EntreContos

Detox Literário.

Marijuana é Espanhol (Chapadinho)

— Cara, tu acha que rola ali?

— Tem que ver.

— Meio foda.

— O meu, mas ali é tipo uma praça legalizada, vão os pinta da heroína, do crack, me falaram que tem até uns enfermeiros distribuindo seringa e tal.

Descemos daquele apezinho que o Ângelo morava no subúrbio de Hamburgo. Eu já tava há dois meses sem dar sequer um peguinha. Chegamos numa pracinha cabreira, cheia das criaturas da noite: uns fumando crack, uns dando teco, uns injetando. Alguns policiais de longe só no visual, uma galera tipo agente de saúde, redução de danos e talecoisa na volta. Essas paradas que os europeus inventam de proteção dos noia. E nós lá, só querendo achar um da massa.

O Ângelo afobado se atirou para o primeiro que viu:

— Hey, man! Do you know where can I buy marijuana, weed, pot?

— O cara entendeu, meu. Tu sabe falar maconha em quantas línguas?

— Só falei em inglês.

— Marijuana é espanhol.

Era um sujeito de jaqueta do Guns n´Roses, com uma cruz tatuada na cara, uns ferros pontudos saindo da cabeça e os dentes podres. Não dava pra ver se era meio fora da casa ou tava fritando ou era um pouco de cada coisa:

— Follow me, please. — O magrão disse e saiu na nossa frente.

— Da onde que tu tirou de perguntar pra esse aí?

— Ué, o cara deve saber onde tem, pediu pra gente ir de atrás.

Saímos da praça dos viciados e entramos nuns beco brabo, fosse no Brasil eu já tava me cagando, mas a gente tava na Alemanha, saca?

— One stay here and the other come with me.

Ângelo e eu nos olhamos:

— Eu vou com o cara, brou.

O Ângelo sempre me diz que tem medo que uma hora eu entre numa fria por excesso de coragem. Ele ficou parado embaixo da luz de um poste e eu segui o maluco dos ferros na cabeça. Entramos num prédio todo fudido, umas minas vomitadas sentadas na calçada, chegamos ao segundo andar e ele bateu na porta em código: tun, turuntun tun tun.

Um sujeito barbudo meio Osama Bin Laden, meio Paulo Freire abriu a porta com um beck no canto da boca. Eles se cumprimentaram em um idioma que eu não consegui identificar, acho que era lá dos lados do Oriente Médio: árabe, turco, persa. Lá prasquelas bandas.

Dentro do apartamento, uns dez cabeças atirados nos sofás, mais pra mortos do que pra vivos, se saíssem juntos e o cara encontrasse naquela rua onde o Ângelo tinha ficado, ia achar que tinha começado o apocalipse zumbi. Pratos com heroína ou cocaína diluída em cima da mesa, copos com sangue, seringas, fedor de vômito, peido, crack, maconha, asa. O dono do lugar olhou pra mim e começou a xingar o cara que tinha me trazido. Dois baita cachorro pit bull vieram me cheirar.

— He is angry because you are here — disse o meu amigo dos ferros na cabeça;

— I got it, so how can I leave? — Naquela altura tudo que eu queria era vazar, maluco.

Nisso, um dos junkie pegou um copo cheio de sangue da mina do lado dele e bebeu tudo, aquilo não eram zumbis, eram vampiros. E os dois lá, discutindo naquela língua do Saddam Hussein e os pit bull querendo meu bife. O dono da casa abriu a porta e disse umas merdas apontando para a rua:

— Alans sallan maliin maluco! — O magrão que tinha me trazido saiu e eu vazei de atrás.

Descemos as escadas até a rua em silêncio. O Ângelo me abraçou quando cheguei na rua:

— Graças a Deus, meu! Eu já tava quase ligando pra polícia.

Demos uns cinco euros pro magrão e saímos a passo rápido pro centro da cidade:

— Bah, Ângelo, que cagada, tomar uma cevinha pra relaxar?

— Em casa, poramor de Deus.

— Só me deixa comprar um Marlboro vermelho antes.

11 comentários em “Marijuana é Espanhol (Chapadinho)

  1. Júlio Alves
    17 de setembro de 2021

    Um conto que seria interessante se não tivesse uma ideia intrínseca que ultrapassa a experiência e cai em um julgamento ora moralista (ex: o estado decrépito da população dependente química e as atitudes do estrangeiro) ora racial (ex: a dicotomia Brasil-alemanha; os vampiros orientais) que me faz questionar qual seria o intuito da narrativa senão um panfleto antidrogas.

    Ao mesmo tempo, e dizendo isto como uma pessoa que conhece ambientes similares ao descrito no conto *só que deste lado do globo*, o conto flui numa ideia de primeira impressão (o que não condiz com a personagem protagonista, visto que me parece mais experiente nos assuntos).

    A narrativa episódica sem norte poderia não ser um problema se houvesse um fecho narrativo senão o da compra da maconha (que deveria ser acompanhada de ressalvas (visto que a protagonista é usuária e saberia que de nada tem a ver a Mari com heroína, por exemplo, ainda mais em uma leitura norte-europeia da questão).

    Enfim, o autor me soa temeroso em encarar os próprios conceitos sobre um mundo que parece não conhecer bem.

    As gírias deixaram o texto careta também. Não tanto as paulistas (que ficaram muito boas por sinais), mas as outras.

    O inglês também tá quadrado, mas até aí tudo bem, somos all brazileiros.

    Parabéns pelo conto.

  2. misapulhes
    15 de setembro de 2021

    Olá, Chapadinho.

    Resumo: narrador protagonista e seu amigo procuram comprar drogas num local desconhecido, na Alemanha, e se metem numa enrascada.

    Considerações: O autor domina essa linguagem informal. E, apesar de mais leve, o texto me soava como com potencial para algo maior. De repente, com a incursão naquele beco, minha expectativa foi frustrada e o texto soou um pouco raso.

    É um relato, com aparência de crônica, divertida, leve, mas, como dito, rasa no meu ver.

    Boa sorte no concurso!

  3. Marcia Dias
    14 de setembro de 2021

    Parece-me um relato do que realmente aconteceu ou poderia ter acontecido, mas retratado sem o “nocaute” que o conto precisa ter, embora o texto tenha elementos para isso: a aventura de brasileiros na tentativa de comprar um baseado na Alemanha. Os acontecimentos ficaram um pouco soltos na trama, sem força e/ou um porquê.

  4. Elisa Ribeiro
    13 de setembro de 2021

    Dois rapazes atrás de um beck em Berlim se envolvem com pessoas estranhas e quase se dão mal.

    Sua narrativa foi eficiente em me manter engajada na leitura, seus personagens são críveis e, apesar de esquisitões, me cativaran (até o alemão). A ambientação me fez lembrar o filme O Albergue. O enredo, embora promissor, restou pouco desenvolvido resultando em uma história que mais parece o relato de uma desventura entre amigos do que um conto. Não é ruim, mas deixa a desejar no que se refere ao impacto.

    Por fim, destaco a linguagem coloquial, muito bem empregada e adequada à história narrada, para mim, o ponto alto do trabalho que você apresentou.

    Desejo sorte no desafio e em tudo mais. Um abraço.

  5. Andre Brizola
    13 de setembro de 2021

    Olá, Chapadinho!

    O ponto que chama mais a atenção no seu texto é o linguajar. A maneira como foi utilizado, sozinho, já consegue dar uma cara para os personagens, para o ambiente e até para a situação toda. É possível imaginar, dentro do conjunto das minhas experiências pessoais, tudo o que acontece, e isso favorece o desenvolvimento do enredo. Achei que foi uma escolha sábia, pois eliminou a necessidade de descrições mais profundas e deixou o ritmo muito fluido, facilitando a leitura. Por outro lado, acredito que da mesma forma que eu tive facilidade em imaginar tudo, outras pessoas terão dificuldade.

    Sobre o enredo devo dizer que fiquei um pouco decepcionado. Na prática, é basicamente a ação de comprar drogas, executada por uma dupla de brasileiros na Alemanha. Achei que a participação do personagem Ângelo é muito pequena, senão desnecessária, e que tudo ocorre muito rápido e fácil. Na cena com os cachorros, o árabe e os vampiros, achei que faltou tensão. Pra mim, uma cena dessas deveria ser assustadora, preocupante, mas o personagem não demonstra nada disso, e parece mais interessado em fazer metáforas estranhas/cômicas.

    No geral, acredito que o conto precisava de maior cuidado, pois muitas coisas poderiam ter sido melhor apresentadas. A compra da droga, por exemplo, fica sem explicação, pois eles vão ao apartamento, mas em nenhum momento é dito se conseguiram a droga ou não. Isso fica meio implícito, pelo pagamento ao “magrão”, mas era todo o objetivo da dupla de brasileiros, e torna-se algo indiferente no final.

    É isso. Boa sorte no desafio!

  6. claudiaangst
    8 de setembro de 2021

    O conto abordou o tema proposto pelo desafio.
    O ritmo da narrativa e bom e o diálogo agiliza a leitura.
    A linguagem empregada condiz com os personagens, lançando mão de gírias para tornar o diálogo entre os amigos mais verossímil.
    Achei a trama um tanto rasa, mas acredito que a intenção do autor foi entregar um texto mais descontraído e menos focado em apresentar um enredo com camadas de significado.
    Parabéns pela participação e boa sorte no desafio.

  7. Luciana Merley
    8 de setembro de 2021

    Marijuana é Espanhol

    Olá.

    “Quem não guenta, bebe leite”, eu diria para esses dois medrosos (rsrs).
    Me pareceu um conto sem muita preocupação com subtexto, feito mesmo para ser descontraído e leve.

    Coesão – A cena descrita é fácil de entender e não gerou grandes conflitos. Só achei que a razão de eles terem sido convidados a entrar e depois expulsos sem a encomenda, não combinou muito bem. A não ser que eu tenha perdido alguma sacada do texto.

    Ritmo – É curto e o texto é de leitura rápida, sem grandes problemas. A linguagem é bastante coloquial, destacando as gírias dos personagens.

    Impacto – Me diverti lendo, especialmente por imaginar os dois se borrando quando de frente a um perigo muito real. Me fez lembrar do contexto complicado em que a Europa está se metendo ao aderir a um multiculturalismo desenfreado e a essa coisa de pegar muito leve com o uso de drogas.

    Um abraço.

  8. thiagocastrosouza
    1 de setembro de 2021

    O tema do desafio está contemplado na tentativa de dois brasileiros tentarem comprar droga no estrangeiro. Contudo, a trama é tão episódica que pouco explora algum conflito dentro do enredo, como um “causo” meio solto, bastante estilizado na maneira de contar, pelo vocabulário, o uso de gírias e expressões em língua estrangeira assim como a descrição cômica e gore da situação. Contudo, pela ausência de perigo real no conto, ele passou um pouco indiferente para esse leitor.

    Grande abraço!

  9. Emanuel Maurin
    22 de agosto de 2021

    Olá, Chapadinho.
    Achei as gírias bem forçadas, a trama é linear e não passa nenhuma emoção. O conto acaba e fica uma sensação de não ter acontecido nada a mais que um simples relato.

  10. Antonio Stegues Batista
    21 de agosto de 2021

    Marijuana é espanhol

    É a história de alguém que leva um amigo turista a conhecer a boca-de-fumo local, ou seja, Hamburgo, Alemanha. Lá ou aqui, no Brasil, o cenário, a química, os zumbis são os mesmos, então, não fez diferença a ambientação, não teve nenhuma novidade. Não entendi o mote do conto. Enredo, escrita, ambientação, regular. Pena que não aconteceu mais nada, havia espaço para acrescentar mais algumas curtidas por Hamburgo, algumas aventuras surreais. Falhou. Marijuana vem do espanhol, marihuana, o h como r na pronúncia. Maria Joana é lenda. Boa sorte.

  11. Cilas Medi
    21 de agosto de 2021

    Fuja de vampiro viciado… excelente como forma de avisar aos incautos. Parabéns!!!

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Informação

Publicado em 21 de agosto de 2021 por em Foras da Lei.