EntreContos

Detox Literário.

1888 (Pedro Paulo)

Aqui é a porra do senhor de engenho

Eu sou tudo,

Sou a morte, o diabo, o capeta

A careta que te assombra quando fecha o olho

“Corra”, de Djonga (recorte)

 

Fora e dentro do sobrado, todos observaram com atenção a chegada do senhor Zacarias. Apressado e casmurro, ele deixou o cavalo para os cuidados do preto Simeão e avançou a passos largos até a residência. Entrou pela porta da cozinha, onde encontrou a esposa, Dona Helena, sentada à mesa com o menino Bernardinho. Ela supervisionava a leitura do menino enquanto a mucama Justina atentava a uma panela no fogareiro de barro. O senhor ordenou que os negros saíssem. A mucama argumentou que a panela precisava de atenção, mas ele estava resoluto, então ela saiu junto do menino, Dona Helena assistindo à cena com ansiedade. O marido lhe entregou um papel marcado pelas letras do telégrafo. 

13 de maio confirmado. Olhou para o marido com apreensão enquanto ele andava cá e lá do pequeno recinto, xingando a princesa, o Imperador e os malditos abolicionistas. Esperou que se acalmasse e perguntou o que fariam. Ele repousou o queixo sobre o peito, ficou assim por um momento, o rosto meio escondido pelo chapéu. Respondeu.

— Não conto pra eles.

— Eles quem?

— Os pretos, ora! Vou queimar essa carta e acabou.

— Estás maluco, Zacarias? Absurdo!

O rosto dele ruborizou, sua voz mudou de tom, ainda que restrita na altura de um sussurro.

— E como esperas que sobrevivamos? Os preços estão flutuando, não ganho quase nada vendendo arrobas! Não temos que cumprir com o desaforo de fazer um contrato com eles. Não… tu não percas a cabeça, se silenciarmos ficará tudo bem. Ou não queres seu vestido novo? Suas joias para usar na assembleia paroquial?

Aquilo a deixara calada. Havia muito tempo que o apoquentava pela miséria de suas vestes, pelos sapatos já gastos, por nunca mais terem feito um sarauzinho… 

— E o que pretendes fazer sobre João? 

O crioulo João era o mais novo de seus três escravos, mas já era um homem. Era rápido e esperto, então era muito comum que o mandassem cumprir tarefas na cidade, onde às vezes ficava até a manhã seguinte. O que seus senhores não sabiam era que seu escravo aproveitava o tempo de sobra para prestar serviços como taipeiro, carapina, quitandeiro e no que mais viesse. Mais importante, visitava seu amor, Iolanda, a forra com a qual prometera se casar. De serviço em serviço, juntava o pecúlio e logo, logo compraria a própria liberdade! Seus dois parceiros de cativeiro achavam graça, mas lhe deram confiança no dia em que apareceu na roça com um par de sapatos de couro. “Para usar quando me libertar!” Dissera a eles.

Pouco depois da conversa entre senhor Zacarias e Dona Helena, o crioulo João chegou na casa, vindo do eito na roça. Vinha sorrindo, jovial de sempre, já à espera de algum serviço na cidade. Nos últimos dias seu senhor mandara que ficasse, tempo o bastante para guardar saudades de Iolanda. Senhor e escravo se encontraram a meio caminho do sobrado.

— Um criado seu, meu senhor.

— Bom dia, João. Tenho notícias para dar. De agora em diante, teu trabalho será somente na roça. Se eu tiver pendência na cidade, vou eu mesmo.

Tão perplexo que João ficou, não omitiu sua surpresa. Zacarias também deixou de sorrir, estranhando o choque do seu escravo, que era sempre tão animado. Ainda assim, não mudou de postura, deixando uma mão dentro do bolso do paletó velho, querendo parecer senhorial. O crioulo João recuperou a voz.

— Ora, meu senhor, por quê?

— Fica feio, não achas? Ter um preto agindo em meu nome? Não! Eu mesmo faço isso.

— Que feio que nada, senhor. Me desculpe, mas estás falando asneiras! Todo mundo gosta de mim lá, eu faço seu serviço direitinho, já me conhecem.

— E achas que não me conhecem, crioulo?

— Não, senhor, é claro que conhecem. Ajo em seu nome.

— Então por que discutes?

Atrás dos dois, o preto Simeão observava com cautela, olhando principalmente para o seu parceiro de eito. Simeão era o mais velho não só dos escravos, mas daquela roça, tendo pertencido ao pai e ao irmão do senhor Zacarias. O seu próprio pai e seu avô haviam sido escravos e, desde antes deles, uma história vinha sendo contada, sobre os negros de minas, que eram metidos nas cavernas escuras e úmidas de Minas Gerais. O que o pai contava a Simeão era uma história de morte, a qual ouvira do seu avô. Escravo não vive muito, meu filho, então o importante é viver para Deus, porque no Reino dos Céus há liberdade. Mas Simeão pretendia sobreviver. Topava os sessenta anos e já havia décadas que era membro da Irmandade Negra da região. Quando morresse, seu funeral contaria com dezenas de rezas e pelo menos alguns padres. Simeão pretendia sobreviver para que, ao chegar aos portões de São Pedro, o santo o acolhesse e lhe dissesse: “és digno, meu filho, vá entrando”. Por isso, cravou um olhar duro em João, que o percebeu.

— Estás certo, meu senhor, desculpe a insolência.

O senhor Zacarias não percebeu que os dois escravos se olhavam, então repuxou as abas do paletó e sorriu, convencido de que sua autoridade o servira. Naquela noite, a esposa voltou a irritá-lo, tocando no assunto dos cativos. Mandou que se calasse, pois era ele o senhor e “dona” era só título. Ela o obedeceu, mas, mesmo assim, ele não voltou a dormir. Nunca maltratara nenhum dos seus negros. Os repreendera, sim, mas nunca lhes metera porradas ou os constrangera. Porque sou um bom senhor, eles não têm o que reclamar. Sim, era isso. E, afinal, se não os tivesse, como é que sustentaria aquela roça?

Havia muito tempo que Zacarias vinha tomando prejuízo. Pensava em vender seus escravos quando as notícias mais absurdas sobre abolição começaram a chegar. Bebera até cair no dia em que viu o primeiro jornal listando os libertadores de escravos. Mas o que o adoecera não foi a lista em si, e sim um nome que nela encontrou. Cerqueira Pestana. Morador daquela freguesia, Cerqueira era, até então, um roceiro senhor de escravos como ele, exceto que era mais elegante, mais inteligente e, sobretudo, mais rico. Festa na cidade? Era na casa de Cerqueira, o único daqueles sertões que tinha um piano e que sabia tocá-lo. Dona Helena também admirava o piano do sujeito. Quando ela soube da libertação que Cerqueira deu aos seus, elogiou-o, ao que seu marido ralhou.

— Andas lendo muitos folhetins, mulher!

. Zacarias não conseguia dormir. Levantou-se, andou pelas sombras do quarto e se sentou à escrivaninha, pensando no que faria. Não tirava o piano de Cerqueira da cabeça, as melodias invadiam seus pensamentos, impediam que pensasse. Então teve uma ideia: compraria o seu próprio piano e aprenderia a tocá-lo! Mas precisaria praticar. Por isso, imaginou as teclas sobre a mesa e começou a dedilhá-las animadamente, cantarolando uma melodiazinha enquanto se agitava no banco. Dona Helena, que apenas fingia dormir, o observou. Sentiu pena. Ela já sabia que o marido era um senhor decadente. Se tirassem o senhorio, sobraria apenas a decadência.

***

Os dias seguiram não muito diferentes dos anteriores, exceto que agora Zacarias acompanhava seus escravos à roça, olhando-os do alto do cavalo enquanto cantarolava sua musiquinha pegajosa. Terminada a labuta, insistia que seus três escravos se enfileirassem no pátio do sobrado, explicando que essa novidade era a “revista”. Os escravos a conheciam, mas apenas nas grandes fazendas baronesas, de centenas de cativos. Só após revistá-los, permitia que se recolhessem. À noite, ele mal dormia. Sentava-se à mesa e inspirava novas cantorias mal ritmadas e dançadas à cadeira. Às vezes, amanhecia sentado ali. Certa noite, entretanto, julgou encontrar o que o tirava o sono.

Havia pego o crioulo João tentando sair. O escravo argumentara que não fugia, que apenas ia à cidade para resolver uma obrigação.

— Tuas únicas obrigações são as minhas, moleque! Sabias que havia algo de errado. Me desrespeitaste naquele dia!

Não importava o quanto o rapaz suplicasse, o senhor Zacarias já se decidira sobre o que faria. Ninguém o enganaria. Afinal, ele era o senhor. Toda aquela algazarra acordara todos da casa, até mesmo o cão Solano López, um vira-lata de pelo caramelo que caçava preás pelas terras do sobrado.

Os escravos e o menino Bernardinho também estavam de pé. Se as cicatrizes em suas costas diziam algo a Simeão, era que um dia pode mudar tudo para um escravo. Aquela noite seria mais uma de mudanças drásticas na vida do preto Simeão. Não apanhou. Dessa vez, esteve do outro lado do açoite.

— Vamos, Simeão. Pegue!

Aquela roça já tivera o seu feitor, o mesmo que marcara suas costas. Mas eram outros tempos e os escravos que agora viviam ali eram todos da mesma espécie. Por isso, e por uma vaga noção de que os castigos físicos eram proibidos por lei, Simeão não ergueu a mão para pegar o açoite. Zacarias deu um passo em sua direção.

— Pegue ou faço o menino açoitar os dois.

Pegou o azorrague e se virou para João, cujas costas, nuas, lisas, estavam tão suadas que captavam o brilho do luar. Não tinham tronco, então a mucama Justina tratou de segurar o rapaz pelas mãos, enquanto tentava consolá-lo do que estava prestes a acontecer. O cão Solano López começou a latir, dando pulinhos ao redor dos dois. O menino Bernardinho os olhava. Velho e garoto trocaram olhares e Simeão distinguiu a confusão nos olhos ingênuos do jovenzinho. Jamais se esqueceria disso. Também não se esqueceria do grito de João quando o couro do chicote abriu o primeiro rasgo em suas costas. Pareceu-lhe por um momento que seu senhor hesitava, mas Zacarias ordenou que repetisse, Simeão obedeceu.

O crioulo João só tornou a acordar em sua choupana, sob os cuidados de Justina. Quando Simeão chegou, virou o rosto, negando-se a olhá-lo. Simeão primeiro se desculpou, depois o repreendeu, pisando duro no chão enquanto tentava convencê-lo de que havia sido imprudente. Ignorado, deixou a choupana e foi para o sobrado, até o seu quarto, no térreo. Lá, Bernardinho brincava com o cão. 

— Pai… por que o senhor machucou o João?

Abriu a boca para respondê-lo, mas desatou a chorar. Menino e cão foram consolá-lo e assim ficaram os três, juntos, enquanto o velho soluçava.

***

A mucama Justina temera que o senhor não a permitisse ir lavar as roupas. Ainda que trabalhasse duro às esfregadelas, era um momento de diversão, em que se esquecia da roça e se aliviava do calor no frescor das águas. Fazia a lavagem na beira do rio e costumava levar o seu filho. Enquanto esfregava, vigiava Bernardinho, que nadava e morria de rir vendo os peixinhos. Naquele dia, entretanto, o senhor Zacarias decidira que ela iria só. Porque acha que só assim hei de voltar.

Sozinha, nem pôde aproveitar aquele momento, saudosa que estava das risadas de seu menino. Empenhava-se em esfregar para voltar logo quando percebeu que não estava só de verdade. Havia outra mulher no rio. Nua, essa negra boiava a poucos metros de Justina, absorta no céu. Foi só o susto da escrava que a despertou de seu transe. 

Rindo, a mulher se desculpou e se levantou.

— Desculpe, minha velha, não te vi aqui! Vejo que lavas sangue. É daqueles dias?

— Eu não tenho aqueles dias já faz algum tempo, minha filha, isso aqui é sangue de escravo!

Justina desabou. Contou-lhe do ocorrido enquanto a mulher ouvia, cada vez mais barbarizada. Parecia que queria lhe dizer algo, mas esperou até que acabasse o seu relato.

— Que canalha!

— Sim…

— Ele está mentindo para vocês, mulher…

Foi a vez da mulher de contar uma história. 13 de maio, missas celebradoras, negros da Corte dando vivas à princesa… a escravidão acabara e eles eram os últimos a saber. A mucama Justina não pôde acreditar. De volta em casa, Bernardinho até perguntou se estava tudo bem, mas aproveitou que o menino passava por mais uma de suas lições de leitura com Dona Helena e disse para que se concentrasse.

Foi quando Zacarias chegou e pediu um refresco. Vinha da roça, onde deixara os seus dois escravos — o velho e o ferido — trabalhando. Tratou de servi-lo e, enquanto ia derramando o suco em seu copo, foi falando.

— Meu senhor Zacarias…

— Fale, minha negra.

— Já conversamos sobre isso antes, mas… eu quero saber se o senhor já se decidiu sobre aquilo que falamos… do Bernardinho. Virado o mês, ele completa oito aninhos no mundo.

A perplexidade no rosto do homem confirmou o que descobrira no rio. Oito anos antes, Justina engravidara de um forro que conhecera na cidade e fez promessa de alforriá-la. Descobriu depois que era um preto fugido e que tinha sido pego. Desesperada, foi acolhida por Simeão. Os dois eram como irmãos, mas Simeão concordou em assumir a paternidade e se casaram na igreja, Zacarias e Helena de padrinhos do filho que viria, Bernardinho. O menino era a maior alegria dela. E é livre. De acordo com a lei, ele é livre! Um rábula chamado Luiz explicara a ela que Zacarias devia cuidar dele até os oito anos e, depois disso, decidiria se o entregava à tutela do Império ou se cuidava dele até os vinte e um. Simeão tinha colegas na Corte que poderiam olhar o rapaz de perto. E ele estaria longe dessa roça, dessa loucura… de uma vez por todas.

Desde janeiro, Justina tentava convencer o seu senhor de libertar o menino e, em todas essas ocasiões, Zacarias prometera que pensaria no caso, irritadiço. Naquela vez, foi diferente. O senhor esmurrou a mesa com tanta força que o copo com a sua bebida virou, derramando sobre o papel que o menino lia.

— Ora, sua preta ingrata! Não sabes que o menino adora viver aqui? Já perguntou a ele?

Sobressaltada, a mucama não soube como reagir. Ficou petrificada quando Zacarias alcançou o menino, içando-o pelas axilas. Devagar, ele colocou Bernardinho contra a parede.

— Diz para o teu padrinho, Bernardo. Não gostas de viver aqui?

O menino titubeou, tentando não tremer enquanto o homem o segurava pelos dois braços. Nascera livre, mas nascera negro. Já era crescido o bastante para saber a diferença.

— Eu amo morar aqui, senhor!

Para Zacarias, o menino ainda soava inseguro. Não o teria soltado se Dona Helena não tivesse pego em seu braço. Os dois se olharam, Helena ordenou que o deixasse. Zacarias o soltou e se virou para a mãe do garoto, ficando bem próximo dela.

— Estás vendo, mulher? O garoto gosta daqui.

À noite, Justina contou do seu dia ao marido, incluindo aí a conversa no rio e o confronto na cozinha. Quando acabou, Bernardinho interviu.

— Mamãe, vosmecê falou “13 de maio”?

Ela assentiu e o menino tirou um papel da algibeira. Leu na cadência dos iniciantes:

— Treze de… mai-ô. Con-firmaaado. A tia Helena falou que eu devia mostrar isso e dizer que estão livres. Tem uma lei áurea que a princesa assinou que diz isso. — O garoto sorriu, parecia um anjo. — Papai, mamãe, estão livres!

Simeão ouvira tudo em silêncio, ocupando-se de preparar o seu cachimbo. Deu um trago, que deixou escapar pelos lábios em anéis de fumaça. Abanou a cabeça.

— É mesmo?

***

Na tarde seguinte, os negros trabalharam como em todos os dias, exceto que, ao fim do serviço, negaram-se a se enfileirar para a revista. Aporrinhado, Zacarias quis saber que besteira era aquela. João tomou a vez para respondê-lo.

— Não te sirvo, moleque, porque és mentiroso e canalha!

Zacarias se adiantou para surrá-lo, mas se deteve ao perceber que enfrentaria oposição. Pela primeira vez em sua vida, um negro seu o opunha. Os primeiros dois passos em recuo foram inseguros, mas então deu uma corridinha até o sobrado, de onde voltou com espingarda em uma mão e azorrague na outra. Largou o açoite aos pés de Simeão e apontou a espingarda para João, que estava perto de Justina. Ordenou que ela o segurasse e mandou Simeão se preparar. O negro mais velho pegou o açoite, mas para além disso só disse uma coisa. Para ele, também um ato inédito.

— Não.

— Não?

— Não.

Zacarias gargalhou para o alto. Terminou sem fôlego, seu rosto mais careta do que sorriso. Apontou a espingarda em direção ao velho Simeão. Justina impediu Bernardinho de correr até o pai, João gritou.

— Tua rixa é comigo, covarde!

Mas Zacarias só tinha olhos para Simeão.

— Me contrarias, negro?

— Se me farás cadáver, serás o cadáver de um homem livre!

— Simeão… cuidado — alertou João. 

O velho sorriu.

— São Pedro me acolherá, rapaz, não há problema.

Os homens não entenderam, ele não se importou. Zacarias tornou a berrar, o rosto vermelho, os olhos injetados.

— Eu sou o seu senhor. Obedeça!

— Não!

O disparo foi parar longe, nas matas fechadas que contornavam o sobrado. Helena se agarrou ao marido por trás, desequilibrando-o. O homem se desvencilhou dela com facilidade, foi o açoite que o levou ao chão. As três correias o acertaram primeiro no rosto. Simeão continuou a flagelá-lo enquanto o homem caído tentava se proteger debilmente. Helena pegara a espingarda que caíra. Simeão só parou quando João o deteve pelo pulso. O velho e o jovem trocaram olhares, firmando ali múltiplas reconciliações.

Os negros já tinham arrumado suas coisas em trouxas, João calçara seus sapatos. Quando se reuniram fora do sobrado, o cachorro Solano López os acompanhava. O cão gostava muito do menino Bernardinho, o acompanhava convicto de que encontrariam um mundo cheio de preás. Zacarias e Helena ainda estavam no pátio, ela sentada e ele aninhado em seu colo, cobrindo as feridas enquanto choramingava “sou o senhor, sou o senhor”. Quando passaram por eles, tiveram a impressão de que Zacarias começara a cantarolar sua musiquinha irritante, um piano só em sua cabeça enevoada.

Fora dos limites da roça, os quatro deram as mãos. Simeão, Justina, Bernardinho e João, juntos, o cão Solano López aos pés. Eram livres. Pela primeira vez, Simeão se pegou pensando menos em como seria a sua morte e mais em como seria viver. Realmente viver.

77 comentários em “1888 (Pedro Paulo)

  1. Camila
    17 de dezembro de 2020

    Excelente escrito e de fácil compreensão! Desejo-lhe ainda mais sucesso nas demais obras! Espero por elas!👏🏾👏🏾

    • Pedro Paulo
      19 de dezembro de 2020

      Obrigado, Camila! Haverá próximas, sua expectativa me honra.

  2. Almir Zarfeg
    12 de dezembro de 2020

    Resumo: Conto narra momentos que antecederam o fim da escravidão no Brasil.

    Comentário: O conto, de maneira documental e realística, apresenta a história dos senhores de escravos Zacarias e Helena. Às vésperas da assinatura da Lei Áurea pela Princesa Isabel, eles entram em desespero por terem que abrir mão dos escravos. Optam por ignorar a tal lei e, para piorar, inauguram uma nova postura para com os negros, inclusive apelando para os maus-tratos. Tudo isso é narrado com desenvoltura pela autora que, facilmente, conquista o gosto dos leitores. Na verdade, ela recria uma situação histórica com grande talento narrativo e fabular. Parabéns!

    • opedropaulo
      14 de dezembro de 2020

      Muito obrigado, Almir!

  3. Fil Felix
    11 de dezembro de 2020

    Boa tarde!

    O conto narra o momento de virada em 1888, quando os negros escravizados ficaram “livres”. Coloco em aspas, pois sabemos que na prática as coisas foram meios diferentes (como o conto também retrata). Temos o choque que os senhorios sentiram, que não queriam libertá-los ou pagar qualquer salário. Conhecemos a mucama e sua história envolvendo o filho livre, o negro mais velho e mais resiliente, enquanto o mais jovem, com a vida e um amor pela frente. A reviravolta só ocorre quando tomam maior conhecimento da nova lei, fazendo com que perca um pouco do impacto quando o senhorio é confrontado. O texto está bem fluido e narrado, com ótimas descrições e não soa artificial, talvez um tanto romantizado, mas não artificial.

    E apesar de ser um conto delicado, sensível, abordando uma história de época, nos fazendo lembrar desses tempos sombrios do nosso país, em que muita coisa ainda ressoa até os dias de hoje, dentro desse desafio de loucura eu acabei não curtindo muito. Em algumas situações é colocado o senhorio como uma pessoa perdendo o controle, passando a delirar e tendo desejos e sonhos, quase como uma inveja. E parecem que essas características estão aí apenas pra dizer que houve loucura no texto. Vi alguns comentários e não acredito que tenha escolhido retratar a própria escravidão ou racismo como loucura. Em ambas situações, me parece (de novo, me parece, minha impressão como leitor) que o conto não foi criado para o desafio, mas adequado a ele.

    • opedropaulo
      14 de dezembro de 2020

      Boa madrugada, Félix.

      Algumas respostas atrás, detalhei o que me levou a optar por deixar a loucura em segundo plano. A princípio, imaginei um senhor consumido pela paranoia, sofrimento que se refletiria numa realidade crescentemente violenta sobre aqueles que vivem na fazenda, incluindo aí os escravizados, que se tornariam os alvos prediletos do seu medo e de sua obsessão pelo senhorio. Não sei se chegou a assistir ou ver algo sobre, mas o filme recente “O Farol”, de Robert Eggers, foi algo em que pensei quando decidi por escrever esse conto. No filme, os personagens percorrem uma espiral de gradativa autodestruição enquanto suas sanidades se esgotam. Entretanto, escrever nessa linha, tendo o louco como protagonista, faria dessa uma estória de um algoz que enlouquece e, como consequência, brutaliza ainda mais as suas vítimas.

      Quando decidi escrever essa estória, visualizei todos os personagens e achei que os trairia se escrevesse essa primeira “versão”. Então tentei indicar que, sim, Zacarias vai enlouquecendo, mas não dei tempo a um endurecimento da situação e preferi dispersar o protagonismo. Mas sim, embora tenha vindo de uma ideia antiga, o conto foi escrito exclusivamente para este desafio. Inclusive, foi escrito em um dia só, na mesma semana do último dia do prazo, depois de algumas leituras que fiz como pesquisa, nos dias anteriores.

      Agradeço pelo comentário!

  4. Priscila Pereira
    11 de dezembro de 2020

    Resumo: um senhor de escravos fica paranóico quando vê que teria que libertar seus escravos.

    Olá, Firmina!
    Eu gostei do seu conto! Você soube abordar o tema de maneira diferente dos demais, trazendo um conto de época e uma realidade que muitos homens devem ter passado. Quantos não sucumbiram vendo sua fonte de renda sumir? Quantos não enlouqueceram? No meu ver concordar com a escravidão já é uma forma de loucura, subjugar, torturar, privar um ser humano da liberdade já é um sintoma, não de loucura clínica, mas de loucura e maldade da alma, o que infelizmente não tem cura.
    Ótimo conto!
    Parabéns!
    Boa sorte!
    Até mais!

    • opedropaulo
      14 de dezembro de 2020

      Oi, Priscila.

      Fico feliz que tenha gostado da abordagem! Lembro-me de que ouvi um episódio do “Anexos” (que não terminei de escutar, inclusive) sobre “Literatura de mulherzinha”, em que em determinado momento comentaram que era difícil ter homens escrevendo estórias de época. Surpreendi-me pois nunca nem pensei nesse termo “de época” (não por nenhum problema com o termo, mas apenas por sempre ter tomado com ficção histórica. Tanto faz entre um e outro) e, depois, eu anseio por conseguir consolidar meus escritos mais ousados em tempos mais remotos. Em verdade, optei pela graduação que estou concluindo por causa disso.

      Mas enfim, agradeço pelo comentário! Abraços.

  5. Misael Pulhes
    10 de dezembro de 2020

    Olá, “Firmina”.

    Resumo: o 13 de maio de 1888 mudaria a vida de muitos escravos. Mas não na fazendo do senhor Zacarias, que nega aos “seus negros” a virtude da verdade. Mas é impossível que a partir de fato tão significativo as coisas continuem as mesmas.

    Comentários: um dos ótimos contos do desafio. A linguagem lembra muito Machado de Assis principalmente no início. As escolhas vocabulares são pertinentíssimas ao gênero e ambientação histórica. A linguagem é muito bem trabalhada. Há alguma lapidação a ser feita, como o período iniciado com o objeto direto: “Os repreendera, sim, mas nunca lhes metera porradas ou os constrangera”. Nada que prejudique a percepção de domínio linguístico.

    A história me pareceu ter potencial para ser um pouco maior, a fim de desenvolver os personagens que foram criados. Sendo um conto, e relativamente curto (dada a quantidade de episódios, história contextual, e episódios), senti que algumas informações sobraram. O desfecho me gerou também um anticlímax. A cena penúltima deu a entender que o conto desembocaria numa tragédia – o que talvez seria mais a cara da atmosfera criada (mas esse é um pitaco abusado demais pra ser considerado).

    O meu maior problema é temático: não vi, sinceramente, nem implicitamente, o tema do desafio ser abordado. Quando o foi, bem “en passant”, pareceu-me um tanto artificial, de modo a justificar a inclusão do texto (belíssimo, repito) no certame. Perigoso, hein?!

    Mas é isso. Um ótimo conto. Parabéns e boa sorte!

    • opedropaulo
      14 de dezembro de 2020

      Oi, Misael.

      É perigosíssimo! Puxaram bastante a minha orelha pelo tema em segundo plano. Mas insisto que não está tão deixado de lado assim. Quanto ao final, resguardo a decisão que tomei. Em verdade, como já indiquei em outras respostas, eu já tinha a ideia desse conto na cabeça, mas ao decidir escrevê-lo, o final foi o que me veio primeiro.

      Agradeço pelo comentário e pela classificação desse como um “ótimo conto do desafio”. Pena não ter refletido na nota.

  6. Bruno de Paula
    10 de dezembro de 2020

    Zacarias, decadente senhor de engenho, decide não contar aos seus escravos sobre a homologação da Lei Áurea, o que ameaçaria seus negócios. Quando os escravos descobrem a farsa, confrontam o senhor.

    Olá, Firmina.

    Terminei o conto com uma sensação esquisita e muito particular. Como quero ser honesto com meu comentário, vou tentar passar essa sensação e explicar os possíveis motivos. Mas deixo claro que não são críticas ao seu conto, estou falando apenas da minha experiência, estritamente pessoal, com o texto e compartilhando com você. Acho que essa é uma das belezas na comunicação entre autor e leitor.

    Bom, vou tentar explicar minha sensação com uma analogia: sabe quando você vê um filme que percebe que é ótimo, mas há ali algum elemento que te gera um estranhamento constante? Uma fotografia equivocada, um ator canastrão, uma trilha sonora invasiva, qualquer coisa do gênero. Foi mais ou menos como me senti durante a leitura.

    O enredo que você criou é excelente. Suas descrições são muito boas, tanto do ambiente quanto dos personagens, o que tornou tudo muito visual pra mim. E muitas dessas imagens são realmente marcantes.

    Mas sempre parecia ter algo fora de lugar. Ora uma fala por demais atrevida de um escravo, ora uma variação estranha nas conjugações em segunda pessoa, ora uma loucura insinuada em Zacarias que não se desenvolve…

    Durante a leitura, estive sempre interessado, você capturou minha atenção e fui acompanhando uma sequência de ótimos momentos que você me propiciou. Mas a sensação de ter algum elemento esquisito em cena nunca me abandonou. Mesmo no final quando você dá a entender que o cão sabia que estava saindo dali pra sempre e sonhava com um lugar melhor. Por mais que eu entenda a intenção metafórica é só… estranho.

    Reitero que não são críticas: seu texto é muito bom e, por conta desse desconforto, sequer me sinto apto a julgá-lo tecnicamente. Talvez minhas impressões possam te dizer algo, não sei. Gosto quando recebo comentários baseados na emoção dos leitores, foi o que fiz aqui. Se você achou um equívoco, já adianto minhas desculpas.

    Desejo-lhe sorte no desafio.

    Abraço.

    • opedropaulo
      14 de dezembro de 2020

      Oi, Bruno!

      Suas impressões pessoais – quando não desprezam a minha proposta, como foi o caso – valem bastante, sim, até porque indicam aspectos em que eu me equivoquei ou falhei ao escrever o texto. Há alguns aspectos do que apontou aos quais me referi em respostas anteriores. Sobre o “atrevimento” dos cativos, em resposta a Fernanda comentei que precisei abreviar alguns diálogos devido ao limite do desafio, de modo que, por exemplo, o confronto entre Zacarias e João se desenrolou de uma forma meio abrupta, pois eu precisasse que acontecesse, mas não tinha espaço ou mesmo necessidade de dar um viés de uma conversa real em que um escravizado se estressa o suficiente para peitar o seu carrasco. Outro detalhe, e este tentei defender com o argumento colocado na resposta a Bia, é que senhores e escravizados podiam ter uma convivência próxima e íntima, sem que se apagasse completamente aquilo que os distancia.

      Enfim, sobre o cachorro acompanhar o menino e sair dali, não foi metafórico, mas uma referência a “Vidas Secas” que o Daniel Reis percebeu. Quis sinalizar para uma possibilidade forte de uma vida difícil para os meus protagonistas agora livres e nômades. Enfim, fico feliz que o texto tenha te envolvido, apesar dos apesares que indicou.

      Agradeço pelo comentário.

  7. Amana
    10 de dezembro de 2020

    Obs.: A nota final não se dará simplesmente pela soma da pontuação dos critérios estabelecidos aqui.
    Resumo: A história mostra um “senhor de escravos” que resiste em dizer aos escravizados de suas terras que agora eles são livres.
    Parágrafo inicial (2/2): Apresenta um texto com jeitão de clássico, pela linguagem empregada.
    Desenvolvimento (1,5/2): Me lembrei de livros espíritas que li com essa temática, pode parecer engraçado ou alguém torcer o nariz, mas eles mostravam muito mais aprofundado os martírios pelos quais passavam os negros aqui no Brasil do que os livros didáticos, ou mesmo os clássicos, quando li A Escrava Isaura, do Bernardo Guimarães, achei muito rasa a abordagem dele. De qualquer forma, é revoltante. Digamos que eu gostei mais do meio para o final, inclusive o final achei muito justo. E o cara merecia até mais… No caso da abordagem do tema, não consegui ver isso muito claro. Com muito, muito esforço, relacionamos a Zacarias, resistindo à libertação dos escravizados, mas isso ficou muito em segundo plano.
    Personagens (1,5/2): Eu gostei dos personagens, me envolvi com eles, só achei que a forma de tratamento dos negros não condizia com o que deve ter sido na realidade, pois se respondessem daquele jeito já devia causar um castigo dos mínimos, mas causava. Até mesmo o fato de ele pedir para Justina sair e ela questionar que não poderia parar de mexer com isso, imagine, só isso seria uma afronta.
    Revisão (1/1): Não vi nada que me atrapalhasse. Gostei da narrativa.
    Gosto (2,5/3): Gostei bastante, embora não tenha sentido muito o tema do desafio. Parabéns pelo texto.

    • opedropaulo
      14 de dezembro de 2020

      Olá, Bia!

      Fico feliz que o texto te envolvido. Abaixo, falo um pouco sobre as relações entre senhor e escravizados e como quis abordar esse tipo de sociabilidade e opressão.

      Quanto à maneira como senhor e escravizados interagiam, tentei demarcar que a escravidão em si violenta e tudo que advém dela está em um contexto de violência: as expectativas inseridas nas relações entre senhor e escravizados dificilmente vão ignorar o fato de que as pessoas em contato são afastadas pelo selo desumano de que uma ou algumas delas “são” propriedade. Apesar disso, escrevi um conto que se passa em um rancho pequeno e decadente, no qual os cativos vivem já faz bastante tempo em convivência próxima com os seus senhores, ao ponto de que a senhora se ocupa de ensinar letras ao rapazinho nascido livre. Tentei sinalizar para esse tipo de intimidade ao descrever em determinado momento que Justina, Simeão e Bernardinho moram na mesma casa em que reside o senhor, embora vivam no quarto do térreo. Diferente deles, João vive em uma choupana, externa à casa principal. É um detalhe pequeno, mas foi inserido para demonstrar que, tendo feito uma família dentro da roça, os cativos ganharam um espaço reservado para o seu convívio familiar. Outro detalhe é que, principalmente no contexto de fim da escravatura, fugas e revoltas do mais diversos tipos – inclusive aquelas em que os senhores eram mortos – se tornaram mais comuns e, mesmo antes disso, castigos físicos tinham que ser administrados com coerência e moderação, já que os cativos podiam compor maioria e precisavam de apenas uma investida certeira para matar o seu algoz. Ou seja, embora a manutenção da escravatura tenha como base a violência da desumanização, não seria sustentável que fosse conduzida unicamente pelo castigo. Enfim, é um campo de relações complexas cuja abordagem não necessariamente requer o retrato de um campo de tortura, o que sei que não foi o que quis dizer.

      Agradeço pelo comentário!

  8. Fabio D'Oliveira
    10 de dezembro de 2020

    É um conto difícil de comentar pra mim. Tem muitas coisas que gostei dele, mas tem outras que me afastaram bastante da leitura.
    .
    É uma história bem construída e humanizada. Vemos todos os lados, entendemos eles e vemos que não existe vilão e herói. Zacarias acredita que é um bom homem, pois não costuma surrar seus escravos, mas esconde a liberdade que eles possuem. Ao contrário, temos os escravos, um mais velho e surrado, calejado, e um mais novo, que cresceu num ambiente mais manso. A história tece a personalidade de cada um, até o ápice, em que enfrentam o senhoria e conquistam a desejada liberdade.
    .
    Como disse, é uma história humanizada. Todos os personagens são vivos, os diálogos, mesmo sabendo que são ensaiados, não trazem um tom de artificialidade, forçado, sabe? É um ótimo texto, construído por mãos hábeis e mente afiada. E inteligente, nota-se pela ambientação, pelas situações e humanidade da história.
    .
    A leitura, entretanto, foi cansativa para mim, não é um conto denso, mas a história, em si, encaminhada para um final previsível, não é tão atraente. Tem poucos elementos que realmente encantam, além da boa escrita, entende? É aquele tipo de passeio que fazemos num lugar conhecido. Pode ser bom, mas não tem aquele brilho da primeira visita.
    .
    Outra coisa que me incomodou foi a ausência do tema. Você tentou colocar a escravidão como a loucura em si? Se foi, infelizmente, é um argumento fraquíssimo. Você mesmo se frauda, nessa questão, ao humanizar o senhor, pois entendemos que é uma situação da época. Era algo normal. Para nós, atualmente, seria uma loucura mesmo. Mesmo sendo subjetivo demais, teria bem mais força. É um conto de época, que retrata o fim da escravidão e como ocorreu dentro de determinada fazenda. Não é um conto sobre a loucura da escravidão. Desculpe, mas não consigo encarar dessa forma. Se fosse um conto adaptado nos tempos contemporâneos, com um senhor alucinado, aí, sim, poderíamos debater mais sobre isso.
    .
    É um ótimo conto, mas senti que você foi preguiçoso. Não na construção do texto. Mas, sim, em pensar numa história realmente focado no tema. Você teve uma ideia e, talvez, pensou que poderia se encaixar. Mas sem foco, Firmina, acaba ficando fora do eixo e aberto pra interpretações, daqueles que aceitam e daqueles que não aceitam, como eu. E você tem cacife literário para fazer contos excelentes e dentro do tema! Confio em você!

    • opedropaulo
      14 de dezembro de 2020

      Oi, Fábio.

      Sobre o que me perguntou, de entender o que quis dizer sobre o enredo previsível, sem o brilho de algo inovador, apesar da boa forma em que foi entregue: sim, eu entendo. Alegra-me o que pontuou de positivo no conto. Em verdade, depois de três anos dificilmente me entristeço frente aos comentários daqui do EC e, quando ocorre, é momentâneo. Por isso, caso queira confirmar, verificará abaixo que não tive grandes desapontamentos neste desafio a não ser, talvez, pela colocação do conto, mesmo sabendo da qualidade daqueles que o superaram.

      Não foi o único entrecontista a se desapontar com o andamento do enredo e, menos ainda, o único a apontar para o tema em segundo plano. O seu ato inédito foi insinuar que fui preguiçoso. Isso foi insensato. Não me chamar de preguiçoso, pois neste mundo são todos livres para palpitar a meu respeito, a insensatez está no fato de que essa insinuação partiu da leitura do meu texto. Então, para supor que fui preguiçoso, tomou como base o que escrevi.

      Primeiro, preciso registrar que estou ciente do critério que utilizou, reservando cinco pontos à criatividade do autor e a suas impressões pessoais. Não é sobre a nota que quero falar e os critérios são de cada um. A questão, entretanto, é que ao apontar que tive preguiça de escrever para lá ou para cá deste certame, indica que o problema do conto está naquele que o escreveu, como se tivesse me faltado cuidado ao compor o texto. Tome o exemplo hipotético: eis um livro – romance, novela, coletânea de contos, tratado filosófico, não importa. Para o livro encontrar o seu espacinho numa estante de livraria, há todo um processo que o “encerra”, o máximo que o autor pode fazer é lançar uma nova edição, mas aquela está ali. O leitor que pegar aquele livro naquela edição, o pegará em sua proposta original e, ao lê-lo, fará mal em julgá-lo fora daquilo que o livro se propôs a ser. Da mesma forma, o autor não pode esperar que o seu livro seja um sucesso universal, já que a proposta com a qual o escreveu não vai encontrar a mesma repercussão e o mesmo interesse em todos os públicos.

      Então o leitor poderia simplesmente buscar o que te interessa e o autor pode tocar suas expectativas a partir de um público-alvo, não é? Mas este aqui não é um cenário de pegar um livro na livraria e sim de um desafio literário. É claro que sabe disso, mas tomo apenas para consolidar o argumento de que não é por não ter encontrado as suas expectativas quanto à criatividade e gosto pessoal que eu tive preguiça. Não, este é um conto em que eu fiz várias escolhas ao longo de sua construção, inserindo nele uma proposta específica que, não, não desconsidera as exigências do desafio. Por isso, exclusivamente ao responder o seu comentário argumentarei em defesa da presença da insanidade no meu texto, tentando argumentar justamente contra aquilo em que desclassificou minha abordagem do tema. Como a crítica à inadequação temática foi recorrente, vejo que esses elementos escaparam ou, muito justamente, não bastaram aos leitores. Se escaparam ou não bastaram, não foi por preguiça de quem leu. Vamos aos tais elementos:

      SOBRE A ESCRAVIDÃO COMO LOUCURA EM SI – esse traço aparece no pensamento de Justina ao comemorar para si mesma o estatuto de livre do seu filho. Ela quer algo inimaginável, que é estar longe de seu primogênito, mas isso é porque ela tem certeza de sua segurança e, principalmente, porque o quer longe de um cenário onde é escravizada e onde a escravidão toca o dia-a-dia. Você apontou que, por ser de época, a escravidão seria “normal” e isso não sustenta a loucura. Mas que época é essa? O pensamento de Justina é, em si, um questionamento da escravatura que se abriu devido à famosa lei do Ventre-Livre que, em todas suas limitações, acenava para a emancipação dos cativos. Aliás, as últimas décadas do Império viram um fortalecimento da pauta abolicionista, com indivíduos de diversos segmentos sociais fazendo campanhas pela abolição da escravatura. Jornais, tribunais, o parlamento, fundos criados para alforrias, caifazes que iam organizar fugas… havia muita mobilização no meio civil para difundir um argumento abolicionista que consistia, sim, na desumanidade da escravidão. Mas, para além disso, e isto é de uma força ainda maior, os próprios escravizados se organizavam em fugas em revoltas, criando uma instabilidade no cenário escravocrata brasileiro. Ou seja, em 1888, ano titular do conto e o mesmo em que foi abolida a escravatura, esse sistema cruel já estava bastante debilitado e vinha enfrentando questionamento havia décadas, quase o mesmo tempo que durava o Império. Então veja, não duvido que o pensamento de Justina, em que tentei colocar uma indicação de como a escravidão vinha sendo encarada naquele momento, sirva como um demonstrativo de todo o sistema escravista como loucura, apesar do seu lugar consolidado na formação da nossa sociedade.

      SOBRE A HUMANIZAÇÃO DE ZACARIAS FRAUDAR SUA LOUCURA – retruco: o seu argumento frauda a sua crítica. Veja, há mais de uma sinalização para uma mudança de postura radical desse homem, cuja perturbação é de ordem mental, apontada logo a princípio, quando escrevi o que se passava em sua mente, e depois sinalizada pela percepção dos demais personagens. Detalho: por ter humanizado Zacarias, mostrando que tinha expectativas e uma visão sobre si mesmo, quis mostrar que o próprio tinha uma ética particular de sua posição: ele seria um bom senhor. Tentei consolidar esse traço ao escrever que o próprio Zacarias se lembra de não aplicar castigos físicos e, confirmando, as marcas que Simeão tem nas costas vem de seus senhores anteriores, enquanto João, que é mais novo na roça (implícito que comprado por Zacarias), não tem marca nenhuma. Além disso, indiquei que parte dos escravizados moram na mesma casa do senhor, denotando intimidade e convivência próxima. Entretanto, as coisas mudam e isso fica claro quando João é proibido de sair e, depois, é castigado fisicamente. Outro momento em que apontei para essa mudança de postura foi ao escrever as lembranças de Justina sobre as conversas em que pediu pela libertação plena de Bernardinho. Nas conversas anteriores, Zacarias se irritou e foi evasivo. Nesta, ele bateu na mesa e colocou o rapazinho de oito anos contra a parede. Esses foram alguns momentos em que eu mostro que o senhor Zacarias – que, como você apontou, é “humanizado”, não um monstro, mas um homem – tinha uma postura e agora está mostrando outra. Paralelo a isso, Zacarias demonstra traços paranoicos: não dorme e ao descobrir que João tentava escapar, culpa o rapaz pela sua insônia e relaciona a sua fuga ao confronto anterior, como se fosse a continuidade de um desrespeito; além disso, impede que Justina leve o filho para o rio, pois, como ela supõe, assim poderiam fugir e ele agora tem para si que precisa de todos os seus cativos. Enfim, há comportamentos de completa irracionalidade: a música de piano é cantarolada pelo sujeito em três momentos de extrema inconveniência: antes de dormir; enquanto supervisiona o trabalho dos escravizados; e, enfim, após ser espancado, enquanto choraminga para si mesmo sobre a perda do senhorio e, sob tamanho estresse, recorre à musiquinha do piano que só em sonhos poderia comprar. Outro aspecto irracional apareceu quando Zacarias submeteu seus escravizados à revista, o que eu identifico como uma novidade e que os próprios cativos estranham, pois conhecem a prática, mas a localizam em fazendas muito maiores. Não inseri por menos. Além de ser um momento de clímax no final do conto, é também mais um demonstrativo de que Zacarias não age mais pela racionalidade, mas pela paranoia e pelo desespero de se apegar àquilo que o define para si próprio: o senhorio.

      Hoje respondi a Anderson pelo comentário dele e, em réplica, ele disse ficar tenso pelo temor de “perder minha consideração”. Mais tarde o certificarei de que dificilmente acontecerá, mas, embora eu não ache que você tenha esse medo, quero registrar que não estou chateado ou penso menos dos seus comentários, pois desde 2018 que os aguardo nos desafios. Continuará sendo assim. Aqui, espero ter feito entender o porquê de achar que não cabe uma crítica em que me aponta preguiça e, em extensão disso, também argumentei contra o que apontou, pois não acho que suas críticas de justificaram bem.

  9. Daniel Reis
    10 de dezembro de 2020

    RESUMO: numa fazenda escravocrata, num surto de loucura, o senhor tenta manter seus escravos na ignorância quanto à promulgação da Lei Áurea. Após maus tratos, quando descobrem que são livres, fazem de sua fuga a maior vingança.

    IMPRESSÕES: uma excelente escolha temática, partindo para o segmento histórico como forma de se diferenciar no desafio. A história tem ambientação correta e constrói personagens, ainda que de forma apenas esboçada, com sólidas interações existentes entre patrões e entre os próprios escravos. Apenas o final, muito referencial a Vidas Secas, poderia ser um pouco diferenciado. Mas não compromete, é mais uma opinião. Boa sorte no desafio!

    • opedropaulo
      14 de dezembro de 2020

      Oi, Daniel.

      Em seu comentário, dois tapas: um que dei na própria perna quando percebi que alguém finalmente percebeu a referência a Vidas Secas; outro quando disse que foi “muito referencial”. Mas não é por menos, pois até abri a minha edição poeirenta da obra de Graciliano para ver com quais palavras o alagoano escreveu os últimos delírios de Baleia.

      Que bom que achou a escolha de ambientação do conto certeira.

      Agradeço pelo comentário.

  10. Regina Ruth Rincon Caires
    8 de dezembro de 2020

    1888 (Firmina)

    Resumo:

    A história de Zacarias e Helena, senhores de engenho e de escravos, que escondem de seus escravos a assinatura da Lei Áurea, negando a eles o direito à liberdade. Com a descoberta, a insurgência foi cuidadosamente arquitetada, vingança fria.

    Comentário:

    Talvez este seja o conto mais bonito do desafio, de escrita excelente, estrutura perfeita. Linguagem fluente, coisa de mestre, deixa o leitor pregado no enredo. Uma beleza.

    O que encanta no texto é a narrativa trabalhada, aconchegante. O leitor imerge na trama, vive a história e a HISTÓRIA. E, ao final, vem aquele momento doído de reflexão. Quanta injustiça, a quanto sofrimento esses irmãos escravos foram submetidos. Foram?! Será que isso passou?!

    Firmina, seu texto é tão encantador que, para falar a verdade, nem sei se há deslizes, não tive tempo para verificar essas coisas. Estou de ressaca…

    Parabéns, obrigada pelo maravilhoso trabalho!

    Boa sorte no desafio!

    Abraços…

    • opedropaulo
      14 de dezembro de 2020

      Oi, Regina!

      Olha, a autora de Belarmino do Depósito apontar para o meu conto como o mais bonito do desafio? E, mesmo não sendo o meu, será que poderia apontar para qualquer outro? Olhe, modéstia à parte, acho que esse texto que escrevi tem mesmo potencial para a beleza. Os seus comentários sempre me alegram e fico feliz que “1888” tenha te encantado. É uma história sobre pessoas que tiveram justamente isso roubadas de si: serem pessoas. E elas enfim reconquistam esse estatuto fundamental.

      Abraços! Agradeço pelo comentário.

  11. Rafael Penha
    6 de dezembro de 2020

    RESUMO: Conto narra a história de Zacarias, sua mulher e seus escravos num Brasil antigo à [época da abolição.

    COMENTÁRIO: O conto é praticamente um relato da história de tantos negros no Brasil.

    A história primeiro mostra Zacarias como protagonista, mas também passeia pelos olhares de Simeão, João e Helena. O enredo é interessante, e magnético, faz o leitor querer continuar a ver pra onde a história irá, começa bem, tem um meio forte, mas a força me pareceu esmorecer um pouco ao final.

    A narrativa é ótima, entremeando uma escrita direta e fluida com nuances de poesia e lirismo numa medida perfeita para dar beleza ao texto, sem ser demasiado, tornando-o chato.

    Os personagens são carismáticos, todos eles. Torcemos por eles, sofremos com eles. Não são bons nem maus, são humanos, de Zacarias à Bernardo e isto os enriquece.

    A meu ver, os pontos negativos são o excesso de nomes e personagens, que às vezes confunde o leitor sobre quem está falando ou fazendo o quê e o final, que após tão importantes acontecimentos, me pareceu insosso, carente de mais clímax, na minha visão, a história pedia isso.

    A loucura, tema do certame, ficou implícita em Zacarias, digo implícita porquê creio que muitos senhores de escravos agiam exatamente da mesma forma e nem por isso eram loucos, assim, consigo perceber notas de loucura suficiente para encaixá-lo no tema, mas não o suficiente para definir o conto como uma história sobre loucura ou com um personagem louco.

    Ainda assim, o conto é excelente! Gostei muito.
    Abraço!

    • opedropaulo
      14 de dezembro de 2020

      Oi, Rafael!

      Sempre que releio uma primeira versão do que escrevi, surpreendo-me com a secura, pois acho que quando ouso em maneirismos (regionalismos, gírias, etc), soo artificial e presunçoso, o mesmo quando tento ser mais poético. Por isso, quando escrevo prefiro a literatura mais direta, pois é o que julgo conseguir fazer. Então sua observação sobre o equilíbrio entre escrita direta e poética me vem como um incentivo para ao menos tentar visualizar um jogo de palavras mais ousado.

      Sobre o que observou dos personagens, foi essencial que todos os personagens, inclusive o cachorro, tivessem nomes. Tentei fazer algo que apenas uma releitura minha me mostrará se deu certo ou não, pois nenhum dos comentadores indicou ter notado. Quando eu escrevia os personagens negros em contato ou agindo dentro das expectativas de suas condições como escravizados, eu coloquei o antecedente em seus nomes correspondente à sua “posição”: preto, mucama, crioulo, menino. Entretanto, quando esses personagens estavam sozinhos ou refletem sobre suas vidas e anseios, chamei-os apenas pelo nome. Isto veio a ser importante principalmente no final, quando interagem com Zacarias, mas são escritos agora somente em seus nomes, já que tem consciência da liberdade. Simeão, Justina, Bernardinho e João.

      Não sei se essa tentativa serviu bem, mas ao revisar o texto, insistirei nela para deixá-la mais evidente. O risco é que fique repetido, mas a acho conveniente. Sobre o final, não é o único que se frustrou com ele e entendo, mas não mudaria. Acho que a decepção é pelo final ser mais “feliz” do que se imaginava, mas discordo disso. É um final aberto.

      Obrigado pelo comentário.

  12. Alexandre Coslei (@Alex_Coslei)
    6 de dezembro de 2020

    RESUMO:
    Um conto com teor histórico sobre abolição e escravidão e as resistências que isso envolveu.
    ABERTURTA:
    Dá para perceber logo na abertura que estamos diante de um escritor de boa formação e com segurança na escrita. Assim, nos leva com habilidade no despertar pelo interesse na trama que desenvolve.
    DESENVOLVIMENTO:
    Chamou-me à atenção a boa escrita, a complexidade da narrativa e a coesão do texto, do início ao fim. Um excelente autor, com uma boa história, mas que talvez não tenha entrado no tema do desafio, mas apenas orbitado.
    CONCLUSÃO:
    Considerei um desfecho bonito, cria uma imagem de emoção e nos deixa com o gosto bom quando terminamos a leitura. Parabéns.

    • opedropaulo
      14 de dezembro de 2020

      Oi, Alexandre!

      Tem sido recorrente um elogio à trama e um porém voltado ao desafio. Tenho me explicado quanto a isso, pois foi algo que partiu de escolhas minhas, então concordo com a crítica e agradeço por ela.

  13. Fernando Dias Cyrino
    5 de dezembro de 2020

    Olá, Firmina, você me traz uma trama excelente, histórica e que me traz à lembrança as histórias que ouvia dos tempos da escravidão, quando eu era menino na fazenda nas minhas Minas Gerais. Fazendeiro Zacarias, decadente, esconde dos seus três escravos a Lei Áurea libertando os seus cativos. Seu conto é muito bom, tem emoção, um enredo legal, uma trama convincente. Só fiquei cá pensando com os meus botões onde mesmo que foi se esconder essa loucura? Ah, no estudo de piano do fazendeiro e senhor Zacarias? Bem pode ser, mas achei que o tema ficou, como dizem os gaúchos, costeando o alambrado. Mas, Firmina, trata-se aqui de mera opinião minha. De repente, os outros comentadores viram essa loucura que achei meio escondida demais. É que, para não me deixar influenciar por eles, eu só leio os comentários depois de realizar o meu. Firmina, fica com o meu abraço de parabéns pela sua bela história.

    • opedropaulo
      14 de dezembro de 2020

      Oi, Fernando!

      Não se avexe, meu caro, pois os demais comentadores concordam contigo que o tema ficou marginalizado. Insinuei para a loucura em alguns momentos, mas reconheço que sem a profundidade esperada. Ou seja, o próprio autor também concorda! Mas fico feliz que o conto te envolveu.

      Abraços.

  14. Josemar Ferreira
    3 de dezembro de 2020

    Um conto que aborda um tema histórico bem demarcado pela descrição de seus eventos face à abolição da escravidão. As personagens são descritas com boa técnica. A loucura está empregnada em Zacarias que não aceita aabolição. Mas uma vez que os escravos se libertam Zacarias começa a imaginar coisas. Foi uma tentativa ao tema do desafio, embora não tenha sido marcada com profundidade e atingido o que se tentou.
    Parabéns pelo conto.
    Sorte.

    • opedropaulo
      14 de dezembro de 2020

      Obrigado, Josemar. De fato, a loucura está presente, mas não é o foco.

  15. Leandro Rodrigues dos Santos
    28 de novembro de 2020

    Trata o princípio da alforria dos escravos e sua relação com o senhorio, até certo ponto obcecado por ser senhor (acredito que seja o ponto tangente ao tema do desafio). Não me aprofundei na leitura, assim resguardo a opinião profunda.
    Tão logo, falo da técnica: houve muita repetição do ‘era’ e ‘mas’ (sugiro, se me permite, a substituição por encurtamentos, desencadeamentos por vírgulas – a maioria foi desnecessária). Pequenos erros em colocação pronominal (oração coordenada e confusão do imperativo pelo indicativo). E, também, apesar de ser basicamente em falas, o uso da segunda pessoa do singular, sem acompanhamento verbal referente.

    • opedropaulo
      14 de dezembro de 2020

      Oi, Leandro!

      Dicas valiosas para a revisão que farei. Agradeço.

  16. Marco Aurélio Saraiva
    27 de novembro de 2020

    RESUMO: Zacarias é senhor de três escravos, mas está em decadência. Quando ouve da lei áurea, resolve não libertar seus escravos e os mantém longe do contato com o mundo fora de sua roça, para que nao descubram que são livres. Eles descobrem mesmo assim, há um conflito e, enfim, os escravos saem livres.

    É um conto bom pra caramba. Muito bem escrito, daqueles que dá até orgulho de ler. Infelizmente não tem nada a ver com o tema do desafio. Há uma levíssima sugestão de loucura quando Zacarias resolve cantarolar suas canções com um piano imaginário, mas nem de longe isso adequa o conto ao tema. É uma pena por quê o conto é bonito demais.
    Ignorando a parte do tema, seu conto é muito bem pensado, incrivelmente bem trabalhado para este limite de palavras. É um conto complexo, com seis personagens, mas de alguma forma você conseguiu trabalhar todos eles muito bem, e estabelecer uma ligação entre leitor e escravos, além de trabalhar bem a personalidade deles, incluindo o vilão Zacarias. João é um personagem adorável, Simeão e Justina são também muito amáveis. Zacarias tem um temperamento e personalidade próprios e muito bem trabalhados. Até Helena tem seu momento de brilho. Até Bernardinho tem lá seu desenvolvimento! Além disso, a ambientação é muito boa, com detalhes que dão vida ao cenário. Há conflito, há uma construção de suspense, há um clímax e uma conclusão. Seu conto é praticamente uma aula de como escrever contos.

    É um dos melhores contos que li ultimamente. Infelizmente eu acho a não-adequação ao tema algo muito sério nos desafios do Entrecontos (se fosse algo leve, qualquer um poderia pegar um conto engavetado e enviar para um desafio com tema qualquer e ter grandes chances de ganhar). É um critério pessoal. Tem gente que tira no máximo meio ponto de um conto por falta de adequação. Eu tiro mais. Mais saiba que seu conto é sublime!

    • opedropaulo
      14 de dezembro de 2020

      Oi, Marcos.

      Para te contextualizar, li o seu comentário enquanto estava em uma repartição pública às voltas com uma burocracia que me tirava de casa pela segunda vez (de três, eu não resolvi nesse dia). Apesar do aborrecimento, sorri, pois acredito que tenha sido bastante lisonjeiro com o meu texto. Aula? Sublime? Poxa, que legal! De fato, depois que visualizei os personagens, pesquisei e fui aproveitando do que aprendi para dar alguns aspectos particulares a cada um e desenvolver a relação entre eles, de modo a saber como a situação os afetaria. É satisfatório ver esse aspecto sendo notado, o que outros leitores também observaram.

      Quanto ao tema, insisto que há pelo menos mais algumas insinuações de loucura no conto, mas é uma opinião com bastante eco e que se explica bem, pois, de fato, deixei tema para o segundo plano. Chega a ser irônico, pois premio bastante pelo tema.

      Agradeço pelo comentário!

  17. Paula Giannini
    25 de novembro de 2020

    Olá, Contista,
    Tudo bem?
    Resumo: No momento da abolição dos escravos, a resistência dos senhores de engenho.
    Minhas Impressões:
    Com ares de clássico, o conto agrada ao trazer uma história dinâmica de contexto histórico. E, é justamente neste contexto, a premissa do conto, que se encontra a loucura tema do desafio. A loucura social e humana, a de um ser humano achar normal escravizar e torturar o outro apenas por suas diferenças mais superficiais, a a cor da pele, ou, mais que isso, pela comodidade do poder. Este período de nossa história é triste e vergonhoso, e, ao contrário do que alguns defendem, acho necessária a abordagem do tema para que ele não se apague da memória. É algo que aconteceu e que deve ser lembrado para que jamais se repita.
    O ponto alto do conto, para esta leitora aqui, reside em seu final. Um desfecho de efeito, é certo, mas que, ´para além de seu impacto dramático, leva o leitor à reflexão. Que vida seria a daqueles recém libertos?
    Interessante notar também, que neste conto a abolição é abordada como algo por que os escravos tiveram que lutar. Assim, o(a) autor(a) não traz personagens passivos aguardando a assinatura de uma lei, não, mais que isso, a luta pela liberdade, assim como está no texto, é extremamente verossímil e, mais uma vez, leva o leitor à reflexão.
    Como digo a todos, se minhas impressões não estiverem de acordo com sua obra, desconsidere-as.
    Desejo sucesso no desafio.
    Beijos
    Paula Giannini

    • opedropaulo
      14 de dezembro de 2020

      Oi, Paula! Tudo ótimo comigo, espero que esteja bem também.

      Olha, fico bastante feliz pelo seu comentário, pois indicou escolhas que realmente fiz enquanto pensava e escrevia esse texto. Quanto ao final, o texto se encerra com “viver”, mas não com um “viver feliz para sempre”. Aliás, há uma referência que só um dos leitores indicou nominalmente e que, em si, busca dar uma pista do que espera os personagens após se libertarem da escravidão. Para além disso, como escrevi ao Jorge, a ideia foi mostrar que a “força de lei” não é, em si, o que ordena a realidade, e que mesmo um contexto de evidente decadência da escravatura pode comportar uma situação absurda como essa que escrevi. Para além disso, recentemente vi uma situação que me intrigou e me deixou pensando, de uma artista visual que tem como opção não retratar cenas em que negros sofrem violência e, portanto, jamais retrataria imagens da escravatura ou derivados desse período. Acredito que seja uma opção legítima e me fez refletir sobre escrevi. Passei a ver a maneira como redigi esse conto também uma opção.

      Agradeço pelo seu comentário!

      • Paula Giannini
        14 de dezembro de 2020

        Ótimo trabalho, de verdade.

  18. antoniosbatista
    24 de novembro de 2020

    Resumo; Senhor de engenho, fazendeiro Zacarias, se considera o rei do lugar. Quando descobre que a escravidão seria abolida, ele esconde o fato dos escravos com a intensão de não lhes dar a liberdade. Ao descobrirem, os escravos se revoltam.
    Comentário: !888, foi o ano da Abolição da Escravatura, assinada pela Princesa Isabel, no mês de maio. Gostei da história, o texto é bem escrito, as referências sobre a época estão de acordo, os personagens estão bem caracterizados, cada um com sua personalidade, em destaque Zacarias e sua soberba. Achei que o final seria mais dramático, com alguma tragédia, porém ficou bom mesmo assim, Boa sorte.

    • antoniosbatista
      24 de novembro de 2020

      corrigindo; 1888

    • opedropaulo
      14 de dezembro de 2020

      Oi, Antônio.

      É, alguns leitores se desapontaram especificando o final e outros apontando uma narrativa previsível. Mas, como escrevi em resposta a um outro comentário anterior, o desfecho desse texto foi uma das primeiras coisas a me vir à cabeça, quando decidi por escrever essa ideia, que já estava comigo havia alguns anos.

      Agradeço pelo comentário.

  19. Claudia Roberta Angst
    23 de novembro de 2020

    RESUMO
    Senhor de engenho decadente tenta esconder dos seus escravos a proclamação da lei Áurea. Um dia, uma das escravas descobre a verdade e esclarece os outros que se unem, enfrentam o senhor e vão embora libertos.

    AVALIAÇÃO
    O conto prende bastante a atenção com o seu enredo bem conduzido e personagens construídas com precisão.
    Devido À habilidade do(a) autor(a) com as palavras e descrições de cena enxutas sem volteios, a leitura flui de maneira contínua e fácil.
    A loucura seria encarnada pelo senhor de engenho? O tema ficou em segundo plano, mas ainda está presente.
    Boa sorte e que a noite não te açoite.

    • opedropaulo
      14 de dezembro de 2020

      Oi, Claudia!

      No desafio “Amazônia”, choraminguei que ninguém costumava supor minhas autorias e você veio e num único comentário a identificou certeira. Tivemos um breve diálogo no grupo em que tentou obter pistas do que escrevi, espero que dessa vez tenha sido mais enigmático!

      Agradeço pelas suas observações quanto ao enredo e à maneira como foi escrito. Sobre o tema como segundo plano, foi uma escolha que, uma vez decidido pela história que queria contar, precisei fazer.

      Abraços.

  20. Andre Brizola
    21 de novembro de 2020

    Olá, Firmina.
    Conto sobre senhor de engenho brasileiro que, em um rompante de malignidade e mesquinhez, decide esconder de seus escravos a abolição da escravatura. Esses, quando descobrem a situação do país, vingam-se.
    Antes de tudo devo dizer que gostei do conto. Acho que a ambientação e o contexto histórico foram extremamente bem definidos, e a contextualização é perfeita. A relação entre o senhor e os escravos, embora seja razoavelmente pacífica, no início, adquire contornos mais agressivos conforme o conto se desenrola. E em nenhum momento questiono se tudo é verossímil ou não, pois é tudo estabelecido de forma tão segura que é fácil de aceitar. Mérito da narrativa, que conquista a nossa confiança.
    Acho que no geral o enredo é muito bem arrumado, mas há um porém. Senti falta de maior aproximação ao tema do desafio. Ele aparece em duas circunstâncias, na música ao piano que o senhor de engenho ouve dentro de sua cabeça (muito superficial para encarar como tema do conto), e na situação realmente absurda de um senhor de engenho negar a liberdade (naquele ponto garantida por lei) a seus escravos. Essa segunda opção pode ser encarada como uma loucura, em sentido figurado. Mesmo assim, se comparada com outros contos do desafio, a aproximação é muito frágil.
    É um bom conto e que brilharia imensamente num desafio com outro tema. Como loucura acho que ficou a desejar. Compensa isso, entretanto, com ótimo desenvolvimento narrativo, boa ambientação e contexto histórico apurado.
    É isso. Boa sorte no desafio.

    • opedropaulo
      14 de dezembro de 2020

      Oi, André.

      Que você tenha observado como positivas a ambientação e a narrativa me alegra, pois são dois pontos aos quais direcionei meus esforços. Também é notório que tenha identificado o tema nos dois pontos em que tentei articulá-lo: sim, Zacarias está enlouquecendo, mas, preventivamente, aproveitei que escrevia perspectiva dos escravizados para observar que a própria escravatura é em si uma loucura.

      Fez um balanço ente a minha abordagem temática se comparada aos demais e a estória como compensatória. De fato, tirei o espaço do tema para escrever o que julguei ser mais interessante, ainda bem que deu certo.

      Agradeço pelo comentário.

  21. Elisa Ribeiro
    21 de novembro de 2020

    Para não perder seus privilégios senhor de engenho esconde de seus escravos a abolição da escravatura.
    Um argumento interessante e singular no desafio. O problema é que na minha percepção o tema da loucura foi abordado apenas de forma figurada se considerarmos como louco o comportamento negacionista do senhor de engenho.
    O enredo é interessante e bem desenvolvido, os personagens igualmente me pareceram bem trabalhados e as boas descrições contribuíram para a imersão na história. Acompanhei a narrativa com interesse e o texto me pareceu bem revisado.
    O que gostei: da ambientação em um período marcante da história brasileira.
    O que não gostei: algumas falas dos pretos soaram impertinentes e um pouco incompatíveis com a situação de escravizados. Nada muito grave, mas cabe uma reflexão e talvez um ajuste.
    Finalizo dizendo que foi uma leitura bem agradável.
    Desejo sorte. Um abraço.

    • opedropaulo
      14 de dezembro de 2020

      Oi, Elisa!

      Foi uma opção minha não focar nisso, mas sinalizei para uma loucura consumindo Zacarias e, como consequência, afetando todo o pequeno universo da fazenda. Como não dei tanta atenção a isso, é de se entender que tenha percebido como uma abordagem figurada do tema. Fico feliz que tenha gostado do conto e concordo sobre as falas. Já estou pensando em como mudar algumas delas na nova revisão que farei, precisei abreviá-las devido ao limite de palavras.

      Agradeço pelo comentário.

  22. Jorge Santos
    21 de novembro de 2020

    Olá. Gostei bastante do seu conto, que me fez transportar na história. Enquanto português, não é possível sentir qualquer tipo de orgulho do facto do meu povo ter promovido a escravatura. Este texto fala de um homem que tem escravos e que esconde deles a Lei Áurea, sancionada a 13 de Março de 1888. Neste aspecto, já tinha havido outras duas leis, uma que libertava os filhos nascidos de escravos (a Lei do Ventre Livre) e outra que libertava escravos com mais de sessenta anos. Gostei da forma como foi contada, embora o final seja previsível. Na época, a transição não foi pacífica e as motivações estão aqui bem retratadas. O grande problema é que as pessoas, passados quase duzentos anos, ainda se sentem escravas de uma vida que perdeu muito da sua humanidade. Quando nem tempo temos para passar com a família e somos muitas vezes obrigados a executar tarefas que não queremos fazer por salários de miséria, fico a pensar se a situação mudou assim tanto.

    • opedropaulo
      13 de dezembro de 2020

      Oi, Jorge!

      A Lei Áurea foi direta e de grande impacto, a historiografia vem mostrando a complexidade na qual se deu o processo emancipatório e, como observou, o conto tentou explorar um conflito possível dentro desse contexto. Fico feliz que tenha notado e gostado. Sobre a narrativa seguir um caminho previsível, outros leitores partilham da sua opinião e não consigo discordar. As três últimas palavras do conto foram algumas das primeiras que me vieram à cabeça, quando decidi escrevê-lo.

      Agradeço pelo comentário.

  23. Amanda Gomez
    19 de novembro de 2020

    Resumo📝 Senhor de engenho esconde dos seus escravos a abolição. Seu comportamento antes ameno piora e se torna violento pra evitar perder-los.

    Gostei 😃👍 Gostei da ambientação, é um conto muito bom, bem escrito e com personagem críveis. Achei criativa a ideia de usar esse tema aliado a loucura do homem. Me pergunto quantos homens iguais a eles usaram a ignorância dos escravos para perpetuar essa condição infeliz até o fim. As histórias paralelas funcionaram bem, fiquei com pena do João, tão acostumado e feliz no seu mundinho se vendo em uma situação nova capaz de lhe tirar o sorriso do rosto. A conclusão foi interessante, os momentos de tensão funcionaram bem. Gostei de demonstrar como o senhor enchergava a si, como um ” homem bom” por nunca tratar os negros como muitos outros. Eles realmente acreditavam nisso, né? Parabéns pelo trabalho.

    Não gostei 😐👎 Tem pontos inverossimeis na escrita, a voz do escravo e do senhor se assemelham, tudo bem que João é mais esperto e deve ter aprendido algumas coisas, ainda assim soou estranha a linguagem. O final promete um final feliz que sabemos que não existiu…bem não existe até hoje. A loucura do homem foi apenas um pequeno detalhe…pequeno mesmo. Os ” cortes” de cenas não favoreceram a fluidez da escrita. As vezes eu não sabia quem estava falando, a cena da descoberta, lá no rio ficou bem confusa pra mim. Li apenas uma vez então posso ter perdido algumas coisas. No mais, um conto que se destaca de certa forma no certame.

    O conto em um emoji : 😠🧾⛓️🔗👵🏿👩🏾‍🦱🙋🏾‍♀️🙋🏿‍♂️

    • opedropaulo
      13 de dezembro de 2020

      Oi, Amanda.

      Quanto às vozes semelhantes entre Zacarias e João, também fui questionado por outra leitora e, portanto, a resposta seguirá uma linha de raciocínio parecida. Eu não senti a necessidade de diferenciar as falas de senhor e escravizado e, em verdade, até achei registro de um senhor que reclamava de como seu cativo dominava as palavras. É o tipo de coisa que não parece estranha em um universo de difusão do analfabetismo. Apesar disso, eu já fiz um pequeno esforço em tentar ambientar as falas, então preferi não ir mais longe em demonstrar os possíveis maneirismos. Sobre a adequação temática, realmente ficou em segundo plano e foi uma escolha minha, pois preferi dar espaço para que cada personagem se definisse e dinamizasse o espaço da roça, não sobrando palavras para voltar e demonstrar o que vinha rolando dentro da cabeça de Zacarias que, sim, vai enlouquecendo conforme anda o conto.

      Agradeço pelo comentário!

  24. Fernanda Caleffi Barbetta
    19 de novembro de 2020

    Resumo
    Recusando-se a cumprir a lei Áurea, senhor de engenho faz o que pode para que seus escravos não saibam da abolição. Quando descobrem, vingam-se dele.

    Comentário
    Seu texto é bom, traz dados históricos interessantes, tem um enredo bem desenvolvido, personagens bem trabalhados. As descrições foram muito boas, fazendo com que eu visualizasse toda a história com facilidade.
    Sugiro que trabalhe melhor aos diálogos. Neste que coloco abaixo, por exemplo, as respostas não pareceram se encaixar muito bem com as perguntas, pareceram desconexas … não fluíram naturalmente:
    — Que feio que nada, senhor. Me desculpe, mas estás falando asneiras! Todo mundo gosta de mim lá, eu faço seu serviço direitinho, já me conhecem.
    — E achas que não me conhecem, crioulo?
    — Não, senhor, é claro que conhecem. Ajo em seu nome.
    — Então por que discutes?

    Cito também que não me pareceu verossímil que um escravo falasse assim com seu senhor: “Me desculpe, mas estás falando asneiras!” Mais à frente, “desculpe a insolência” tb me soou estranho.

    todos da mesma espécie – que espécie?

    “Naquele dia, entretanto, o senhor Zacarias decidira que ela iria só. Porque acha que só assim hei de voltar.” – gostei da ideia de colocar alguns pensamentos no meio do texto em itálico, como este que acabo de citar. Nos aproxima dos personagens. Inclusive sugiro que use mais, pois foram poucos os casos encontrados.

    • opedropaulo
      13 de dezembro de 2020

      Oi, Fernanda.

      Nos seus apontamentos sobre os diálogos, discordo da falta da verossimilhança nos questionamentos. Acerca da maneira como o cativo se dirigiu ao seu senhor, entretanto, concordo e justifico (apenas para explicar porque ficou dessa maneira) que o conto se encerrou nas 3 mil palavras e precisei abreviar determinados momentos, de modo que, eu não acho que teria sido impossível que um escravizado se dirigisse ao seu senhor dessa maneira, mas que da forma como ficou escrito, não ficou tão explicado como o temperamento mudou tão rapidamente. ainda que, linhas acima, tenha sido escrito que o rapaz estava saudoso da amada.

      Outra leitora também me questionou quanto ao uso da palavra “espécie”. Copiarei a minha resposta, realmente espero que não ache ser falta de consideração:

      “a intenção do termo foi indicar que aquela fazenda, uma vez próspera e com mais escravizados, tinha entre os negros escravizados um feitor. Agora que vinha decaindo, todos os escravizados seriam de “eito”. Exceto Justina, que trabalhava na casa, João e Simeão trabalhavam exclusivamente na roça. Não havia mais um cativo cujo trabalho fosse administrar e castigar os demais.

      Para mim foi um trecho essencial em denotar a diferença da roça em que Simeão cresceu daquela em que vive “agora”, mas estou refletindo sobre como alterá-lo na revisão, afim de evitar ambiguidades desconfortáveis.”

      Agradeço pelos comentários e pelos apontamentos do que julgou positivo e negativo.

  25. Ana Maria Monteiro
    18 de novembro de 2020

    Olá, Autor.

    Resumo: Após o 13 de maio que marcou a abolição da escravatura, Zacarias, que tinha três escravos, decidiu esconder deles essa informação e mantê-los na condição anterior, contra a vontade da sua mulher. Após algum tempo, eles tomam conhecimento do sucedido, revoltam-se e acabam por dar uma tareia no patrão, tendo em seguida partido em liberdade, rumo a um futuro que agora lhes pertencia.

    Comentário: Tive de procurar o significado de muitas palavras que desconhecia e a forma de escrever, bastante rebuscada, não ajudou. Não cheguei a ter a exata noção do que seja forra e forro, mas acabei por ter uma noção. Outra coisa que atrapalhou muito a minha leitura foi o tratamento misturado, por tu e por você, na mesma frase e tanto por parte do patrão quanto dos escravos, não me parece natural.

    Ainda que a história que faz pano de fundo ao conto tenha muito o que contar e refletir, o conto não caminhou com desenvoltura, não fluiu e isto tanto por conta da minha dificuldade de entendimento, quanto da própria estrutura narrativa e gramatical.

    É uma boa história, ainda assim, mas o seu principal mérito é o de retratar uma triste realidade, felizmente ultrapassada há muito. No entanto, não encontrei dados que atendam ao desafio, não existe qualquer manifestação direta ou indireta de loucura.

    Parabéns e boa sorte no desafio.

    • opedropaulo
      13 de dezembro de 2020

      Olá, Ana.

      Fico triste que tenha achado o conto sem desenvoltura e fluência, pois eu acredito que esses foram os aspectos que acertei. Mesmo assim, é a sua leitura, não posso disputá-la. Também não acho que a escrita seja rebuscada, apesar da tentativa de capturar o aspecto textual da época que retrata, na qual o português dava mais voltas.

      Quanto à aproximação da linguagem entre cativos e senhores, há registro de senhores que reclamavam de terem cativos muito “sabidos”, mais conhecedores do léxico do que os seus donos. Não é tão inimaginável, considerando o analfabetismo difuso entre várias classes sociais. Mas não foi pensando nisso que escrevi dessa forma, apenas não senti necessidade de diferenciá-los nesse sentido da fala. Talvez eu mude isso ao revisar o texto. Para um exemplo, passei a achar inverossímil que Bernardinho, que vinha sendo escolado nas letras, falasse “vosmicê”.

      Em tempo: forro era o indivíduo que, uma vez escravizado, comprou ou recebeu a alforria de seu “senhor”, tornando-se livre e, por ter tido a alforria concedida, convém se chamar de “forro”.

      Agradeço pelo comentário.

  26. opedropaulo
    17 de novembro de 2020

    RESUMO: O senhor Zacarias e a Dona Helena guardam um segredo e, com isso, roubam a liberdade de seus escravizados, antes assegurados, agora ilegalmente. Mas mentira tem perna curta.
    COMENTÁRIO: Fiquei muito feliz em ver um conto (destaca-se: bem) ambientado no Brasil dos oitocentos, ainda mais tendo selecionado um tema do qual não se pode escapar ao retratar essa época: a escravidão. As múltiplas tramas se conciliam bem no espaço limitado do texto, com a opção clara de dar voz a cada personagem presente, uns mais do que outros. Por outro lado, esvazia-se a abordagem temática, que fica mais na sugestão. Outro ponto positivo são as referências. Reparei nesse conto pela primeira vez quando Thiago mencionou o pseudônimo no grupo e, não fosse pelo mesmo Thiago, confesso, envergonhadamente, que não teria percebido a menção a Luiz Gama. Enfim, é um bom conto, que deve um pouco no tema, mas que conta uma boa estória.
    Boa sorte.

  27. Jefferson Lemos
    16 de novembro de 2020

    Resumo: a história de um grupo de escravos que não recebe a notícia de sua alforria, então a trama se desenvolve mostrando como o poder pode corromper uma pessoa.
    Olá, caro autor.
    Você sabe o que faz, não é? Conto excelente, bem escrito, com descrições precisas e uma trama envolvente, vai levando a gente através da história (aqui, me refiro ao conceito histórico também) e nos dando pequenos vislumbres da tristeza que permeava os homens de correntes, negros escravos privados de sua liberdade. Quando o conto começou citando Djonga eu imaginei que não tinha como ser ruim.
    Uma técnica muito boa, refinada, tramas dentro de tramas, personagens bem desenvolvidos e com personalidades bem próprias. Um trabalho invejável, eu fico extasiado lendo isso pela qualidade e triste pelo massacre à minha obra. Ahahhahahaha
    Muito bom, de verdade. Parabéns e boa sorte!

    • opedropaulo
      13 de dezembro de 2020

      Oi, Jefferson.

      Fico feliz que tenha gostado do meu conto! Sobre eu saber o que faço, sinto que tenho descoberto durante este ano complicado. Obrigado pelo comentário.

      Abraços.

  28. Fheluany Nogueira
    15 de novembro de 2020

    Dono de escravos tenta esconder deles a Lei Áurea. Descoberta a mentira, os negros o enfrentam e saem do local.

    Premissa com crítica à escravatura, deixando entrever vários pontos da questão. Texto sensível, ambientação cuidada, bom ritmo. Estrutura, linguajar convencionais, adequados ao conteúdo de época.

    Poucos deslizes de pontuação ou gramaticais e repetição próxima de palavras não prejudicam a fluidez textual. Apenas não vi foco na loucura; o comportamento de cada um dos personagens pode ser considerado normal dentro das situações apresentadas.

    Parabéns pelo texto e boa sorte no desafio! Um abraço.

    • opedropaulo
      13 de dezembro de 2020

      Oi, Fheluany.

      Agradeço pelos apontamentos do que julgou positivo e daquilo que viu de negativo. De fato, o conto não foca na loucura, então tentei deixá-la em dois aspectos, no comportamento disruptivo de Zacarias, inevitavelmente impactante sobre os outros personagens, e a própria escravidão como uma loucura em si. Apesar disso, é plenamente compreensível que não tenha considerado ou mesmo achado na narrativa, pois preferi privilegiar os personagens e seus sofrimentos.

      Abraços.

  29. Fabio Monteiro
    14 de novembro de 2020

    Resumo: 13 de maio e a abolição da escravidão.

    Me senti assistindo um filme antigo de escravos. O senhor, como sempre, um homem tirano e cheio de maldades. Recusou-se veementemente a aceitar que os negros não mais fossem seus escravos.

    Eu acredito que o autor(a) buscou trazer no personagem de Zacarias um comportamento narcisista, controlador, de posse, poder. Essas também são características de um transtorno de comportamento. O ser é incapaz de aceitar opiniões contrarias as suas. O mundo deve girar em torno do seu umbigo.

    A forma como a narrativa vai se desenvolvendo é agradável. Os termos e referencias usadas são verdadeiras perolas na leitura. É um texto grande mas da para acompanhar muito bem, sem desvios na trajetória de interpretação.

    Boa Sorte autor(a).

    • opedropaulo
      13 de dezembro de 2020

      Oi, Fábio!

      Pelo pouco espaço, optei por diminuir o tempo passado na perspectiva de Zacarias para que outros personagens pudessem se apresentar de maneira mais complexa, ainda que não tão profunda. Apesar disso, houve um esforço justamente para não enxergar nesse roceiro um homem malvadão. Como identificou, quis deixar aparente, pela perspectiva dos demais, que o sujeito vai perdendo a cabeça.

      Nesse “pela perspectiva dos demais”, destaco que numa configuração patriarcal como a que busquei retratar, o patriarca enlouquecer não é sentido só por ele. É duramente vivido pelos demais.

      Agradeço pelo comentário!

  30. Anna
    13 de novembro de 2020

    Resumo : Um senhor de engenho completamente pretencioso tem a “genial” ideia de esconder de seus escravos o fim da escravidão.Como é de se esperar os escravos descobrem a farsa e o senhor de engenho leva uma boa surra.
    Comentário : O conto é genial.Mostra como o ser humano pode ser egoísta e pretencioso.O senhor de engenho acha mais importante sua vida financeira do que cumprir a lei e admitir que todos os homens são iguais.

    • opedropaulo
      13 de dezembro de 2020

      Oi, Anna!

      Se deu nota 6,0 ao meu conto genial, fico curioso pelos adjetivos usados com aqueles que alcançaram notas maiores.(brincadeira!)

      Agradeço pelo comentário.

  31. Thiago de Castro
    8 de novembro de 2020

    Senhor de engenho se torna insano e paranoico a partir do momento que decide ocultar de seus escravos o 13 de Maio.

    Bom texto e enredo, com temática contemporânea e necessária. Há, em todo conto, um evidente trabalho de pesquisa a serviço da narrativa. Você trouxe , além do 13 de maio, aspectos legais sobrea escravidão (os abusos e castigos físicos passaram a ser proibidos nas décadas finais do Império, sendo inclusives considerados condenáveis. Há um livro do Sidney Chalhoub, chamado Visões da Liberdade, com uma série de relatos à respeito), e uma referência à Luís Gama.

    Quanto a abordagem, há uma crítica na figura medíocre de Zacarias, um decadente senhor de escravos com desejos de ascensão num modelo econômico em franca ruína. Nesse ponto a loucura se manifesta como uma sandice de pequeno poder que, felizmente, é vingada com êxito pelo autor.

    Me lembrei de Cumbe, do Marcelo D’Salete.

    Parabéns pelo trabalho e boa sorte no desafio!

    • opedropaulo
      13 de dezembro de 2020

      Oi, Thiago.

      Alegrou-me bastante que tenha pego a referência a Luiz Gama e do pseudônimo. “Visões da Liberdade” é um livro do qual li apenas um capítulo, mas que, com certeza, eventualmente cobrará a minha leitura plena, assim como uma outra obra de Chalhoub. Quanto ao quadrinho, descobri-o por sua causa, pelo qual agradeço. Ler quadrinhos é algo de que gosto, mas que não sobra espaço ou dinheiro para custear. Ler os nossos quadrinistas nacionais, então, é ainda mais difícil.

      Abraços.

      • Thiago de Castro
        14 de dezembro de 2020

        Pedro, seu conto foi demais! Também sou historiador de formação, por isso percebi a sagacidade do seu trabalho no cuidado em preparar o texto.

        Mais uma vez, parabéns!

  32. Leda Spenassatto
    8 de novembro de 2020

    Resumo:
    Zacarias um dono de escravos falido tenta esconder deles a Lei Áurea de 13 de maio de 1888.

    Quase uma aula de história.
    Só identifiquei um quezinho ortográfico. Se tem outros , passou batido, tão gostoso e próximo da história real, da barbárie que foi a escravidão. Dói em mim até hoje!

    Obrigada pela leitura de tão belo texto. Gostei, amei!

    • opedropaulo
      13 de dezembro de 2020

      Muito obrigado pelo comentário, Leda. Aliás, muito obrigado pela nota 10,0, uma das duas que recebi!

      Fico feliz que tenha gostado!

  33. Lara
    7 de novembro de 2020

    Resumo : A escravidão é abolida mas um senhor esconde essa verdade de seus escravos. Mas os escravos acabam descobrindo a verdade e indo embora.
    Comentário : O senhor de engenho possui a loucura de se achar superior a outro ser humano. O conto ilustra bem como uma pessoa egocêntrica só pensa em si mesma e em ter poder.

    • opedropaulo
      13 de dezembro de 2020

      Oi, Lara.

      No breve momento em que escrevi sob a pele de Zacarias, o esforço foi em justamente evitar um maniqueísmo barato na percepção do personagem. Apesar disso, a loucura que o consome parte justamente de uma noção extremamente egocêntrica e pautada em uma verticalização da sociedade, daqueles que estão acima daqueles que estão abaixo. Isso também é doido, mas compõe um aspecto fundamental para o entendimento da sociedade brasileira, emergida de um contexto colonial.

      Agradeço pelo comentário.

  34. Giselle F. Bohn
    7 de novembro de 2020

    Senhor de escravos decide por não acatar a nova lei que abolia a escravidão. O conto narra os fatos que cercam essa decisão.
    Amei este conto! Boa narrativa, ambientação perfeita, personagens carismáticos, excelentes diálogos, e uma eficaz construção do suspense. Muito bom mesmo. Parabéns! Você é já um autor ou uma autora e tanto!
    Há necessidade de uma boa revisão; em especial, sugiro que olhe novamente a diferença no uso dos pronomes “o”, “a”, “lhe” e afins. Em vários momentos foram trocados, como aqui: “Certa noite, entretanto, julgou encontrar o que o tirava o sono.”
    Uma coisa que me causou estranhamento foi esta frase: “Mas eram outros tempos e os escravos que agora viviam ali eram todos da mesma espécie.” Não entendi o que você quis dizer com “espécie”. Talvez algo como “irmandade”, mas achei ruim a escolha da palavra.
    Este conto tem várias subtramas e me pareceu material para um romance ou uma novela. Se for o caso, vá em frente, porque o material promete! Boa sorte no desafio!

    • Bianca Cidreira Cammarota
      8 de novembro de 2020

      O conto faz um recorte ficcional dos últimos dias da escravidão no Brasil, onde há a perspectiva da relação senhor e escravo nos olhares e vidas de vários personagens

      Firmina, antes de mais nada, devo dizer que estou encantada com seu texto!

      Tenho formação em História e percebi que você é da área ou simpatizante da mesma ou ainda de alguma disciplina irmã. É patente a pesquisa que fez sobre essa época. A Irmandade entre os negros era um espaço de identificação e força entre eles, principalmente quanto à questão da morte, ou melhor “a boa morte” , à vida após. A decadência da casta senhorial, presa às antigas premissas também é lindamente exposta em Zacarias. Gostei que vc o tenha colocado humano – ele não é um vilão prosaico. É um homem daquela época, resistindo às mudanças. Avesso ao que ele considerava maus tratos ( nunca deu porrada e expôs ao constrangimento, segundo a visão dele), considerava-se um bom homem. A escravidão para ele era natural. Em contraponto, há o Cerqueira, com visões progressistas, o qual Zacarias tinha admiração e, ouso dizer, inveja. Há a relação de Bernardinho com os senhores, há tanto… tanto o que falar de bom!

      Nossa, tenho que me poupar aqui nos comentários…rs . Caso contrário, será um livro. E poderia dissertar sobre cada linda personagem criada aqui, sua história, sua relação com as demais… Todas tiveram seu momento de protagonismo, compondo uma ária.

      O enredo é maravilhoso, o entrelaçamento entre as personagens é incrível e o conjunto fantástico!

      Apenas duas observações:

      1 – A questão da loucura ficou bem sublinear. Deu a impressão, pelo menos para mim, que é o conjunto da questão, ou seja, a escravidão em si, talvez um pouco mais demonstrada em Zacarias por sua postura.

      2 – Alguns erros de vírgula, de sintaxe, mas nada, absolutamente nada que tire uma centelha do brilho de sua obra!

      Adorei seu conto! Parabéns! Estou ansiosa para saber sua identidade e poder falar contigo sem o anonimato.

      • opedropaulo
        13 de dezembro de 2020

        Olá, Bianca!

        Estou em vias de concluir minha monografia para poder dar entrada e obter o meu diploma como licenciado em História! A razão pela qual entrei no curso está atrelada à ficção, pois imaginei que teria a História do mundo todo para inventar as minhas. Acertei. Para mim, este conto é um marco por duas razões: primeira vez que junto História e estória e, além do mais, é uma ideia antiga que finalmente encontrou caminho para o papel, significando que, talvez, nem todas as histórias que tenho em mente morrerão comigo. De fato, para além do que já havia estudado sobre o tema indispensável que é a escravatura, li alguns capítulos do segundo volume da História da Vida Privada no Brasil, voltado ao século XIX, e algumas obras ficcionais da literatura oitocentista. Dessas leituras obtive vários aspectos que dispersei pelo conto, num esforço de ambientá-lo decentemente, o que foi pontuado pela maioria dos leitores. Fico muito feliz que tenha gostado do meu conto e que tenha apontado a narrativa e os personagens, outro aspecto no qual me esforcei.

        O anonimato está retirado, temos um ao outro no Facebook e podemos conversar.

        Abraços.

    • opedropaulo
      13 de dezembro de 2020

      Oi, Gisele! Fico feliz que tenha gostado do conto.

      Revisarei o texto e levarei em conta o que indicou. Obrigado! Para um exemplo, acho que na frase que recortou, o certo seria: “Certa noite, entretanto, julgou encontrar o que tirava o seu sono.” ou “Certa noite, entretanto, julgou encontrar o que lhe tirava o sono.”

      Quanto ao uso da palavra “espécie”, outra leitora também me questionou e a intenção do termo foi indicar que aquela fazenda, uma vez próspera e com mais escravizados, tinha entre um dos negros um feitor. Agora que vinha decaindo, todos os escravizados seriam de “eito”. Exceto Justina, que trabalhava na casa, João e Simeão trabalhavam exclusivamente na roça. Não havia mais um cativo cujo trabalho fosse administrar e castigar os demais.

      Para mim foi um trecho essencial em denotar a diferença da roça em que Simeão cresceu daquela em que vive “agora”, mas estou refletindo sobre como alterá-lo na revisão, afim de evitar ambiguidades desconfortáveis.

      Abraços.

  35. Anderson Do Prado Silva
    7 de novembro de 2020

    Resumo:

    Após de abolição da escravidão, senhor de engenho tenta manter seus escravos ainda sob cativeiro.

    Comentário:

    Para mim, este se revelou o conto mais difícil de atribuir uma nota. Assim, optei por fazer uma atribuição provisória, ser um dos primeiros a comentar e, depois, voltar aqui para reler o texto e conhecer os demais comentários e, assim, me decidir por uma nota definitiva.

    É um texto muito bom, com excelente domínio do léxico e das técnicas de narração. A crítica social, colocada de maneira elegante e perspicaz, também me fascinou. Não gosto de epígrafes, pois, sobretudo no contexto de um desafio literário, elas sempre ficam me parecendo uma tentativa de se apropriar de qualidades e méritos alheios; no entanto, aqui, o autor foi muito feliz na escolha da epígrafe, fugindo de obviedades e abrindo espaço para um artista fantástico como o Djonga; além disso, epígrafe e enredo casam perfeitamente, tornando-se indissociáveis.

    Agora, o ponto que me incomodou e tornou tão difícil a tarefa de atribuir uma nota: o tema do desafio ficou muito disperso. O autor ousou, certamente, ao optar por tangenciar o tema. Eu o encontrei em dois momentos: o primeiro, na frase “E ele estaria longe dessa roça, dessa loucura… de uma vez por todas.”. Assim, a loucura seria o regime escravagista e seus consectários. Depois, deparei-me com a loucura na figura do senhor de engenho e “sua musiquinha irritante, um piano só em sua cabeça enevoada”. É isso, eis a loucura. Foi suficiente? Olha, nessa minha primeira leitura, achei a abordagem muito tangencial (principalmente quando faço uma análise comparativa com outros contos aqui do desafio). O texto é bom, bonito, comovente, angustiante, com ótimo enredo e tantas outras qualidades, mas focou em questões paralelas à loucura. Seria um nota máxima se o tema do desafio fosse, por exemplo, consciência negra, mas, sendo o tema loucura, este conto me deixou, enquanto avaliador, e dentro de uma análise comparativa, numa situação extremamente difícil. O que fazer: premiar as demais qualidades do texto ou punir o tangenciamento do tema? Ainda não me decidi. Precisarei refletir.

    Apesar do domínio do léxico ser bom, achei a prosa um pouco conservadora. Faltou, em termos de linguagem, na minha opinião, um pouco de ousadia. A estrutura do texto também é bastante conservadora. Por outro lado, o autor foi extremamente ousado na escolha do enredo (com os temas escravidão e abolição), tudo ambientado dois séculos atrás.

    No primeiro parágrafo, a palavra “menino” aparece duas vezes em locais muito próximos. A trecho “andava cá e lá do pequenos recinto” me soou esquisito (não seria “de cá para lá no”?). Depois de “respondeu” deveria haver “:” e, não, “.”. Achei que “logo, logo” atravancou a leitura. Faltou vírgula depois de “Nos últimos dias” e de “Então”. “Dissera eles” deveria ter inicial minúscula e ser antecedido por travessão. “Asneiras” soou pouco crível na boca de um escravo se dirigindo ao seu senhor. Igualmente pouco crível soou “Não te sirvo, moleque, porque és mentiroso e canalha!”.

    Achei a frase “Sentiu pena. Ela já sabia que o marido era um senhor decadente. Se tirassem o senhorio, sobraria apenas a decadência.” genial!

    Parabéns pelo texto e boa sorte no desafio!

    • opedropaulo
      13 de dezembro de 2020

      Oi, Anderson, fico sempre feliz em ler um comentário seu.

      Quanto ao uso de epígrafe, não é um recurso que utilizo muito, mas também não sou contra. Inclusive, a outra ideia que tive para este desafio também levaria uma epígrafe, caso tivesse escrito. Eu entendi o que quis dizer sobre abrir espaço para o Djonga, imagino que por ter desviado de emprestar das palavras de outros literatos para trazer as de um rapper, mas, realmente, são tudo palavras. Neste caso, acho que Djonga está consolidado como um nome notório na cena musical brasileira desses últimos anos e o que fiz foi, bem humildemente, inscrever um conto meu sob a grande letra dele, ainda que essa minha ideia tenha vindo muito antes de eu escutá-lo.

      Quanto à dificuldade para analisar o conto diante da má adequação temática, é compreensível e vem de uma escolha minha. Como expliquei para o Ângelo e repetirei aos outros leitores que se sentiram da mesma forma, foi uma opção minha, pois acredito que se tivesse dado mais espaço a demonstrar o que se passava na cabeça de Zacarias – que, sim, por razões que eu por ser autor conheço, está enlouquecendo ao longo do texto – o conto perderia qualidade e seria uma estória de brutalização de pessoas vulneráveis e marginalizadas. Para mim, comparado ao que escrevi, essa outra estória não teria a mesma qualidade, talvez até se perdesse na gratuidade.

      Pretendo retocar o conto com correções que me foram apontadas (inclusive as suas, obrigado) e dar a ele mais umas mil palavras que me aproximarão de Zacarias e permitirão um olhar ainda mais dinâmico para a situação nessa fazenda-pesadelo.

      Sobre o que pontuou a respeito do conservadorismo da prosa, em sua estrutura e linguagem, eu não entendi bem. Li dois contos vindos lá dos oitocentos, para tentar pegar a forma como a língua era usada, e alguns leitores sinalizaram ter sentido a diferença. Apesar disso, acho que não fugi muito do meu “estilo”. Caso queira apontar exatamente o que quis dizer com isso, seria muito bem-vindo. É uma dúvida verdadeira.

      Abraços.

      • Anderson Prado
        13 de dezembro de 2020

        Pedro,

        Sempre fico um pouco tenso à espera de suas respostas, temendo a vez de perder sua consideração, mas é muito bom poder voltar aqui, conhecendo a autoria do texto, e dialogar sobre ele, o texto, ou sobre a opinião que, sob o manto do anonimato, manifestei.

        Você interpretou corretamente meu elogio à sua escolha de epígrafe: neste meio literário, considerei a escolha criativa. Gosto muito, ouvindo com certa frequência, o álbum Ladrão. Os dois anteriores não gosto muito e o quarto álbum ainda não parei para ouvir. Embora o Djonga seja, para nós dois, um artista de envergadura, ele (assim como os Racionais MC’s e o rap como um todo) tem pouco acesso à grande mídia e, portanto, ao grande público – a grande mídia representada, no Brasil, pelo conglomerado Globo e alguns poucos outros meios de comunicação social de massa.

        Sobre a crítica quanto à “fuga ao tema” e à consequente repercussão na sua nota, vejo agora que pesei na mão, muito em função de, ao longo do desafio (depois, portanto, de ter comentado seu texto) ter sido eu também acusado de ter fugido ao tema. Para mim, toda a história de vida da Mila foi influenciada e determinada pela “loucura” do pai. Portanto, falar de como Mila e todos os demais personagens chegaram onde chegaram era falar sobre a loucura. Quanto ao meu texto, ainda houve um agravante: sugeri, ao final, que o pai da Mila não era louco em sentido estrito, mas, sim, autista. Com isso, as acusações de fuga de tema se tornaram um fardo difícil de carregar e quase provocaram minha revelação de autoria e desistência do desafio (muito contribuiu ainda para minha mágoa a crítica ao “final decepcionante” que eu teria impresso ao enredo). Dessa forma, o terceiro lugar veio como uma redenção, e talvez sirva para me manter interessado pelos desafios Entrecontos. Mas este comentário não é para falar do meu texto. Então encerro este ponto afirmando que vejo, agora, um pouco mais de loucura no seu texto, mas ainda acho que o destaque ao processo de enlouquecimento do seu personagem louco ficou esmaecido dentro do seu enredo, que acabou focando mesmo na questão da escravatura e abolição, as quais me surpreenderam muito (e positivamente) ao aparecerem em um desafio sobre o tema loucura. Foi muito criativo, bem fora da curva, e merecia uma nota melhor de minha parte. Se você tivesse mais espaço, talvez tivesse sido possível tratar da escravatura e da abolição e, ainda assim, mostrar em mais detalhes o processo de enlouquecimento do escravocrata.

        Minhas análises… A palavra foi demasiado generosa comigo… Fica melhor: meus julgamentos se baseiam em opiniões. Valores, portanto, subjetivos – o que, salvo engano, nos diferencia nos comentários aos textos (você é mais técnico, analisando a obra em si e desprezando, portanto, seus gostos pessoais). Então, quando afirmei que o emprego da linguagem foi conservador, quis significar que, dentro do contexto do desafio, havia textos mais ousados no uso da linguagem. Adjetivo como mais ousado, por exemplo, o emprego da prosa-poética (primeira parte de Gelato, As cores do Colônia, Majestade, A louca e o mar, Desconexo etc.); também julguei ousado o uso do chulo e do calão em Alegria e do regionalismo em Ruptura, Cê tá pensando ki sou loki, bicho?, Árvore da Loucura, Diálogos entre os donos do mundo etc.; e, mesmo, os neologismos e musicalidades de A inconsciência cruel do ser. Nesses textos, muitas vezes, prevaleceu o emprego das palavras em sentido conotativo ou metafórico. Lembre-se: no meu julgamento pesa muito (vou considerar rever isso) meu gosto pessoal e subjetivo e, como você sabe, sou empregador assíduo da prosa-poética, do regionalismo e do coloquialismo. Nessa seara, seu texto me pareceu conservador em linguagem, com as palavras sendo utilizadas em sentido majoritariamente denotativo. Não é um defeito, mas uma catalogação dentro do universo do meus gostos e preferências (algo muito subjetivo e que, se eu fosse um comentador mais técnico, não deveria ter influenciado sua nota ou, mesmo, ser mencionado em tom depreciativo no comentário).

        Aliás, a título de curiosidade, a segunda metade de Gelato foi escrita em linguagem conservadora e denotativa. Isso foi especificamente mencionado por alguns leitores (Bianca, Giselle, Cláudia, Fernanda etc.). Alguns desses leitores até empregaram uma metáfora que me foi muito incômoda: meu Gelato teria derretido. Bem, no caso do meu conto, a prosa-poética só apareceu quando Mila escreveu sobre sua família originária, pois essa é a parte da vida dela carregada, em sua memória, de emotividade. Já na parte do convívio com a nova família, a memória de Mila se torna objetiva e pragmática. Com isso, a memória de Mila migra do conotativo para o denotativo. Mas, infelizmente para o desempenho do meu texto, ninguém notou/mencionou isso, o que me faz supor que passou despercebido, falhando eu, miseravelmente, em minha execução.

        Sobre a estrutura do seu texto, que julguei também conservadora, referi-me, sobretudo, ao enredo linear. Neste ponto, não se preocupe, nossos textos se aproximam. No máximo, empreguei a técnica do flashback no último capítulo. No desafio, havia textos com estruturas mais ousadas do que as dos nossos: Diálogos entre os donos do mundo (emprego exclusivo de diálogos), Sinapses (períodos curtos), Hereditário (mudança de voz narrativa), Oceano (fluxo de consciência), Pelo buraco da fechadura, Essas pessoas na sala de jantar e Gente de Arena (esses, de tão ousados, até me confundiram), Alegria (parágrafo único e períodos curtos). Frente a esses textos, os três primeiros colocados, seu texto e vários outros foram conservadores em estrutura.

        Mais uma vez, parabéns pelo conto! Ele é, na minha opinião, o melhor texto seu que já li. Achei sua escrita firme, forte, consciente, segura. Considerado o tema do desafio, eu não colocaria seu conto no top 5, mas acho que ele merecia ter permanecido dentro do top 10. Infelizmente, achei que o décimo sétimo lugar não premiou com justiça o belo trabalho que você nos trouxe. Acabei contribuindo para isso atribuindo uma nota que, agora, vejo como insuficiente. Em um desafio cujo tema fosse, por exemplo, realidade histórica brasileira ou consciência negra, certamente seu texto teria brilhado mais. Desconsiderado o desafio com seu tema, você nos trouxe um trabalho de monta. Há muitíssimos motivos para se orgulhar dele!

        Abraço!

  36. Angelo Rodrigues
    7 de novembro de 2020

    Resumo:
    Conto que fala da relação entre senhor de escravos e suas propriedades. Zacarias, o senhor de alguns, nega libertar seus escravas e acaba sendo confrontado por eles.

    Comentários:
    Conto até certo ponto intrigante. Li-o em busca de que, em algum ponto, veria a loucura emergir. Ela não veio. Talvez porque a loucura estivesse em todo o conto, imerso no seu próprio enredo: a escravidão. A loucura do domínio de “raça” sobre “raça”, que tem o estranho dom de perdurar.

    O autor trabalhou bem – até onde posso saber – a ideia da relação entre escravos e seus donos. Não tenho leitura suficiente para fazer uma avaliação mais profunda da funcionalidade das relações nas fazendas onde havia escravos. E creio que tudo aquilo que por lá se passou, por justa vergonha e pouco pudor, ficou submerso, tornou-se oral, e quase se perde como tudo se perde entre nós, particularizada a verdade acerca de tantos fatos escabrosos e vergonhosos.

    O conto, de alguma forma, nos faz lembrar do que houve, do quanto foi desumano, e por quanto tempo durou – e tão recente…

    Uma história que se alterna entre amor, medo, trapaça, dor, prisão e liberdade. Embora a leitura não seja nem um pouco difícil, achei que poderia haver algo mais central ligado à loucura. Nesse quesito, acredito, o conto ficou devendo.

    Mesmo assim, um bom conto.

    Boa sorte no desafio.

    • opedropaulo
      13 de dezembro de 2020

      Oi, Ângelo!

      Agradeço muitíssimo pelo comentário. Essa crítica que colocou foi recorrente e eu só posso recebê-la de braços abertos, pois foi uma escolha deliberada negligenciar o tema para poder escrever o conto como foi lido. A princípio, a situação na fazenda se tornaria cada vez mais violenta e a narração se centraria na psique crescentemente debilitada de Zacarias, afundada em paranoia. A ideia deste conto é antiga e o desafio foi uma oportunidade para tirá-la da cabeça. A surpresa foi que, ao imaginar como estruturar a história no papel, os personagens e suas relações se delinearam quase perfeitamente à minha frente e, assim, eu não pude deixar de explorar a perspectiva de todos os personagens envolvidos nesse suplício. Em um ano como este (e, olhando como atenção, talvez refletir com profundidade sobre a nossa História em outro ano menos caótico me faria ter a mesma postura), também me senti incapaz de escrever uma história essencialmente sobre violência racial, de modo que optei por dispersar o protagonismo entre os personagens presentes na fazenda.

      No espaço limitado de 3 mil palavras, não consegui voltar para dentro da cabeça de Zacarias, mostrando o que se passava lá dentro enquanto os dias de paranoia avançavam. Tentei sinalizar a irracionalidade nesse personagem por através da perspectivas dos demais, o que foi aceito e recusado em diferentes graus pelos demais leitores. Para além disso, aproveitei-me do momento em que escrevi Justina para colocar em perspectiva de que a própria escravidão – que, não tenha dúvidas, teve bastante investimento em frentes ideológicas e pseudocientíficas para se legitimar – é uma loucura em si. Isto também foi recusado e aceito a depender do comentarista e, embora tenha usado como recurso para aproximar o texto do tema, achei verossímil colocar como o pensamento de uma das personagens, sobretudo uma escravizada.

      Abraços.

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Informação

Publicado às 7 de novembro de 2020 por em Loucura e marcado .