EntreContos

Detox Literário.

As caras do Clube (Luciana Merley)

Quando Zeca deparou-se com a própria cara na capa de um disco em Macaé, teve a impressão de que a vida mudaria para sempre.

Diante do vinil de capa bonita, disposto primeiro, destacado entre tantos, experimentou um sentimento incontestável, a certeza da autoimagem de quando menino, misturado a outras sensações túrbidas, pioradas pelo calor do susto que levara, mas que foram aclaradas pela presença do branquelo de riso fácil, o mais que amigo de infância fotografado ao seu lado.  

― É Lô e Milton. Conhece? Dos melhores que já lançaram. Ainda faz muito sucesso ― anunciou o vendedor.

Zeca quis contar sobre o que acabara de descobrir. A palavra subiu até à glote, mas deu volta inteira, por receio de ser tomada como mais uma das muitas estultices que costumam cometer os vantajosos e viciados em mentiras.

― Sim. Vou levar ― respondeu, sacando do bolso parte do arrecadado pelo meio dia na feira.

Zeca não lembrava-se da tarde em que foram fotografados à beira daquela estrada. Sabia que era em Friburgo, próximo à fazenda onde cresceram. Recordava-se do velho quitute de ponta branca, ao menos que tivera um, um dia. Nada mais. Decidiu então que tentaria ligar para o amigo e contar sobre a descoberta, e perguntar sobre tudo aquilo, mas não o fez de imediato e acabou por não fazer mais tarde.

 O disco, assim como os sustos e sensações daquele dia impensável, Zeca os guardou para si, e foi permitindo esquecer, à medida que a lida diária e as necessidades familiares por sustento cuidaram de encerrar o disco e o dia numa gaveta qualquer da casa e da memória.

Anos depois, quando a história foi desenterrada por aquela repórter obstinada, não passaram sequer três dias, desde a divulgação da matéria no jornal, para que o advogado chegasse a Friburgo.

― Vamos pedir quinhentos mil ― declarou, para assombro de alguns na sala, especialmente do amigo da foto, o Tõe, que voltou a reunir-se com Zeca desde que a repórter os convidara à fama temporária.

― Quinhentos? Mas isso não é muito? ― indagou Zeca passando a mão pelos cabelos crespos repetidas vezes ― Não seria melhor pedir menos e eles aceitarem mais fácil?

― Não, porque essas coisas já são tabeladas, Zeca. Além disso, precisamos de margem pra negociar ― reafirmou o homem de meia idade, poucos cabelos e uma pasta preta volumosa da qual retirava documentos, contratos e todo tipo de material jornalístico referente ao caso.

― E quem nós vamos levar na justiça? Os cantores? ― perguntou Tõe, visivelmente encantado com a capa que jamais vira, sem ainda muito crer naquela história, especialmente na promessa da dinheirama sobre a qual sequer podiam raciocinar.

― Eles também, afirmou o advogado. ― Mas vamos incluir a gravadora porque  era a principal responsável por tudo o que foi lançado na época.

Tõe lembrava-se bem do dia da foto. Já longe do advogado e das conversas contratuais, ele e Zeca puderam relembrar algumas das aventuras nas proximidades da fazenda em que os pais viviam e trabalhavam.

― Lembro direitinho de quando o carro passou e tirou a foto ― disse Tõe, para espanto do amigo. ― Um moço chamou a gente e eu ri ― contou, rindo novamente.

As intermináveis idas e vindas do processo judicial transtornaram a vida de Zeca. Um pouco menos a de Tõe, que costumava abstrair-se com mais facilidade, parecendo ainda não crer em nada daquilo. Os anos de espera, temperados pela expectativa de ganhar uma recompensa por uma história não contada, a pouco sequer sabida, desordenavam os dias, ora esperançosos, ora de plena apatia, como se o trem da vida tivesse parado à espera do movimento das estações em retorno a um ponto desapercebido do caminho.

 A vida muito simples, de gastos regrados desde sempre e quase nenhum conforto, ganhava contornos de maior dureza quando comparada a um provável enriquecimento repentino. Desse modo, Zeca, antes conformado em seguir vivendo como alguém que perde uma simples foto numa rua qualquer, sentia que o ressentimento pela imagem não autorizada aumentava a cada novo encontro com o advogado, como se um direito moral, inalienável e irrefutável estivesse sendo dele roubado.

Decidiu que iria, à revelia das orientações do Doutor, resolver aquela pendenga cara a cara. Pesquisou sobre a agenda de shows, nesse tempo com apresentações muito mais dispersas e restritas, e descobriu que aconteceria uma participação no Festival de Inverno de Friburgo alguns meses depois. Tempo de agonia em que Zeca dividia seus pensamentos entre os afazeres, as conversas necessárias e as palavras que ele ensaiava repetidas vezes, ora mansas, como sabia agir um sujeito civilizado entre granfinos, ora ásperas e apressadas, como quem tem raiva e pressa.

Zeca chegou cedo e ocupou um lugar perto do corredor dos camarins. Sem expectativas de que receberiam alguém, inda mais ele, Zeca estava disposto a gritar no momento exato, o único que ele teria, alguns segundos, talvez, aos ouvidos de todos, se preciso. Descobriu por ali, ouvindo burburinhos, que os artistas estavam recebendo alguns fãs após a apresentação, o que acalmou seu coração e, de certo modo, redirecionou a mente para alguma estratégia menos arcaica.

Com o disco nas mãos, de camisa azul de manga, a que ganhara da esposa no último aniversário, de sapatos lustrados em meio a pés e grama, Zeca acompanhou a única apresentação musical de sua vida, excetuando-se as rodas de violão a que estava acostumado. A voz reverberava nas veias como um trovão com força para derrubar, ao passo que também aquecia e afagava a pele como o abraço de um filho. Zeca sentia raiva dos gritos, conversas e aplausos ao seu redor.  Ele desejou estar ali sozinho, para que quando a música terminasse, ele pudesse erguer o disco e finalmente gritar: “SOU EU”.

Ao final do show, observou o movimento de alguns poucos que desejavam ser recebidos. Acompanhou-os e, defronte ao segurança simpático, mostrou o vinil e falou humildemente do quanto andara longe e desejava levar um autógrafo para casa. Sem dificuldades, diante da raridade em disco quadrado, Zeca adentrou ao corredor juntamente com mais alguns jovens, outros nem tanto, e que de igual maneira mantinham rostos e risos efervescentes.

Enquanto na fila, as palavras ensaiadas durante os meses apareciam fora de ordem, num atropelamento das ideias, frequentemente interrompidas pelo som da voz do artista, agora falada com calma, em conversas rápidas e gentis com cada um, e que Zeca percebia vindo de dentro do camarim pela porta entreaberta.

― Olá, amigo ― escutou chamar. ― Como você está? ― Zeca não respondeu. Apenas abaixou e levantou a cabeça como sinal de bem e adentrou ao recinto entapetado e com poltronas localizadas em cada canto. ― E olha só o que tem aí! Rapaz! Esse é dos antigos, hein? Você tem de qual aparelho em casa? Uma vitrola mesmo, ou esses mais modernos? ― e olhando para o rosto de Zeca que não expressava nada além de embaraço.

― Não tenho aparelho, não ― respondeu para o rosto grande do homem, agora com ares de certa confusão, e que terminava uma dedicatória no disco. ― Vou pendurar na parede da sala ― completou.

― Olha! E saiba que para nós do Clube será uma grande honra compartilhar contigo a sua sala. De verdade. Obrigada, viu! ― disse num riso enquanto despedia um Zeca encantado com o disco assinado nas mãos.

As palavras, por tanto tempo escolhidas, por vezes calibradas com compreensão, outras turbinadas com ressentimento, agora guardadas. Calmas, como se por um doce lacrimogênio, acalmadas.

O novo retrato era um grande álbum na parede, ocupando espaço entre os meninos da casa, seus avós, pais e gente que nem lembravam-se mais. Foi colocado ali, bem no centro, o que exigiu de Zeca algum trabalho e criatividade para realocar todos os outros retratos, de modo a não causar transtorno maior no visual daquela parede argamassada sem muita lisura.

A mãe de Zeca, que pelos anos e pela memória já mantinha-se alheia à maioria das novidades, não deixou passar a mudança na casa do filho.

― Zeca, e essa foto aqui, meu filho? Mas, vê se não é você e Tõe! ― e ria enquanto inspecionava cada detalhe ― Ah! Lembro bem desses dois aprontando no meio da terra batida. Não se largavam esses dois. Onde tava essa fotografia, meu filho? Que bonita! ― enquanto Zeca via as lágrimas formarem-se nos olhas dela, calmos, alheios a toda loucura dos últimos anos. ― Mas, e isso aqui? Que’s rabiscos são esses? Oh! Zeca. Como você foi deixar os meninos rabiscarem nessa foto tão bonita, meu filho!

― É uma história longa, mãe. E o pior é que ainda não terminou.

 E lá se foi mais um dia.

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Algumas partes do texto são baseadas em fatos reais.

Todos os personagens, falas e situações descritas são obra de ficção.

21 comentários em “As caras do Clube (Luciana Merley)

  1. Daniel Reis
    19 de junho de 2021

    Eu tinha visto a matéria do jornal mineiro sobre a busca pelos amigos da capa do Clube da Esquina. Achei muito bacana que o autor partiu dessa notícia para criar um conto sobre o direito de imagem e a livre associação entre as capas dos discos e o som, a história, que há nos seus sulcos.
    Na parte técnica, gostei bastante da escolha do tema e da abordagem, partindo das diferentes visões entre os que é direito, o que é um privilégio. Apenas acredito que a cena do show poderia ter sido mais condensada, e a diferença entre os dois amigos tratarem do tema poderia ter sido mais aprofundado. Mas, no geral, um conto bem urdido e resolvido. Sorte no Desafio!!

  2. cicerochristino
    19 de junho de 2021

    O texto é uma criação ficcional sobre fato envolvendo direitos de imagem das pessoas estampadas na capa do disco Clube da Esquina.
    O conto desperta curiosidade instantaneamente. É um recurso muito interessante a utilização de um disco famoso e de uma polêmica recente para envolver o leitor.
    O arremate com a mãe do protagonista observando a foto é riquíssimo. O texto, no geral, tem ritmo bom, é coeso e tem um encerramento que se encaixa bem ao final da narrativa. O conto está redondinho!
    Meus sinceros parabéns!

  3. Bruno Raposa
    19 de junho de 2021

    Olá, Irmão do Cacau!

    Como já disse em outro comentário, gosto muito de contos que mesclam realidade e ficção. Não conhecia essa história, foi bacana ser apresentado a ela e acompanhá-la nessa versão ficcional.

    Achei muito interessante a história dos meninos retratados na capa sem autorização, e a forma que você escolheu para contar essa história, a partir do olhar de um deles, foi muito acertada.

    Gosto da sua forma de narrar e do vocabulário escolhido, que emprestam um jeitão de “causo” ao texto. Em alguns momentos você até grafa as palavras de uma forma diferente, buscando essa aproximação com a oralidade. É um recurso diferente, acredito que não seja unânime, mas eu acho que enriquece o texto. Gostei de vê-lo aqui.

    Você trabalhou muito bem a construção dos sentimentos de Zeca: a surpresa inicial, o desconforto, para então culminar na sensação de que algo muito importante lhe havia sido arrancado. Essa curva dramática foi desenvolvida de forma muito competente.

    Mas aí, de repente, ao menos para mim, o conto perdeu o rumo. Na cena do show, o que eu esperava era que um arrebatamento pela música – consequentemente, pela arte – seria o mote para que ele reencontrasse conforto e paz. O fato de Zeca nunca ter visto um show até então inclusive justificaria essa fascínio. Mas o que me pareceu foi que o encontro com uma celebridade (ou talvez, a gentileza do artista) o intimidou. Foi uma resolução anticlimática e frustrante, e diluiu o trabalho de construção de tensão feito até esse ponto. Isso inclusive enfraqueceu a temática do certame no texto. O conto acaba se tornando menos sobre arte e mais sobre direitos de imagem.

    A cena final também me decepcionou um bocado. Claramente houve uma tentativa de apelar ao emocional do leitor, com a súbita inserção do personagem da mãe tecendo um comentário dramático. E ainda fecha com uma frase de efeito de Zeca.

    Enfim, foi um conto que começou muito bem, com uma história curiosa, uma narração diferente e um personagem cheio de questões interessantes. Mas, na hora da resolução do conflito, ele escorregou para saídas mais simples e dramáticas. Foi meio um banho de água fria, rs. De toda forma, ainda é um bom conto.

    Desejo sorte no desafio.

    Abraço.

  4. opedropaulo
    19 de junho de 2021

    Ótimo conto, uma leitura muito agradável com uma história que tem um tom bastante sincero. O que esses dois amigos veem como uma coincidência engraçada logo toma proporções inesperadas e os coloca em um constante contraste entre o cotidiano tranquilo e uma quantia em dinheiro que jamais esperariam ter em mãos. É interessante que maiores detalhes do processo judicial, seja o seu andamento ou a sua repercussão, não aparecem no texto, a autoria tendo feito a escolha acertada de manter a história centrada nos dois personagens e na maneira como veem a situação. A narração é simples, deixa o texto fluído, e os próprios personagens, nos quais se destaca Zeca, também agem com a mesma tranquilidade, inclusive na ação derradeira de uma improvável resolução face a face que acaba não se consumando. O conto se encerra em uma linha que resume bem a forma como os personagens lidam com a situação: mais um dia se passa. Destaco também o trecho em que a mãe se perde em nostalgia ao ver a foto, momento realmente emocionante.

    Tranquilidade e inocência, sentimentos que na infância podem ser sem igual, transparecem na capa do disco e também na forma como a história é contada aqui. Essa simetria de sentimentos entre disco e texto são um bônus que valoriza este conto dentro do certame.

  5. Luis Fernando Amancio
    18 de junho de 2021

    Olá, Cacau’s Brother,
    Seu conto contempla bem o tema artes, com uma dobradinha, inclusive: música e fotografia.
    Gostei de sua escolha temática. É curioso encontrar uma realidade trabalhada literariamente no desafio – afinal de contas, a vida é a maior inspiração para qualquer arte.
    Sua escrita é cativante. Frases bem construídas, inclusive emulando o linguajar característico dos personagens retratados. Sua narrativa também possui uma construção madura. Senti falta da construção de uma tensão – quer dizer, ela existe, mas não convence. O personagem Zeca é doce demais, não ficamos apreensivos por ele ir ao show para resolver o problema com o músico. Sabemos que ele é inofensivo.
    Não é um conto que surpreende. E nem todo conto precisa, mesmo surpreender. A trajetória, nesse caso, é o que importa. E ela é suave como as canções do Clube da Esquina.
    O vídeo inserido acrescenta pouco. Esperei algo mais ousado ao ver que havia outra mídia.
    Parabéns pelo trabalho e boa sorte no desafio!

  6. Luciana Merley
    17 de junho de 2021

    As caras do Clube

    A outra face da arte? A arte manchada? Ou seria a arte dando um jeito nas coisas tortas da vida…Não sei. Tudo isso, quem sabe. Só sei que essa é uma bela história paralela sobre aquele grande disco da música brasileira.

    Coesão – O texto parece pulsar num sentimento de perda, num ressentimento por algo que foi roubado. Algo que nem sequer o personagem sabe identificar. Confesso que experimentei um sentimento de injustiça juntamente com Zeca, mas logo você conseguiu reverter com as palavras certas, “lacrimogênicas”, para gerar efeito de contenção. Para mim que já conhecia esse fato do uso da imagem na capa do Clube da Esquina, fiquei lendo a primeira parte e aguardando novidades. Logo elas vieram, ao focar na história dos personagens desconhecidos e de um desvendar ficcional (provável ou não) para todo esse imbróglio.

    Ritmo – Muito bom de ler. Algumas falhas na revisão. A substituição do tênis antigo por uma guloseima (rsrs). Devia estar com fome quando escreveu, hein?

    Impacto – Uma história empolgante do início ao fim, apesar de esse início já ser, ao menos para mim, conhecido. A expectativa pelo final foi grande durante toda a leitura e quando veio, chegou terno, acolhedor, apaziguador. A arte tem seus desvios, mas, quando verdadeira, emociona, acalenta, consola, inspira.

    Grande abraço.

  7. Fernanda Caleffi Barbetta
    15 de junho de 2021

    Olá, Cacau´s Brother, achei bem interessante essa história, pena que, sendo verídica, não foi exatamente uma ideia sua, mas foi muito bem contada. E a ideia de transformá-la em um conto foi boa.
    O texto é fluido, bem escrito.
    Acho que colocar o link para o vídeo do Youtube no meio do conto não foi uma boa escolha, talvez no final tivesse ficado melhor.
    Gostei da forma como foi direcionando o texto no final, fazendo com que ele desistisse da disputa e encontrasse outra premiação diante do fato, que foi a assinatura do cantor.
    O final com a mãe emocionada e questionando os rabiscos foi sensacional.

    a (há) pouco sequer sabida
    Recordava-se do velho quitute (kichute) de ponta branca

  8. Fabio D'Oliveira
    15 de junho de 2021

    Antes de continuar, acho justo esclarecer como estou avaliando nesse desafio. Além de uma consideração final, guio-me por três fatores: artístico, técnico e criativo. Não estou participando dessa vez, mas decidi ajudar a movimentar os comentários!

    ARTÍSTICO

    Vou ser um pouco chato agora: alguns traços do tema estão presentes no conto, sim, mas não é o foco central da trama. Tudo gira em torno de Zeca e sua relação com a foto clandestina, suas memórias e das expectativas do futuro.

    Porém, a construção do conto demonstra um autor experiente, que sabe o que está fazendo, e consegue entregar uma obra artística em forma e conteúdo humanizado. É arte, de certa forma, mas não fala muito sobre arte. Fala sobre a vida.

    Senti que o vídeo não somou muito, infelizmente. Poderia ter explorado isso um pouco mais, entretanto, gostei do esforço em tentar fazer algo diferente.

    TÉCNICO

    Impecável.

    Não sou o melhor quando se trata da gramática e afins, mas entendo um pouquinho de construção textual. É um conto profissional. Muito bem feito. Trechos bem elaborados, momentos sensíveis, situações tensas, você sabe conduzir tudo com propriedade.

    CRIATIVO

    Criar está além de imaginar algo novo. Faz parte, mas não se limita a isso.

    Quando uma pessoa consegue transformar uma ideia banal e simples em algo bonito e cativante, considero que ela é muito criativa. Foi o que você fez. Pegou algo chatinho, cotidiano, e criou algo que captura o leitor.

    Gostaria de ver essa capacidade explorando ares fantásticos, mas essa decisão cabe a você!

    CONSIDERAÇÕES FINAIS

    É um conto excelente.

    Devo admitir: não me encantou. Mas é tão bem escrito, tão bem desenvolvido, que não há como evitar os elogios e constatações óbvias. Você é muito bom nisso.

    Parabéns pelo trabalho e boa sorte no certame!

  9. Fheluany Nogueira
    8 de junho de 2021

    “Porque se chamavam homens / Também se chamavam sonhos / E sonhos não envelhecem (…) Uma ideia muito simpática, extrovertida, e uma homenagem merecida, com leitura prazerosa e divertida.

    É um texto de realismo fantástico, mesclando o real e a ficção. O texto é de fácil comunicação, bem ao jeito mineiro de ser, por natureza, um verdadeiro especialista na arte de se relacionar.

    É um desafio escrever sobre algo que de certo modo não é novidade, mas o(a) autor(a) costurou todas as cenas apresentadas mantendo um bom equilíbrio. Gostei do tom mais íntimo e melancólico, sobretudo no desfecho.

    Parabéns pelo trabalho e boa sorte! Abraço.

  10. gisellefiorinibohn
    8 de junho de 2021

    Olá, Cacau´s Brother!

    Seu conto é bem gostoso de ler, e tem partes muito inspiradas. O fato de ter sido baseado em uma história real deu uma nova dimensão à coisa. Achei isso uma sacada legal. A construção do incômodo de Zeca com o lance da foto foi bem feita, e sua quebra no encontro com o artista também. Bem legal.

    Ele é escrito com uma certa malemolência, que o deixa com um jeitão de causo; isso funcionou bem. Há algumas falhas de revisão. Destaco algumas, como as negativas que exigem próclise (“Zeca não lembrava-se da tarde…” ; “…pais e gente que nem lembravam-se mais…”), uma confusão de “a” e “há” (“Os anos de espera, temperados pela expectativa de ganhar uma recompensa por uma história não contada, a pouco sequer sabida…”), uma falha de crase (“A palavra subiu até à glote”) e alguns vacilos bobinhos, como um gênero trocado (“― Olha! E saiba que para nós do Clube será uma grande honra compartilhar contigo a sua sala. De verdade. Obrigada, viu!”) e “quitute” onde deveria ser Kichute (“Recordava-se do velho quitute de ponta branca, ao menos que tivera um, um dia.”)

    Mas nada disso interfere no desfrute do texto. Falo só porque falei em outros contos e não quis parecer parcial hahaha… além disso, aqui é o EC, a gente tem que criticar alguma coisa!

    Parabéns pelo trabalho e boa sorte!

  11. Jorge Santos
    7 de junho de 2021

    Olá, bro. Este é um conto baseado em factos reais. Dois homens ficam a saber 40 anos depois que uma fotografia de infância tinha sido usada para a capa de um dos álbuns mais importantes da histórica musical do Brasil e em 2012 iniciam um processo judicial (que ainda não terá terminado). Entretanto, são fãs das músicas do álbum. Não sei até que ponto este tipo de conto pode ser permitido neste desafio (e não sei se o autor não corre o risco de ser novamente processado pelos dois). De qualquer forma, o conto é contado numa linguagem simples e eficaz. Mas, não sendo inédito, perde alguma da sua força.

  12. Kelly Hatanaka
    5 de junho de 2021

    Oi Cacau’s Brother.

    Achei muito interessante a forma como desenvolveu seu conto. A gente parte da descoberta de Zeca que, no início,só guarda o disco, meio sem saber o porque, muito mais pelo choque de se ver na capa de um disco tão famoso.
    Em seguida, quando a história cai na mídia, os contatos com o advogado e as conversas sobre dinheiro alimentam um ressentimento difícil de explicar. Ressentir-se de que? De que forma ele foi prejudicado? Mas é fácil entender e se identificar com os sentimentos de Zeca. Depois, quando está frente a frente com os artistas, seu ressentimento se dissipa. Seria esse o poder da arte?

    Por fim, as palavras da mãe despejam mel sobre o caso. A foto despertando recordações e uma doce nostalgia.

    Muito lindo e bem conduzido.

    Parabéns,
    Kelly

  13. Elisabeth Lorena
    5 de junho de 2021

    As caras do Clube (Cacau’s Brother)
    Olá.
    Seu texto é bem elaborado. O tema Artes é preenchido com certeza, tanto coma Música quanto com a Fotografia. O enredo é bom, as personagens críveis – e conhecidas. Espaço e tempo bem elencados. Mas antes de entrar em linguagem tenho que deixar claro: não estava gostando do texto até o meio. Como a história é conhecida e abre mil possibilidades e duas mil ignorâncias, estava lendo com um sentimento de obrigação mesmo. Entretanto, quando você passou a criar a ideia do show já estava me interessando. No fim, a mãe do Zeca olhando a capa e vendo o autógrafo como garranchos foi muito interessante.
    Ao apresentar essa mãe alheia à realidade e o carinho que ele tem em não desmentir sua percepção o texto foi ficando maleável, terno até. Amei.
    Agora vamos à linguagem. A indolência apresentada no fato de ele saber do disco e depois esquecer de falar com o amigo é muito mineira mesmo. A ideia de não se explicar para dizer que não era quem o outro falava também é uma mostra da atitude do mineiro.
    O mineiro sabe que existe contador de história e criadores de histórias e, está ciente que, ambos passam por mentirosos, embora o contador não seja, assim, prefere calar. O tema é música e fotografia, mas a linguagem dança, seguindo um compasso próprio que dá credibilidade ao texto e a todos que vão aparecendo no cenário, que por sinal foi criado com perfeição.
    O lírico, muito bem trabalhado, em alguns momentos foi criado para passar despercebido, afinal, gaveta da memória passa leve pelos olhos do leitor. Captei de primeira porque adoro essas criações, embora não as utilize. Pulo aqui esse advogado rasteiro. Quero apanhar dos operadores do Direito não, vou fazer vistas grossas. Mas não farei para Tõe. Que maravilha de representação fonética de Tonho: [T’õe], é divino. Pareço até ouvir meus tios Rigueira dizer: Tõe.
    A criação, ou melhor, descrição de Zeca é muitíssimo interessante. Desenhado um pobre limpinho, de alma confusa, simples, honesto, de pensamentos assimétricos a corroer a alma e, depois do causo resolvido com o autógrafo, a constatação: “As palavras, por tanto tempo escolhidas, por vezes calibradas com compreensão, outras turbinadas com ressentimento, agora guardadas. Calmas, como se por um doce lacrimogêneo, acalmadas.” E o gás lacrimogêneo tão conhecido nosso, usado para calar os revoltosos que resolvem peitar o poder ganha ares de nobreza, de sentimentos: “doce”. Essa construção é uma sacada magnífica, cheia de significados.
    O gás não elimina o problema, só cala o oprimido, o mesmo acontece aqui, com o Zeca deixando se acalmar sem falar nada com o artista. E a ideia de que ainda não acabou volta na resposta dele para sua mãe: “― É uma história longa, mãe. E o pior é que ainda não terminou.”
    Boa sorte no Desafio.

  14. Regina Ruth Rincon Caires
    29 de maio de 2021

    As caras do Clube (Cacau’s Brother)

    Comentário:

    Nada é mais prazeroso, em certa etapa da vida, do que recordar alegrias adormecidas. Rememorar Clube da Esquina, misericórdia!

    É um texto que prende a atenção do leitor, do início ao fim. E, particularmente, fiquei encantada com a linguagem utilizada em toda a narrativa. O uso de palavras que me soam próximas, deu ao conto um ar de “oba, estou em casa!”. Há palavras e frases encantadoras: “estultice”; “inda”; “à medida que a lida diária e as necessidades familiares por sustento cuidaram de encerrar o disco e o dia numa gaveta qualquer da casa e da memória”; “desordenavam os dias, ora esperançosos, ora de plena apatia, como se o trem da vida tivesse parado à espera do movimento das estações em retorno a um ponto desapercebido do caminho”; “de sapatos lustrados em meio a pés e grama”; “A voz reverberava nas veias como um trovão com força para derrubar, ao passo que também aquecia e afagava a pele como o abraço de um filho”; “as palavras ensaiadas durante os meses apareciam fora de ordem, num atropelamento das ideias”; “daquela parede argamassada sem muita lisura”.

    De muita beleza, o texto foi escrito com muito sentimento. E eu aprecio. Fiquei pensando no nome do personagem (Tõe), e acredito que seja o som produzido pela pronúncia de “Tonho” no dialeto exclusivo dos mineiros, no mineirês. Achei interessante.

    A leitura flui e encanta, acredito que o único obstáculo encontrado tenha sido a colocação pronominal. Há colocações que, para a narrativa, para o contar, são “de rigor”. Sempre irão atrair o pronome para junto de si (próclise): as palavras com sentido negativo, os advérbios, os pronomes relativos, os pronomes indefinidos, os pronomes demonstrativos, etc. Qualquer texto, na sua absorção pelo leitor, magicamente cria uma sintonia sonora, uma linha que orienta o raciocínio. E a quebra desta sonoridade causa distração, ainda que momentânea. Mas, quero deixar claro, esses deslizes são facilmente contornáveis. Com apenas uma revisão, tudo se ajeita.

    A essência da criação é latente no texto. Conto lindo, de teor saudosista (que eu amo), bem contado, bem argumentado, um primor!

    Parabéns, Cacau’s Brother! Obrigada pelo presente!

    Boa sorte no desafio!

    Abraços…

    • Regina Ruth Rincon Caires
      29 de maio de 2021

      Menino, se eu estivesse como você, lá no show, faria você gritar: ESSE CARA SOU EU!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  15. Leonardo Philipe
    28 de maio de 2021

    Olá, Cacau’s Brother! Obrigado por compartilhar As caras do Clube conosco ❤

    Por causa das primeiras linhas e da frase de efeito “a vida mudaria para sempre”, eu comecei a leitura com grandes expectativas e infelizmente acho que faltou um pouco de emoção ao longo da escrita. Houve uma preocupação exacerbada em descrever as cenas e trâmites do processo de reivindicação dos direitos de imagem, ao invés de trabalhar os sentimentos das protagonistas.

    Considerei o vídeo importante apenas para apresentar o caso.

    – PONTOS POSITIVOS: os diálogos estão excelentes! Naturais e coerentes. E este ponto positivo me faz reforçar ainda mais o que citei no início; a emoção presente nos diálogos poderia ter sido explorada ao longo de toda a narrativa.

    O ponto mais forte do seu conto é o final. O diálogo com a mãe fez com que eu me lembrasse de conversas familiares que, vez ou outra, despertam minha memória afetiva. (Mais uma vez, excelentes diálogos).

    – CONSIDERAÇÕES: Algumas sequências de frases são muito longas, isso prejudicou o ritmo. Tive a impressão que algumas descrições não tiveram propósito narrativo. Talvez, uma última revisão para cortar as frases em excesso tivesse beneficiado tanto o ritmo quanto a carga emocional do texto.

    O tema está presente tanto na música quanto na foto, afinal, um retrato também é uma forma bem expressiva de arte visual.

    Parabéns! ☮

  16. Mauricio Piza (@mtplopes)
    27 de maio de 2021

    O texto está no tema e é interpretado e construído de uma forma despretensiosa e elegante. Também considero a inclusão do vídeo desnecessária. Uma ilustração da capa era tudo o que seria preciso. Esses dois aspectos, então, me chamam a atenção. Não acho que foi essa a intenção, mas buscar a legitimação estética do conto em fatos externos a ele não é uma boa estratégia; nem no pitoresco do fato histórico, nem na atmosfera criada pela música. Transmite para o leitor uma sensação de insegurança. A existência do acontecimento pode ser pesquisada por quem quiser conhecê-lo melhor. No caso de uma música tão marcante, o clima da música tende a se sobrepor à impressão causada pelo texto. E, no caso, o texto não necessita de nenhuma dessas duas coisas, ele consegue se sustentar sozinho, tranquilamente.
    Parabéns pelo trabalho e boa sorte.

  17. Anderson Prado
    27 de maio de 2021

    Olá! Tudo bem?

    Seguindo os passos da melhor revisora de todos os tempos, a dileta Claudia Roberta Angst, farei considerações sobre seu conto na forma de A-R-T-E:

    A = A arte em si = A arte aparece com sucesso no conto: há a arte da fotografia e a arte da música.

    R = Razões para ODIAR o conto (porque sou desses) = O vídeo é despiciendo e o autor do do conto poderia ter trabalhado melhor a carga emotiva de seu conto, melhorando o impacto causado no leitor.

    T = Trabalho de escrita/narrativa = A escrita é boa: está bem encaminhada.

    E = Então, autor[a] = Seu conto está entre meus favoritos: gostei de assistir a esses homens matutos tendo de lidar com uma questão tão complexa quando o direito de imagem. É delicado também perceber como esse matuto consegue identificar a beleza de se estar retratado e imortalizado em um trabalho artístico (isso vale muito mais do que qualquer dinheiro).

    Parabéns pela participação e boa sorte no desafio!

  18. claudiaangst
    25 de maio de 2021

    Olá, Cacau’s Brother, tudo bem?

    Farei considerações sobre seu conto na forma de A-R-T-E:

    A = A arte em si = O conto trouxe elementos de Música e Fotografia, portanto o tema exigido pelo desafio foi abordado com sucesso.

    R = Revisão = pouquíssimas falhas:
    – a pouco sequer sabida > há pouco sequer sabida > Há pouco é utilizado para indicar tempo decorrido, algo que aconteceu no passado
    – nos olhas dela > nos olhos dela

    T = Trabalho de escrita/narrativa = A narrativa apresentada compreendeu recortes do cotidiano de dois amigos que se veem com a possibilidade de enriquecer. A confrontação pretendida é abortada diante da admiração que Zeca nutre pelo criador/interprete da obra musical. No entanto, na última fala do personagem, ele diz para a mãe que a história é longa e está longe de terminar, ou seja, o processo deve continuar.
    A linguagem empregada revela clareza e falta de rebuscamentos desnecessários para o entendimento da trama. O ritmo da narrativa flui com facilidade, talvez impulsionado pelos diálogos.
    Quanto aos recursos de imagem e som utilizados, considero que esses enriqueceram o conto, dando uma certa leveza ao trabalho criativo.

    E = Então, autor[a] = Gostei da ideia desenvolvida com segurança. O final, com tom de nostalgia e apreço à arte, revelou-se um bom desfecho, encerrando a trama com uma das frases [creio que a último verso da letra] da música tema do conto.

    Parabéns pela participação e boa sorte no desafio.

  19. antoniosbatista
    25 de maio de 2021

    Ambientação= No tema, já que música é Arte.

    Escrita= Boa escrita, frases elaboradas formando imagens verbais claras e coerentes.

    Enredo= Baseado num história real. É válido.

    Considerações Gerais= Não me lembrava mais do Clube da Esquina. Tive que consultar o Google para saber a história real. Não vi muita diferença, porém, foi bem contada.

  20. thiagocastrosouza
    24 de maio de 2021

    Resumo: Meninos autografados para a capa do álbum Clube da Esquina buscam receber pelos direitos de imagem.

    Considerações:

    Achei o conto bastante cotidiano. A narrativa acompanha Zeca se percebendo no disco e os desdobramentos dessa ação, culminando em processos jurídicos e o encontro com os artistas. Interessante que há um momento de deslumbramento quando Zeca encara os autores ; toda sanha, ressentimento, ganância se esvaem nesse embate suave. Achei que, nesse ponto, o autor quis mostrar o poder arrebatador da arte, assim como seu poder apaziguador: Zeca se transformou de fato somente após ouvir as músicas e encontrar seu criador. Achei a contextualização boa, mas um pouco exagerada nas referências audiovisuais. Veja, sei que o desafio permite acréscimos de som, imagem e vídeo, mas o seu conto, ao meu ver, estava totalmente inteligível apenas pela forma que você vinha escrevendo. Há uma quebra com o vídeo, apresentando, além de uma canção, manchetes e fotos sobre os fatos já citados no texto. Foi colocado ao meio de maneira proposital e, para mim, acabou não fazendo muita diferença em termos narrativos. Bastava a foto de capa, e seu conto seria igualmente incrível.

    O final conciliador dá um afago para a trama que sugeriu um conflito mais severo.

    Parabéns pelo trabalho. Seu conto me deu vontade de escutar Nuvem Cigana, minha favorita do Clube da Esquina.

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Informação

Publicado às 24 de maio de 2021 por em Artes e marcado .