EntreContos

Detox Literário.

[EM] Após a Terra se Perder (Naturae)

O atrito com o ar esquentou a enorme nuvem de detritos ejetada em alta velocidade. Fragmentos incandescentes, descargas elétricas provocaram uma onda de choques que varreu o planeta, tão forte que interceptou a luz solar por vários anos.   Os governos haviam focado em viagens espaciais e busca de locais habitáveis dentro e fora da galáxia. Muitos testes, pouco sucesso.

A Terra ficou vazia por mil anos. Era a mudança de ciclo.   

♾️ ♾️

Luzes se acenderam projetando imagens e sons: uma viagem pela história da civilização, abrangendo desde a antiguidade mais remota, o desenvolvimento tecnocientífico como desencadeador de mudanças, estudos sobre ambientes diversos, transceptores, hardwares, firmwares, robótica estrutural e uma abordagem final:

O planeta vem aguardando mega desastres ambientais, possível reversão dos polos magnéticos, que trarão mudanças no comportamento do Sol.

Se há atividade aqui e agora, é porque tais eventos desabilitaram a infraestrutura global e trouxeram extinção em massa. Já deve existir possibilidade de reestruturação. Resgatar a vida no planeta é a tarefa. É necessário melhorar a precisão dos algoritmos e encontrar formas de lidar com a imprevisibilidade e a diversidade. Segue-se um conjunto de instruções programadas.

O mecatrônico processou os dados apresentados. Percebeu na análise do tempo que havia mil anos não registrados até o momento em que foi reativado. A prioridade, no entanto, era analisar o ambiente e ajustar funções. Os neurônios artificiais altamente conectados naquela unidade operacional básica se colocaram em ação:

Identificou-se como um dispositivo eletroeletrônico humanoide, portador de um grau avançado de inteligência na navegação autônoma, capacidade de autocorreção e remontagem. Um reator, com núcleo de tralphium era responsável pela produção de energia. Denominou-se DEH-UM.

O segundo passo foi construir outros protótipos. Comporiam o CONTROLE do projeto de pesquisas e desenvolvimento de novos insumos e técnicas, a partir do silo armazenado no bunker: matérias-primas diversas, sementes, banco genético animal e humano; tudo preparado para produzir duplicatas.

Por duzentos anos o CONTROLE trabalhou na reestruturação do planeta. O mundo estava perfeito, lógico e previsível.

— Por que interpreto que os humanos não estão bem? — questionava DEH-UM.

— Este é um recurso ilógico —outro robô analisava— A interação entre humanos e robôs é tão espontânea quanto entre humanos.

— Talvez, se lhes permitíssemos romper paradigmas, sem base unicamente nos dados… — insistia o prior. Noto-os isolados, sem expectativas, diferentes das memórias.

As camadas externas do Sol se dissipavam no espaço. Ele brilhava, quase anã branca, no centro de um invólucro de gás e poeira.

— Sabia que a encontraria aqui, Angel — disse um humano se aproximando.

— Estou aproveitando o calor. Se houvesse tecnologia para trazer de volta a mesma energia revelada nos registros históricos…

— O CONTROLE descobriu uma estrela semelhante à nossa, mais nova — Iuri a interrompeu.

— Estão certos disso? Onde? — Angel se animou.

— Sabem que existe, mas não consta nas cartas. Por isso estão convocando você.

— Ora, ora! Querem a aberração!? Precisamos é descobrir uma cura para nosso habitat; não fugir.

— Acha possível?

— Faltam ferramentas, algo que não sei o que é — ela buscava destino diverso para si e para os outros.

— E os registros? — Iuri se esforçava para a compreender.

— Faltam dados. Talvez estejam no período oculto.

Flutuaram juntos sobre a superfície queimada e arenosa.

Iuri tocou o sensor do domo liberando a passagem para a cidadela. Apenas uma ínfima parte da enxuta população saía para a área livre — não havia motivo ou vontade em fazer isso…

Os dois jovens eram aguardados pelo grupo do CONTROLE.

— Agir em conjunto para o bem de todos — cumprimentaram-se. DEH-UM tomou a palavra e atualizou a missão:

— Encontramos uma estrela que emite uma radiação específica, semelhante aos ecos dos arquivos remotos.

— Entendo. Mas, respostas de outro mundo se ajustam a este? — questionou Angel, fez uma pausa e completou:

 — E por que eu?

— Você possui habilidades não-programadas que se desenvolveram por si só. E é relevante que, durante estes anos, tenha tido mais contato com a radiação solar do que todos nós.

— As minhas saídas? — admirada.

— Sim. Seu comportamento é incomum. Nós sabemos sobre sua estranha fixação e seus banhos de sol — continuou outro robô-prior.

— Use sua singularidade e nos auxilie. Estudando a estrela-similar e planetas de sua órbita, talvez… — interveio um terceiro.

Os dois autômatos, que se mantiveram calados, dedilhavam comandos em uma tela invisível: um universo de estrelas explodiu à frente de Angel e, prontamente, suas conexões neurais foram ativadas.

— O que devo fazer? — O mapa celeste girava ao redor dela.

— Sentir — responderam os robôs-priores em uma só voz. — Procure o mesmo padrão de assinatura sensorial que assiste o nosso mundo.

Corpos celestes iam e vinham. A projeção parecia enlouquecida, enquanto a aura da jovem se deslocava por espaços desconhecidos: asteroides, cometas, estrelas, meteoroides, planetas e satélites. Nebulosas, quasares e buracos negros foram vistos de relance, até que uma bola azul, pequena e frágil, orbitando uma explosão amarelo-laranja, capturou-a… Era assim que imaginava o Sol de séculos atrás.

— Registramos as coordenadas com precisão. Foi dado um passo importante — disse um dos robôs-priores.

— Essa galáxia não pode ser estudada apenas com os hologramas — refutou outro.

— Um deslocamento até essa galáxia ocorrerá conforme o esperado? — questionou um terceiro.

— É improvável que estes dados existam — argumentou DEH-UM projetando mais imagens.

— Se vocês pudessem sentir… Aquela estrela é magnífica, viva e tão…

— Não sei se esta viagem é possível, Angel — a expressão de Iuri mudava.

— Por quê?

— Viajar à velocidade da luz não é próprio para seres orgânicos. Seu corpo frágil seria desintegrado — ele alegou.  

— Além do absurdo dos dados encontrados, não conhecemos o que ocorreu, de verdade, nos períodos ocultos — outro robô.

— Por que se importa tanto? — Iuri se voltou para a moça.

— Vocês não compreenderiam…

Angel pensou que DEH-UM fosse encerrar o assunto, mas, para sua surpresa, deu alguns passos em sua direção, a cabeçorra mecânica se sacudindo de um lado para o outro:

— É um planeta com mais probabilidades de sustentar vida do que a maioria. Tanto em tamanho quanto em temperatura estimada. Na realidade, é o mais parecido com a Terra de minhas memórias, mesmo danificadas em parte.

— Ei — falou a jovem novamente. — Podemos seguir com isto?

— Acreditem em mim, isso é mais importante — disse o prior, erguendo os braços, insistindo na visita ao planeta-gêmeo

 — Parece que você tem tudo sob controle — interrompeu outro humanoide.

— Os dois planetas orbitam sua estrela em sincronia. Acredito que essa característica pode tornar o sistema estável.

— Então vamos em frente?  — Exclamou a humana.

Os estudos continuaram por um bom tempo. Prós e contras analisados até a exaustão até que todos se convenceram que a viagem seria possível, porque era mais que necessário entender aquele candidato semelhante à Terra.

A construção de um artefato adequado para aquela distância disparatada ocupou espaço e tempo. Matemáticos, astrônomos, engenheiros trabalharam sob a supervisão do CONTROLE. Angel seria a mensageira.

Tudo preparado, o momento da partida chegou.

— Tem mesmo certeza disso? — um dos envolvidos perguntou a Angel.

— Tenho. Sou a única que pode encontrar essa galáxia congênere.

Um dos cinco autômatos-priores se aproximou:

— Poderá não haver retorno. Você já conhece e treinou todo os procedimentos.  — um entorpecimento tomou conta do corpo da garota e no fundo de sua mente, ela percebeu que uma porta estava prestes a fechar, mesmo que ela não conseguisse processar todas as implicações.

— Sim. Terei de improvisar um feedback— pausa. — Dará tudo certo! — Depois estreitou os olhos e completou deixando uma tímida trilha de esperança:

—É como se eu já tivesse feito isso.

O silêncio recaiu sobre a plataforma de lançamento. A contagem regressiva começou com números a piscar na tela. Angel tinha três minutos para descer a rampa e entrar no módulo de transporte, ou perderia a dobra temporal. Essa é a minha chance, pensava com excitação e terror disparando dentro dela.

A nave se envolveu em luz difusa e, com o som de um trovão, perdeu-se nos cosmos.

♾️ ♾️

Havia chegado? Como era possível?  Angel tocou os controles, soltou a trava do assento e liberou sua saída do módulo. Assim que ela se afastou, o mecanismo de desintegração apagou qualquer vestígio da aventura histórica.

Com a garganta seca, ela se jogou no chão, passando os braços em volta dos joelhos a fim de evitar os detritos e o medo. O movimento rápido ativou os instintos fixados no seu cérebro pelo treinamento. Testou os reflexos, empertigou-se, sentindo que precisava de algum tempo para se recuperar do choque da viagem. Enraizada no chão, entortou o pescoço e vasculhou céu e solo, os olhos absorvendo tudo em cada direção.

Tentava não pensar. Já havia pensado o bastante. E fez uma coisa pela primeira vez. Angel chorou. Pela primeira vez em sua vida, estava livre, sozinha.

Experimentava algo dentro dela se rasgar e, num impulso, saiu correndo na direção de luzes, cambaleando, arriscando-se naquele ambiente verde e úmido. Que sensações são estas? Frio? Dor? Percebia-se mais pesada. Olhou para o corpo. Sim. Sua aparência era semelhante à estudada. O mecanismo preparado para este fim havia funcionado.

De repente se sentiu agarrada. Debateu-se em vão. Ouviu ruídos estranhos e um artefato de textura macia a cobriu. Tudo se apagou…

♾️ ♾️

As conferências sobre ética cansavam o cientista. Marco Travassos sentia-se realizado com a instalação do primeiro complexo autômato-manipulador-genético. Portas se abriam:

— Sei que é um projeto impopular. Mas a engenharia genética é a solução. Com o uso de máquinas na totalidade das atividades evitaremos a degeneração. Sem contato humano, sem riscos.

— Não é um quadro forte demais mesmo para a mente mais aberta? — foi a questão levantada.

Ainda em meio à onda de protestos ocasionada pela imprensa, Marco teve a curiosidade despertada por uma agitação incomum: uma jovem nua se escondia atrás dos arbustos, no jardim.  Ele abriu passagem entre convidados e seguranças que a detinham; tirou o paletó e a cobriu em um arroubo. Disse a todos que era uma parente com problemas mentais, tomou-a nos braços e a carregou para seu chalé no complexo. Se ele vinha fazendo coisas estúpidas durante toda a vida, não tinha nenhuma intenção de parar agora. Intuiu que deveria cuidar daquela garota. Depois procuraria a família dela.

A claridade penetrou no quarto até encontrar o rosto da moça adormecida. Abriu os olhos e teve de fechá-los depressa… Confortável esse retângulo! Analisou cada detalhe do local, descobriu uma saída e deu alguns passos desajeitados rumo à porta.

Jamais vira uma manhã tão clara. Serra após serra, perdendo a cor pouco a pouco na lonjura, tornando-se primeiro de um verde fosco, depois azul ainda mais fosco, passando a violeta e púrpura. E cheirava a… Seja lá o que fosse, era um cheiro delicioso. A gravidade levemente maior e a taxa de oxigênio mais alta lhe acarretavam bem-estar e euforia.

Marco a encontrou deitada na grama baixa do jardim. Os braços abertos pareciam querer abraçar a luz solar que explodia em faixas de cor. Ele via um sorriso no rosto dela, tão pequeno que poderia ter sido um truque da luz que penetrava pela folhagem.

— Então… Sente-se melhor? — testou a comunicação.

A jovem sentou-se com um movimento súbito. Era difícil entender aquela linguagem.  

 — Eu… Sol… — ela procurava palavras.

— Você gosta de estar ao sol? Também gosto — Marco gesticulava se esforçando.

— Entende o que estou dizendo? — Ela percebeu a semelhança com o idioma dos registros históricos. Mas por que falariam a língua primitiva naquele planeta com Sol vivo?

Os olhos da garota focaram diretamente sobre ele, como se estivessem desvelando a mente, arrancando as camadas para revelar todos os pensamentos que trazia intencionalmente escondidos. Seu cérebro zumbia com perguntas que nunca chegariam aos lábios.

— Qual é o seu nome? — ele insistia.

— Hãn… hãn…

— Parece que você se esqueceu de tudo — por um instante, eles apenas se entreolharam, o silêncio assumindo um peso físico.  Marco pensava que era seu dever protegê-la. Procurou nela um sinal de loucura ou qualquer coisa que o ajudasse a entendê-la.

— Bem… então como vamos chamá-la? — ele estendeu a mão e tocou a dela. O contato gerou em ambos uma emoção incomum, agradável.

— Humm… ah… — ela balbuciava.

— É um anjo que apareceu aqui. Então, Ângela — ele fez uma escolha, já meio caído pela jovem. — Vamos… diga Ângela.

— Ange… Angel… Angel… — ela quis manter o nome, surpresa pela coincidência.

— Ótimo. Mais curto. Angel é bonito — o rapaz arrematou. Ela assentiu com a cabeça e sorriu; e ele continuou buscando reações:

— Gosta de maçã? — a moça virou-se e viu um cesto de frutos redondos, vermelhos. Marco pegou um e deu uma mordida. Isso era muito diferente daquilo a que ela estava habituada. Experimentou o alimento, imitando os gestos dele.

— Você está escutando isso? — sussurrou ele. Sons tímidos brotavam entre as folhas. A canção era ao mesmo tempo assustadora e alegre. Pássaros. Pássaros de verdade. Ela não podia vê-los, mas sabia que estavam ali.

Angel passou por exames médicos e foi diagnosticada com amnésia. Permaneceria no aglomerado laboratorial até sarar, morando em um apartamento com outra funcionária e sendo o ponto de interesse do grupo:

— Ufa! Você tem sede de aprender! Tevê, computador, celular o tempo todo — alguém comentou.

— E como vai indo rápido… — disse outro — já está falando sem nenhuma dificuldade.  

— Mas o convívio é o mais importante — acrescentou a colega de moradia.

A jovem, alegando que gostaria de ser útil, pediu um encargo ali.

— Este é o seu chefe, Angel — Marco a encaminhava para um dos setores.

Não posso estar enganada: a aparência humanoide, o porte… ela pensou e quando o robô se virou, as dúvidas se esvaíram. Na altura do ombro-mecânico, em letras graúdas: DEH-UM — a mesma inscrição gravada no robô-prior-central.

Então tudo fez sentido…

Definitivamente ela estava no passado! Viajou no tempo, não no espaço… Por isso os paradoxos dos cálculos e, talvez, por isso nunca mais pudesse voltar. Não era outra galáxia, nem outro o Sol.

Obviamente não poderia contar a verdade. Jamais acreditariam.

Se ela e DEH-UM estavam ali, era porque o ciclo não havia sido quebrado. Teria que cuidar para não ocasionar um desvio no contínuo original. Qualquer interferência e o futuro conhecido poderia nem existir. Mas ainda precisava descobrir a maneira de salvar a humanidade… Como faria isso trabalhando de auxiliar no laboratório de fecundação artificial?

O mecatrônico e ela se observavam com atenção. E ela precisava compreender o que se passava ali e quais seriam as consequências:

— Onde pretendem chegar com esse projeto, DEHUM?

— Fui programado para viver enquanto houver seres humanos para servir. Não posso morrer enquanto restar um de vocês vivo — e inesperadamente sua voz ganhou nova modulação. — Vocês, humanos, com sua televisão, suas drogas e crescimento demográfico.

Cálculos sobre a evolução ocuparam os neurônios da jovem. Dados incompletos. O que teria ocorrido no permeio? Arriscou mais perguntas:

— Caso a evolução pretendida encontre alguma barreira, qual será a diretriz?

—  O ser humano deve se adaptar melhor às condições terrestres ou a outras galáxias.

— Pode haver escassez de recursos naturais, DEH-UM?

— Deverei, então, dar o próximo passo. — Dar o próximo passo? O que isso significava? A moça o deixou trabalhar e dirigiu-se ao refeitório, onde encontrou Marco:

— O que significa a expressão dar o próximo passo? — perguntou repentinamente.

— Bem… — ele não sabia como se expressar. Tossiu um pouco e continuou.

— Em um relacionamento significa ir mais a fundo, passar mais tempo juntos… Casar-se… No jargão científico, significa encontrar outra solução.

Ela se levantou da mesa de um salto, deixando entornar o café da xícara.

— Angel? O que foi? — Não podia responder a Marco, mas entendeu o raciocínio de DEH-UM. 

O robô deixaria de criar humanos, devido a estrutura frágil, e passaria a construir humanoides — a classe que controlaria o planeta. Ele acreditava, como a moça por algum tempo, que o computador possuía de fato todas as respostas. O próximo passo… E os humanos, continuariam a existir? Por que o robô, no amanhã, decidiu lidar com o banco genético armazenado e criar seres de mente automatizada? Estava confusa. Sentou-se novamente e bebeu o café substituído.

Marco tinha convidado Angel para um jantar no chalé.

O aroma do porco assado era estranho e inebriante. Não havia carne no futuro. Toda a criação de gado tinha sido eliminada.

— Como sabemos quando está pronto? — perguntou a garota, recordando as embalagens dos nutrientes.

— Quando o exterior começar a ficar crocante, e o interior, rosado.

 O torpor do vinho, o brilho sutil das lâmpadas, a música preenchendo o cenário e a sensação de embarcar numa aventura… faziam o mundo se expandir. O rapaz apertou-lhe a mão de leve e ela descansou a cabeça em seu ombro. As palavras fugiram antes que ele tivesse tempo de pensar.

Angel percebeu que Marco olhava seus lábios; a pulsação que se acelerou. Ele se aproximou, cada vez mais… e a preparou:

— Quero beijá-la!

Um beijo!  A jovem não tinha a menor ideia do que estava fazendo; simplesmente imitou o que ele fazia. Retribuiu o beijo, esquecida de sua missão. Por um segundo, ela se esqueceu até mesmo de que esse era o seu primeiro beijo.

E, a cada vez que os lábios dele roçavam uma nova extensão de pele, ela estremecia.

— Eu a amo — sussurrou e a beijou novamente, de forma um pouco mais intensa. Colocou a mão atrás da cabeça dela e a deitou sobre o tapete. Marco a abraçava com mais força, ou beijava sua bochecha, ou passava os dedos pelo seu cabelo. O sabor da alegria.

A mulher se desprovia de blindagens nessa situação única, tão espontânea quanto incontrolável. Apossava-se dela uma volúpia mal contida e pôde se libertar de pequenas amarras, violar o desconhecido. A novidade era um tecido que se esgarçava a uma velocidade alarmante. O surto de magia dominou sua vergonha. E, naquela noite, instintos adormecidos em seus genes despertaram.

Angel tomava consciência do seu corpo. Constatava a sua respiração, o seu sangue, as ligaduras que mantinham as partes unidas. Cada pedaço, até o último átomo, somando-se um ao outro. Ela sentia estar exatamente onde deveria estar.

Fincou os olhos no homem nu ao seu lado. Ele via escrito na menina dos seus olhos o que ela vivenciava: livre e inteira… para um encontro essencialmente humano. Homem e mulher, densamente animais…

A visão que a saudou na manhã foi a mais surpreendente que poderia esperar: Marco, emoldurado pelos lençóis, uma aura de luz coroando os cabelos despenteados. Ela respirou profundamente, satisfeita, perguntando-se como sua vida acabou se alinhando de forma tão imprevista.

Pela janela, Angel viu a paisagem como uma dança, o movimento era um bailado. E viu o sol brilhante, um amplo azul, com nuvens para se adivinhar os formatos. Uma calma acalentadora se fez presente, como se a abraçasse com carinho, em luto pelas perdas do futuro. Muito bem! Respire lentamente, alimente a imaginação e pise o medo.  Pense somente no agradável.

Os dias passavam e Angel, particularmente feliz em estar com Marco, era incapaz de parar de procurar soluções para seu cotidiano e para aquele porvir que lhe parecia pouco distante.

Naquela noite:

— Eu sei o seu segredo — trivial, ele sussurrou.

O corpo dela ficou tenso. Manteve os olhos cuidadosamente focados no chão. Gaguejou um pouco e perguntou:

— Que segredo? Pare com isso — apressou uma resposta.

Seu parceiro a ignorou:

— Você finge ter perdido a memória para ficar comigo. É uma daquelas garotas que acha que as regras não se aplicam a você, não é?

— Isso não é de forma alguma o que faço. Já chega! — ela disse com um tom autoritário.

— Ei, calma. Prometo que nunca violarei o seu mistério. Tudo o que precisa fazer é me amar.

— Ah! Você está brincando comigo. Quer saber tudo? Sente-se. É uma longa história. Eu venho do futuro… — e contou sobre toda sua existência, com detalhes.

— Deveria escrever um romance. Que imaginação! — O homem, incrédulo, comentou dando risadas.

Angel mordeu o lábio, tentando segurar a enchente de palavras que se juntava em sua garganta. Ela gostaria tão desesperadamente que ele acreditasse nela, mas o que aconteceria de bom em admitir a verdade? Era melhor deixá-lo ver nela apenas uma garota sem memórias, criativa e mimada, que o amava.

Estava feliz. Merecia ser feliz. Podia escutar os sons daquele mundo. Os ventos nas árvores, os regatos correndo, os animais e pássaros que levavam vidas estranhas e secretas no fundo das matas, o futuro desconhecido que seus descendentes um dia conheceriam. Sim. Poderia ter filhos e vê-los crescer… E não seriam produzidos em série, autômatos.

 Acordou sorrindo. Marco esticou o braço e segurou o queixo dela na mão:

— Ei! Aquela sua história de ontem. Uma espécie ensinada a procurar todas as suas respostas nos cálculos matemáticos? Um mundo em que nenhuma questão podia jamais ficar em aberto pois já tinha todas as respostas, e o que existia além não era possível explorar? Que triste! E se…

O cérebro de Angel disparou…

Um mundo com o computador idolatrado como um Deus. Não era o Sol ou a Terra que deveriam ser salvos; mas a espécie humana. Angel concluiu, como se falasse consigo mesma. Ainda há muito a fazer! — Tudo que lhe restava era seguir com o plano.

Apenas o autômato estava no laboratório quando a jovem chegou. Ela iniciou com ele uma conversa hipotética sobre o futuro. Determinou que arquivasse em seu banco de dados uma instrução fixa, de suma importância. Era vital que não ocorressem quaisquer erros. O humanoide avaliou os cálculos apresentados e os aprovou, criando dados criptografados, aplicados a um algoritmo, para que fossem decodificados em determinada situação.

A solução foi simples. O futuro estaria salvo e, agora, ela poderia desfrutar exatamente do que faltava na longínqua época: o contato humano, a naturalidade e, principalmente, filhos…

♾️ ♾️

A Perseverantiae era original, manteve-se em boas condições, depois de séculos. O seu lançamento foi improvisado para fugir do impacto na colisão de um enorme asteroide com a Terra. A nave armazenava material para recondicionar vida no planeta.

Reativado, o mecatrônico cruzou a plataforma vazia. Era impossível saber quanto tempo se passara desde a última vez que tinha sido desabilitado ou até onde já viajara, ou mesmo se ainda estava viajando.

A visão clareou o suficiente para que ele conseguisse focalizar as telas de navegação. Desbloqueou as fontes e pôde distinguir o espaço aberto. Apenas o vazio, preenchido por ele e um ou outro meteorito.

O motor rangeu ao se preparar para outro salto subcamada e continuou em frente até alcançar o planeta que não era mais tão azul e verde.

DEH-UM viajava processando instruções e dados armazenados. Refazer aquilo que já existia ou decidir aquilo que foi programado era tarefa possível para uma máquina. Um ciclo estava completo; um novo teria início.

O humanoide ajustou funções, montou seus pares e, juntos, repararam o ambiente de uma extensa área. O planeta deixado para trás se curava lentamente e a vida continuaria a evoluir.

Enquanto isso, um casal de humanos era criado e desenvolvido em incubadoras. Prontos e preparados seriam os responsáveis pela nova fase da evolução, formando, de forma natural uma descendência.

— Os seres humanos decidirão o que fazer? Não haverá controle? Como poderei protegê-los? A nave pendia no céu como um pingente prateado banhado pela luz. DEH-UM espiava através de um telescópio. Ele determinara a suas criaturas, quase invisíveis naquela extensão:

— O ambiente foi restaurado. Vocês, agora, renovarão a face da Terra. Dou-lhes livre-arbítrio para lidar com o mundo real, imperfeito, diverso e imprevisível.

A vida estava de volta às mãos originais. Não pertencia especificamente a um laboratório. Pertencia à humanidade.

3 comentários em “[EM] Após a Terra se Perder (Naturae)

  1. thiagocastrosouza
    5 de maio de 2021

    Ambientação: muita inventividade lógica para criar esse universo. O autor buscou conceituar o seu mundo e apresentar suas regras e mecanismos dentro da trama.

    Enredo: Bem arquitetado, utilizando-se do recurso de viagem no tempo, vamos montando o quebra-cabeça junto com Angel, descobrindo novidades e soluções colados na personagem. Não apreciei muito a relação dela com Marco, talvez pelo fato da trama estar tão interessante e embrenhada na resolução dos problemas, esse amor repentino, a descoberta sexual, para mim, alongou o texto mais do que precisava. Acho que o autor pisou em terrenos que não lhe são habituais, ou não teve o mesmo esmero de quando pensou no enredo e na ambientação. Porém, as resoluções são boas e o final bastante simbólico: há, ao meu ver, uma relação com a mitologia cristã, do livre arbítrio e o futuro da humanidade na figura de um casal com a missão de povoar a Terra. Outro elemento que me fez pensar sobre isso é o fato da protagonista, cujo nome Anjel não é à toa, comer uma maçã.

    Escrita: Tudo correto. Texto trabalhado que revela segurança de quem o escreveu.

    Considerações Gerais: Veja só, esse não é um texto que eu leria num blog ou numa antologia de Ficção Científica, pois o tema, de modo geral, não me atrai. Porém, o fato de você escrever muito bem, trabalhar a trama com capricho, elaborar as regras e tecnologias desse mundo à serviço da história e ainda inserir, sutilmente, símbolos e analogias com outras obras que discutem o gênese da humanidade me faz assumir que esse é um conto excelente! Um encontro feliz que tive em literatura de FC, graças a esse desafio que topei participar, como um aventureiro.

    Parabéns pelo trabalho!

  2. Lucas Julião
    3 de maio de 2021

    Ambientação: É a melhor até agora. É um conto de viagem no tempo e isso torna tudo confuso, mas lendo com calma se percebe o que está acontecendo ( o que é raro, bem raro).

    Enredo: Tem muitos personagens no começo, o que ferra um pouco as coisas, mas sinceramente… Com o tempo as coisas se encaixam.

    Escrita: Ótima

    Considerações gerais: O melhor até agora. Parabéns 9,8/10

  3. Anderson Prado
    2 de maio de 2021

    Ambientação: A ambientação me pareceu maravilhosa em alguns momento e sofrível em outros. Por exemplo, o primeiro capítulo do conto, que é dedicado inteiramente à ambientação, é fantástico. No entanto, há momentos em que a ambientação decaiu tanto que eu parecia não estar mais lendo o mesmo conto – ao que me pareceu, o autor está tão habituado ao universo da literatura de gênero, que acabou por se esquecer de que eventualmente seu leitor poderia não estar tão habituado assim (o que me pareceu pontas soltas, conceitos sem explicação, talvez façam total sentido no universo da ficção científica).

    Enredo: O enredo concedeu pouca atenção ao fim do mundo, mas não vi isso como uma deficiência. Sendo o fim do mundo um dado posto desde o capítulo inaugural, o autor optou por discorrer sobre a maneira como esse fim impactou e, em determinado ponto, o autor se concentrou em uma história de amor.

    Escrita: A escrita me causou a mesma impressão do enredo: ora me pareceu estupenda, ora decepcionante. O conto possuiu passagens belíssimas, mas, em alguns momentos, contém vícios (lugares comuns) e más escolhas.

    Considerações gerais: Foi o conto mais difícil de avaliar até aqui, por causa do contraste criado entre passagens belíssimas e outras detestáveis. O início é de cair o queixo, enquanto o desfecho é decepcionante (piegas). Achei o texto repleto de potencial (por vezes mal explorado). O autor escreve muito. É caprichoso e dedicado. Mas precisa encontrar um ponto de equilíbrio entre alguns excessos que comete (veja-se como o diálogo do segundo capítulo é confuso, e quanto isso se contrapõe a alguns diálogos translúcidos que aparecem nos demais capítulos). É um conto 9,8.

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Publicado em 1 de maio de 2021 por em EntreMundos - Fim do Mundo.