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Detox Literário.

Abracadabra – Conto (Fabio D’Oliveira)

Surpreendeu-se com a beleza daquela protistuta, por isso decidiu sentar-se ao balcão e puxá-la pra perto.

— Qual seu nome? — perguntou ele.

— Abracadabra — revelou.

Quase se engasgou com a cerveja.

— Desde quando isso é nome de puta? — debochou.

— Eu acho adequado — respondeu ela, confiante.

Franziu o cenho.

— Não acredita, né? — suspirou a mulher.

Suave, deslizando os dedos pelas costas do rapaz, ela abraçou aquele desafio.

— Eu crio, sabe? Enquanto estou falando, estou criando. Eu crio ilusões. Eu crio sensações. Eu crio histórias. Eu crio amores. Eu crio, sem parar, eu simplesmente crio — beijou-o sem qualquer pudor, acariciando seus cabelos comportados e sua carteira farta.

Ficou sem palavras, pois, que a verdade seja dita, elas não servem pra nada quando está apaixonado.

12 comentários em “Abracadabra – Conto (Fabio D’Oliveira)

  1. Pedro Paulo
    5 de outubro de 2020

    Apesar de curto, é interessante notar como o personagem começa atraído por curiosidade e encerra tomado por um sentimento profundo. Então o anúncio da prostituta sobre seus supostos poderes parecem críveis. Breve, mas intenso.

  2. Bianca Cidreira Cammarota
    5 de outubro de 2020

    Poucas palavras, muito significados! Adorei, Fabio !

  3. Fabio D'Oliveira
    5 de outubro de 2020

    Poxa, Anderson, ainda não estou muito bem pra escrever, hahaha. E não acho justo só mandar um conto antigo que ainda não apareceu por aqui.

    Acredita que me falaram a mesma coisa em OFF sobre o “franziu o cenho”? Como o uso dessa expressão é repetitivo na literatura, alguns encaram isso como um empobrecimento do texto. Eu não costumo interpretar dessa forma, sabe? É uma expressão tão certeira que não abre espaço pra dúvidas. Eu tinha feito uma frase bem maior pra demonstrar exatamente o que essa pequena expressão demonstra. Decidi trocar pra manter a agilidade do conto. Eu tendo ser mais simples, então pode ser que apele para essas expressão desgastadas, haha.

    E você me dá muito valor, Anderson. O reflexivo realmente deixa a frase melhor, mais fluida. E já cortei umas coisinhas aí no corpo original. Ainda tenho muito o que aprender.

    Agradeço imensamente sua leitura e comentário (que sempre agrega muito)!

  4. Anderson Do Prado Silva
    5 de outubro de 2020

    Gosto tanto de ler Fábio D’Oliveira que fiquei decepcionado com um texto tão curto! Fábio, juro!, você fica me devendo! Quero você no próximo desafio ou trate de, na próxima Temporada Off, me trazer um texto de no mínimo quatro laudas, fonte Times New Roman, tamanho doze, espaçamento simples!

    O texto é escrito com muita concisão e é bem divertido. Apesar da crueza do ambiente (prostíbulo) e da condição da personagem (puta), há trechos belos dispersos pelo miniconto: “Enquanto estou falando, estou criando. Eu crio ilusões. Eu crio sensações. Eu crio histórias. Eu crio amores. Eu crio, sem parar, eu simplesmente crio”. A associação título-enredo enredo-título é bem perspicaz.

    Não morro inconfesso: franzi o cenho para o “Franziu o cenho”. De tão repetitiva na literatura, adquiri ojeriza por essa expressão, mas, sendo você, Fábio, um escritor tão competente, não posso ignorar que o uso foi intencional, talvez em decorrência da impossibilidade de dizer de outra forma, ou por apreço à síntese (neste texto), ou como um efeito geral de humor que buscou imprimir à história.

    No trecho “quando está apaixonado”, fiquei na dúvida se não caberia o reflexivo “se” depois de “quando”.

    • Fabio D'Oliveira
      5 de outubro de 2020

      Publiquei a resposta acima, olha a lerdeza, haha.

  5. Priscila Pereira
    4 de outubro de 2020

    Saberia que esse conto é seu só pela imagem 😁
    Então, não é preciso usar cartola e capa pra fazer mágica, não é mesmo? E se for parar pra pensar, as prostitutas, assim como os escritores são todos ilusionistas. 😘

    • Fabio D'Oliveira
      5 de outubro de 2020

      Isso, esfrega na cara que estou manjado, vai, hahaha. E você falou uma coisa muito bonita e verdadeira. Somos verdadeiros ilusionistas. E às vezes até uns iludidos, haha. Obrigadão, Priscila!

  6. Fernando Dias Cyrino
    4 de outubro de 2020

    que conto bonito. Gostei da condução da sua história. Parabéns.

    • Fabio D'Oliveira
      5 de outubro de 2020

      Bem simples, né? Já li o seu micro, vou comentar já já. O meu não abre tanto espaço pra interpretações. É o que é. Agradeço a leitura, Fernando!

      • Fernando Dias Cyrino
        5 de outubro de 2020

        será que tem gente ainda achando que a simplicidade não dá trabalho?

  7. Cilas Medi
    4 de outubro de 2020

    A conquista fácil para quem está distraído, achando que sabe dar nomes ao em que acredita. Abracadabra abre todo o espaço, para a puta escancara o regaço. Parabéns!

    • Fabio D'Oliveira
      5 de outubro de 2020

      O incauto e o sabe-tudo sempre sofre com isso, hahaha. Obrigado pela leitura, Cilas!

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Informação

Publicado às 4 de outubro de 2020 por em Contos Off-Desafio e marcado .