EntreContos

Detox Literário.

Loucas Vozes Geniais (Homero Arquíloco)

– A senhora Ângela Brila e o senhor Álvaro Reganta? Podem passar, por favor – convocou uma jovem mulher à porta da sala de audiências.

O casal entrou acompanhado por um advogado. Os três foram convidados a sentar, todos a um mesmo lado da estrutura de mesas que formava um “u”. Na base da referida estrutura de móveis, a jovem estagiária Pâmela, que realizou a chamada anteriormente, postou-se frente a um computador, sentada à esquerda do juiz Dr. Márcio Freneza, no lado oposto ao promotor de justiça, Dr. Ítalo Fanfaronema.

– Boa tarde, senhora Ângela Brila. Pode, por favor, sentar nessa cadeira aqui ao centro – instruiu Márcio, em um tom simpático, quase esboçando um sorriso no canto direito dos lábios.

No momento em que Ângela caminhava, receosa, até o centro da sala de audiências, o magistrado folheava os autos do processo aberto sobre sua mesa. A mulher sentou e ficou quieta, com o olhar pesado, caído um pouco à frente dos próprios pés. Álvaro, em sua cadeira sacudia muito as pernas, de modo a fazer com que todo o seu corpo vibrasse compassadamente. De seu lado, o advogado encarava os gestos daquele que promovia a análise dos documentos contidos no processo.

À base do “u” formado pelas mesas, enquanto o Dr. Ítalo se distraía com as provas de outro caderno processual e Pâmela permanecia focada na tela de seu computador, aguardando para degravar o depoimento de Ângela, o Dr. Márcio segurava, com o polegar e o dedo indicador, as pálpebras fechadas, como se, olhando bem adentro, pudesse divisar, de modo a prevenir, uma enxaqueca a se aproximar. Após alguns instantes estampando na face a expressão de sofrimento, o magistrado retomou a instrução da solenidade:

– Cuida-se de audiência de impressão pessoal, fins de averiguar a capacidade civil de Ângela Brila, que, conforme delineado nos termos da petição inicial, se encontra, hodiernamente, desde o diagnóstico expresso no laudo médico acostado à folha onze dos autos, incapacitada de realizar os atos da vida cotidiana. Passo, de pronto, à oitiva da interditanda.

Ângela, franzindo os olhos, encarava o juiz com a expressão interrogativa de quem não compreende com clareza o discurso do interlocutor.

– Senhora Ângela, gostaria que me informasse acerca de seu cotidiano.

A mulher manteve a expressão anterior, permanecendo silente. 

– Relate as atividades desenvolvidas em seu dia a dia – complementou o Dr. Márcio.

– Acordo. Respiro. E vibro. Assim eu emano a minha luz – respondeu com evidente secura na voz, como quem replica uma ofensa.

O magistrado fazia anotações em um bloco de notas.

– A senhora desempenha alguma atividade laboral, dona Ângela? Trabalha?

– Nasci e morri poeta. Hoje, não sou mais que metáfora, doutor…

– O senhor Álvaro é quem provê o sustento da casa?

– Produzo zines com minha poesia. Vendo minha alma riscada com sangue em cada verso que dorme impresso naquelas linhas.

Por breves instantes, a face do juiz expressou, sem dúvida, a admiração do olhar de uma criança. Tornou a demonstrar sofrimento, ergueu um pouco a vista, focando em um canto vazio da sala de audiências, e, logo em seguida, retomou a entrevista:

– Necessito, agora, que a senhora informe acerca do surto esquizofrênico relatado no prontuário médico acostado à folha onze dos autos do processo.

– Café.

– Especifique.

– Quando estava distribuindo as pétalas do meu coração para aquela gente da noite, vendendo zines numa apresentação da banda do Álvaro, como tinha acordado cedo pra fazer uma faxina, deu sono e acabei tomando café demais. O médico disse que foi por isso.

– Detalhe melhor em que consistiu o surto.

– Aquela pira abriu umas janelas que tinham se fechado há tempos, doutor. Eu consegui sentir o fedor da vida que passou e morreu em mim. Velei as dezenas de Ângelas que já não existem nem em sonho.

– A senhora relatou ter acordado cedo para realizar uma faxina, mas disse que vive de poesia…

– Sou viva de poesia. Vivo a poesia. Pago a conta de luz limpando casa de quem nem viver vive.

– A senhora é proprietária de algum bem?

– Do bem-estar – respondeu, sorrindo pela primeira vez desde que chegou ao fórum.

– Poderia relatar o concernente à sua relação com o senhor Álvaro?

– A gente divide a cama.

– Vocês vivem juntos há quanto tempo?

– No começo, o tempo nem contava horas, doutor. Éramos só natureza. Mas começou naquele show, quando a data ainda era uma questão, em 02 de agosto de 2017. Éramos leves e nos entrelaçávamos como fumaça no teto de um quarto fechado. Agora – fez uma breve pausa voltando a cabeça para Álvaro – ele é meu macho.

– Possui contato com familiares, senhora Ângela?

– Meus parentes já voaram. Família, pra mim, é um dente-de-leão arrancado de raiz.

O magistrado olhou novamente para o mesmo canto vazio da sala de audiências por alguns instantes e fez mais anotações. Fitou a tela do computador da estagiária por alguns minutos. Meneou a cabeça, consentindo com o conteúdo, e dispensou Ângela, cientificando-a do prazo para manifestação contrária à interdição nos autos do processo, mediante constituição de procurador.

No momento em que os três deixaram a sala de audiências, o Dr. Ítalo opinou, aos risos, que a interditanda não se manifestaria em contrário, afinal ela era, mesmo, “completamente louca”. O juiz apenas sorriu de forma tímida.

*

Cerca de um mês e meio após a audiência de impressão pessoal sobre a capacidade civil de Ângela Brila, na antessala do gabinete do Dr. Márcio, local onde se situava a sala dos assessores, Horácio Laudanto transmitia as instruções gerais de trabalho ao novo colega Paulo Novulo, que tomara posse do cargo naquela semana. Enquanto apartavam os autos movimentados para despacho e sentença, recém-chegados do cartório judicial, Horácio vangloriava-se de soluções que teria logrado encontrar para imbróglios densos e de áspera resolução, em relação às quais teria sido, inclusive, parabenizado pelo magistrado, superior de ambos os interlocutores. Em relação a este, Horácio não deixava de questionar se o novo colega conhecia as teses, se já havia lido algum de seus livros, manuais e compêndios. Enfatizava a sorte em assessorá-lo.

– O cara vem de uma família de juízes, é um gênio desde o berço! Tem uma biblioteca na cabeça e é precursor de muitas linhas argumentativas que depois ganham força no Tribunal. Com o tempo vais ver a genialidade dele – frisou Horácio, empolgadíssimo.

Um tempo depois, o magistrado saiu do seu gabinete, sendo interpelado pelo assessor mais antigo a respeito do processo de Ângela Brila, cujo prazo para manifestação contrária à interdição já havia expirado, conforme sinalava a petição do advogado de Álvaro, que solicitava a determinação imediata da curatela.

– Agora, a gente tem que determinar a produção da prova pericial e… – Márcio cortou a frase no meio, apertando os olhos com os dedos indicador e polegar, encostando-se pela mão esquerda em uma estante de madeira disposta no interior da sala dos assessores.

– Tudo bem com o senhor, Dr. Márcio? – questionou Horácio.

O magistrado arregalou bem os olhos, voltou-se para o espaço entre ambos os assessores e suspirou fundo, explicando a volta de sua enxaqueca rotineira. Pediu que o assessor aguardasse um instante e retornou ao gabinete. Passados alguns minutos, tornou a adentrar a antessala e despejou sobre Horácio o seguinte:

– Mova os autos para sentença. Determine a interdição imediata da requerida, tendo em vista sua notória condição mental atribulada. Fundamente com fulcro no princípio do livre convencimento motivado do magistrado, asseverando ser este fator propulsor bastante para a determinação de tal medida, mormente no que tange à própria saúde da interditanda. Se não gostar, ela que constitua um procurador e recorra!

– Genial, doutor! Perfeito! – respondeu Horácio, quase aplaudindo.

– Qualquer dúvida, liguem para o meu telefone. Vou para casa tratar a enxaqueca. Peçam para a Pâmela desmarcar todas as audiências da tarde. Fiquem bem.

Após fechar a porta, Márcio ainda ouviu os elogios de Horácio:

– Viu? Eu disse que o cara é um gênio. Em seguida vai para o Tribunal.

O juiz saiu do fórum, entrou no carro, passou em uma padaria, comprando alguns mantimentos para um lanche, e, logo em seguida, pegou a estrada em direção à sua residência. O som do carro tocava, em elevadíssimo volume, Bags’ Groove, do Miles Davis. Márcio batucava, no painel do carro, junto ao som calmo do vibrafone de Milt Jackson, entretanto, suas batidas denotavam raiva e eram mais pesadas do que as de um surdista em um desfile de carnaval. Ao perceber o vazio dos campos que rodeavam o caminho, virou o olhar para o lado do banco do carona e gritou:

– Eu não te aguento mais! Me deixa trabalhar em paz, porra! Cansei, pai. Cansei! Não me interessa a tua genialidade ou teus anos de Tribunal. Não me interessa porra nenhuma!

Além dos brados de Márcio, somente o trompete de Miles Davis ressoava no interior luxuoso da SUV. Desferiu, desta vez, um soco no painel do carro.

– Porra! Sim, eu ia determinar a perícia! Aquela mulher não é civilmente incapaz. Ela é que é a porra de uma figura genial. E o senhor, vô, não sabe de nada! Nós estamos no século vinte e um! É normal uma mulher vender seus poemas por aí. Juiz não tem nada que se intrometer com a moral dos outros! Uma figura genial, sim! Queria eu viver poesia, ser vivo de poesia… vocês são uns escrotos. Nunca deixaram eu expressar nada! Uns velhos escrotos que nunca saíram da minha cabeça! Vozes julgando vozes: que grande piada! Vozes julgando vozes…

E, quando passava pela ponte do rio que faz a divisa entre a cidade do fórum e a cidade da sua residência, o juiz virou bruscamente o volante e lançou a SUV na ribanceira. Enfim, Márcio conseguiu calar aquelas loucas vozes geniais que há tanto tempo habitavam-lhe a cabeça.

31 comentários em “Loucas Vozes Geniais (Homero Arquíloco)

  1. Fil Felix
    26 de novembro de 2020

    Boa tarde!

    Vemos a história de duas personagens que tangeiam a loucura. A moça que vai a julgamento, apaixonada por poesia. E o juiz, que escuta ou é possuído por vozes.

    O conto tem partes bem interessantes, todo o diálogo entre o juiz e a moça ficou ótimo, principalmente por trazer essa personagem apaixonada, romântica e que vive poesia. É possível que o leitor enxergue nela muito de suas próprias características. E o leitor é levado a acreditar que ela mesma é a fonte da loucura no conto. A partir da metade, somos levados em outra direção, o que é uma surpresa. Mas nesse caso, a surpresa não foi muito boa, pelo menos pra mim. Há um contraste muito forte entre todo esse lado poético de um e o lado acadêmico do outro. Não sei se a ideia era trazer, de fato, esse contraste entre as partes, mas da maneira como foi desenvolvido ficou meio chato. Os termos, a exatidão das palavras, sentenças, etc (do campo do direito), além de dar um nome e sobrenome a todos os personagens (que por ser um conto curto, não precisaria de tanto, somente os principais), deixaram a leitura um pouco cansativa. O final traz essa surpresa, o juiz na verdade ouve as vozes do seu pai e do seu avô, que o guia na hora de proferir as coisas (quase como uma possessão). Ele se enche de tudo e se mata. Essa parte final foi abrupta demais e também um tanto explicativa, reforçando a ideia das vozes, que poderia ter tirado e mantido no ar, o leitor iria pegar a ideia do mesmo jeito.

  2. Jorge Santos
    21 de novembro de 2020

    Resumo: Juiz dita a interdição de uma poetisa, alegando ter esquizofrenia, sendo que ele próprio também sofre do mesmo mal.
    Este conto é uma alegoria à esquizofrenia própria dos tempos modernos em que temos de nos tornar máquinas e esquecer a poesia. Essa é a moral subjacente a este conto, que se perde nos meandros da gíria usada nos tribunais. Creio que houve aqui um excesso, que torna o conto bastante repetitivo. Essa mesma repetição não se limita à gíria profissional. Um exemplo disso é a repetição da descrição da mesa. Já sabíamos que a mesma era em “u”, não era necessário voltar a descrever dois parágrafos depois. São pequenas coisas que têm de ser melhoradas para aumentar a fluidez do conto, mas são pequenas coisas que fazem a diferença.
    Gostei do desfecho inesperado e da mensagem que é passada. É essencial a poesia na loucura da vida das pessoas.

  3. Amanda Gomez
    19 de novembro de 2020

    Resumo📝 Uma audiência para julgar a interdição de uma poetisa tida como louca. No fim o juiz se mostra o verdadeiro louco e se mata.

    Gostei 😃👍 Gostei da linguagem usada no texto, a ambientação do tribunal e seus personagens, sobretudo os diálogos da poetisa. Ficaram ótimos. O clima de tensão sobre o que estava em jogo ali também funcionaram bem. Parabéns!

    Não gostei 😐👎 O texto começa criando expectativas sobre uma coisa e no fim se mostra, tal como o carro desgovernado do juiz, indo para uma direção totalmente oposta. Depois da primeira cena da audiência a conversa do juiz e o outro funcionário a cerca de sua sabedoria e etc, ficou muito deslocada. Acho que existiam formas melhores de preparar o leitor para a virada na história. Que é justamente a apresentação da loucura do juiz. Acho que o autor se perdeu um pouco no caminho. A confusão mental narrada no carro é abrupta e no geral não justifica o suicídio. Estava mais interessada na poética louca… Mas, entendi que ela tenha sido apenas um gatilho para a hipocrisia do excelentíssimo.

    O conto em emoji : 👨🏻‍⚖️😵

  4. Anna
    19 de novembro de 2020

    Resumo : Um juiz condena uma poetisa que teve um surto. No desfecho se descobre que ele odeia a própria vida e queria ser poeta. Acaba por se matar.
    Comentário : O conto mostra que ser bem sucedido profissionalmente não é tudo, é melhor ganhar menos e ser feliz. O juiz é um exemplo de pessoa infeliz.

  5. Rafael Penha
    17 de novembro de 2020

    RESUMO: Juiz de direito preside audiência com casal e em seguida, começa a questionar sua sanidade e seu legado de família. Termina por se suicidar por não aguentar a pressão familiar na sua mente.

    Um conto rápido e sem rodeios. Como operador do Direito eu mesmo, fiquei satisfeito ao verem transcritos aqui todos os jargões e palavreados típicos da profissão e da solenidade da audiência, mas da forma como foram expostos, soou ridiculamente inútil. Uma espécie de floreio ou mentira pra enganar os incautos de que aquele é um lugar de pessoas sãs e respeitáveis.
    No início, achei que o conto era sobre o casal, e isso me desconcertou quando o foco foi para o juiz.
    Gostei dele tentar se manter sobre o manto do modelo de conduta que é um juiz e perder a cabeça depois, mas eu qualificaria isso mais como um surto que loucura propriamente dita. O que vimos poderia se tratar de uma pessoa comum tendo um Burnout.
    Acho que sua loucura poderia ser melhor desenvolvida para não aparentar apenas um surto. E o suicídio também foi uma saída fácil para o personagem. Me deu a entender que ele enfrentava a dita loucura
    A narrativa é interessante, a gramática é excelente e a condução do conto é boa, mas acabou me levando a crer mais que o juiz estava “de saco cheio” do que enlouquecendo. Talvez realmente uma melhor construção resolvesse o problema.
    Mas em suma, gostei. Um grande abraço!

  6. Andre Brizola
    13 de novembro de 2020

    Olá, Homero.

    Conto sobre um juiz, responsável por decidir a interdição de uma poetisa por incapacidade civil. Após a sentença, ele confronta as vozes de seu pai e seu avô, verdadeiros responsáveis por sentenciar a poetisa como incapaz, uma vez que o juiz, na verdade, não desejava fazê-lo. Como tal.

    Gostei do enredo dividido em duas partes. A primeira estabelece a personagem do juiz como profissional centrado em seu ofício, julgando imparcialmente de acordo com a lei. A segunda já o delimita como pessoa, dono de carreira invejável, mas atormentado pelos desejos e vontades limitantes de seu pai e avô. O final, com o confronto delirante e o aparente suicídio complementam bem o desencadeamento de eventos.

    Mas, meu, me desculpe, mas se tem uma coisa muito ruim de ler é o linguajar jurídico. Petição, acostado, autos, oitiva, cientificar. Quase como ler um ofício. Esse parágrafo em particular quebra demais o ritmo da leitura na primeira parte do conto. O contraste com o linguajar da poetisa deixa tudo mais drástico ainda. Sei que foi intencional, mas não funcionou pra mim.

    Por outro lado, o surto do juiz e o final drástico e abrupto foram interessantes. Não esperava tal rumo, e gostei da solução. E o conto tem a loucura como tema, claramente, o que é um detalhe pertinente que gosto de observar.

    É isso. Boa sorte no desafio!

  7. Ana Maria Monteiro
    11 de novembro de 2020

    Olá, Autor.
    Resumo: Um juiz julga o caso de uma mulher poeta num caso em que se pretende que ela seja interditada. A mulher defende-se com argumentos que, aparentemente, sustentam a acusação. O juiz acaba por dar razão à parte que solicita a referida interdição. Essa sentença traz a carga de todo um passado familiar, pai e avô, também juízes e mentores de cujos exemplos não consegue libertar-se, o juiz não concorda com a sentença que deu à fria luz da lei. Desesperado por não conseguir a desejada libertação desse passado que o formatou, suicida-se.
    Comentário: Divido este conto em três partes, os clássicos princípio, meio e fim. Essas três partes variam bastante quanto ao conteúdo e qualidade narrativa (a qualidade da escrita nunca está em causa); a primeira é um pouco legalista em excesso, existe todo um jargão legal que, não sendo de todo desconhecido do leitor, o afasta um pouco de enredo em que deseja mergulhar; a segunda, durante o julgamento, é perfeitamente genial; a última, que também pode ser dividida em duas, é fraca – a conversa entre Horácio e Paulo, tornar-se-ia desnecessária e poderia ser brilhantemente substituída para obter o efeito desejado que é introduzir o leitor ao conhecimento dos gloriosos antepassados do juiz e o próprio surto final deste também poderia ter sido trabalhado de forma mais subtil.
    Independentemente destas minhas observações, o conto tem momentos de brilhantismo que raramente se encontram e o discurso e postura personagem julgada são fantásticos. Talvez os melhores momentos do desafio (pelo menos, até onde já li).~
    Ângela não é louca, é antes uma alma livre e absolutamente lúcida e as vozes que ecoam na cabeça do juiz, não vejo como vozes, mas antes como o peso da tradição e das aparências em famílias com transportam certos cargos de geração em geração.
    O conto é bastante competente no atendimento ao tema do desafio. A loucura de cada dia e de cada um de nós, é denunciada por Ângela, a interditada, a incapaz. A restante loucura aparente com que o autor semeia os personagens, é mera ilusão.
    Parabéns e boa sorte no desafio.

  8. Paula Giannini
    10 de novembro de 2020

    Olá, Contistas,

    Tudo bem?

    Resumo – Juiz confrontado com a própria doença, ao precisar julgar um caso de esquizofrenia.

    Meu ponto de vista:

    Mais que um conto sobre a esquizofrenia de um Juiz, o texto, ao menos para esta leitora aqui, é uma defesa da poesia. Julgada por querer viver de suas letras, a senhora Ângela Brila é a personificação do poeta (e mesmo do artista) dentro desta estrutura de defesa: “Sou viva de poesia. Vivo a poesia. Pago a conta de luz limpando casa de quem nem viver vive.” O artista que, por vezes, chega a passar fome na tentativa de viver de sua arte. Esse mote, ao passo que é o ponto alto desta criação, é, por outro lado, também sua fragilidade, já que “artista louco” e “artista que tem dificuldade de viver de arte” é quase um clichê.

    Como leitora, opto pela primeira opção. A de que a premissa acerca da arte é muito bem sucedida, especialmente se analisarmos que, como desfecho, o(a) autor(a) traz o Juiz como o verdadeiro louco do conto. Assim, temos o embate: a transgressão da arte x a sociedade dita comum.

    Um ótimo trabalho. Parabéns.

    Como tenho dito a todos, se acaso minha análise não se encaixe em sua obra, basta desconsiderá-la. Aqui, afinal, estamos todos para aprender.

    Beijos e boa sorte no desafio.

    Paula Giannini

  9. Luciana Merley
    10 de novembro de 2020

    Loucas vozes geniais
    Olá, autor
    Um juiz louco julgando ser louca uma poetisa genial e louca.
    Impressões Iniciais – Um texto com um ótimo início, super instigador, mas que (des)perambeira no final.
    COESÃO – Narrativa gira em torno do julgamento de possível incapacidade de uma mulher. A sensação que permeia o texto, de despropósito, de que algo está errado com as aparências, e que algo vai acontecer e mudar tudo, nos acompanha até 2 terços da narrativa, que é quando o autor parece se cansar e entrega tudo.
    RITMO – Bom, linguagem fluida e elegante na maior parte do tempo, apesar dos nomes estranhos e de pronúncia trava línguas.
    IMPACTO – Muito promissor no início. Muito instigador. Muito desapontador no final. O desfecho explicativo e fechado de forma trivial matou seu texto. Infelizmente. É com esse gosto que eu fiquei.
    Um abraço.

  10. opedropaulo
    9 de novembro de 2020

    RESUMO: O juiz Márcio é pelo menos o terceiro nome da geração de magistrados que o antecedem. E o acompanham.

    COMENTÁRIO: Jogando entre ré e juiz, conseguiu despistar o leitor do que seria o centro temático do conto. Por isso, a reviravolta próxima ao final realmente pega de surpresa, o que é um ganho narrativo. Contraponto a isto é a maneira como foi escrito. Para além de ter em si a erudição, arrisco que o autor domina os trâmites judiciais, tendo os incluído em toda a sua solenidade e ritualística nas linhas que compõem o conto. Infelizmente, embora dê verossimilhança e acomode o conto no ambiente escolhido pelo autor, acaba distraindo e arrastando a leitura. Não chega a ser excessivo, mas atrapalha. E não é apenas o “juridiquês”, mas a maneira de descrever e situar as ações que, principalmente no começo, deriva em parágrafos longos que parecem dar voltas em si mesmos. Para começar um conto, não é algo bom.

    No início, esse elemento negativo é contrabalanceado com as respostas intrigantes da ré; no meio, é um infortúnio que retorna, mas, no final, percebe-se que Horácio não era um mero puxa-saco, mas uma forma de nos informar mais sobre Márcio, e então se compensa. Apesar disso, estendo a minha crítica à opção de ter encerrado conto assim que se revela o que passa na cabeça do protagonista. Gostaria de ter visto mais do seu dia-a-dia, das discussões jurídicas e banais entre louco e seus fantasmas. Isto, que poderia ter sido a premissa do conto, portanto tendo espaço para mais desenvolvimento, findou sendo a sua reviravolta e, portanto, tem apenas a força da surpresa, não a de uma trama completa.

    Boa sorte!

  11. Jefferson Lemos
    9 de novembro de 2020

    Resumo: a genialidade através da ancestralidade e da loucura.

    Olá, caro autor!
    Achei seu conto muito bem escrito. Em alguns momentos achei que se alongou demais. Alguns diálogos me pareceram muito cansativos, mas tenho que assumir meu desgosto por assuntos processuais e coisas do tipo: eu simplesmente odeio ler ou ter que aprender sobre leis porque acho isso uma das coisas mais chatas do universo. Então acaba que tudo que envolve esse mundo do direito, me faz virar o nariz. Mas acredito que seja o estilo de narrativa que melhor se encaixaria, e apesar de não ser dos meus favoritos, me ganhou aqui.
    Quanto a história, achei bem legal. Esse de viver de poesia é visto com delírio pela sociedade aqui fora, nem precisamos ir tão longe na literatura, né…
    Gostei do que você fez aqui, de uma forma geral. Foi um conto bem legal e com um desfecho de bastante loucura, se encaixando muito bem no desafio.

    Parabéns e boa sorte!

  12. Elisa Ribeiro
    9 de novembro de 2020

    Juiz tem que lidar com vozes ancestrais que decidem por ele pela interdição por loucura de uma jovem mulher poeta que por sua própria decisão ele julgaria sadia.

    Argumento e ambientação bem singulares por aqui, o que é bom. A personagem Angela Brila produziu os melhores momentos poéticos do desafio até o momento, para o meu gosto. Sobretudo em razão do destaque que o enredo, de forma inteligente, deu à voz da personagem e também pelo contraste com o jargão jurídico burocrático da fala dos outros personagens.

    Há um excesso de personagens com nomes e sobrenomes curiosos no texto que para mim combinaram com o enredo, contribuindo para o efeito de ironia produzido pelo autor.

    O final me pareceu meio preguiçoso e, talvez, desnecessário. O conto poderia ter acabado com a revelação das vozes. Uma pena. É possível que iniba meu dez, a depender do que encontrarei pela frente.

    O que não gostei: o final não combinou com a sua história. Muito vulgar para uma narrativa tão elegante. Desculpe a sinceridade.

    O que gostei: das falas lindamente poéticas da personagem Angela, Da ironia. Da forma como você arquitetou sua história.

    Grata pela ótima leitura. Bem do tipo que eu gosto. Parabéns e sucesso no desafio.

  13. angst447
    8 de novembro de 2020

    RESUMO
    Juiz lida com caso de interdição de uma poetisa. Parece sofrer de crises de enxaqueca. No final, descobre-se que ele, o juiz, é que surta com um episódio esquizofrênico, ouvindo as vozes do pai e do avo em sua cabeça. Acaba se suicidando para assim calar as vozes.

    AVALIAÇÃO
    Conto menos longo do que os demais, o que me surpreendeu, pois cheguei rápido ao final.
    A linguagem transita entre o jargão do judiciário e a poesia, sendo que os personagens são caracterizados pelas suas falas. Há lirismo e leveza nas palavras da poetisa interditada, enquanto que juiz e advogados adotam um linguajar menos acessível e mais arrastado.
    Alguns detalhes poderão ser reavaliados para um acerto quanto á revisão, mas nada muito grave.
    O final foi muito bem desenvolvido e teve impacto. Não esperava por tal desfecho, o qual me agradou muito.
    Boa sorte e que as vozes te deixem descansar.

  14. Misael Pulhes
    5 de novembro de 2020

    Olá, “Homero Arquiloco”.

    Resumo: Um juiz que analisa um caso de interdição de uma aparente doida se mostra, ao final, o verdadeiro lunático, lutando uma luta antiga com as vozes do pai e do avô, também juízes no passado.

    Comentários: O conto é estruturalmente muito bom. Tem aquela coisa meio Hitchcockiana de começar com um personagem, que parece o protagonista, e rumar para outro, o verdadeiro protagonista (cf. “Psicose”). O autor mostra amplo conhecimento dos termos afetos ao background no qual o texto se desenrola. É óbvio que a ênfase nos diálogos técnicos incomoda um pouco.

    O final muito brusco e meio “lugar comum” não foi tão impactante quanto poderia.

    De todo modo, um texto com técnica e muitas virtudes. Boa sorte!

  15. Alexandre Coslei (@Alex_Coslei)
    4 de novembro de 2020

    Juiz condena uma poetiza e entra num processo paranoico, oprimindo-se e alcançando a loucura que impõe a ele um fim trágico.

    Muito mais do que abordar um tema, o conto se propõe a ser temático quando decide se enveredar pelo idioleto jurídico. A originalidade está nisso, mas também é onde o conto encontra a sua fragilidade. Criar ficção transitando por profissões que possuem características é um desafio. O desafio está em conquistar o interesse de quem lê, em não entediar o leitor, em não deixar que ele enjoe, não se identifique e abandone a leitura. No caso deste conto, o autor é habilidoso, contorna com talento o risco, mas aqui e ali é inevitável que um leitor que não sinta afinidade com o mundo jurídico fique descontente.

    Os personagens são construídos com capricho, a trama é boa, mas fica um pouco soterrada pelo vocabulário chato no estilo “plenário do STF”. Não invalida o conto, é possível que o enriqueça porque esboça uma crítica. Foi o risco assumido pelo autor e gosto de quem assume riscos em literatura.

    Espero que tenha sucesso. Bom conto.

  16. Almir Zarfeg
    3 de novembro de 2020

    Resumo:
    A história de um juiz que preside uma sessão de interdição de uma poeta supostamente louca…

    Comentário:
    Uma narrativa conduzida de maneira muito habilidosa pelo narrador. Trata da poeta Ângela Brila, supostamente vitimada por problemas mentais. Às perguntas do magistrado Márcio Freneza, ela responde com frases que mais parecem versos permeados de lirismo e bom humor. Por tudo isso e muito mais, a leitura se torna irresistível. Mas a grande surpresa fica para o final, quando, de maneira inesperada, o magistrado acaba de revelando um louco de mão cheia. Enfim, um grande mentecapto. Parabéns pro autor!

  17. Mac Brava
    3 de novembro de 2020

    Resumo:

    Uma disputa de interdicão de uma poetisa, por confundirem seus surtos liricos com esquizofrenia. O juiz acaba por se suicidir a ter que rever sua sentença, dando a ela o título de esquizofrenica, ao de poetisa.

    Cara autora,

    Me encantei com as “falas” dela.
    Acredito que o autor/autora tem muita familiariedade com os termos jurídicos.
    Mas acho que rebuscou muito na descrição dos ambientes, dos movimentos na sala, alguns detalhes que não reforçam muito os personagens,não fortalecem o conto.
    Mas a ideia é ótima! Se todos os juizes tivessem estes “surtos” ao condenarem alguém inocente, ou que não tragam nenhum dano maior, seria um bom começo.

    Parabéns e boa sorte!

  18. antoniosbatista
    2 de novembro de 2020

    Resumo: A história de um juiz que precisa julgar a interdição de uma poetisa, tida como esquizofrênica, acaba sucumbindo à sua própria esquizofrenia. Para acabar com as vozes e sua mente, ele se suicida.

    Comentário: Um bom conto abordando o Direito e as Leis, além do livre arbítrio. Os sobrenomes dos personagens ficaram meio cômicos. O autor quis variar, mas acho que falhou na escolha. Talvez funcionasse melhor num conto com tema comédia. Em um drama psicológico ficou esquisito, destoante. Acho que os sobrenomes não deram nenhum valor ao texto. O resto está muito bom. Escrita e frases, diálogos, perfeitos. Boa sorte

  19. Sábia
    2 de novembro de 2020

    Resumo : Uma mulher é interrogada por ter tido um surto.A mulher era poeta e respondia cada pergunta com toques de poesia.O juiz se mata porque queria ser poeta e sua vida parecia não ter sentido.
    Comentário : Amei seu conto.Fiquei triste pelo juiz não ter apenas largado sua profissão para viver seu sonho de see poeta.

  20. Regina Ruth Rincon Caires
    2 de novembro de 2020

    Loucas Vozes Geniais (Homero Arquíloco)

    Resumo:

    A história do juiz Dr. Márcio (que trazia no peito amor pela poesia), responsável pelo julgamento de uma poetisa tratada como louca, mostra o desequilíbrio de um indivíduo que, seguindo a carreira do pai e do avô, se vê tolhido no livre pensamento, no livre julgamento. Percebe-se que o juiz cultuava a sensibilidade da poesia, reparei neste trecho da narrativa em que ele se refere à poetisa:

    “Uma figura genial, sim! Queria eu viver poesia, ser vivo de poesia… vocês são uns escrotos. Nunca deixaram eu expressar nada! Uns velhos escrotos que nunca saíram da minha cabeça! Vozes julgando vozes: que grande piada! Vozes julgando vozes…”

    Comentário:

    Interessante que, neste conto, a senhora Ângela Brila e o senhor Álvaro Reganta, aparentemente tidos como personagens centrais, servem apenas como gatilho para o aparecimento do protagonista: Dr. Márcio.

    Tudo neste texto é certo como determina a lei, as palavras são tecnicamente colocadas como definem as peças processuais, austeras. Mas a escrita poética empurra as pedras e vai conseguindo passagem, aos poucos, feito fio de água que não se represa.

    “… instruiu Márcio, em um tom simpático, quase esboçando um sorriso no canto direito dos lábios.”

    “… o Dr. Márcio segurava, com o polegar e o dedo indicador, as pálpebras fechadas, como se, olhando bem adentro, pudesse divisar, de modo a prevenir, uma enxaqueca a se aproximar. Após alguns instantes estampando na face a expressão de sofrimento, o magistrado retomou a instrução da solenidade:”

    “Por breves instantes, a face do juiz expressou, sem dúvida, a admiração do olhar de uma criança. Tornou a demonstrar sofrimento, ergueu um pouco a vista, focando em um canto vazio da sala de audiências, e, logo em seguida, retomou a entrevista:”

    “O magistrado olhou novamente para o mesmo canto vazio da sala de audiências por alguns instantes e fez mais anotações.”

    O conto é muito bem escrito, o autor entende tudo do meio jurídico, do ambiente forense. É bonito observar o cuidado que teve em montar o texto dentro do palavreado utilizado no mundo das leis, e a descrição da sala de audiência é tão fantástica que o leitor pode perceber até o “cheiro” do ambiente, mesmo não estando escrito. Tudo é tratado de modo tão formal que a poesia precisa pedir passagem. E entra. Sensacional!

    Desejo não obedece barreira, desejo não permite ser contido. Ele se acumula, forma camadas e camadas, mas o rompimento do dique é inevitável. Pode virar loucura. E, neste, caso, a loucura parou na morte.

    Que lindeza de texto, que trabalho bem feito!

    Parabéns, Homero Arquíloco!

    Boa sorte no desafio!

    Abraços…

  21. Leandro Rodrigues dos Santos
    1 de novembro de 2020

    Resumo: julgamento de uma poetisa e constatação, ao fim, que todos são loucos ou lúcidos ou os loucos são lúcidos e os lúcidos são loucos.

    De qualquer perspectiva é um tema batido, porém foi bem abordado. A figuração de destaque no conto é o tradicionalismo x modernismo, desenvolvido sutilmente, em camadas e bem fechado.
    Do mais, há erro no uso de pronomes com o infinitivo; O fim com a morte ficou muito claro, poderia ter deixado suspenso;

    Bom no geral.

  22. Fabio Monteiro
    1 de novembro de 2020

    Resumo: Após um julgamento para tornar incapaz uma mulher que vende poesias, o Juiz que lhe dá a sentença vê se atormentado pelos seus demônios. Vozes que há muito o assombram. Seu desespero é tanto que acaba por tirar a própria vida.

    Autor(a)

    Você deve ser advogado?
    Ou faz parte da área jurídica?

    Se nenhuma resposta se fizer presente, ouso dizer que você é um admirador da advocacia.

    Tuas palavras casam no texto perfeitamente.
    Utiliza termos que só são utilizados por conhecedores da área.

    Enfim…pobre mulher. Interditada por vender sonhos. O que eu mais admiro no seu conto é que ela me passa força, uma inteligência admirável.

    Olha esta frase: Vendo minha alma riscada com sangue em cada verso que dorme impresso naquelas linhas.

    Autor(a)…Fantástico.

    Teve um trecho que me fez rir com as respostas acidas dadas ao juizado. Dignas de alguém de personalidade.

    Interditada ou não na sua incapacidade civil, a personagem não demonstrou desespero. Manteve-se como alguém que não precisa da autorização de ninguém para viver.
    Alias, vive bem mais do que outros (como citado no texto).

    Boa Sorte.

    Texto maravilhoso.

  23. Giselle F. Bohn
    31 de outubro de 2020

    Juiz que analisa a interdição de uma poeta se revela o verdadeiro insano, tendo que lidar com seus fantasmas interiores.
    Gostei e não gostei. Admito que tive que lutar com este conto; todo esse linguajar “de advogado” é de matar. Eu juro que cada vez que vejo um processo nas mãos eu agradeço aos céus de que existam pessoas no mundo dispostas a fazer esse tipo de coisa, porque eu não conseguiria nem se minha vida dependesse disso. Então – para mim e só para mim! – o texto ficou se arrastando, até, felizmente, ganhar ritmo no diálogo. Também não apreciei muito os nomes esquisitos, mas, novamente, é só o meu gosto falando.
    No entanto, não há dúvida de que o conto é muitíssimo bem escrito e que o autor sabia exatamente o que queria fazer aqui, jogando pequenas pistas aqui e ali, até o desfecho bem amarrado. No geral, é um conto muito bom, criativo e totalmente dentro do tema. O problema é mesmo só o fato de que eu fujo desse jurisdiquês como o diabo foge da cruz.
    Parabéns e boa sorte!

  24. Bianca Cidreira Cammarota
    31 de outubro de 2020

    Homero, bom dia!

    O conto versa sobre a interdição de Angela Brila por insanidade, analisada pelo juiz Dr. Márcio Freneza, que defere essa petição. Contudo, ao fim do texto, é revelado que o verdadeira e literalmente insano é ele.

    Falarei de fora para dentro, do geral para o especifico. Gostei demais do conto. A premissa é interessantíssima e Angela é uma personagem cativante! Pude visualizar sua confusão no tribunal, sua inocência e pureza inerentes (que a loucura, em si, não propicia necessariamente). Parece fazer parte dela, esse modo puro de ver a vida, onde a insanidade permitiu que ela a vivesse de maneira autêntica e sem poréns.

    É um contraste Angela com o ambiente burocrático e frio da lei. Quando falo em burocrático, não é um adjetivo pejorativo, pois a burocracia (a ordem e o método em ação através de procedimentos organizados) é necessária para o andamento da justiça. No entanto, essa assepsia das normas parece se encolher diante da grandeza da inocência da moça.

    Gostei tanto do seu conto que desejo fazer algumas sugestões, procurando não ferir a tua obra, pois ela é sua. Talvez elas possam contribuir quando você escrever outro conto.

    * A abertura do conto: seu material é tão rico que haveria possibilidade de você iniciar o conto com uma frase chamativa, seja bela ou intrigante, ou engraçada ou misteriosa, algo que já trouxesse o leitor para si. Isso é importante em uma leitura.

    * Havia espaço, dentro do limite de 3.000 palavras, para você desenvolver mais sua trama. Não que haja imperiosamente a necessidade de um conto mais longo; todavia, o seu merecia e carecia pelos mesmos motivos: porque é ótimo e maiores detalhes e desenvolvimento das personagens traria mais dimensão no sentido de abrilhantá-lo ainda mais. Poderia ser, talvez, o juiz com maior exposição intimidade ao longo do texto, sem revelar antecipadamente a loucura dele. Dessa forma, haveria uma coesão melhor na passagem do protagonismo do conto, que se iniciou com Angela e foi transposto quase que abruptamente para o juiz.
    O juiz se revelou uma personagem fascinante! Adoraria ver mais daquele diálogo com seus antecedentes, com maiores detalhes, em um crescente visível ao leitor quanto à decisão repentina dele em se matar (ou ele teria querido só eliminar as vozes dentro dele…?)

    Eu realmente apreciei seu conto. Espero ver você em outros desafios!

    Abraços

  25. Fheluany Nogueira
    30 de outubro de 2020

    Juiz analisa a interdição de uma artista e acaba por questionar a tradicional Justiça.

    Uma premissa interessante e uma abordagem inteligente, em que senti uma crítica ao sistema e ao jargão jurídicos e que até poderia ser estendida à cultura nacional.

    Alguns trechos provocam reflexão e outros, o riso. O desfecho é surpreendente.
    A profusão de nomes incomuns e do juridiquês truncaram, um pouco, o ritmo e fluidez da leitura.

    Parabéns pelo trabalho. Boa sorte. Um abraço.

  26. Leda Spenassatto
    29 de outubro de 2020

    Resumo :
    A interdição de Ângela Birla por um juiz que duvida da sua capacidade mental.

    Comentário:
    Um ótimo tema.
    A interdição de Ângela pelo juiz Márcio discorre da capacidade de quem é quem para julgar e condenar o jeito, a maneira que muitas pessoas escolhem para viver.
    Fiquei um pouco confusa aqui;
    Álvaro, em sua cadeira sacudia muito as pernas, de modo a fazer com que todo o seu corpo vibrasse compassadamente.
    Acho que você deveria refazer esse parágrafo.
    Seu conto é muito bom e essa mulher, a Ângela Birla é fantástica, maravilhosa. Suas respostas ao juiz Márcio fizeram ele rever a sua condição de juiz/capacidade de julgar os outros.
    Adorei, muito lindo seu texto.
    sorte de montão para você!

  27. cicerochristino
    29 de outubro de 2020

    Resumo: Após julgar a interdição de uma poetisa diagnosticada como esquizofrênica o protagonista, um juiz de direito, acaba tendo que enfrentar suas próprias vozes internas.

    Comentário: É um conto bastante poético, cheio de simbologia. Das falas da poetisa ao carro lançado na divisa entre o município de residência e o de trabalho do protagonista, diversos elementos trazem forte valor simbólico para a narrativa. Após uma pesquisa, notei que os nomes dos personagens têm origem no esperanto, o que pode ser um recurso também simbólico mas acabou soando mais alegórico (e desnecessário) do que qualquer outra coisa.
    No geral, é impactante, não chega a perder o ritmo e tem coesão. Confesso que fiquei decepcionado pela perda da personagem mais forte da trama logo na primeira metade do conto. Na verdade, imagino que o que faltou foi fortalecer melhor o personagem principal, até para delinear bem a mensagem que põe dúvida a respeito de quem seria o louco e quem seria o gênio da estória.

    Parabéns e boa sorte do desafio!

  28. Fernanda Caleffi Barbetta
    29 de outubro de 2020

    Resumo
    Juiz precisa julgar o caso de uma mulher considerada incapaz de manter sua rotina por suas atitudes insanas. No final, cansado de ouvir vozes de seu pai e avô, joga o carro de uma ribanceira.

    Comentário
    Parece que você conhece muito bem o linguajar jurídico, bom, eu não conheço, portanto não sei dizer se está escrevendo bobagens. O que posso dizer é que talvez justamente por não estar familiarizada com estas palavras ou por serem palavras chatas mesmo, achei o texto truncado e cansativo.
    Legal o final, que me surpreendeu. Interessante ter jogado ao longo do texto sinais de que o juiz enfrentava algum problema, como as citações de que ele olhava para o vazio. Fez sentido no final. Acho importante jogar algumas pistas para não parecer no final que você fez uma virada só para surpreender, como se aquela ideia tivesse surgido tardiamente.
    Muito bem escrito gramaticalmente. Só citaria: “De seu lado – ao seu lado?”
    “Dr. Márcio segurava, com o polegar e o dedo indicador, as pálpebras fechadas, como se, olhando bem adentro, pudesse divisar, de modo a prevenir, uma enxaqueca a se aproximar” – estranha esta construção. Segurava as pálpebras fechadas com o indicador e o polegar? Talvez” pressionava as pálpebras com as pontas dos dedos” levasse mais à imagem desejada… porque segurava com o indicador e polegar deu a impressão de fechava o dedo em pinça e segurava a pálpebra…
    Os personagens foram muito bem caracterizados. Gostei especialmente das falas da Ângela, como “Nasci e morri poeta. Hoje, não sou mais que metáfora, doutor”.

  29. Angelo Rodrigues
    28 de outubro de 2020

    Resumo:
    Juiz precisa julgar uma mulher que pretendem interditar. Ela é uma poeta, fala como uma e age como uma. O juiz determina que a interditem. Posteriormente nos é passada a informação que o juiz, que nutria simpatia por ela, age sob demanda de seus antepassados.

    Comentários:
    Gostei do conto. É leve e tem em si o tratamento de diversas questões relevantes. Falo mais adiante.

    A sucessão de nomes estranhos me lembrou um pouco o que sempre fez José Cândido de Carvalho com seus personagens de interior, cuidando para que todos tivesse sobre a pele um nome que bem os caracterizasse. É interessante, embora, quando em textos mais longos, isso possa trazer alguma confusão. Acho que foi o caso, mais não chegou a incomodar.

    Embora caricata, Ângela, a poeta, representa a modernidade do conto, a volição que falta ao juiz. Ele, a rigor, a pune quando pune a si mesmo por não conseguir ter autonomia sobre sua vontade, que nela sobra. Tal punição, no conto, reverbera em suicídio – enlouqueceu, o nosso personagem, com aquelas vozes em sua cabeça? Acredito que sim.

    Uma abordagem interessante é saber que nós, que vivemos nos dias presentes, somos perpetuamente comandados por homens mortos. Suas regras, seus valores, suas vontades. Somos, por História, comandados por aqueles que se foram. De forma bilateral. Há coisas boas efetivamente, que nos chegam do passado; há coisas terríveis que nos oprimem por séculos.

    Apenas a capacidade de separar essas coisas nos possibilita uma vida plena, livres de sucumbir a dogmas ruins.

    No presente trabalho, pareceu-me, esse conceito subliminar veio por meio da vontade dos “mestres” de sua família, advogados, juízes que o faziam ser um juiz que ele não era, preconceituoso, sem poesia.

    Uma boa história com boas jogadas subliminares. Com algum humor – o que sempre é imprescindível – o conto abordou temas bastante relevantes.

    Boa sorte no desafio.

  30. Anderson Do Prado Silva
    28 de outubro de 2020

    Resumo:

    Juiz louco tem de julgar a loucura alheia.

    Comentário:

    Tive a impressão de estar diante de um escritor iniciante ou que, mesmo experiente, ainda carrega vícios das primeiras letras. Refiro-me, aqui, a palavras ou expressões que soam como verdadeiros lugares comuns:

    – “Na base da REFERIDA estrutura de móveis”: evite “referida” em seus textos! Todo esse trecho destacado poderia, simplesmente, ser reescrito assim: “Ao canto”, “Ao centro” etc.;

    – “quase ESBOÇANDO um sorriso no canto direito dos lábios”: “esboçar um sorriso” é, em literatura, um lugar comum; só use quando inevitável;

    – “estampando na face”: outro lugar comum; só use quando inevitável;

    – “franzindo os olhos”: avizinha-se de um um outro lugar comum, que é “franzir o cenho”; só use quando inevitável;

    – “A mulher MANTEVE a expressão ANTERIOR”: beira a repetição de ideias, pois só é possível “manter” o que é “anterior”; corte o “anterior” e a frase manterá o sentido;

    – “a face do juiz expressou”: é o que a face faz mesmo, expressar; só use “face expressar” quando inevitável;

    – “desde que chegou ao fórum”: o verbo deveria ser conjugado no pretérito-mais-que-perfeito, pois se trata de ação passada anterior à outra também passada;

    – “tornou a adentrar”: “tornar a adentrar” é voltar! Só use “tornar a adentrar” quando indispensável;

    – “Nunca deixaram EU expressar nada”: aqui, fiquei na dúvida se o mais correto ou natural não seria escrever dessa maneira: “Nunca ME deixaram expressar nada”.

    Autor, se você for mesmo um autor iniciante, devo lhe confessar que nunca, desde que cheguei ao EntreContos (no Desafio Amazônia), me deparei com um autor iniciante tão, mas tão, promissor. Sempre recomendo a todos que perseverem, mas, no seu caso, não apenas recomendo, como imploro. Sim, imploro. Você é muito, mas muito bom mesmo! Por que digo isso? Por causa dos excertos que seguem, que são inteligentes e lindíssimos, capazes de sair apenas de pessoas dotadas de um certo “toque de gênio”:

    – “Acordo. Respiro. E vibro. Assim eu emano a minha luz”;

    – “Nasci e morri poeta. Hoje, não sou mais que metáfora, doutor”;

    – “Produzo zines com minha poesia. Vendo minha alma riscada com sangue em cada verso que dorme impresso naquelas linhas.”;

    – “Sou viva de poesia. Vivo a poesia. Pago a conta de luz limpando casa de quem nem viver vive.”;

    – “– A senhora é proprietária de algum bem?/– Do bem-estar”;

    – “No começo, o tempo nem contava horas, doutor. Éramos só natureza. […] Agora […] ele é meu macho.”;

    – “Meus parentes já voaram. Família, pra mim, é um dente-de-leão arrancado de raiz.”;

    – “o Dr. Ítalo opinou, aos risos, que a interditanda não se manifestaria em contrário, afinal ela era, mesmo, ‘completamente louca’”;

    – “Queria eu viver poesia, ser vivo de poesia…”;

    – “Vozes julgando vozes: que grande piada! Vozes julgando vozes…”.

    Tive a impressão de estar diante de um bacharelando ou bacharel em direito. Neste caso, isso se confirmando, digo que gostei do uso que você fez desse seu conhecimento, mas sugiro que tome cuidado para a inserção de conhecimento jurídico não prejudicar o entendimento do seu leitor. No último desafio, que tive a felicidade de vencer, usei meu conhecimento jurídico, mas, aparentemente, isso foi bem recebido, tanto que venci. Mas sempre uso com muito comedimento. Sugiro que siga fazendo o mesmo.

    Gostei muito do final que imprimiu ao seu enredo, lançando o carro pela ponte. Lembrou um pouquinho o fecho de Lolita, do Nabokov.

    Parabéns pelo texto e boa sorte no desafio!

  31. castrosouzathiago@gmail.com
    28 de outubro de 2020

    Resumo: Ao se deparar com uma artista que será julgada por uma possível loucura, o juiz se depara com o próprio absurdo da profissão. Encantado com a poeta, cai no conflito que a vida inteira passou ouvindo vozes dos seus antepassados sobre a carreira brilhante que deveria seguir como juiz, sendo que desejaria exatamente o contrário.

    Há uma introdução carregada de nomes e descrições, talvez com o intuito de inserir o leitor no universo burocrático e antagônico que Ângela também está sendo obrigada a encarar. Porém, quando chega os diálogos, o conto se torna mais fluido, sendo a personagem cheia de carisma, autenticidade e segurança naquilo que acredita. O desfecho é inesperado, sendo apresentado um Márcio atormentado pelas vozes da família que, nesse universo jurídico, lhe oprimem por não poder romper com o que já foi programado para ele: uma genial carreira no tribunal. Você inseriu bem o desconforto do personagem com as vozes no início do conto, assim como o encantamento pela arte da personagem.

    O conflito está na frustração de Márcio em ter de interpretar Ângela como louca sob a ótica da lei, que ele mesmo não concorda, dando cabo da própria vida.

    Alguns pontos apenas me chamaram atenção, que destaco aqui, mas nada que tire o capricho do seu texto:

    1)Sei que a intenção pode ter sido “burocratizar” (peguei o termo emprestado do Alexandre Coslei) o texto para contrapor o “juridiquês” com a linguagem poética de Ângela, mas em alguns momentos a linguagem fica cansativa, apesar de ser um texto curto. Tirando isso, flui que é uma beleza!

    2)Muitos nomes desnecessários e burlescos que não agregam muito na narrativa.

    Boa sorte no desafio e parabéns pelo conto!

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Informação

Publicado em 28 de outubro de 2020 por em Loucura.