EntreContos

Detox Literário.

O Movimento do Coração (Priscila Pereira)

“Eu preciso mesmo ir?”, resmungou Vitor, fazendo careta.

“Precisa, sim. Todos passam por isso quando completam dezoito anos. Faz parte da vida. Há uma necessidade de experimentá-la. É uma viagem rápida, mas segura”, falou o diretor, erguendo as sobrancelhas. “Quando perceber, pronto, estará em casa.”

Foi literalmente empurrado para dentro da máquina. Não queria conhecer outro mundo. Queria ficar ali, no orfanato, com seus amigos e com Stela. Tão linda, com seus olhos puxados, o nariz pequenino e arrebitado, os dentes tortinhos que davam um charme quase infantil ao seu sorriso. Estavam juntos desde pequenos. Pensavam em se casar assim que saíssem do orfanato.

Sentou-se na cadeira que ficava no centro do cilindro. Seguiu todas as orientações: apertou o cinto de segurança, ajustou o protetor bucal (odiava o gosto daquele troço!) e prendeu a respiração. Sentiu uma forte pressão envolver o corpo e tudo começou a tremer. A visão ficou turva e, num instante, o ambiente mudou.

“Oras, até que não foi ruim”, disse ele, saindo da máquina.

Ficou boquiaberto. Era um mundo parecido com o dele. Tinha tudo que conhecia: pessoas, casas, animais, flores, muitas flores. Porém (e bota um grande porém nisso), era tudo feito de engrenagens. Pequeninas, médias, grandes e de todo tamanho possível. Ficou embasbacado olhando o que parecia ser um girassol. Uma engrenagem redonda era seu centro, amarronzada, e versões pequenas formavam as pétalas, caule e folhas. E tudo se movia, sem parar, num movimento constante e vivo.

“Bem vindo! Fez uma boa viagem? Claro, posso ver que sim! Ótimo, ótimo! Eu sou seu guia e te mostrarei seu novo lar!”

Demorou algum tempo para Vitor achar quem falava com ele. Olhou para os lados, coçou a testa, olhou para baixo e lá estava, uma raposa vermelha com a barriga e patas brancas, focinho comprido e olhos sagazes, toda feita de engrenagens. (Amava raposas!)

“Ah, oi… Aqui as raposas falam, é? Maneiro! Mas o que você quis dizer com “novo lar”? O diretor disse que logo voltaria pra casa…”

A raposa pulou até uma pedra, para ficar na altura dos olhos de Vitor, piscou e disse:

“Sim, você acabou de voltar para sua verdadeira casa. Olhe para tudo, não parece familiar? Você pertence a esse lugar!”

Vitor observou cada cantinho daquele ambiente e tudo parecia novo e original. Tinha certeza de que nunca estivera lá antes.

“Ué, mas como assim? Não está vendo que sou feito de carne e osso? Como aqui pode ser minha casa? Sem ofensas, aqui é bem legal e tals, mas eu não sou um robô! É o que vocês são, não é? Então, de qualquer forma, eu sou humano, não tá vendo?”

A raposa balançou a cabeça e mexeu o focinho. O barulho de pequenas engrenagens se movendo era encantador.

“Humano, pois sim…”, deu uma risadinha matreira. “Venha, vou te mostrar tudinho.”

Vitor deu de ombros e seguiu a raposa como pode, não conseguia acompanhar suas patas rápidas e ágeis. Até porque se distraía com cada planta, flor, casa, nuvem…

Uma enorme borboleta passou por ele, batendo as asas (num tom de verde esmeralda e azul celeste) devagar, num ritmo que lembrava a valsa. Estendeu o dedo e ela pousou nele. Foi diferente do que imaginava. Ela era leve e suave.

“O que foi, meu bem, nunca viu tanta beleza?”

(Claro, todos os animais deviam falar naquele lugar.)

“Na verdade, não! Você é maravilhosa! Stela adoraria te ver… Ela ama borboletas, sabe…”

Seu sorriso murchou na hora quando pensou na Stela.

“Me fala, como faço pra voltar pra casa? Aquela raposa maluca acha que meu lugar é aqui, mas é um engano, com certeza…”

A borboleta continuou batendo as asas, toda exibida.

“Escuta, querido, se a raposa disse que você é daqui, então você é daqui. Simples assim. Mas por que você quer voltar para o orfanato? Ninguém quer ficar lá, ainda mais quando chega a hora de voltar pra casa.”

Vitor coçou a cabeça, contrariado.

“Mas eu nunca estive aqui antes! E tem uma pessoa me esperando lá, tenho que voltar. Não parece óbvio que sou diferente de vocês?”

“Não, não vejo diferença nenhuma. Você parece se encaixar perfeitamente aqui. Até mais, amor, te vejo por aí. É melhor correr, a raposa está impaciente. Garanto que isso não é bom.”

Bateu as asas com mais força e levantou um voo elegante.

Ao longe, a raposa acenava para ele com insistência.

“Vamos logo, rapaz! Não temos tempo a perder!”

Chegaram a um galpão gigantesco, colorido, feito com pecinhas minúsculas que não paravam de girar. 

“Aqui é onde a mágica acontece, garoto!”

Dentro estavam centenas de pessoas, todas feitas de engrenagens, juntando peças e peças, criando coisas, como abelhas, gatos, violetas, violões, nuvens, gotas de chuva, estrelas…. Tudo que se podia imaginar era montado ali e assim que o objeto ficava pronto, quando a última pecinha era colocada no seu lugar, ele ganhava vida, começava a se mexer e ia fazer o que fora criado para fazer.

“Uau! Isso é incrível! Mas como eles ganham vida assim do nada?”

“Não é do nada. Quando todas as suas peças estão no lugar certo, você simplesmente se torna quem deveria ser. Uma peça sozinha não é nada, mas o conjunto pode ser qualquer coisa! Aqui, tente montar um esquilo.”

A raposa estendeu um punhado de peças marrons em sua direção.

“Mas eu não sei como fazer isso!”

“Tente, tente, vai se impressionar com o resultado.”

Analisou cada uma delas. Eram inanimadas, silenciosas e frias.

“Não pense muito, só junte. Não é você que está criando o esquilo, ele já existe, você só está emprestando suas mãos para montá-lo.”

Ele começou a juntar as peças de modo aleatório e instintivo, e logo surgia um esquilinho fofo e mecânico, com grandes olhos brilhantes e bigodinhos que começaram a se mexer assim que a última engrenagem foi encaixada.

“Não posso acreditar! Está vivo!”

Vitor segurou o animal como um bebê recém-nascido e, maravilhado, contemplava sua obra.

“Claro que estou vivo! Por que o espanto? Agora me solta que tenho muito o que fazer. Obrigada pela ajuda!”

A esquilinha pulou de sua mão e saiu correndo do galpão.

“Então aqui é assim, tudo que existe é montado por pessoas de engrenagens? E quem monta as pessoas? Elas vêm prontas?”

“Não, elas vêm de orfanatos. Assim como você.”

“Mas eu não sou de engrenagens, sou de carne e osso, olha!”

Estendeu os braços, mais um vez, e cutucou-os na frente dos olhos da raposa.

“Estou vendo, estou vendo!”, balançou a cabeça, com ar de deboche. “Mas acredite em mim quando digo que nem tudo é o que parece, mas tudo é o que deveria ser.”

“Eu não entendo!”

“Não se preocupe, um dia você entenderá. Enquanto isso, pode montar o que quiser! “

“É só isso que fazem por aqui? Criar animais e plantas e tudo o que existe?”

“Na verdade, você pode fazer o que quiser. Não precisa ficar aqui, nesse galpão. Esse mundo é seu, você é livre, maior de idade, faça o que quiser.”

“Eu quero voltar para o orfanato e buscar a Stela. Como faço isso?”

“Ah, menino, isso é impossível! Ninguém consegue voltar e ninguém pode entrar se não pertence a esse lugar.”

“Mas então o que vai acontecer com ela?”

“Quando chegar a hora, ela vai ser mandada para seu lugar de origem, para ser o que foi criada para ser. Assim como você.”

“E quantos lugares como esse existem?”

“Milhares, meu filho, milhares.”

A raposa saltou e deu tapinhas nas costas de Vitor, correndo até os portões do galpão em seguida.

“Até mais, garoto! Meu trabalho está terminado, nos vemos por aí.”

E foi embora.

A primeira coisa que Vitor fez foi um bolo (estava com fome). Não sabia se daria certo, entretanto, não custava tentar. Foi montando e, na sua frente, um lindo e saboroso bolo surgiu. Ainda era de minúsculas engrenagens, todas funcionando perfeitamente, mas era macio e convidativo.

Relou a língua no bolo e o gosto de chocolate fez a saliva engrossar. Mordeu ainda com medo. A sensação das engrenagens se espalhando e dissolvendo na boca era incrível, e o gosto, além de maravilhosamente doce, era da conquista de comer o que se fez sozinho.

Continuou construindo. Uma casa, um carro, barquinhos de brinquedo, animais, flores e uma infinidade de coisas. Passava o dia no galpão, as mãos ocupadas, montando sem parar. Não pensava, só montava.

Era muito bom naquilo. Talvez a raposa estivesse certa, afinal, parecia mesmo pertencer àquele lugar, mas sentia-se solitário. As outras pessoas estavam, assim como ele, ocupadas demais construindo suas próprias coisas, não tinham tempo, nem vontade, de fazer amizades, muito menos engajar amores.

Sentia falta de Stela. Pensava nela cada vez mais. Todos os dias, montava uma infinidade de coisas tentando não pensar no vazio de seu coração.

Puxou conversa com um homem que sempre ficava perto dele no galpão.

“Você também veio do orfanato?”

O homem olhou para ele, com seus olhos feitos de engrenagens azuis vitrificadas, parou de fazer o canário, que estava quase pronto, e disse:

“Claro, todo mundo veio”, deu de ombros.

Sua pele era clara e as engrenagens eram tão pequenas que quase pareciam pele de verdade.

“Mas você não sente falta de lá, dos amigos…”

“No começo, um pouco, mas depois tudo se ajeita.”

“Não sei se vou me acostumar… Acho que não sou daqui”, falou baixinho, olhando para os lados.

“É assim mesmo, a gente estranha no começo, leva tempo para se adaptar. Você vai ficar bem, não pense muito nisso”, e voltou a montar seu passarinho.

Mas ainda achava que não era igual aos outros, olhava suas mãos e pés e via a pele macia, lisa, sem engrenagens.

Construiu um espelho e passou horas olhando para ele. Sim, era diferente. Não era feito de engrenagens, era de carne e osso, sentia o coração bater e o sangue correr pelas veias. Passava a mão nos cabelos castanhos e escuros, encaracolados, livres de engrenagens.

Procurou em todos os lugares, mas não achou uma engrenagenzinha sequer.

Parou de criar aos poucos.

Passou dias olhando no espelho tentando entender. Pensando em que tipo de vida levaria se tivesse ido para outro lugar, junto com Stela.

Tentou criar uma pessoa, ou melhor, tentou criar Stela. Mas as peças não se encaixaram. Tentou várias vezes, sem conseguir nada além de aberrações incompletas que não funcionavam.

Notou que ninguém construía outras pessoas. Correu por todo o lugar e não achou uma criança sequer.

Novas pessoas surgiam todos os dias, mas ele se sentia cada vez mais sozinho e confuso. O sentimento de não pertencer, esse vazio, cada dia oprimia mais o seu coração.

Vagou pelo seu novo mundo e as engrenagens, seu movimento e suas cores, que antes o fascinavam, agora o deprimiam. Tudo parecia falso, robótico. Queria ver coisas de verdade, pessoas de verdade, queria ter ido para um lugar real.

Não aguentou o peso de ser o único de carne e osso. De ser diferente.

Tomou a decisão de procurar até encontrar.

Sem pensar, construiu uma faca grande e fina.

Olhando no espelho que criara, encostou a faca na pele, afundou até sentir o tecido cedendo. O sangue escorria viscoso. Estranhamente, não doeu.

Procurou em cada camada de carne.

Assim que expôs o coração, uma surpresa!

A primeira coisa que ouviu foi o som quase musical das engrenagens, depois que o sangue diminuiu, pode ver, afinal.

O movimento do coração.

Pequenas engrenagens vermelho vivo e brilhante, funcionando em uma harmonia sinfônica, pulsando.

Se mexia cada vez mais devagar.

Até que tudo cessou.

Enquanto isso, no campo onde as novas pessoas chegavam, a borboleta dava as boas-vindas à Stela e contava que havia uma pessoa que esperava ansiosamente por ela.

56 comentários em “O Movimento do Coração (Priscila Pereira)

  1. Fernanda Caleffi Barbetta
    16 de abril de 2021

    Mas que texto sensacional, Pri. Não li os outros mas já seiq ue mereceu muito este promeiro lugar. Uma escrita madura, interessante, sensível, tudo no seu lugar, como as engrenagens que aparecem no texto. Maravilhoso mesmo. “Quando todas as suas peças estão no lugar certo, você simplesmente se torna quem deveria ser. Uma peça sozinha não é nada, mas o conjunto pode ser qualquer coisa!” – muito lindo isso. Vc realmente foi colocada no lugar certo, a primeira colocação. Amei.

    • Priscila Pereira
      16 de abril de 2021

      Que delícia de comentário!! Muito obrigada 🥰

    • Priscila Pereira
      16 de abril de 2021

      Que delícia de comentário!! Muito obrigada 🥰💖

  2. Amana
    4 de abril de 2021

    Que lindo, Priscila, e que triste! Por que ele não esperou só mais um pouquinho? 😥

    Mas lindo o seu conto, imaginei isso ilustrado no estilo do Tim Burton! E merecedor de ser o vendedor, parabéns!

    • Priscila Pereira
      7 de abril de 2021

      Obrigada, Bia! Nossa, as ilustrações ficariam fantásticas, heim?! Que bom que gostou! Fico feliz 🥰😍💖

  3. Pingback: Priscila Pereira | EntreContos

  4. Cilas Medi
    23 de março de 2021

    Quem merece, recebe. Você, Priscila, o primeiro lugar no desafio e nós, modéstia a parte, o prazer da leitura.

    • Priscila Pereira
      23 de março de 2021

      Muito obrigada, Cilas! 😘

  5. Pingback: Resultados do Desafio “Engrenagens da Criação” | EntreContos

  6. Andrea Nogueira
    21 de março de 2021

    Atende plenamente ao desafio. A ‘engrenagem’ neste Conto é explícita e ativa na trama. Onipresente, centraliza a ação e é determinante para a conclusão da história.

    Todos os acontecimentos têm por causa e efeito a ‘engrenagem’ que é, ao lado do protagonista, o jovem Vitor, a base do universo paralelo para onde ele é deslocado.

    Vitor é órfão, vive em um abrigo até que a maioridade o alcança determinando sua ida para outro universo onde tudo, inclusive os humanos, é feito de engrenagens. Esse recurso de deslocamento para outra realidade, aliás bastante criativo, serve como metáfora do rito de passagem para o mundo adulto.

    O texto é bem escrito, com as ideias bem encadeadas. A linguagem é clara e determina um tom leve e poético, o que é muito adequada à uma trama fantasiosa onde a maioria dos personagens, que interagem pacífica e fraternalmente com o protagonista, é de natureza animal.

    O tempo-espaço embora indefinido passa uma ideia futurista, muito em função dos cenários e do estágio tecnológico atingido pelos humanos.

    Afora algumas dificuldades e carências vocabulares para a expressão dos sentimentos e reações dos personagens, a redação do texto não apresenta erros gramaticais de linguagem.

    O desfecho trágico segue a linha fantasiosa da trama e mimetiza o final de romance Romeu e Julieta. Um final criativo e inspirado.

    Um bom Conto!

    • Priscila Pereira
      23 de março de 2021

      Obrigada por ler e comentar! 😘
      ‘serve como metáfora do rito de passagem para o mundo adulto.” Exatamente o que eu quis passar, poucos notaram.

  7. Renato Silva
    21 de março de 2021

    Olá, como vai?

    Primeiramente, não serão considerados gosto pessoal e nem adequação ao tema, já que o mesmo passou a ter entendimento extremamente esparso. Para evitar injustiças por não compreender que o autor fez uso dos termos escolhidos, ainda que em sentido figurado, subjetivo, entenderei que todos os contos terão os pontos correspondentes a este quesito.

    A minha avaliação é sob a ótica de um mero leitor, pois não tenho qualquer formação na área. Irei levar em questão aquilo que entendo por “qualidade” da obra como um todo, buscando entender referências, mensagens ocultas e dar algumas sugestões, se achar necessário.

    Agora, meus comentários sobre o seu conto:

    Com certeza, este é o conto mais “fofo” do desafio; um tipo de história infantil, se não fosse por um detalhe. A descrição dos seres formados por engrenagens é magnífica e imagens belíssimas passaram pela minha mente. Gostei dos diálogos em tom filosófico entre o Vitor e aqueles seres fantásticos. As descrições dos personagens feitos de engrenagens, dos animais, da borboleta, tudo é muito bonito. A qualidade do texto permitiu visualizar com clareza todo este funcionamento.

    O final me incomodou um pouco por conta do “suicídio” do protagonista. Particularmente, eu não gosto muito de personagens que se matam “por amor”. Ele pareceu muito passivo e resignado. Penso que poderia ter feito algo pela sua amada; no entanto, simplesmente foi se cortando e se entregando à morte. Só não recomendaria para crianças por conta deste final, mas ainda é um belo conto.

    • Priscila Pereira
      23 de março de 2021

      Que bom que gostou, Renato! 😘
      Na verdade ele não se matou, ele não tinha a intenção de morrer e não foi por amor. Ele achava que não pertencia aquele lugar, ele queria achar as engrenagens que fariam dele parte daquele mundo. Stela era importante pra ele pq com ela ele sentia o pertencimento.

  8. Felipe Lomar
    19 de março de 2021

    Um conto simples, delicado e sem pompa, mas que faz seu trabalho(assim como os homens de engrenagens), e no final, quase que de surpresa, enfia uma faca no peito do leitor, já melancólico com a história de amor impossível. É isso o que importa, afinal. tocar o coração do leitor, acima de qualquer rebuscamento. É brilhante, chocante e muito bem escrito! Estou realmente apaixonado por esse conto que parece uma mistura de Hugo Cabret com Romeu e Julieta e umas pitadas de Alice no país das maravilhas

    • Priscila Pereira
      23 de março de 2021

      Esse comentário me deixou muito feliz, Felipe! 😘
      Engraçado é que nem passou pela minha cabeça Romeu e Julieta e não sei ( daqui a pouco vou pesquisar) quem é Hugo Cabret 😁

  9. Elisabeth Lorena Alves
    16 de março de 2021

    O Movimento do Coração (Stela) | EntreContos

    Um conto em que o tom fantástico e o dramático se encontram em uma história que usa de elementos como o orfanato, as primeiras descobertas do amor, as saudades, a solidão, desencontros, autoconhecimento, automutilação e o suicídio. Sob o tema de criação, a engrenagem está posta exatamente no novo mundo em que passa a viver Vitor, a personagem principal depois de alcançar a maioridade civil.
    A Estrutura é correta, com introdução, desenvolvimento, anticlímax e clímax bem delineados. A Linguagem é bem utilizada, há um desenho poético em toda a narrativa, personificação da raposa e outros animais. Personagens bem construídas. Ideia central bem aproveitada.
    O conto me deprimiu. Sabe aquela sensação de que é um texto meio que para atenuar o discurso sobre o desespero? Eu me senti Vitor lendo-o e mesmo que conscientemente perceba que é uma narrativa voltada para o autoconhecimento, como a pode ser notado na fala da raposinha: “Quando todas as suas peças estão no lugar certo, você simplesmente se torna quem deveria ser. Uma peça sozinha não é nada, mas o conjunto pode ser qualquer coisa!”, ainda assim me senti perdida. não sei se essa é a intenção do autor, mas foi o que fez a mim. E, não importa como um texto afete o leitor, o importante é exatamente tocar, criar o ambiente para que o leitor construa sentidos. Sendo assim, é uma qualidade.
    Vale deixar claro aqui que meu sentir tem mais a ver com minhas vivências e foram acionadas pela situação perturbadora de enfrentamento do novo e as expectativas que o conto encontrou em mim e, isso, teorizando, encontra reflexo na escrita teórica de Maria Helena Martins (O que é Leitura).
    Particularmente acredito que, em muitos casos de produção textual, as questões implícitas nem sempre são perceptíveis ao autor que, por exemplo, senta e faz um texto para um Desafio. Porém, ainda assim, ele espera mais de quem o lê. Estabelece laços invisíveis entre ele e o receptor de sua mensagem ao pensar na forma de tornar crível seu produto final.
    Claro que muitas vezes estabelecer contato entre autor, narrador e leitor é algo que acontece mais no lugar da leitura e não da escrita e, nisso está a grandeza de quem escreve. Fazer, colocando de si sem ter a outra ponta – leitor – para apreender os sentidos é criar uma ponte de mão única, mas que leve à compreensão e ao entendimento. É aí que o escritor deixa atrás de si pistas sobre o que pode ou não acontecer.
    No Conto aqui estudado as evidências dessa atitude é mínima porque está posta nos sentimentos de Vítor e não exatamente na narrativa espacial. Se o leitor observar estrutura, linguagem, sem se ater aos sentimentos de pertencimento exterior de Vitor não consegue entender o clímax dessa obra.
    Na verdade, o conto tem até um nome sugestivo já que fala do movimento do coração e, quando conhecemos a narrativa o percebemos como engrenagem e aí cria-se o equívoco ou melhor, a provocação, porque, mesmo sendo um motor, ainda assim o que realmente move o coração de Vitor é tudo o que ele crê que ficou para trás: Stela. Ela não consegue realmente viver independente dela.
    Não há uma chamada ao leitor como receptor, como acontece em “Memórias póstumas de Brás Cubas”, quando o autor decesso nos provoca: “A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus.” entretanto, entender esse conto exige exatamente essa sapiência de que o tem nas mãos.
    Tem alguns pontos marcantes na narrativa, mas o desfecho é o que mais dói em mim: “Pequenas engrenagens vermelho vivo e brilhante, funcionando em uma harmonia sinfônica, pulsando. Se mexia cada vez mais devagar. Até que tudo cessou./Enquanto isso, no campo onde as novas pessoas chegavam, a borboleta dava as boas-vindas à Stela e contava que havia uma pessoa que esperava ansiosamente por ela.”
    ***
    Stela, que tenhas mais sorte no desafio que no amor.

    • Priscila Pereira
      23 de março de 2021

      Que comentário, Elisabeth! Amei!! 🥰
      Não enxergo como um suicídio, porque ele não pretendia tirar sua vida, só queria achar as engrenagens que provariam seu pertencimento àquele lugar. Mas, depois que o texto sai da mente do autor ele pertence ao leitor, então agora ele é seu para interpretá-lo como quiser!

  10. Jorge Santos
    14 de março de 2021

    Olá Stela. Para mim, este foi o texto mais bonito do desafio. Ficaria muito bem em filme, transmitindo imagens bastante fortes, para o bem e para o mal. Narra a história de dois orfãos que são separados quando ele é enviado para outro mundo onde todos são máquinas.
    Ambos os temas são retratados neste texto, ambos de uma forma elegante e forte. O desfecho é dramático e força a uma reflexão profunda sobre o nosso sentido de apreender a realidade. Fez-me lembrar um dos melhores filmes de animação que vi, o Coraline. Também ele conta a existência de um mundo alternativo onde tudo funciona ao contrário do mundo real. As pessoas são bonecos com os olhos feitos com botões. Coraline faz a passagem entre os dois mundos e é assediada pela sua “outra mãe” para que fique nesse mundo e lhe deixe “coser os botões nos olhos”. A força da mensagem é a mesma da mensagem do seu texto. Se não viu, aconselho vivamente.
    Parabéns.

    • Priscila Pereira
      23 de março de 2021

      Fiquei tão feliz que você tenha gostado, Jorge! 😘
      Não assisti ainda Coraline, acredita? Mas depois do seu comentário, é claro que irei assistir! Obrigada 😊

  11. Kelly Hatanaka
    11 de março de 2021

    Que desencontro! Fiquei pensando no que o causou. A falta de explicações da raposa? Ou a falta de fé de Vitor? Ou seu apego? E, por que as demais pessoas não se relacionavam entre si? Não eram pessoas como Vitor? O que o fazia diferente dos demais? Somente o amor? E, neste caso, o amor o enfraqueceu? Seu conto me deixou pensativa…

    • Priscila Pereira
      23 de março de 2021

      Olá, Kelly!
      Então, o conto é sobre a passagem da infância para a vida adulta, e como é mais difícil encontrarmos ligações profundas, principalmente de pertencimento, quando abandonamos ( ou somos forçados a abandonar) a infância. Vitor não queria se matar, só queira encontrar as engrenagens que provariam seu pertencimento àquele lugar.
      Espero ter sanado suas dúvidas. Obrigada pela leitura 😘

  12. Eduardo Fernandes
    11 de março de 2021

    Eu gostei do texto, embora ache que falta um pouco de ritmo. Em alguns momentos ele fica lento demais e isso torna a leitura difícil.

    Mas a ideia é boa e foi bem desenvolvida.

    • Priscila Pereira
      23 de março de 2021

      Obrigada pela leitura e comentário! 😘
      No próximo conto prestarei atenção ao ritmo! 😉

  13. Leidenice Cunha Pereira
    10 de março de 2021

    Uma adorável mesclagem do estilo dramático de Shakespeare com o fantástico de Lewis Carrol.
    Há uma leveza narrativa que deixa um gosto de quero mais. Parabéns ao autor por esse texto tão impactante e delicado.

    • Priscila Pereira
      23 de março de 2021

      Obrigada pela leitura e comentário! Gostei muito da sua comparação! 😘

  14. Bruno Raposa
    8 de março de 2021

    Olá, Stela.

    Gostei demais do seu conto. 🙂

    Você criou uma narrativa infantojuvenil muito bem equilibrada. Um protagonista com quem é fácil se identificar, um universo encantador e de fácil assimilação, personagens secundários carismáticos e intrigantes. Além de explorar de maneira muito criativa a temática do desafio.

    A narrativa é muito visual, me peguei completamente imerso nesse mundo de pequenas engrenagens e cores vibrantes. A linguagem está na medida certa para o tipo de narrativa que você escolheu, a maneira como Vitor fala e reage ao universo à sua volta casa perfeitamente com o tom fabulesco e mágico.

    É fácil embarcar na jornada de Vitor, compreender seu encanto inicial com a magia ao seu redor e seu inconformismo posterior por não se sentir parte daquele mundo e estar alienado de Stela.

    O final foi inesperado e, creio, arriscado. Foge do clima de conto de fadas e entra num terror que, ainda que não explícito, é brutal. Para mim, o risco valeu a pena, foi estranha a quebra, mas gostei do impacto.

    Minha única crítica é que o final vem de forma bastante abrupta. Creio que ele foi apressado pelo limite de palavras. Não chega a comprometer, mas ficou aquém do que o conto ofereceu até então. Adoraria ver essa história sendo expandida, ganhando ainda mais cores e magia. Certamente estará entre meus favoritos do desafio.

    Nem tenho muito o que falar, apenas te parabenizo pelo ótimo trabalho e desejo boa sorte no certame.

    Abraço!

    • Priscila Pereira
      23 de março de 2021

      Raposinha do meu 💖
      Muito feliz aqui com meu comentário!!
      Pensando seriamente em expandir e dar um final mais esperançoso, ( não modificar esse final, só mostrar o que aconteceu depois, porque o conto é meu e posso ressuscitar o personagem se eu quiser 😁)

  15. Regina Ruth Rincon Caires
    8 de março de 2021

    O Movimento do Coração (Stela)

    Comentário:

    Outro salto para a suavidade. Texto completamente mergulhado no tema CRIAÇÃO/ENGRENAGENS, fazendo uma miscelânea encantadora. A narrativa leva o leitor ao mundo fantástico dos “contos de fadas”, cercado por raposas que falam e borboletas tagarelas que reluzem.

    Conto de escrita impecável, o uso da linguagem coloquial deu sustentação perfeita para a mensagem que o autor quis passar. E que passou. O leitor tem a sensação de que a narrativa é feita para a criança que há dentro de cada um. O conteúdo traz a seriedade verdadeira dos sentimentos, que produz reflexão no homem adulto, e a leveza do fantástico que encanta o homem criança. Trabalho bem cuidado e que merece todos os elogios.

    A estrutura é perfeita, de ritmo natural, levando o leitor a mergulhar na expectativa do desfecho. E ele chega de maneira doce. Não haveria solidão, a amada estava ali, a “vida” continuaria.

    Stela, o seu conto traz a mesma paz que o coração precisa para continuar no movimento incessante de manter a vida. É sereno, encantador.

    Parabéns pelo trabalho!

    Boa sorte no desafio!

    Abraços…

    • Priscila Pereira
      23 de março de 2021

      Querida dona Regina! Que comentário encantador! 😘
      Foi exatamente isso que queria passar, uma mensagem para nossa criança interior que tudo se encaixa eventualmente e que pertencer não é questão de aparência, mas de fé! Obrigada por esse comentário! 💖

  16. cgls9
    7 de março de 2021

    Vitor é obrigado a fazer uma viagem – parece ser um ritual – que o leva a um mundo de engrenagens, tudo é feito mecanicamente. Cada ser vivo cada coisa é resultado de engrenagens. O lugar tem sua magia, os animais falam, os insetos falam… O que não cala é a saudade que o garoto sente do orfanato de onde saiu e de Stela. Assim ele cai em desgraça e a tragédia acontece.

    Não deixa de ser uma história interessante. O final nos remete àquele dito popular “o apressado come cru”, e mais elegantemente, nos deixa com aquela sensação de quando lemos o final de Romeu e Julieta ou daquele filme chamado “O nevoeiro”, uma história de Stephen King. Gostaria que o pai ou mãe dessa obra me explicasse um ruído que ficou para mim: porque as pessoas todas viviam num orfanato até os dezoito anos?

    • Priscila Pereira
      23 de março de 2021

      Olá, amigo!
      Esse conto remete à passagem da infância para a vida adulta, o orfanato é só uma metáfora para mostrar que independente do ambiente familiar, todos passamos por essa mudança sozinhos. Talvez não tenha ficado tão explícito como imaginei que ficaria. Obrigada pelo comentário 😘

  17. Luciana Merley
    5 de março de 2021

    O movimento do coração

    Olá, autor.

    Um texto de FC bastante leve e bonito.

    Critério de Avaliação CRI (Coesão, Ritmo e Impacto)

    Coesão – A narrativa tem como foco a viagem no espaço para um mundo de fantasia onde tudo e todos são construções movidas por pequenas engrenagens. Não percebi pontas soltas no texto. Um texto curto, mas que soube apresentar o mundo de fantasia e seus personagens de modo eficiente. Muito parecido com aquelas histórias que costumávamos assistir na sessão da tarde, com a diferença de que o final aqui foi triste e trágico.

    Ritmo – Adequado à proposta. A linguagem é simples, fluida e bastante juvenil, eu diria.

    Impacto – Um texto gostoso de ler, mais para uma história juvenil, eu penso. Contém inclusive uma ingenuidade típica desses textos. O autor optou por um desfecho trágico, um desencontro no final de uma vida já marcada por, certamente, outras tristezas. Opção do autor. Outra opção seria um reencontro pouco antes de ele levar a cabo a sua descoberta suicida, o que salvaria sua vida, sua alma, a dela, e seriam engrenagens felizes para sempre (rsrssr), tipo na sessão da tarde.

    Parabéns pelo belo texto.

    • Priscila Pereira
      23 de março de 2021

      Obrigada pelo comentário, Luciana! 😘
      Tô gostando de finais trágicos ultimamente 🤭 talvez seja para balancear minha vida tão sossegada e boa 🙌🙏

  18. danielreis1973
    4 de março de 2021

    Prezado Entrecontista:

    Para este desafio, resolvi adotar uma metodologia avaliativa do material considerando três quesitos: PREMISSA (ou Ideia), ENREDO (ou Construção) e RESULTADO (ou Efeito). Espero contribuir com meu comentário para o aperfeiçoamento do seu conto, e qualquer crítica é mera sugestão ou opinião. Não estou julgando o AUTOR, mas o produto do seu esforço. É como se estivéssemos num leilão silencioso de obras de arte, só que em vez de oferta, estamos depositando comentários sem saber de quem é a autoria. Portanto, veja também estas observações como anotações de um anônimo diante da sua Obra.

    DR

    Comentários:

    PREMISSA: viagem a outro “planeta”, ficção científica com um toque de Pequeno Príncipe (apesar do protagonista já ter 18 anos; ajuste à realidade e desencontros.

    ENREDO: O enredo é bem construído, onde um mundo de engrenagens recebe Vitor em sua viagem pelo tempo/espaço, e utiliza os personagens auxiliares para dar sentido à aventura. As sutis metáforas sobre o “funcionamento” daquele mundo guardam ressonância com o que vivemos. Na parte técnica, a opção pelo diálogo entre aspas, sem identificação do narrador, dá agilidade ao custo do esforço do leitor em manter a fluência da alternância entre os falantes.

    RESULTADO: o conto é muito agradável, desperta curiosidade e destaca-se principalmente o final sangrento e desesperado. Boa sorte no desafio!

    • Priscila Pereira
      23 de março de 2021

      Obrigada pelo comentário, Daniel! 😘
      Tô abusando dos finais sangrentos e desesperados ultimamente 😁 é bom de escrever!!

  19. Catarina Cunha
    4 de março de 2021

    Criação: Um Romeu e Julieta futurista. O forte do conto está na ambientação e na riqueza dos personagens. Um conto infanto-juvenil bem estruturado.

    Engrenagem: A trama é lenta, o que me incomodou um pouco. O final me surpreendeu, pois não havia feito a ponte com Romeu e Julieta. Ponto para você.

    Destaque: ““Mas acredite em mim quando digo que nem tudo é o que parece, mas tudo é o que deveria ser.”´ Gostei da premissa fatalista.

    • Priscila Pereira
      23 de março de 2021

      Obrigada pelo comentário, Cat! 😘
      Nem eu tinha pensado em Romeu e Julieta 🤭

  20. Fabio D'Oliveira
    2 de março de 2021

    É uma poesia feita de engrenagens, né?

    É um conto singelo, de certa pureza, onde a escrita acompanha a mensagem. O final trágico, mesmo carregado de tristeza, de perceber quem somos e onde estamos encaixados tarde demais, é belo; pois fala muito da vida. Muitas pessoas vivem assim. Correm atrás de algo que não é real, tentam entender o que daria pra ser entendido olhando pra si, verdadeiramente. O interessante é que Vitor acreditava ser algo que não era, olhava para si, não se identificava, e como não se sentia parte daquilo, começou a definhar. Isso me faz refletir: mesmo estando no lugar que deveríamos estar, quando não aceitamos aquilo, não acreditamos naquilo, sofremos por estar ali. Mas, antes, ele sofria também e não percebia? Não sei, o conto decide contar apenas a vida de Vitor no novo mundo. Pela forma como ele apenas pensava na Stela, mas se sentiu bem no mundo das engrenagens, penso que, talvez, ele só via uma coisa boa naquele mundo: seu amor por ela.

    O tema está inquestionavelmente bem aplicado. É incrível como conduziu tudo e colocou os dois temas em voga, tão fortes e presentes na história, foi o melhor conto que li, até o momento, que fez isso. Na realidade, tudo que tem nele me atrai: a magia, a situação surreal, o final trágico. Gostei bastante, mesmo.

    Como sugestão, se puder, dar uma alongada no final. Senti que foi brusco demais, porém, entendi que o limite pode ter prejudicado o desenvolvimento. Talvez um parágrafo maior, não sei, apenas essa sugestão mesmo, pra não passar em branco. De resto, não tenho o que adicionar. Achei muito bom, de verdade, fora da curva, sem forçar, o que é difícil de fazer! Parabéns!

    • Priscila Pereira
      23 de março de 2021

      Muito obrigada, amigo! Pela ideia e pelo carinho na leitura e comentário! 😘💖

  21. Rubem Cabral
    1 de março de 2021

    Olá, Stela.

    Resumo do conto:

    Vitor é um rapaz órfão e que gosta de outra órfã, Stela. Certo dia, ao atingir certa idade, Vítor tem que entrar numa máquina que o transportará a outro mundo. Ao abrir os olhos, descobre-se numa realidade paralela onde todos são feitos de minúsculas engrenagens. Fascinado, recebe explicações de uma raposa que apresenta o mundo e conta-lhe de sua função: criação. Não se sentindo parte daquela realidade, Vítor entristece-se e tenta fabricar Stela, sem sucesso. Certo dia, fabrica uma faca e explora o próprio corpo, a procura de engrenagens. Nada acha de início, até poder observar o próprio coração, feito de minúsculas peças rubras. Sua busca acaba por resultar em sua morte, o que coincide com a chegada de Stela naquele estranho mundo.

    Análise do conto.

    Interessante a criação do mundo fantástico, dos orfanatos como provedores de criadores da realidade paralela, a ideia de tudo ser feito de peças diminutas, como num mundo de Lego ou algo assim. A história segue como espécie de conto de fadas: com animais falantes e coisas extraordinárias. O final triste fecha como uma espécie de lição, o que tbm é típico de contos de fadas.
    A escrita foi boa, o worldbuilding foi muito criativo, o desenvolvimento dos personagens foi um pouco tímido, mas o resultado, como um todo, foi bem positivo.

    Boa sorte no desafio!

    • Priscila Pereira
      23 de março de 2021

      Obrigada, Ruben, pelo comentário 😘
      Foi muito gostoso escrever esse conto, fico feliz que de tenha gostado!

  22. Fabio Monteiro
    28 de fevereiro de 2021

    Resumo: Vitor é um garoto que mora num orfanato e, ao completar 18 anos fora mandado para realizar uma viajem a qual estava predestinado. Chegou a um lugar onde tudo é feito de pequenas engrenagens que trabalham harmoniosamente. Sua missão era criar. Porém, Vitor não se satisfez, pois percebia não fazer parte daquele lugar. Sentia falta de sua amada Stella. Num momento de dor, Victor se corta. Ele vai cada vez mais fundo buscando suas origens. Percebe que também é feito de um tipo de engrenagem diferente. O seu mundo e onde estava eram basicamente a mesma coisa.

    Pontos fortes: Que texto magnifico. Imaginei o enredo de um filme infantil para esta narrativa tão linda. Usar as engrenagens desta forma, na minha opinião, foi uma grande sacada. De fato, somos feitos destas pequenas engrenagens. Tudo deve funcionar harmoniosamente. Seja pela vida, seja pela condição do viver. O texto faz esse apontamento com maestria.

    Ponto fraco: Adoraria ver Vitor e Stella juntos no final. Ficou aquele gostinho de, será que eles ficaram juntos? Daria até para criar um capitulo dois a partir daí.

    Comentário geral: Só elogios e desejo de boa sorte no desafio. Na minha opinião, vencedor(a).

    Que as engrenagens girem a seu favor autor(a)

    • Priscila Pereira
      23 de março de 2021

      Então você é realmente um vidente, Fábio! Se tivesse lido antes, não acreditaria, mas só esse seu comentário já me daria a sensação de vitória! Muito obrigada! 😘
      Estou pensando em fazer um segundo capítulo sim! 😉

  23. Fheluany Nogueira
    27 de fevereiro de 2021

    Protagonista deixa o orfanato, porque completou dezoito anos e vai para um mundo todo feito de engrenagens. Não consegue se adaptar ao novo ambiente, sobretudo por sentir falta de uma amiga especial e termina por desalinhar suas engrenagens e cessar seus movimentos, justamente no instante em que a amada chega ao mesmo local.

    Parece-me que o texto discute o mecanismo das engrenagens e o emaranhado resultante. A história é um convite para que o leitor deixe a realidade e acredite que tudo é possível, trazendo o mistério como fio-condutor. E, em meio ao estranhamento, podemos notar uma profunda reflexão, a vida oferecendo soluções mágicas e oportunidades.

    Há um suspense instigante e domínio narrativo em uma trama repleta de metáforas e simbolismos, que abre para o leitor imenso campo de recriação, através das sugestões apresentadas. As várias cenas que compõem o texto, amarram-se bem, produzindo um efeito impactante e chegando a um desfecho forte, que, no final das contas, é uma triste história de desencontro amoroso.

    Parabéns pelo trabalho inteligente. Abraço.

    • Priscila Pereira
      23 de março de 2021

      Obrigada pelo comentário, Fátima! 😘
      Fico muito feliz que tenha notado o fundo filosófico que quis dar ao conto! 💖

  24. Anderson Prado
    27 de fevereiro de 2021

    Conto correto. Bastante dialogado. Não gosto do uso de aspas em diálogos (prefiro travessões) – soa-me anglicano. O tema foi encaixado no enredo, mas não o senti sendo abordado de maneira original. O desfecho deu um tom moralizante à história, no sentido de que a vida deve ser valorizada, de que vale à pena ser vivida. O título soou piegas. No geral, foi uma leitura interessante, em que senti meu interesse sendo movido pela curiosidade de saber que mundo estranho seria aquele para onde o protagonista tinha sido levado (no final, acabou que minha curiosidade não foi satisfeita, mas isso, em si, não prejudicou meu gosto pelo texto).

    • Priscila Pereira
      23 de março de 2021

      Obrigada pelo comentário, Anderson 😘
      O título foi propositalmente piegas sim, e também o fato da curiosidade acabar não sendo satisfeita 🤭

  25. Fernando Dias Cyrino
    27 de fevereiro de 2021

    Ei, Stela, caramba, você me reconta, a partir de um mundo mágico das engrenagens criadas por antigos garotos de orfanatos, um pouco da história do casal de jovens Capuleto e Montecchio. Pelo menos vi essa analogia, ou viajo na maionese? A raposa, claro reporta-me ao Pequeno Príncipe. Também uma sutil homenagem ao Admirável Mundo Novo… Sabe, amiga, achei muito legal você criar essas homenagens literárias. Ou sou eu a viajar na maionese e não é nada disso? Você sabe encadear a história que está muito bem escrita. Coisa de alguém que tem as manhas da boa literatura. Tudo bem-dito, tudo bem colocado. Pois é, amiga, gostei do seu conto. Stela, parabéns e fica com o meu abraço.

    • Priscila Pereira
      23 de março de 2021

      Muito obrigada, Fernando! 😘
      Admito que nem pensei em Romeu e Julieta, nunca li Admirável mundo novo… 😁 Mas foi legal você ter enxergado tudo isso!

  26. antoniosbatista
    25 de fevereiro de 2021

    Orfanato, órfãos, raposa, borboletas, robôs, elementos de um conto infanto/juvenil, que os adultos irão gostar, é claro. Mas o final é dramático, e injusto, se a raposa tivesse dito a verdade para Vitor, ele teria esperado Stela.

    Me pareceu que Vitor já usou aquela máquina, pois ele odiava o gosto do bocal. Odiava ou odiou?

    A autora tem sensibilidade, e boas ideias, o conto foi bem produzido, as descrições formaram cenas interessantes. Gostei da história, original, interessante. Boa sorte.

    • Priscila Pereira
      23 de março de 2021

      Muito obrigada, Antônio! 😘
      Sim, acho que seria odiou e não odiava, acho que foi lapso de tempo verbal, sempre faço isso 😁

  27. thiagocastrosouza
    23 de fevereiro de 2021

    Olá, Stela.

    Gostei do conto, de modo geral. Há elementos de Lewis Carrol e até Neil Gaiman, sendo Alice no País das Maravilhas e Coraline as obras que me vieram à mente. Um mundo cheio de engrenagens, de beleza artificial, mas ainda assim, beleza. Há um desconforto subjetivo nas funções e razões designadas desse novo lar, arquitetada de maneira interessante pelo autor ou autora do conto. A figura da raposa, por si só, devido ao imaginário construído nas fábulas clássicas, nos gera uma desconfiança de que alguma coisa está errada em todo o despropósito deste novo mundo. E de fato, está. A agonia crescente do personagem o leva ao suicídio no momento derradeiro que Stela chega, nos entregando um final melancólico.

    Em certos momentos você utilizou o parênteses para reforçar algumas informações, o que me incomodou um pouco. Creio que foi um recurso desnecessário, pois muito já havia ficado subentendido no próprio texto.

    Grande abraço!

    • Priscila Pereira
      23 de março de 2021

      Obrigada pelo comentário, Thiago! 😘
      Nunca li os autores que você citou 🤔 obrigada pela dica!

  28. angst447
    22 de fevereiro de 2021

    Um conto ágil, com jeitinho de fábula infanto-juvenil. Boa a ideia de narrar sobre um mundo em que as criaturas são feitas de engrenagens.
    Desfecho melancólico, pois pelo o que entendi, o coração de Vitor para de bater ao mesmo tempo em que a sua amada Stela é recepcionada pela borboleta. A curiosidade matou o gato? Não, o fascínio pelo movimento do próprio coração matou Vítor.
    Pequenos detalhes escaparam da revisão:
    Bem vindo > bem-vindo
    seguiu a raposa como pode > seguiu a raposa como pôde
    pode ver, afinal. > pôde ver, afinal
    A narrativa é muito singela, leve. Imaginar a montagem de tantos seres com pequenas engrenagens foi delicioso.
    A linguagem empregada é simples, clara, e não oferece entraves à leitura. Apostar no mínimo para fazer o máximo foi uma boa estratégia.
    Boa sorte.

    • Priscila Pereira
      23 de março de 2021

      Muito obrigada pelas dicas, Claudia! Vou arrumar tudo! 😘💖

      • Gilcilene Reis
        24 de março de 2021

        Parabéns Priscila
        O conto me prendeu do início ao fim, não entendo de literatura como vcs,mas como uma simples leitora gostei muito e senti bastante quando ele expôs a engrenagem do seu coração e pensei: Porque ele não esperou mais um pouco? Quem sabe teria encontrado Stela de novo ? E seriam felizes pra sempre naquele novo lugar.

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Informação

Publicado às 21 de fevereiro de 2021 por em Engrenagens da Criação e marcado .