EntreContos

Detox Literário.

Toró (Emerson)

Depois de transcender todos os valores, tomou a última dose e resolveu voltar para casa. Mas que era aquilo que fazia? Um pé depois do outro, caminhava? Maçante, simplório, fácil demais. Era preciso transcender o próprio caminhar. Saltou, saltitou, pulou, puripulou, e quando se deu conta: voava. O vento meneava seus cabelos enquanto sentia seu corpo subir. Viu telhados de casas antigas, com suas telhas de argila, recurvadas como coxas, seus babados e adereços rebuscados, que a modernidade abandonou sem remorso. Viu lajes de concreto, planas, cinzentas, sem nenhum sentido, como uma folha em branco. Viu mulheres tomando sol em cima dessas lajes, biquines coloridos, cujas cores ele apenas imaginava. Viu janelas abertas, viu mulheres se vestindo, medindo no espelho suas curvas represadas, viu garotos se masturbando, cachorros dormindo, empregadas varrendo quartos, salas, varandas. Subir mais era preciso, abstrair, fugir das amarras de relações sociais. Viu então grandes massas brancas, amorfas, arredondadas, viu essas massas ganharem sentido, transformando-se em animais, cavalos, centauros, vacas, cachorros, pássaros. Viu uma mulher entre esses animais, nua como um animal, estúpida, perplexa como um animal. Viu gordas que não caberiam em roupas humanas; estavam grávidas? Eram deusas monocromáticas da fertilidade? Já não podia precisar. Chocando-se com elas sentiu o rosto úmido, a roupa encharcada. Gotas escorriam pelo seu rosto, como lágrimas sem sal, insossas, insípidas, molhadas apenas. Seu corpo se entregou então ao peso da queda. Sim, cair, mergulhar, banhar-se, redimir-se. Lagos e rios o esperavam, cachoeiras, possibilidades de movimento, enchentes, transgressão dos limites traçados pelo homem, dissolução, fusão, enxurrada, fruição, fé, fluir, fluviar, ejacular por entre margens estreitas, gozar caudalosamente, chuá, chuá, toró, toró, água enérgica, eufórica, imitando o movimento vital do cardume, nadando, deixando-se levar, deixando-se conduzir ao próximo rio, ao próximo mar, ao próximo copo. 

12 comentários em “Toró (Emerson)

  1. Regina Ruth Rincon Caires
    12 de junho de 2021

    Toró (Emerson)

    Comentário:

    O primeiro entendimento, que captei deste texto, foi que ele seria uma alegoria da água. Apenas uma retórica em torno da água. Mas, depois de inúmeras releituras, acho que viajei com o personagem. Sinto a linguagem que compara e embaralha o adicto à água. O ciclo constante, e a natureza que segue – soberana.

    A água corre, a enxurrada desliza, o vapor sobe, as nuvens se formam, e, implacavelmente, a água é devolvida sempre da mesma forma, a chuva. Assim como a natureza não muda o trajeto, a vida do vício (sem ajuda) tem o mesmo destino. O gole desliza garganta abaixo, o embaçamento das ideias, o devaneio, o voo, o “encontro”, o regresso… De novo, o gole desliza…

    Viajei, né? Mas, pode acreditar, não estou na Jamaica. É que o texto é muito abstrato. O trem não é fácil!

    Para entender o pseudônimo, fui em busca de Ralph Waldo Emerson, tentar entender o Transcendentalismo. Será que a viagem foi em vão?!

    Senhor autor, o texto está muito bem escrito, o senhor sabe das coisas. Ma, vou confessar, o seu trabalho é muuuuito profundo. O seu trabalho é para poucos… Parabéns!

    Boa sorte no desafio!

    Abraços…

  2. Elisabeth Lorena
    9 de junho de 2021

    Toró (Emerson)

    Olá.
    Desculpe, mas não achei o tema no texto. Nem a estrutura de conto, nadinha. Narrador não identificado, personagem quase diluído, acho que no álcool que ele consumiu. Embora saibamos que é ele pela frase: “Lagos e rios o esperavam”. Se é que foi só produto etílico que esse ser transcendente utilizou.
    Ambientação há. Seja o que for essa viagem, acontece na mente do que se entorpeceu. O caminho de subida e descida até o copo, tem lógica. Há algumas pedrinhas brilhantes na linguagem, como: “com suas telhas de argila, recurvadas como coxas” que automaticamente me lembrou uma lenda politicamente correta e mentirosa sobre telhas feitas nas coxas. Ainda “viu mulheres se vestindo, medindo no espelho suas curvas represadas” e isso é sim bonito de se ler, pelo que representa.
    Há algumas aliterações interessantes: fruição, fé, fluir, “fluviar”, insossas, insípidas.
    Tentei usar uma teoria de fluxo de consciência no seu texto, mas não consigo ver transcrição de um processo de pensamento, falta para isso algo como um fio lógico, embora eu tenha percebido, como apontei lá em cima, algumas impressões pessoais. A única ruptura que houve aqui foi da estrutura de conto e do limite de palavras.
    Não sei como é ficar bêbada, mas já vi pessoa querida tendo crise de abstinência e pareceu-me que é só “um barato” mesmo.
    Torcendo aqui para ter gostado algum dia de um texto seu, porque não gosto que ninguém se sinta perseguido por mim.
    Boa sorte no Desafio.

  3. Mauricio Piza (@mtplopes)
    9 de junho de 2021

    Como já foi indicado aqui, vejo pouca ligação do texto com o tema.
    Eu adoro experimentações formais. Não tenho nenhuma objeção a esta, como tal. Dito isso, o “voo” perceptivo briga um pouco com a experimentação formal. Principalmente na segunda metade do texto. O número de vírgulas vai tornando o texto uma espécie de corrida de obstáculos, o que diminui a sensação de fluir desejada.
    Existem passagens em que funcionaria melhor eliminar as vírgulas pura e simplesmente. Enfim, é apenas uma opinião.
    Parabéns, e boa sorte.

  4. claudiaangst
    7 de junho de 2021

    Olá, Emerson, tudo bem?

    Farei considerações sobre seu conto na forma de A-R-T-E:

    A = A arte em si = a arte de enxergar o mundo? Pelo menos, ele no seu voo enxergou a arquitetura da cidade, talvez algumas esculturas… Ou o próprio texto já é arte?

    R = Revisão = nada de muito importante.
    – biquines > biquínis

    T =Trabalho de escrita/narrativa = Um belo trabalho com palavras para criação de imagens que nos levam no fluxo narrativo. A leitura flui lindamente, do micro para o macro e vice e versa.

    E = Então, autor[a] = Uma viagem curta, mas bem impactante. A água [vida] desvendada em todas as suas formas, o olhar líquido que se torna vapor e paira sobre todo o resto, e depois cai como chuva e corre como rio, mar, até a última gota no copo. Ou mais ou menos isso…

    Parabéns pela participação e boa sorte no desafio.

  5. Jorge Santos
    7 de junho de 2021

    A arte é subjectividade, já o contrário não se aplica. Nem tudo o que tem subjectividade pode ser considerado de arte. O conceito é simples: a arte é tudo aquilo que nos provoca uma resposta emocional. Este texto encontra-se no limite. É belo e emociona, mas é também profundamente subjectivo, surrealista. Parece ao leitor que está a ler a descrição textual de um quadro de Dali, num formato de prosa poética. Não é um conto. Não tem sentido. Há uma evolução das diferentes fases da vida. Nascimento, crescimento, reprodução, morte. Leio tudo isso no seu texto, mas sem ter certeza de nada. Recomendo a leitura dos poemas do poeta português Herberto Hélder, que segue no mesmo sentido, mas criando uma subjectividade para discreta.

    «Quando as
    folhas da melancolia arrefecem com astros
    ao lado do espaço
    e o coração é uma semente inventada
    em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
    tu arrebatas os caminhos da minha solidão
    como se toda a casa ardesse pousada na noite.
    – E então não sei o que dizer
    junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.»
    Herberto Hélder

  6. Leonardo Philipe
    2 de junho de 2021

    Olá, Emerson! Obrigado por compartilhar Toró conosco ♥️

    Psicanálise. Foi a única coisa que consegui pensar enquanto lia seu texto. Freud: “o sonho constitui uma realização disfarçada de um desejo reprimido”. Elementos como: deusas da fertilidade, masturbação, cores de biquines, me parecem um bom exemplo disso.

    – PONTOS POSITIVOS: O texto consegue transmitir o “barato” muito bem. Ainda que não seja um sonho, o protagonista parece estar perdendo a consciência.

    Gosto de textos enigmáticos, que saem do comum.

    – CONSIDERAÇÕES: Começa muito bem, mas vai perdendo a força. Parece mesmo um sonho, no qual a gente começa acreditando muito em tudo o que tá acontecendo; depois, percebemos que é absurdo demais; o pensamento consciente toma conta, e despertamos. Isso poderia ser um ponto positivo, mas tem algumas coisas que não funcionam tão bem em uma narrativa curta (no seu caso, curtíssima) como é a do conto.

    Sinto que daria um excelente fragmento de um potencial romance que poderia abordar a história de um indivíduo em busca de liberdade e plenitude, que tem sede por quebrar as amarras racionalistas da sociedade contemporânea e abraçar o ímpeto sexual desenfreado.

    Não percebi relação com o tema.

    Parabéns! ☮

  7. gisellefiorinibohn
    1 de junho de 2021

    Olá, Emerson!

    Bom, nem sei o que dizer do seu conto, porque não entendi muita coisa. Pode perguntar pro saudoso Leandro: não sou muito esperta com texto enigmático hahaha…

    Pareceu-me tratar de um bêbado que tem visões muito doidas e que no fim acaba indo beber mais ainda. No que isso tem a ver com arte? Não sei. Dizem que saber beber é uma arte – uma que, aliás, não domino! -, então só se for mesmo por aí.

    Enfim, está bem escrito, e com certeza tem alguma história por trás, mas não me cativou. E olha que eu amo um fluxo de consciência, mas esse aí me pareceu mais um fluxo de inconsciência.

    No entanto, tenho que confessar que eu ri, o que, nesses nossos tempos estranhos, é muito bom.

    Boa sorte no desafio!

  8. antoniosbatista
    31 de maio de 2021

    Ambientação= Não sei qual a arte se adequa ao conto ou vice-versa.

    Escrita= Boa. Imitando o Anderson; bem encaminhada.

    Enredo= Um homem transcende a própria existência. Na sua ilusão ele voa, olha de cima a futilidade da vida, o seu cotidiano monótono. Bebe, bêbado fica cambaleia, cai, dorme na correnteza do tempo, desperta e se levanta para outro copo.

    Considerações gerais= Boa sorte.

  9. Fheluany Nogueira
    28 de maio de 2021

    O processo de criação em si é, no texto, apresentado como se fosse arrastado em um toró. Temos um só parágrafo, escrito pelo EMERSON. Seria o FITTIPALDI, ex F1? — explicaria a corrida.

    Texto bem escrito, metáforas sugestivas, mas curto demais para expressar todo o desnvolvimento do processo artístico; pareceu-me um fluxo de consciência, sem os elementos básicos de um conto.

    Parabéns pela participação. Abraço.

  10. Anderson Prado
    27 de maio de 2021

    Olá! Tudo bem?

    Seguindo os passos da melhor revisora de todos os tempos, a dileta Claudia Roberta Angst, farei considerações sobre seu conto na forma de A-R-T-E:

    A = A arte em si = Pela segunda vez no desafio, não senti o tema sendo bem representado.

    R = Razões para ODIAR o conto (porque sou desses) = Repito o que disse num outro conto: tudo termina antes de começar.

    T = Trabalho de escrita/narrativa = A escrita é bastante boa.

    E = Então, autor[a] = Mais uma vez vou repetir o que disse em outro texto: O conto é curto demais para conseguir abordar com excelência o tema do desafio. Não é que você escreva mal, ao contrário, nota-se que sabe escrever (bem!), mas, no universo de um desafio literário do EntreContos, você acabou trazendo muito pouco. Permita-se mais!

    Parabéns pela participação e boa sorte no desafio!

  11. Luciana Merley
    26 de maio de 2021

    Toró

    Onde estaria o tema? Essa é uma pergunta que costumo evitar nas avaliações para que a minha insensibilidade, que não alcança todas as possibilidades da imaginação do autor, não acabe por prejudicar as boas criações. Contudo, nesse texto, passei toda a leitura a procurar o tema. Estaria na famosa imaginação fértil dos boêmios? Na subversão (efeito alcoólico) das fronteiras entre real e imaginário? No fluxo de pensamento e consciência que formam toda a estrutura do texto? Na crítica à arquitetura insossa moderna?(essa foi a que mais gostei)…enfim, não sei. Tudo isso? Talvez.

    Coesão – O enredo é o fluxo de consciência de um bêbado, ou seja, não seria possível achar um ponto norteador. Seria esse o ponto (a confusão), quem sabe. O conturbado (“toró”, cachoeira forte, tromba d’agua) fluxo de ideias e imaginação dos artistas mais sensíveis, talvez.

    Ritmo – Rápido como exige o estilo. Concordo que o texto curto foi boa escolha. Caso contrário, poderia resultar num certo estresse ao leitor.

    Impacto – Confesso que, apesar de não captar exatamente as intenções do autor, o texto atraiu-me bastante pela qualidade das sentenças, pela dança com as palavras e sentidos e pela concisão.

    Parabéns. Um abraço.

  12. thiagocastrosouza
    24 de maio de 2021

    Resumo: Ao sair do bar, homem faz voos imaginários (ou reais) encontrando figuras e metáforas que revelam sua percepção do mundo.

    Comentário: Achei o conto extraordinário, no sentido de fugir do comum. Ao meu ver, o fato do protagonista fazer essa viagem logo nas primeiras linhas abre a percepção do que é possível fazer em literatura. Nos dizeres de Manoel de Barros, o escritor/poeta é “capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela”, ou seja, inventa-se o que quiser e os rumos do conto está nas mãos de quem o cria, ainda que seja sobrenatural. Há uma carga dramática na forma como esse protagonista enxerga o mundo, partindo do micro para o macro, vendo pessoas, casas, civilizações, a mitologia na história, animais, nós, humanos, bestializados até se diluir, se deixar levar.

    Contudo, não captei o tema no meio das reflexões do personagem. Talvez pequenos relances, como as deusas da fertilidade, que remetem a Vénus de Willendorf.

    No geral há um bom uso das palavras, mas que, ao final do texto, quando separadas por vírgulas em demasia, ficam um tanto despropositadas. Acho muito complicado escrever utilizando o fluxo de consciência como técnica sem cair nessa armadilha. Talvez, pela pequenez do conto, você tenha evitado uma confusão maior.

    No todo, curti bastante.

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Informação

Publicado em 24 de maio de 2021 por em Artes.