EntreContos

Detox Literário.

Uma Mulher Azul (Rodrigo Fontes)

Quando a onda de COVID chegou ao sul, eu estava saindo da faculdade de bioquímica e queria fazer tudo que eu pudesse contra ela. Por influência de meu pai, consegui trabalhar como voluntário no Instituto Federal de Pesquisa e Prevenção de Doenças Viróticas, uma raridade em termos de centros de pesquisa, que só existe no Brasil. Os outros países não costumam conceder institutos separados para os vírus, que são tidos como casos perdidos da medicina. Quanto mais se sabe sobre eles, menos se sabe como derrotá-los.

Mas a juventude costuma ter um vigor teimoso e arrogante, quase à prova de decepções. Comecei a estudar tudo que se sabia sobre vírus e sistema imunológico. Não demorou para que uma ideia inusitada se apossasse da minha cabeça e se tornasse uma obsessão. Os vírus eram pedaços de DNA que entravam nas células em busca de outros pedaços, para se reproduzir. Se esses pedaços encontrassem seus pares fora das células, talvez não precisassem penetrá-las, e com isso não as matariam. 

O pessoal do instituto gostou da minha ideia. Logo começamos as primeiras experiências. Para a minha surpresa havia muitos voluntários. Talvez por isso os primeiros fracassos não me incomodaram. Os segundos e terceiros é que me deixaram realmente para baixo. Abandonamos a idéia com a morte da quarta cobaia. Os vírus, mesmo ganhando os pedaços que faltavam para se reproduzir, preferiam buscar esses pedaços dentro das células. Penetrar uma célula devia ter uma magia especial para eles, como roubar um banco ou um museu.

Meu fracasso não foi conhecido de um grande público. Nossas experiências no instituto eram bastante discretas, e nomes não eram mencionados. No ano seguinte fui para o exterior, atrás de um mestrado e talvez de um esquecimento. Lecionei numa faculdade canadense. O vírus foi lentamente se adaptando ao corpo humano e parou de matá-lo, mais ou menos como um dia aconteceu com o vírus da gripe.

Voltei ao Brasil alguns anos mais tarde, quando meu pai morreu. Tendo herdado certo capital, achei conveniente montar meu próprio laboratório. Iniciei a produção de imunossupressores e outras drogas caras. Aspirinas não dão retorno.

Me adaptei a uma vida simples. Tinha um apartamento próximo à praia e um veleiro de 45 pés, também herança de papai. Minha esposa também era formada em bioquímica, mas preferiu fazer carreira na área de cosméticos. Era uma mulher medíocre, nem bonita nem feia, nem inteligente nem burra. Eu estava descobrindo que não a amava quando ela engravidou. Mantive o casamento por comodidade, mas às vezes uma jovem ambiciosa me acompanhava numa lenta jornada até um píer de Búzios. Devo dizer que apesar do meu fracasso inicial, minha vida estava suportável. 

As coisas só vieram a mudar numa terça-feira de julho, quando um assessor da embaixada americana agendou uma reunião comigo. Parece que meu nome era indicado quando o assunto era imunossupressores, vacinas e coisinhas complicadas. 

O homem que falou comigo era militar, usava um distintivo no paletó. Explicou que os Estados Unidos às vezes enfrentavam problemas com um grupo de jovens estranhos, jovens que pareciam ter poderes extraordinários. Alguns eram capazes de telepatia, outros criavam campos magnéticos, outros ainda mudavam o curso de tempestades. O militar me garantiu que não falava em metáforas. Perguntei como eu podia ser útil num caso desses. Ele explicou que esses jovens tinham mutações em certos pares de cromossomos. Essas mutações eram replicadas cada vez que uma de suas células se reproduzia. Com minha experiência em virologia, talvez eu pudesse dar a essas células algum material genético, para que elas se reproduzissem sem usar os genes mutantes. Assim esses genes seriam lentamente abandonados pelo corpo e um dia deixariam de existir.

Sua ideia era coerente. Sua proposta era compatível com meu desejo de fazer algo maior e marcante. Não falamos em valores. Meu preço, obviamente, seria a cidadania americana. Sempre amei os quadrinhos, o cinema e a música americana. O samba nunca enfeitiçou meus calcanhares, os autores brasileiros nunca significaram nada para mim. A cultura americana formou minha cabeça, meu coração e meu estômago.

Minha mulher ficou contente ao saber que eu ia trabalhar nos Estados Unidos. Ela não teve o menor problema em abandonar o trabalho e se mudar comigo. Como eu disse, era uma mulher medíocre. Nos instalamos numa casa há poucas quadras do famoso Instituto John Andersen, o local onde foi desenvolvida a vacina contra a hepatite B. Eu estava orgulhoso, meu filho ia frequentar uma escola americana, minha mulher contratou uma professora de inglês e estava se dando bem com as vizinhas. Nos fins de semana íamos a um shopping, que ficava a quilômetros de distância. Comprávamos roupas de frio, cobertores, e todo tipo de bugigangas inúteis para a cozinha. Nos dias de semana eu recebia relatórios sobre os efeitos que certos aminoácidos produziam no corpo dos tais jovens extraordinários. Eram alterações severas no metabolismo e no sistema imunológico. Eu me perguntava que tortura esses jovens estariam sofrendo para que os militares obtivessem aquelas informações. Mas não pensava muito nisso. Se eu tivesse sucesso em anular os poderes de pelo menos um grupo deles, eu ganharia minha sonhada cidadania americana, e aí, adeus Brasil, adeus novela das oito, adeus gentinha do futebol e do carnaval. 

De vez em quando eu participava de algumas reuniões no Instituto John Andersen, mas apenas para marcar presença. Meu trabalho verdadeiro era feito em casa, analisando cadeias de RNA, me perguntando como eu poderia usar uma delas para substituir um pedaço de DNA, arrancar precisamente o par de cromossomos mutantes. A técnica Crispr estava se desenvolvendo e respondeu muitas das minhas perguntas. Um dia concebi certa sequência de aminoácidos que tinha tudo para funcionar. Anotei rapidamente a fórmula e como eu poderia obtê-la. Umas cinco folhas ficaram empilhadas na minha mesa. Nesse momento minha mulher chegou em casa. Devia estar voltando de uma loja ou da casa de uma amiga. Parecia feliz. As aulas de inglês certamente lhe faziam bem. Já eram umas oito da noite. Ela começou a fazer o jantar e curiosamente me fez perguntas sobre meu trabalho. Achei aquilo estranho, mas falei na sequência que eu tinha pensado, falei em como eu pretendia obter pedaços de RNA e extrair a sequência de DNA com o par de cromossomos mutante. Ela falou dos riscos que isso ia causar. Os cromossomos mutantes poderiam carregar também informações sobre síntese de proteínas e imunidade a doenças. Eu disse que tinha pensado nisso, mas precisava arriscar; afinal nossa vida agora dependia disso. Ela me olhou como se não entendesse, mas disse que, se eu estava progredindo, merecia uma noite especial. Abriu uma garrafa guaraná, me abraçou, me beijou demoradamente. Parecia bastante excitada, e isso me excitava.

No quarto pude descobrir o motivo. Sem o vestido, ela estava visivelmente mais magra. Provavelmente tinha feito uma lipo. Seu entusiasmo me contagiou. Tive uma noite incomum, em posições e orgasmos. Fiquei me perguntando se ela tinha frequentado algum curso secreto sobre satisfazer os maridos na cama. Num país de donas de casa, isso não era impensável. Levantei-me para vestir o pijama. Quando olhei pela janela, vi uma inacreditável mulher azul saindo pelo quintal. Sua pele refletia as lâmpadas do muro, que eu costumava esquecer acesas. Em seguida olhei para a cama e não vi minha mulher. Gritei pela casa, vasculhei os dois banheiros antes de ligar para a polícia. Disse apenas que minha mulher havia desaparecido. O detalhe sobre a pessoa azul eu contaria ao militar que dirigia a pesquisa. Ele devia saber algo sobre isso, e, obviamente, eu não queria me passar por louco.

No dia seguinte, às seis da manhã, a polícia estava na minha porta. Pensei que teriam alguma informação, mas tinham vindo para me prender. Depois de quatro horas de interrogatório, pude dar um telefonema. Liguei para um dos militares, meu chefe de pesquisa. Ninguém atendeu. Liguei de novo, sem sucesso. Na cela me disseram que no dia seguinte eu teria outra chance. Ao advogado, que chegou uma semana depois, expliquei onde eu trabalhava e qual era a minha “missão”. Perplexo, talvez incrédulo, ele anotou o telefone do suposto militar que conduzia as operações. Disse para eu me preocupar com a realidade, pois minha situação era das piores. Não entendi o conselho. Qual parte do que eu havia dito estava fora da realidade? Uma semana depois o advogado voltou. Disse que não conseguiu falar no número que eu dei. Meu irmão tinha chegado do Brasil, só então eu soube que minha esposa fora encontrada morta num galpão ocioso, perto da minha casa. O crime pressupunha arma cortante. Tudo estava contra mim. Se eu tivesse usado uma faca, poderia tê-la lavado e guardado na cozinha. Eu havia ligado para a polícia horas depois do crime ser cometido. Segundo eles, eu precisava desse tempo para ter certeza que ela havia morrido. 

O termo corrente é estado de choque, mas eu diria estado de inanição. Minha cabeça demorou uns dois dias para voltar a funcionar. Por que matariam minha mulher? Por que tentariam me incriminar? E a pergunta mais aterradora: como explicar uma mulher quase igual à minha, na minha cama, pela primeira vez me fazendo amá-la? Claro que isso tinha alguma ligação com a mulher azul, mas a quem eu poderia falar sobre uma mulher azul? Chamei meu irmão e meu advogado. Falei sobre o que eu não havia falado aos policiais. Eles disseram que alegar insanidade nesse momento seria pior. A insanidade só teria valor se fosse defendida desde o princípio, se houvesse outros fatos que a corroborassem, e se não fosse tão fantasiosa quanto a visão de uma mulher azul. 

No julgamento permaneci calado. Na prisão sonhei que havia homens azuis, mulheres azuis, militares azuis, e todos conspiravam contra mim. Mas isso foi só nos primeiros dias. Agora costumo sonhar que a mulher azul me visita; que ela pessoalmente não tem nada contra mim; que ela é parte de um grupo e teve que agir a mando deles. Mas ela pode, de alguma forma misteriosa, despistar os guardas e entrar na minha cela. Então esqueço minha mulher por alguns minutos e mergulho num transe profundo e silencioso, de onde saio ofegante e suado. Meu colega de cela está dormindo nesses momentos, ou talvez ela seja invisível para ele. 

O resto vocês já sabem, saiu em jornais de quatro países. Os americanos acham que matei minha mulher. Peguei trinta anos, sem direito a sursis. No entanto o que mais me dói é saber que depois da pena terei de voltar ao Brasil. Terei de voltar a um país que não concebeu homens telepatas, geradores de campos magnéticos, mulheres tempestuosas e mulheres azuis. Um país de mulheres brancas, negras ou mulatas. Um país onde qualquer coisa extraordinária é mero carnaval.

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Informação

Publicado em 24 de agosto de 2020 por em FanFic, FanFic - Grupo 2.