EntreContos

Detox Literário.

Tão perto da água, tão longe do céu (Brás Cubas)

Era hipnotizante.

As ondas batiam forte nas pedras. A espuma branca era o único toque de cor, ou a ausência dela, na imensidão cinza. Tudo era acinzentado. Continuava olhando incansável para a água. O impulso de pular era forte. Tanto que cravava as unhas no barranco.

Acordou com o gosto da maresia na garganta, os dedos duros de tanto apertar os lençóis.

Levantou, os olhos ainda inchados e desacostumados com a luz que penetrava a cortina. Calçou os chinelos, foi ao banheiro, esvaziou a bexiga, lavou as mãos e jogou água gelada no rosto. Encarou o espelho. Olheiras fundas e escuras, bochechas encovadas, boca descarnada, cabelos opacos e ralos. Parecia a própria morte.

Segurou firme a caneca de café. Prometeu que hoje seria diferente. Não iria à praia. Não olharia para o oceano.

Não seria tentado.

Precisava se ocupar. Capinou o jardim, queimou as ervas daninhas, rachou lenha para a lareira, comeu pão com uma fatia generosa de queijo, bebeu mais café, limpou tudo meticulosamente. Andou até cansar no sentido contrário do oceano, mas de alguma forma acabou retornando ao local da partida. Tomou banho e folheou o único livro que havia na casa, que ficava ao lado da poltrona. Olhou no relógio, ainda faltavam algumas horas para o anoitecer.

A inquietação foi aumentando, precisava contemplar as ondas, como sempre fazia.

Era uma necessidade.

Se rendeu e caminhou cegamente até lá. Tentando entender, achar uma saída. De qualquer forma, sempre acabava lá, naquele barranco, olhando para as águas, resistindo ao impulso de se jogar.

Sabia qual era a sensação. Já havia pulado antes. Sempre pulava. Mas resistia o quanto podia. Olhava a imensidão cinza, procurando as aves. Gostava delas, voavam tão livres. Tão longe da água, tão perto do céu. Representavam o que podia ter tido, se não fosse tão fraco.

Suspirava e cravava os dedos no barranco, imaginando que se o sol estivesse brilhando talvez conseguisse resistir. Ou se alguém o esperasse em casa.

Ou… se tivesse resistido da primeira vez…

A primeira vez foi a mais difícil. A única em que teve realmente uma escolha. Tudo mudou depois. Lembrava vagamente de antes. As cores, os sorrisos, os abraços, as lágrimas, muitas lágrimas, gritos, dedos apontados, brigas, muitas brigas, um olho roxo, olhando com descrença e horror bem fundo em seus olhos enevoados pelo álcool. Mas não importava mais.

Havia tentado de tudo para voltar naquele dia. Com certeza não pularia. Mas era impossível.

Resignado, levantava-se devagar e, ainda tentando resistir, se jogava displicente na água. A primeira sensação era o choque gelado que rompia a água e o fazia mergulhar fundo.

Abria os olhos. A escuridão o encarava e pontos esparsos de luz dançavam na ondulação da água. O sal invadindo seus pulmões. O medo explodindo sua mente.

Por quê?

Fechava os olhos e aceitava seu destino.

Ao abri-los novamente, estava na cama. A garganta cheia de sal e os dedos apertando os lençóis.

Mais um dia. Exatamente igual. Sem chance de mudança. Estava preso no limbo.

Eternamente.

E Então? O que achou?

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Informação

Publicado em 5 de julho de 2021 por em Minicontos 2021, Minicontos 2021 - Grupo Chihuahua.