EntreContos

Detox Literário.

Sobre Asteroides e Pontes (Fabio D’Oliveira)

É uma verdade universal de que o som não se propaga no espaço sideral.

Ninguém ouviu seu nascimento, mas ele chorou de qualquer forma. A vida é isso: comunicação. Mesmo quando ninguém escuta.

Seu nome era Carvalho. Pois, desde pequenino, gostava de ficar perto das árvores. Tinha uma família grande e amorosa. Entretanto, quando completou quinze anos, ele decidiu se mudar. Era natural aprender a viver sozinho.

“Todo ser humano é uma ilha. Alguns são solitários, outros vivem em arquipélagos. Descubra quem você é”, seus pais escreveram no bilhete de despedida.

Viajava pelo cosmos num asteroide.

Era sempre frio. Um pouco de verde. Um tanto de rocha. Casa de madeira e muitas estrelas para contar. Gostava da rotina. Era estável. Sempre que podia, ele construía algo novo, visando edificar seu lar. Tinha um apreço especial pela única árvore do quintal. Mesmo sendo velhinha, ela era robusta e frondosa, assegurando o coração do jovem.

Não gostava muito de mudanças. Então estranhou quando aquele asteroide inusitado se avizinhou. Clima de primavera. Muito verde, muitas flores. E uma cabaninha charmosa.

Viajando em paralelo, tornaram-se irmãos.

Curioso, o rapaz sentou no sopé da árvore e esperou. Imaginou que a distância natural impediria qualquer tipo de contato prolongado. Acreditava nisso. Até ela aparecer.

Sentou-se no meio do jardim de girassóis. E sorriu.

A partir daquele dia, a vida ganhou novas cores. Trocavam gestos, risos e desenhos. Ela era doce. E sempre tinha uma jarrinha de mel na mão.

Conforme amadurecia, Carvalho explorava sua vocação: a carpintaria. Mexer com madeira, transformá-la, enchia-o de realização. Puro e sincero fascínio. Enquanto isso, Mel fortalecia seus laços com os girassóis. Uma florista nata. Podia abraçar suas flores, que cresciam em proporção ao amor dado.

Com o passar dos anos, o jovem se apaixonou pela doce garota que distribuía sorrisos todas as manhãs. Agora mulher. Mas não sabia como alcançá-la. Tão perto, tão longe.

Apesar disso, nunca se sentiu sozinho. Estava sempre pertinho da velha árvore. Às vezes, deitado em seus galhos, observando as folhagens num vaivém suave, confessava tudo o que sentia. Era sua melhor amiga. Sincera e atenciosa.

Um dia, ele sonhou com um campo infinito. Verde-esmeralda. Estrelas cadentes enfeitando o horizonte. E ouviu pela primeira vez na vida.

“Quero que seja feliz. Use-me para se conectar.”

Ainda de olhos fechados, soube que a árvore tinha partido. Para sempre. Chorou na cama. De luto, aproximou-se do tronco caído e, num carinho demorado, agradeceu por tudo.

Transformou: os alicerces, as âncoras, as tábuas. Cinzel na mão, farpas no coração, olhos no futuro.

Quando Mel saiu de casa, toda cheirosa e arrumada, surpreendeu-se com a ponte. Tímida, aproximou-se devagar, pisando na madeira para testá-la. Arriscou. Era firme. Apoiando-se no guarda-corpo, a jovem começou a travessia, mas estancou na metade do caminho. Estava com medo. Porém, não precisou continuar sozinha. Todo bagunçado e sujo, Carvalho já estava na sua frente.

As mãos se encontraram, os dedos se entrelaçaram e os corações se enterneceram.

19 comentários em “Sobre Asteroides e Pontes (Fabio D’Oliveira)

  1. Elisabeth Lorena
    24 de julho de 2021

    Sobre Asteroides e Pontes
    A ideia de ilha, muros e pontes para definir relacionamentos é poetizada nessa prosa deliciosa.
    Sucesso no Desafio.

  2. Ana Carolina Machado
    18 de julho de 2021

    Oiiii. Um miniconto poético sobre uma árvore que se sacrifica para que Carvalho e Mel possam ficar juntos, pois foi por meio da ponte feita com a madeira que eles puderam ficar juntinhos um do outros, pois antes eles estavam perto e ao mesmo tempo longe. Foi interessante também como apesar dos dois terem mundos completamente diferentes o amor brotou entre eles, como uma flor que desabrocha na Primavera . Parabéns pelo texto e boa sorte no desafio.

  3. Matheus Pacheco
    18 de julho de 2021

    Resumo: História um pouco confusa, era a história de Carvalho, um jovem que aos 15 anos queria se virar sozinho, saiu ao universo e voltou, sempre tento um apreço muito grande pela árvore de seu quintal, conheceu uma jovem, encontrou o amor, a árvore morreu e eles ficaram juntos.

    Coisas que gostei: Gostei muito do desenvolvimento do texto, adorei a história e todo impacto emocional, desde o apreço à árvore, à vontade de sair, conhecer o mundo e se apaixonar.

    Coisas que não gostei: Gostei do texto em sua totalidade.

  4. Andre Brizola
    17 de julho de 2021

    Olá, Quercus!

    Um conto muito bonito e muito bem escrito. É incrível como tanto foi dito em tão poucas palavras. Mérito muito grande do autor, que conseguiu transmitir muita informação em tão pouco espaço.

    No meu entender o ponto alto do conto é a caracterização de Carvalho. O conto gira em torno dele, então era de se esperar que o personagem tivesse mais cores e detalhes que o restante. E acredito que isso foi um acerto, pois Carvalho tem realmente todas as cores e detalhes.

    O texto tem termos e construções muito bonitas e poéticas. Não notei nenhum deslize gramatical que me tirasse do rumo da leitura. O ritmo deixa o conto com uma leveza e o torna muito fácil e agradável. Parece a narração de um mundo perfeito, onde tudo está ao nosso alcance.

    Meu único senão é no penúltimo parágrafo, quando Mel torna-se a referência do conto. É do ponto de vista dela que vemos o final, e achei que essa mudança ficou um pouco drástica. Talvez tivesse que ser assim, não sei qual foi a intenção do autor, mas depois de acompanhar Carvalho em todo o conto, fiquei meio decepcionado de não estar lá com ele no ápice do enredo. Mas é um detalhe negativo no meio de vários outros positivos.

    É isso, boa sorte no desafio!

  5. Fabiano Sorbara
    16 de julho de 2021

    Poucas palavras bastou para criar a jornada de independência e vida do personagem. O conto é bem lúdico e visual, além de ter forte influência de surrealismo, em algum momento lembrei do livro O Pequeno Príncipe.
    Usar parágrafos curtos colaborou para a narrativa ter fluidez. Isso é bom, porque o cenário criado é incomum, assim o meu entendimento deste universo ficou mais fácil. Apresentar, um mundo fora dos padrões foi uma ousadia que gostei.

  6. Catarina Cunha
    16 de julho de 2021

    MINI – O (a) autor (a) brinca com o fantástico e a filosofia de vida com domínio total. Não há gordura, mas um complexo jogo de palavras.

    CONTO – Fiquei meio boiando com a função do asteroide, mas valeu pela sacada da ponte. Ficou fofo.

    DESTAQUE – “A vida é isso: comunicação. Mesmo quando ninguém escuta.” Acho que vou ficar com essas frases na cabeça por um bom tempo.

  7. Regina Ruth Rincon Caires
    15 de julho de 2021

    Sobre Asteroides e Pontes (Quercus)

    Comentário:

    De início, confesso que via seu texto na toada do Pequeno Príncipe. E não perdeu o encanto, de jeito nenhum. Mas ganhou outro jeito do meio pra frente (na minha assimilação). Texto doce, leve, sereno.

    Interessante o pseudônimo. Fui pesquisar, mas não posso afirmar que o autor tenha dado este sentido, pode ser um arranjo de iniciais. Mas, se foi intencional, acredito que seja um texto de colega lusitano.

    “Quercus: É uma associação independente, apartidária, de âmbito nacional, sem fins lucrativos e constituída por cidadãos que se juntaram em torno do mesmo interesse pela Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais e na Defesa do Ambiente em geral, numa perspectiva de desenvolvimento sustentado.”

    O texto é muito poético. Mais um, deste desafio, que “brinca” com mel, com flores, doçura, natureza. Um primor!

    A linguagem, além de poética, é limpa, competente. Escrita impecável. A leitura traz prazer, faz a imaginação voar.

    Parabéns, Quercus!

    Boa sorte no desafio!

    Abraços…

  8. DAYANNE DE LIMA PINHEIRO
    15 de julho de 2021

    É um conto sobre sair de seu próprio universo particular e se abrir para conhecer nossos horizontes. Gostei do simbolismo! Sucesso!

  9. Fernanda Caleffi Barbetta
    13 de julho de 2021

    Olá, Quercus, o seu texto tem uma mensagem muito bonita. Achei o final, com a história da ponte, muito bom.
    Na minha opinião, houve um exagero de informações, de conflitos, acontecimentos em um texto curto. Talvez ele merecesse mais espaço para que você pudesse trabalhar melhor cada situação.

    “É uma verdade universal de (colocar o “a” antes do “de” ou tirar o “de”) que”

    “Ninguém ouviu seu nascimento, mas ele chorou de qualquer forma” – não entendi a relação de uma coisa com outra… ele não deveria chorar por que ninguém estava ouvindo o seu nascimento? Ele sabia que ninguém estaria ouvindo seu nascimento? Não entendi.

    “Seu nome era Carvalho. Pois, desde pequenino, gostava de ficar perto das árvores.” – o nome não veio antes dele gostar de ficar perto das árvores?

    Primeiro a informação de que “Era sempre frio. Um pouco de verde”, logo em seguida você diz que havia muito verde.

    Em alguns pontos o texto se torna confuso. A informação “Viajando em paralelo, tornaram-se irmãos” antes de dizer que se encontraram, não fez sentido. A não ser que eu não tenha entendido alguma coisa.

  10. Paulo Luís Ferreira
    12 de julho de 2021

    Resumo: Criança que vive à sombra de um carvalho, do qual lhe empresta o nome, na adolescência decide-se por viver aquele mundo fantasioso em outros cenários.
    Gramática: Nada que a desabone. Uma linguagem impecável.
    Comentário: Um conto fantasia em uma temática infanto/juvenil. Narrativa fluída e elegante, entremeada de belíssimas imagens. E outros personagens: asteroides, girassóis e floristas. Um conto bonito, suave, poético, muito agradável de se ler. Desfecho não há, apenas complemento.

  11. Kelly Hatanaka
    11 de julho de 2021

    Oi Quercus.

    Uma bonita história de amor em forma de parábola.

    Carvalho e Mel habitam solitários seus próprios asteróides, cada um vivendo em seu próprio mundo. Como todos nós. Lá pelas tantas, uma perda possibilita que Carvalho construa uma ponte entre eles, o que os une.

    Faz pensar. Será necessário uma perda para que possamos construir pontes?

    Muito bom!

  12. Giovani Roehrs Gelati
    11 de julho de 2021

    Conto razoável. Lê-lo deu-me a impressão de fazer uma suave alusão ao Pequeno Príncipe. Pode não ter sido a intenção do autor, mas as metáforas utilizadas deram essa sensação. Isso torna tudo um tanto mais difícil, pois um clássico da literatura ser parodiado/referenciado é difícil para o escritor e impossível não comparar para o leitor.
    Não gostei também da origem do nome Carvalho, que se dá no máximo ao nascer, mas foi justificado pelas ações pós-nascimento, o que transparece incoerência.
    Também não gostei de expressões batidas como “família grande e amorosa”, que deixa o texto muito lugar-comum.

  13. Júlio Alves
    10 de julho de 2021

    Gostei da forma como o conto foi narrada, quase como uma descrição biográfica. Não curti o desenvolvimento, não sou muito fã de histórias românticas. Me senti em vários momentos sem entender onde estava nas metáforas, em muitas vezes não sabia qual era a medida delas ou o que significavam.

    No fim, um conto mediano, dá pra ver o controle estético, e principalmente o narrativo.

  14. iolandinhapinheiro
    10 de julho de 2021

    Olá, Quercus.

    Um conto leve, suave, doce e romântico.

    Achei que faltou um conflito que me preocupasse, fora o fato dos pais concordarem de que o filho de apenas quinze anos fosse morar sozinho . Aí fiquei pensando, esse protagonista não deve ser exatamente humano, afinal como uma pessoa viajaria por aí em um asteroide. Talvez o autor quisesse fazer um paralelo à história do Pequeno Príncipe, que não tinha um carvalho, mas baobás.

    Aí surge um outro asteroide e como o dele, também tinha aspecto de um planetinha. com plantas e cabana. Lá vivia uma garota, a companheira perfeita e inalcançável.

    Ficam assim até que a única árvore do planeta dele se suicida para que ele construa uma ponte. Como na história do Pequeno Príncipe também acontece uma auto imolação para favorecer o amor.

    E o casal se forma.

    Gostei mas faltou um pouco de dramaticidade.

    É isso.

    Parabéns pelo conto e sorte no desafio.

  15. Victor O. de Faria
    9 de julho de 2021

    BOI (Base, Ortografia, Interesse)
    B: Texto excelente, mas um tanto obscuro. Tem uma pegada de Pequeno Príncipe nas entrelinhas que agrada. Só que, na minha opinião, ficou subjetivo demais. O lirismo simples agrada, mas é difícil distinguir o que é real do que é apenas fantasia. O texto inteiro tem uma pegada surrealista agradável, mas poucos vão entender seu cerne.
    O: Diferente de outro texto vizinho, aqui a escrita poética é mais simples e cativa justamente por isso. Cria imagens muito bonitas, cheias de sentimentos.
    I: Contudo, é um texto um tanto vazio. É como se fosse uma caixa de bombons toda florida, mas ao abrir, encontramos apenas os papeis sem chocolate por dentro. Não me leve à mal, é um ótimo texto. Mas fala sobre o quê mesmo?
    Nota: 8

  16. claudiaangst
    8 de julho de 2021

    Uma romântica fábula de FC/fantasia? Achei muito bonita a história de Carvalho e Mel que conseguem construir um amor antes da ponte que os ligaria para sempre.
    A linguagem é clara e com um toque de fábula infantil, daquelas narrada a um público constituído de crianças curiosas.
    Por um momento, considerei a leitura mais longa, menos fluída, mas o final compensou tudo. Fofo e feliz.
    Parabéns pela participação e boa sorte no desafio.

  17. Priscila Pereira
    8 de julho de 2021

    Olá, Quercus!
    Que fofo o seu conto! 😍
    Está mais para uma parábola, sobre o ser humano, suas limitações, seus medos e esperanças, sobre a dor e como transforma-la em uma ponte para uma vida melhor.
    Está muito bem escrito e lapidado, cada palavra pensada não só para transmitir o que está acontecendo mas também para trazer beleza e leveza ao conto.
    Você é um verdadeiro artista! O conto evoca imagens lindas!
    Gostei bastante!
    Parabéns!
    Boa sorte! Até mais!

  18. Eduardo Fernandes
    6 de julho de 2021

    Tens uns problemas de lógica no conto. Ele “gostava da rotina e era estável”, mas saiu da casa dos pais com 15 anos, foi morar num asteroide que nunca está no mesmo lugar e sempre que podia construía algo novo? Tipo, este tipo de quebra de construção atrapalha muito um texto. O que falas dele mostra que ele não gosta de rotina nem é estável, percebes?

    O tom do texto é muito infantil, mas fica bem no tipo de conto. A ideia é interessante, talvez um pouco cliché, mas interessante. Acho que ele está bem escrito, apesar precisar de uma revisãozinha.

  19. Anderson Prado
    5 de julho de 2021

    Ser fantástico viaja pelo universo e encontra companhia.

    É um bom conto, um tanto inspirado. Possui boas metáforas e construções, e está escrito com bastante correção. Em “Seu nome era Carvalho. Pois, desde pequenino, gostava de ficar perto das árvores.”, achei estranho o nome (que é algo que antecede o nascimento), referir-se algo algo que ainda estaria por vir (ele gostar “de ficar perto das árvores”). Em “Entretanto, quando completou quinze anos, ele decidiu se mudar.”, o “ele” foi extremamente gratuito, desnecessário.

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Publicado às 5 de julho de 2021 por em Minicontos 2021, Minicontos 2021 - Grupo Pinscher e marcado .
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