EntreContos

Detox Literário.

A Banda Conceitual (Neném)

Uma vez Suzana insistiu tanto que acabei por levá-la numa reunião da banda. Foi um erro. Ela não entendeu nosso conceito. Não parava de perguntar onde estavam os instrumentos, quem fazia o vocal, quem tocava guitarra, e essa coisa toda. O pior é que justamente naquele dia íamos discutir a questão do sampler. A avó do Renato tinha dado uma grana para ele, e a gente tinha que decidir se compraria um sampler ou um Macbook. Se fosse um Macbook, a galera teria que inteirar uma parte. Mas Suzana ficou fazendo pergunta, dando palpite, falando tanto, que a gente acabou tendo que marcar outra reunião.

Na semana seguinte, aí sim, conseguimos discutir com calma. Decidimos que o Macbook era melhor. Além de editar as músicas, a gente teria acesso à internet e poderia tentar vender por esses sites que comercializam mp3. O Rafael falou sobre a possibilidade de levantar uma grana por meio de um site de financiamento coletivo. Ninguém sabia o que era aquilo; ficamos de pesquisar melhor e discutir o assunto em outra reunião.

Quando encontrei Suzana, ela veio com aquela enxurrada de perguntas. Queria saber se a gente tinha ensaiado, que música a gente tinha tocado, se a gente compunha nossas próprias canções. Mais uma vez tentei explicar que a gente não fazia ensaios, mas reuniões. Ela ficou me olhando com uma cara esquisita, acho que ainda não foi dessa vez que ela entendeu.

Na outra reunião, o Murilo apresentou uma idéia para uma letra de música. Discutimos bastante, e decidimos que aquela letra não combinaria com o estilo da banda. Falaria de amor de uma forma melosa, insistente, muito puxada para o brega. Eu argumentei, e acho que todos concordaram, que poderíamos até falar de amor, mas de uma forma que deixasse claro que não acreditávamos nele. Amor sincero era coisa para um roque vulgar, decididamente ultrapassado. Nosso estilo se aproximava mais do amor irônico. Lucas disse que não entendeu, provocando o riso geral. Já estamos acostumando com Lucas, ele nunca entende nada que a gente fala. Aliás ele mesmo já percebeu isso, e está parando de ir nas reuniões.

Mas a ideia de amor irônico me deixou empolgado, e cheguei até a comentar com Suzana. Falei que a gente estava avançando bastante, estávamos a ponto de definir um conceito que ia nortear a criação das letras. Ela perguntou: “Mas como era a letra, afinal?” E de repente enxerguei que não adiantava falar daquelas coisas para ela. Minha namorada não sabia o que era um conceito, não entendia a importância de debater, deixar as definições bem claras, traçar os limites virtuais que delimitariam o padrão estético da banda. Ela nem devia saber o que era assessoria de imprensa. E não valia a pena explicar.

Fui parando de conversar com ela, fomos ficando cada vez mais distantes. Até que um dia aconteceu uma coisa engraçada. O Rafael levou a namorada dele, e ela fez exatamente as mesmas perguntas que a Suzana. Queria saber onde estava a guitarra, quem cantava, quem tocava o quê. A gente ficou só se olhando e rindo por dentro, pensando que namorada é tudo igual. Lembrei da Suzana com certa ternura, e pensei até em compor uma música para ela. Seria uma sequência a princípio meio tensa, com acordes de quinta aumentada, levantando certo suspense. Depois a quinta iria para a sétima, dando um clima mais suave, lembrando vagamente uma canção de amor, mas um amor complexo, com muita dúvida e indecisão. E talvez a música terminasse assim, num clima de coisa inacabada, que ainda ia se definir; ou então eu tentaria encaixar tudo na dominante e passaria uma idéia de final feliz. Essa última parte eu podia decidir com a banda, em outra reunião. Fiz rapidamente um esboço e fui correndo ligar para a Suzana. Foi ingenuidade minha. Ela ficou pedindo: “Canta um pedaço, canta um pedaço para mim.” Eu perguntei: “Você não entende? Eu estou criando um conceito que vai nortear o encadeamento de acordes.” Acho que ela ficou meio nervosa, porque respondeu num tom quase uma oitava acima: “Tudo bem, eu vou confessar: não entendo nada do que você fala sobre música!” Eu já sabia que ela não entendia, mas ouvir isso dela, naquele tom, foi uma experiência chocante. Eu tinha achado que um dia, de alguma forma misteriosa e inesperada, ela acabaria me compreendendo tudo. Agora vejo que isso era ilusão; um sonho infantil, simplório como uma canção de amor.

Por isso tenho pensado em terminar. Não tem sentido passar a vida com uma pessoa que não entende meus conceitos. Só que eu não quero tomar essa decisão sozinho. O pessoal da banda certamente passa pelo mesmo problema. A gente viu isso claramente quando a namorada do Rafael esteve lá. Quero discutir essa questão com eles, temos que encontrar uma linha clara: se vamos ou não vamos ter namorada, se vamos falar da banda para elas ou é melhor manter as reuniões em segredo. Esse é um tema importante, sinto que ele vai ocupar várias reuniões.

Mal posso esperar.

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Informação

Publicado em 21 de fevereiro de 2021 por em Engrenagens da Criação.