EntreContos

Detox Literário.

Sinapses (Willian)

Dizem que você é louco quando rasga uma nota de cem. Picotei pelo menos umas vinte. Insanidade confirmada. Privação do sono. Excessos. Sentimentos dúbios. Delírios.

Peguei na cozinha a maior vasilha que tinha. Enchi d’água. Migalhei alguns pedaços de pão duro que fui acumulando ao longo dos dias. Nem de pão eu gostava. Comprava só para ter o que fazer nos finais de tarde. Queria liberdade. Fugir da realidade. Ficar longe das perturbações. 

Comecei com a tartaruga. Doze delas. Me enfezei. Perdi a paciência quando vi que elas não caberiam na vasilha. Joguei tudo no rio perto de casa. Elas desceram correnteza abaixo. Demência.

Olhando para cima vi que aves brancas rodeavam as árvores. Garças. Graciosas. Tinha duas delas presas no meu bolso. O vento forte me ajudou a liberta-las.

Tinha certeza de estar fazendo a coisa certa. Foi quando me dei conta de que estava sendo filmado. Um bando de gente esquisita. Apontavam câmeras para mim. Perseguição.

Na manhã seguinte acessei minhas redes sociais. Ali está. O homem que rasga dinheiro. Ninguém se deu conta de que eu libertei animais indefesos. Sinapses desconectadas.

Fama de quinze minutos. Foram tantos compartilhamentos que não demorou muito para que autoridades do governo me fizessem uma visita. Malditos. Queriam controlar minhas ações. Implantar um chip em mim para saber quantos animais libertei daquele cativeiro. Alienação.

Me escondi. Fugi. Embrenhei-me na mata onde ninguém pudesse me encontrar. Levei comigo todas que ainda estavam sem liberdade. Uma a uma fui soltando-as. Araras, onças, javali. Javali? Tinha algo de diferente naquela figura desbotada. Riscos que não haviam nas outras notas. O que fizeram com este animal? Assim que o soltei ele caiu aos meus pés. Inerte. Sem vida. Alguma coisa gritou dentro de mim. Vão matar todos. No final, talvez eu também me torne vítima.

O rosnar forte da onça me trouxe paz. Não tinha muitas delas. Já o mico. Um bando deles. Estavam sujos, fedorentos. Dinheiro sujo. De onde vieram?

Esfreguei algumas notas. Elas não limpavam. Prenderam os micos nas piores celas. Desgraçados. Um animal tão gentil. Assim eu pensava, até que um deles cagou em mim. Imundície.

Ouvi rosnados de menor intensidade. Vindos da tal nota de duzentos. Estavam capturando outros animais também. Eu não tinha como liberta-los. Impiedosos.

Os Lobos esperavam o momento certo da investida. Um deles me afrontou. Dane-se. Eu ainda tinha que dar um jeito nas garoupas. Apenas os ignorei. Tinha bastante garoupas comigo. Cerca de vinte ou mais delas. Sentei-me sobre as pedras perto do riacho. Fui libertando-as. Crianças nadavam a poucos metros de mim. Cometi um erro. Elas começaram a pegar minhas garoupas. Fui pra cima enraivecido. Foi quando senti alguma coisa tocar minha cabeça. Coloquei a mão e senti o calor do meu sangue. Não sei o que me acertou. Fervor.

Mesas brancas dentro de uma sala escura. Tontura. Tortura. Pânico. Me fizeram cativo. Um homem de uns dois metros começou a me fazer perguntas. Respondi a mesma coisa. Liberdade.

Ele tirou do bolso um maço de cigarros e alguns trocados. Colocou sobre a mesa esperando ver a minha reação. Tomei os cigarros. Acendi um e fui soltando as garoupas na pia ao lado. Louco, ele disse. Dei uma tragada profunda. Meus olhos saltavam de tão avermelhados. Parecia que eu tinha usado uma droga muito potente. Não consegui me olhar no espelho. — Esse aí é sanatório, ele disse batendo no vidro. Lunático.

Dois homens entraram e me seguraram. Um deles me picou. Apaguei. Não sei quanto tempo passou. Me lembro da rusticidade de ver as crianças pegando os peixes que soltei no rio. Eu não ia agredi-las. Queria liberdade para os animais que prenderam nas notas. Cárcere.

Fiquei dez dias dentro de um quarto sem nada. Tinha uma pia, um buraco no chão para as necessidades e uma janela por onde me davam comida. Devaneios. 

De vez em quando colocavam pela janela micos que me pediam ajuda desesperadamente. Tinha certeza de que devia solta-los. Minha mente começou a duvidar do que é certo. Pelo que estava sendo castigado? Dignidade.

Guardei no bolso aqueles micos. Não era o momento certo. Minha mãe veio me visitar. Falou, falou e não disse nada. Meus irmãos riam e gesticulavam com os olhos. Louco, os ouvi dizer ao sair. Integridade.

Dois dias depois, alta. Ir pra casa? Não sabia o que fazer. Coloquei a mão na cintura e vi que me faltava alguma coisa. Me senti fraco. Impotente. Andei sem rumo até parar na porta de uma delegacia. Instinto. 

Minha mente me guiou. Fui abordado por dois policiais que me abraçaram. Um deles me perguntou se eu estava bem. Tentei reconhecer aquele homem. Não me lembrava. Entramos. Tomei um café junto deles. Sinergia.

A mesa a direita da sala tinha um porta-retratos com uma foto minha. Eu beijava uma mulher linda. Quem é ela? — Você não se lembra mesmo? O policial bem vestido me perguntou. Me lembrar de que? Eu perguntava. Sonhos. 

— Deixa! — Ele passou por muita coisa. 

Não sei do que aqueles homens falavam. Entrei numa viatura e um deles me levou pra casa. O último dos lugares onde desejaria estar. Conflitos.

Da casa eu me lembrava bem. Mal entrei e ele veio. Jogou do meu lado um calhamaço de contas. Carro, luz, água, telefone, mercado. 

— Você é o único que está empregado e me apronta uma dessas. 

Impiedoso. Meu pai sempre foi um narcisista. Apesar das suas limitações físicas tinha força com as palavras.

— Vai lá! Rasgue agora o restante das suas economias.

Senti um choque. Taquicardia. Falta de ar. Tive vontade de rasgar o meu peito. Enfiar a mão dentro e arrancar o meu coração ali mesmo. Velho arrogante. Gente maldita. Pelo que eu me sacrificava? Levantei e deixei o desgraçado falando sozinho. Tinha de sair dali. Agnus, meu irmão mais novo, me puxou para o quarto. Ele apenas sentou-se ao meu lado. Tentei descansar, mas não conseguia. As vozes não paravam. 

“Vai lá rasgar o resto do dinheiro que tem seu insano”. Elas diziam aos berros na minha cabeça.

Não sei o que fiz. Nem por que fiz. A vida não nos ensina a lidar com frustrações cotidianas. Não nos diz o jeito certo de fazer as coisas darem certo. Peso na Consciência.

Arrumei minhas malas. Não pensava em outra coisa senão sair daquele inferno de vida. Foi quando encontrei minha farda, distintivos e honrarias que me tornavam uma pessoa de verdade. Junto delas minha Taurus PT 0,9 mm. Meu corpo estremeceu ao toca-la novamente.

Tive flashs de vários momentos da minha vida. Coisas de que havia me esquecido. O nascimento da minha filha. A desilusão amorosa. O AVC de meu pai. O momento que entrei na polícia. A medalha que ganhei por bravura ao salvar um animal. A formatura do meu irmão Agnus. O surto de minha mãe. Minha filha aprendendo a andar de bicicleta. A vontade de matar o homem que ela chamava de pai. 

Sinapses conectaram se entre si. A sanidade é um dom. A insanidade uma dádiva. Esquecer a dor e o tamanho de uma ferida pode ser um presente. Lidar com as frustrações e ter êxito é uma benção. Ouso dizer, milagre. 

Carreguei minha pequena 0,9 mm. Quinze munições, quinze disparos. Não sei de quantos precisaria para criar um novo começo. Vesti minha farda. Fiz a barba. Desci. A sala estava vazia. Graças a Deus. Entrei no carro e segui. Dez, vinte, cinquenta quilômetros à frente. Parei no banco e saquei o restante das minhas economias. Desta vez, mantive bem seguras no bolso.

Na terceira rua próximo ao Pet. Casa com um sobrado e pintura rústica. Sinapses conectadas. Ela brincava na rua junto dele. O homem que me tomou o lugar de pai.  

Notícias ruins correm todos os dias. Breve seremos estatísticas. Impasses cotidianos que não mudam a vida de ninguém. Encostei o carro esperando o momento certo. Nunca vi ela se divertir tanto. Ele não parecia de todo ruim. Abraçava, beijava e ela retribuía. O amor que me foi roubado. De repente, ela chega. A mulher da foto da delegacia. Novos flashs. Discussões, brigas e agressões. A garrafa de Whisky escorregou da minha mão. Ela tentou me ajudar. Eu a empurrei. A menina chorava sem parar. Meu pai sentiu-se mal. Desfaleceu sobre o chão. Gritos. Desespero. Sirenes. Lampejos vermelhos. O que foi que aconteceu? Sinapses desconectadas. 

A lâmpada de casa começou a falhar. Sinto gosto de sangue na boca. Existe um espaço entre os meus dentes. A cadeira? Carcomida pelas pragas. Eu bati a cabeça? Apenas instantes.

Toquei minha 0,9 mm novamente. Paz. Chance de um recomeço. É tarde. Eles entraram. A mulher também sumiu. A saliva escorre pelo volante. Não me sinto bem. Alguém bate no vidro.

— O senhor pode me ajudar?

Outra mulher. Calças amarrotadas e cabelo desfeito. Desleixada. Ela me pede ajuda para descer alguns móveis. Está de mudança. Sem muito esforço vou descendo. — Obrigado policial. Ela me diz. Mulher humilde. Simples no seu jeito de falar. Vou além na ajuda. Sigo-a por umas três ou quatro quadras. Não gosto muito do que vejo. Saneamento precário. Cheiro de podridão. Marginalidade. Aquilo me assusta. Sozinha, ela vai retirando os móveis do caminhão e colocando num barracão. O motorista sequer se move. Isso me incomoda. 

— Você de novo? Ela diz.

Não sou de falar muito. Começo a ajudar. Os moleques de rua movimentam-se entre nós. Eu seguro minha 0,9 mm. Espero não ter de usar. Um deles me ajuda com os sofás rasgados. Estranho a atitude. Loucura. Será que estou com a minha sanidade ajustada? Flashs. Sinapses reconectadas. Recordo a minha juventude. Alguém me oferece um cigarro. Eu aceito. Perco os sentidos. Vultos. Vozes. O que tinha naquela coisa?

O menino me pergunta se estou bem? A mulher nos traz água. Sentimentos estranhos, dúbios. Valor? Confiança? Medo? A insegurança toma conta de mim. Paro. Fecho os olhos por um instante. Tomo fôlego. O ar preenche meus pulmões. Tudo pronto. Ela se despede com um sorriso. Aquilo me encanta. O garoto me estende a mão. Disse que quer ser policial quando crescer. Isso me cativa.

De volta. Deixo na mesinha de cabeceira minhas economias. Meu pai segue dormindo. Minha mãe sorri. Devo ter feito a coisa certa. Ouço ela me chamando. Papai, ela diz. Alucinações. Falta. Ausência. Saudade do que perdi. Dói. Dói demais. Os flashs não param. Sinapses.

Ela vem ao meu encontro. Mal consegue segurar o ursinho. Mãos pequeninas. Sorriso de orelha a orelha. Um anjo em forma de criança. Revolta.

Tento me convencer. Momentos que não voltarão mais. A mulher continua gritando na minha cabeça. No bar tomo uma, duas, a garrafa toda. Ainda assim ouço ela reclamando. — Já pagou as contas? — Já ajudou sua filha? — Precisa dar um jeito naquele carro. Santo Deus. Eu clamo. Desconecto.

Meu corpo se move. Paro em frente a uma casa grande. Luzes natalinas. Decoração de primeira. Vista luxuosa. Devo estar diante de uma casa modelo.

O casal sai bem arrumado. O homem vem ao meu encontro. Se assusta. Depois me abraça. Não sabe se viu um anjo ou um demônio. A mulher esquiva-se. Volta para dentro às pressas. Espia da janela. Flashs.

Meu parceiro de vida. De trabalho. Irmão de farda. Mudou de vida rápido demais. Quem é ele? Servimos juntos na mesma base. Sua ascensão foi rápida. O que ele fez? Ele me dá algo para beber. Esqueço. Eu seguro minha 0,9 mm. Ele pede para que eu me acalme. Ouço uma sirene. Gesticulo negativamente. Desaprovo. Meu desequilíbrio parece bem ajustado. Ele me entrega mais dinheiro. Recuso. Ouço aqueles animais pedindo ajuda. Dinheiro sujo. Proveniente do tráfico de animais. Suborno. Sinapses conectadas.

Crio coragem. Saco minha 0,9 mm. Aponto. Ele corre. Deixa cair o dinheiro. Pede perdão. Não sei por que razão. Covarde. Não é nem metade do homem que um dia foi. Recolho tudo e saio às pressas. Não há tempo a perder. A fome aperta. Essa terá sido a última vez que o vi. Justiça? Deixo nas mãos do criador. Equilíbrio.

Na estação peço um duplo. Me farto. A bebida desce rápido. Efeito instantâneo. As vozes desaparecem. Tenho poucos minutos. Decisão tomada. Volto para o barracão. Chamo. A mulher desleixada sai. Está bem arrumada. Ela estranha. Me convida a entrar. Não demora muito. Ela me beija. Retribuo. Ela tira minha camisa. Eu desabotoo seu sutiã. Intenso. Nossos corpos se deleitam. Prazer. Constrangimento. Ela acaricia minhas cicatrizes. De onde elas vêm? Não pode ver as piores. O coração não fica do lado externo do peito. Luxuria.

Trocaria de vida. Se pudesse. O passado não deixa de se fazer presente. Amanhece. Os pássaros cantam. Paz. Deixo para ela o restante do que consegui. 

Caminho pelas ruas sujas. O cheiro podre é perfeito. Demorarão a perceber. Saco minha 0,9 mm. Sinapses conectadas. Puxo o gatilho. Trava. Vou para mais longe no córrego. Puxo novamente o gatilho. Não sei o que está acontecendo. O cano emperrou. Arma velha. Eu falhei. Deixo meu corpo se movimentar. Ele cai. Um metro e meio de podridão deverá ser suficiente. O ar some. Os sentidos voltam. Abro uma porta estreita. Animais correm livremente. Aves rasgam os céus. Meu corpo queima. Ele surge. Exatamente como dito nos livros. Figura cadavérica. Chifres longos. Lança pontiaguda. Estou pronto. Resignado. Expio meus pecados. 

A lama negra cobre meu corpo. A podridão apodera-se de mim. Meus olhos secam. As pálpebras enrijecem. Aproveito cada momento. Cada segundo de dor. Dói. Bem menos do que quando estava com vida.

28 comentários em “Sinapses (Willian)

  1. Jorge Santos
    21 de novembro de 2020

    Olá Willian.
    O seu texto é o percurso de um homem com problemas psiquiátricos que acaba por cometer suicídio.
    Todo o texto parecem ser apontamentos de uma sessão de psicanálise, com as notas do psicanalista reforçadas a negrito. Gostei deste recurso, mas o texto é excessivamente repetitivo e a sua leitura cansa. A narrativa poderia ter sido feita de outra forma, criando uma maior ligação ao leitor. Não encontrei problemas de maior na linguagem, mas o problema que evidenciei, comum a muitos textos deste tipo de desafios, é bastante grave, no meu entender. Não importa a forma usada, mas o escritor não pode perder o contacto com o leitor. Deve arranjar forma de manter o interesse do texto, não importando a sua complexidade. Neste caso o texto está estruturado de uma forma inovadora, com bastante potencial. Faltou apenas emotividade para garantir a ligação ao leitor.

  2. Anna
    19 de novembro de 2020

    Resumo : Policial enlouquecido acha no ato de rasgar dinheiro alivio para suas dores. Até que chega num ponto que só a morte pode lhe satisfazer.
    Comentário : O policial não aguenta mais a sociedade que tanto lhe decepcionou, por isso que rasga dinheiro, como se estivesse rasgando correntes que lhe prendem. Fiquei triste pelo fato do sofrimento dele ter chegado no extremo que nenhum ser humano deveria chegar, derramar o próprio sangue, é derramar esperanças.

  3. Amanda Gomez
    18 de novembro de 2020

    Resumo📝 Policial em surto, rasga dinheiro e pensa em comentar assassinatos. No fim acaba se matando.

    Gostei 😃👍 Um texto bem denso, o começo se mostra meio cômico, até pensei que seria uma comédia, pq as cenas dele rasgando dinheiro e as referências aos animais das cédulas foi bem interessante. Mais adiante o texto ganha outro patamar, o ritmo da loucura se intensifica transformando o personagem em um perigo ambulante. Achei importante o autor nos contar um pouco da vida dele, da separação, do espaço que ele perdeu como pai, dele achar que foi um acidente a agressão a esposa, das propinas e rota a rotina de um polícias que sabemos bem como é em muitos casos… tudo isso deixou o surto dele verossimil. O corte das cenas deixou o ar mais claustrofóbico, e o final é esperando. O tema aqui foi abordado com precisão. Parabéns!

    Não gostei 😐👎 a narrativa em primeira pessoa já é algo mais difícil nesse tema, o leitor precisa de um pouco de paciência com as construções, confesso que em determinado momento, lá pelo final, já estava cansada de acompanhar o surto dele. Acho um ” problema” recorrente em vários textos do desafio. O momento certo de parar.

    O conto em emoji : 👮💵😵

  4. Rafael Penha
    17 de novembro de 2020

    RESUMO: Policial enlouquece e em meio a alucinações, vê as pessoas e coisas importantes de sua vida se afastarem até sua derradeira morte.

    COMENTÁRIO: Um conto complicado. A loucura aqui é bem descrita ordenada no meio de um caos. Parte da premissa básica do louco rasgar dinheiro, mas segue adiante, se tornando mais criativa.
    A narrativa é muito boa. Confusa, como deve ser. Não é algo que eu aprecie muito pessoalmente. Eu prefiro ver a loucura “de fora” do que estar dentro dela e tentar compreendê-la, mas o texto faz um ótimo trabalho ao descrevê-la e é um prato cheio para os leitores que apreciam.
    Apenas as palavras em negrito que foram uma decepção. Tentei juntá-las de alguma forma para fazerem sentido, mas não pude. Elas poderiam ser algo maior. A menos que eu não tenha percebido a intenção do autor.
    É possível sentir o desespero do homem e os sentimentos das pessoas ao seu redor até o derradeiro fim.
    Gostei bastante.
    Grande abraço!

  5. Andre Brizola
    12 de novembro de 2020

    Olá, Willian.
    Conto sobre um policial em claro estado de insanidade, perturbado por diversas situação prévias em sua vida, incluindo um provável divórcio e a nova vida de sua esposa, e de sua filha, com um novo companheiro.
    Pra mim uma das coisas mais importantes em um desafio temático é a importância que o autor dá em seu texto ao tema escolhido. Os enredos podem ir para diversos pontos, as técnicas podem ser as mais variadas, mas o tema deve ser o escolhido. E aqui, neste conto, temos um dos melhores representantes do tema loucura. E, devo acrescentar, o tema foi muito bem retratado. Desde o início somos apresentados à situação singular do personagem, que rasga dinheiro, mas que objetiva a libertação de animais silvestres brasileiros, presos nas cédulas. Entretanto, o personagem ainda apresenta diversos outros distúrbios no decorrer do texto, e esse entrelaçamento dos problemas psicológicos, embora um pouco confuso, acrescenta drama e tensão, e deixam o personagem mais interessante. E tudo gira ao redor do personagem.
    O texto, amparado em frases curtas, dá um ritmo ágil à leitura. Os eventos se sucedem de forma muito rápida e, se não fossem os termos destacados em negrito, eu diria que teria sido tudo perfeito. Esses termos em negrito, pra mim, serviram como lombadas em uma pista extremamente plana. Quando começamos a desenvolver velocidade, temos que reduzir e recomeçar. É um problema meu com a estética escolhida, mas que, querendo ou não, prejudicou minha experiência com o texto.
    No geral é um dos bons contos do desafio. Deve ficar no topo da tabela!
    É isso. Boa sorte no desafio!

  6. Luciana Merley
    10 de novembro de 2020

    Sinapses
    Olá, autor
    Um homem que manifesta sua loucura rasgando dinheiro como se libertasse os animais impressos nas notas.
    Impressões Iniciais – Criativa a ideia de desenvolver num conto o ditado popular do louco que rasga dinheiro.
    Coesão – É claro que o texto gira em torno do tema loucura, mas senti que você acrescentou vários elementos num grande caldeirão mental e isso tornou a narrativa um pouco desfocada. Refiro-me aqui, não a achar que a loucura humana tem causa única, mas, no aspecto de construção da narrativa mesmo. Longe de querer interferir na sua ideia, mas o desenvolvimento da questão do “rasgar dinheiro” sem tantas explicações, teria tornado o texto muito mais interessante. Para me explicar melhor, você misturou a revolta pela família perdida para o colega traficante de animais, as cobranças do pai e a desilusão com a profissão, além de inserir a questão da podridão e da perda da dignidade no relacionamento luxurioso com a mulher.
    Ritmo – É acelerado como os pensamentos do personagem e isso foi bom.
    Impacto – Um conto bem interessante, mas o impacto teria sido melhor caso você não tivesse explicado tanto as sensações e sentimentos. As palavras conclusivas a cada parte deram um tom de originalidade, mas praticamente eliminaram um dos aspectos mais definidores da escrita de ficção que é a Trama Profunda. Isso porque você mostrou tudo na superfície, deu de graça para o leitor. Gostei das críticas sociais, mas a citação da marca da arma tão detalhadamente soou um pouco forçado. Não acho que alguém diga: “agora vou carregar minha arma fulana de tal calibre tal…”
    Quero dizer que posso não ter capitado toda a sua intenção com o texto e peço desculpas. Congratulo pela ideia e desejo boas experiências no desafio.

  7. Leandro Rodrigues dos Santos
    9 de novembro de 2020

    Um senhor anônimo vai recordando quem é e como é, reconhecido, vai ao além infernal.

    Tecnicamente tem erros de acentuação, pontuação, repetições, conjugação verbal e colocação pronominal (tem bastante, caso tenha interesse eu pontuo eles, caso não, desconsidere).

    A pontuação escolhida impacta, é bem utilizada na grande maioria [teve leves erros], a redução a uma palavra aumenta a intensidade do ato. É o ponto positivo do texto. Quanto a ideia do texto não me agrada, questão de seleção de leitura e previsibilidade.

  8. Ana Maria Monteiro
    9 de novembro de 2020

    Olá, Autor.

    Resumo: um polícia louco. Ele chega a estar internado, mas sai após dois dias. Como? Não se sabe, ele está definitivamente louco. O homem vai relatando as suas recordações reais, entremeadas a delírios sobre a salvação de animais presos em notas. Ele regressa ao local de trabalho, a casa, visita o parceiro que já não o é. Suicida-se e vai parar ao inferno. Depois de morto continua louco.

    Comentário: Tive alguma dificuldade em ler o seu conto. Você não tem culpa, a problema é meu, porque existem muitos contos em que a loucura toma a primeira pessoa e fica difícil para o leitor, mais difícil se vai tornando à medida que se vão lendo mais – algo de que você não tem a menor culpa e, como tal, não irá refletir-se na nota que atribuirei.

    O conto está bem escrito e não encontrei nada a apontar, já a criatividade se encontra mais na forma que no conteúdo pois a história, em si mesma, é simples.
    Noto que você domina bem a linguagem e a escrita e que o seu conto não fica nada atrás de muitos outros. Não percebi muito bem a analogia entre queimar notas e salvar animais, mas talvez as vossas notas tenham animais impressos, não sei (apesar de ter procurado no google, continuo sem saber).

    Ainda decidirei como avaliar este conto (e outos) pela criatividade ou pelo conteúdo? Não questiono a qualidade de escrita nem a adequação ao tema – ambos conseguidos.

    E esta última conclusão justifica uma nota que não é mínima.

    Parabéns e boa sorte no desafio.

  9. Paula Giannini
    9 de novembro de 2020

    Olá, Contista,

    Tudo bem?

    Resumo: Policial suicida narra o caminho que o levou ao fim.

    Meu Ponto de Vista:

    O ponto alto deste texto, para esta leitora aqui, reside na linguagem escolhida pelo(a) autor(a) para conduzir a trama. Com períodos curtos, a leitura segue em ritmo acelerado, quase como se corrêssemos junto com o policial em sua saga alucinada, rasgando dinheiro, libertando animais, livrando-se da lama da corrupção, até, por fim, entregar-se à ela.

    Interessante notar que o título do conto é Sinapses, o que nos remete, obviamente, à eletricidade trocada entre as células cerebrais em cognição, assim, após finda a leitura do texto, imaginei (como em um filme) todo esse trecho da vida do narrador passando em flashes por sua cabeça, quase como em um flashback, embora essa não seja a técnica aqui utilizada.

    Sorri ao ver nosso mascote Javali inserido em uma nota, coisa que, na vida real não existe, porém, que faz parte de uma piada recente na internet, com o animal impresso em uma pretensa nota de 50: Já Vali. Assim, o texto vem imerso em uma certa crítica social, a partir do jargão, quase um clichê de que só louco rasga dinheiro, o(a) autor(a) acaba nos lembrando do triste quadro da corrupção brasileira em todos os sentidos (inclusive o ambiental e o das polícias).

    Parabéns pelo trabalho.

    Como digo a todos, se algo em minha análise destoou de sua obra, desconsidere. Aqui, todos estamos para aprender.

    Beijos
    Paula Giannini

  10. Elisa Ribeiro
    9 de novembro de 2020

    Policial relata seu processo de enlouquecimento revelando aos poucos de forma fragmentária os antecedentes e gatilhos que provocaram seu desequilíbrio mental.

    Sua estratégia narrativa foi muito eficaz em captar minha atenção. A apresentação dos fatos de forma fragmentária e por meio de flash backs aliada à linguagem ágil e muita ação ao longo de todo o conto criaram um tensionamento que me fez emergir completamente no seu texto durante a leitura.

    Demorei um pouquinho a compreender a relação dos animais com as notas e as metáforas sobre a lavagem de dinheiro e tal. Achei muito surpreendente e criativo.

    Não sou de reparar muito nisso, mas notei que algumas coisinhas passaram na revisão: conectaram se (faltou o hífen), nunca vi ela (cacofonia), [as] mantive seguras (faltou o OD em mantive).

    Não compreendi o efeito pretendido com as palavras negritadas no final dos parágrafos. Para mim funcionaram como respiros no ritmo frenético do conto. Não chegaram a atrapalhar, mas me atrevo a dizer que gostaria ainda mais do texto sem elas. Ou ao menos sem o negrito.

    O que não gostei: dos tais negritos. As palavras resumo, ok, opção do escritor, mas negritá-las, à minha leitura, deixou-as por demais enfáticas.

    O que mais gostei: adoro quando um texto exerce esse poder de capturar completamente minha atenção rasa e fluida.

    Parabéns pelo conto. Sorte no desafio. Um abraço.

  11. Misael Pulhes
    5 de novembro de 2020

    Resumo: Viagem pela mente de um policial que perdeu a lucidez e, aos poucos, lembra, em flashs, das circunstâncias da vida.

    Comentários: Primeira pessoa, tempo presente, tudo ajudando muito na prosa que é muito bem construída e peculiar ao estilo e propósito da obra. Eu gosto demais de como as coisas vão sendo construídas aos poucos, explicadas implicitamente. Talvez por isso mesmo parágrafos como o seguinte não me agradem tanto, pois dão de mão beijada algo que poderia ser apresentado ao leitor – como é o caso no resto do conto – de forma mais fragmentada e menos descritiva: “Tive flashs de vários momentos da minha vida. Coisas de que havia me esquecido. O nascimento da minha filha. A desilusão amorosa. O AVC de meu pai. O momento que entrei na polícia. A medalha que ganhei por bravura ao salvar um animal. A formatura do meu irmão Agnus. O surto de minha mãe. Minha filha aprendendo a andar de bicicleta. A vontade de matar o homem que ela chamava de pai”.

    Não entendi o propósito das palavras no final dos parágrafos estarem negritadas.

    O final deve dividir os leitores: alguns devem amar, outros, odiar. Eu gostei. Trouxe impacto.

    De todo modo, um baita trabalho e, a meu ver, um dos melhores até aqui. Parabéns!!

  12. cicerochristino
    4 de novembro de 2020

    Resumo:
    Narrativa em primeira pessoa acompanha um policial acometido por um distúrbio mental, enquanto este lida com os sintomas e consequências das ações que vai perpetrando movido por convicções oriundas do desalinho cognitivo.

    Comentário:
    A escolha da voz em primeira pessoa aproxima o leitor do protagonista com toda a carga emocional potente contida no texto. É uma narrativa que retrata o desequilíbrio mental de forma muito poética e bastante crua, já que não se propõe a desenhar externamente os sintomas. Gostei muito do recurso dos termos em negrito, que, de início, surgem como sintomas diagnosticados no personagem, dando um ritmo muito interessante ao conto. Considerei, também, o encerramento (“Dói. Bem menos do que quando estava com vida”) muito poético.
    Meus parabéns e boa sorte, Wilian!

  13. jeff. (@JeeffLemos)
    4 de novembro de 2020

    Resumo: A degradação da mente humana. Um policial que enlouqueceu devido às circunstâncias da vida.

    Olá, caro autor.
    Gostei bastante do que você fez aqui. Fui perceber que ele falava de notas só depois de um tempinho, e gostei da surpresa. Senti que fui sendo conduzindo pela história sempre querendo saber o que viria a seguir, e fiquei bem satisfeito com o que vi. O final foi bem interessante, e toda a angústia e pesar que a história traz foram passadas para a narrativa em si, pela forma que foi construída.
    A loucura foi bem trabalhada, conto muito dentro da proposta e arrisco dizer que vai se sair muito bem na avaliação final.

    Parabéns e boa sorte!

  14. Almir Zarfeg
    3 de novembro de 2020

    Resumo:
    O texto traz a história de um policial que, pressionado pelas circunstâncias, fica louco e, por fim, se mata.

    Comentário:
    Uma narrativa muito interessante, ainda que cansativa por causa da extensão dela. A ideia de alguém libertar bichos presos numa cédula de dinheiro é, simplesmente, genial. Assim a temática da loucura foi muito bem conduzida. Talvez, devido à pressa, a revisão foi prejudicada. Parabéns para o autor.

  15. Claudia Roberta Angst
    2 de novembro de 2020

    RESUMO:
    Policial surta devido a traumas e frustrações com o trabalho e relacionamentos pessoais. Rasga dinheiro, pensa em matar o atual companheiro da ex-mulher, por fim se vê em um inferno e se mata.

    AVALIAÇÃO:
    Apesar do clichê “louco rasgando dinheiro”, a ideia se desenvolve de forma mais criativa, apresentando o delírio do homem estar libertando animais do cativeiro (animais que estampam as notas). Achei a imagem criada bem bonita.
    As frases são bem curtas, como se o pensamento do narrador se desse aos solavancos, aos poucos, como a loucura que o vai dominando.
    Entendi que a sua opção por deixar algumas palavras em negrito foi para passar a ideia da degradação da mente do sujeito, a gradual loucura se instalando até a morte.
    A trama é carregada de angústia e pesar, levando o leitor a um labirinto sem fim. Ou até se encontrar na mesma lama do narrador. Lama que poderia ser também areia movediça, que puxa para as profundezas de uma mente perturbada.
    Boa sorte e que a lama não te alcance.

  16. Sábia
    2 de novembro de 2020

    Resumo : Um policial perde a noção da realidade e acaba se matando.
    Comentário : O conto é muito bem escrito. Me levou a refletir : Até que ponto de frustração o ser humano aguenta até encontrar na loucura uma forma de fugir da realidade ?

  17. Regina Ruth Rincon Caires
    2 de novembro de 2020

    Sinapses (Willian)

    Resumo:

    Acredito que seja a história da degradação humana, retratada, no conto, na figura de um policial. A liberdade, quando tolhida, leva a um único caminho: a insanidade. Não há como manter o equilíbrio. E o personagem chega ao suicídio.

    Comentário:

    O texto traz uma angústia na narração que vai tomando conta do leitor. O personagem carrega uma luta tremenda contra a perda da liberdade que, ao longo da estrada, agigantou-se. Limitou-se de tal maneira que perdeu dignidade, amores, valores. Um texto muito trabalhado, de difícil construção. Cada palavra, colocada e negritada “propositadamente” ao final de alguns parágrafos, serve como reforço daquilo que tenta explicar. Explicar para a vida e para ele próprio. Quer esclarecer, compreender. Mas, para ele, é uma estrada sem volta.

    Conto denso, cheio de significado, de culpa, de desculpa. Como leitora, fiquei hipnotizada. Um trabalho primoroso. Deslizes de crase, vírgulas, pouca coisa. O texto tem tanto valor que deslize (facilmente “consertável”) não diminui absolutamente nada.

    Parabéns, Willian, seu trabalho é muito bom!

    Boa sorte no desafio!

    Abraços…

  18. antoniosbatista
    1 de novembro de 2020

    Resumo: Policial traumatizado, tem surtos psicóticos, bota dinheiro fora como se estivesse libertando os animais que ilustram as cédulas. Ele tenta voltar a vida normal, mas não consegue e acaba se matando.

    Comentário: O conto tem um ótimo argumento, as frases curtas ficaram excelentes para descrever o drama das ações do personagem. Os adjetivos que encerram os parágrafos foram dispensáveis, não contribuíram em nada com o que já havia sido dito. Se tornou um simples adorno, sem impacto na estética do texto. O início ficou meio confuso, mas com o tempo vamos descobrindo o que está acontecendo com o personagem. Ficou legal a construção nesse aspecto.
    Boa sorte.

  19. Bianca Cidreira Cammarota
    31 de outubro de 2020

    William, boa noite!

    O conto relata um policial em surto psicótico, fruto de algum trauma que não é especificado claramente. Sua memória retorna em pedaços desconexos, trazendo-o quase à sanidade, mas logo afundando novamente na dissociação, em um ciclo vai-e-volta. Após as lembranças desconjuntadas o assolarem, ele se mata.

    Uma forma intrigante de escrever um conto. Os períodos curtos sugerem um travamento na capacidade de pensamento, como um carro engasgado que tenta funcionar. Já ouvi relatos de pessoas que tiveram surto e o pensamento funciona de forma similar ao descrito no conto.

    Da mesma forma engasgada, seguimos a história, também travados, sem fluidez, muito embora estejamos andando. Não coloco aqui como um defeito, mas sim como coerência e sincronia com o protagonista, pois imagino que o autor desejasse esse efeito.

    Admiro a originalidade e genialidade de um conto escrito assim, muito embora ainda não o tenha digerido, talvez pela profunda estranheza a mim. Gostei dos ganchos e dos conexões do texto, o qual nos unimos ao longo da história, como pistas ocultas em uma busca ao tesouro.

    Após essa primeira leitura, darei um tempo para que o texto assente, para que volte a ele, a fim de que possa senti-lo melhor e perceber a natureza de seu impacto comigo.

    Mas já adianto ao leitor que admiro sua engenhosidade no formato do texto. Percebe-se que o autor possui conhecimento e experiência na escrita e que, por isso mesmo, ousou um salto.

    Abraços.

  20. Alexandre Coslei (@Alex_Coslei)
    30 de outubro de 2020

    Um policial segue num processo de enlouquecimento, desconectando-se com a realidade, até o desfecho trágico que dá a própria vida.

    O leitor do Manual de Redação da Folha de SP não gostaria deste conto. Veria nele redundâncias, adjetivos, excesso de palavras etc. O que nos consola é que o leitor de manual pode gostar de escrever, e talvez escreva direitinho, mas perdeu a capacidade lúdica da leitura. O leitor de manual não considera o contexto, as associações psicológicas, a importância da palavra. Sua sanha obsessiva quer somente decepar o texto, como se o texto bom fosse o texto aleijado. Confunde a escrita magra com a desnutrida. Manuais fazem mal ao bom senso crítico. Na contramão do leitor de manual, eu gostei muito deste texto.

    O autor destacou palavras, colocando-as em negrito, na tentativa de um toque de originalidade que marca os eixos da ideia central. Quem não arrisca, não petisca. O autor arriscou e não foi mal. A abertura do conto é ótima, intrigante, nos faz querer ler mais, acompanhar o personagem.

    É um tipo de suspense psicológico que segue em paralelo com o crescente delirante do narrador. O autor teve boa levada Há um clima sufocante que vai nos envolvendo através de uma narrativa telegráfica em algumas passagens. Firme, o autor nos conduz ao final surpreendente.

    Gostei.

    Sucesso.

  21. opedropaulo
    30 de outubro de 2020

    RESUMO: Um ex-policial lida com a própria loucura enquanto tenta assimilar, perdido no tempo e na memória, as últimas perdas pelas quais passou. Do pai, da família, do respeito, da dignidade e da sanidade, esta última mais ganho do que perda.

    COMENTÁRIO: Listarei alguns elementos que, combinados, atribuem singularidade ao texto: não-linearidade; uso da primeira pessoa; palavras-chave marcando os parágrafos. Dessa forma, enquanto um resumo linear daria conta da estória em poucas linhas, não a favoreceria com uma narração fiel do conto. O uso da primeira pessoa imerge quem lê na psique fragmentada da personagem, levando o leitor pela desordem de suas memórias, confundindo o que causou o quê e como chegou aonde chegou. O formato foi interessante principalmente ao abordar o tema, aprofundando-se na loucura do personagem. Para contar a estória, entretanto, acho que o formato não funcionou bem. As palavras-chave destacadas em negrito pareceram querer tonificar a leitura, assim soando invasivas e inconvenientes. A não-linearidade favorece o conto com verossimilhança, mas por se distribuir por toda a leitura, acaba por cansar, principalmente por não haver um problema específico a motivar a estória, nem mesmo a mania voltada ao dinheiro servindo como ponto de partida da trama – mas uma ótima sacada. Eu não diria que é obrigatório que todo conto gire em torno de um único conflito, o início, meio e fim podendo passar sem a resolução de um problema. O que prejudica o conto é que o seu estilo é cansativo e, sem esse senso de “para onde estamos indo”, a leitura se arrasta, chegando a um final sem impacto.

  22. Fheluany Nogueira
    30 de outubro de 2020

    Policial lida com suas decepções, rasga dinheiro imaginando estar libertando os animais estampados nas notas, repassa os momentos de sua degradação e acaba por cometer suicídio.

    É, rasgar dinheiro é estágio máximo da loucura. Conteúdo e estilo bem amarrados. Técnica interessante que se assemelha a um quebra-cabeça que o leitor vai montando — blocos, palavras em destaque (Ao meu ver, pecou pelo excesso), frases e parágrafos curtos, apesar se que o conjunto desses recursos tornou a leitura um pouco cansativa.

    Parabéns e boa sorte! Um abraço.😉

  23. Fernanda Caleffi Barbetta
    29 de outubro de 2020

    Resumo
    Policial, após algum trauma, decide rasgar dinheiro imaginando que está salvando os animais que estampam as notam. Aos poucos vai se lembrando de fatos do passado e acaba de matando.

    Comentário
    Legal a sua ideia de colocar o protagonista rasgando notas de dinheiro imaginando que assim salvaria os animais impressos no papel moeda brasileiro. Boa sacada. Gostei.
    Muito interessante a forma como vai nos dando pedaços da história, como vai nos mostrando a história do protagonista sem contar em detalhes o que realmente aconteceu. Vamos conhecendo o personagem aos poucos, sempre na superfície, mas mesmo assim criamos uma empatia.
    Gosto dos períodos curtos, dão um bom ritmo ao texto. Não gostei das palavras em negrito, pareceram querer forçar a nossa leitura a um caminho desejado pelo narrador. O narrador apareceu muito ali, na minha opinião.
    Gostei bastante desta parte, lá no finalzinho: “ Ele surge. Exatamente como dito nos livros. Figura cadavérica. Chifres longos. Lança pontiaguda. Estou pronto. Resignado. Expio meus pecados.” Inclusive sugeriria que acabasse ai, porque o final mesmo, o último parágrafo, ficou um pouco clichê: “Dói. Bem menos do que quando estava com vida”.
    Você escreve muito bem, o que me incomodou bastante quando encontrei alguns erros que podem parecer bobos, mas que são importantes:
    Migalhei – esmigalhei
    liberta-las – libertá-las
    toca-la – tocá-la
    solta-la soltá-la
    Riscos que não haviam (havia) nas outras notas
    bastante (bastantes) garoupas
    A mesa a (à) direita
    “Vai lá rasgar o resto do dinheiro que tem (vírgula) seu insano”
    Sinapses conectaram se (conectaram-se) entre si

  24. Angelo Rodrigues
    29 de outubro de 2020

    Resumo:
    Homem constrói a sua trajetória, quotidiano, mostrando a sua degradação. Para isso, até certo ponto, usa os animais das notas do dinheiro brasileiro. Transfigura-os em seres vivos e os liberta, como se, ali, sobre aquele papel muitas vezes sujo, os aprisionasse.

    Comentários:
    Caro autor, um conto interessante.

    A associação entre animais e sua vontade de libertá-los parece ter funcionado bem.
    Notei a invenção de um javali. Durante todo o texto, percebi um pouco da passagem da graça no meio da aparente loucura. Tem essa do javali, tem também a do dinheiro na cueca, do Chico Rodrigues. Dinheiro sujo.

    Notei que o protagonista devia estar realmente doido quando li

    “Fui abordado por dois policiais que me abraçaram. Um deles me perguntou se eu estava bem. Tentei reconhecer aquele homem. Não me lembrava. Entramos. Tomei um café junto deles. Sinergia.”

    Bem, um policial abraçando alguém e perguntando se ele estava bem, conseguiu delinear realmente uma figura insólita de linguagem, digna de expressar um estado de loucura.

    O conto guarda, até certo ponto, semelhança com o conto Alegria (Sr.) quando se assemelha ao senso de exploração do protagonista.

    A questão dos epígrafes formuladores após os parágrafos não me pareceu confortável, como se o autor dissesse para mim o sentimento que eu deveria ter ao ler aquele trecho, ou que, ele mesmo precisasse me dizer o que me estava passando como mensagem. Não acho que isso ajude.

    O conto foi feito a partir de pequenos blocos construtivos, frases custas que a todo momento buscavam uma conexão que desse coerência à estrutura global do texto. A opção pela falta de recursividade nas frases, tornou o conto algo como uma espécie de chico-picadinho textual, como se me dissesse a todo momento sobre a sofreguidão do personagem, a sua interminável voragem.

    Foi isso.

    Boa sorte no desafio.

  25. Anderson Do Prado Silva
    28 de outubro de 2020

    Resumo:

    Policial enlouquece e decide se livrar do dinheiro sujo.

    Comentário:

    Este é um conto muito bom! Friso: conto. Faço-o porque o estilo adotado, se se estendesse por mais linhas, teria me cansado, pois os enunciados são muito curtos.

    Assim, o autor teve de se equilibrar para evitar excessos. Em se tratando de um conto (conforme frisei), achei que o autor se desincumbiu muito bem da tarefa. Antes de iniciar a leitura, supus que iria ser cansativo, mas, toda vez em que me avizinhava do cansaço, o autor manobrava e tornava o texto interessante.

    Achei a investida muito corajosa! E o enredo é muito bom, apesar de eu sempre me incomodar com a narrativa em primeira pessoa com autores defuntos (neste ponto, não me entenda mal, pois a implicância se estende também ao Memórias póstumas de Brás Cubas, do Machado, livro inegavelmente fantástico e, até, destoante em qualidade do restante da obra do próprio Machado).

    Este autor possui excelente domínio do léxico e nos trouxe um texto muito bem revisado. Tive a impressão de ter faltado em “mesa a direita” uma crase e, em “físicas tinha”, uma vírgula.

    Gostei muito da frase “A sanidade é um dom. A insanidade uma dádiva” (é um dos pontos altos do conto), mas faltou vírgula entre “sanidade” e “uma”, por causa da contração da forma verbal “é”.

    É o segundo conto no desafio que angariará, junto a mim, nota máxima (mas, ao longo do desafio, se pintar um texto muito melhor, posso dar nota máxima para ele e, em consequência, reduzir a nota em um ponto de todos os demais; mas espero, com sinceridade, que isso não venha a ocorrer, pois gostei muito desse seu texto)!

    Parabéns pelo texto e sucesso no desafio!

  26. Thiago de Castro
    28 de outubro de 2020

    Resumo: Policial perturbado lida com a frustração do divórcio, o relacionamento com o pai e os problemas da profissão rasgando cédulas de dinheiro. Desorientado, refaz os caminhos que o levaram a degradação até encontrar, no suicídio, a cura definitiva para sua dor.

    Comentário:

    O texto tem uma cadência de acontecimentos, quase um relato documentarista da cabeça do narrador, que justifica, o tempo todo, a razão do seu rasgar de notas. É um texto mais experimental, com palavras sintetizando a sensação de cada parágrafo, o que pode desagradar um pouco a leitura, pois soa como uma necessidade de reforçar as sensações do personagem. Gostei quando você inverteu a lógica no parágrafo do pai, o destaque em negrito da palavra “impiedoso” vem antes, assim como a perspectiva que o protagonista tem deste homem, mas depois desse momento a fórmula se perde e você retoma uma narrativa tradicional para encaixar o trauma e depois volta novamente aos destaques. Achei o texto um tanto quanto robótico, provavelmente pela forma como você decidiu pontuar, mas não deixa de dialogar com a maneira como o policial enxerga o mundo, em flash, conexões, desconexões, uma agonia desorientada que se dá tanto pela profissão quanto pelos erros como marido, como policial e como filho. Além disso, há uma complexidade na trama por trás do relato: o problema com a família, a relação do “parceiro de farda” erodida pelo corrupção, o pai e o irmão, enfim, uma série de elementos que orbitam o protagonista e lhe dão possibilidades de interação. Há muitas escolhas a serem feitas por esse desgarrado policial.

    O desfecho é, assim como o texto, ausente de sentimentalismos, cru. Não tive tanta empatia pelo personagem, mas admiro a execução apesar de uma questão ou outra. Achei que o conto dá um bom argumento para um romance.

    Encontrei dois pequenos erros de revisão em “liberta-los.” e “agredi-la”.

    Parabéns e boa sorte!

    • Thiago de Castro
      28 de outubro de 2020

      Caro autor, o erro de revisão, no caso, foi meu. Os termos apontados estão corretos.

      Boa sorte!

  27. Giselle F. Bohn
    28 de outubro de 2020

    Viagem pela mente doente de um policial.
    Sensacional! Fiquei com a respiração em suspenso, tamanha foi a tensão criada. Adorei as orações curtas e a narração em primeira pessoa no tempo presente – o que deu um toque de roteiro cinematográfico ao conto. Genial!
    Há algumas falhas de revisão, e – minha opinião apenas – achei desnecessárias as palavras em negrito. Acho que não chegaram a atrapalhar o ritmo da narrativa, mas não acrescentaram nada. Mas nem isso e nem os pequenos errinhos tiram o brilhantismo do conto!
    Altamente recomendado! Cinco estrelas! Comprem sem pestanejar! Ops, não é avaliação na Amazon! 😉
    Parabéns e boa sorte!

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Informação

Publicado em 28 de outubro de 2020 por em Loucura.