EntreContos

Detox Literário.

Recuperado (George Atwood Huxley)

Londres, Oceania, 27 de abril de 1985 (?).

A enorme teletela do Café Castanheira grasnava com voz monocórdia a lista diária de conquistas do Partido: “Boas novas, boas novas, camaradas! Nossos exércitos retomaram ontem a Península Ibérica, causando baixas de milhares de eurasianos: um passo importante na derrota total do inimigo! Economia: a ração mensal individual da Margarina Vitória foi aumentada para 150 gramas, a produção nacional de ferro-gusa aumentou em 1.750 toneladas em referência ao triênio anterior, a ração mensal individual de farinha de trigo subiu para 1 quilo, a ração de sacarina…”.

Os poucos clientes presentes ouviam e aplaudiam, com expressões otimistas muito bem estudadas, pois a teletela tudo transmitia, mas também tudo espionava e registrava. E não importava que há um par de meses a ração de margarina fosse de 200 gramas, que a de trigo fosse de 2 quilos. O Partido dizia que foram aumentadas, logo era isso a verdade, e era verdade também que há dois meses os números eram maiores, embora os exemplares dos jornais com tais informações conflitantes não existissem mais. Subiram, mas eram antes mais, se necessário fosse, ou não, se por hipótese não o fosse. Ser capaz de aceitar as afirmações conflitantes, ter alcançado tal humildade intelectual, era chamado “duplipensar”.

Sentado, diante de um tabuleiro de xadrez enquanto jogava contra si mesmo, Winston Smith – um indivíduo pálido e magro, de uns quarenta anos e com cabelos escuros e ralos – estava levemente alcoolizado e não percebia o frio incomum daquele dia de primavera, que escolhera para si uma mortalha de cinzas como disfarce, feito inverno infiltrado, que teimasse em não partir. A calefação do Café, obviamente, não funcionava.

Ele segurava um cavalo preto, indeciso quanto ao movimento, e sorveu um pouco de gim com cravos e adoçado com sacarina, apertando os olhos quando a bebida oleosa e de má qualidade desceu arranhando e queimando, fazendo-o trincar os dentes involuntariamente.

Quase a seguir à propaganda do Estado, a teletela encheu-se por completo com o rosto de um homem de uns quarenta e cinco anos, de olhos escuros e confiantes, queixo firme e maxilares proeminentes, um bigode bem aparado, que inspirava respeito. Todos ficaram de pé. Uma mulher gritou: “Meu salvador!”.

Winston tremeu e sorriu, nervoso; controlou-se para não se urinar como um cãozinho. A visão do Grande Irmão, o líder supremo, o fazia sentir-se tal qual criança miúda diante da enormidade de um pai rigoroso e sábio; todo disciplina, todo provedor, justiça e amor. Braços tão amplos que poderiam abarcar o mundo com tenacidade, voz macia como que vinda dos céus, aquelas palavras simples e certas, encaixadas: diamantes numa jóia. 

GUERRA É PAZ.

LIBERDADE É ESCRAVIDÃO.

IGNORÂNCIA É FORÇA.

Aquelas verdades haviam sido rejeitadas por Winston quando ele estivera enfermo, mas o tratamento no Ministério do Amor o deixara são outra vez, clareara por fim seus pensamentos e ideias, feito os tanques de Oceania esmagando os crânios eurasianos, ou lestasianos, ou quem quer que o Partido declarasse que eles estavam a enfrentar.

Dois mais dois não são sempre quatro, e aceitar isso não lhe era mais penoso, não mais mesmo: Winston era um “recup”, como constava no verbete do Dicionário de Novilíngua: indivíduo reeducado e perdoado por crimes de pensamento, que errou sem rumo por estéreis campos de heresia e foi ajudado; novamente útil à sociedade.

O Grande Irmão discursou brevemente, cada palavra uma pérola de sabedoria. O público começou a entoar “gê-i, gê-i…” e a erguer punhos fechados. Uma fanfarra militar logo começou a tocar, o que era sinal do início da sessão de execuções televisionada todo sábado. Haviam cancelado mês passado os fuzilamentos, pois algumas pessoas eram sensíveis ao sangue nem sempre evitável nas imagens de cabeças arrebentadas por balas de rifles. O velho enforcamento, então, feito uma moda antiga de ombreiras ou mullets, voltara à voga com toda força. E era certamente método muito melhor: não tão rápido e impessoal, além de às vezes trazer a diversão extra da comicidade, da surpresa dos corpos tremelicando feito peixes em anzóis, das línguas de fora, os rostos intumescidos e tudo mais. Embora houvesse também o raro risco de ereções ou coisa pior. Por tudo isso, os homens condenados eram sempre filmados da cintura para cima. Assim, a Liga Juvenil Antissexo não teria porque ficar ofendida.

O garçom passou pelas mesas com uma garrafa e encheu o copo com Gim Vitória quase até a boca. Winston observava o espetáculo na teletela sem muito interesse e notou algo insólito naquele dia: só havia um condenado. Um homem alto e forte como um halterofilista, de cabeça calva, de rosto calmo e marcado por queimaduras. “Ah, sim, era aquele terrorista famoso por atentados a bombas, o tal de máscara branca sorridente e inclinação para discursos cheios de aliterações”, lembrou-se Winston. “Estúpido ou genial, todos os inimigos do estado têm sempre o mesmo destino, é só questão de tempo. Trair é morrer, pensar em trair é morrer”.

Houve um ruflar de tambores, alguns gritos de ódio proferidos pelo público presente e o cadafalso se abriu. O corpo despencou pesadamente e, talvez devido ao porte do homem, houve apenas um ruído desagradável de osso partido, a cabeça dele pendeu de lado, e não houve minutos a mais de diversão à plateia.

***

Winston caminhou com dificuldade de volta ao conjunto habitacional “Mansões da Vitória”. O vento levantava nuvens gélidas de poeira fina e empurrava seu corpo magro. As ruas estavam cheias de escombros e crateras de antigos bombardeios eurasianos/lestasianos. As luzes do hall do prédio decrépito piscavam e ele teve que subir as escadas, pois o elevador estava quebrado há uns três anos. “Não!”, ele repensou enquanto estapeava a própria cabeça em autocrítica, “estava funcionando ontem mesmo, e amanhã já estará trabalhando tão bem como sempre”. Ao menos, ele já se curara da úlcera varicosa de sua perna, e subir até o sétimo andar não seria tão penoso, seria até bom exercício, mesmo estando tão embriagado.

Tremeu e sorriu para cada cartaz gigante com a imagem do Grande Irmão do hall de cada  andar, cujos olhos pareciam seguir-lhe. O onipresente cheiro de nabos e repolhos cozidos com carne reprocessada enlatada, de leite azedo derramado e tapetes de trapos sebosos, deixou-o enjoado. Abriu a porta do apartamento, entrou e trancou-a.

Lá dentro, a primeira coisa que chamou a atenção de Winston foi o silêncio e a escuridão: todo apartamento tinha uma teletela e era ilegal e quase impossível desligá-las. A segunda coisa foi quando o aparelho de súbito se iluminou, e um homem de uns vinte poucos anos, de rosto encovado e nariz adunco, surgiu na superfície de vidro.

—  6079 Smith W! – o homem vociferou. —  Camarada, aproxime-se da teletela!

Havia chegado o momento, refletiu Winston, com tristeza. Depois de uns meses em que ficavam “livres”, vagando sem destino feito palhaços saltimbancos, exemplos vivos aos cidadãos temerosos ao Partido, os “recups”, todos eles, tinham sempre a mesma sina: passavam a seguir ao nível de “impessoas”. Desapareciam: suas fotos, seus registros, seus corpos, suas posses, suas memórias. Nunca existiram, ninguém ousaria citá-los ou sequer… sonhar com eles…

— Em função da nova política do Partido, você será reintegrado ao Ministério da Verdade, para continuar a contribuir como membro ativo e produtivo de nossa sociedade. Na próxima segunda-feira esteja às zero-setecentas pontualmente, no departamento do jornal “O Organismo”, sub-6. Esta transmissão nunca existiu, seu período de tratamento no Ministério do Amor nunca aconteceu. Sua nova alocação não deve ser compartilhada com indivíduos não autorizados.

A transmissão terminou tão abruptamente como começou, e o aparelho ficou ligado, bruxuleando sobre as paredes nuas alguma reprise daquelas novelas simplórias destinadas aos proletas. Winston estava boquiaberto: não tinha certeza se o que acabara de acontecer era a nova praxe, porém pensar demais sempre fora o caminho que levava à danação, era melhor vestir uma expressão de otimismo descerebrado para a teletela, e aparentar calma.

Tirou as dentaduras – já estava se acostumando com elas – e as pôs num copo, despiu as calças frouxas e chutou os sapatos ao chão, atirando-se à cama. O teto manchado de mofo demorou a parar de girar.

Devia passar das zero-trezentas, quando ele começou a sonhar com Júlia, como praticamente todos os dias. Ela estava nua; os seios pequenos, a pele sardenta e os cabelos muito pretos e lisos, como ele se recordava da última vez em que se encontraram no quartinho que alugavam ilegalmente dum antiquário numa parte esquecida da cidade. Ela sorria e havia muita luz no lugar, como se eles estivessem numa sala com mil holofotes acesos, porém sem calor ou ofuscamento. 

“Ainda nos encontraremos no lugar onde não há escuridão”, alguém sussurrou. Winston procurou pelo dono da voz e reconheceu O’Brien – o homem do Partido Interno que se passara por colega conspirador e os traíra e torturara – transmutado num porco velho e gordo, de pé sobre os cascos fendidos e vestido como um capitalista dos antigos filmes educativos. Flutuando alto no ar, negando a gravidade talvez por meio de decreto partidário. “Quantos dedos tenho em minha mão?”, O’Brien perguntava, exibindo quatro dedos na mão aberta, e não cinco.

“Eu ainda te amo”, Winston e Júlia disseram um ao outro e abraçaram-se com ternura. Do alto, O’Brien ria e gruinha e começou a cantar desafinadamente uma velha canção de Glenn Miller, revista desde a revolução. 

Sob a frondosa castanheira

Vendi você, você a mim, após:

Ali estão eles, cá estamos nós

Sob a frondosa castanheira.

“Eu te perdôo”, Winston disse, e ela ecoou. Beijaram-se enquanto O’Brien descansava então no alto de um muro e girava uma roldana do mecanismo dum enorme portão. “Às vezes atacam os olhos primeiro. Às vezes perfuram as bochechas e devoram a língua.” – ele comentava, candidamente. Os ruídos de um milhão de patinhas e do resfolegar de focinhos úmidos além do muro, de bichos ansiosos por carne tenra, aqueles guinchados febris, os pelos molhados cheirando a esgoto, fizeram Winston saltar da cama aos gritos.

***

Ao contrário da precariedade de tudo mais ao redor, os prédios da esplanada dos ministérios eram perfeitos: quatro pirâmides de ousadia arquitetônica, altíssimos, altivos. O Ministério da Verdade, de concreto alvo e brilhante, o Ministério do Amor, negro e sem janelas visíveis, e os Ministérios da Paz e o da Pujança. Seus nomes em Novilíngua: MiniVer, MinAmor, MiniPaz e MiniPuj.

De certa forma, cada um deles era responsável pelo oposto de suas denominações. O MiniVer cuidava de propaganda, entretenimento e revisionismo histórico. O MinAmor, espionagem, repressão e tortura. O MiniPaz, da guerra, pois sempre era preciso um estado de guerra permanente. E o MiniPuj, por fim, administrava a economia e, principalmente, as cotas que resultavam, enfim, em fome e subnutrição. Os quatro formavam uma bela máquina, que se alimentava de si mesma; um ouroboros governamental.

Às zero-seiscentas e cinquenta e cinco, Winston tomou o elevador e pressionou: -6. Quando as portas se abriram, já havia alguém a esperá-lo no hall. Um homem de cabelos curtos e claros, de uns trinta e tantos, terminava um cigarro até o fim – a brasa brilhava junto ao filtro – enquanto acendia outro a seguir na mesma brasa e girava com habilidade o novo cigarro à boca, descartando o filtro queimado e esmagando-o com o pé.

— Bom dia, Camarada Smith – ele disse, soprando fumaça de tabaco de boa qualidade e oferecendo a mão. — Eu sou John Moore, e serei o seu supervisor. Então, vamos até o seu posto de trabalho?

John-fumante-sequencial caminhou à frente pelo labirinto de corredores brancos até chegar a um cubículo com uma mesa com ditógrafo, microfone, uma tela retangular verde-escura e alguns tubos de vácuo. O local era limpo, os aparelhos novos, a iluminação era agradável.

— Bem, é aqui… Imagino que tenha sido promovido, Smith. Extrema competência ou alguma indicação do alto, pois pouca gente tem o privilégio de ler e retroeditar “O Organismo”. Você sabe que é o jornal do Partido Interno, não?

Winston assentiu, mentindo. O louro continuou: — Hoje, no período da manhã, somente para que você se ambiente quanto ao estilo do jornal, quero que leia algumas edições já publicadas, começando pela de ontem. Ligue a telepágina – ele mostrou como – e peça ao microfone pela data da edição; é a pesquisa-padrão. Passa pela minha sala por volta das mil e duzentas, para irmos juntos à cantina do sub-10, ou você com certeza irá se perder. Ah, sim, se tiver qualquer dúvida, por favor, não me pergunte! – e ele saiu, gargalhando fumaça azulada.

Pessoas gentis e bem humoradas eram muito raras, e Winston temeu pela segurança de seu novo supervisor; inteligente e tagarela demais para seu próprio bem.

O restante da manhã então correu rápido, como os sonhos bons dos quais Winston não tinha mais memória.

***

Smith juntou-se a John e ambos desceram até a cantina. Surpreendentemente, havia um cardápio e duas opções do dia: Torta do Pastor e Peixe Empanado e Fritas. Desconfiado, Winston escolheu a torta e notou: era carne bovina, de verdade, batatas e ervilhas, de verdade! John observava tudo com divertimento, e descaradamente fumava à mesa enquanto mordiscava batatas fritas com molho e bebericava gim de uma xícara de metal.

— Não é aquela horrível lavagem de carne reestruturada, típica das outras cantinas, não? Devagar, Smith, não vá se engasgar! Então, o que achou das suas leituras? 

Winston puxou conversa sobre a execução do terrorista. John pareceu agitado e ávido em falar do assunto: — Sim, isso foi dupliplusbom! Finalmente deram cabo daquele criminoso! Quase um ano de buscas, como foi possível?! Acredita, Smith, que o lunático mascarado tinha uma coleção de raridades? Feito um corvo que junta pedras brilhantes? Livros, pinturas, bíblias, alcorões… e até um cubo, um objeto de culto de uma seita obscura chamada Ordem de Gash?

— Eu não li tais detalhes no artigo sobre a prisão.

— Porque não foram ainda publicados. Há um grupo a catalogar os artigos recolhidos aqui mesmo no sub-6… E, por favor, não faça essa cara de rato assustado, Smith. Não há teletelas ou escutas em nossos níveis porque não há crimes de pensamento aqui. Sim, em Oceania somos todos iguais, mas alguns são mais iguais que os outros! – John piscou um olho, mas Winston apenas assentiu, calado.

***

Durante a tarde, Smith sentiu-se contente pela primeira vez em mais de um ano. O trabalho novo era desafiador, mas ele se reconheceu competente e à altura. “Poderia me acostumar com isso”, refletiu, “com a comida boa, as instalações confortáveis e um supervisor gentil”.

***

Havia estranha eletricidade no ar, desde as primeiras horas do dia seguinte. Winston nunca vira tantos guardas armados, tantos controles de segurança. Depois das mil e trezentas ninguém mais tinha acesso aos elevadores, destinados – todos – ao uso de convidados. Smith então trabalhava em sua saleta, num acerto menor sobre a inauguração do novo Centro de Treinamento Infantil da Liga dos Espiões na antiga Abadia de Westminster, quando John Moore, acompanhado por dois guardas imensos, surgiu à porta. Havia quase expressão de piedade no rosto do louro, que disse: — Camarada Smith, sua presença foi solicitada no sub-15. Acompanhe-nos.

Caminharam calados através dos corredores, passaram por detectores de metais e foram gentilmente empurrados até um pequeno elevador. Desceram rapidamente e as portas de aço logo se abriram. Winston e John descobriram-se numa espécie de palco de aproximadamente quinhentos metros quadrados. As fortes luzes dos holofotes não permitiam a visão do público sentado logo abaixo, porém certamente o anfiteatro era imenso. Alguém discursava junto ao púlpito, e Winston reconheceu de imediato o timbre da voz: O’Brien!

— … e os métodos do MinAmor são fiáveis, em absoluto! Eu digo: devemos reeducar, sempre! Todos! Pois os processos de impessoalização são caros e desperdiçamos tremendo potencial humano, uma vez que os “recups” serão sempre absolutamente fiéis, absolutamente condicionados em fé e amor à pátria!

Ao sinal de O’Brien, os guardas levaram Winston até um cubo transparente de uns três metros de lado, erguido sobre o palco, e o trancaram por fora. Havia uma mesa com microfone dentro da saleta, e uma pistola sobre esta. Um curto corredor do mesmo material se estendia em frente à mesa, até outra saleta transparente e idêntica a uns dez metros, que estava às escuras. As luzes acenderam de súbito sobre a outra sala, e lá estava alguém belo e poderoso em seu uniforme militar de gala: o Grande Irmão.

— 6079 Smith W! – O’Brien falou. — Certa vez você confessou que odiava o Grande Irmão, e eu afirmei que o ensinaria a amá-lo. Caso eu tenha falhado em meus métodos, eis a sua oportunidade de vingança por tudo que passou no processo de reeducação, camarada! A pistola está carregada e eu garanto anistia para qualquer ação que você decida tomar.

Winston, absolutamente horrorizado, não sabia o que fazer. Quase sem voz, ele falou: — Eu, eu não desejo matar o Grande Irmão, camarada – o que era pura verdade.

O público, invisível em meio à escuridão, aplaudiu com gosto a coragem dos seus líderes. O’Brien, continuou: — Muito bom! Mas, e se eu trouxer um estímulo extra, por assim dizer?

Julia adentrou então a saleta onde estava o Grande Irmão e apontou uma arma para a cabeça do líder supremo. O público uivou de surpresa e Winston quase desmaiou, mas controlou-se.

O’Brien parecia estar se divertindo: — Uma maldita espiã eurasiana infiltrada! E é uma pessoa por quem você já teve enorme apreço! O que fazer agora, camarada?

Winston olhava para Julia, em busca de algum mínimo sinal; tinha que ser uma encenação, uma peça de mau gosto, mas ela realmente tinha brilho assassino no olhar. Ela começou então a contar: 10, 9, 8… Ele resolveu segurar o coldre e suas mãos estavam molhadas e trêmulas. Julia aproximava-se do 0 e Winston levantou o braço rapidamente, fez mira e atirou três vezes seguidas. Os estampidos soaram amplificados pelo microfone e pela boa acústica do local.

Na saleta oposta, Julia, com a cabeça e a blusa manchadas de tinta azul, simulou uma queda, sendo gentilmente amparada pelo Grande Irmão, que obviamente sorria.

Os aplausos trovejaram como uma catarata. Os holofotes giraram loucamente, e Winston, por alguns instantes, notou vinte ou mais Grandes Irmãos – idênticos – sentados juntos nas primeiras filas da plateia.

“Gêmeos?! Como é possível? Feito nas horríveis castas inferiores eurasianas!” – ele pensou.

O’Brien agradeceu aos aplausos e comentou ao microfone: — Agradeçamos ao Senhor Smith, e a Julia, minha esposa, pela demonstração. Ah, sim, é claro: muito obrigado ao Grande Irmão! Palmas para eles, camaradas!

John acompanhou Winston – meio catatônico – de volta ao escritório. No elevador, o louro ainda deixou escapar: — Sinto muito por isso tudo, Smith. Um circo! O Partido virou um circo!

***

Ao fim do dia, o Camarada Moore dispensou os funcionários vinte minutos antes das mil e oitocentas, para comparecerem ao sub-5 e assistirem à cerimônia de posse do novo Ministro do Amor: Eric B. O’Brien. Antes que Winston saisse, John chamou-o até seu escritório. O cinzeiro sobre a mesa transbordava filtros queimados e cinzas sobre o belo móvel.

— Não sei se você percebeu tudo o que se passou hoje, Winston – ele soprou as palavras, junto à fumaça. — O’Brien agora faz parte do Conselho Consultivo IngSoc, o clubinho VIP, o grupo dos quatro que orientam – digo – ditam as ações do Grande Irmão. A encenação de hoje certamente foi planejada há tempos, assim como sua transferência para cá. É provável que tenha começado como ideia de Julia, para salvar você de ser “impessoa”, mas também foi algo que reforçou – e muito – o prestígio do marido dela. Apesar de você parecer um caso de sucesso, exemplo vivo da eficiência de Eric, penso que, em verdade, estamos, eu, você, todos os não superortodoxos, a partir de agora sob enorme perigo, se realmente conheço bem as maquinações dele.

Winston estava abatido; e apenas então comentou, com um sorriso amargurado: — É até provável que Julia tenha feito mesmo isso. Ela sempre disse que nunca se deitaria com algum porco do Partido Interno, mas quem há de culpá-la se o fez para se salvar? Não é vergonha se segurar a uma tábua quando se está afogando, mesmo que a tábua signifique uma pequena morte diária… E se ela ainda tentou me salvar, eu só posso amá-la mais… – lágrimas traidoras brotaram – mesmo que esteja casada com aquele monstro!

Despediram-se e Winston seguiu para casa, pois não havia nada no mundo que o obrigasse a testemunhar o êxito final de O’Brien. 

***

Passaram uns dois meses de rotina normal no escritório, até que certo dia John Moore não veio. Ninguém falaria mais sobre ele, ninguém nunca conheceu o tipo divertido soprador de fumaça e tagarela. 

Uns quinze dias depois, quando chegou à casa, Smith descobriu que dois guardas o esperavam em seu apartamento, comendo sua comida e conversando frivolidades.

— Apenas sejam rápidos, camaradas, pois estou muito, muito atrasado – Winston pediu.

E assim eles o fizeram: com um lenço embebido em clorofórmio, e uma pistola de pressão, do tipo usada para abater animais.

“Como um cão”, Winston chorou, envergonhado, pensando derradeiramente no rosto de Julia.

E Então? O que achou?

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Informação

Publicado em 24 de agosto de 2020 por em FanFic, FanFic - Finalistas, FanFic - Grupo 2.