EntreContos

Detox Literário.

[EM] Quietude (Andarilho Celeste)

“Só deixarei de te amar quando
O véu da morte cobrir minha face”.

(Machado de Assis, “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)

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Alguém! Até que enfim, alguém!  – grito para Vivian, exultante. – Vamos conseguir realizar o experimento.

Ela não responde, tem estado cada vez mais reservada. O tempo lhe roubara os sorrisos e sepultara suas emoções em algum lugar secreto inacessível a mim. Há dias não diz uma só palavra.

Olho em busca de sobreviventes através da janela deste apartamento abandonado no lugar que costumávamos chamar de Centro da Cidade. O cheiro aqui dentro é horrível, um cheiro de morte, de carne podre que se junta ao suspiro que vem dos esgotos. Não chove há muitos dias, acho que mais de um mês. Está muito calor, certamente é verão.

Faz pouco mais de um ano desde que tudo começou.

Apesar do cheiro, achei melhor ficarmos aqui, a posição é privilegiada para o experimento que desejo conduzir. Dois pontos, um de frente para o outro na larga avenida, cada um com um emissor de pulso eletromagnético devidamente ajustado para as frequências necessárias. Pego o binóculo, ajusto o foco e observo que ao longe alguém se aproxima. Não consigo disfarçar a emoção que isto me proporciona, se o experimento funcionar, teremos outra pessoa conosco daqui pra frente.

É uma mulher, está mais próxima, agora posso ver melhor. Puxa uma corrente, provavelmente traz seu cãozinho de estimação. Interrompo a observação, coloco a luneta sobre a mesa e dou uma última conferida nos equipamentos, tudo parece regulado. Conto a novidade para Vivian, ela apenas observa minha empolgação com olhos arregalados. Vou para a janela, pego outra vez a luneta e ajusto o foco na direção da sobrevivente que se aproxima. Mas o que… Oh, meu Deus! Aquilo na corrente… não é… não é um cachorro.

***

Engulo seco e respiro fundo, não quero que Vivian veja o que estou vendo.

– Descanse um pouco, meu amor, não precisa me ajudar neste experimento. Depois te conto se deu certo – digo com um sorriso amarelo, disfarçando o horror que me assolava. Ela não se opõe, deve ter virado para o canto e dormido outra vez.

Na rua, as roupas da mulher são farrapos imundos. O cabelo parece uma moita desgrenhada e a pele tem aquele tom cinzento de quem vive entre a fuligem e os escombros. É visivelmente uma sobrevivente como eu, contudo, a mente está completamente degenerada, a julgar pela cena que vejo.

Vai passar agora pelo experimento. Está mais próxima. Oh meu Deus! Ela não está segurando a corrente, ela a fundiu com a carne no lugar onde deveria haver uma mão. Sinto pavor e tenho vontade de olhar para o outro lado, mas não posso. Preciso monitorar cada segundo. Ela se aproxima e eu aperto o botão. Pronto! O equipamento está ligado.

Precisa dar certo!

Mas ela passou e nada aconteceu. Não aguento olhar para o que ela traz na outra ponta da corrente.

Por um instante fica parada, olhando para o nada, o vento levantando a poeira da rua. Retoma a caminhada claudicante na direção do prédio em frente. Será que o experimento deu certo, ela recuperou o juízo e agora procura abrigo no prédio?

Passam-se alguns minutos e ela está na janela do sexto andar. Aceno, quem sabe me vê e deseja contato. Mas sou ignorado.

Oh não…

Ela se senta na janela, já sei o que vem agora. Fica de pé no beiral e puxa a corrente que não tem um cachorro no fim…. Eu poderia voltar as costas para mais este fracasso, mas preciso ver até o fim, talvez algo tenha mudado.

Ela se joga, como infelizmente eu não queria, mas no fundo, esperava. Seu corpo cai como um saco de vísceras, puxando sua carga. Antes de estacar no chão como um pacote de carne e ossos, a corrente se enrosca nos cabos de transmissão da rua. Por um momento, aquilo interrompe sua queda, mas seu peso faz a corrente rasgar a carne do antebraço e ela atinge de vez o chão.

Pendurado no fio, o que ela tinha na outra ponta da corrente permanece pendurado por alguns segundos. Depois vem ao chão, era a parte superior do corpo de alguém que certamente lhe era tão especial a ponto de, em sua loucura, a mulher fundi-lo ao próprio corpo. Também não escapou do chão. Tombou ali, do lado de sua antiga companheira.

A cena é perturbadora, mas preciso prosseguir. Ainda tenho a mim. E a Vivian.

***

Volto para o interior daquela ruína, bebo um pouco de água e preparo uma bolsa para seguir adiante. Olho uma última vez pela janela. O que sobrou do casal está no mesmo lugar. Um cachorro come alguma coisa que acabou de revirar na lata do lixo, enquanto alguns gatos parecem fazer morada na carcaça de um carro. Não os ouço, estão distantes. Tudo é silêncio por aqui, rompido apenas pelos bips dos meus equipamentos. Ao longe, no céu azul, alguns pássaros voam em círculos. “Espreitadores de carniça”, penso. Nunca tiveram tanta fartura.

Me chamo David e sou nanotecnólogo, ou nanotech, como se tornou linguagem comum. Trabalhava na Nanocorps, uma grande empresa, com um grande propósito, mas que infelizmente foi quem começou tudo isso. Eu tinha uma pesquisa promissora, do tipo que te faz virar um astro da ciência. Até que sobreveio toda a desgraça. Olho ao longe o Cristo Redentor com seus braços abertos sobre a Guanabara, seu sorriso petrificado parece um deboche com o que restou de nós. Às vezes penso em castigo divino. Mas só às vezes. Quando só existe silêncio inventamos vozes para culpar (ou para nos culpar). Afasto esses pensamentos, preciso seguir em frente.

Mantenho a esperança. Não buguei totalmente. Ainda.

E lembrar que eu mesmo fui dos que tanto defendi os melhoramentos. O projeto parecia bom. Tudo começou com uma tecnologia para desobstruir artérias comprometidas por acúmulo de colesterol. Nanites controlados por um médico nanotech, como eu, olhava através de um monitor e manipulava as ínfimas estruturas de modo a desobstruir as artérias do paciente. Deu certo logo na primeira tentativa e agora pessoas à beira de um infarto poderiam ter uma segunda chance.

Um mundo de novos avanços científicos se descortinou. O passo seguinte foi a cura para Alzheimer através de nanobots. Um de nossos cientistas descobriu que era possível reconstruir caminhos neurais comprometidos reconstituindo sinapses nervosas. Houve gente que chorou de emoção quando viu um renomado cantor, à época com 90 anos, falando com a vivacidade dos 40. Esperança, até aí era isso que a nanotecnologia nos oferecia, uma promessa de solução para males que nos assolaram por séculos.

O próximo passo parecia óbvio. Se sinapses nervosas poderiam ser reconstituídas então também poderiam ser construídas. Houve muito debate ético, mas a discussão facilmente descambou para um tribalismo político maluco onde ao invés de discutir ciência as pessoas começaram a falar sobre uma suposta conspiração internacional diabólica em curso para escravizar almas. Falavam em fim dos tempos.

Do outro lado, defensores dos novos avanços reagiam expondo escândalos da vida pessoal dos líderes reacionários antimelhoramentos. Conspirações, discurso de ódio, fofocas e mentiras, uma maré de baixarias afogou o debate, ninguém mais falava em ciência.

Então, como sempre acontece, alguém tentou em algum lugar remoto, muito necessitado de ganhar competitividade na ordem econômica internacional. E funcionou. Em um dia os cidadãos da pequena nação no Pacífico conseguiam criar sinapses que lhes conferiam domínio sobre máquinas industriais, tutoriais de aplicativos e até novos idiomas. Foi um espetáculo da inventividade humana. Eu mesmo visitei a ilha naqueles dias gloriosos, tudo pago pela empresa. Me lembro de Vivian pulando ondas naquela praia maravilhosa e depois se deitando na areia fazendo aqueles trejeitos com os óculos que ela sabia me deixar louco de desejo.

Uma era de maravilhas se anunciava.

Em pouco tempo, dado o progresso econômico que era o mais próximo de bênção e milagre que as pessoas podiam imaginar, os discursos dos moralistas foram sendo deixados de lado e grandes nações foram aceitando a nova revolução.

“Aprender informações técnicas não nos define como humanos, qual a diferença entre o ‘procedimento nanolearning’ e fazer um longo e extenuante curso técnico, se não a economia de tempo e esforço?” – dizia o discurso presidencial otimista – “Teremos cidadãos mais bem remunerados e com mais horas para produzir arte ou dedicar mais tempo a suas famílias, coisas que realmente nos fazem humanos”.

Era um belo discurso e ele estava realmente certo até aí. A promessa era boa, mas comprar os melhoramentos era algo muito caro, não era para qualquer um. Houve investimento público para modernizar a força de trabalho. Somas vultosas, mas o retorno compensou. Em uma década o Brasil estava no rol das grandes economias do mundo e com elevado índice de bem-estar social. Um sonho antigo finalmente realizado. Financiados por suas empresas ou pelo Estado, trabalhadores faziam o download de aprimoramentos de última geração através das “Fábricas de Saberes”, lugares onde você poderia ir e se submeter a uma sessão de nanolearning, onde alguém como eu injetaria uma solução nas suas veias e a partir dali manipulariam as diligentes criaturinhas tecnológicas até o seu cérebro, onde elas criariam as sinapses que você acabara de comprar.

Os preços variavam a partir do conhecimento que você desejava. Um pacote de “trabalhos manuais” – acredite, isto se tornou moda em grupos neoprimitivistas – poderia custar umas trezentas pratas. Milhares de pessoas decididas a adotarem um modo de vida mais rústico compraram este pacote e depois se mudaram para lugarejos bucólicos. Não faço ideia do que aconteceu a esses aí, devem ter sido devorados por alguma onça mais primitivista que eles.

Por outro lado, pacotes como “Neurociência”, “Astronáutica Avançada” e “Mercado Financeiro em Detalhes” poderiam custar mais que uma fábrica ou uma fazenda altamente produtiva. Tempo, era o que as pessoas estavam comprando. E por um tempo, isto foi bom. Muito bom!

Outro ponto polêmico, mas que não demorou a ser resolvido foi a coisa da edição de memórias. “Os traumas são meus, eles serviram para construir quem sou”, gritava o ativista raivoso na Presidente Vargas naquele domingo ensolarado em que tudo acabou em pancadaria. Nem todos, porém, gostavam tanto de traumas e quando o policial, que toda noite era visitado por fantasmas de favelados assassinados, editou suas memórias e passou a levar uma vida de paz plantando tomates na serra, choveu gente querendo se livrar de traumas de infância e até de amores não correspondidos. É claro que as coisas não foram tão fáceis, porém no fim, como diz o ditado popular apesar dos cãos latirem, a caravana não parou.

Mas foi aí que tudo mudou. Quando a nano-edição neural estava bem integrada ao nosso cotidiano, alguém fez uma coisa terrível. Hackers neuroterroristas pertencentes ao grupo reacionário “Almas Livres”, desejosos pelo retorno ao que eles chamavam de “o tempo do livre-arbítrio”, invadiram os sistemas da Nanocorps e começaram a incutir dezenas de informações falsas na cabeça dos cidadãos. De repente as pessoas acordaram no meio da noite, acreditando estarem vivendo um terrível pesadelo onde ideias estapafúrdias pareciam bastante plausíveis. Os criminosos foram cinicamente cruéis nas paranoias que editaram. Coisas como transmorfos alienígenas elaborando uma trama sombria para escravizar seres humanos e uma história bizarra de que a morte era uma ilusão criada por nanobots na cabeça da humanidade, a fim de nos fazer esquecer nossa imortalidade. Dentre a enxurrada de pensamentos aberrantes houve até a ideia de uma conspiração onde a Nanocorps estaria trabalhando na construção de um grande ralo no fundo do oceano da terra plana a fim de possibilitar que seus patrões reptilianos roubassem a água da Terra em grandes naves-tanques. O mundo simplesmente sofreu uma esclerose relâmpago e fulminante.

Às vezes me pego pensando em como alguém dos gloriosos séculos XIX e XX estaria rindo, achando esta história digna de uma ficção nada convincente. “Que história absurda!– diria o intelectual em sua casaca de pinguim em algum salão vitoriano – Tal narrativa não tem sentido algum, como alguém num mundo de ciência avançadíssima iria acreditar em coisas que hoje nem uma criança acreditaria? Isto é pior que folhetins piadísticos, joguem essa porcaria fora, por favor!” Mas essa porcaria, caro erudito… é o meu mundo real. E, tudo bem, eu sei o quanto a história é absurda, mas é um erro inocente acreditar que a humanidade se guia por ideias sofisticadas. Absolutamente qualquer bobagem poderia ser transformada em verdade pelos bots.

Os dias que se seguiram foram de caos absoluto. Os neurohackers adolescentes que causaram a pane não pensaram no fato óbvio de que eles, cada um a seu modo, também usavam nanobots, não havia mais ser humano no planeta que não precisasse de pelo menos um melhoramento para viver naquela sociedade altamente competitiva. E logo também enlouqueceram perdendo o controle de sua brincadeira revolucionária de mau gosto. Estávamos à deriva num oceano de realidade aumentada completamente insana.

Para a maioria das pessoas o fim dos tempos chegara. Houve tiro, guerra, matança e crueldade, as pessoas libertaram seus demônios. Religiosos saíram pelas ruas orgulhosos de constatarem suas profecias. A humanidade era uma espécie que estava dando tão errado que não foi preciso um asteroide, um novo ciclo vulcânico ou uma desordem climática para trazer o tão temido apocalipse. Bastou a nossa própria loucura induzida.

Você deve estar se perguntando como eu escapei de tudo isso. Bem, na verdade, não fiquei completamente imune. Meus bots também falham e vez por outra vejo fantasmas, fragmentos de informações desconexos que estão onde não deviam estar. Uma hora é uma bela loira desfilando de biquíni na rua fazendo propaganda de um shampoo, outra hora são coelhinhos falantes anunciando a estreia de um desenho animado. O problema é quando a informação reminiscente foi corrompida e eu vejo uma cidade flutuando nas nuvens ou uma pessoa me chamando de uma janela – “Ei, David!” – eu olho e a pessoa tem a cabeça separada do corpo, flutuando do lado de fora com um sorriso pixelado e torto anunciando gentilmente um clube de férias, “sua vida nunca mais será a mesma”. Haja sanidade!

Contudo, tenho o controle do meu problema. Eu era cientista, tinha minhas incertezas sobre aquilo tudo e meus próprios recursos para cuidar dos meus nanobots. Busquei o caminho mais seguro sobre a verdade das coisas: editei alguns nanobots que me eram imprescindíveis, criei sistemas particulares de firewall e desativei a maioria que não me faria falta. Pelo menos até aqui tudo parece sob controle.

Eu acho.

***

Desisto. Depois do último fracasso, estou convencido de minha insuficiência para resolver o problema. Mas sei que os laboratórios da empresa trabalhavam em algo e é para lá que seguirei. Vou levando tudo que me importa para o veículo estacionado lá embaixo. Vivian dorme e eu não quero acordá-la. Levo-a no colo. O tempo está esfriando e eu a envolvo com meu casaco.

Ainda resta alguma energia na bateria do carro. Nas últimas semanas já abandonamos uns quatro por falta de energia e fiz uns bons quilômetros a pé. Foi estranho, mas ao mesmo tempo espetacular atravessar a Ponte Rio-Niterói andando, o mar lá embaixo num movimento síncrono e silencioso; as nuvens lá longe nas alturas, flocos de algodão num céu tão azul que chegava a parecer uma joia. Vivian pediu que eu a carregasse nos ombros, “quero ver tudo de cima” – me disse. Achei engraçado, ela tinha essa alma um tanto infantil, sempre conseguia extrair o melhor de cada experiência terrível que temos vivido nos últimos tempos. Foi difícil carregá-la, mas consegui. O sorriso dela era a única coisa que importava naquele mundo terrivelmente quieto. Nunca foi um problema carregá-la nas costas.

Não sei o que seria de mim sem Vivian, talvez já tivesse enlouquecido.

***

Ligo o automóvel. O painel de controle acende imediatamente – que sorte! – A barra de energia, contudo, não promete muito. Acho que consigo chegar até lá. Tudo funciona bem, inclusive o volante parece bem calibrado. Poderia colocar no piloto automático, mas nestes tempos convém não confiar demais em qualquer coisa artificial que se arrogue inteligente. Ligo o som, há uma lista de mais de mil músicas.

“Música de estrada”, ordeno. Mas a IA da máquina não reconhece meu comando de voz. Vou com os dedos e jogo no aleatório. Uma música em inglês começa a tocar, é uma música antiga, do distante século XX. É incrível como a maior parte das músicas cantadas por voz humana são daquela época, estamos há uns bons cinquenta anos apenas fazendo montagens digitais e vozes cibernéticas com sons frenéticos. O antigo dono deste carro devia gostar de coisa velha. “Living on a Prayer”, diz o nome no painel, o ritmo é mais lento, porém mais constante, mais orgânico do que os que tocavam nas boates dos últimos dias. “She says: we’ve got to hold on to what we’ve got/ cause it doesn’t make a difference if we make it or not/ we’ve got each other and that’s a lot”, diz a música e ela parece falar de nós dois. Não sei quem canta, mas a voz e os arranjos me inspiram uma gostosa sensação de liberdade enquanto dirijo. Comento com Vivian, ela parece apaixonada pela estrada, não me dá muita atenção. Sentada no banco do carona, continua com o olhar perdido no horizonte, o sol tocando sua face delicada. Mas nada diz, sua voz está sepultada dentro de si.

Sinto saudades…

Me concentro na música e na estrada. Um ou outro carro parado com as portas abertas, aqui e ali. Há corpos pela pista, alternando de lugar com alguns buracos que o tempo salpicou no asfalto e encheu de mato. Aves se banqueteiam com restos mortais de pessoas e animais. O cheiro de cadáver está em toda parte, é tão onipresente que às vezes fede sem eu ver nenhum morto por perto. Queria que Vivian não visse essas coisas, tenho certeza que foi isto lhe roubou a alegria e aquela bela expressão vivaz que seus olhos sempre transbordavam.

Fim de tarde. Chego na porta do laboratório. É um prédio grande e eu sei que lá atrás há um pátio para entrega de cargas. O portão foi derrubado e eu passo por cima com as rodas altas do veículo. O carro passa trotando por sobre a chapa de metal, me dizendo ter alguma coisa embaixo que o peso do carro esmagou.

Paro o carro. Desço. “Fique aqui, Vivian” – digo.

A cabine do segurança está com o vidro estilhaçado, do lado de dentro uma coisa indistinta repleta de moscas e emanando um cheiro de morte pavoroso me dá boas vindas. Tem marcas de bala e de destruição por toda parte, toda minha esperança de que exista alguma solução por ali quase se dissipa por completo.

Subo os degraus e tem caco de vidro por toda parte, um extintor de incêndio manchado de sangue parece ter sido usado como arma. Há um formigueiro enorme subindo e descendo às escadas, indiferentes à desgraça da humanidade. Às vezes sinto vontade de chorar.

Então, depois de três lances de escadas me deparo com a porta que se coloca fechada entre mim e minhas últimas esperanças. Olho pelo visor, é um laboratório de alta tecnologia.

Abro a porta e do lado de dentro, três camas hospitalares estão impecavelmente limpas, alguns aparelhos ainda estão ligados, tirando energia provavelmente de algum gerador solar instalado em cima do prédio. Este tipo de coisa se tornou comum e eu me lembro das propagandas da época da minha infância ironicamente falando ao som de uma batida de música eletrônica “você vai passar, eu vou passar, mas nossas máquinas agora serão eternas, o tempo da energia finita acabou” – Sinistramente profético!

Acesso os arquivos nos computadores, minha ID de funcionário ainda é operacional. O pôr do sol já se aproxima, a luz avermelhada entra por uma janela discreta, emprestando seus raios senis ao ambiente frio do laboratório. Penso em Vivian, será que ela está bem? A verdade é que ela sempre foi muito independente, acho que até hoje precisei muito mais dela que ela de mim.

Depois de várias horas vasculhando os arquivos do laboratório, eis que entendo a solução encontrada pela empresa. E minhas esperanças felizmente se concretizam. Levanto da cadeira num salto e grito qualquer coisa para o silêncio do mundo. Ele me responde com o mesmo desprezo de sempre, ressaltando minha insignificância. Mas agora eu conhecia a cura.

O que eu não entendo é por que encontrei a cura, mas nenhum sobrevivente.

Sento-me na cadeira grande e reclinável do centro de tratamento, parece uma cadeira de dentista e a angústia é a mesma. Coloco o CARENE, capacete de redefinição neural, posiciono os sensores nos lugares certos e começo o procedimento. Com o comando de reconhecimento de voz devidamente programado para que a máquina me obedeça, inicio as instruções:

– Monitorar sinais vitais e atividade cerebral – ordeno.

– Sinais vitais, ok – me responde a máquina depois de alguns segundos – Atividade cerebral levemente alterada. Prosseguir?

– Sim. Inicie procedimento.

Sinto um sono forte tomar conta de mim, a saliva desaparece de minha boca e o ar torna-se levemente mais frio. Então depois de um tempo que me pareceu uma noite inteira, mas não deve ter passado de alguns minutos, visto que os raios avermelhados do pôr-do-sol ainda entravam pela janela, sou despertado subitamente, provavelmente por uma descarga neural.

– Procedimento encerrado – determinou a voz sem espírito.

Estranhamente não me sinto melhor nem pior, ainda sou o mesmo. Será que isto funcionou de verdade? Fico ali um tempo e não vejo mais fantasmas.

Tomo o caminho de volta, penso em Vivian, ela deve estar com fome. O caminho é o mesmo, sem nem uma leve alteração, até o formigueiro ainda se encontra lá. Estou agora na porta da frente do prédio e olho a cabine crivada de balas com aquela coisa cheia de moscas lá dentro, tudo igual. E olho para o veículo que deixei para trás antes de subir em busca da minha cura. A porta está aberta como eu havia deixado e pela primeira vez uma suspeita muito sombria me visita.

Medo.

***

Caminhei até a porta e Vivian estava lá, no banco do carona, como esteve o tempo todo e de repente uma avalanche de memórias reordenadas parecem me estrangular. Vivian não se assustaria com a cena do experimento, não me respondeu nada em momento algum, não dormiu, não acordou, não curtiu estrada nem música alguma… Vivian não se tornou quieta porque estava traumatizada.

Vivian estava morta. A julgar pelo estado, há pelo menos uma semana. Sua vida era somente um fantasma da minha neuro-edição corrompida. Talvez meus bots soubessem que eu não suportaria a vida sem ela.

E então entendi o cheiro de podre que me perseguia onde quer que eu fosse. Entendi a quietude daquela que um dia tanto me amou, entendi sua distância… sua partida derradeira. E me senti em um abismo de desamparo sem fundo.

Em meu desespero, gritei de horror. Olhei em todas as direções desejando intensamente alguém a me ouvir, alguém que me socorresse, mas em toda parte só havia o mesmo monstro de sempre à espreita: a quietude do mundo que se foi.

Gritei alto. Esbravejei. Mas sequer alguém para agredir existia, nem mesmo um deus para acusar pelo absurdo cósmico, como faziam os antigos com seus seres míticos. Ninguém, aquela era a maior solidão, o maior silêncio de toda a história da humanidade, todo grito encerrado em mim.

Pulei para dentro do veículo, precisava de algum barulho e certamente o motor do carro estaria lá para me salvar. Liguei, dei meia volta com o volante e passei à toda pelo portão enferrujado, mais uma vez aos solavancos sobre ele.

Gritei de novo. Na estrada, gritei com toda minha insanidade enquanto Vivian olhava indiferente para o outro lado, a luz do sol morrendo em suas pupilas mortas. Sol que se punha ao longe, se despedindo de nós, prometendo voltar para nos torturar por mais um dia.

E nos abandonando miseráveis à escuridão da noite que se aproximava.

3 comentários em “[EM] Quietude (Andarilho Celeste)

  1. thiagocastrosouza
    5 de maio de 2021

    Ambientação: Bem feita. É perceptível a desolação onde se passa sua história. Interessante se passar no Rio de Janeiro, com lugares familiares para os leitores brasileiros.

    Enredo: O plot é bem interessante, e eu sou obrigado aqui a usar aquela frase clichê de que “parece um episódio de blackmirror”, pois a tecnologia, visando melhorias, acaba tendo um uso exagerado com consequências mortais para a humanidade. O que me incomodou um pouco foi a forma de contar a história, um tanto quanto explicativa demais, em certos momentos, como se lesse um relato direto. Há também um problema no meio do caminho que me incomodou bastante, que é quando o autor trata dos jovens hackers. Só pelo texto, a explicação já estava pouco crível, mas aceitável dentro da proposta do desafio, porém, o fato de você salientar ainda mais isso, citando autores do século XIX e XX apontando os absurdos daqueles desdobramentos, para mim, pareceu uma insegurança do autor com o próprio texto. Foi uma autodenúncia. Porém, apesar de explicativo, o desfecho é bom, e há pistas ao longo do caminho de que Vivian está morta, como o cheiro pode constante (talvez nem fosse necessário reforçar essa informação no final), o que revela planejamento na hora de escrever o texto.

    Escrita: Sem erros, acho, bom uso do itálico para destacar palavras e trechos em língua estrangeira. Um pouco explicativa demais em determinados pontos.

    Considerações Finais: Gostei do plot, da ambientação brasileira e do enredo como um todo. Acho que pode melhorar a forma de contar a história, mas é um bom trabalho.

    Grande abraço!

  2. Lucas Julião
    2 de maio de 2021

    Ambientação: É boa, mas tem um problema: O cristo redentor não ri.
    Enredo: Aqui tem alguns problemas. A primeira parte do conto, com a mulher com o marido acorrentado, é completamente inútil pro desenvolvimento da trama. E os capítulos estão mal organizados. Sem contar com o que é aqueles trejeitos com o óculos!? Se ele sabia que no laboratório talvez tivesse a cura…Por que não foi para lá de uma vez ao invés de criar um esquema sem muito sentido na janela?
    Escrita: Não tem grandes problemas.
    Considerações; É um conto bom. Te aconselho a aproveitar o plot e refazer a história, vai dar muito certo! A ideia é boa, só não foi bem desenvolvida. Por hora minha nota é 7,0/10,0

  3. Anderson Prado
    1 de maio de 2021

    Ambientação: adorei a ambientação carioca! Eu não faria melhor!

    Enredo: o enredo diverte, prende a atenção. É uma história em que as coisas mais são contadas do que acontecem.

    Escrita: a escrita é boa. Os erros de revisão são poucos. Há um tanto de lugares comuns típicos de histórias apocalípticas da espécie.

    Considerações gerais: o desfecho está bem contido na epígrafe. Não é um final surpreendente (a partir de certo ponto, passei a suspeitar que mulher era uma defunta). Mas é um final que cria uma imagem ao mesmo tempo bonita e aterradora. Posso dizer que gostei do conto. É, pra mim, um nota 9.8!

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Publicado em 1 de maio de 2021 por em EntreMundos - Fim do Mundo.