EntreContos

Detox Literário.

A Máquina (Elisaldo Crisóstomo)

Viver sempre lhe pareceu algo besta demais, e Andrés Pastor já nem lembrava do dia em que decidiu que morreria aos cinquenta anos. Mais que isso não imaginava, e já nem sabia dos motivos de haver escolhido cinquenta, embora esse número, redondo e definitivo, lhe fosse de razão e domínio, sem erro na escolha que um dia fez. Também não sabia como tudo se daria, se pela mão do acaso, por obra de uma doença, ou pelo desejo súbito de partir, dado que tudo estava ainda distante de acontecer.

Pastor nunca deixou essa ideia dormir ao relento, e esse singular desejo funcionava nele como um olho cego de lucidez, a razão que encurtava seu tempo de viver: cinquenta anos; não mais. A vida era algo besta demais, pegajosa e inútil, e sempre tão mofina que jamais deveria passar dos cinquenta anos.

Havia tanto tempo que Pastor entrara nesse desvio, que morrer não o assombrava, e a vida, no remansado passo dos dias, ganhou o jeito de um tédio irrevogável: as horas se arrastavam a golpes desassombrados, minutos sem futuro ou fé. E assim, permanecendo vivo, Andrés Pastor se afogava a cada momento que continuava vivo.

Chegando aos quarenta e nove ele mergulhou numa área de muitas forças, estágio gravitacional de um fim tão previsível quanto vazio: a morte, tão próxima quanto sabia, lutava com a vida que o consumia, e todo pensamento era uma vertigem, sem a chance do recuo que a si mesmo negara em anos passados.

Dono de juízo tão definitivo, Pastor olhava o mundo e só via um destino, o fim, a morte que caminhava ao seu encontro, e ele sabia que deveria abraçá-la e ser abraçado por ela, sina acertada em anos que iam longe.

Para somar ao desgosto dos dias que antecipavam a sua partida, ficou surpreso quando soube que em seu corpo não havia nenhuma doença ruim, aquela que lhe desse a certeza da morte: era vigoroso de cima a baixo, por dentro e por fora. Um homem imprudentemente saudável.

Inconformado com esse desejo insubmisso do corpo, recorreu a médicos e pediu exames. Fez hemograma completo, avaliou o cálcio iônico, as vitaminas, a saturação transferrina, eletroforese de proteínas, antígenos prostáticos, colesterol, hepatograma, o que foi possível medir; tudo decepcionante. Nenhum exame lhe deu a certeza de que logo partiria desse para outro desespero pela via de um corpo em ruínas: Andrés Pastor, dono de uma saúde perfeita, tinha tudo o que precisava para viver anos sem conta; um novo desespero. Até mesmo o excesso de açúcar no sangue, que um dia o desconfortou, cessara suas rebeldias. Um homem de ferro, definitivamente sem máculas na carne; embora sem medidas para a alma, que para essa nunca se teve exames de exata precisão.

Pois, se haveria de morrer tão breve como decidira, passou também a saber que não seria pelo desejo do corpo com alguma doença roendo sua vida, ou de um mal súbito que o solapasse com danos em órgãos em franco colapso. Nada disso.

Estava numa das poucas encruzilhadas de suas certezas. Não mais que cinquenta anos. Fora firme. Não mais que cinquenta anos. Mais que isso não aceitava, pois a vida nunca lhe deu a graça da existência: viver era a loucura que nunca pôde suportar.

Sentado em sua poltrona enquanto lia o jornal, Andrés Pastor decidiu que, se morrer não era um desejo do corpo sadio que tinha, morreria pela força de uma decisão. E sabia que para isso não precisaria de exame algum, de sangue, de fezes, de urina, o que fosse, e menos ainda precisaria avaliar sua alma, que julgava boa. Morreria pela via de um aparatoso e espetacular suicídio, a contrariar seu corpo, que insistia em não lhe conceder uma morte tão bem imaginada.

 

Nada nesse ou em outro mundo o assombrava. Livre dos dogmas das religiões, que sobre muitos se abatem, Andrés Pastor olhava a vida com os olhos de um suave mormaço, em perpétuo soslaio, e via a sua existência como deveria ver: ou tudo funcionava segundo as inapreensíveis necessidades do Mundo, ou tudo seria o mais puro Acaso. A vida para Andrés Pastor se encruzilhava uma segunda vez.

E se a vida fosse assim, um puro Acaso, a morte seria uma necessidade aceitável, e ambas, vida e morte, não fariam o menor sentido. Não se importava que fosse assim. A morte iminente logo lhe falaria sobre essa tal verdade; ou sobre esse tal engano.

Com esses pensamentos, Andrés Pastor pelejava com os dias: ele desafiando o Mundo e o Mundo em perpétuo desprezo por ele. Um daqui e outro de lá. E se o Mundo era indiferente a tudo, ele também seria indiferente ao Mundo. Um daqui e o outro de lá medindo forças, sem trégua, e nessa luta de nunca terminar, Andrés Pastor seria o absoluto Acaso, enfrentando com a sua morte a imensa vastidão do Nada, quando ambos estariam em algum lugar, frente a frente, ele contra o Mundo, numa luta sem fim até o último fio de sua vida, ou o que de vida lhe coubesse após a morte, embora isso não desejasse: outra inútil experiência julgava não merecer. Tomado pela força desses pensamentos, tudo ficou claro, decidido e determinado.

 

Por muitos dias estudou meios de deixar a vida, e em nenhum deles achou graça ou arte. Tudo que lhe vinha à mão se mostrava cru, insosso, sem o colosso de uma memorável partida: um tiro de nada, um conhecido veneno, uma queda de grande altura, um veículo em disparada, um trem veloz arrastando à sua frente aquilo que vida já não teria. Não desejava que fosse assim, tão comum, tão sem arte.

Não sendo apenas esse o seu maior acerto, Andrés Pastor sabia que por amor jamais morreria: sabia que esse jeito de morrer era doloroso demais. Queria uma morte indolor, algo de sumária eliminação, instantânea, como se de susto ou sono não retornasse, assim, simples, e nada foi capaz de mostrar a ele o mérito que desejava.

Avaliando os métodos conhecidos para se morrer, ficou com a impressão de que usá-los o revelaria em desespero, e desespero não tinha, tinha apenas a necessidade de não viver, e isso nunca o desesperou; desejava apenas ficar longe da loucura que era continuar vivendo.

Sabia que um homem desesperado é a hiena que corre na direção de uma carniça, nunca um leão soberano caminhando sobre suas patas, numa magnífica planície, ainda que a morrer de fome, embora perpetuamente livre do medo. Se logo haveria de enfrentar o Nada imponderável, Pastor seria esse leão soberbo, e, de pé e íntegro, caminharia pelas imensas planícies de sua imaginação.

Um dia acreditou haver encontrado o modo certo de partir: dado a construir geringonças, desenvolveria ele mesmo aquela que o levaria com a pompa e a arte que desejava. Faria um engenho macabro, repleto de apetrechos, com luzes, roldanas e carretéis. Seria um engenheiro fazendo a sua última obra; de morte. Levou nisso quatro meses sem que a força vital dos vivos fosse capaz de mudar o rumo do destino que escolheu. Morreria, morreria. Tinha certeza de que não se equivocara quando decidiu que tudo terminaria ao completar cinquenta anos.

Sobre um papel lustroso traçou linhas finas e grossas, com canetas coloridas ressaltou as regras de funcionalidade da sua máquina, que ilustravam as diferenças entre os muitos materiais que empregaria: ripas de madeira, fios de aço, roldanas de ferro, polias de plástico, molas encapsuladas, tensores de policarbonato, parafusos de cobre e, no centro de tudo, um revólver que havia adquirido em tempos de outras fúrias ― já não se lembrava quando nem quais.

Embora engenhosa, sua máquina seria simples: um conjunto de molas poderosas, que após ativado, giraria engrenagens seguidas vezes, acionando o gatilho da arma até que todas as balas fossem disparadas na direção do seu corpo, escolhidos os pontos vitais. Imaginou que cinco balaços dariam conta, sem chances ao erro. Andrés Pastor estaria sentado diante do seu engenho, na poltrona onde lia seus jornais.

Depois de tudo pronto, ele se sentou diante de sua obra e consumiu lentamente a beleza do feito. Em intervalos regulares, entre inspeções que fazia em sua máquina, dedicava-se a ler o jornal: havia uma guerra em algum lugar ― mas guerras sempre haveria ―; havia um senador que quase ― sempre quase, lembrou ― foi preso por se exceder no que era aceitável roubar do povo que lhe depositara confiança; havia presos que se evadiram de uma cadeia, que era tal como uma cova para bichos, e havia mais bichos que covas naquele lugar.

Havia guerras e havia fugas; havia covas e havia bichos por todos os lados; e havia também políticos, mas logo não haveria nada para se preocupar, porque o Nada era maior do que tudo que lia nos jornais. Andrés Pastor só queria a planície infinita, caminhar sobre ela, ser o leão altivo fadado a se encontrar com a morte, e saber que logo morreria não o assombrava; jamais. Enfrentaria o Nada cara a cara, frente a frente. Viver era uma estranha loucura que o desesperava.

Deixou a leitura de lado. Tudo à sua volta tinha a mesma cor dos dias, que era opaca, de gosto salobro, num mundo cujo odor se tornara insuportável. Olhou para a sua obra de terror e morte por um longo tempo, e sentiu mais uma vez que por meio dela seria um leão nas planícies dos seus pensamentos. Tudo se havia tornado indiferente.

Levantou-se algumas vezes de sua poltrona para promover alguns ajustes de fina sintonia em sua máquina; mais de estética que funcionais. Sua obra de morte luzia diante dos seus olhos. Eram roldanas, cabos, tensores, parafusos, e, atada a tudo, aquela arma que brilhava; e esperava. Estava feito, estava definido. Aguardava a hora de caminhar sobre a planície e ser o leão que sempre sentiu que deveria ser.

 

Tudo acertado para breve futuro, ele continuou vivendo como se a morte fosse um doce que comeria mais tarde, após o sal da vida. Ia ao trabalho, via televisão, lia os jornais, um livro, e tudo, absolutamente tudo, tinha como cenário a máquina que sulcava seu cérebro como uma faca modelando nele, indelével, as imagens de sua morte: a máquina ocupava o lugar mais absoluto de sua sala.

Dispensou aos poucos conhecidos que tinha algumas reverências, e os olhou com a mais pura curiosidade, como se nunca os conhecera, desejando levar na alma algumas imagens de perpétuo desprezo. Seriam essas as poucas lembranças que desvelaria em outro mundo; se mundo além houvesse.

Pagou algumas contas que corriam em atraso, arrumou armários, devolveu alguns livros à biblioteca depois de anos de o prazo de entrega haver expirado, passou a limpo alguns momentos incertos do seu passado, e se deu conta de que nada, absolutamente nada merecia reparo; tudo eram tolices e enganos.

Cessou de se mover em direção ao que não fosse esperar o dia fatal. Sentia-se um leão num mundo onde havia hienas demais, e já não ligava a elas, às covas, aos políticos, aos homens de todo o tipo. Haveria de esperar, e esperava.

 

No dia acertado, afagou o gato que frequentava seu apartamento, embora dele não fosse o dono. Imaginava que o bicho vagasse sem querências pelo prédio. Colocou para ele, num canto da sala, um pote com ração e um vaso com água limpa. Imaginou que isso seria o bastante até que o animal vadio, malhado em três cores, resolvesse a quem se apegar em outro lugar.

Na hora marcada para o desfecho, penteou os cabelos como sempre fazia antes de um evento relevante, e o fez como se tivesse nas mãos um pente e um esquadro. Levou ao lixo algumas revistas e objetos que não lhe fariam justiça moral se vistos por curiosos, fora de contexto, e deu por encerrada a loucura da vida que grudara em seu corpo por exatos cinquenta anos, como se ao pé de um documento pusesse a sua assinatura; a última.

Sentou-se cuidadosamente em sua poltrona, cerrou os olhos e fez uma curta oração vazia de palavras, e, em seguida, acionou o cordão que pôs a sua máquina em movimento.

 

Houve o primeiro disparo, que soou como um trovão subterrâneo a expelir um fogo contra um céu infernal, que acertou a sua têmpora esquerda e o paralisou instantaneamente, da cabeça aos pés. Nesse momento, Andrés Pastor sentiu que se dividira em dois: corpo e alma; estrondo e silêncio; desejo e desistência; resistência e frouxidão; vida e morte. Nada sabia; sabia apenas que se partira em dois.

Não ouviu o segundo disparo, nem o terceiro, nem o último planejado. Sentiu apenas que o sangue lhe escorrera espesso pelo rosto, mas prescreveu para si mesmo que não havia morrido, e intuiu haver algum erro em seu projeto de morte.

Tentou se levantar de sua poltrona e não conseguiu. Queria acabar com aquela agonia, mas nada lhe era possível: seu corpo estava largado, inválido, submetido ao poder da gravidade. Seus olhos imóveis contemplavam a boca do cano da arma que via continuamente fumegar, que parecia haver escolhido não continuar o seu destino de matar. Sentia apenas a enorme tensão que a máquina exercia sobre si por obra das molas e dos tensores de aço; tudo iminente, frustrantemente iminente; embora inerte.

Nesse ponto, Andrés Pastor sentiu-se tomado pela agonia de um desfecho inesperado, interrompido pela sua incompetente engenharia de morte, que se transformara num meio de sofrimento que não imaginava merecer. Sabia que assim ele seria uma carniça exposta às hienas, não um grande e altivo leão.

Refletir sobre a vida ou sobre a morte tornou-se impossível diante daquele jogo paralisado, onde a máquina parecia haver estacionado para sempre o seu ritual, e isso não dava a ele a planície, e assim ele não seria um leão orgulhoso.

Seus desejos se confundiam: embora quisesse dar tudo por encerrado, desejava ainda mais levantar-se de sua poltrona e ir até a sua máquina para corrigir um problema que quase podia perceber numa das roldanas que compeliria o gatilho na direção de um segundo disparo que não acontecia.

O tempo corria e aquele jogo de inércias perdurava, ao tempo em que sentia que todas as suas forças o haviam abandonado. O sangramento na cabeça havia cessado, podia sentir a dureza e o enrugamento de um grande coágulo que se formara em seu rosto. Sucumbira completamente à noção das horas, da duração de tudo, do tempo que circulava lento ao seu redor. Sabia apenas das incontáveis vezes em que um raio de sol se arrastou pelo piso da sala, vindo de uma persiana que não se fechara completamente.

Imaginou-se desidratado, moído pela falta de alimentos, embora seus olhos, perpetuamente paralisados, continuassem a olhar eternamente aquele cano de arma preso à máquina que construíra, sob a permanente tensão das peças que não se moviam, apenas rugiam como um animal enjaulado, sem conclusão. A máquina continuava a despejar rangidos e estalos, como se fosse avançar no cumprimento de seu destino de matar, mas isso não acontecia. Andrés Pastor podia sentir tudo isso.

 

Num dado tempo percebeu que o ambiente se encheu de pessoas. Eram homens e mulheres que nunca vira antes. Eles o olhavam, falavam coisas que ele não conseguia compreender, tão próximos, depois se afastavam, voltavam a se aproximar, mediam distâncias, faziam fotografias e anotavam coisas em seus cadernos. Andrés Pastor não conseguia dar conta de haver tantos motivos para aquelas pessoas estarem em sua sala, a olharem-no e a olharem a sua máquina.

Ao cabo de algumas horas, aquelas pessoas começaram a recolher coisas do ambiente. Primeiro levaram embora a máquina de morte, em seguida um corpo morto e seco pelo tempo, enfiado em um saco, e tão pouco havia de corpo que o saco em que o puseram ficara colado ao fundo da maca de transporte.

 

Andrés Pastor imaginou ter ouvido ― perto ou longe, não soube ― alguém falar em cinco tiros, todos fatais, mas não compreendeu se fora exatamente isso; aceitou que não. Não conseguia tirar a sua atenção da máquina, que permanecia rugindo à sua frente. Ao final de algumas horas de tanta gente circulando ao seu redor, todos se foram após fecharem janelas e portas, vedarem cortinas e desligarem as luzes intensas que haviam instalado em sua sala. O ambiente retornou à funda penumbra de antes.

Andrés Pastor estava novamente só em meio ao silêncio absoluto. Sua máquina continuava a rugir e a soltar estalos, e era apenas isso que podia ouvir. Esperava que mais um disparo saísse daquele cano prateado e ele não acontecia: sua máquina não funcionava como deveria.

Ele queria caminhar sobre a planície, impávido como um leão, e tudo estava bem ali para satisfazê-lo, numa simples ação de sua máquina, que se negava a cumprir seu destino de matar.

Algo que não podia determinar o desesperava cada vez mais. Sem poder desviar os olhos do cano daquela arma que eternamente fumegava, Andrés Pastor continuava sentado em sua poltrona ouvindo a sua máquina, que rugia e soltava estalos sem nunca fazer o segundo disparo, aquele que o levaria definitivamente deste mundo que o enlouquecia um pouco mais a cada segundo.

36 comentários em “A Máquina (Elisaldo Crisóstomo)

  1. Fil Felix
    26 de novembro de 2020

    Boa tarde!

    Um homem possui a fixação de que irá morrer aos 50 anos. Percebendo que sua saúde está melhor que nunca quando chega na idade, resolve criar uma máquina para suicidar-se com estilo.

    Um conto muito bem escrito, desenvolvimento tranquilo e sem pressa, apresentando o protagonista e toda sua visão em relação à vida e também à morte. Ele tem a fixação com a morte que chegará aos 50 anos e, quando chega na idade, se sente frustrado e traído por estar com a saúde em dia. O próximo passo, naturalmente, seria se suicidar. Mas ele quer fazer com estilo, com arte. Assim, cria uma máquina que irá disparar algumas balas sobre seu corpo. A trama do conto é muito boa e chega a ficar tensa nos últimos parágrafos, em parte graças ao talento do autor com as palavras. Assim que ele leva o primeiro tiro e fica paralisado, com a máquina quebrada, a gente consegue sentir o drama da situação e até imaginar tudo que poderia sair dessa situação: ficaria paralisado para sempre? teria que ser ajudado por outros? ficaria consciente de tudo isso? E o autor surpreende e caminha em outra direção.

    O protagonista foi tão ingrato, digamos assim, com a vida que ela própria resolve pregar uma peça final. Ele morre, sim (pelo menos fisicamente), mas sua alma continua a vagar pelo cômodo, sempre observando e aguardando o segundo tiro da máquina, que funciona como uma besta, uma fera que irá tirar-lhe a vida. Ele fica vagando entre os dois planos, talvez condenado para sempre. Muito bom. Em relação ao tema, até dá pra fazer essa associação entre a loucura e sua aversão à vida e fixação com a morte, mas se o tema não fosse já conhecido pelo leitor, eu diria que aborda muito mais temas como a morte e/ou engenhocas. De qualquer forma, um ótimo conto, bem desenvolvido e com uma trama marcante.

  2. Rubem Cabral
    23 de novembro de 2020

    Olá, Elisaldo.

    Resumo do conto:

    Andrés é um homem que por alguma razão decidiu não viver mais que 50 anos. Ao se aproximar da idade-limite que definiu para si, ele se angustia ao notar que tem boa saúde e que não morrerá de causas naturais. Resolve então criar uma máquina de morte, para que seu suicídio seja algo elaborado, para que sua partida seja grandiosa. Contudo, a máquina aparentemente falhou depois do primeiro tiro, deixando-o paralisado e esperando pelos outros tiros que nunca foram disparados. O final revela que a máquina funcionou, mas Andrés ficou preso numa espécie de limbo entre a vida e a morte.

    Análise do conto:

    Conto muito bem-escrito, com um mote incomum. A escrita foi inspirada, e alguns recursos, como citar listas, usar o nome do personagem sempre com nome e sobrenome, deram bastante personalidade ao texto. Achei a ideia da máquina de morte um pouco semelhante à máquina do romance de Adriana Falcão, embora essa última não utilizasse arma de fogo. A construção do personagem Andrés, um homem que não vê graça no viver, foi muito bem-feita, e o final, ele preso, paralisado entre vida e morte, foi muito bom. Somente achei que o tema loucura foi abordado de forma muito tênue pelo conto.

    Boa sorte no desafio & abraços.

  3. Jorge Santos
    21 de novembro de 2020

    Olá, Elisaldo. Tinha perdido a sua máquina algures por entre os contos e só dei por ela ao preencher as notas. Ler este texto a poucos meses de fazer cinquenta anos tem um sabor especial, não propriamente feliz. É uma idade mágica, que nos obriga a olhar para trás e tentar ver se a vida foi bem aproveitada. Um tempo de balanço.
    O seu conto narra a história de um homem com um tipo de loucura muito específica, algo que foi incomum de ver neste desafio: ele sabe que vai morrer antes de fazer cinquenta anos. Desconfia que tem alguma doença, mas não tem nada de especialmente grave, pelo que decide tomar a tarefa nas suas mãos de uma forma espectacular: constrói uma máquina que dispararia diversos tiros. No entanto, algo corre mal e ele fica paralizado depois do primeiro tiro. Sozinho e imobilizado, sofre com a perspectiva de uma morte lenta e agonizante.
    É um texto impactante, bem escrito e muito bem delineado. Tem fluidez e parte de uma boa ideia, a combinação perfeita que procuro nos textos deste desafio.

  4. Amanda Gomez
    18 de novembro de 2020

    Resumo📝 Homem decide que vai morrer aos 50 anos. Saudável e decidido, resolve criar ele próprio a maneira de tornar essa vontade irreversível em realidade.

    Gostei 😃👍 Olha, seu conto me deixou sem fôlego. Falando primeiramente da escrita, do estilo, da narrativa : está perfeito. Muita profundidade, muitas cenas impactantes, o personagem é desnudo diante do leitor, e o mais impressionante é que não de enxerga nada. O homem é vazio de tudo, cheio de nada….sei lá. Fiquei impressionada com a intensidade dos sentimentos dele, ou a falta. Achei um conto terrivelmente triste, desconsolado… inevitável. A decisão de morrer, a desilusão de não ser algo que já o esperava, obrigando-o a ter que dar um jeito sozinho. O culto a morte, como ele romantiza. Como uma pessoa assim conseguiu chegar aos cinquenta? Com tanto sofrimento. A cena final é muito impactante e dolorosa. Busquei criar a cena na minha mente. De um senhor de 50 anos, sentado diante de um projeto de morte, sozinho e sem um pingo de dúvida do que deveria ser feito. Depois a morte que passou por ele sem que percebesse a eterna tortura de esperar por ela. Nossa… vou ficar um tempo pensando nisso. No seu personagem… e na agonia de imaginar ele ali…esperando o segundo tiro.

    Não gostei 😐👎 Nada em específico. Não sei se a profunda depressão do homem pode ser assossiada a loucura, mas tudo bem.

    O conto em um emoji : 🧔🔫⌛⚠️

  5. Andre Brizola
    10 de novembro de 2020

    Olá, Elisaldo.
    Conto que narra a decisão de Andrés Pastor de não superar os cinquenta anos de vida arquitetando, assim, uma máquina que o auxiliará em um suicídio incomum.
    No início do conto achei que encontraria, como mote principal da história de Andrés Pastor, a hipocondria. Todas aquelas menções a exames, variados e diversos, davam a entender que o personagem acreditava ter alguma doença. Mas, não, a verdadeira loucura aqui é realmente centrada no fim abrupto da vida, o suicídio.
    Tendo isso em mente acredito que o conto é esteticamente perfeito. Se há deslizes gramaticais são exatamente isso, deslizes, e não comprometeram o fluxo e o entendimento do enredo, que é extremamente bem ajustado, interessante e cativante (o que é uma característica estranha para dizer sobre um conto sobre suicídio).
    Andrés Pastor foi construído de forma muito cuidadosa. O personagem é a força motriz do conto e, se não tivesse sido tão perfeitamente caracterizado, a narrativa provavelmente ficaria “capenga”, buscando um equilíbrio que talvez não existisse.
    Gostei bastante do conto. Mas devo admitir, fiquei frustrado quando vi que a hipocondria não seria abordada, pois seria uma loucura incomum, digamos, e original para um conto. Mas, enfim, ainda assim é um ótimo trabalho.
    É isso. Boa sorte no desafio!

  6. Rafael Penha
    10 de novembro de 2020

    RESUMO: Homem quer se matar, lhe falta coragem e criatividade até que consegue. Mas algo inesperado lhe acontece.
    COMENTÁRIO:
    Olá, autor. Primeiro cumpre ressaltar e elogiar seu domínio da língua. Um texto bonito e esmerado, não apenas gramaticalmente, mas poeticamente. Há carinho e dedicação nas construções frasais, formadas para extrair beleza e significado ímpares.
    Entretanto, creio que este ponto forte da escrita deixa o escrito perigosamente próximo do ponto fraco dela: a divagação.
    Eu senti um verdadeiro desfile de palavras, construções e metáforas, entretanto, muito era escrito e nada era dito. Senti que a história não progredia enquanto as palavras eram despejadas com elegância. Sinceramente, o resumo que fiz acima descreve seu conto perfeitamente, pois não há mais nada nele, no que tange a enredo.
    Sobre o personagem, não sei ao certo se poderia enquadrá-lo como um louco, talvez, exceto no momento de sua morte, mas não sei se chamaria de loucura também. Em vida me pareceu que queria tirar a própria vida, mas não tinha coragem, assim, procurou todas as formas de fazê-lo exatamente para não ter de fazê-lo ele mesmo. O texto tão bem escrito, ainda mais visto do narrador que sente o que o personagem está sentindo, infelizmente afasta qualquer sinal de loucura no protagonista, pois há uma ordem muito bem estabelecida em sua linha de pensamentos, seu planejamento e na perícia do escritor, que afinal, lhe narra as ideias. Muito foi lhe dito sobre ele, mas não sabemos seu passado, seu presente, nem nada sobre ele. Muito foi escrito sobre o que ele pensa, mas não conhecemos o personagem.
    O final foi mais animador, e de certa forma, inesperado. Dando uma espécie de lição no homem que queria morrer, mas novamente, pouco de loucura enxerguei.
    Em suma, o domínio da língua é notável, habilitando o escritor a produzir belas construções, mas isso suplantou o enredo, que poderia ou ser narrado de forma mais concisa, ou ser mais aprofundado, principalmente no desenvolvimento de personagem.
    Um grande abraço.

  7. Paula Giannini
    8 de novembro de 2020

    Olá, Contista,

    Tudo bem?

    Resumo: homem constrói máquina a fim de dar cabo à própria vida.

    Minhas Impressões:

    Escrito em terceira pessoa onisciente, o conto se divide, a meu ver, em duas partes, se pensarmos na questão da trama: a primeira, quando somos apresentados ao protagonista e seu “desejo” de viver apenas até os 50 anos, e, a segunda, quando este personagem constrói sua máquina e efetivamente faz de seu desejo uma “realidade”.

    Com um certo ar steam-punk, o(a) autror(a) conduz seu leitor por ambas as partes com o perfeito domínio de um contador de histórias. Aqui, esse contar vai além da narrativa e o conto se reveste de literaridade, em um tecido de palavras belamente orquestrada.

    O conto prende o leitor com curiosidade, mas, mais que isso, há aqui o prazer da leitura no que toca a linguagem.

    Quanto à trama, é interessante notar como o(a) autor(a) foge daquilo que se prevê obvio, para a tal morte aos 50, imaginei um andamento que se revelou diverso e o mesmo se deu com a máquina construída que, imaginei caminhar para um tipo de “criação da metralhadora posteriormente explorada pela humanidade como máquina de guerra”. No entanto, o andamento que o(a) contista deu à trama, foi bem mais interessante que aquele que eu, como leitora, imaginava.

    O ápice do conto, com a alma do homem assistindo à retirada de seu corpo da sala é a cereja do bolo, emprestando ao texto um ar de realismo fantástico.

    Excelente!

    Parabéns.

    Como disse a todos, se algo em minha análise estiver em desacordo com sua criação, desconsidere. Aqui, estamos todos para aprender.

    Beijos e boa sorte no desafio.

    Paula Giannini

  8. Ana Maria Monteiro
    8 de novembro de 2020

    Olá, autor.

    Resumo: Em algum momento longínquo da sua vida, Andrés Pastor decidiu que morreria aos 50 anos. Sem outro horizonte que não esse, caiu naturalmente na mais absoluta apatia e inércia. Quase a chegar à idade escolhida, percebeu que não morreria de causas naturais e entendeu que teria de se suicidar. Não lhe agradava a ideia de uma morte lenta ou banal e criou uma máquina que executaria a sua vontade. Chegado o momento, o que sucedeu não correu exatamente como ele pensara.

    Comentário: Elisaldo, você escreve muito bem e tem domínio do idioma e da forma de contar. O seu conto tem uma beleza própria, mas senti falta de alguma densidade no protagonista, que vi mais como uma pessoa deprimida que como um louco.

    Gostei mais da segunda parte, a partir do momento em que construiu a máquina torna-se mais denso, começa a emoção e a loucura. Existe muita reflexão espelhada na sua escrita, queria mais, muito mais, mas sei que iria receber reclamações e a limitação de palavras também não permitiria muito mais.

    Torci o tempo todo para que ele não mudasse de ideias, tinha receio que o deixasse ficar vivo e achei a solução final perfeita. A partir do momento em que ele se divide em dois, o seu corpo morre, mas a sua consciência permanece ativa, ainda que apenas ligada à presença da máquina. Um autêntico inferno! Ou, melhor ainda, a sua loucura foi mais verdadeira na morte que em vida.
    Um trabalho muito bem executado. Parabéns.
    Boa sorte no desafio

  9. Anna
    8 de novembro de 2020

    Resumo : Um homem chega aos 50 anos e decide de forma intrigante que chegou a hora de morrer, que continuar a viver seria loucura. Faz uma máquina para se matar de maneira memorável e cheia de arte. Acaba por morrer mas sua alma pensa estar viva e fica na poltrona da morte ansiosa pela hora de morrer e odiando a vida.
    Comentário : O conto é revelador. Me fez pensar sobre o sentido da vida e o sentido da morte. O que o protagonista esperava depois da morte ? A falta de esperança do protagonista me fez ver como é grave viver sem esperar nada do futuro e secretamente desejar que o futuro não exista.

  10. Lara
    8 de novembro de 2020

    Resumo : Um homem sem esperança e objetivos na vida, decide que viver após os 50 anos seria loucura. Constrói uma máquina para se matar de forma artística.Acaba por morrer mas seu espírito continua vivendo o tédio de estar vivo.
    Comentário : O conto é extremamente triste.Nem morto nosso protagonista conseguiu ser feliz.Talvez o conto queira nos mostrar que a morte é uma continuação da vida, se vivemos sem esperança nessa vida vamos continuar a experiencia na nossa vida futura.

  11. Leandro Rodrigues dos Santos
    6 de novembro de 2020

    Suicídio planejado aos 50, o qual realiza, através de maquinação, mas é prenso ao momento.

    Tecnicamente há pequenos erros, não entendi o excesso do uso da vírgula e depois do e (,e), a propósito muito uso de conjunção ‘e’ e ‘que’ em caráter demasiado, em todos os parágrafos. Há também um ou outro erro de colocação pronominal e verbal [poucos].

    Quanto ao conceito, a ideia é interessante, mas as passagens ficaram vagas, há muita construção em cima da ideia fixa do suicídio e em como fazê-lo e pouco do porque fazê-lo. Ficou oco.

  12. Luciana Merley
    6 de novembro de 2020

    A Máquina

    Olá, autor.
    Farei um resumo e em seguida deixarei minhas impressões conforme os critérios CRI (Coesão, Ritmo e Impacto). O impacto é, na maioria das vezes, o critério definidor da nota final

    Um homem decidido a morrer aos 50 anos, desesperançoso com a sua boa saúde, decide construir uma máquina mortífera que o levaria ao cumprimento da sentença que aplicara a si mesmo.

    Impressões iniciais – Uma ideia genial. Como se eu estivesse lendo um dos grandes contos de Machado, Nelson Rodrigues e, porque não, Oscar Wilde.

    Coesão – O conto tem um núcleo narrativo muito instigante. Essa incoerência proposital entre o que é natural e o que é a loucura do personagem (“ lutava com a vida que o consumia”) dá um toque de genialidade ao conto. O imponderável está aí nas suas linhas e gera em nós uma grande expectativa que é bem alimentada até o fim.

    Ritmo – Os primeiros parágrafos estão num ritmo muito bom, construindo o imaginário. A partir do meio, consigo perceber o único motivo para uma pequena ressalva e que já foi apontada por muitos comentaristas: a repetição das ideias, do porquê ele queria morrer, da angústia com a impossibilidade da morte natural…quando eu pensava que viria a máquina, você trazia mais e mais explicações sobre a razão do morrer precoce. Nada que tire a genialidade do conto, mas tornou a leitura um pouco angustiada e deixa na memória esse aspecto obnubilando a sensação excelente de todo o resto.

    Impacto – Maravilhoso. Conto para ficar pensando nele. O final é surpreendente e suave. Fecha mas não conclui. Fiquei contando os tiros, se eram reais ou após a morte física dele. Muito bom.

    Parabéns e espero que alcance as primeiras posições.

  13. Misael Pulhes
    5 de novembro de 2020

    Olá, “Elisaldo Crisóstomo”

    Resumo: um homem entediado da vida, que não encontra nela qualquer sentido, decidira há tempos que não passaria dos 50 anos de vida. Mas como sua saúde andava bem, muitíssimo bem, resolve cometer suicídio por meio duma engenhoca, criação sua.

    Comentários: em geral é perceptível o domínio da escrita por parte do autor. Não só domínio gramatical, mas, mais que isso, uma grande habilidade literária e poética. O conto tem toda a atmosfera lúgubre, melancólica do tema da morte. Há imagens e trechos belíssimos, como: “Um homem de ferro, definitivamente sem máculas na carne; embora sem medidas para a alma, que para essa nunca se teve exames de exata precisão” e “Seriam essas as poucas lembranças que desvelaria em outro mundo; se mundo além houvesse”.

    No entanto, paradoxalmente, o que é a grande virtude do conto acaba lutando contra si mesmo, a meu ver. O texto acaba por parecer uma dança poética, mas estática. A trama demora a avançar, sendo que o clima criado faz o leitor desejar que avance. Numa prosa poética sem pouco enredo é ideal, acho, que outros aspectos da coisa sejam vistos, mas tudo o que se tem aqui, na primeira parte, é a poesia sobre o desejo de morrer aos 50, e coisas muito relacionadas a isso. A exemplificar: o quarto parágrafo – por começar a falar do 49º aniversário – parece que adicionará algo às verdades já estabelecidas nos 3 primeiros; mas o que temos, ainda, são imagens, metáforas, poesia – de muito bom gosto, mas que já vão se tornando sobressalentes. A impressão que tenho é que o conto vai perdendo sua força conforme prolifera e reitera metáforas e poesia. Talvez se 1/3 dele fosse cortado, o impacto seria muito maior.

    Um exemplo de como reiterar imagens me prejudicou, cansando um pouco a leitura: em determinado momento surge a imagem das hienas e do leão – lindíssima! Aí, no parágrafo iniciado por “Havia guerras e havia fugas”, repete-se a ideia do leão. Ok. Mas nos dois parágrafos seguintes a imagem (que, reitero, é lindíssima!) é novamente mencionada. No final da seção seguinte, de novo! Isso tudo parece um grande exagero que luta contra a metáfora e seu poder.

    Além disso, o personagem me pareceu meio vago, genérico. Foi difícil criar empatia porque o que se diz da sua vida é superficial, tangencial. Mais trechos como “Levou ao lixo algumas revistas e objetos que não lhe fariam justiça moral se vistos por curiosos, fora de contexto…” teriam sido excelentes para se criar uma figura mais sólida de quem era esse cara.

    Depois de tantas críticas, outro elogio ao final. O final é ótimo!! Essa imagem do cara vendo, sem entender, a própria morte (foi como interpretei o final), decepcionado por aquilo não ter resolvido seu problema é primoroso!

    Acho que o conto poderia ter tido mais peso sem as reiterações. Mesmo assim, é um dos meus preferidos até aqui. Boa sorte e um abraço!!

  14. Almir Zarfeg
    3 de novembro de 2020

    Resumo:
    O conto narra a história de André Pastor que, sentindo-se farto da vida, decide se matar assim que completar 50 anos.

    Comentário:
    Uma narrativa muito bem conduzida em todos os sentidos, com um personagem bem elaborado, cuja história atrai e atiça a curiosidade dos leitores. Assim me senti o tempo todo. A estratégia da engenhoca, por vezes, me fez pensar em Kafka. Enredo extenso, mas não cansativo. Leitura flui. Um dos melhores textos, senão o melhor, deste desafio literário. Meus sinceros parabéns!

  15. Elisa Ribeiro
    3 de novembro de 2020

    Sujeito entediado-depressivo decide morrer aos cinquenta anos, mas como a saúde persiste perfeita quando chega a essa altura da vida, constrói uma máquina infalível para levar a cabo seu plano.

    A premissa do conto é muito boa, uma criatura deprimida e ensimesmada que decide tomar as rédeas da vida, ou melhor, da própria morte, arquiteta uma máquina insólita para consumar seu suicídio de forma surpreendente e infalível, e acaba numa espécie de limbo.

    Também gostei da abordagem dada ao tema ao focalizar um sujeito portador desse tipo de depressão que não se traduz em tristeza, mas em uma espécie de tédio persistente e falta de interesse pela vida.

    O personagem me soou Alvaro de Campos, o heterônimo mais verborrágico de Fernando Pessoa. Entediado, algo cômico em seu vazio existencial, engenheiro pessimista. Diria que personagem e narrador se amalgamaram nessa construção do que para mim soou o alter-ego do Pessoa, se é que me faço entender.

    A escrita é encantadora, embora sua opção, me pareceu, em tentar atingir o limite máximo do desafio, tenha tornado um pouco cansativo, o que poderia ter sido para mim um texto sem defeitos. Desconectei-me mais de uma vez durante a leitura do seu texto por causa de parágrafos que pareciam dizer o que já havia sido dito e metáforas pouco inspiradas que poderiam ter sido suprimidas.

    Por fim, o fecho do conto ficou perfeito aumentando ainda mais o impacto positivo da leitura.

    O que não gostei: dos tais momentos em que os excessos do narrador provocaram minha desconexão com o texto.

    O que gostei: a premissa. Adorei de verdade. Pontinha de inveja.

    Parabéns pelo ótimo texto. Sucesso no desafio.

  16. Lara
    2 de novembro de 2020

    Resumo : O protagonista decidiu que não valia a pena viver depois dos cinquenta anos. Ele achava viver uma loucura e montou uma máquina para se matar. Ele realmente morreu mas sua alma permaneceu no mesmo lugar sofrendo a loucura de existir.
    Comentário : Conto muito bem escrito. Achei o desfecho surpreendente e me perguntei : Quando será que a alma dele vai se libertar ?

  17. Fabio Monteiro
    31 de outubro de 2020

    Resumo: Cinquenta anos de vida foram mais que suficientes para André Pastor. Ele decide que deve encarar a dama de negro e seguir rumo a outras planícies como um forte e astuto leão. Planeja sua morte e se prende a um lapso temporal quando finalmente sua hora derradeira chega.

    Criativo. Muito bem narrado. Explorou bem o cenário dando vida a maquina mortífera.
    O leão galgou coragem e seguiu com seus planos.

    O autor usa muito a expressão do leão. Me pareceu demonstrar a força de vontade do personagem através da relação com o animal.

    O personagem em si me cativou. Homem bom, trabalhador, adepto aos animais. Esperava que algo desse errado mesmo no final.
    Não sei se a intenção era a de deixar o personagem preso na situação de imaginar sua arma funcionando como deveria. Seja como for, calhou bem.

    Quanto ao tema Loucura. Tem que ser bem louco para criar toda essa atmosfera de morte. Me refiro aqui ao personagem em questão.
    Uma morte gloriosa.

    Me deixou com a pergunta: O que faltou para este homem, bom, trabalhador, honesto, amante dos animais, de boa saúde para que desejasse tanto a própria morte?

    Obrigado autor(a).

    Amo textos que me levam a essas reflexões.

    Boa Sorte!

  18. britoroque
    30 de outubro de 2020

    Belo conto, cara. O melhor que li até agora. Voto nesse. Só está um pouco repetitivo, mas é o melhor da rodada.

  19. Bianca Cidreira Cammarota
    30 de outubro de 2020

    Oi, Elisaldo!

    O conto se trata da estranha (in)existência de Andrés Pastor, que determina a si mesmo o fim de sua permanência física na Terra aos 50 anos, não por desespero, desalento ou desesperança, mas simplesmente porque nunca viu nenhum sentido no viver. Programa a sua morte, com um final inesperado.

    Andrés Pastor é como uma nota estranha em uma música, como um subtom fora do lugar nos acordes, o que gera natural desconforto. Não reconhecemos Andrés como um ser humano, pois ele mesmo não se vê assim, já que nada desperta em seu coração alguma empatia ou ligação, a não ser no fim, a sua máquina da morte.

    Gosto de coisas estranhas, sombrias, mas Andrés ultrapassou meus horizontes, pois não há as contradições humanas conhecidas (na minha opinião). Apenas um ser que passou por aqui, sem querer aqui estar.

    Essa personagem me encantou justamente por sua estranheza extrema.

    O relato, no início, me pareceu repetitivo, talvez propositadamente pelo autor, para que entrássemos em contato com essa criatura bizarra. No entanto, as linhas tomaram seu fôlego envolvente, em sua linguagem rebuscada, burlesca intencionais (em sincronia com Andrés) nos levando ao mundo non sense do protagonista, suas elucubrações amorais e acabei cativa da história, perguntando-me como poderia ter um desenlace.

    O fim, na minha opinião, foi perfeito. Não é uma questão de punição ou de um espírito preso, nada referente à espiritualidade e sim à consciência. Como a fixação de Andrés foi sua máquina, pois ela era o portal para o seu campo como o leão), seu ponto existencial ali se prendeu, quase em uma simbiose com o artefato, criador e criatura congelados em um eterno instante.

    Há tantas frases, metáforas e descrições que me encantaram nesta história diferente, burlesca, quase de uma realidade paralela! Adoro ser incomodada, questionada e apresentada a formas inusitadas de pensamento!

    Gostaria que o autor, se for possível, me explicasse o nome do protagonista, pois creio que não foi aleatória a escolha do mesmo. Pastor… em clara oposição à postura descrente de qualquer coisa da personagem? E Andrés? (aliás, por que um nome estrangeiro?) Acredito que me escapou a referência e adoraria saber a relação do nome com o relato, do ponto de vista de quem o criou.

    Conto estranho, incomodativo, maravilhoso… Sabe, de alguma forma, me deu uma sensação similar a que tive quando assisti American Horror History, pois quebra paradigmas e desvela um novo e sombrio horizonte.

    Parabéns, autor! Extraordinário conto!

  20. opedropaulo
    29 de outubro de 2020

    RESUMO: Andrés Pastor viveu a prazo. Cinquenta anos e não mais do que isso. Confrontado com a perspectiva de uma vida mais longeva, garantiu que teria uma morte próspera e construiu uma máquina, a única forma decente de partir. Resolveu suas pendências e, no dia marcado, desfrutou de sua obra. Não morreu, apenas criou seu próprio purgatório, um em que vive cada minuto. Não foi nenhum leão.

    COMENTÁRIO: A narrativa é muito bem estruturada. A premissa intriga, o conflito se estabelece a partir dela e a solução é tão curiosa quanto o início de tudo, em pouco tempo tragando o leitor para o clímax, quando homem usufrui da máquina. Parte do que faz desse conto muito bom é ter uma narração que, embora sendo em 3ª pessoa, garante uma imersão completa na perspectiva do personagem que acompanhamos, comunicando seu descontentamento e desprezo pelo fato da vida, como também a sua vaidade ao escolher como quer partir. O personagem é acessível e a narração cuidadosa o fez, em sua loucura, verossímil, além de ser uma loucura que foge do genérico e espirala numa obsessão inevitavelmente fatal. Na primeira ocasião em que li sobre leões e hienas, torci um pouco o nariz, pois foi um parágrafo inteiro que pareceu romper com o que vinha sendo contado antes, mas a redenção veio no restante da leitura, com a metáfora sendo reiterada nos momentos derradeiros do personagem, o final tormentoso ressignificando a tal da planície, esta inacessível atrás da máquina, cujas engrenagens não param de estalar. Do lado da escrita, é primorosa e tem certa leveza, guiando o leitor linha a linha sem entediar ou perdê-lo, ao mesmo tempo em que dá conta de nos aprofundar na psique dessa personagem singular e atormentada.

  21. cicerochristino
    29 de outubro de 2020

    A Máquina (Elisaldo Crisóstomo)

    Resumo:
    O protagonista se aproxima da idade que pressentia em que morreria. Ciente da ausência de enfermidades que pudessem levá-lo ao óbito, escolhe tirar a vida por si mesmo. Para tal feito, constrói uma máquina para ser sua obra-prima e seu engenho derradeiro.

    Comentário:
    É um conto ótimo, que leva o leitor junto com sua loucura, pois é dotado de um ritmo muito conciso. Tem umas passagens belíssimas do ponto de vista mais figurativo da narrativa. A conclusão é muito boa, sendo a ideia de inércia do último segundo em vida enquanto continuação da consciência uma sacada muito interessante. A inércia da ausência de tempo, de continuidade faz se encaixa muito com o “fim” buscado pelo protagonista.
    É lógico que, em alguns momentos, o texto é arrastado e denso (a segunda parte eu achei um pouco confusa, por exemplo). Mas, no conjunto todo da narrativa, achei o conto muito bom.
    Meus parabéns!

  22. Regina Ruth Rincon Caires
    29 de outubro de 2020

    A Máquina (Elisaldo Crisóstomo)

    Resumo:

    A história de Andrés Pastor, um ser desmotivado da vida e que planejou morrer aos 50 anos. Enxergava o viver como algo besta. Sendo muito saudável, sabendo que não perderia a vida por aí, constrói uma máquina de matar. Mas nem a morte o livrou da pesada carga de trilhar o rumo do enlouquecimento.

    Comentário:

    Elisaldo Crisóstomo, em primeiríssimo lugar, estou encantada com a beleza de escrita que acabei de “degustar”. Um primor. É um contar tão completo e tão cuidado que não há um deslize a comentar. Com certeza devo ter lido outros trabalhos feitos por você, mas a clareza da sua narrativa, aqui, os detalhes da descrição, o sábio uso de adjetivos na dose certa, confesso a você, é uma aula de técnica. E não é só isso. O seu texto é carregado de significados, nada é dito em vão. O texto traça paralelos, traz analogias tocantes. O conto, a cada parágrafo, cativa o leitor. A qualidade com que conta, enfeitiça. Bem, dá para notar que admirei a sua escrita.

    Quanto à história, nota-se que é um texto denso, cinza, de desencanto, de pessimismo. Coitado do Andrés Pastor, que vida amargurada, sem sentido! Talvez, se ele gostasse de escrever, de jogar uma bolinha, de pescar, de namorar, de fazer amigos, de brincar com crianças, ele, nem de longe, teria um propósito tão infeliz como esse que arquitetou por uma vida inteira.

    Ficaram lindos os trechos em que o autor “trabalha” com “hiena e leão”, “covas e bichos”. Emocionante, puro talento. Enfim, este é um trabalho de escritor pronto.

    Parabéns, Elisaldo Crisóstomo, você não é fraco! É grande!

    Boa sorte no desafio!

    Abraços…

  23. Alexandre Coslei (@Alex_Coslei)
    28 de outubro de 2020

    A ideia do conto é muito boa, excelente. Um homem desencantado, decreta que o término da sua vida será aos 50 anos, por suicídio. Cria um projeto para que isso inevitavelmente ocorra.

    Há um detalhe curioso que não tive como não observar. Retorno ao assunto dos muitos adjetivos, tão valorizados em alguns contos pelos comentaristas e em outros contos igualmente repleto de adjetivos passam como se não existissem aos mesmos comentaristas. É um desvio no padrão de leitura que me intriga. No meu caso, sou coerente, este conto em questão possui incontáveis adjetivos e não perde a qualidade em nenhum momento, o que confirma que essa coisa de adjetivos é mais para quem quer impor manual de escrita e não para quem se envolve com o texto. O bom leitor sabe que o importante não é a quantidade de um termo ou uma classe de palavras, o que importa é como as ferramentas são utilizadas na construção do prédio complexo que é a criação. Sim, você que me lê está correto ao supor que eu cobro coerência nos comentários. Cobro. É uma responsabilidade analisar a empreitada que é a feitura de um conto, de um romance ou de qualquer obra com aspirações literárias. É respeito pelo autor.

    Percebi logo o bom domínio da língua, da técnica da escrita no melhor sentido do termo. Ponto para o autor. Vi o conto talvez um pouco mais longo do que deveria ser. Em certos momentos faltou fôlego, mas o talento e a habilidade do autor o ajudaram a respirar fundo e recuperar-se no tranco. Vocabulário bem utilizado, palavra encaixando com perfeição em outra palavra, conquistando a nossa leitura, ganhando ritmo crescente.

    Por ter se alongado além do fôlego da excelente ideia que norteou a narrativa, não posso me furtar de dizer que em alguns momentos senti uma ponta de cansaço, mas a construção caprichosa do enredo me manteve preso à leitura.

    O desfecho é maravilhoso, bem bolado demais. O saldo final da leitura me deixa a impressão de um trabalho sensacional. Gostei muito.

    Sucesso.

  24. jeff. (@JeeffLemos)
    28 de outubro de 2020

    Resumo: Uma vida sem graça e sem atrativos leva um homem a planejar o momento de sua morte. Desacreditado de tudo, ele fabrica uma invenção capaz de resolver todos os seus problemas.

    Olá, caro autor!

    No início do texto eu fiquei um pouco cansado. Achei que a escrita se arrastava um pouco e virei um pouco o nariz. Mas fui me adaptando no decorrer e me senti bem imerso. Mas devo dizer que esse tipo de pessoa me irrita. As pessoas que veem tudo como um Nada. Me irritam porque existe grandiosidade no universo e me entristece aqueles que não conseguem captar uma fração da sua magnitude.
    A parte da construção da engenhoca, a mudança de tom de narrativa, a morte representada na loucura do sofrimento eterno. Tudo isso me conquistou muito, e eu o parabenizo por isso. Gostei muito do que fez aqui, as emoções e o sentimento de apatia se tornaram quase palpáveis.

    Parabéns pelo texto e boa sorte no desafio!

  25. antoniosbatista
    28 de outubro de 2020

    Resumo; Homem decide que vai morrer aos 50 anos. Como não morrerá de doenças, decide se suicidar, constrói um dispositivo onde um revolver será disparado quando ele estiver sentado numa poltrona lendo um jornal.

    Comentário: Um conto bem escrito, excelentes frases. Combinando e dando sonoridade às palavras. Boa gramática, bom argumento. Da metade do conto para o fim, o diálogo do narrador com o leitor, baseado em realidades e metáforas, passa para a fantasia e fenômeno sobrenatural. Não que seja ruim, ao contrário, ficou muito bom, perfeito. A alma de Andrés Pastor acabou entrando num dos mundos da Quinta Dimensão e ali ficou congelada. Boa sorte.

  26. Fernanda Caleffi Barbetta
    28 de outubro de 2020

    Resumo
    Andrés Pastor decide que deve morrer aos 50 anos e vive sua vida pensando nisso. Aos 49, ciente de sua saúde de ferro, constrói uma máquina que lhe daria 5 tiros. Após o primeiro disparo, ele deixa o corpo e fica ali na casa preso ao instante iminente do segundo disparo.

    Comentário
    O texto iniciou com um relato que parecia mais do mesmo, um enredo sem graça, arrastado, como se nada de interessante pudesse acontecer. Eis que surge a máquina de atirar para salvar tudo e tornar o conto muito interessante, surpreendente. Fiquei hipnotizada do meio para o final de seu conto, envolvida com a ideia da geringonça e, depois, com o resultado de sua experiência de suicídio. Só sugeriria encurtar um pouco este início, que ficou cansativo, voltando sempre ao fato de que ele havia decidido que morreria aos 50 anos.

    Faltou coerência ao escrever que poderia ocorrer um “desejo súbito de partir” – se ele já sabia que morreria aos cinquenta, talvez não fosse um desejo subido. E no parágrafo seguinte você ainda deixa claro que o “singular desejo funcionava nele como um olho cego de lucidez, a razão que encurtava seu tempo de viver”, ou seja, este desejo já existia.
    Outra incoerência foi o tiro atingir a têmpora e ele poder encarar a máquina de frente.. ele deveria estar de lado…

    Mais que isso (vírgula) não imaginava
    Sabia – sabia ou sabida?
    Mundo, Acaso, Nada – não gosto de palavras em caixa alta sem necessidade.
    Gostei da metáfora do leão, muito pertinente e interessante.
    Parabéns pelo trabalho.

  27. britoroque
    28 de outubro de 2020

    Conto interessante. O cara se dividiu em dois, porque um morreu, outro ficou com o leitor.

  28. Fheluany Nogueira
    27 de outubro de 2020

    Protagonista decide que morreria aos cinquenta anos. Saudável e desejando morrer de forma engenhosa, constrói uma máquina que o mataria. Mas, inesperadamente, mesmo morto, ele continua consciente.

    Narrativa inteligente, fluida, mas em ritmo um pouco arrastado. Domínio da Língua. Pareceu-me que o conjunto do texto é uma metáfora para a obsessão do homem com a morte e o pós-morte. Assim, o conto é profundo e reflexivo, com uma pegada religiosa ou sobrenatural. Interessante o desfecho com a dissociação de corpo e alma e a consciência do que acontecia ao redor do personagem.

    Parabéns pelo bom trabalho. Abraço. 🙂

  29. Nilza
    26 de outubro de 2020

    Resumo:
    Andréa Pastor é um homem que decide quando a sua vida terá fim, aos cinquenta anos isso acontecerá, não sendo através do destino, fará esse destino acontecer. Constrói uma engenhoca e aos cinquenta anos tira a própria vida com cinco disparos fatais da sua produção arte.

    Comentário:
    Narrativa muito bem construída, texto feito com clareza, em que se acompanha a determinação de alguém em por um fim a própria vida, no tempo decido como suficiente para vivê-la. Mas tamanha obsessão não foi suficiente, a morte foi certa, incerto foi o fim. Para mim o ponto interesse da narrativa: a morte não cessou a história. Vida e morte se entrelaçam, assim como corpo e alma. O que deveria libertar, se torna sua prisão, em que livre do corpo, mas preso na armadilha
    da mente, alma ou da não aceitação do fim?!
    O tiro na têmpora me fez pensar em alguém que não olhava para a “arma” no momento do disparo, assim como também não “olhou” para a morte como fim da existência, e sim como um acontecimento, uma obsessão crescente ao longo da vida!

  30. Claudia Roberta Angst
    26 de outubro de 2020

    RESUMO
    Homem não vê sentido em continuar vivendo até o declínio de seu corpo e vontade. Decide que a sua morte se dará aos cinquenta anos. Como tem boa saúde e nada acelera o término de sua existência, resolve se suicidar. Cria uma máquina que dará fim a sua vida, mas algo o surpreende, a dissociação de seu corpo e sua alma.

    AVALIAÇÃO
    O conto está muito bem escrito, expondo e reprisando a ideia do narrador do protagonista. O(A) autor(a) optou por repetir a determinação do protagonista em terminar com a própria existência aos 50 anos. Talvez tenha sido uma forma de demonstrar a obsessão do homem com a própria morte, e assim foi preciso repetir, repetir e repetir o pensamento do protagonista. O problema é que tal repetição, embora reforce a ideia que o(a) autor(a) queira passar, bloqueia o fluxo da leitura, diminuindo o ritmo a compassos (parágrafos) cansativos.
    O tema de vida após morte foi abordado a partir do primeiro disparo dado pela máquina. Alma e corpo parecem se descolar e o protagonista é capaz de ver tudo o que se passa com o seu cadáver e o seu entorno. O fim não acontece como ele esperava, a loucura aparece ao continuar vivendo mesmo tendo morrido. Continuava fazendo parte daquele enredo, mesmo tendo feito tudo para encerrar sua participação no teatro da vida. Deu ruim. Mas ainda há uma possibilidade de tudo ter sido apenas um delírio do sujeito.
    Boa sorte e fique longe dessa máquina mortífera.

  31. Thiago de Castro
    26 de outubro de 2020

    Resumo: Andreas Pastor é um homem resignado com a ideia de que morrerá aos 50 anos de idade. Quando a data se aproxima, engenha a melhor maneira de deixar a vida sem que pareça desesperado ou desgostoso, criando uma máquina que dará cabo da sua existência de forma competente.

    Olá Elisaldo! Conto muito competente e bem conduzido. Você criou com originalidade um protagonista pragmático, enfadonho, resignado com a própria loucura e o desejo de morte que estabeleceu como meta, ainda assim o conto possui um tom humorístico para falar da loucura e, apesar do final estar dado, é curioso acompanhar como o protagonista dará cabo da própria vida. As reflexões sobre o suicídio e o absurdo da vida são colocadas de maneira leve e sem exageros, sempre da perspectiva do personagem, como se o narrador estivesse em concordância com André Pastor.

    Toda a solução para a morte, um pouco da falta de modéstia do personagem e a construção da máquina é feita de forma brilhante.

    Quanto ao final, optou-se por uma interpretação sobrenatural dos fatos, o que me desanimou num primeiro momento, pois poderia cair em um moralismo sobre o valor da vida ou um arrependimento do personagem sobre suas ações, o que acharia incoerente. No entanto, o autor utiliza o recurso “espírita” (digamos assim) para aprofundar a frustração de Pastor que, mesmo morto, continua no enfado de encarar o mundo que tanto desejou se ver livre, eternizando sua agonia.

    Destaco ainda duas passagens que achei sublimes, sendo elas:

    “lutava com a vida que o consumia, e todo pensamento era uma vertigem, sem a chance do recuo que a si mesmo negara em anos passados.” – Não é um combate para continuar vivendo, mas contra a vida, o que considerei uma imagem muito forte e esclarecedora sobre o personagem.

    “Avaliando os métodos conhecidos para se morrer, ficou com a impressão de que usá-los o revelaria em desespero, e desespero não tinha, tinha apenas a necessidade de não viver, e isso nunca o desesperou; desejava apenas ficar longe da loucura que era continuar vivendo.” – Lembrei dessa passagem de Guimarães: “Viver é muito perigoso: sempre acaba em morte”.

    Já no momento que ocorre o suicídio, me veio a mente outro livro, O Visconde partido ao meio, de Ítalo Calvino, achei a descrição bem semelhante a que foi usada pelo autor italiano, o que é um mérito.

    Parabéns pelo conto e boa sorte no desafio.

  32. Giselle F. Bohn
    26 de outubro de 2020

    Homem decide que seus 50 anos devem marcar sua morte, e na falta de uma doença que se encarregue disso, resolve se matar construindo uma máquina que lhe dê um tiro. O plano dá certo e errado, com a divisão em duas partes: o corpo morre, mas a alma continua consciente e para sempre incapaz de se livrar da vida que tanto lhe atormentava.
    Conto ótimo, muitíssimo bem escrito e com uma premissa sensacional. Tem uma pegada de realismo fantástico, uma coisa sobrenatural: a morte se encarrega de acabar com seu corpo, mas aprisiona sua alma em um momento sem fim. Muito bom mesmo. E bem adequado ao tema. Tem também o mérito de não ficar usando as palavras “louco”, “doido”, “loucura” etc. Já deu, gente!
    Mas, como nem tudo são flores, fica aqui meu pitaco, mas ressalto que o problema é a (má e impaciente) leitora que sou: achei este conto prolixo ao extremo. Há vários parágrafos que dizem a mesma coisa com outras palavras, num vai e vem interminável. Eu já tinha entendido o lance dos 50 anos, da vida sem graça, da decisão de encerrar, mas ainda assim o autor falou e falou e falou nisso. Mas essa é uma questão minha, porque gosto de contos enxutos – não necessariamente curtos -, onde eu sinta que nada faltou nem sobrou. Aqui achei que sobrou, e muito.
    Duas coisas que também me incomodaram um pouquinho: primeiro, a informação de que um tiro, entre outras formas de suicídio, seria meio sem graça, mas no fim não deixou de ser um tiro. Segundo: o tiro foi na têmpora, o que me fez visualizar uma cena, com a arma perpendicular à cabeça do personagem. E então, de repente, ele passa a eternidade olhando o cano fumegante da arma. Como assim? Então o tiro deveria ter sido no meio da testa. Achei que foi um erro de continuidade.
    Mas, com certeza, este conto é um dos favoritos ao grande prêmio, uma vez que foi obviamente escrito por um habilidosíssimo escritor!
    Parabéns e nem vou lhe desejar boa sorte, porque você não precisa dela! 🙂

  33. Leda Spenassatto
    25 de outubro de 2020

    Resumo:

    A determinação de um homem, que muito cedo descidiu , viveria somente até 50 anos.

    Comentário:

    Texto maravilhoso. Corrente e muito bem escrito. Com um desfecho que subentende a maneira de interpretação de cada leitor.
    Gosto muito de contos com várias possibilidades de interpretação, onde existe a opção de questionamentos.
    Sorte aí!
    Me arrisco a afirmar; esse texto foi escrito por um Guri.

  34. Anderson Do Prado Silva
    25 de outubro de 2020

    Resumo:

    Homem decide morrer aos cinquenta. Como a morte não se concretiza por força própria, ele se decide ao suicídio, mas, apesar disso, de uma estranha maneira, segue eternamente consciente após os balaços atravessarem seu corpo.

    Comentário:

    Conto escrito com muita competência. Pelo domínio do léxico e da prosa, é mais competente até aqui. É claro que eu poderia realizar algumas sugestões, mas elas teriam mais o condão de adequar melhor o texto ao meu gosto pessoal do que torná-lo melhor do que já é. Algo que me tornaria o texto mais apetecível seria a inserção de mais ação, sobretudo com o uso do diálogo. No entanto, tenho consciência de que o enredo (homem solitário que recebe visitas de um gato vadio e se decide ao suicídio) praticamente proíbe a inserção de mais ação e, sobretudo, de diálogos. Dessa maneira, fico com a conclusão de que o texto é irreprimível e o mais bem avaliado até agora.

    A loucura aparece em três momento: (1) viver é louco, (2) decidir-se pelo suicídio é louco, ainda mais através de uma morte tão cuidadosamente planejada, e (3) seguir eternamente consciente sob a mira de uma arma é louco.

    Parabéns pelo texto e sucesso no desafio!

  35. António Fernandes
    25 de outubro de 2020

    Demasiado mórbido.
    O ato suicida, a meu ver, é um ato com decisão momentânea.
    Acresce ser uma atitude individual, a ser contada sempre na primeira pessoa.
    Não se apura se o enredo resulta da criatividade do autor ou de alguma experiência próxima.

  36. Angelo Rodrigues
    25 de outubro de 2020

    Resumo:
    Homem que não suporta viver, decide que irá morrer quando completar cinquenta anos. Atravessa a vida com esse pensamento. Quando chega perto dos cinquenta anos, sendo sadio, ele resolve se suicidar. Para isso constrói uma máquina que o fará passar desta para melhor, ou não. Mas eis que tudo se frustra quando algo inesperado acontece.

    Comentários:
    Gostei do texto, que tem uma boa linguagem, sem tropeços aparentes.

    O autor buscou tratar um tema difícil e caro a muitos: o suicídio.
    Estranhamente, o protagonista entendeu que estar vivo era submeter-se a uma forma de loucura que não suportava, e a cada dia que passava, ele ia se afundando nessa loucura. Em suma, viver era algo louco. Difícil levar adiante esse tema.

    Um monomaníaco que entende que a vida é uma loucura, e a ela precisa dar um fim. Viver além dos cinquenta anos, para ele, o tal Pastor, era insuportável.
    Interessante.

    Aos poucos, o conto foi se transformando, dado que, ao tempo em que o autor trata do tema loucura, o texto passou um ponto adiante, tratando também do estranho, do espiritual, talvez em direção ao terror: o protagonista, morto, continua sentado em sua cadeira, ainda “vivo”, esperando um segundo disparo da arma que o mataria – que na verdade já o matou – mas ele continua ali – a sua alma imortal continua ali – olhando aquele cano de arma que nunca irá disparar pela segunda vez, pois todos os disparos já aconteceram, matando-o.

    Acho que a chave para compreensão do texto está no momento em que o narrador avisa, assim que ocorre o primeiro disparo, que o protagonista se dividiu em dois. O que permaneceu no conto, após esse momento, foi a alma do personagem. Interessante.

    Boa sorte no desafio.

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Informação

Publicado em 25 de outubro de 2020 por em Loucura.