EntreContos

Detox Literário.

A Cidade dos Ossos – Conto (Luciana Merley)

Certa vez perguntei ao meu pai a razão de toda cidade pequena ter um cemitério no morro. “Ah! Não sei. Deve ser pra sobrar mais parte baixa pro’s que tão vivo, né não?”

Eis uma boa teoria para as cidadezinhas que ficam espremidas entre um morro e outro. Aqui em Minas são várias assim. Eita lugar amorroado é essa minha terra.

Logo após a formatura, fui trabalhar em Perdizes do Norte, uma quase vila de uns três mil habitantes e que fica bem depois de Teófilo Otoni. Caminho curvado como obriga o relevo, muitas árvores já contorcendo os troncos, vegetação seca e poeira que não acaba mais. Quando o viajante menos esperava, uma curva fechada e lá estava ele: um morro despelado, lotado de cruzes e que era a primeira vista de Perdizes. 

Abaixo do cemitério, numa faixa estreita do lado do córrego, ficava a Rua do Brejo. Uma coleção de casebres só no tijolo, outros com reboque e até casinhas de taipa que completavam aquela tristeza.

Não precisei de muitos dias para descobrir que o cemitério era maior estrela daquele paraíso perdido chamado Perdizes. Com exceção da cruz gigante que era a do padre Paulo, as maiores cruzes eram as dos mortos mais afamados ou que tinham um pouco mais de dinheiro. Quanto menor a cruz, mais pobre o coitado. Não se viam lápides ou aquelas casinhas de concreto. Perdizes era pobre demais pr’essas chiquezas. Só cruz sobre a cova rasa e pronto. E rasa porque a preguiça do João coveiro era coisa sabida há mais de 40 anos por ali. Já com quase 70, quem é que cobraria ânimo de uma figura como aquela? O máximo que conseguiram naquela gestão da prefeitura foi colocar um ajudante bem mais jovem sob os auspícios dele. A velha múmia do cemitério não gostou, mas o prefeito obrigou e ele teve que aceitar. A idade da aposentadoria chegara faz tempo, mas que nada! Participar na morte era a única coisa que mantinha aquele pobre homem vivo.

Tudo isso era da paisagem de Perdizes, conversa natural nos botecos, nos banquinhos de fofoca e até na folha de pagamento do município. O problema é que na noite do dia 27 de outubro de 2005 foi como se um caminhão de água tivesse parado em cima da cidade e despejado tudo de uma vez. Arrancou árvore, levou ponte, destruiu casa e desceu fazendo crateras na terra dura do cemitério. 

A Rua do Brejo amanheceu com as calçadas e os quintais cobertos de lama, galhos, sujeira e ossos.

— De gente? —  gritou dona Veridiana.

— Claro, uai! Só pode ser ― disse o Cabo Beto. ― Acharam pedaço de esqueleto espalhado pra todo canto. Até crânio tem lá no meio da rua. 

— Cruz credo! Misericórdia! —  apavorou-se a mulher do prefeito — O quê que nós vamos fazer Olinto?

— Enterrar, uai!

— Enterrar como home de Deus? Você não ouviu o Cabo Beto? Como é que a gente vai saber qual osso é com qual?

—  É! Seu Olinto. Dona Veridiana tem razão — argumentou o Cabo. — Tá tudo separado. Além do quê, com certeza muito osso foi embora na água do córrego. Vou dizer uma coisa: o povo tá na rua e não tá satisfeito não, viu!

—  Pois então vamos mandar eles desenterrarem os mandatários antigos e cobrarem deles as covas fundas que o João coveiro não cavou — concluiu o prefeito enraivecido.

A tolerância e até a conivência com o coveiro preguiçoso era fato histórico e, até aquela manhã ossuda, nada que demandasse grandes preocupações. Mas, como se sabe, toda cerca é boa até o dia em que a vaca pega. As reações dos Perdizences oscilavam entre o choque e a revolta, o nojo e o desespero, passando pelas mais variadas teorias adivinhatórias.

— Olha, Vó! — tentou argumentar o neto da dona Sebastiana que estava aos prantos — Eu acho que não dá pra saber se é osso do bisa Manel, não!

— Dá sim, meu fio! Ele tinha a cabeça piquitita. Era até difícil achar chapéu de home grande que servisse nele. Eu tenho pra mim que é aquela cabecinha ali, oh!

……………………..

— Eu bem acho que não tem osso da Carminha aqui — disse esperançoso o Valtão açougueiro — pois lembro que não tinha espaço no meio do morro e ela teve que ser enterrada lá no canto onde a chuva não lavou.

………………………

— E eu que vi ali um osso faltando um pedaço! Só pode ser a perna do meu véi Pedro — reclamou chorosa a dona Emília cujo marido teve a perna amputada por causa do diabetes.

Entre os desesperados havia também os que se preocupavam com a agenda da paróquia.

—  Gente! E isso foi acontecer logo agora, minha Virge santíssima. Logo perto do dia dois — lembrou a dona Maria Rosa. — Nós vamos fazer procissão de finados como? Pra quem? Hein, Padre?

― Ora! Pra quem…Pros mortos que continuam mortos. ― respondeu o sempre calmo Padre Antônio que não tinha mais palavras pra consolar aquele povo.

Uns chorando pelos ossos, outros xingando palavrões horríveis, outros querendo invadir a prefeitura, e mais alguns procurando o coveiro para dar-lhe uma boa esfola. O Miguel Moreira fez o certo. Deu queixa na delegacia e o processo foi encaminhado com urgência para o juiz da comarca. A ordem era clara. Ninguém tocaria nos ossos. Cada tíbia, fíbula, crânio, falange achada foi devidamente isolada ali mesmo onde estava. Foram mais de vinte dias convivendo com a vizinhança esquelética. 

─ Deus me livre! Eu é que não vou voltar pra casa. Onde é que eu vou dormir com um esqueleto de gente pendurado no barranco? ─ argumentou a Vera filha do Euzébio.

……………………….

─ E se tiver doença? ─ exagerou a Célia que era agente da Funasa.

A prefeitura foi obrigada a pagar quartos na pensão para mais de 30 pessoas. Para as noites de cachorro solto, dezenas de funcionários passaram a receber hora extra revezando-se para espantar os caninos famintos que disputavam os ossos isolados por fitas e cavaletes. Além disso, teve que contratar peritos para refazer o trajeto dos ossos. A Rua do Brejo ficou como um sítio arqueológico, cheia de professores e estagiários de perícia vindos de Salvador e BH. 

A dona Hercília, mais que depressa, lavou a velha caixa de isopor e colocou água, refri e chupchup para vender na porta. A lojinha de balas e quinquilharias da Margareth passou a encomendar coxinha e empadão da Sônia para revender ao “pessoal dos ossos”. Perdizes ficou assim por quase um mês. Em muitos casos não foi possível remontar os esqueletos e tiveram que fazer exame caro de DNA em cada ossinho achado. Os parentes dos mortos e os moradores da rua não aceitaram refazer o cemitério no mesmo lugar. Na falta de mais morro disponível, a prefeitura teve que desapropriar uma baixa perto da cidade. O valor pago pelo terreno enriqueceu num dia só a viúva Joana e os seus oito filhos. Os vizinhos da viúva, inconformados com a nova função do terreno ao lado, alegaram prejuízos e desconforto e entraram com processos indenizatórios milionários contra a prefeitura. Além de tudo, foi necessário comprar mais de oitenta caixões de uma vez só e contratar mais uns dez homens para cavar as covas.

Até ali, gastos muitos, impensáveis até então para o ridículo orçamento de Perdizes, mas que foram aplacados pela ajuda estadual em situação de catástrofe. Houve, contudo, um furdunço extra, dos grandes, com o qual o prefeito Olinto não contava. O Dinho da farmácia, que tinha perdido a última eleição para o atual prefeito, esperou com ansiedade o resultado das análises das ossadas. Com a lista de afetados nas mãos, resolveu instigar os parentes e os moradores do Brejo a entrar com um pedido conjunto de indenização por danos morais e materiais. Não preciso dizer o que virou a farmácia naqueles dias. O que menos se vendeu foi remédio.

Nunca vimos tanta gente desembarcando em Perdizes na mesma semana. Vinham de Teófilo Otoni, de BH, de Valadares, dos Estados Unidos, de Portugal, de todo lugar para requerer o ressarcimento moral pela aparição dos seus mortos. Até os que não tinham mortos, tinham motivo. Até os que não tinham visto, porque não tinham vista, como no caso da dona Esmeralda, alegaram o trauma sofrido pela convivência forçada com os restos alheios.

—  Dona Marta, a senhora também tinha algum parente lá no meio dos ossos? ─ perguntou a Cássia que era estudante de Direito e filha do Dinho farmacêutico.

—  Tinha, minha fia! Meu pai tava lá enterrado quieto, coitado!

—  Mas o pai da senhora não morreu já pra mais de 60 anos?

—  É, uai! Pois é! Ele tava lá também.

— Mas, dona Marta, essa indenização nós vamos pedir só para os falecidos da época do João coveiro.

—  E você conheceu o coveiro da época que meu pai morreu?

—  Não, eu não era nem nascida.

— Pois então, minha fia! Como você garante que ele também não cavava raso? — concluiu a velhinha corcunda num risinho fácil.

A fila para colocar o nome na lista do Dinho só crescia, e para a pasmação do povo, até o João coveiro quis deixar o nome. Desde o início da confusão ele andava argumentando que as covas rasas tinham uma razão de ser, pois ouvira na época, de um outro funcionário da prefeitura, que covas muito fundas poderiam contaminar o lençol “freiático” e que o chorume dos mortos ia acabar chegando nos poços d’agua lá do Brejo.

— Eita chuvarada das braba, hein! Seu Dinho. Antigamente não chovia desse jeito. Deve ser castigo pra esse prefeito maldito de agora. O Sr. sabe que eu votei foi em vossa pessoa, né?

― É! João. Eu sei sim. Mas, me diga! Por que você quer solicitar indenização?

― Uai! Se esse povaréu tá sentindo ofensa porque viram uns ossinhos na rua, imagina eu que mexi com isso a vida inteira, né não?

Além dos que tinham um morto já identificado, vinham também os que insistiam em manter a dúvida.

— Serginho, o nome do seu pai não tá na lista — insistia a Cássia tentando manter um mínimo de ética jurídica.

— E quem te garante que os ossos não desceram rio abaixo? — retrucou — Oh! Se o meu pai não for pra essa lista, o prefeito vai ter que abrir aquelas covas todas lá de cima até achar ele! — ameaçou o recém-eleito vereador, filho do finado Getúlio vereador.

O orçamento de Perdizes que já era uma caveira, perdeu quase todo o seu tutano de uma vez só. Ninguém fez mais nada a não ser gastar o tempo em intermináveis audiências públicas. Passaram-se três anos e meio e a conta veio amarga. Milhões e milhões. Dinheiro que aquele povo nem sonhava existir. Assim como deixou de existir a Rua do Brejo. Com as indenizações na mão, alguns mudaram para a cidade grande, a maioria comprou lote no centro e construiu casa boa. Quem tinha mais mortos comprou mais casas, moto, carro… Quem tinha família inteira sob a terra, comprou sítio e encheu de gado. O Dinho faturou alto. Comprou uma rede de farmácias no sul de Minas e se mudou para lá com a família, pois o sonho de se tornar prefeito perdeu a chama à medida que a cidade perdia todos os seus recursos. A Cássia largou a faculdade pela metade e foi viajar o mundo como sempre sonhara. Deixaram de existir também a Creche Criança Feliz, a Escola Rural do Passo Fundo, a Casa de Apoio Social e o emprego de pelo menos 40% dos funcionários da prefeitura. Muitos, sem opção, foram embora habitar os cantos de BH, Teófilo Otoni, Vitória e outras. 

Até hoje, treze anos depois, todo novo prefeito de Perdizes já sabe muito bem a quem culpar por todas as promessas que não cumprirá.

Inclusive, esse é o motivo por que lhes conto essa história. Fui demitida há alguns meses. O posto de saúde na zona rural, em que eu trabalhei por mais de 4 anos, foi fechado. Lá já não tinha nem gaze para limpar ferida. O prefeito, ao chamar-me para a dispensa, alegou o motivo de sempre:

— Pois é, querida! Nós gostamos muito do seu trabalho, e eu não tô feliz em fazer isso, mas, aqueles ossos….

Por esses dias, decidi levar meu pai para conhecer a tão afamada Perdizes e rever alguns amigos que deixei por lá. Fizemos questão de conhecer a nova estrela, o cemitério baixo, este já com muitas lápides e uma aparência bem mais razoável que o primeiro. Uma das covas nos chamou a atenção, pomposa, sob uma casinha branca com telhadinho e tudo. Na lápide em mármore preto estava gravado:

 

“Pai amoroso, filho obediente, esposo leal.

Homem cujo trabalho fez a muitos descansar.

Aqui jaz João Martins da Silva”

 

14 comentários em “A Cidade dos Ossos – Conto (Luciana Merley)

  1. Thiago de Castro
    7 de janeiro de 2021

    Hoje consegui tirar um tempinho para apreciar esse autêntico causo mineiro Luciana. Os mortos, vivos, enfim, toda patota de uma cidade pequena servem de laboratório para a a escritora falar da comédia e do drama humano, como fez Lima Barreto, na Nova Califórnia, e uma série de outros escritores. Me diverti com seu texto, e sempre me intrigo com cemitérios de cidades pequenas. Aqui em São Paulo, há em Paranapiacaba, um cemiteriozinho simpático e modesto como o do seu conto. Fiquei pensando quem seriam os outrora vivos das covas sem nome, ornadas apenas com uma cruz branca de madeira.

    Parabéns!

  2. Fabio D'Oliveira
    5 de janeiro de 2021

    Não sou fã de contos nesse estilo, tom de causo, mas não deixo de admirar sua escrita, Luciana. É inteligente. Você captura bem o espírito do brasileiro aqui. Povo malandro, meio oportunista, mas com aquela ignorância que fica impossível culpá-lo pelo que é. Vivemos tanto tempo nesse ritmo, sem educação adequada, que é difícil sair da curva.

    Quando comentou sobre os moradores que montaram as “lojinhas” na frente de casa, para os trabalhadores, lembrei-me de imediato das manifestações de 2013. Estava em BH e foi exatamente isso que vi: o povo se “manifestando” como se estivesse em festa e um monte de gente com caixa térmica vendendo suas coisitas, desde cerveja até refrigerante. Tinha até gente bêbada pelos cantos, vomitando, já.

    É provável que não tenha sido uma crítica em si, claro, mas foi isso que enxerguei. Como não tenho mais esperança no brasileiro em geral, eu posso ter capturado apenas esse lado que você mostrou no texto, deixando passar outras reflexões. Mas isso é normal, né, na arte sempre interpretamos um pouco do que somos e do que a arte é, nem sempre em sua totalidade, e como não pretendo ser nenhum crítico, não me esforço ao máximo pra entender todas as nuances duma obra de arte em específico.

    Gostei da leitura, me suscitou algumas reflexões, além de achá-lo bem divertido e inteligente.

  3. Anderson Prado
    3 de janeiro de 2021

    Olá, Luciana! Parabéns pelo texto! Muito divertido! Abraço!

  4. opedropaulo
    3 de janeiro de 2021

    Em estilo de causo, uma história bem-humorada que, ao explorar os desdobramentos de uma catástrofe natural e social, evoca a idiossincrática cidade de Perdizes, que faz jus ao imaginário de “cidade pequena”, categoria indicada logo no início da narração. Apesar da peculiaridade mórbida da situação, persevera no texto um bom-humor cujo estilo narrativo é grande representante (acabaria escrevendo uma lista se especificasse as boas sacadas que encontrei na leitura). Também gostei de como a história, embora contada por uma narradora-personagem, não se centra em um protagonista, atribuindo o protagonismo à cidade e seus vários moradores. No final, quando o texto se torna mais pessoal e ameaça adentrar a seriedade, as palavras de uma lápide encerram o causo com uma sugestão que, casando com o tom do conto, é extremamente irônica.

    Parabéns! Ótima contribuição à área OFF.

  5. angst447
    28 de dezembro de 2020

    Muito bom o seu conto, Luciana. Leitura leve, apesar do tema “ossudo”, mas pensando bem, um esqueleto é mais fácil de transportar do que um cadáver fresco. Enfim, enredo muito bem construído e que captura a atenção do leitor. Parabéns.

    • Luciana Merley
      28 de dezembro de 2020

      Obrigada, querida. Muito feliz por ter lido meu causo.

  6. Fheluany Nogueira
    28 de dezembro de 2020

    O universo matreio e alegre da nossa Minas Gerais. O caráter ficcional se mistura aos elementos documentais e constituem uma narrativa cheio de autenticidade de um mundo em extinção.

    Parabéns pelo trabalho. Abraço.

    • Luciana Merley
      28 de dezembro de 2020

      Muito obrigada, Fheluany. Honrada por sua leitura.

  7. antoniosbatista
    27 de dezembro de 2020

    Gostei da narração. Da ideia, fazendo conexão com o coveiro no inicio e o final da história, não podia ser outra. Tem horror e comédia na medida certa. Algumas frases se destacam pela engenhosidade da autora, confirmando sua ótima escrita. Gostei também do linguajar caboclo, ficou genial.

    • Luciana Merley
      28 de dezembro de 2020

      Que alegria, caro Antônio. Muito obrigada.

  8. Bruno de Paula
    27 de dezembro de 2020

    Oi, Luciana!

    Gostei demais do seu conto. Muito, muito mesmo. Desses que eu termino a leitura satisfeito e minha única frustração foi não ter sido eu o autor.

    Confesso que você pegou no meu ponto fraco: sou grande fã desses textos bem humorados, com linguagem ágil, meio com cara de crônica. E gosto demais quando um autor pega uma ideia simples e a leva muito além de onde nós poderíamos imaginar. E como você levou essa longe!

    Mas não fosse você uma escritora habilidosa, não teria conseguido me enredar tanto por essa história. Além da ótima premissa e do desenrolar tragicômico, você insere os personagens com naturalidade e conduz a narrativa inteira deixando a ideia dos ossos fluir pelo texto. Tanto pela ideia de desenterrar o passado como em frases como “manhã ossuda” e “O orçamento de Perdizes que já era uma caveira, perdeu quase todo o seu tutano de uma vez só”. Essa última é fantástica.

    Isso enquanto a situação vai escalando de forma dantesca. Do terror de ver os ossos espalhados, passando pela ideia de um sítio arqueológico humano, até chegarmos nas bizarras indenizações e o destino que elas tiveram. Tudo muito bem feito, muito bem amarrado, muito criativo, só posso te parabenizar.

    Mas, sendo eu um notório chato de galochas, vou ter cá minhas pequenas críticas:

    “Uma coleção de casebres só no tijolo, outros com reboque” >> não seria reboco?

    “uma quase vila de uns três mil habitantes”. >> Não acho que dê pra definir uma cidade com três mil habitantes como uma “quase vila”. Eu entendo a intenção, mas soou um bocadinho forçado. Ao menos pra mim.

    “E rasa porque a preguiça do João coveiro era coisa sabida há mais de 40 anos por ali. Já com quase 70” >> Pode ser só implicância minha, mas sempre acho estranho quando algarismos aparecem de forma meio despropositada no texto. Ainda mais quando você já tinha falado três mil por extenso, essa variação gera estranheza. Outra vez, ao menos pra mim, rs.

    Você “separou” os texto com uma série de pontinhos em algumas partes. Além do recurso em si ser meio esquisito, achei completamente desnecessário. Imagino ser uma ideia de dar um pequenino salto temporal, ou mesmo dividir as “cenas” das falas. Mas o texto fluiria da mesma maneira sem eles. Acho que poderiam ser limados numa revisão.

    As repetições de nomes de municípios dos arredores me cansou um pouco. Particularmente Teófilo Otoni ficou martelando na minha cabeça, rs. Revi aqui e você só citou o município três vezes. BH outras três. Então não posso dizer que houve um exagero. Talvez a repetição da ideia tenha me cansado. Ou o curto espaço entre as aparições dos nomes. Não sei. Nem sei se é um bom ponto pra criticar, mas se fez algum ruído durante minha leitura, gosto de destacar. Você decide se é só bobagem minha ou não, rs.

    Por fim, se teve algo que me incomodou de verdade – essas acima são bobeiras que podem ser corrigidas numa revisão – foi a ausência da narradora na história. Entendo que ela está contando um causo. Mas quando, no início, fala que se mudou para lá, gera a expectativa que ela participe de alguma forma da história. Porém ela se omite de todos os acontecimentos e aparece só no final para arrematar o conto – com um belo arremate, aliás, boa sacada a de mostrar a cova do coveiro. E ainda ficou temporalmente meio esquisito. Ela fala que se passaram treze anos do acontecido, mas ela trabalhou no posto somente por quatro? O que aconteceu nos outros nove? rs

    E de novo você varia entre extenso “treze anos” e numeral “4 anos”.

    Enfim, acho que seria mais interessante se, no começo do texto, a narradora dissesse de alguma forma que nos contaria um causo. Ou algum outro recurso que nos fizesse entender de cara que ela não seria relevante nos acontecimentos.

    Bom, como eu disse lá em cima, isso tudo é meio chatice minha. O texto é excelente. Estivesse num desafio e chegaria perto da minha nota máxima. 🙂

    Obrigado por leitura tão prazerosa e perdoe-me os excessos. Eu falo demais mesmo, rs.

    Um abraço!

    P.S.: Existe mesmo esse negócio de “noite de cachorro solto”? Nunca ouvi falar e parece uma ideia meio bizarra, rs. Explica aqui pro ignorante de cidade grande. 😛

    • Luciana Merley
      28 de dezembro de 2020

      Háhá! Obrigada pela sua leitura tão dedicada. Revi com atenção todos os apontamentos. Sou mesmo descuidada com numerais. Acho grande demais escrever “quarenta anos”, mas sei que a escrita culta não permite nada de numbers no texto. Quanto ao “reboque”, é erro historicamente justificável (ainda assim errado kkk), pois nenhum mineiro falaria “reboco” ao contar um causo. “Quase vila” é uma interpretação, uma conclusão da narradora e que só ela poderia nos explicar por meio das suas percepções de Perdizes. Tem mais a ver com o andar da vida por lá, do que com o tamanho em si. Os pontinhos estão aí porque não são propriamente conversas entre as pessoas, mas falas soltas de várias delas. Achei que se colocadas como num diálogo normal, o leitor poderia esperar que estivessem numa conversa. E quanto aos nomes dos municípios, acho que é chatice sua mesmo (rssrs) e porque são nomes estranhos para a maioria. Já com relação ao “pior” dos meus pecados nesse texto, acho sua sugestão bacana. Não gosto de tantas explicações nesse sentido já que o leitor quer ir logo ao centro da história, mas narrador não pode ser algo secundário. Nesse caso ela narra memórias, né? Um causo contado. E eu preferi não inserir a participação direta dela. E quanto ao possível vácuo temporal, eu não afirmo que ela trabalhou apenas por 4 anos, mas que o ápice dos acontecimentos se deram nesse período. De qualquer modo, acho o “13 anos” desnecessário. Vou rever. Muito obrigada por sua contribuição tão valiosa, caro Bruno. Um beijo.

  9. Euler d'Eugênia
    26 de dezembro de 2020

    Um conto extremamente visual, palatável e com pitadas saudosistas e de humor. Equilibrado, bem escrito.
    A inserção dos personagens, tão diversos, em nenhum momento ficou rasa, pelo contrário, o assunto, a exumação acidental, interligava tudo, sustentava e dava profundidade à construção do conto. Todos falavam dele.
    A narrativa onisciente foi natural, a história adentrava e saia da narradora-personagem com facilidade, tudo fluído e bem trabalhado.

    Pronome: “para dar-lhe”, aqui é próclise devido à preposição/preferência. “Minas e se mudou”, aqui é ênclise devido à oração coordenada.
    Houve repetições do ‘como’, a meu ver em excesso.
    Usou como quebra: pontos subsequentes, creio eu, que bastaria só os três pontos. Pois atende a finalidade de interrupção do discurso.

    No todo gostei do texto por demais, sô. As reflexões pontuaram a existência do conto, pois motivaram os processos, a debandada e a reviravolta – utilizada pela figura do coveiro, quando pede indenização e também ao final do conto, quando ele se torna de fato ossada, abrilhantou a ideia (o fechamento foi perspicaz e sútil). Parabéns pelo texto.

    • Luciana Merley
      28 de dezembro de 2020

      Que alegria, Leandro (Euler). Sou mesmo péssima nos detalhes desse nosso tão rico português. Agradeço pelas observações. Muito feliz pela sua interpretação mais que generosa. Grande abraço.

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Publicado às 26 de dezembro de 2020 por em Contos Off-Desafio e marcado .