EntreContos

Detox Literário.

[EM] Um minuto para o fim do mundo (Ailana Monteiro)

Diego levantou às seis horas naquela primeira segunda-feira do mês de abril, pronto para zarpar para o trabalho. Tomou um banho, preparou seu café da manhã e ligou a TV como de costume, para assistir ao jornal que trazia as primeiras novidades do dia. Achou o céu meio nublado, pelo que pôde perceber pela fresta da cortina. Pegou uma caneca, colocou suco de laranja e passou um pouco de manteiga em duas torradas, ouvindo atentamente a fala do repórter que parecia bastante alarmado.

Segundo o âncora, alguns pesquisadores detectaram a aproximação de um meteoro, nomeado Giant, o que já havia sido comentado há algumas semanas. Ninguém deu muita importância, pois a rota estava rente à Terra, mas não o suficiente para se chocarem. No entanto, de acordo com as últimas informações, houve uma mudança inesperada nesse trajeto, ainda não muito bem explicada pelos cientistas.

Por causa dessa alteração, o corpo celeste atingiria em cheio nosso planeta em menos de seis horas. Pelo tamanho e massa estimados, mais a velocidade indicada, seria o suficiente para acabar com tudo. Praticamente, um replay da extinção dos dinossauros.

A partir de então ouviu-se gritos, gente correndo pelas ruas, portas batendo, telefones tocando. Ruídos e uma energia densa de pânico no ar. Uma reviravolta dessas em tão pouco tempo. Mais uma vez, a confirmação de que o futuro é incerto. Diego se levantou apressado, sem saber se ia para o serviço, se procurava os seus, ou simplesmente ficava ali sentado, tentando se recuperar do baque e orando.

Seu coração batia tão forte que parecia querer sair pela boca. Suas pernas estavam bambas, e mil pensamentos pareciam invadir sua mente, se embolando em meio a lembranças, desejos, arrependimentos, planos e frustrações. TODOS VAMOS MORRER!!! Era esse o grito do seu consciente.

Diego decidiu ir pra rua, e se aturdiu com a tremenda falta de controle do povo: gente chorando, se jogando no chão, gritando, saqueando comércios, trancando portas e janelas… Uma verdadeira loucura. Teve medo de ficar por ali e voltou pra casa. Em seguida ficou pensando, encostado à beira da pia da cozinha, com um nó na garganta. O fim do mundo já estava acontecendo há muito tempo.

Estavam em plena pandemia da COVID-19, com o número de infectados elevado, assim como os óbitos registrados. O isolamento, as restrições, o receio que a doença trouxe já mexeu com muitas mentes e seios familiares. Relembrou quantas pessoas passavam fome, pelas desigualdades sociais, falta de uma justa distribuição de renda, assim como de solidariedade. Violência, insegurança, tanta maldade que permeia as ações humanas. Destruição, poluição do meio ambiente. Repetiram várias vezes que o ano 2000 marcaria o fim de tudo. Vinte e um anos depois, pelo jeito, era chegada a hora.

O rapaz lamentou tanta coisa errada, em desequilíbrio. Imaginou que sempre tentou fazer o melhor, mas que também deixou a desejar. Poderia ter ajudado mais pessoas, conversado mais com quem amava, não ter protelado tanto para depois. Bom, não tinha tempo pra lamentar. Suas últimas horas deveriam ser bem utilizadas. Mas, com o quê? Ou com quem?

Imediatamente, se lembrou de duas pessoas: seu pai, com quem não conversava há algum tempo, pois tinham uma relação conturbada. Inclusive, guardava mágoas dele desde a época de infância, pelas ausências e também pelo uso do álcool, que atrapalhara muito o convívio, pois constantemente estava embriagado e as conversas eram intempestivas ou nem ocorriam, pois Diego preferia se esquivar, ir para a casa de amigos, ou apenas fechar a porta de seu quarto para evitar situações desgostosas. Quantas vezes sentiu a falta da figura paterna ao seu lado, para conversar, jogar futebol, falar sobre garotas… Enfim, por sorte, teve o avô para suprir um pouco, porém, obviamente, não substituía.

A outra pessoa era sua ex-namorada, Solange. O grande amor da vida dele. Ficaram juntos por quase cinco anos, chegaram a noivar, e por uma discussão tola, gerada por desconfianças nascidas do ciúme exagerado, romperam. Se viam de vez em quando, ao acaso, se falavam com polidez, porém, não sentaram mais para conversar e colocar os “pingos nos is”. Ele ainda gostava, e ficava quieto, sofrendo a falta, e torcendo pra ela não surgir comprometida com alguém. E a solução acontecer num passe de mágica. Orgulho, receio de “levar um toco”, não sabia. Mas, agora faria o que precisava ser feito: ser honesto com seus sentimentos.

Diego tentou sair com o carro, mas o trânsito estava caótico. Muitos acidentes, brigas, as pessoas estavam descontroladas. Foi a pé à morada do Seu Jairo. O pai de Diego abriu a porta assustado e pediu para o filho entrar. Abraçaram-se ali, na entrada da porta mesmo. Ambos num pranto insistente, aparentemente retido por décadas. A mãe chegou à sala, viu a cena e se retirou, dizendo a si mesma como era bom que esse encontro estava acontecendo. O moço pediu perdão ao pai, que respondeu com a voz embargada:

– Não tenho o que perdoar, filho. Eu é que te devo desculpas. Poderia ter sido um pai melhor. Mas tanto trabalho pra não faltar nada em casa, a bebida que sempre foi meu fraco, fizeram com que eu não visse o essencial, ou não valorizasse como poderia.

– Senti muita falta do senhor. E também senti raiva dessa maldita bebida, que muda comportamentos e traz tanta dor a tantos lares. Mas, agora eu não quero mais sentir mágoa. Por isso vim aqui. Eu o amo, e gostaria que soubesse disso.

Ambos se abraçaram novamente, conversaram mais um pouco. Diego chamou a mãe para se juntar a eles e ficaram ali por um tempo juntos, relembrando passagens boas de suas vidas. Em seguida, Diego pediu licença, pois necessitava resolver outra pendência. Deu-lhes um beijo na testa, olhou-os fundo nos olhos e seguiu rumo ao endereço de Solange.

Nas ruas, ainda reinava o completo tumulto, e em outros trechos um silêncio inquietante. Pessoas se esconderam com medo de assaltos e atos bárbaros. Uma mescla de cidade fantasma com alvoroço sem freios. Diego avançava pelos quarteirões, obstinado. Seus passos eram rápidos, e consultando o relógio, constatou que faltavam apenas duas horas para o fatídico acontecimento narrado nos noticiários.

Diego chegou à residência de Solange e cogitou se deveria mesmo tocar a campainha. Estava com as mãos geladas e a boca seca. Enfim, não tinha mais como adiar o diálogo. Seria naquele instante ou nunca mais. Acionou o interfone e esperou ser atendido. Uma voz do outro lado o interpelou:

– Quem é?

– Sou eu, Diego. – O rapaz reconheceu que era ela de pronto.

– O que você quer?

– Falar com você. Logo tudo estará acabado, e não tinha como eu não te ver antes de tudo isso ir pros ares.

– Tudo bem. Já vou abrir.

Solange atendeu com o rosto inchado, de quem havia chorado muito. Ela estava com medo de morrer. Pediu para ele entrar e se sentar no sofá da sala. Ambos estavam ofegantes, sem saber direito o que fazer. Mal perceberam os movimentos até certo ponto involuntários que seus corpos realizaram. Os sentimentos superaram a razão e qualquer contenção que ainda buscavam manter. Aproximação quase que magnética, começaram a se beijar efusivamente. Se amaram ali mesmo, no tapete.

Solange descansava nos braços de Diego, e iam conversando e acertando as arestas, mesmo sabendo que já tinham adiantado as pazes, matando as saudades. E disseram que se pudessem, se o mundo não fosse acabar, reiniciariam de onde pararam e não perderiam nem um minuto a mais com discórdias. E assim, adormeceram, serenos como nunca estiveram antes.

Acordaram com gritos na rua e com o céu ficando mais escuro. Parecia noite, mas eram só quatro horas da tarde e faltavam poucos minutos para o fim do mundo, segundo a contagem prevista. O fenômeno parecia um simples eclipse solar. De fato, o Giant passou entre a Terra e o Sol, atrapalhando a emissão da luz até a nossa superfície. Ligaram a TV, e todos os canais anunciavam a mesma coisa: o meteoro passou resvalando apenas. Foi como se uma mão enorme deslocasse o astro, e protegesse assim os terráqueos. E ainda dizem que milagres não acontecem.

Diego tomou esse episódio como lição. Ficou perto das pessoas que gosta, realizou muitos sonhos e procurou não mais perder tempo, pois aprendeu que este é precioso. Junto com Solange, tiveram dois filhos, e ainda aproveitou bastante a presença do pai.

5 comentários em “[EM] Um minuto para o fim do mundo (Ailana Monteiro)

  1. Lara
    7 de maio de 2021

    Esqueci de dar nota, então vou dar agora: 10

  2. Lara
    7 de maio de 2021

    Ambientação: Gostei da simplicidade, a vida de um homem comum em um ambiente cotidiano e problemas encontados no dia a dia e a possibilidade da Terra ser destruída por um meteoro.

    Enredo: Mostra que nós protelamos problemas que podem ser resolvidos. O protagonista só resolveu seus problemas com o pai e a amada porque sua vida estava em risco.

    Escrita: Cativante, leva o leitor a refletir mas talvez seja pesada para quem passa por problemas similares, é quase um tapa na cara de quem deixa o orgulho vencer o amor.

    Considerações finais: Amei o texto, traz a mensagem do poder do amor e do presente, porque foi só o protagonista deixar o coração falar mais alto e tomar atitude que resolveu as maiores pendências de sua vida.

  3. thiagocastrosouza
    5 de maio de 2021

    Ambientação: Simples e certeira, pois se passa no momento atual, sem carecer de grandes inventividades.

    Enredo: Igualmente simples e um pouco moralista, ao meu ver, até demais. O personagem tem pendências pessoais, busca resolvê-las, consegue facilmente, as pessoas se convencem, há um discurso emotivo sobre a paternidade, contra o álcool, ele reata com a namorada e, no final, tudo acaba bem, pois um milagre desvia o meteoro. Há pouca tensão e o conflito, que deveria ser mortal, pois é o fim do mundo, não tem grandes consequências para o personagem. Há uma questão também que o personagem transita tranquilamente para onde precisa, ainda que o mundo esteja um caos.

    Escrita: Não percebi erros de revisão. Porém, os diálogos me soaram artificiais e moralistas.

    Considerações finais: Caro autor, achei o conto um tanto apático, não consegui me aproximar do personagem e de seus conflitos. É correto na escrita, mas faltou humanizar mais o protagonista, dar sustância para o texto.

    Boa sorte no desafio!

  4. Lucas Julião
    3 de maio de 2021

    Ambientação: Entre razões e emoções o importante é fazer valer a pena. haha! Gostei da ambientação ficou bem bom. Um drama maneiro.

    Enredo: O enredo é bom, o final ficou meio brochado, mas ficou bom. Eu curti.

    Escrita; Tá bem encaminhado, só que os diálogos (principalmente com a família) ficaram um pouco artificial.

    Considerações; É um bom conto. 8,0/10

  5. Anderson Prado
    2 de maio de 2021

    Ambientação: A ambientação foi boa, embora não tenha ficado lá muito dentro da literatura de gênero (foco do desafio).

    Enredo: O enredo é curioso, pois misturou fim do mundo pelo meteoro com o fim do mundo já em curso (poluição, COVID etc.). O final é um pouquinho piegas.

    Escrita: Achei a escrita muito bem encaminhada. É possível melhorar? Sim. Mas já está boa.

    Considerações gerais: Gostei do conto, que trouxe reflexões importantes. É um nota 9,8.

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Informação

Publicado em 1 de maio de 2021 por em EntreMundos - Fim do Mundo.