EntreContos

Detox Literário.

Velho em azul claro – Conto (Anderson Prado)

Havia uma rua estreita ladeada de gente. Para a cidade pequena, era uma multidão. E toda essa gente aplaudia, sorria e gritava. Ao centro, o velho de azul claro desfilava lentamente, carregando com muito fardo pés contrariados de tanto pisar. O velho não sabia exatamente por que estava ali. Pela manhã, fora retirado da cama no horário habitual, banhado em água morna e vestido com a sua melhor roupa – o terno azul claro, já um tanto largo para o corpo murcho.

Instintivamente, o velho caminhava enquanto respondia aos acenos da multidão, cuja energia o contagiava e até lhe arrancava sorrisos postiços. Na longa vida, o velho não fora alguém importante, não realizara grandes feitos, nem mesmo tivera a delicadeza de formar uma família numerosa e carinhosa. No entanto, agora, na velhice, ele estranhamente se via cuidado. Todos os dias, ajudavam-no a se levantar da cama, a tomar o banho morno, a se vestir e a caminhar até a cozinha, onde em pouco o pão e o café lhe eram postos às mãos. A seguir, era levado até a sala e acomodado numa confortável poltrona, com travesseiros carinhosamente ajustados às costas e à cabeça. Assim eram todas as suas manhãs.

O velho não sabia de onde vinham as pessoas que dele cuidavam, apenas intuía que estavam ali para ajudá-lo. Por algum motivo, elas queriam seu bem, então ele se entregava aos oportunos préstimos, mesmo sem saber se os merecia. Será que fora bom ao longo da vida? Sua suspeita era de que não, mas a memória não o ajudava. O passado se tornara uma colcha de retalhos – vagas lembranças dispersas, sombras indistintas de peixes a nadar no fundo de um rio turvo. Ele, pescador, preparava com parcimônia a isca e o anzol e, num movimento breve, impulsionava a linha para romper a lisa superfície da água.

E a isca descia lentamente até sumir nas profundezas. Importava, então, esperar. Diante de si, o velho tinha o rio de suas memórias, mas também a televisão antiga, de volume muito alto, estrepitante até, mas que os ouvidos do velho já não mais ajudavam a escutar – ele estava sozinho na sua quase total ausência de sentidos. Apenas muito vagamente conseguia notar os outros velhos ao seu lado, também a pescar às margens de seus próprios rios.

Só o almoço interrompia a meditativa pescaria do velho. Terminada a refeição, era novamente posto em sua poltrona, onde permanecia à margem do permanente fluir das memórias do que fora um dia sua vida. Lá no fundo, deslizavam peixes ora ariscos, ora sonolentos, mas quase sempre indiferentes à isca traiçoeira do velho – peixe grande exige paciências impossíveis. De repente, um repuxo na linha permitia ao velho trazer à tona uma memória: na infância, o pai o levara para pescar.

Afinal, então, não estava sozinho nas margens daquele rio, pois tinha o pai ao seu lado. Mas o tempo – esmeril caprichoso de pedra dura, ferruginosa e escura – aparara as arestas do supérfluo, extraindo da rocha bruta o precioso diamante: o velho já não se recordava do “quando” nem do “onde” – sobrara-lhe apenas o “quê”. Fora ao lado do pai que tirara seu primeiro peixe do rio.

– Isso, filho! Puxa! Puxa!

– Pai! – fora o exclamo de espanto diante da enormidade do peixe.

– Isso, filho! Isso, filho! Que peixão! Olha só, filho! Olha só! Nossa!

E ele puxara sozinho o peixe até a margem, brigando bravamente com seus dois bracinhos magros (a fazerem justa concorrência com a finura da vara que envergava sob o peso do pescado). Fora só quando o peixe já estava ali, bem rente aos dois pescadores, que o pai mergulhara os braços na água e trouxera o enorme animal preso ao anzol pela boca, ainda se debatendo numa recusa à derrota.

Muitos anos depois daquela manhã de pescaria, o filho agora já era pai e avô e passava seus dias numa poltrona, em frente à televisão que não via nem ouvia, cercado de pessoas que dele cuidavam – banhavam, vestiam, alimentavam e amparavam. Sentado nessa poltrona, ele era só um velho há muito sem pai, vivendo de outroras, pescando às margens do rio de suas próprias memórias, lutando bravamente contra sombras vagando no sem-fundo, ora peixes ora miragens, reflexos de nuvens a se moverem no azul infinito.

Mas, numa certa manhã, a monotonia da pescaria foi bruscamente rompida. Apesar de ter sido acordado no horário de sempre e pelas mesmas pessoas, depois de banhado o velho foi vestido no seu intocável terno azul claro e, logo depois do café-da-manhã, foi conduzido para uma poltrona que não era a sua. Com dificuldade, o velho percebeu que fora colocado em um veículo e, ao lado de outros velhos, saía para o que parecia ser uma excursão. Poucos minutos depois, o utilitário parou no início de uma estreita rua, ladeada de gente, e o velho foi posto para andar.

A gente que cercava o caminho saudava o velho num clamor de torcida. Quase por reflexo, o velho respondia com algum entusiasmo às deferências que, das margens, aquela gente lhe dirigia. Sempre escorado por um cuidador, o velho seguia no seu lento caminhar enquanto, à cada margem da rua, as pessoas tentavam fisgar a sua atenção. Pela primeira vez, o velho percebeu que não estava apenas à margem do rio: ele mesmo era o próprio rio, e nele nadava em profundidades de peixe. O velho descobriu que, enquanto ele vivia, outros viviam ao seu lado e, para esses outros, o velho era também uma lembrança, um registro nas memórias de cada um dos ali presentes.

E o velho do único asilo da pequena cidade, todo impecavelmente trajado com seu terno azul claro durante o desfile de aniversário do município, deu um profundo mergulho no rio das memórias alheias, sendo por muito tempo por todos lembrado por causa de sua inusitada extravagância de ser velho, e avô de cada um, e futuro de todos. E todos viram o velho, e alguns falaram do velho, e teve até um que escreveu sobre o velho.

6 comentários em “Velho em azul claro – Conto (Anderson Prado)

  1. Cilas Medi
    29 de setembro de 2020

    A cada leitura de “velho’, isso e aquilo, “velho”, parecendo um interminável modo de se repetir, flagrou, brilhantemente, o sentimento de ausência e um interminável repetir diário. Uma eloquente, triste, esclarecida vontade de explicar o que se perde ao ficar “velho”. Velho, você superou brilhantemente todos os sentimentos, procura e drama. No final, uma homenagem, afinal, ser “velho” também é ser agente de união, tristeza, carinho, compreensão e diversão. Parabéns!

  2. Emanuel Maurin
    29 de setembro de 2020

    Como não é concurso não vou analisar, sei que minhas analises não são grandes coisas, mas uma coisa lhe digo: que conto maravilhoso menino. São poucos os escritores que me prendem e me fazem refletir. Obrigado por partilhar.

  3. Bianca Cidreira Cammarota
    29 de setembro de 2020

    Anderson, esse pequeno grande conto tem a delicadeza poética, descrita na vida de um velho já imerso em suas lembranças turvas.
    Lindo, lindo o texto…! A temática do rio, da vida como águas é de uma singeleza sem igual, contando a vida de alguém que não sabemos quem é – e nem ele, o velho, mais sabe quem foi , mas produzindo uma empatia e um sentimento de conforto enormes, tanto pelo rumo da história (alguém desamparado sendo cuidado) quanto pelo universo fluído do protagonista, nadando em poesia de uma vida já esquecida.

    Lindo. Muito lindo mesmo.

    Abraços.
    Bibi

  4. Pedro Paulo
    29 de setembro de 2020

    O uso do metafórico é muito bem dosado aqui. Acho que é justamente pelas metáforas estarem dispersas, principalmente na ideia do rio, ora figurado – de memórias – ora literal – retomado na memória do primeiro peixe do pai. Outra elemento que parabenizo é a perspectiva pautada no sensorial. Uma boa palavra para definir como é estar dentro da cabeça do protagonista poderia ser “vago”. E acho que, além de estar de acordo com a condição do personagem, essa sensaçãotambém ficou bem passada no conto. Há uma ambiguidade nessa situação, pois parece tranquila, mas é também um pouco amaldiçoada. Sua rotina parece ser uma prisão sem barras, em que o próprio corpo faz as vezes de cela. Por isso, o parágrafo inicial cria certa expectativa quanto ao que espera o velho. Quando enfim chegamos à travessia da rua, o sentido do conto fica claramente definido e o velho extrapola a si mesmo para ir além, compondo a história de uma cidade e a memória de muitos. A mortalidade que o contorna durante todo o conto parece abandoná-lo, enfim. Pelo visto o texto parece nos transmitir algo que li em um quadrinho e que eu, como estudante de História, às vezes consigo concordar. “Nada nunca acaba”. Afinal, não sei onde está o velho, mas agora eu também me lembro dele.

    P.S.: este comentário não deve ser confundido com uma grande e elaborada análise literária!

  5. Priscila Pereira
    29 de setembro de 2020

    Impecável! Uma cena, minuciosamente escrita e detalhada. Um mergulho profundo na existência. O futuro de todos nós. Poético e apaixonante! Parabéns, Anderson! Ótimo conto!

  6. Giselle Fiorini Bohn
    29 de setembro de 2020

    Lindo conto, Anderson! Não sou capaz de grandes e elaboradas análises literárias, logo, falo apenas aquilo que sinto: lindo conto.

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Informação

Publicado às 29 de setembro de 2020 por em Contos Off-Desafio e marcado .