EntreContos

Detox Literário.

A Luz da Janela – Conto (Fabio D’Oliveira)

– O SOBRADO –

A primeira coisa que chamava a atenção era o ninho de marimbondos: tão grande que cobria metade de uma janela do andar superior. A construção robusta e arquitetura fina denunciavam seus dias de glória, agora reduzidos ao abandono, ao escárnio, à indiferença. Bem localizada, na rua principal do bairro, era ignorada por todos os transeuntes, que, mergulhados em suas rotinas, iam e vinham num fluxo sem fim.

O portão enferrujado estava sempre trancado. Corrente grossa e três cadeados. Do outro lado, num quintal dominado por ervas daninhas e flores selvagens, haviam sinais de que o lugar era tratado como o lixão da vizinhança. Entulhos, pedaços de móveis, sacos plásticos, uma geladeira tombada.

Duas cores predominavam na pintura do sobrado. Branco e salmão. As paredes descascadas denunciavam que ela já fora bege e azul. A escadinha que levava ao alpendre foi destruída pelo tempo. Algumas vezes, a casa era invadida por jovens durante suas aventuras desregradas, então a porta de entrada estava sempre aberta. E ela batia nas noites de vento forte.

O som ecoava pela rua, inabalável, como se fosse um pedido de socorro, de atenção, de companhia. E esse grito, estranhamente hipnotizante, chegou até meus ouvidos.

– A INFÂNCIA –

Nunca fui uma criança comum.

Era o menino estranho do grupo. O magricela tímido. O corcundinha que nunca beijaria. Mas não era rejeitado. Estava sempre com a criançada do bairro, sempre participando das brincadeiras, era convidado para todas as festinhas. Mesmo sendo quieto, tendo a risada esganiçada, mesmo assim, era aceito.

Mas tinha o Rômulo. Ele não gostava de mim. “Gabrielzinho é estranho demais, vamos dar uma lição nele, ele vai melhorar depois disso”, ouvia escondido quando achavam que eu não estava por perto. Nunca considerei aquilo como uma ameaça. Era apenas uma brincadeira, como as outras. Eu acreditava nisso. Sinceramente acreditava.

Então, quando falaram que iríamos fazer uma exploração urbana, naquele sobrado abandonado que ficava na frente da minha casa, não suspeitei de nada. Era excitante: pular o muro escondido com a galera e atravessar o quintal devagarzinho, sem fazer barulho. No alpendre, percebemos como o lugar era mais escuro do que esperávamos.

— Vai na frente, Gabrielzinho. Ou está com medo? — provocou Rômulo.

Entrei. Queria mostrar minha coragem. Queria ser mais do que o corcundinha que nunca beijaria. Queria que as brincadeiras acabassem. Mas me trancaram lá dentro. Eu lembro claramente como as vozes e risadas foram se distanciando, enquanto eu permanecia imóvel, paralisado, no mesmo lugar que estava quando ouvi a porta fechando. Era como se estivesse mergulhado num mar negro. O ambiente era tão denso, tão sufocante.

Não tive tempo pra gritar ou chorar. Uma luz no piso superior acendeu. Senti paz. E, do nada, vi-me do lado de fora, deitado no meio das ervas daninhas, três dias depois de tudo aquilo. Cansado. Fraco. E sem qualquer lembrança do que acontecera dentro do sobrado.

– A JUVENTUDE –

No meu aniversário de treze anos, minha mãe insistiu em fazer uma festa, dizendo que iria convidar todo mundo da escola e do bairro.

Ninguém apareceu.

Depois do incidente, todos se afastaram de mim, pouco a pouco, até não sobrar ninguém ao meu lado. Tive uma adolescência solitária. Isolado no meu quarto, buscava refúgio e conforto no computador, nos jogos eletrônicos, nos filmes. Minha rotina era essa: cama, escola, quarto e PC.

Eu sonhava todas as noites. Sonhos estranhos que sempre indicavam o sobrado e, talvez, o que vivi lá dentro. Às vezes estava escondido num closet, chorando, com vergonha de mim mesmo. Em outros momentos, encarando meu reflexo num espelho quebrado, vendo uma forma distorcida, reconhecendo-me nela. Sentia-me indigno. Feio. Mas uma voz tentava me tranquilizar. Prometia proteção e conforto. Às vezes, via-me dividido em dois meninos, entre o sorriso e a lágrima.

Frequentei alguns psicólogos. Não adiantou muito. Cada um tinha uma teoria diferente do que tinha acontecido comigo. A mais aceita, dentro da minha família, foi a ideia de que fui sequestrado e drogado, sendo mantido como refém em vários lugares, pelos três dias que sumi. Depois que apareci na mídia, o responsável se assustou e me abandonou na casa.

Não fazia sentido para mim.

Às vezes, durante a madrugada, acordava assustado, ouvindo a porta do sobrado bater. Era um som incessante, que entrava na cabeça sem convite e não queria sair. Eu evitava olhar pela janela. Tinha receio. Então a deixava sempre fechada e coberta pela cortina. Uma noite, acordei sentindo a brisa noturna acariciando meu rosto. Do outro lado da rua, na casa abandonada, uma luz estava acesa no andar superior. Conseguia ver a silhueta de uma pessoa na janela parcialmente coberta pelo ninho de marimbondos. Entrei numa espécie de transe, não conseguia me mexer ou falar.

Tudo o que importava era aquele momento. Um instante de paz, de aceitação, de amor.

Depois disso, comecei a mudar, aos poucos. Voltei a sair, tentei me reconectar com alguns amigos de infância, comecei a jantar com minha família. Tornei-me uma pessoa mais sociável. Sentia-me feliz, estranhamente feliz.

As madrugadas que dividia com a silhueta do sobrado se tornaram o meu tesouro.

– A MUDANÇA –

Pouco antes de completar o ensino médio, meu pai anunciou que tinha arranjado um bom emprego na capital.

Não senti nada, inicialmente.

A vida continuou: escola, amigos, namorada. Entretanto, aos poucos, uma estranha angústia se instalou no peito. Os dias começaram a ficar mais arrastados, mais pesados, insuportáveis. Comecei a me afastar de todos. Esse vazio continuou crescendo, consumindo tudo, até que, um dia, vi-me trancado no quarto, ignorando qualquer mensagem do celular ou batida na porta.

Demorou um pouco para entender o que estava acontecendo.

Durante longos dias, levantei de madrugada e esperei pela silhueta do sobrado. Aquela luz, infelizmente, não apareceu mais pra mim.

– O REENCONTRO –

Um dia antes da mudança, vi-me pensando intensamente naquele sobrado que parecia parte de mim. Foi instintivo. Três horas da tarde, em ponto, simplesmente saí de casa, atravessei a rua e parei na frente daquele lugar. O portão enferrujado, que costumava estar trancado por grossas correntes, abriu vagarosamente. Parecia um convite. E eu aceitei.

Assim que entrei na casa e fechei a porta, uma luz acendeu no andar superior.

Uma sensação tão esquisita me envolveu, era quase reconfortante, mas tinha um pouco de medo. Fiquei longos minutos no primeiro andar, andando pelo ambiente, receoso, decidindo o que faria. Era notável como aquela casa um dia fora grandiosa e protegeu muitas pessoas. Móveis elegantes de madeira resistente, porcelanas empoeiradas, quadros belamente emoldurados. Gostaria de conhecer os antigos donos. E entender por que abandonaram tudo. Parecia tão injusto.

Por fim, depois de tantas conjecturas, tantas indecisões, percebi que não tinha como fugir daquilo.

O som de cada degrau, sem exceção, parecia ressoar dentro de mim. A escada terminava num corredor. Aquele lugar, sim, era um verdadeiro contraste com o piso inferior. Limpo, com móveis lustrados e ambiente iluminado, como se estivesse estacionado na época em que era habitado. Senti-me leve e feliz. Era um sentimento quase inédito. Era a mesma sensação que me possuía nas madrugadas compartilhadas com a silhueta da janela.

Eu caminhei pelo corredor e abri a última porta. Era um quarto. A cama ajustada no centro, um grande closet na parede oposta, luminárias apagadas nos cantos do teto e um grande espelho quebrado ao lado da entrada. Perto da janela, a mesma coberta pela colônia de marimbondos, uma silhueta humana estava mergulhada na penumbra. Como o ninho tinha vários buracos, parte da luz do sol se projetava na parede em forma de bolinhas. Dava para ver a poeira flutuando pelo ambiente.

— Você finalmente retornou. Esperei por tanto tempo…

— Eu não sei o que falar — fui sincero.

— O silêncio basta.

Ela se virou. Mesmo com pouca iluminação, reconheci quem era. Eu mesmo. Ainda como criança. O corcundinha feio e magricela que nunca beijaria uma menina.

— Está pronto para me aceitar?

— Acho que sim.

— Está tudo bem, Gabriel. As pessoas sempre apontam e tentam diminuir quem brilha. Há tanta escuridão que a luz geralmente assusta. Você sabe disso, não sabe?

— Eu sei.

— Eu sou você, afinal.

— Sim, você é.

Gabrielzinho caminhou até mim, num sorriso inocente que há muito tempo não via, e pegou na minha mão.

— Obrigado por toda a companhia — uma voz ecoou pelo ambiente.

— E eu agradeço por me proteger — respondi com gratidão.

Quando retornei para o corredor, todas as luzes se apagaram. Mas aquilo não me incomodou, pois, afinal, estava de mãos dadas com algo que brilhava mais do que qualquer coisa.

14 comentários em “A Luz da Janela – Conto (Fabio D’Oliveira)

  1. Bruno Tavares
    1 de maio de 2021

    Fabio, o teu texto é o primeiro que me interesso em ler até o final, desde que conheci o site; ou seja, dois dias. rs Ainda assim, chamou muito a minha atenção e meu feeling de leituras que agradam muito o meu gosto, acertou novamente. E digo mais, foi além da simples leitura. Explico o motivo:

    Meu camarada, deixa eu falar do teu texto; que estória criativa, fluxo de pensamento maravilhoso, e que escrita interessante. O real mistura-se ao lúdico. A nossa não aceitação na época de infância, e no meu caso, no período de adolescência, é muito real e forte para alguns; e foi para mim.

    Preciso falar que lendo tua obra, me identifiquei em muitos pontos e principalmente, na questão psicológica a que se propõe tua escrita. Fiquei impressionado no final, quando o protagonista se encontra com ele mesmo, no passado, a infância que lhe deixou mais traumas, pois algo muito semelhante ocorreu à mim, só que na fase adolescente. Eu sofri um trauma aos 16 anos e em decorrência disso, enfrentei longos anos de sofrimento e confusão.

    Hoje, estou bem, feliz e em paz, pois eu busquei isso, todos os dias. Encontrei a verdade que eu precisava, para compreender e acabar com o erro.

    O mais interessante é que o meu processo de cura me levou a ter esta mesma experiência, pois ao compreender o que se passava comigo e em minha mente, precisei reencontrar o Bruno daqueles 16 anos e dizer a ele: está tudo bem, eu te perdoo. A experiência foi tão forte que eu reavivei a sensação dos locais e momentos de quando eu era adolescente.

    Hoje, muitas de minhas experiências me servem de inspiração e eu mesclo com meus contos e textos também. São como um mistério a desvendar; um quebra-cabeças, no qual aos poucos, vamos descobrindo o motivo de uma peça só servir depois de algum entendimento e esforço por melhora. Você conseguiu descrever em teu conto uma experiência que eu vivi e por isso acho brilhante tua estória e dom para a escrita.

    Parabéns caro amigo!

  2. thiagocastrosouza
    22 de abril de 2021

    Fábio, gostei do conto. No fim, acho que passa longe do terror, mesmo insinuando isso várias vezes pelo clima do sobrado e da infância e adolescência perturbada. Um conto sobre como nos enxergamos, sobre a maneira como muitas vezes queremos amadurecer alheios aos nossos traumas, desapegados da imagem que tínhamos de nós mesmos no passado. O final é muito bom, muito bonito!

    Grande abraço!

  3. Wilson Barros
    19 de abril de 2021

    Um conto psicológico, denso e profundo. Bem escrito, com suspense e ritmo, que fazem a leitura fluente. A ambientação em uma penumbra pareceu adequada. Lembra as histórias de Henry James. Os diálogos estão muito bons, parabéns.

  4. antoniosbatista
    19 de abril de 2021

    Gostei do elementos de gênero Fantástico. O tema casas abandonadas e crianças solitárias é uma fonte inesgotável de inspiração para se escrever um bom conto. Eu mesmo já escrevi um conto sobre uma casa abandonada, crianças e um fantasma que não era fantasma.rs

  5. Anderson Prado
    18 de abril de 2021

    Que final surpreendente (passou longe de ser o que estava esperando) e reflexivo! Parabéns, Fábio!

    • Fabio D'Oliveira
      19 de abril de 2021

      Estou pasmo… Consegui surpreender o Anderson. Ganhei o dia, hahahahaha.

      Obrigadão pela leitura e comentário! Sei que sua vida anda corrida no momento e apenas o fato de doar um tempinho pra ler os contos da EC mostra bem a pessoa dedicada e atenciosa que você é.

  6. Priscila Pereira
    18 de abril de 2021

    Oi, Fábio!
    Que delícia de conto! Mesmo com aspectos mágicos, está bem firmado na realidade de muitas crianças que nunca tinham se sentido diferentes ou inferiores até que outras pessoas apontasem isso. Então se perdem, procuram a auto aceitação antiga, mas nunca acham… Ainda bem que o Gabrielzinho achou a dele!

    Está muito bem escrito, gostoso de ler, aborda questões psicológicas de forma leve e inclusiva.
    Gostei muito!
    Parabéns!
    🥰😘

    • Fabio D'Oliveira
      19 de abril de 2021

      Obrigadão, Priscila. Você sempre me ajudou muito quando se trata de manter a escrita presente na minha vida. Sem você, literalmente, esse conto não seria possível, hahaha.

  7. Elisabeth Lorena
    18 de abril de 2021

    Fábio D´Oliveira
    Deus amado, que texto lindo!
    Gostei de descobrir junto com o narrador que ele precisava mesmo era se aceitar e ser feliz. O Conto me prendeu! E fazer isso enquanto se está em outra janela conversando com um amigo escritor tão “avoado” quanto você, dá para saber que é difícil.
    O conto tem uma proposta gostosa, a princípio vemos o menino crescer ali, menino comum, com amigos, dúvidas, incertezas e brincadeiras infantis. A agressão sofrida o modifica porque ele se rompe, só que não é algo que poderia dizer que se refaria como fez. E isso é muito interessante. O outro Gabriel se rompe, mas não se desintegra e não se esconde de fato. Você deixou os dados todos à mostra, sem nos integrar a história, ao fim, o que nos dá contorna outras perguntas que deixam de fazer sentido com o desfecho muito bem amarrado.
    Muito bom sua construção do suspense, do ambiente, da sua verdade. A divisão por capítulos e sua singeleza com a linguagem deram o tom preciso para que o conto fosse ao seu ápice com plena aceitação por parte do leitor.
    Parabéns!

    • Elisabeth Lorena
      18 de abril de 2021

      Ops, entregar

    • Fabio D'Oliveira
      19 de abril de 2021

      É sempre uma honra ter seus comentários nos meus contos. São sinceros e precisos. Ainda quero comentar como você e alguns outros daqui, haha.

      Agradeço de coração pela leitura. Fico verdadeiramente feliz quando o que escrevo alcança alguém. Acho que é o que me mantém escrevendo até hoje, sendo sincero.

      Muito obrigado pelo comentário, Elisabeth!

      • Elisabeth Lorena
        19 de abril de 2021

        Fábio, é um prazer comentar um bom texto. E por isso gosto do Off porque não sou “obrigada” a curtir e comentar textos ruins. Vai que o escritor está ainda crescendo e eu tenho pavor de boicotar com minha crítica o crescimento de alguém.
        Quanto aos seus textos, sempre geram prazer na leitura e na reflexão para um comentário. Esse mesmo, em dias de melhores condições psicológicas eu conseguiria colocar uma dezena de bons teóricos.
        Parabéns, de novo.
        Elisabeth

  8. Andrea Nogueira
    18 de abril de 2021

    Gostei? Sinceramente não sei. Está bem escrito e é bastante claro. Gosto de umas ‘sacadas’, da luz que acende e se paga dependendo do momento de vida e do humor do narrador-protagonista, do duplo – infanto complexado e daquele que cresce elaborando esses complexos, do encontro com sua própria luz. Aos mesmo tempo me incomodou o uso de alguns clichês literários.É bom, continue.

    • Fabio D'Oliveira
      19 de abril de 2021

      Tudo bem, Andrea. É impossível agradar todos.

      E eu realmente gosto dos clichês literários, haha. Não consigo escapar deles quando escrevo com o coração.

      Obrigadão pela leitura! De verdade.

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Informação

Publicado às 18 de abril de 2021 por em Contos Off-Desafio e marcado .