenhum problema. A escrita não é perfeita, mas ela tem certa maturidade. Está correta e bem conduzida, no geral. E o que considero extremamente importante: você sabe mostrar e contar dentro das necessidades do conto.

    Para mim, os problemas estão relacionados com algumas das suas decisões narrativas, não com seu potencial de escrita.

    ESSÊNCIA

    Num tom panfletário, acompanhamos as reminiscências de um verdadeiro filho da puta. Ele é tão egoísta que, mesmo depois da viagem onírica e das reflexões sobre a vida, ele amoleceu somente quando pensou no que poderia ter sido se tivesse agido diferente. Não é a empatia que o fez libertar a menina. Foi a autopiedade. Tanto que, num ponto, ele chama o ato de misericórdia de recaída. Ele não mudou. Ainda é a pessoa que sempre foi. Apenas fraquejou. Procurou satisfazer a si mesmo. Cansado daquilo tudo, talvez. Tentando ser alguém que não era.

    Faz sentido, dentro da proposta do enredo.

    Entretanto, devo admitir que a viagem ao passado, mesmo sendo extremamente atraente por ter acontecido através da via onírica, pareceu-me um pouco despropositada. Eu fiquei esperando um gatilho que explicasse o motivo dele ter amolecido com aquela menina em específico. Algo pessoal, que justificasse seu egoísmo e as reminiscências. Talvez uma irmã. Uma filha ou afilhada. Alguém que foi importante para ele. Se existe uma justificativa para o passado ter ajudado a tomar a decisão de soltá-la (parece que ele não aprendeu nada, repetindo os mesmos erros), não capturei, desculpe. Pode ser falha minha.

    Em contrapartida, achei o final maravilhoso. Fortificou o caráter podre do protagonista. E, ao mesmo tempo, balançou o leitor. Saiu da zona comum. Sou péssimo com finais, então admiro quando conseguem fechar perfeitamente.

    Sobre o tom panfletário, não encaro isso como um problema. É uma escolha do autor. Vai soar moralista para alguns. E vai fazer muito sentido para quem estiver alinhado com seu pensamento. Procuro sempre respeitar isso.

    CONSIDERAÇÕES PESSOAIS

    Mesmo com as ressalvas, eu gostei bastante do conto.

    Eu amo viagens oníricas, e, mesmo não curtindo o tom panfletário, foi uma leitura agradável. Além disso, achei a construção do protagonista excelente. Um personagem de fibra, sólido mesmo.

    Você é habilidoso, Alexandre. Continue escrevendo e melhorando. Explore o cinismo. Você parece ter jeito para esse tipo de texto.

    Parabéns pelo trabalho!

  18. Wilson Barros
    17 de setembro de 2021

    Uma fuga da realidade, quando “As recordações rebobinadas” “se transformaram em imagens de um passado longínquo”. Por “metempsicose”, temos uma espécie de “flashback”, ou “analepsis”, como nos episódios de Lost, recurso também usado e abusado nos livros de Sidney Sheldon. Entretanto, aqui, o personagem literalmente revive o que já viveu, como nos “efeitos borboleta”, o que é muito mais raro e tem muito mais intensidade narrativa.
    O enredo, bem tramado, relaciona a mãe da menina à mãe do traficante, e dá no que dá. Pior que sobra principalmente para o motorista, que não sabia manter a boca fechada.
    Tudo muito interessante, recomendo.

  19. thiagocastrosouza
    13 de setembro de 2021

    Alexandre, o conto é constituído pelas reflexões de um velho sequestrador diante do seu passado, sua infância com os amigos, a relação com a família e a miséria que o fizeram ser o que é; um bandido impiedoso. Há, nesse passeio onírico, uma oportunidade interessante de desenvolver o personagem que, com a consciência de velho, visita as passagens de sua infância. No entanto, a maneira escreveu o conto ficou um tanto pragmática e relatorial, no sentido de que o narrador acaba sendo muito direto, quando não informativo demais. Há também uma questão que me incomoda quando aparece com muita frequência em um conto: o excesso de perguntas. Para mim, a sensação é de que, ao invés do personagem, quem faz as perguntas é o autor, tentando escrever, tentando responder para o leitor aquilo que ele precisa saber sobre o estado pessoal do seu protagonista. Isso tira um pouco da sutileza de um texto que, ao meu ver, quase não apresenta erros ortográficos. Em determinado ponto, próximo do final, quase que o conto assume uma postura moralista na voz do narrador, do tipo “o crime não compensa”.

    Sendo assim, há poucas nuances neste personagem, de tal maneira que a virada final seja bastante confortável e até previsível, pois desde o início a garota sequestrada é retratada como vítima, como alvo de piedade do narrador, retratada com palavras no diminutivo, que dão essa impressão (rostinho, branquinho, sapatinho, mãozinhas).

    Achei o tiro no capanga uma virada interessante, embora abrupta, pois pareceu muita imprudência o capanga, conhecendo seu patrão, fazer esse tipo de pergunta. Porém, estilizou o fechamento.

    Boa sorte!

  20. Antonio Stegues Batista
    4 de setembro de 2021

    De Volta a Fogueira- é a história de um criminoso, traficante de pessoas, depois de velho, decide libertar uma refém. Achei que algumas ações ficaram fora de esquadro, porém, em sonhos tudo é possível e o normal se torna bizarro. Foi quando o velho sonha ter voltado a ser criança e um colega conta a história de um monstro cósmico que carrega um bandido para um buraco-negro. Seria uma premonição sobre a vida do criminoso, ou algo assim. Achei um enredo médio, narrativa com altos e baixos, ambientação nebulosa já que a realidade se mistura com sonho e o motivo empregado não foi de todo perfeito. Ficou meio rude essa parte. Boa sorte.

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Publicado às 2 de setembro de 2021 por em Foras da Lei e marcado .
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