EntreContos

Detox Literário.

Gente de Arena (Gustave Flambé)

Merda! Não, não se diz “sorte”; “sorte” dá azar!

É um belo teatro, com palco circular de madeira de lei e círculos de cadeiras confortáveis ao redor, ascendendo do centro até as extremidades. E, como numa fila de supermercado em tempos de crise, esperamos na escuridão, todos nós, por nossos momentos de graça sob a luz que ilumina nossas interpretações, nossa arte. Paciência: todos terão oportunidade de brilhar, de dançar sob os holofotes, de encantar ou horrorizar, de representar a natureza fundamentalmente humana, sem disfarces.

Quebra a perna! Vá, coragem! É sua vez…

***

Eu amava muito meu pai quando mais nova. Não, não é uma frase muito explicativa, pois quase todas as meninas que têm ou tiveram bons pais, os amaram, mas posso dizer que tínhamos uma relação especial, uma admiração carinhosa, dessas que nos deixam com o coração aquecido quando apenas pensamos um no outro. 

O nome dele era Eduardo, o “Seu” Dudu, e eu o idolatrava e o tinha como herói. Era sempre alegre e brincalhão, via o mundo através de lentes róseas de otimismo, mesmo quando as coisas – quase sempre – estivessem em verdade muito más. Ele dizia: “Marina, se a vida nos dá um limão, ora, faça uma caipirinha!”. E eu ria, e respondia que era muito nova para beber álcool, mas ele já vinha com outra tirada espirituosa e comentava: “Minha raposinha, quando a música te escolhe como missionário, quando o pinho exige ser dedilhado para dar sentido às coisas, um pouquinho de vinho barato, de luar e de madrugadas regidas… por gatos vira-latas e poemas de mendigos, isso pode ser muito mais vida que a maioria das pessoas conseguirá obter. Mas isso é algo que a sua mãe nunca vai entender.”

É provável que ele não tenha falado assim tão bonito, mas é como eu me lembro, minha memória afetiva, sei lá.

E a minha mãe, que nunca cantava e parecia só reclamar, acabava por, na maioria das vezes, garantir o pão, o aluguel, uma peça de roupa nova. Era auxiliar de enfermagem, vendia perfumes, passava rifas, fazia bolos para festas nos fins de semana… Eu só não entendia porque vivíamos mudando de casa, de cidade.

Hoje em dia eu não a culpo e compreendo, sinceramente. Era como um casamento improvável da Formiga e da Cigarra da fábula, mas na versão triste da história, em que a formiga não deixava a cigarra entrar, apesar do frio que fazia lá fora: ela que morresse por não ter se prevenido e trabalhado duro feito gente honesta! Um dia esse castelo frágil de cartas que era o casamento dos dois, ia com certeza desabar. O problema é que esperávamos, mas nunca estivemos realmente preparados. Quando a tempestade chega, apesar de termos amarrado as coisas, e reforçado a cerca, e podado às árvores, sempre algo irá quebrar ou será levado pelo vento.

***

O público riu, chorou e aplaudiu, as luzes diminuem até quase escuridão, e eu disse: vá, respira fundo e vá. Olha, se você não for vou ter que mandar alguém na sua frente. Viu? Ligaram a máquina de fumaça, e luzes azuis, é sua deixa! Escuta a música misteriosa…

***

A-acho que não te-tem coisa mais maneira que uma fa-fa-faca sob o luar, su-su-suja de sangue, pre, pre, pre, escuro feito breu. Ca-caralho! Sabe, eu, eu não ga-gaguejo assim quan-quando canto: “Quando olhaste bem nos olhos meus / E o teu olhar era de adeus, juro que não acreditei / Eu te estranhei, me debrucei / Sobre o teu corpo e duvidei / E me arrastei, e te apunhalei / E me agarrei nos teus cabelos / Minha faca, no teu peito / Tantas vezes! / Tantas vezes…”.

A Elis era maneira, mas mi-minha versão é mais… Verda-da-deira! Sa-sabe, eu não te-tenho muita paciência: al-alguém enche o sa-saco e eu es-espero por u-uma opo, opo, ocasião pro-pro-propícia e zás! A fa-faca cala às línguas mais fe-ferinas, deixa os o-olhos re-redondos de pa-pavor. É muito maneiro! Elas dizem: “Lu-Luís, guar-guarda essa faca, dei-deixa de bes-besteira, tá louco?”. To-todas su-su-suplicam, todas imploram, to-todas viram um cor-corpo frio num beco, atrás das la-latas de li-lixo e dos sa-sacos pre-pretos e bri-brilhantes.

Sabe, a fa-faca eu comprei es-escondido quando eu fiz quin-quinze. A mãe des-descobriu, mas não, não fez na-nada. A Ma-Marina tinha o pai, eu só ti-ti-tinha a mãe. Lo-Lorena era o nome de-dela. Ela era prática: o que não ti-tinha so-so-solução, uma injeção  de insu-su-lina re-resolvia, u-uma caixa de pí-pílu-lulas, da-dava fim ao pro-pro-problema. Pe-pena que e-ela virou pro-problema também. Uma vez me chamou – bos-bosta, bosta, bosta – de ga-gago retardado, de burro! Dá pra a-acreditar? Eu! Que sem-sempre fiz tu-tudo por ela!

“Deu pra maldizer o nosso lar / Pra sujar meu nome, me humilhar / E me vinguei a qualquer preço / Te adorando pelo avesso / Pra mostrar que ainda sou teu / Até provar que ainda sou teu”.

***

Pronto. Já pus un tango velho pra tocar ao fundo. Luzes rosadas para dar um clima burlesco… Sua vez, vá, vá…

***

Sí, lo sé, toy ocupado ahora, boludo. No, no tengo más de la blanquita! Llamá mañana! Dale, dale, ciao!

Desculpem aí, as pessoas nunca sabem quando ligar ao teléfono, non entendem que podem ser inconvenientes. É toda hora: Ramírez preciso disso, Che, preciso daquilo… Um saco!

Entonces, hoje eu bem tava me lembrando dela, da Lorena. Uma morena tan linda, um rosto tan formoso, pelo largo y negro como índia… Uma pena estar casada com um fracassado e ter duas crianças idiotas.

Éramos vizinhos. Eu a via chegando todos os dias, cansada, com expresión derrotada, e aí eu dizia um gracejo, um elogio. Às vezes, depois de um dia difícil, um elogio é tudo o que faz diferença, não? O marido? Esse eu quase não via, vi uma vez às três da manhã, cantando um chorinho e borracho feito gambá. Até que cantava bem, o inútil!

No, no soy mala persona! Non me julguem assim. Me aproximei aos poquitos. Um dia levei um vinho, outro dia, umas rosas vermelhas que achei numa encruzilhada. Depois de uns meses, quando já era amigo dela e dos chiquititos, levei carne de primeira, para uma parrilla. Sempre nos horários que o tal Eduardo estava “trabalhando” (entre comillas), pois embora eu desse conta do sujeito com um braço só, prefiro non ter confusión. Eu e ela viramos amantes, é claro!

Tudo ia muito bem, tranquilo, tranquilo, até o dia que o menino ficou loco y matou mi amor. Quando a polícia apareceu, eu comprei uma passagem de ônibus para Buenos Aires, e fiquei lá, na casa de um primo na Boca, até esperar a poeira baixar. Li nos jornais algo que non acreditei, que o hijo de puta era apaixonado por la mama. Mas isso é fofoca, coisa de periódicos de baixa categoria.

 Dois anos depois, quando voltei, o rapaz estava sumido, o tal Eduardo vivia com a filha, e a moça, já com uns dezessete, era linda e formosa, e tinha enorme semelhança com Lorena. Y entonces, ya sabés, la carne es débil…

***

— Lá, lá, lá, lá, lá…. É minha vez!

— Coelhão?! Você, você nem sequer existiu, foi só a droga de um amigo imaginário do menino! Nem pensar!

Helloooo?! O garoto tem o transtorno! Que importa quem assume o leme do barco? Quer botar ordem na loucura dele? Você fica aqui organizando as coisas, controlando o tempo de cada um sob os holofotes. Quem você pensa que é, afinal? Algum aspecto dominante?

— Olha só: você quer ficar esquecido num canto do palco para sempre e sempre? É isso?! Eu posso providenciar!

— Não, não. Tá bom, desculpa, eu espero até você me deixar.

— OK.

— Posso fazer uma pergunta?

— O quê?

— Você consegue ver o que se passa lá fora?

— Só quando se está no centro do palco, sob a luz. Somente então é que se vê… O quê? Aonde você pensa que vai? Volta aqui!

— Se ele vai agora, então eu vou também!

— E eu!

— E eu!

***

De olhos vermelhos, de pelo branquinho… Ah, sacanagem, ora, é verdade mesmo… Eles existem! Eu vejo os Homens-de-Branco, OS DOUTORES, feito o Ramírez me contou! Não são invenção ou história da carochinha! Droga, me larga, garoto! Fo-fora daqui, eu-eu te ma-mato! Vou, vou te fa-fazer sangrar! Bi-bicho burro! Não e-era sua vez, i-isso não é ma-ma-maneiro! No sé si por ser bueno, no sé si por ser malo, o acaso por castigo, la vida te alejó. Mas sé que de esa flor de mi primer amor, el libro de mi alma sus pétalos guardó. E eu pensava, em minha imaturidade de mocinha: o vizinho é tão bonito, e se ele foi bom pra mamãe, poderia ser bom pra mim também, desde que papai não saiba. Levei o Luisinho uma vez ao psiquiatra e ele disse: “Dona Lorena, é muito raro, mas eu desconfio que ele tenha transtorno dissociativo de identidade. Observa só como ele muda por completo: o modo de falar, o sotaque, o tom da voz, o olhar. Olha, eu não cobrarei nada pelas consultas, se a senhora me permitir estudá-lo”. Era o que me faltava: uma filha sonsa e que sonha acordada, um marido vagabundo e um filho maluco. Mas essa minha cruz é pesada mesmo! À noite todos os gatos são pardos, e o clamor da lua é algo que não se pode resistir se você teve a sorte de nascer com um coração boêmio, com as vozes das musas a sussurrar em seus ouvidos. O violão, o cavaquinho, eles imploram por minha atenção! Ora, a vida só é bem gozada pelos que tem leveza n’alma. Soy mu-mucho asusta-tado, pe-pero soy gu-guloso, por una zana-na-horia, ya quedo mañoso…

***

Senhoras e senhores, pedimos desculpas pelo pequeno problema técnico. Sei que as coisas ficaram um tanto caóticas, mas logo tudo fará sentido. Continuemos, portanto, com nossa peça. Antes, porém, uma salva de palmas pelo esforço das atrizes e dos atores! Obrigado, obrigado! Vocês são muito gentis!

As luzes se apagarão por um instante e logo conheceremos mais alguém, com uma nova história intrigante, um novo aspecto da alma humana!

Break a leg! Merde! Vá!

35 comentários em “Gente de Arena (Gustave Flambé)

  1. Amanda Gomez
    25 de novembro de 2020

    Resumo📝 Um pessoa com múltiplas personalidades conta sua vida em forma de teatro.
    Gostei 😃👍 Um conto pra ser ler duas vezes, nunca apenas uma, senão vc perde tudo. Pelo menos no meu caso. Fiquei tentando entender quem é quem e isso foi até divertido. Acredito que tenha a filha e o pai… e mãe…e tem o irmão que também é ela…acho que não sei explicar o que eu entendi. Haha. Gostei das vozes de cada um, a menina, a mãe, o irmão, o amigo imaginário, o amante. E no trecho que essas vozes se misturam foi uma parte muito bem feita e interessante. O filho matou a mãe, que tinha um caso com o vizinho, depois da morte da mãe o vizinho volta e fica de olho na filha. É… Acho que é uma pessoa só + o pai. Ou o menino tbm era o vizinho e vivia uma relação incestuosa com a família toda. Aaaahh. Não sei 😆. Mas gostei do conto, ainda que com esse tanto de interrogações. Vc soube conduzir bem e manter a atenção do leitor até o fim ( pelo menos a minha).
    Não gostei 😐👎 Bem… a primeira leitura foi uma experiência horrível. Quase desisti.
    O conto em emoji : 🎭🎪👨‍👨‍👧‍👦🐇

  2. Rubem Cabral
    23 de novembro de 2020

    Olá, Gustave.
    Resumo do conto: num palco de teatro que em verdade é a mente de um rapaz com múltiplas personalidades, observamos fragmentos de sua história através de seus outros “eus”.
    Análise do conto:
    Conto muito bom, porém desafiador. O surgimento do personagem que era um amigo imaginário (o coelho) foi meio abrupto e penso que poderia ter sido apresentado de forma mais suave. Gostei bastante do parágrafo misturado, quando todas as vozes tentam um lugar sob os holofotes, chegando até a um tipo de fusão. Gostei das falas em espanhol da Argentina e não achei cansativo ler o falar do rapaz gago.
    Boa sorte no desafio e abraços.

  3. Jorge Santos
    21 de novembro de 2020

    Olá Gustave.

    Este é o tipo de conto complexo que faz uma pessoa quase desistir da leitura. É um relato feito por diferentes personagens. Conta a história macabra de uma família composta pelo casal (ele artista, ela auxiliar de enfermagem), uma filha e um filho que sofre de múltipla personalidade. E mais não digo para não estragar a surpresa (isto de desafios de comentário aberto oblige).

    É, como já referi, um texto complexo, sempre contado na primeira pessoa mas com personagens variados. É difícil discernir quem é o sujeito de cada passagem do texto, apenas diferenciando pela forma de falar. Isto torna-se especialmente complicado quando há uma personagem com distúrbio de personalidade. Obrigou-me a uma terceira leitura, mais atenta. É um texto onde todos os pormenores contam e onde a caracterização dos personagens é feita de forma quase perfeita.

    O pai é uma personagem nebulosa, que quase não intervém no texto. Quase poderia afirmar que não existe e que é mais uma personalidade do filho, Luis.

    No final, quando pensamos que já encaixámos todas as peças, voltamos a reler o final. O próprio texto parece ter, tal como o personagem Luis, múltiplas personalidades e o sujeito muda no mesmo parágrafo da filha para a mãe, que pensávamos ter morrido. E chegamos à conclusão que todo o texto não passa de uma peça de teatro.

    Pormenor didáctico: o que se deseja no teatro não é “Merda”, mas “Muita merda”. A expressão vem dos tempos em que as pessoas iam ao teatro nas suas carruagens puxadas a cavalo. Se existisse muita merda à frente do teatro significava que estava a ter sucesso.

  4. Fil Felix
    20 de novembro de 2020

    Boa tarde!

    O conto traz a mente fragmentada de um homem, provavelmente influenciada por pessoas à sua volta.

    A escolha por dividir em blocos e cada qual ter sua própria voz foi bastante acertada, principalmente porque vemos a diferença tanto na leitura quanto na estética (seja pela gagueira, o espanhol, o itálico). Cada qual com seu cada qual. A história em si é complexa e exige do leitor uma maior atenção aos detalhes, o que é muito bom para ser lido em camadas (e talvez mais de uma vez), como pode ser ruim por perder o leitor ainda nos primeiros parágrafos. Mas é aquele ditado: um risco que se corre.

    Gostei do uso do teatro para anunciar as personagens-personalidades. Não quero comparar, mas acabei lembrando de outras duas histórias que também trabalham com essa questão das múltiplas personalidades. O filme Fragmentado talvez seja o mais óbvio, nele temos a questão de cada personalidade tomar seu lugar quando fica “sob a luz”. E outro caso que lembrei é do mutante Legião das HQs dos X-Men, ele também sofre de múltiplas personalidades que lutam entre si pelo comando, querendo sentar na cadeira principal. A escolha do teatro caminha nessa direção, com o palco e o holofote acompanhando a loucura. A escolha da diferenciação de voz também foi acertada por ter o momento em que todas se misturam, quando dá pane no sistema, quando ocorre os problemas técnicos. Conto muito bom e interessante, principalmente pela identidade que gerou, do que necessariamente pela história, que me veio em pedaços que não me identifiquei tanto.

  5. Anna
    19 de novembro de 2020

    Resumo : Não entendi bem. Mas me pareceu que uma pessoa com várias personalidades conta sua vida.
    Comentário : Achei extremamente difícil e complicado.Gostei do ínicio me perdi na hora da gagueira.Não posso comentar muito sobre algo que não entendi. Talvez esse conto seja o começo de uma nova vanguarda.

  6. Rafael Penha
    16 de novembro de 2020

    Resumo: história de uma família (ou uma só pessoa?) com transtornos de personalidade, vislumbrado(s) sob a ótica teatral.

    O conto é excelente. Apesar de curto, tem personagens carismáticos, mesmo tendo de dividir espaços com varios outros. Uma história cotidiana, com um final tenso, mas narrada com simplicidade e profundidade.

    O estilo de narrativa foi um pouco penoso para mim. Especialmente nos momentos de gagueira, que estavam muito junto daa falas em espanhol, o que me confundiu bastante, talvez fosse melhor colocá-los a uma distância maior entre si.

    As histórias de todos os personagens foi bem narrada, com início meio e fim e se entrelaçando bem.

    A gramática me incomodou um pouco numas mudanças de tempos verbais meio abruptas no início, mas nada sério.

    Gostei bastante, mas tive trabalho para entender, o que pode desencorajar muitos leitores.
    Grande abraço

  7. Andre Brizola
    12 de novembro de 2020

    Olá, Gustave.

    Conto sobre várias personalidades, organizadas, que sobem à luz do palco em seu momento de “controle” como dominante na mente de um garoto esquizofrênico. Ao fundo a história de como esse garoto assassinou a mãe.

    Este é um conto sobre loucura, de fato! E muito bem contado, diga-se. Seguindo uma linha meio Fragmentado (filme que não figura entre meus preferidos do M. Night Shyamalan, mas que é interessante), as diversas personalidades na mente do garoto se organizam em momentos à frente, quando tomam o controle não só da mente do garoto, mas também da narrativa.

    As diferenças do discurso de cada personalidade (gagueira, língua estrangeira, admiração pelo pai/crítica à mãe) marcam o desenvolvimento do enredo. Fica claro desde o início que há uma divergência entre as personalidades. A garota admira o pai, e tece críticas à mãe. O garoto, gago, adora a mãe, mas também há ressentimento. O estrangeiro, emula uma espécie de síndrome de édipo. E, no momento crítico, possivelmente à frente de médicos que o estudam, o garoto perde o controle e a organização mental e suas várias personalidades disputam o lugar à frente.

    Achei muito bom. Um texto desses pode se perder facilmente nas mudanças bruscas entre as diferenças nas personalidades, e aqui isso foi contornado com as inserções do mestre do picadeiro, a voz que define e prepara quem estará à frente. Uma solução simples, mas importante para a narrativa, mesmo que gere a contradição de que uma personalidade, no final das contas, sempre esteve comandando tudo. Mas nem quero pensar muito nessa possibilidade. O conto é muito bom!

    É isso. Boa sorte no desafio!

  8. Ana Maria Monteiro
    9 de novembro de 2020

    Olá, Autor:

    Resumo: em palco desenrola-se a história de uma família: a filha, Marina; que adora o pai; o pai, Eduardo, bem-disposto e bem definido pela figura da cigarra em contraponto à mãe, Lorena, que é a formiga e o único ser aparentemente normal da família, mas que acaba assassinada pelo filho, Luís, que sofre de transtorno dissociativo de personalidade e tem ciúmes da relação que a mãe mantém com o vizinho.

    Comentário: Gustave, o seu método narrativo baralhou-me muito. Creio que apanhei a história, mas não consegui perceber quem está em palco. Em minha opinião, você exagerou um pouco e tornou a leitura excessivamente exigente para o leitor.

    Ao mesmo tempo, achei o seu conto uma pequena maravilha, rico em perspetivas, em personagens, em enredo. E a vida é um circo, sim, um palco, sem dúvida, uma loucura.

    Creio que talvez com um pouco mais de coesão interna e bastante mais espaço narrativo, poderia ter atingido o apogeu para que aponta e de que, não me restam dúvidas, está perfeitamente ao seu alcance. Assim, sendo uma maravilha, acaba por se tornar um pouco frustrante, por não chegar a uma clareza suficiente, que permita uma leitura total, mesmo que errónea, mas total.

    Arrisco pensar que tudo se desenrola na cabeça do rapaz louco, uma vez que, aparentemente, ele está na presença de médicos, mas tenho receio que não seja assim.

    Em todo o caso, é um dos contos mais ricos, imaginativos e elaborados que li até ao momento.

    Parabéns e boa sorte no desafio.

  9. Elisa Ribeiro
    9 de novembro de 2020

    As múltiplas manifestações da personalidade de uma mulher que sofre de transtorno dissociativo são apresentadas como cenas de um espetáculo teatral.

    Tive que ler algumas vezes o conto para tentar montar o quebra-cabeças engendrado pelo autor. Não sei se fui bem sucedida.

    Texto bastante desafiador em muitos aspectos: narrativa com múltiplos pontos de vista, intrusão de línguas estrangeiras, representação da fala de um gago, citação de referências, além das características da personalidade do protagonista. Na minha opinião, abusou um pouco dos recursos tornando uma ideia muitíssimo interessante em um texto para poucos.

    O que não gostei: das dificuldades impostas ao leitor. Não fosse um desafio, teria abandonado a leitura bem antes de decifrá-la (se é que a decifrei).

    O que mais gostei: a singularidade do texto e a ousadia do autor.

    Parabéns pelo trabalho. Sorte no desafio. Um abraço.

  10. Paula Giannini
    8 de novembro de 2020

    Olá, Contista,

    Tudo bem?

    Resumo – Frutos de uma personalidade dissociativa, personagem no palco da imaginação.

    Meu ponto de vista:

    Encaixando-se perfeitamente na premissa escolhida, o(a) autor(a) lançou mão da narrativa dramática para conduzir seu conto. Com cenas entrecortadas de personagens diversos, cada uma dos recortes criados traz um “narrador” com personalidade e mesmo sotaque próprios.

    Um conto que, não fosse o diagnóstico do rapaz revelado no final da narrativa, poderia dar luz à interpretações tão múltiplas quanto as personalidades do protagonista. Em várias camadas, vislumbramos uma família onde cada membro se apresenta a seu modo em um tipo de psicodrama, ou, em uma leitura diversa, uma peça de teatro (de alunos – me lembrou muito as peças de meus antigos alunos, cada uma com seu estilo) trazendo atores que “se confessam” no tablado. Assim, vislumbramos um conto que deixa explícita a coerência do(a) escritor(a) tanto no que se refere à forma, quanto no que tange o tema.

    Se eu puder fazer uma ressalva, seria apenas quanto à gagueira de um dos personagens, na leitura ela se apresenta como um entrave, e, embora entenda que a escolha deu-se justamente no sentido de diferenciar cada falante entre si, para esta leitora aqui pareceu meio excessivo. Isso porém, é apenas uma chatice que em nada fere este texto excelente.

    Como disse a todos, se acaso erro em algo em minha análise, peço que desconsidere. Aqui estamos todos para aprender.

    Beijos e muita sorte no desafio.

    Paula Giannini

  11. Luciana Merley
    8 de novembro de 2020

    Gente de arena

    Olá, autor.
    Farei um resumo e em seguida deixarei minhas impressões conforme os critérios CRI (Coesão, Ritmo e Impacto). O impacto é, na maioria das vezes, o critério definidor da nota final.

    Um palco real ou um palco mental? Não tenho certeza, mas o conto é a história familiar de um rapaz com transtorno dissociativo.

    Impressões iniciais – Um texto dificílimo. Experimental, ao menos para a minha insuficiente experiência. Exigiu uma leitura muito minuciosa e ainda assim, tenho certeza, não consegui compreender totalmente. Escrito por mãos muito hábeis e por uma mente farta de recursos linguísticos. Um texto que eu jamais seria capaz de escrever. Sendo assim, não sei se sou capaz de avaliá-lo. Como é mandatório, farei uma tentativa e prometo o meu melhor.

    Coesão – O texto é formado por pensamentos desconexos provenientes da consciência fragmentada de alguém com transtorno dissociativo. O próprio formato do texto ajuda nessa configuração da mente do personagem – fragmentado. E sim, é coeso por esse motivo. Tem como núcleo a falta de linearidade e de lógica que esperamos dos mentalmente afetados.

    Ritmo – É agarrado. Pelas características da linguagem (ou das linguagens) que o autor decidiu empregar. Não flui como um rio manso, mas como um encontro do Negro com o Solimões. E olha que esse encontro é um escândalo de bonito.

    Impacto – É muito marcante por tudo que já disse aqui. Não nego que tenha sido pouco prazeroso (em alguns trechos). Exige um crescimento à força de quem o lê. Escutei hoje do Scruton, que “não se larga Leide Gaga e automaticamente se apaixona por Bach. Para alcançar Bach é necessário, antes, um dia inteiro de silêncio”. Assim é o processo de gostar do seu texto. Tem de esquecer todas as demais facilidades lidas, por um tempo. E obrigada por poder dizer isso aqui (ouvi e tava louca pra compartilhar rsrsr).
    Parabéns. Desejo justiça para seu primoroso conto, porque, em sorte, eu não acredito. Grande abraço.

  12. Leandro Rodrigues dos Santos
    7 de novembro de 2020

    Em um exposição teatral se enuncia a história de uma irmã ‘sonhadora’ (a se apresentar), um pai ‘além’ que se foi (restando a saudade), uma mãe ‘racional’ e o menino anunciando todos, vestindo a personalidade destes.

    As quebras teatrais foram boas, as quebras (literais – gagueira) foram excelentes, deu maior riqueza ao personagem e ao texto. Agradou-me.

    Tecnicamente tem muitas repetições, muito uso do ‘como’ (sugiro substituição: feito, tal qual…), ‘mas’ (porém, todavia), ‘que’ (usar gerúndios, vírgulas). Algumas repetições que poderiam ser substituídas por sinônimos ou pronomes. E erros de colocação pronominal.

    -Queismo: “que a formiga não deixava a cigarra entrar, apesar do frio que fazia lá fora: ela que morresse por não ter se prevenido e trabalhado duro feito gente honesta! Um dia esse castelo frágil de cartas que era o casamento dos dois, ia com certeza desabar. O problema é que esperávamos”…

    -Comismo: “E, como numa fila de supermercado”; “e o tinha como herói”, “mas é como eu me lembro”, “Era como um casamento improvável”…

    -Maismo: “amaram, mas posso dizer”; “beber álcool, mas ele”, “da fábula, mas na versão”, …

    -Redundância: “não via, vi uma vez”, e assim segue…

    -Colocação pronominal: “E me agarrei/ E agarrei-me” (oração coordenada), “me humilhar/ humilhar-me” (infinitivo), “assim. Me aproximei/ assim. Aproximei-me” (início de frase). E assim segue…

    Apesar de entender que é chato essas correções, espero ajudá-lo a tirar os erros para melhorar seu texto. Caso tenha sido inconveniente, tenha a gentileza de avisar-me.
    No todo seu texto é bom.

    • Gustave Flambé
      9 de novembro de 2020

      Olá, Leandro.

      Obrigado pela leitura e comentários. Obrigado pelas correções também; são sempre úteis. Gostaria de fazer somente uma ressalva, contudo: as falas das personagens são diálogos com o público (o leitor). Portanto, seguem mais a lógica do discurso coloquial, onde os vícios de linguagem são desejáveis e dão mais veracidade às falas. Em suas correções de colocação pronomial você chegou a corrigir a letra da música “Atrás da Porta”, do Chico Buarque (https://www.letras.com/chico-buarque/45113/). O texto literário é mais flexível, e não deve necessariamente seguir dentro dos trilhos da gramática.

      Merci.

      • Leandro Rodrigues dos Santos
        9 de novembro de 2020

        Entendo recurso das falas, entendo o gosto ou não, na minha visão ‘gramatical’ é errado nos diálogos (presumir o erro na fala, ou generalizá-la errada, acho que não cabe a mim, pois eu tento falar da maneira mais correta possível, mas é claro o entendimento que a maioria não o usa. Já no caso do seu personagem, ele flutua entre idiomas e até dentro de si, acho que cabe um discurso correto, por isso também destaquei).
        Jamais vou entrar nessa questão musical, não é o parâmetro. Particularmente não busco rigor nenhum em letras.
        Gostei do seu texto de verdade. É só um acréscimo, se achar que não cabe, desconsidere.

  13. Misael Pulhes
    5 de novembro de 2020

    Olá, “Gustave”.

    Resumo: a história de uma família – pai, filha, filho, mãe, retratada a partir da estrutura de uma peça teatral.

    Comentários: originalíssimo. Várias vozes, história misturada mas se revelando no decorrer do texto… o autor é certamente de um potencial incrível, com amplo domínio de possibilidades literárias.

    Eu me perdi um pouco no final, mas isso deve ser culpa minha, já que vi colegas melhores leitores que eu confessando terem entendido tudo plenamente. Vale uma segunda leitura quando o tempo me sobrar hahah.

    Parabéns e boa sorte!!

  14. cicerochristino
    4 de novembro de 2020

    Resumo:
    O conto narra, sob a ilustração de uma peça de teatro, a trajetória conturbada das relações dos integrantes de uma família.

    Comentário:
    Se trata de uma narrativa riquíssima no que diz respeito à originalidade e à escolha de recursos para retratar o tema central do desafio. Confesso ter ficado meio perdido na leitura do conto, o que causou incômodo, em alguns momentos. De qualquer forma, parabenizo pela capacidade narrativa e pela originalidade.
    Boa sorte e quebre a perna!

  15. jeff. (@JeeffLemos)
    4 de novembro de 2020

    Resumo: A loucura representada como as atrações de um picadeiro, com cada personalidade tendo sua luz sob os holofotes.

    Olá, caro autor.
    Achei seu conto bem diferente. A estrutura, a narrativa, a maneira como você colocou os pensamentos do personagem (ele sendo gago, que apesar de ter me irritado na leitura, eu entendi qual foi a proposta). Confesso que por vezes eu fiquei meio perdido, tentando encontrar algum norte pra entender quem estava falando de que, mas acho que deve ser também um dos artifícios da história.
    Apesar de todo o caos, a leitura foi bem fluida, muito rápida, quando percebi já estava no fim do conto.
    Não foi um dos meus favoritos por questão pessoal, mas achei bem ousado e diferente essa abordagem que abraça o caos da loucura e se faz ser loucura mesmo em suas linhas.

    Parabéns pelo texto e boa sorte!

  16. Almir Zarfeg
    3 de novembro de 2020

    Resumo:
    O texto narra os altos e baixos de uma família no palco da arte da vida.

    Comentário:
    A narrativa se apresenta em toda sua riqueza cênica aos leitores, misturando os gêneros conto e teatro, ao contar a história de uma família de artistas. Impossível não interagir com os personagens e cenas, enfim, fazer parte desse vaivém de ações, cenários e nuances. Essa estratégia de misturar e aproximar as narrativas fez com que o texto fluísse e contaminasse, no bom sentido, os leitores. Eu adorei tudo e achei muito original essa maneira de retratar o conceito de loucura. Parabéns!

  17. Lara
    2 de novembro de 2020

    Resumo : Uma peça de teatro conta uma história intrigante. Começando com uma mulher que conta de como lembrava com amor do pai.Apesar do pai não trabalhar e a mãe prover a casa.Os outros personagens vão entrando e contando sua versão.
    Comentário : Ótimo conto. Gostei especialmente da versão da mãe mas confesso que gostaria que o nome dos personagens fosse colocado acima de sua fala pois tive certa dificuldade de perceber quem falava.

  18. Regina Ruth Rincon Caires
    1 de novembro de 2020

    Gente de Arena (Gustave Flambé)

    Resumo:

    Num palco, em atos, a vida (de tristezas) de uma família é “apresentada”. Os personagens são expostos. Texto maravilhoso. Triste, muito triste, mas maravilhoso.

    Comentário:

    Por coincidência, ontem assisti a um documentário de um “serial killer” (brasileiro) que versava exatamente sobre o “amor” enviesado dele com a mãe. O abandono do pai, o amante da mãe, a casa povoada de pessoas estranhas. Em entrevista, fundamentou a loucura com história muito parecida. Acho que, por essa razão, compreendi profundamente o texto, e AMEI!!! Transtornos são muito mais frequentes do que podemos imaginar, o humano é coisa complicada.

    Há tantas passagens densas na narrativa:

    “Minha raposinha, quando a música te escolhe como missionário, quando o pinho exige ser dedilhado para dar sentido às coisas, um pouquinho de vinho barato, de luar e de madrugadas regidas… por gatos vira-latas e poemas de mendigos, isso pode ser muito mais vida que a maioria das pessoas conseguirá obter. Mas isso é algo que a sua mãe nunca vai entender.”

    “Era como um casamento improvável da Formiga e da Cigarra da fábula, mas na versão triste da história, em que a formiga não deixava a cigarra entrar, apesar do frio que fazia lá fora: ela que morresse por não ter se prevenido e trabalhado duro feito gente honesta! Um dia esse castelo frágil de cartas que era o casamento dos dois, ia com certeza desabar. O problema é que esperávamos, mas nunca estivemos realmente preparados. Quando a tempestade chega, apesar de termos amarrado as coisas, e reforçado a cerca, e podado às árvores, sempre algo irá quebrar ou será levado pelo vento.”

    “Sabe, a fa-faca eu comprei es-escondido quando eu fiz quin-quinze. A mãe des-descobriu, mas não, não fez na-nada. A Ma-Marina tinha o pai, eu só ti-ti-tinha a mãe. Lo-Lorena era o nome de-dela. Ela era prática: o que não ti-tinha so-so-solução, uma injeção de insu-su-lina re-resolvia, u-uma caixa de pí-pílu-lulas, da-dava fim ao pro-pro-problema. Pe-pena que e-ela virou pro-problema também. Uma vez me chamou – bos-bosta, bosta, bosta – de ga-gago retardado, de burro! Dá pra a-acreditar? Eu! Que sem-sempre fiz tu-tudo por ela!

    “Deu pra maldizer o nosso lar / Pra sujar meu nome, me humilhar / E me vinguei a qualquer preço / Te adorando pelo avesso / Pra mostrar que ainda sou teu / Até provar que ainda sou teu”.”

    “Tudo ia muito bem, tranquilo, tranquilo, até o dia que o menino ficou loco y matou mi amor. Quando a polícia apareceu, eu comprei uma passagem de ônibus para Buenos Aires, e fiquei lá, na casa de um primo na Boca, até esperar a poeira baixar. Li nos jornais algo que non acreditei, que o hijo de puta era apaixonado por la mama. Mas isso é fofoca, coisa de periódicos de baixa categoria.”

    Verdade, tudo ficou caótico. Mas, pela luta, todos os atores e atrizes merecem uma salva de palmas. A vida de cada um não foi nada fácil. E, PRINCIPALMENTE, o autor merece aplauso prolongado. Texto maravilhoso, profundo, contado de maneira própria, com excelência, da maneira que eu jamais seria capaz de contar.

    Poucos deslizes na escrita, a estrutura do conto foge ao corriqueiro, totalmente revirado. O resultado é um primor. Li e reli. O autor é experiente, tem o dom de colocar em palavras, dramas pessoais tão intensos. Não é simples o trabalho de “descrever” sentimentos, torná-los tão cristalinos como se fossem palpáveis. Você consegui, Gustave.

    Parabéns, Gustave Flambé! Além do conto, adorei o bom humor do pseudônimo!

    Boa sorte no desafio!

    Abraços…

  19. Fabio Monteiro
    1 de novembro de 2020

    Resumo: Relatos de uma jovem sobre sua família. Amores, desencantos, impropérios de vida. Ligação forte com o pai. Fragmentos de sentimentos pela mãe. Tudo retratado como se a vida fosse um teatro.

    O inicio do texto é muito bom. Conquistou minha atenção. Do meio em diante me perdi na sensação de “Será que consigo entender onde o autor (a) quer chegar”?

    Não sei por que você fez o que fez com as palavras. Fez separações silábicas incompletas. Não sei se a personagem é gaga ou se foi uma forma de demonstrar que ela não se expressava bem. Ou se fazia parte das suas loucuras.

    Eu não gosto muito de fazer criticas nos contos. Para mim só o ato de escrever, mesmo que desordenadamente já merece uma boa nota. Tento captar o sentido do texto. Tento me sentir parte dele. Me aprofundar nos sentimentos vividos pelos personagens.
    Eu tenho mania de ir desenhando as cenas na minha cabeça. Imaginando o que esta acontecendo. Parece que vejo tv nesta hora. As palavras ganham vida, ganham forma.
    O circo foi muito bem desenhado. Imaginei as luzes, a madeira de lei, as cadeiras. A relação da personagem com o pai me fez lembrar da psicologia existente entre pai e filha. No geral este é um sentimento comum. Filhas tem fortes relações com seus pais.
    Mas surgiram os trechos de pa-pa-palavras co-co-cortadas. Me confundiu.

    Aí, quando chego no final, você da um Show de novo caro (a) autor (a). Rodopiei.
    Teria sido essa a sua intenção?

    Fugiu muito dos clichês. De modo geral merece estar entre os melhores. Mesmo que tenha me causado tamanha confusão.

    Fazendo mais uma analogia. Fazemos parte sim de um circo. Tem horas que as luzes estão apontadas para nós, mesmo que por um breve instante. Tem horas que estamos sob as cortinas, no palco, na plateia. Fazemos malabarismos para sobreviver. Nos tornamos domadores. Viramos palhaços nas mãos de um mundo impiedoso. Rimos e choramos. Somos gente de arena.

    É isso.

    Boa Sorte…

  20. antoniosbatista
    31 de outubro de 2020

    Resumo: O cotidiano de uma família circense, suas alegrias e tragédias.

    Comentário: Achei um conto com uma narrativa original, um argumento surreal muito bem escrito. Excelente estrutura. A loucura dos personagens transformada em arte do drama teatral. Alguns trechos geram várias versões, mas isso, em vez de confundir, nos obriga a definir que a loucura é assim mesmo, fragmentada entre realidade e fantasia, a narrativa caótica, ao mesmo tempo harmônica, ressalta a estética do texto. Boa sorte.

  21. Bianca Cidreira Cammarota
    30 de outubro de 2020

    Gustave Flambé, boa noite!

    O conto disserta sobre uma família, expressa como uma peça de teatro, cada qual tendo um momento para se apresentar, mostrando as desventuras de cada um.

    Coloquei esse resumo, mas ainda estou na dúvida se realmente as personagens são “reais” ou personas de um menino com várias personalidades, no estilo Fragmentado. Não consegui chegar a uma conclusão.

    Creio que entendi a estrutura de texto que o autor quis colocar, bem aos moldes de atos em uma peça. Percebi o cuidado, a montagem, o experimento. Deve ser o autor alguém com conhecimento e experiência em linguagem e desejou realizar algo diferente.

    Não consegui ter uma ligação com o conto. Para mim, ficou muito confuso. Sei que o tema loucura e propicia textos ousados e pessoas com mais conhecimento na área poderão avaliar melhor.

    Te desejo sorte no Desafio.

    Abraços

    • Bianca Cidreira Cammarota
      30 de outubro de 2020

      Corrigindo (meu teclado está horrível, desculpe)
      “Sei que o tema é loucura e propicia textos ousados. Pessoas com mais conhecimento na área poderão avaliar melhor.”

  22. opedropaulo
    30 de outubro de 2020

    RESUMO: Uma família inteira, com direito à amante, na mente de uma única pessoa. Moram e atuam num palco.

    COMENTÁRIO: A ideia é boa e a execução foi realizada com duas ótimas sacadas, uma a de dividir o conto em várias perspectivas e a outra de, por através dessa escolha, guardar a revelação do que líamos para o final, garantindo o impacto da descoberta. Para tanto, foi precisa uma narrativa habilidosa para dar conta de ilustrar múltiplas perspectivas, cada qual com seu traço particular: a garota sonhadora, o menino gago homicida e obcecado, a mãe frígida, o amante desavergonhado… o que enganou foi justamente cada personagem soar tão real, como o protagonista os imagina. O palco acresceu um traço interessante à psique fragmentada do personagem, dando contexto à dissociação pela qual passa. Um bom conto, com uma abordagem inteligente do tema. Embora se tenha elogiado até aqui, é preciso denotar que o início do conto, com a constante alternância entre pontos de vista, acaba desviando um pouco da leitura, restando saber se, assim que se descobre a razão dos múltiplos personagens, vale a pena o começo torto. Para mim, valeu.

  23. angst447
    29 de outubro de 2020

    RESUMO
    As múltiplas personalidades de um indivíduo com transtorno de dissociativo de identidade aparecem uma a uma como que convocadas a atuarem no Teatro da vida.

    AVALIAÇÃO
    Narrativa conduzida aos blocos como atos de uma peça de teatro. A mente do rapaz é o verdadeiro palco onde os personagens atuam e costuram o enredo. Não sei se consegui separar o que era real para o narrador é o que era apenas ficção criada pelo seu estado mental.
    Nem precisava ter sido didático naquele momento que esclareceu a natureza do seu transtorno psíquico. Mas eu entendo a insegurança.. foi aí que me perdi se todos os personagens eram uma só pessoa, ou se existia mesmo uma história por trás.
    O conto está bem escrito e à leitura não me causou, pois o ritmo manteve a fluidez.
    Boa sorte e que a peça apresentada seja um sucesso.

  24. Alexandre Coslei (@Alex_Coslei)
    28 de outubro de 2020

    Na introdução do conto, o autor escolhe uma linguagem de coxia para começar a contar a história de uma família com seus desvios e instabilidades usando o mote teatral.

    Ideia boa em que o autor percorreu uma narrativa polifônica. Desenvolvimento competente diante da originalidade a que o escritor se impôs. Gostei do trabalho sem me empolgar. A prática de uma voz narrativa experimental nem sempre é atraente para a leitura. No entanto, não posso desvalorizar o grande valor da empreitada. O autor se saiu bem, na minha modesta opinião. Pela coragem, merece estar entre os vencedores.

    Sucesso.

  25. Fernanda Caleffi Barbetta
    28 de outubro de 2020

    Resumo
    Garoto com transtorno dissociativo de identidade representa vários personagens no palco de sua vida.

    Comentário
    Olha lá na plateia e você vai me ver de pé aplaudindo. Que maravilha de conto. Fiquei com raiva de não ter tido essa ideia antes de vc rsrs. Sensacionais tanto a quanto o seu desenvolvimento.
    Escrita impecável, fluidez, apesar das quebras na narrativa. Legal você ter colocado cada identidade com uma característica forte, com um sotaque, uma gagueira, algo na fala que pudéssemos rapidamente identificar. Coisa de quem sabe o que está fazendo.
    Uma pena eu ter um porém… O parágrafo em que explica a sua ideia, que dá um jeitinho de dizer o que realmente estava acontecendo quebrou o clima e mostrou que você não confia no seu leitor. “Dona Lorena, é muito raro, mas eu desconfio que ele tenha transtorno dissociativo de identidade. Observa só como ele muda por completo: o modo de falar, o sotaque, o tom da voz, o olhar. Olha, eu não cobrarei nada pelas consultas, se a senhora me permitir estudá-lo”. – Sim, sei que nem sempre a gente entende, mas eu tinha entendido e embarcado na sua ideia desde a primeira troca de personagem e achei excelente.
    O final não foi ruim, mas não me arrebatou.
    “Quando a tempestade chega, apesar de termos amarrado as coisas, e reforçado a cerca, e podado às árvores, sempre algo irá quebrar ou será levado pelo vento.” – que lindo isso!
    Parabéns!

    • Gustave Flambé
      28 de outubro de 2020

      Olá, Fernanda.

      Merci pelos comentários gentis e pela leitura minuciosa.

      Então, perdoe-me por ter cedido a um spoiler no conto, mas note bem: ainda assim, acho que você foi a primeira a perceber que o teatro era a mente do rapaz! Que os doutores e os homens de branco eram os médicos do instituto, etc.

      Acho que muitos leram e não notaram isso tudo, viram apenas a alegoria ou metáfora do teatro.

      É sempre complicado esconder um segredo, para alguns ficou muito misterioso, para outros, muito evidente.

      Obrigado outra vez!

      Adieu!

  26. Fheluany Nogueira
    28 de outubro de 2020

    História de uma família desiquilibrada apresentada em série de cenas teatrais.

    Que LOUCURA!! Texto bastante elaborado, vários narradores com pontos-de-vista diferenciados, línguas diferentes, transcrição da gagueira, referências a músicas, intertextualidades, não-linearidade — uma renovação de imagens e significados que exigem a atenção do leitor, um texto experimental com leitura meio dificultada e certa comicidade.

    Título sugestivo e boa adequação à temática, em formato e conteúdo.

    Parabéns pelo arrojo na articulação ficcional, um texto repleto de faces, de estranhas vivências. Abraço. 🙂

  27. Angelo Rodrigues
    28 de outubro de 2020

    Resumo:
    Desfile familiar, onde os personagens são apresentados de forma bem característica. Cada um é um arquétipo teatralizado. Todos desfilam pelo palco familiar. Uma família disfuncional como… como todas as outras, com seus erros e acertos.

    Comentários:
    Gostei do conto, particularmente pela opção de não o tratar de forma linear. Há um encanto na maneira de contar que, provavelmente, não poderia ser outra quando o desejo era falar de uma disfunção.

    Há humor no tratamento, particularmente, a começar pelo pseudônimo, uma paródia com Gustave Flaubert, assumindo o papel de Gustavo flambado.

    Quando comecei a ler, acompanhando os personagens, fiquei imaginando uma aproximação arquetípica com os personagens da Commedia Dell’Arte, um paralelo, ainda que um pouco distante, com a filha se associando a Isabella, a menina inocente, vaidosa e sedutora, apaixonando-se com facilidade. O pai me pareceu se associar ao Arlecchino, um sujeito atrapalhado, e, até certo ponto um pouco malandro (explico adiante o malandro). Há também o argentino, o Capitano, um fanfarrão preguiçoso e forte (ele deixa isso claro quando diz que quebraria o pai com apenas um braço), que acaba fugindo nas batalhas do amor, se refugiando por um tempo na Argentina.

    Há no conto uma percepção psicológica típica das famílias, onde o mais amado (particularmente um dos pais), não é aquele que põe ordem na zona, mas o boa-praça. Assim se dá com o pai, que não sustentando a família, é mais amado que a mãe, que dá um duro desgraçado para manter a casa de pé. Típico.

    Não sei se exagero na minha percepção, mas achei, em certos momentos, como estes

    “Coelhão?! Você, você nem sequer existiu, foi só a droga de um amigo imaginário do menino! Nem pensar!”

    E ainda

    “Soy mu-mucho asusta-tado, pe-pero soy gu-guloso, por una zana-na-horia, ya quedo mañoso…”

    Que o autor puxou um pouco pelo lado de Murilo Rubião, com seu Teleco, o coelhinho. Ou ainda, imaginei, algo como Harvey, do James Stewart.

    Uma boa percepção do autor se assim procedeu, somando o conteúdo do conto a arquétipos conhecidos. A mim, ao menos, soou bem.

    A ausência de linearidade, imagino, tornou a leitura um pouco mais difícil, que foi compensada pela maneira mais livre de contar.

    Ah, sim, ia me esquecendo. Tratei também de um personagem gago no passado, no Ó Varões, Vigor, Vitórias, do desafio Experimental. O personagem foi um sucesso, embora o conto tenha ido bem porque, digamos… era muito experimental demais.

    É a vida. Gostei da sua ousadia.

    Boa sorte no desafio.

  28. Anderson Do Prado Silva
    28 de outubro de 2020

    Resumo:

    O conto retrata cenas sucessivas de uma peça de teatro.

    Comentário:

    Como escritor, achei o conto tecnicamente muito bom. Notei apenas uma crase, salvo engano, indevida em “e podado às árvores”.

    Como leitor, passei a não gostar do conto a partir do quarto capítulo. Achei esse capítulo, o quarto, chato e difícil de ler, por causa da representação gráfica da gagueira.

    Não gostei (no mesmo quarto capítulo) de me deparar com a letra de “Atrás da porta”. Não gosto dessas apropriações (embora eu mesmo tenha feito isso em “Filho de mãe solteira”), pois me fica parecendo uma apropriação de qualidades e méritos alheios; uma tentativa, bem ou mal sucedida (a depender do caso), de alavancar o próprio texto. Possuo essa mesma implicância com as epígrafes. Dessa maneira, essas apropriações só me satisfazem quando o apropriante supera, em alguma medida, as qualidades do apropriado.

    A presença de “Atrás da porta” também teve o demérito de me alienar. Não reconheci a música e, assim, vi-me obrigado a me socorrer do Google, interrompendo a leitura.

    Também me senti alienado com a inserção, no texto, de língua estrangeira. Só conheço, e muito mal, o português (mais especificamente, o “brasileiro).

    Por fim, o enredo me soou confuso. Ao que me parece, isso foi intencional. Neste ponto, eu até teria considerado meritório, não fosse o fato do narrador, no capítulo final, ter se intrometido na história para “esclarecer” a confusão. De uma certa maneira, achei isso até um gesto de covardia, pois, se era para ser confuso, que fosse então (não precisando, assim, da explicação; senti-me absolutamente traído neste momento).

    Autor, você é muito bom escritor, possui excelente domínio do léxico. Também notei em você cultura e erudição. Nunca será um desperdício de tempo ler o que você escrever. Mas, no geral, a partir do quarto capítulo, não gostei deste (e apenas deste!) texto.

    Parabéns pelo texto e boa sorte no desafio!

  29. Giselle F. Bohn
    28 de outubro de 2020

    Conto que apresenta uma história familiar como em uma peça teatral.
    Cara, este conto, sim, é um negócio de louco! Já sei até quem escreveu! 😉
    Interessantíssimo, bem amarrado, sugere várias coisas sem precisar explicar muito, bem legal!
    As diferentes vozes narrativas se misturando é uma sacada de mestre, tinha tudo pra ser confuso, mas foi tão bem feito que ficou claro quem estava falando o quê!
    Tem uns errinhos bobos no uso da crase e da vírgula, mas quem liga?
    Bom, não tenho muito mais a dizer aqui; apenas me resta dar os parabéns pela obra tão criativa e inusitada! Adorei! 🙂

  30. Thiago de Castro
    28 de outubro de 2020

    Resumo: Como num espetáculo teatral, uma família e seus conflitos é apresentada, onde cada personagem tem seu momento de entrar no palco, dando sua versão dos fatos e às vezes se confundindo entre si. Em síntese, a família é composta por um casal, onde o marido é um boêmio romântico, a esposa uma mulher trabalhadora e frustrada, uma filha ingênua e um menino gago com transtorno dissociativo de identidade. Há ainda um vizinho argentino que entra como amante de Lorena, a mãe das crianças.

    Gustave Flambé, que conto! Exige atenção e construção dos acontecimentos contados com muita criatividade na história que você imaginou, personagens variados, referências musicais, variação de idiomas, enfim, mal comecei a ler sabia que teria de me debruçar sobre a tela e tentar resolver o mistério da loucura que você quis apresentar. Gosto de contos episódicos, que vão trazendo apenas um lampejo ou pincelada do enredo original, ainda mais quando o “não dito” fica visível na construção do texto, que aqui é robusto. A leitura, apesar de complexa, é leve e tem, obviamente, aspectos teatrais, de textos de dramaturgia.

    A ideia dos personagens irem se apresentando como numa peça para darem cada um sua versão da história também funcionou bem, pois são todos muito característicos e originais, me perdi apenas no parte do coelho branco, mas é mais demérito meu, acho, o que logo foi superado pelo trecho seguinte onde todos os personagens se apresentam de forma caótica e confundida, sem deixar de dar o desfecho da história.

    Parabéns pelo texto e boa sorte no desafio!

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Informação

Publicado em 28 de outubro de 2020 por em Loucura.