EntreContos

Detox Literário.

Laivos (Pablo)

Capítulo I

O João fechou a porta, percorreu cerca de uma centena de metros, fechou o portão, desceu os degraus e enveredou por um caminho em terra batida, lamacenta, dando assim inicio a uma “jornada” de caminheiro saltitante, de pedra em pedra,  sobre as poças de água que se acomodava quando o caudal das chuvas fazia com que o rego que lhe passava ao meio esbordasse e alagava o caminho. Uma cangosta, por onde se aventurava todos os dias em direção à cidade onde o seu posto de trabalho o esperava.

Tinha uma outra alternativa para esta deslocação. Uma estrada fronteira por onde poderia fazer caminho até à cidade. Simplesmente, essa estrada não tinha passeios e por isso teria de caminhar pela faixa de rodagem o que era perigoso uma vez que a visibilidade dos condutores nas curvas era reduzida o que lhe metia alguma confusão e medo de ser atropelado. 

Também tem transportes públicos, o problema é o preço dos bilhetes, mas também, o mau cheiro que exala devido à sua pouca higiene pessoal o que causa algum mal-estar entre os passageiros que mandam lançam “bocas” – apartes – ou lhe chamam a atenção.

A sua “morada” tem outro fim que não o de residência propriamente dita e por isso não dispõe de condições.

Lava a cara e os sovacos na água do carreiro ou no fontenário do lugar e as partes restantes quando tem oportunidade de mergulhar nas águas do Rio Cávado uma vez que o Rio Este, que todos os dias atravessa, está demasiado poluído e, seria pior a emenda que o soneto. 

— Tem os seus laivos de loucura, mas nem tanta!

As bermas do caminho por onde segue são de configuração escorreita, do tipo valado em um sítios, e de configuração ingreme em outros sítios, entremeado de muros meios desfeitos pelos efeitos do abandono e das mudanças de tempo em consonância com a estação do ano que faça, em que a terra onde as pedras se acomodam se desloca e assim, as pedras, tem de procurar o equilíbrio possível para se segurarem umas sobre as outras, mas que, quando o não encontram, caem e rolam sobre si para outra posição qualquer, inclusive o meio do carreiro num ato de loucura lucida, por previsível, uma vez que a ação da gravidade é sempre a que mais ordena. 

Caem para o chão e, deste para baixo não passam. 

— Tal e qual a loucura quando se abate e instala na mente. 

— Rola sobre os acontecimentos e ocupa os neurónios de forma ambígua entre a gargalhada desbragada e o pesar nostálgico onde o desequilíbrio instalado desemboca sempre num arrepiante silêncio.

As silvas já tomaram posse de todo o espaço que o agricultor caseiro das terras não roça e, a autarquia do local também não se incomoda.

— É um simples carreiro por onde já ninguém passa salvo o João. 

As silvas que o ladeiam e o ameaçam ocupar totalmente, darão amoras lá para o outono. Amoras negras. 

— Tão negras quanto a loucura dos Homens que olham a biodiversidade com indiferença e o equilíbrio ambiental com desdém. Quiçá, nas redondezas, só o João se preocupa com isso, lamenta, mas faz questão em percorrer este carreiro por onde já ninguém passa. 

Assim sendo, o seu “mata bicho” é a fruta que colhe das arvores consoante a estação do ano: laranjas; maças; peras; uvas; figos; diospiros; e o que mais houver.

De quando em vez cruza-se com uma raposa ou um coelho bravo. 

— Bom jeito lhe daria conseguir agarrar um coelho para fazer um assado. Seria extraordinário; 

— O problema é que não tinha “pedalada” para tal caçada. 

— Tentar, tentou. Por mais do que uma vez, mas não conseguiu.

Também o sobrevoavam algumas perdizes e outras espécies de aves. Sendo que, os “pardelhos bravos” são o seu petisco mais usual.

Para isso deixava sempre quatro ratoeiras armadilhadas num quintal próximo da sua “residência” onde ninguém as visse e lhas roubasse. Ou lhe roubasse a caça.

Quando algum caia numa das armadilhas, depenava-o, fazia uma fogueira e assava-o.

— Um autêntico pitéu!

Capítulo II

A vegetação dispersa para lá das bermas do caminho é uma vegetação comum na zona: giestas; choupos; castanheiros; oliveiras; limoeiros; laranjeiras; cerejeiras; vinha; e outras arvores de fruto, espaçadas, porque os campos que antes eram cultivados destinavam-se ao cultivo da erva para o gado; do centeio e do milho para o pão; e outras culturas sazonais do minifúndio. 

— Uma caraterística do Minho. 

Atualmente, os campos, na sua grande maioria, estão abandonados. 

Os que ainda são trabalhados destinam-se à agricultura para consumo doméstico a que se juntam as pequenas hortas; os galináceos; coelheiras; suínos; e outros bens necessários a uma agricultura de subsistência. 

 

Na cordilheira de montes circundantes abundam os pinheiros passado que foi o tempo em que plantar eucaliptos era a exploração com maior rendimento para os seus proprietários.

Com a revolução tecnológica iniciada já no último terço do século, a indústria da celulose abrandou o ritmo e, as empresas instaladas já não consomem a quantidade de madeira de eucalipto como acontecia aquando da sua instalação dando emprego a milhares de trabalhadores que hoje são umas centenas em cada unidade fabril das existentes. 

— Vieram para Portugal por serem fonte de origem de problemas ambientais e de rejeição das populações da Europa Central devido ao cheiro nauseabundo que espalham por quilómetros de distância.

Agora, ao que dizem, a exploração mineira de lítio destinado ao fabrico de baterias para a indústria automóvel e outros equipamentos onde a bateria é a forma de acumulação de energia num tempo em que a aposta na locomoção elétrica em substituição das energias produzidas por combustíveis fosseis é uma evidencia e será a mais valia acrescida.

— Ou seja; as arvores darão lugar a crateras.

A extração de lítio, um mineral, que uns tem por autêntico ato político de loucura por atentar contra o ambiente, estabilidade dos solos e extermínio de espécies autóctones. 

Outros tem como sendo a forma de valorizar terras sem qualquer valor económico ou interesse, assim como a possibilidade de catapultar atividade industrial geradora de riqueza local e nacional capaz de, nas localidades do interior, estabelecer patamares de sustentabilidade e fixação das populações de forma a estancar a atual sangria populacional para o litoral e os grandes centros urbanos.

Capítulo III

— Voltando ao trajeto e as suas derivas…

Por causa da loucura dos Homens que sonham sempre em enriquecer em pouco tempo, as terras agrícolas foram abandonadas para dar lugar a prédios. Simplesmente, como a construção civil entrou em crise no virar do século e parou, aquelas terras ficaram “a velho”. 

— Ajuíza o João, a quem a loucura não distorceu o sentido do razoável.

— Pondera também um outro dilema: a população mundial tenderá a diminuir porque está envelhecida.

A loucura dos Homens em querer a eternidade como forma de vida terrena augura estagnação. Fator determinante para a diminuição da procura e por conseguinte construção de casas e respetivas infraestruturas citadinas. 

Mas, em contrapartida, haverá um abrir de oportunidades incomensurável na reorganização da organização das civilizações e do seu rejuvenescimento.

O carreiro por onde o João caminha carregando todas estas tresloucadas teorias sobre o que pensa, continua em terra batida, onde as ervas daninhas mais os trevos nascem e o João ao passar, calca. 

Saltitando sobre as poças ao som do canto matinal das cotovias por entre as giestas sem se deixarem ver tal qual o cuco canta vá-se lá saber onde. 

Lá em baixo, a cidade, acordada, espera-o, e ainda dista mais ou menos, dois quilómetros.

Dois quilómetros por entre campos e veredas perdidas em sonhos de caminheiro feitos esperança de grandes ganhos cumulativos de riqueza ou conquistas medievais num mundo onde essa riqueza já é de uns quantos e as coroas existentes já só servem para o turismo e os escândalos embora em seu torno ainda se movimentem muitos vassalos vendidos aos bens materiais terrenos e outros dedicados a fazer noticia para vender revistas da especialidade.

Por cá, o busto de uma mulher, símbolo da República Portuguesa, bem pode desfraldar a bandeira dos sete castelos conquistados, apregoando os valores da ética Republicana, porque já são muito poucos os ajuizados que a veneram e assim o pregão se perde no vento. 

— Sobram os loucos para continuar a acreditar que ainda vale a pena continuar a lutar. 

 

Capítulo III

— Mas, ao longo do caminho cangosta nem tudo eram terras abandonadas. 

Alguns campos estão lavrados para receberem a sementeira do milho, com uma diferença significativa: antigamente a sementeira era para fazer pão.

Hoje, a maioria das sementeiras são para silagem. Alimento para gado produtor de leite.

O gado destinado a carne para consumo, dizem, é alimentado no pasto. 

— Sim. No pasto. Pensa o João.

As hortas, em redor das casas na aldeia apresentam uma variedade de legumes e outras produções para consumo de subsistência impressionante.

Até o senhor presidente da junta da união de freguesias mandou fazer uma horta coletiva na freguesia tal é à vontade em trabalhar a terra dos seus fregueses. 

— Dizem que a lista de inscrições é volumosa…

Ainda no caminho, a perspicácia mental do João congemina para que raio o centeio cortado ainda é colocado em moreias no campo. A erva cortada amontoada numa meda em torno de uma oliveira. Os galináceos estão presos. Os agora cães de companhia só dão um passeio matinal e outro noturno para debitar dejetos nos jardins, ruas e, mijar o sopé das arvores. Os gatos mais sortudos ainda conseguem andar soltos nas aldeias. Mas as aves continuam a ser apanhadas e presas em gaiolas para adorno de uma qualquer habitação. Tal e qual os peixinhos de aquário. 

Só o burro, um jumento, de nome Joaquim ri a bandeiras despregadas preso a um sobreiro centenário junto à capela da Senhora da Consolação consolado com a “sopa de burro cansado” com que o seu dono o presenteou.

— Uma loucura completa. Pensou o João apressando o passo. 

— Quase corria. O tempo não para.

Naquele dia o apetite para trabalhar é pouco mesmo sendo o seu trabalho de pouco esforço físico. 

O cantar do galo e o cacarejar das galinhas mais o ladrar dos cães da vizinhança. O mugir das vacas. O roncar do porco. Uma enorme e diversificada identificação da vida que ouve sem que a veja, são sempre a sua companhia matinal na ida madrugadora e no retorno, cansado, ao escurecer.

Sente assim a loucura ao rubro sempre que se recosta no muro para beber uma pinga, pelo gargalo, comer um pão e, contar as moedas que conseguiu.

Mas sente, muito mais essa loucura coletiva, sempre que se aproxima da viatura acabada de ajudar a estacionar quando, mesmo usando máscara de proteção ao contágio da infeção por Covid 19, e estando à distancia recomendada de dois metros conforme as recomendações da autoridade sanitária, o condutor, ou a condutora, fecham apressadamente o vidro, colocam a máscara e lhe ordenam em linguagem gestual que se afaste.

— A safa é que há sempre uma alma caridosa que compreende e premeia o esforço de quem o ajudou pagando a prestação do serviço.

Embora, a loucura maior, seja a de que com pandemia ou sem pandeia a barriga pede comida.

A pandemia veio matar a sua atividade ao acicatar o medo coletivo para com os arrumadores já há muito tidos por indivíduos suspeitos dadas as condições de vida que supostamente todos tem: sem abrigo; toxicodependência; alcoolismo; limitações físicas e intelectuais; e outras; mas, em que, a evidencia mostra a sua lapidar exclusão social sem que se perceba muito bem os porquês desse “estatuto” de marginais e criminosos.

— Num contexto em que nada faz sentido. 

Uns tem tudo. Outros não tem nada. 

— Ele, João, não tem nada. 

Só o corpo para alimentar; a roupa suja para cobrir os ossos; as pernas para andar de “casa” para o “emprego” e vice-versa; as mãos para indicar aos automobilistas um lugar vago. 

— O João desempenha uma profissão não reconhecida: arrumador de carros. 

— É, “um moedinhas”.

Mas, se um dia esta atividade vier a ser profissão, ficará desempregado porque o seu visual não é o mais indicado; o seu círculo de relação é reprovável; a sua área de influência não é a mais aconselhável;

 

Capítulo IV

Na cidade indica aos condutores os lugares vagos para poderem estacionar a troco de uma moeda, se lha derem. 

O seu objetivo é o de ganhar o suficiente para em cada dia se poder alimentar. 

— Não é louco: 

— Não fuma; 

— Não é toxicodependente;

— Não é alcoólico;

Um dia alguém o convidou para frequentar os AA que tinham um local de apoio ali próximo. 

Também o convidaram para ingressar numa instituição de reabilitação para fazer um tratamento de desintoxicação.

— Coisas financiadas para “sacar” dinheiro ao Estado ou, a um qualquer fundo da União Europeia. Concluía o João.

É um cético quanto ao empenho solidário e desconfia do espírito caritativo da esmola meia escondida.

Como não padece de nenhuma das maleitas que os presumíveis entendidos suspeitam infundadamente inclusive a necessidade de apoio para a inclusão em uma sociedade marginal onde cada um vive o “seu mundo” sem se preocupar minimamente com o mundo paralelo dos seus semelhantes. Agradece.

— Muito obrigado, mas não é disso que eu preciso.

— Aquilo que ele de facto preciso é de paz, pão, saúde e habitação, como diz a cantiga. De equilíbrio emocional, liberdade e, o direito a ter as mesmas oportunidades que todos os outros tem. Tudo o resto é conversa!  

— Coisas simples que nunca ninguém me ofereceu.

 

Algo porque tem de lutar afincadamente, de forma desigual, e porque não está pelos ajustes de ser agrilhoado a um conjunto de regras sociais vigentes, deixa que o tempo se encarregue de lhe ir resolvendo os problemas ajustando-se ao meio da melhor maneira que sabe e pode.

— Porquê?

— Porque, não é louco.

Loucos. No seu entender, são todos aqueles que o olham com desdém e fazem com que interiormente se ria da triste figura de todos eles agarrados a horários e a tarefas que não lembram ao diabo seu companheiro de jornada e, de azares também uma vez que os Deuses do bem nada querem com a sua aparência de pedinte.

— Que essa coisa do bem e do mal é coisa que nunca entendeu muito bem. 

E, no que toca a Deuses, se os há, nunca lhes viu o rasto ou sequer pelo seu alento foi confortado. 

Reza porque foi isso que lhe ensinaram em ato de desespero, mas que nunca surtiu qualquer efeito. 

Por isso, se os há, haverá alguém com sorte para por eles ser bafejado. 

— Ele, João, é que não!

 

Capítulo V

Subiu os degraus, abriu o portão, entrou no cemitério, percorreu o trajeto de destino por entre as campas e jazigos até ao local onde pernoitava: um jazigo de uma família abandonado há varias décadas sem que a autarquia local conseguisse localizar qualquer herdeiro afim de tomar posição sobre a concessão e que por essa circunstancia o João se tornou um “ocupa” desse jazigo onde dorme com o silencio dos defuntos e o canto das corujas.

A chuva cai. Cai forte e o vento zumbe nos espessos cedros que rodeiam o espaço encostados ao muro que delimita este cemitério publico.

As almas são invisíveis, mas o que dizem do outro lado da vida, entra nos ouvidos do João de forma perfeita que lhes retruca o diálogo, mas também questiona. 

Seja a conversa que for sobre o tema que for. 

Porque isto de falar com os mortos não é para qualquer alma viva tal é a variedade de assuntos e a democracia existente na comunidade defunta. 

Há por lá sepultados: doutores de todas as áreas; engenheiros de todos os ofícios; professores de todas as matérias; cientistas de diversos ramos da ciência; profissionais experientes em todas as profissões; agentes políticos de todas as correntes ideológicas e não ideológicas com experiencia em exercício de cargo publico; estudantes; crianças e outros; de ambos os sexos; credos; filiação politico partidária; gente de todos os segmentos sociais ditados pelo estatuto e pelo dinheiro que deixaram; raça; etc… uma panóplia de saberes inumerável a que só um autentico crânio como o do João consegue dar. Depois das conversas surdas com os automobilistas, mais quentes som os seus colegas e concorrentes, e viva com toda a fauna e a flora com que se cruza na ida e na vinda para a sua “residência”.

O fogo fátuo, uma luz esverdeada que sai da terra e que dizem ser a alma a abandonar o corpo, mais não é do que um gaz acumulado que se liberta após o apodrecimento da matéria, depois de um cadáver ser enterrado, iluminava por segundos a noite onde os morcegos se cruzam em voos repentinos apanhando mosquitos para se alimentar em que o sentido de ecolocalização também conhecido por biossonar, fonte do desenvolvimento do sonar pelos Humanos, mas, os morcegos, também tem os cinco sentidos que o Homem tem: visão; audição; olfato; tato; paladar; e… um outro não muito aflorado: a propriocepção que é o sentido do reconhecimento do próprio corpo que os morcegos e outros animais também tem embora os morcegos em grupo tenham dez sentidos. 

Os que ali voam, são insetívoros.

— Ufa! Que o homem tem mais a ensinar do que a aprender…

Neste quadro o João não é um “sem abrigo” comum. 

Daqueles que dormem em um vão de escada; por debaixo de uma varanda; entrada de um prédio; paragem de autocarro; jardim publico; ou outro qualquer recanto em que, criteriosamente, o romper do dia acorda e dita o abandono do local para que não haja nenhum dissabor para além dos existentes.

Nada disso. Pernoita numa gaveta vazia destinada a depositar um caixão de um jazigo com telhado, janelas e porta. 

— Não é louco. 

— Vive com loucura a loucura coletiva.

— Também não é doido.

— Basta-lhe ser… O João. Um amigo sempre ao dispor!

29 comentários em “Laivos (Pablo)

  1. Rafael Penha
    24 de novembro de 2020

    RESUMO: Homem sem-teto arrumando bicos aqui e acolá reflete sobre a vida e a cidade.

    COMENTÁRIO:
    Olá Pablo,
    O que vislumbro neste conto é uma riqueza gramatical imensa. Uma narrativa somada ao lirismo e poetismo ímpares. Conduz bem a história, apesar de ser cansativa em diversos pontos para leitores como eu, não tão deslumbrados pela beleza da escrita.

    Nesse sentido, acho que o enredo ficou a dever aqui. Na maior parte do texto, percebi mais como uma análise da evolução da cidade, descrevendo nos mínimos detalhes até as pedras do chão. É bonito, mas cansativo e não desenvolve a história do personagem principal, que é a quem eu realmente quero acompanhar. Assim, não me leve a mal, mas em toda a primeira metade, me vi numa espiral de descrições da cidade que não me levava a lugar nenhum.

    Mais adiante, o personagem de fato é mais participativo, mas é apático, a vida o leva ao invés dele levar a história, e por mais que haja verossimilhança, baseado na vida de tantos e tantos sem-teto, não é uma história que me incentivou a acompanhar, talvez, dada a descrição técnica, mas ausente de sentimento.
    Por fim, realmente não vi aqui o tema do certame. A palavra “loucura” é mencionada diversas vezes, mas não a vi de fato, apenas talvez, levemente destilada na atmosfera da cidade e sociedade que o autor transcreveu, mesmo assim, muito escondida e vindo à tona apenas com muito esforço e força de vontade por parte do leitor.

    Por ser um texto escrito de forma extremamente culta, a edição deve ter sido deveras cansativa e trabalhosa, talvez razão de haver diversos errinhos de digitação e desatenções. Quando um texto é escrito nesse nível, os erros mesmo que ínfimo, acabam se destacando e acabaram por me tirar ligeiramente da história, que já é difícil “per si”.

    Em suma, uma escrita excelente, mas um enredo pouco desenvolvido e um personagem pouco interessante, talvez, o resultado seja mais eficaz se diminuir um pouco os longos trechos descritivos do início e dar algum norte ao personagem, um ponto A ao B.
    Um abraço!

  2. Jorge Santos
    21 de novembro de 2020

    Olá Pablo. Gostei desta história de um sem-abrigo, arrumador de carros. É um conto que faz a caracterização física e psicológica de um ser marginal, não dá, nem tem de dar respostas. A adequação ao tema é algo discutível. João é apenas alguém a quem não deram oportunidades para se integrar nas formatações que a sociedade obriga. Está escrito de uma forma magistral, num português de Portugal perfeito e com referências à região onde vivo, o Minho. Aqui, falar em cangosta é algo natural. Imagino a confusão que este texto tenha provocado em leitores menos familiarizados. Uma confusão sempre enriquecedora e que é um dos motivos da minha participação nestes desafios.

  3. Anna
    18 de novembro de 2020

    Resumo : Um homem pobre em condição de rua reflete sobre sua mazela e todas as mazelas da cidade.
    Comentário : É um conto excelente. O mendigo retratado nos mostra que essas pessoas sabem o que sofrem, não são simples excluídos ignorantes como muitos pensam. Apenas achei a linguagem dele muito culta, talvez ele tenha nascido em uma condição e acabou nas ruas como muita gente castigada pelo destino.

  4. Luciana Merley
    16 de novembro de 2020

    Laivos

    Olá, autor
    Um homem muito pobre que dorme num cemitério nos apresentando suas jornadas diárias em meio a um caminho de desigualdades.

    Impressões Iniciais – Um conto bonito, com um enredo atraente e um personagem empático. Mais extenso do que o necessário (a meu ver) e um pouco disperso em termos de foco narrativo.

    COESÃO – Consegui identificar vários pontos de tensão que dariam uma boa história cada um. Você preferiu criar um conto bastante detalhado, em especial na ambientação. Eu entendo que os contos são histórias de um fôlego só. Então, não apreciei as inúmeras explicações muito técnicas feitas em um espaço completamente desgarrado do todo. O tema loucura aparece sim nas conversas com mortos, mas em especial quando ele demonstra considerar sua situação (deplorável) melhor do que a das outras pessoas. Não entendi muito bem seus diálogos, desculpe. Não consegui identificar se eram pensamentos dele ou de outros.

    RITMO – O ritmo foi muito prejudicado pelas pausas para ambientação técnica. Não entendi o porquê de uma voz narrativa tão diferente nessas partes e porque elas foram apresentadas de forma tão específica. O primeiro parágrafo, sempre tão importante para atrair a atenção do leitor, nesse caso, ficou muito extenso e não muito agradável à leitura.

    IMPACTO – Uma história bonita, retratando uma realidade social bastante injusta. O imponderável está no texto, no fato de um homem ter um cemitério como morada e isso causa um impacto no leitor. Se eu puder sugerir-lhe algo, seria que tentasse ambientar enquanto conta a história e evitar as conclusões morais que estão presentes em grande quantidade. De repente, trazer à reflexão sem tantas explicações.

    Um bom conto. Um abraço.

  5. Andre Brizola
    14 de novembro de 2020

    Olá, Pablo.

    Conto sobre João, um arrumador de carros, moedinhas, flanelinha, guardador, que, em um dia normal de trabalho, na atual realidade de pandemia, faz reflexões sobre as disparidades em diversos níveis da sociedade.

    O conto ocorre, sobretudo, em sua ambientação. João, vivendo em um cemitério, percorre cenários que vão do rural ao urbano para mais um dia de trabalho. Essa ambientação é muito bem equalizada, de modo que fica clara a discrepância entre as realidades do moedinhas e do dono do carro. A linguagem utilizada vai do simples ao elegante, e as construções frasais fogem do padrão, com algumas muito longas, enquanto outras se resolvem de forma mais ágil.

    As reflexões do personagem, pertinentes, agudas, são demonstradas em diversos níveis, que abordam não só a sua condição, propriamente dita, mas também a de outros. A menção às classes normalmente presumidas para um arrumador de carros (loucos, fumantes, toxicodependentes ou alcoólatras) é muito dura e real e ultrapassa fronteiras e oceanos.

    Há o que pontuar negativamente, entretanto. Me parece que faltou uma revisão mais apurada, pois há uma quantidade grande de erros que dificilmente configuram como desconhecimento gramatical do autor. Parecem-me mais como erros de digitação. Outro detalhe é com relação ao tema do desafio. Não encontrei lá muita aderência. Pode-se dizer que a desigualdade social é uma loucura? Pode-se dizer. Mas pode-se dizer muita coisa sobre a desigualdade social, maldade, crueldade, desequilíbrio, inabilidade de governantes, etc, etc. Deixando essa decisão para o leitor, seu conto pode acabar sendo enquadrado em outro tema.

    É isso. Boa sorte no desafio!

  6. Paula Giannini
    12 de novembro de 2020

    Olá, Contista,

    Tudo bem?

    Resumo: Um recorte na vida de João, sem teto na insanidade de nossa sociedade.

    Minhas impressões:

    A primeira premissa que me veio à cabeça quando resolvi participar do Desafio Loucura, foi justamente a que vemos exposta aqui, neste texto. Vivemos em uma sociedade na qual uns nada têm, ao passo que outros são privilegiados que podem ter acesso a “tudo”. Assim, explorando um tema que muito me interessa, o(a) autor(a) foi aos poucos revelando uma realidade social em Portugal, muito próxima àquela que vemos aqui, no Brasil. Morador de rua com trabalho que mal daria para a subsistência (ou que nem mesmo um trabalho é), morando em um cemitério e visto pelo mundo com os olhos de preconceito que o impedem de melhorar de situação.

    Interessante notar que este “revelar” da vida do protagonista, repleto de reflexões sociais importantes, é feito a partir de uma primeira descrição da paisagem local. Primeiro vemos o meio e depois o homem e isso causa a sensação de desacordo do homem em relação ao meio em que está inserido.

    Quanto à revisão, como muitos aqui já citaram, é necessária. Esta, porém, é algo que se faz. O difícil, já está realizado, contar uma boa história.

    Como digo a todos, se algo em minha análise está em dissonância com seu texto, desconsidere. Desejo sorte no desafio.

    Beijos
    Paula Giannini

  7. Ana Maria Monteiro
    12 de novembro de 2020

    Olá, Autor.
    Resumo: João é um sem-abrigo; o texto relata um fragmento de um dos dias de João (todos mais ou menos iguais, tal como os dos outros), louco filósofo em meio à loucura coletiva de que se apercebe. Dorme num cemitério, local onde encontra todo o tipo de pessoas, por fim reduzidas à igualdade que só a morte proporciona e onde as conversas são mais interessantes.
    Comentário: o conto não é um conto, mas uma longa reflexão que utiliza uma figura humana habitualmente marginalizada, como contraponto ao conceito de normal. Assim sendo, o conto não é um conto, mas um pequeno ensaio e João não é um personagem mas um recurso narrativo.
    O texto tem claras mensagens bastante pertinentes, mas que se perdem um pouco no emaranhado de assuntos díspares entre si e também no caos que é lançado que por pontuação algo caótica que atrapalha a leitura do texto e pelo estranho uso de travessões, onde outras opções de realce surtiriam mais efeito e sem correr o risco de dificultar a compreensão.
    Ainda que com passagens de grande qualidade, onde se percebe um escritor com potencial e conhecimento, o texto precisa de uma grande revisão a muitos níveis, incluindo ortográfico.
    Parabéns e boa sorte no desafio.

  8. Leandro Rodrigues dos Santos
    11 de novembro de 2020

    Não consegui terminá-lo, até aonde li o garoto faz reflexão sobre o caminho ao trabalho.

    Tecnicamente precisa ser refeito em muitas áreas, mas a principal, a mais desgastante pra mim foram as repetições. Os mesmos quadros de paisagens, ideias, palavras, tiraram a minha atenção.
    Caso precise de ajuda ‘técnica’, responda aqui, no que eu conseguir te auxílio. Se não, desconsidere.

  9. Jefferson Lemos
    11 de novembro de 2020

    Resumo: um recorte do dia de João em sua ida para o trabalho, repleto de reflexões e pensamentos acerca do mundo e da loucura.

    Olá, caro autor!
    Olha, eu vou ser bem sincero. Eu achei a sua escrita muito poética e com um vocabulário bem vasto. Esse é um ponto positivo do conto, mas por outro lado eu o achei extremamente cansativo. Em alguns momentos os parágrafos eram gigantes, sem nenhuma vírgula, que dava até falta de ar lendo. Hahahah
    Não consegui ver muito sentido na história, no geral, porque ela não apresenta nada muito concreto. Parece que é um trecho de algo maior. O uso das falas iniciadas em travessão também me causaram estranhamento, não vi muito sentido nelas.
    Acho que o autor escreve bem e tem um vocabulário bem vasto, mas precisa dar uma atenção para a lapidação do conto, transformar ele em algo mais completo e com propósito (ao meu ver, é claro).
    De qualquer forma, parabéns pelo texto e boa sorte no desafio!

  10. Elisa Ribeiro
    11 de novembro de 2020

    A história de certo João, um “moedinhas”, guardador de carros, que percorre a pé caminhos do Minho, conversa com defuntos e dorme em uma gaveta de cemitério.
    Há algumas passagens interessantes no texto e a linguagem, a despeito das circularidades, redundâncias e pontuação estranhíssima, soou-me extraordinariamente musical, a ponto de a partir de a determinado ponto eu me desligar do enredo entretida com o ritmo da prosa do narrador.
    Com relação à abordagem do tema do desafio, pareceu-me que a intenção do autor foi tecer uma reflexão sobre a irracionalidade de alguns aspectos da vida.
    O que não gostei: algumas digressões tangenciando o panfletário
    O que gostei: a linguagem em sua estranha musicalidade e ritmo.
    Parabéns pelo trabalho. Desejo sorte no desafio. Um abraço.

  11. opedropaulo
    10 de novembro de 2020

    RESUMO: João é um arrumador de carros. É uma posição que o coloca a mercê de todo tipo de preconceito, inclusive daqueles que questionam a sua sanidade. Mas, enquanto faz o trajeto do seu féretro à cidade, refletindo sobre as grandes mudanças que se passaram em Portugal e o alcançam mesmo ali, ele sabe. Sabe que não é ele o louco. A loucura está lá fora, ele anda no meio dela todo dia.
    COMENTÁRIO: Há alguns elementos deste conto que me desagradam e começarei por eles. É um texto denso, em que há parágrafos dedicados a esmiuçar como as pedras estão posicionadas, como o solo úmido é sulcado e como os morcegos se comportam. Dispersos no conto, esses momentos acabam por distrair da leitura, fazendo dela lenta, pedregosa. A escrita é competente, mas isso acaba sendo justamente um revés quando se dedica a pormenores que não constroem a estória, ainda que deem uma descrição profunda do espaço físico e social em que vive o personagem. Social. Os trechos que denotam as várias mudanças socioeconômicas da região pareceram sugerir um “enlouquecimento” da sociedade com o passar do tempo, mas, por exemplo, li nos comentários que eram reflexões de João, enquanto eu, ao ler, tomei esses trechos na voz do narrador, parecendo, portanto, que a narração se voltara repentinamente a um exame da conjuntura local, esquecida de seu protagonista. A divisão em capítulos me pareceu desnecessária e não consegui traçar uma ligação entre eles, de modo que o texto se fragmentou uma vez mais, diluindo-se. Entretanto, nos momentos em que a leitura segue fluida o texto se torna interessante, aproveitando bem da premissa de que a loucura está em todos, menos no que mais se suspeita. É nesses trechos que a escrita talentosa brilha sem oposição, desenvolvendo bem essa ideia de uma sociedade insana. O problema, no entanto, é que com isso falo de apenas alguns momentos do conto, de modo que não se verifica uma trama verdadeiramente construída. O personagem sai “de casa” e volta “pra casa”. É como uma crônica.
    Boa sorte.

  12. antoniosbatista
    7 de novembro de 2020

    Resumo: João, um sem-teto, trabalha como guardador de carro nas ruas, medita sobre a vida enquanto vai para o trabalho. Ele mora no cemitério da cidade, num mausoléu abandonado.

    Comentário: Gostei das descrições do cenário em que João percorre a pé. Tem um certo ar poético. O autor escreve muito bem. Estranhei um pouco algumas palavras mas deu para entender, outras busquei significado no dicionário, pois é próprio do linguajar lusitano. João, tido como louco, é bem lúcido, mas é um derrotado, desanimado e resignado com a vida que leva. Gostei bastante do conto. Boa sorte.

  13. Regina Ruth Rincon Caires
    7 de novembro de 2020

    Laivos (Pablo)

    Resumo:

    A história de João, um pobre trabalhador “avulso” que faz morada num cemitério. Em sua caminhada diária, “filosofa” sobre os valores da vida.

    Comentário:

    O texto, ambientado no Minho, foi naturalmente escrito em termos lusitanos, e confesso que pesquisei um bocado: laivos, cangosta – bermas – silvas – dióspiros – pardelhos – guestas – choupos… Gosto disso.

    Enquanto percorre o trajeto até chegar ao centro da cidade, João divaga sobre vários aspectos do cotidiano. Reflexões sobre a natureza, sociedade, miséria. Um texto mesclado de “laivos” de poesia, uma visão de mundo entre a lucidez e a loucura. Texto filosófico.

    O texto não traz deslizes de escrita, apenas a pontuação (principalmente de vírgulas), em alguns lugares, parece um pouco “bailarina”, mas acredito que seja intencional, do gosto do autor.

    Uma narrativa que proporciona leitura leve, serena. Prazerosa.

    Parabéns, Pablo!

    Boa sorte no desafio!

    Abraços…

  14. Misael Pulhes
    6 de novembro de 2020

    Olá, “Pablo”.

    Resumo: um passear pelas reflexões de João, um “moedinha”, enquanto esse caminha por um(ns) dia(s) da sua dura vida.

    Comentários: duas coisas saltam à vista. Primeiro: o autor sabe escrever e ser poético. Tem potencial, como se poderia dizer. Tem muito a oferecer. Segundo: paradoxalmente, há uma média – literalmente – de um erro ortográfico/gramatical por parágrafo. Não tem como deixar passar. Porque quando eles se reiteram, passam quase como a fazer parte do estilo, do texto em si. E isso, claro, incomoda e atrapalha demais a leitura.

    O texto é pouco objetivo e a estrutura não usual – com essas falas no meio do caminho – não parecem contribuir. É um misto de reflexões que não têm muito objetivo, enredo, propósito… muita coisa a lapidar e, aí sim, pode dar em algo muito legal.

    Boa sorte e um abraço!

  15. Alexandre Coslei (@Alex_Coslei)
    4 de novembro de 2020

    João foi um cara empurrado para viver nas ruas, habita um cemitério e reflete sobre a vida com sabedoria peculiar.

    O que me pareceu é que o tema loucura não foi explorado de forma tão eficiente. Texto longo, que ultrapassou o fôlego da ideia. Passeia por questões sociais e pensa sobre elas. É necessário que o autor faça uma profunda revisão de texto, há erros diversos, principalmente de pontuação, que chegam a incomodar quem lê. Na minha modesta opinião, o conto precisa ser retrabalhado, a ideia é boa e pela escrita sei que o autor pode oferecer mais.

    Desejo sucesso no certame.

  16. Fabio Monteiro
    3 de novembro de 2020

    Resumo: João é um caminheiro e observador das estradas e terras por onde passa. Faz analogias sobre o homem, sobre o materialismo e como tais questões mexem com a sanidade das pessoas.

    Eu observei o protagonista João como um homem simples, desprovido de recursos, mas com uma capacidade reflexiva superior a de muitos, se comparado ao mundo que vivemos.
    Ele cita questões de desigualdade, de trato especial aos animais, de indiferença com menos favorecidos. Me pareceu que o personagem tenta manifestar sua própria condição.

    Algumas palavras precisam de revisão. Algumas virgulas poderiam ajudar na interpretação.
    Eu só faço essas observações quando o texto é muito bom e a ausência destas pontuações mudam o contexto da narrativa.

    Autor(a) o conto em si é uma pérola. A linguagem é diferenciada. Não parece ser nordestina, nem paraibana, nem paulistana ou algo assim. Tem uma pegada diferente. Não vou arriscar chutes aqui porque sou péssimo nisso. O fato é que, me encantou.

    Apesar de Joao ser um homem da roça, a forma como a historia é narrada o diferencia. Diria que alguns pontos diverge da forma como vemos personagens desse tipo.

    Fui pesquisar o que significa Laivos, usado no titulo e em uma parte do texto. Uma palavra que serve para ideias superficiais, indícios de alguma coisa. De que indícios falamos exatamente?
    Ficarei com essa duvida.

    Boa Sorte autor(a)

  17. Fernanda Caleffi Barbetta
    2 de novembro de 2020

    Resumo
    João, flanelinha que morava em um jazigo abandonado analisa o mundo e sua loucuras, questionando quem seria realmente louco nesta sociedade em que vivemos.

    Comentário
    O seu texto traz questões sociais importantes, chegando até os nossos tempos atuais de pandemia. Expõem questões relevantes e coloca em cheque quem são os verdadeiros loucos na nossa sociedade. Porém, na minha opinião, em sua maior parte, principalmente a partir do seguindo capítulo, o texto se afasta um pouco da prosa ficcional, do que conhecemos como conto em si, e aproximando-se mais de um texto de revista, um estudo, uma análise histórica e social.
    A sua opção por um texto sem muita pontuação, acabou deixando alguns trechos confusos. Há períodos em que falta o fôlego para finalizar a leitura. Principalmente no primeiro capítulo.
    Não consegui entender a diferença entre os períodos com e sem travessão. Para mim pareceu que continuou sendo o narrador falando. Há momentos em que surgem três diálogos, um seguido do outro, sem que entendamos quem falou. No final, tive a impressão de que seriam as almas dos mortos que permanecem no cemitério, mas não tenho certeza. Se a ideia era manter um suspense sobre os donos dos diálogos, o ideal seria modificar o estilo, a forma de falar de cada falante, para que ficasse claro esta alternância de vozes.
    Ainda sobre diálogos, há um equivoco quanto à sua pontuação. Exemplo: “— Uma loucura completa. (colocar o travessão aqui tb) Pensou o João apressando o passo.”
    “sobre as poças de água que se acomodava quando o caudal das chuvas fazia com que o rego que lhe passava ao meio esbordasse e alagava (alagasse?) o caminho.” – ficou estranho.
    A parte em que fala do fogo fátuo ficou cansativa e muito explicativa.
    passageiros que mandam lançam “bocas” ?
    Há dois capítulos III
    Faltou uma boa revisão no texto (vou citar apenas algumas):
    em um (uns) sítios
    sobre as poças de água que se acomodava (acomodavam)
    Além de alguns deslizes gramaticais (apenas alguns):
    partes restantes quando tem (têm) oportunidade
    ingreme – íngreme
    lucida – lúcida
    arvores – árvores
    As silvas que o ladeiam e o ameaçam ocupar totalmente, (tirar a vírgula) darão amoras
    Maças – maçãs
    tal é à (a) vontade
    a loucura maior, (tirar vírgula) seja a de que
    evidencia – evidência
    — Porquê? – por quê?

  18. Fheluany Nogueira
    2 de novembro de 2020

    O protagonista se abriga em um cemitério, faz trabalhos menores para ganhar uns trocados, mas é bom observador das ruas e capaz de refletir sobre relações humanas, natureza e loucura.

    O espaço é Portugal, a linguagem tem o sotaque típico e bastante poética. O ritmo é lento e denso. Assunto atual e em alguns trechos, quase panfletário, trazendo uma forte crítica social. O clima não chegou ao trágico, mas há uma indisfarçável nostalgia, um sentimento claro de inutilidade nos contatos humanos.

    Muito bom trabalho. Sorte no desafio. Um abraço.

  19. Sábia
    2 de novembro de 2020

    Resumo : João representa a parcela excluída da sociedade por ser morador de rua.E mostra que todo ser humano é capaz de ter senso crítico.
    Comentário : Gostei da sabedoria de João, creio que ele seja um herói desprezado pela sociedade, na sociedade ter parece ser mais importante do que ser e João tem pouco e é muito.

  20. Claudia Roberta Angst
    1 de novembro de 2020

    RESUMO:
    João seria o que chamamos por aqui um “flanelinha”, que em meio a pandemia tenta ganhar um trocado para poder comer. Encontrou abrigo em um cemitério, onde dorme em um jazigo, vivo entre os mortos, já que passa o dia como morto entre os vivos. Reflete sobre a loucura que é o mundo e a relação das pessoas com a natureza.

    AVALIAÇÃO:
    Conto que mescla duras verdades com poesia. Um olhar ao mesmo tempo ingênuo e crítico, os pés no chão de quem conhece a realidade do dia a dia sofrido. No seu caminhar até o trabalho e na volta para a sua “casa”, João se depara com a insensatez de todos, que o julgam viciado ou louco, mas na realidade, ele sabe avaliar melhor a situação vivendo e observando.
    Não é um conto fácil de se ler, há um certo travamento na leitura, talvez pela diferencial da linguagem empregada.
    O ritmo do texto é pausado, como o arrastar dos pés de João, e para tanta reflexão precisaria mesmo ser lento. A falta de fluidez exige maior concentração, mas não impede que se chegue ao fim da leitura torcendo pelo destino de João.
    Percebi a peculiaridade da pontuação e do emprego dos acentos, mas isso não me incomodou. Os travessões apontavam para um diálogo que talvez fosse monólogo ou conversa do narrador com o leitor.
    Boa sorte no desafio e bom destino ado João.

  21. Mac Brava
    1 de novembro de 2020

    Resumo: João faz reflexões profundas sobre a sociedade, sua disparidade, principalmente em relação à ambição e a negação ao meio-ambiente. Separando o texto em capítulos, talvez para não (sobre)carregá-lo com tantas reflexões.

    Um texto com problemática atual, numa linguagem poética, tentando despertar “a comunidade defunta”. Adorei seu texto Pablo e peço licença para citar em um projeto ambiental meu, sua frase, entre aspas e creditada:

    “— Tão negras quanto a loucura dos Homens que olham a biodiversidade com indiferença e o equilíbrio ambiental com desdém. Quiçá, nas redondezas, só o João se preocupa com isso, lamenta, mas faz questão em percorrer este carreiro por onde já ninguém passa. “

    O seu João é o nosso Dom Quixote, em defesa da natureza!

    Parabéns e condolescências!

  22. Almir Zarfeg
    1 de novembro de 2020

    Resumo:
    A narrativa apresenta João, um flanelinha amante da natureza que faz uma reflexão pertinente sobre as coisas à sua volta, os altos e baixos da humanidade.

    Comentário:
    Vamos por partes. 1 – Narrativa ágil, mas extensa, que pode desanimar leitores de primeira viagem. 2 – A divisão em capítulos, no presente caso, aproxima o texto de uma novela. 3 – A questão da revisão ortográfica se impõe, sim, aqui: (“inicio” no primeiro parágrafo), (“arvores” no segundo capítulo), (“uns tem tudo. Outros não tem nada”) no terceiro capítulo, etc. etc. Enfim, boa sorte ao autor!

  23. Leda Spenassatto
    1 de novembro de 2020

    João indignado com a loucura humana se preocupa com Natureza,
    Em contrapartida arma arapucas para capturar “pardelhos bravos” para fazer petiscos.

    A uma discrepância em seu texto Pablo, pois o seu personagem é uma figura sensível, preocupada com a Natureza, com o progresso e em contrapartida, se pudesse , cassaria os coelhos e os pássaros para comer. É até justificável na sua situação, mas ao meu entender, alguém que se preocupa com o planeta não armaria arapucas para caçar em pleno século XXI.
    O tema é atual e impactante, cheios de detalhes e descrições. Viajei nele por todos os caminhos .
    Algumas revisões precisam ser feitas, tipo, trocar algumas palavras por sinônimos quando usadas muito próximas.
    Ex:
    De quando em vez cruza-se com uma raposa ou um coelho bravo.

    — Bom jeito lhe daria conseguir agarrar um coelho para fazer um assado. Seria extraordinário;

    Com algumas correções seu texto ficaria ótimo.
    Obrigada pela leitura e boa sorte.

  24. Antonio Fernandes
    1 de novembro de 2020

    Olá Anderson.

    Obrigado pela leitura e pelo comentário.

    A escrita está em consonância com o ultimo acordo ortográfico. Mas, como é obvio, a pontuação é algo intrínseco na justa medida em que quem escreve a molda à sua narrativa. Ao ponto de, o premio Nobel da Literatura José Saramago, não usar pontuação alguma deixando essa interpretação da narrativa ao critério do leitor.

    Sobre a natureza dos diálogos.
    A intenção é subjetiva.

    Atentamente
    Pablo

  25. Bianca Cidreira Cammarota
    1 de novembro de 2020

    Pablo, bom dia!

    O conto versa sobre João, um flanelinha, que sobrevive um dia de cada vez e que tem como sua morada um cemitério. Porém o relato amplia seu espectro na situação enlouquecedora da sociedade e tendo João, à margem dessa mesma sociedade, talvez um dos poucos ditos loucos que dela escapam em sua lucidez.

    O texto é poesia em prosa em grande parte. Disserta sobre a loucura da sociedade que é nossa particular, pois somos a sociedade. Gostei de ver o olhar de um português sobre seu país, seu povo nesses tempos tão estranhos, nos dando uma visão mais ampla. Embora o olhar seja em solo português, suas premissas são universais: como humanidade, somos seres inumanos.

    João se eleva nesse cenário tão desolador. As vozes que frequentemente surgem no texto sem autoria nos remetem ou à natureza, ou ao inconsciente coletivo, ou até ao próprio João, como representante de ser humano em um coletivo insano.

    Talvez mais do que um conto, o texto seja uma crônica, pois retrata o cotidiano de um e a situação do todo. A poesia do texto, sua cadência e a patente pena lusitana me obrigou a reler o conto duas ou três vezes justamente porque ele é refletivo, descritivo, intimista e filosófico, o que jamais é um demérito e sim uma deficiência minha.

    Gostei muito de seu texto, Pablo. Entre tantas coisas que me chamaram a atenção, uma delas é que João dorme um caixão vazio e tem teto e uma casa – uma morada no lar dos mortos, sem ser um literalmente. Porém ele é morto para a sociedade em alguns aspectos, pois não se encaixa nos critérios que a mesma estipulou e porque, por pensar e ouvir (os mortos e toda a sua sabedora) automaticamente se exclui dela.

    Maravilhoso conto. Muito obrigada por ele!

    Abraços

  26. Giselle F. Bohn
    31 de outubro de 2020

    Conto no qual vemos um homem que ganha sua vida como flanelinha e que vive em um cemitério. Não consigo resumir melhor do que isso.

    Sei que este conto foi escrito por um português, então não ouso fazer correções; não sei se as nossas regras valem por lá. Mas em vários momentos senti muita estranheza, mais pela posição das vírgulas e uso incomum ou falta de acentos do que pelo vocabulário em si. Não entendi também a opção pelos travessões, pois não me pareceu, em vários lugares, que indicavam discurso direto. Nem mesmo consegui vislumbrar quem estaria falando, se não o próprio narrador.
    Foi uma leitura difícil, não vou negar. Extremamente descritiva e em alguns momentos, caótica. Escolhi a esmo um dos trechos com os quais lutei:

    “Dois quilómetros por entre campos e veredas perdidas em sonhos de caminheiro feitos esperança de grandes ganhos cumulativos de riqueza ou conquistas medievais num mundo onde essa riqueza já é de uns quantos e as coroas existentes já só servem para o turismo e os escândalos embora em seu torno ainda se movimentem muitos vassalos vendidos aos bens materiais terrenos e outros dedicados a fazer noticia para vender revistas da especialidade.”

    Eu reconheço que não tenho capacidade interpretativa pra apreciar um texto dessa natureza. Peço perdão pela minha falha.

    Resumindo: não sei nem se o conto é bom ou não. Talvez seja ótimo, e talvez eu seja simplesmente inepta na minha avaliação. Só posso afirmar que não é o tipo de leitura que me agrada, mas quem sou eu na fila do pão?
    Boa sorte no desafio!

  27. Angelo Rodrigues
    30 de outubro de 2020

    Resumo:
    O conto narra a vida de João, um simples que vive no campo e se dirige à cidade para amealhar o sustento como “flanelinha”. Vive em um cemitério, em uma jazigo abandonado.

    Comentários:
    Um relato poético. Há momentos – o que não ficou mal – em que o autor passeia por descrições quase pastoris. Lembrou-me um pouco o Viagens na Minha Terra, do Almeida Garret, particularmente na transposição para Portugal no comparativo com Viagem à Roda do Meu Quarto do Xavier de Maistre. De Lisboa a Santarém. Fala da beleza do seu quintal, dos caminhos…

    Um conto que busca falar de todos os Joões sem liga com a sociedade, embora dependentes dela, das bordas onde tudo é de pouco ou quase nada. O conto passeia pelo campo e pelas cidades, e João está lá, sempre, no centro de tudo, como muitos, a depender das migalhas. João é um homem que não se introduziu e não foi introduzido na loucura dos dias. É simples, é passado, é a terra de onde veio e a imagina impregnada em si.

    Curioso. Será que já não é loucura não ser um louco como tantos? João acha que não. Loucos são aqueles que o olham com desdém e fazem com que ele, João, interiormente se ria da triste figura daqueles que se agarram a horários e tal.

    Aqui, o autor buscou dar ao conto um viés bastante ousado, quando aceitou que o seu “louco” seria outro, seria aquele que vive na franja e, como tal, é dado definitivamente por tolo, dependente, toxicômano, desvairado e, até certo ponto, um sem-o-que-fazer. João não é nada disso.

    Até certo ponto, nosso autor aceitou o epíteto de Sartre, onde os “loucos” são os outros, não o João.

    Há uma flagrante mudança de voz, que passa, como disse, de pastoril para tecnológica, com seu viés tocando questões de sustentabilidade.

    De certa forma, essa opção do autor, abandonou um pouco a nossa figura principal, o João, que, largado em seus descaminhos pelas muitas bermas, só retorna no capítulo III – que são dois, o III e o III.

    É notável o discurso saudoso de um passado que se foi, que era de uma terra pastoril, que agora vive como se fosse uma cidade, sem o ser.

    Notei um certo diálogo solto, que se entrecorta com digressões acerca do mundo. Montado sobre travessões, alguém fala, embora não fale com ninguém, senão com o leitor. Foi o que me pareceu.

    No que concerne à escrita, notei-a bastante singular, na forma e nas pontuações.

    Boa sorte no desafio.

  28. Thiago de Castro
    30 de outubro de 2020

    Resumo: O conto mostra a rotina de João, um arrumador de carros que, indo e vindo de sua “casa” no cemitério para a cidade, proporciona uma série de reflexões sobre o cotidiano, o avanço das cidades, a miséria e, claro, a loucura. Ambientado em Portugal, há no texto marcas fortes de linguagem que passam do micro para o macro em uma narrativa dividida em cinco capítulos.

    Comentário:

    Pablo, vi um comentário uma vez sobre os autores(as) portugueses(as), dizendo que estes(as) não tem medo de “escrever bonito”. Creio que você seja de outras bandas, mas independente de ser ou não, atribuo o “escrever bonito” para esse conto. O tempo todo é um contar simples através do belo, da escolha das palavras que, mesmo desconhecidas num primeiro momento, vão se encaixando e fazendo sentido a cada final de parágrafo. Seu João me lembrou o João Felizardo, rei dos negócios, daquela fábula do garoto simples que ganha o mundo na esperteza, na troca de bens, mas que ao final da história fica com praticamente a mesma quantidade de coisas que começou, o que representa sua liberdade (isso fica bem claro numa versão da autora e ilustradora Ângela Lago, onde o menino termina o conto munido apenas de uma pena, que solta livre no ar. Recomendo.).

    Seu texto também tece críticas à desigualdade social, ao avanço desenfreado das cidades em relação ao campo e o uso deste para servir o agronegócio. Creio que nesse momento, de sair do micro universo de João e expandir para o macro, o texto se desvia um bocado do caminho, chegando a ficar, inclusive, um pouquinho panfletário em certas passagens, com as opiniões do narrador muito presentes. Falo “pouquinho” porque é um texto com tamanho esmero que, ainda com esse contraponto, foi uma leitura transportadora e edificante, um desbunde.

    O retorno do personagem, para o cemitério, fechando o conto de forma circular ( a saída matutina, a volta noturna) com a metáfora de que, independente de todas as diferenças, o pó é o que nos aguarda, o que nos resta, e a loucura é o mundo em si e suas contradições (como outros contos do desafio também apontaram) foi muito feliz e carregada de leveza. Aliás, isso que senti o tempo todo com seu texto, leveza, humor e certa ironia!

    Seu João é boa praça!

    Farei uma releitura do seu texto antes de dar a nota final, com certeza, mas já está entre os meus favoritos.

    Parabéns e boa sorte!

  29. Anderson Do Prado Silva
    30 de outubro de 2020

    Resumo:

    O conto se dedica a acompanhar um dia de vida e de reflexões do senhor João.

    Comentário:

    O enredo é bom: acompanhamos um dia de vida do senhor João, um guardador de carros que reside em um jazigo abandonado.

    A discussão sobre a natureza da loucura também ficou muito interessante: quem seria o louco – João ou a sociedade?

    Há muita crítica social neste texto! Em geral, adorei todas elas: necessárias e oportunas.

    Quanto ao aspecto técnico, acredito não ter condições de julgar, pois o português não me pareceu brasileiro. Aqui (Brasil), o texto teria deficiências quanto ao posicionamento de vírgulas, acentuação e conjugação verbal.

    Como o português parece estrangeiro (lusitano), há muitas palavras incomuns, mas cujos sentidos, na maior parte das vezes, é possível apreender pelo contexto.

    Não me ficou clara a natureza dos diálogos. Quem fala? O narrador? A sociedade? Médicos? A consciência? Todos juntos e misturados? Depois vou voltar neste texto para ler os comentários dos demais colegas sobre este ponto.

    No geral, gostei da experiência de me deparar com esse “novo” (português de Portugal). Gostei da prosa convencional (não-experimental) e da estruturação do texto (em capítulos).

    Parabéns pelo texto e boa sorte no desafio!

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Informação

Publicado em 30 de outubro de 2020 por em Loucura.