EntreContos

Detox Literário.

Bodas, bolhas finas (Simone Lopes Mattos)

Enquanto entravam, a mulher apoiava-se no braço do marido. Havia tempos que não usava saltos, mas escolhera o único sapato que escondia as unhas. Ele corria os olhos pelo ambiente procurando o melhor cenário para a fotografia. A única mesa disponível ficava no meio do salão. Tudo bem, o restaurante pareceria luxuoso de qualquer ângulo. O garçom demorou a trazer-lhes o cardápio e ainda mais a voltar para anotar os pedidos, apesar dos tantos sinais e chamados. 

Ele olhou para a mesa da esquerda, onde três mulheres brindavam com drinques coloridos. A esposa olhou para a da direita, onde um casal sorridente já pedia a conta. Na esquerda, uma das mulheres, a do decote profundo, retribuía o olhar com um sorriso de canto. Ao mesmo tempo, a esposa percebia que o casal da direita saia sem levar uma caixa preta com laço dourado.

As cervejas e saladas chegaram enfim. O cenário estava composto. Fizeram a fotografia das bodas, que ele postou nas redes sociais com a frase: trinta anos não são trinta dias.

Comeram devagar todos os vegetais embebidos no molho de ervas, até os esculpidos na beira dos pratos. Os olhares dele eram para a esquerda, e os dela, para a direita.

― Vou conhecer a toalete.

Ela saiu pela direita com passos vagarosos e no caminho embolsou o objeto esquecido entre as taças do casal. Sentada no vaso sanitário, ela deslizou as mãos sobre o veludo e abriu a caixa como se abrisse um presente. O estojo estava vazio, mas seria uma fina embalagem para colares modestos. Enrolou a fita dourada e guardou tudo na bolsa, junto com alguns guardanapos de papel fino.

Pediram a sobremesa e ele fotografou a flambagem das bananas; e complementou a postagem das bodas, que já havia recebido dezenas de curtidas. 

Ela inspirou o aroma da canela com açúcar queimado. Aprenderia aquela receita para as visitas dos filhos.

Pagaram a conta com o cartão de crédito. 

― Onde ficam os banheiros?

Ela indicou a direção e ele saiu pela esquerda. Na passagem, recebeu e embolsou um bilhete. Reparou que a moça tinha unhas longas que combinavam com o vermelho do vestido.

Em casa, a esposa esquentou o feijão e os bifes do almoço e eles jantaram. O marido leu em voz alta os comentários na postagem recente e mostrou a ela os emoticons de parabéns, enquanto ela lavava louças e arrumava a cozinha.

Na cama de casal, ela namorava o estojo, que agora era seu, mesmo sem o recheio. Imaginava o colar que estava no pescoço da jovem elegante. Esmeralda? Turquesa? Preferiria citrinos.

― O que é isso?

― Ganhei ― ela riu ― a dona esqueceu, ou não quis.

― Voltaria para buscar. Pegar o que não é teu, não deverias.

Ela baixou os olhos e encolheu-se para a direita.

Na esquerda, ele namorava pelo celular, trocava palavras com o novo número de contato. Imaginava o recheio daquele vestido vermelho. 

20 comentários em “Bodas, bolhas finas (Simone Lopes Mattos)

  1. Elisabeth Lorena
    24 de julho de 2021

    Bodas, bolhas finas
    Em uma época de selfies e redes sociais, um casal resolve comemorar só para constar sua Bodas de Pérolas. A mulher se sacia com o vazio de uma caixa comos e satisfaz como casamento vácuo. O homem se deixa levar por sua leviandade e consegue mais uma conquista barata (?) para levar para a cama. A vida monótona segue seu rumo.

  2. Matheus Pacheco
    18 de julho de 2021

    Resumo: A história de um casal que foi comemorar as bodas de 30 anos em um restaurante chiquê, a moça pega um estojo abandonado e o marido paquera uma terceira pelo celular.

    Coisas que gostei: Gostei muito da ambientação e das pegadas da simplicidade de um casal que queria comemorar as bodas.

    Coisas que não gostei: O final eu achei meio méh, tudo bem que dá uma inversão de moralidade nos personagens, mas foi meio, NA MINHA VISÃO, desnecessário pelo ponto de vista da narração.

  3. Fabiano Sorbara
    18 de julho de 2021

    Texto que explorou muito bem a relação entre a realidade da vida e a vida virtual.
    Gostei como a narrativa foi construída e os diálogos colocados na hora certa, apenas pontuando ações importantes para o conto ter sequência.
    Não sei se é uma característica do(a) autor(a) esse foi o conto mais descritivo que li no desafio, não sou muito fã de descrição de cenário ou personagens. Entretanto, nessa obra, talvez por ser rápida, não me incomodou, ao contrário, acredito que a maior parte foi necessário para a história acontecer.
    Obs: Gostei muito do final, infelizmente a hipocrisia é bem real!

  4. RAQUEL ROSA CRUZ
    18 de julho de 2021

    Lindo, sensível, atual, e emocionante!
    A esquerda e a direita, que precisão nos elementos!
    E os recheios? demais!
    Nota 10

  5. Andre Brizola
    18 de julho de 2021

    Olá, Beatrice!

    Gostei do conto, embora o enredo seja algo cruel. Essa realidade atual, em que a aparência na internet vale mais que a vida real é muito dura, ainda mais para os meio-anacrônicos e saudosistas, como eu.

    Eu acho que está bem escrito, e notei apenas um deslize na parte técnica no diálogo na cama de casal, onde faltou pontuação na fala da mulher. De resto acho que o ritmo está muito bem construído, dando fluidez para o enredo.

    E o enredo aborda aquilo que citei antes, a aparência acima da realidade. O casal está mais interessado naquilo que opta por expor e nas compensações materiais ilusórias do que no relacionamento de fato, e isso é demonstrado no conto de forma muito eficiente. Só achei estranho que tal comportamento tenha sido de pessoas que já devem beirar seus cinquenta anos (já que só de casamento são trinta anos). Contudo, ainda é plausível.

    Mas fiquei com uma dúvida. O conto se passa principalmente num restaurante, e é dito que o casal come salada e sobremesa. Mas, chegando em casa, o casal janta. Era essa a ideia de fato? Pergunto porque, como não foi dito que eles comeram o prato principal no restaurante, é até possível que eles estivessem buscando realmente somente a foto da salada e da sobremesa. Se for isso, beleza, mas, mesmo que explicável, prejudicou o conto, pois a dúvida acaba interrompendo a leitura.

    É isso. Boa sorte no desafio.

  6. Catarina Cunha
    17 de julho de 2021

    MINI – A técnica de usar detalhes do cenário , não maçantes, mas que traduzem a natureza dos personagem, não é fácil. Muito bem executada aqui.

    CONTO – Não há inovações ou ousadias. O humor melancólico deu o tom certo nessa pequena pérola do cotidiano.

    DESTAQUE – “Imaginava o recheio daquele vestido vermelho. “ – tudo é uma questão de recheio. Rsrsrs. Boa finalização.

  7. Regina Ruth Rincon Caires
    16 de julho de 2021

    Bodas, bolhas finas (Beatrice)

    Comentário:

    Outro texto que, terminada a leitura, traz um gosto metálico na boca. Realidade triste. A vida como ela é…

    Um primor de escrita, um conto brilhante. A narrativa é bem dosada, descrições antagônicas das ações e pensamentos (rosa/azul) são cuidadosamente feitas e prendem a atenção do leitor. A cada parágrafo, um suspiro de indignação. Quanta dissonância, um desconcerto de destino. Confesso que fiquei consternada.

    O conto tem um enredo perfeito, a escrita é cuidadosa, cada palavra é milimetricamente estudada para ser inserida no texto. A qualidade da descrição e linguagem é tamanha que mexe com os sentimentos do leitor. Pelo menos eu, ao longo da leitura, fui xingando o personagem e me apiedando da esposa iludida. Iludida? Nada. Isso é que dói mais, ela tem consciência. O que os olhos veem, o coração sente. Misericórdia!

    Beatrice, o seu trabalho é dos melhores textos deste desafio, parabéns!

    Boa sorte no desafio!

    Abraços…

  8. DAYANNE DE LIMA PINHEIRO
    15 de julho de 2021

    Em literatura nenhuma escolha de palavras é ou deveria ser aleatória. Dito isto, fiquei inteigada com o uso do “direita/esquerda” no contexto, repetido três vezes. Queria passar alguma mensagem?
    Enfim… Boa sorte.

  9. Giovani Roehrs Gelati
    14 de julho de 2021

    Parabéns pelo conto. Conseguiste juntar uma narrativa envolvente, escrachar a hipocrisia nossa de cada dia, seja dos relacionamentos, seja da honestidade nas pequenas coisas; e as preocupações pequenas e rotineiras da nossa vida nas redes sociais.
    Nada a tirar ou colocar no texto. Excelente.

  10. Ana Carolina Machado
    13 de julho de 2021

    Oiii. Um microconto sobre um casal que está comemorando trinta anos de casados e vão comemorar em um restaurante, mas ao longo da refeição notamos que a atenção de ambos está em outras coisas, a mulher olha para um estojo esquecido e o homem para outra mulher. O texto é uma reflexão sobre relacionamentos que existem somente em fotos e em como o que parece ser felicidade pode esconder muita coisa por trás . Parabéns pelo texto e boa sorte no desafio.

  11. Fernanda Caleffi Barbetta
    13 de julho de 2021

    Olá, Beatrice, que beleza de miniconto. No tamanho certo, nem mais nem menos, divertido, interessante, inteligente. Conta duas histórias em uma, trazendo à tona reflexões sobre o comportamento das pessoas.
    Impressionante como apresentou tanto em um texto curto e descontraído. Adorei. Parabéns.
    Com relação à gramática, apenas algumas vírgulas facultativas que, se colocadas, agilizariam a leitura, mas nada errado, que eu tenha notado.

  12. Paulo Luís Ferreira
    12 de julho de 2021

    Resumo: Casal comemora bodas com almoço em restaurante grã-fino.
    Gramática: Escrita fluída, sem problemas de gramática.
    Comentário: O conto trata de uma comemoração de bodas, por um casal em restaurante classe A. A princípio parece que a narrativa se caminha para uma sátira aos costumes, mas não chega a tanto. O enredo parece que iria dizer mais alguma coisa, mas não disse; ficou a sensação de que ficou pela metade.

  13. Kelly Hatanaka
    11 de julho de 2021

    Olá Beatrice.

    Muito interessante, este retrato ácido desses tempos de exaltação da imagem. Aparentar ser é muito mais importande do que ser. Aparentar comemorar uma união feliz é mais importante do que viver uma união feliz. O restaurante chique é só para ver e ser visto.

    A mulher se diverte com a embalagem de um presente que nem é dela e o homem a trai no dia em que celebravam 30 anos de casamento.

    Além do culto à imagem, o que transparece é também a inveja, o desejo daquilo que não lhe pertence, a vontade daquilo que não se tem. Inveja não é só querer o que é do outro: é também não enxergar o que possui, ou não lhe atribuir valor.

    Excelente!

  14. iolandinhapinheiro
    11 de julho de 2021

    Olá, Beatrice.

    Seu conto é muito sensorial. Comidas, bebidas, luxos, luzes, paqueras, seduções… E você acerta em fazer disso uma experiência agradável, com a riqueza de estímulos que proporciona. O casal comemorando os 30 anos de casados vai a um restaurante fino e aproveita o cenário para tirar fotos. Acho que não tinham verba suficiente para bancar uma festa e fizeram uma comemoração entre estranhos.

    A mulher aproveitando tudo o que há na sua frente para enriquecer o evento até utilizando uma embalagem esquecida numa mesa ao lado, mostra um simulacro de burguesia abastada que eles definitivamente não são.

    A falsidade se estende pelo amor do casal. Até numa ocasião em que deveriam celebrar a união de tantos anos, o homem dá um jeito de conseguir o telefone de uma fulana e nem liga do próprio quarto, com a esposa ao lado.

    Um verdadeiro embuste servido em bandeja de prata.

    Geralmente prefiro dramas. Acho que faltou emoção. Mas para um conto que mostra os fatos tristemente prosaicos de um casamento desgastado, é um conto muito competente.

    Gostei.

    Parabéns pelo excelente execução. Sorte no desafio.

  15. claudiaangst
    10 de julho de 2021

    Um conto que traz uma crítica à superficialidade das relações, à hipocrisia da sociedade que só se interessa em aparentar o perfeito, estando mesmo é mais para medíocre. O casal vive um teatro, como personagens escolhem o figurino certo e o cenário mais glamoroso. O homem logo posta fotos do fino restaurante, dos pratos sofisticados e anuncia as bodas de trinta anos. Um casamento tão vazio quanto a caixa encontrada pela mulher. A embalagem era linda, mas vazia. Acho que entendi a metáfora pretendida.
    Linguagem clara, simples e direta. Narrativa fluída que facilita o andamento da leitura.
    Parabéns pela participação e boa sorte no desafio.

  16. Júlio Alves
    10 de julho de 2021

    Li uma vez, e nessa leitura odiei. Parecia que estava querendo mostrar os acontecimentos apenas por mostrar, daí peguei, encasquetei e li outra vez. Parabéns pelo conto. Pelos detalhes e análise da monogamia (e principalmente de conceitos voltados paraa monogamia heterossexual, né, a queridinha do Ocidente), principalmente quando se tratando da hipocrisia e a construção do status quo e como que são essas duas figuras ensinadas a agir socialmente.

    De ressalvas, nenhuma. Talvez que o conto fosse maior, ou que se explicasse mais as atitudes do homem (dentro dos mesmos moldes da outra personagem), mas é aquilo, eu que lide com isso. Parabéns pelo conto!

  17. Priscila Pereira
    9 de julho de 2021

    Olá, Beatrice!
    Um mini conto muito bom vc nos trouxe! Mostra um retrato da vida de um casal, o amor frio, a vida de aparência, a hipocrisia…
    Muito bem escrito, descrição ótima, personagens bem delineados, tudo na medida certa. Não sobrou e não faltou. Muito bom!
    Parabéns!
    Boa sorte! Até mais!

  18. Victor O. de Faria
    9 de julho de 2021

    BOI (Base, Ortografia, Interesse)
    B: Um texto sutil, com ares de “vida como ela é”, com tons sarcásticos e bem humorados. Bem construído, atrai pela estrutura. É um cotidiano, mas não monótono. Sempre tem algo acontecendo, com dicas sutis ao leitor, como o método de direita e esquerda.
    O: A escrita flui muito bem, tirando os diálogos finais. Ali pareceu um tanto superficial, com verbos empregados de forma estritamente correta. Mas o “recheio” compensa.
    I: Então. Não sou fã de textos cotidianos. Mas a história contada aqui é cheia de nuances e coisas subentendidas que deixam a mente do leitor entretida por horas.
    Nota: 10

  19. Eduardo Fernandes
    7 de julho de 2021

    Particularmente, não gosto muito da forma como texto está escrito.
    Muito tradicional, sem grande ritmo, e com detalhes que podiam ser retirados para enfatizar o que precisa ser captado.

    Tens que ter atenção com algumas coisas que soam muito mal, tipo a fala Yoda do marido para a mulher:
    — Pegar o que não é teu, não deverias, jovem padawan.

  20. Anderson Prado
    6 de julho de 2021

    Casal celebra bodas, não obstante o relacionamento desgastado.

    É um ótimo conto dentro do que se propõe: retratar um casamento bastante desgastado pelo tempo. Não gostei da voz dos personagens, mas acho que é porque o texto é lusitano ou sulista. Talvez o final pudesse ser mais sútil, mas a crítica à sociedade de aparências ficou muito boa.

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Informação

Publicado às 5 de julho de 2021 por em Minicontos 2021, Minicontos 2021 - Grupo Pinscher e marcado .