EntreContos

Detox Literário.

O Terceiro Selo (Diana)

Quando vimos a nova face do Vingador, pensamos ser mais uma das muitas armadilhas daquela terra de medo e solidão. Assim que Presto, Sheila e eu conseguimos salvar Hank de cair no precipício, Eric resolveu seguir o que Hank tinha lhe pedido e inseriu a chave na fechadura da catacumba. Uma luz muito intensa saiu de dentro dela e atravessou o vale dos dragões até atingir o paredão de pedras do outro lado do reino. Centenas de seres mágicos, com aparência de homens e animais, foram lançados ao espaço envoltos em camadas brilhantes. Em seguida, uma grande bola de luz pousou ao nosso lado e os nossos olhos viram a figura perversa de dentes afiados e um chifre só transformando-se num gentil e inofensivo jovem bonito. 

 

― O quê? ― disse Bobby abraçando Uni enquanto ela lambia-lhe o rosto ― Então quer dizer que o malvado Vingador esse tempo todo era uma pessoa como a gente?

― Parece que sim, querido Bobby ― respondeu Sheila ao pequeno irmão no meio de um sorriso. ― Quem poderia imaginar, não é mesmo?

― Eu, ora bolas. Sabia desde o início que essa cara de malvadão não passava de puro fingimento ― gritou Eric sob o riso de todos.

― Ah! Com certeza. Deve ser por isso que você se escondia atrás de mim sempre que o Vingador aparecia ― respondi pra não deixar barato mais uma das abobrinhas do Eric, ainda que minhas pernas tremessem diante da nova cara do ser terrível que tantas vezes tentou nos destruir.

― Minha reverência e gratidão, jovens guerreiros. Sua coragem libertou-me para sempre desse corpo mau e do destino de trevas ― disse o ex Vingador, com uma voz doce e em nada parecida com o som trovejante do antigo inimigo.

 

Desde a última grande batalha no cemitério dos dragões, em que Hank poupou o Vingador da morte, as últimas palavras do Mestre dos Magos deixaram-nos, daquela vez, com uma esperança que há muito não experimentávamos. “A compaixão é uma virtude das mais nobres, cavalheiros. Dessa vez vocês completaram o primeiro passo de volta para casa”, disse enquanto sumia em meio à poeira e os ossos. 

 

― Já que derrotamos todas aquelas feras e libertamos você dessa maldição terrível, queremos a nossa parte ― disse Hank com a força de um líder cansado. ― Mostra-nos o caminho para casa agora!

― Calma, meu bravo líder ― ouvimos a voz do Mestre dos Magos surgindo de um arco luminoso em volta do jovem rapaz. ― A fúria toma o lugar da sensatez e só lhe trará mais problemas além dos que vocês já enfrentaram. Eu disse a vocês que o primeiro passo já foi completado.  E agora vocês cumpriram a segunda etapa dessa jornada que os levará de volta para casa.

― Não me venha com essa conversa mole outra vez, seu velhote. Já estamos cansados das suas histórias que não levam a lugar nenhum ― gritou Eric e dessa vez apoiado por todos os outros.

― “Paciência, cavalheiros. Todas as coisas têm um propósito, inclusive a sua presença aqui.”

― Ah! Claro. O único propósito que vejo é sermos peças nesse seu joguinho de aventuras sem fim ― respondeu Sheila num de seus raros rompantes de impaciência.

― “Todos cometemos erros ― continuou o Mestre dos Magos. ― O Vingador foi o meu erro. Mas graças à valentia e ao grande coração de vocês ele conseguiu voltar a ser o anjo de luz que fora no passado.”

― Como assim, seu erro? Agora já não estou entendendo mais nada. Por que não nos contou isso antes? ― perguntou Presto.

― Presto tem razão ― disse Hank. ― Se tivesse nos contado antes teríamos o ajudado e chegaríamos mais rápido ao fim dessa procura.

― Porque, caras crianças, se eu tivesse contado a vocês sobre os meus erros, vocês não teriam confiado em mim.

― Ah! E como se algum dia nós já tivéssemos confiado no senhor. Hun! Eu é que não ― interrompeu Eric no seu tom de voz habitual.

― Além disso, é preciso que vocês saibam que nem sempre as recompensas estão só no fim ― continuou o Mestre. ― O verdadeiro aprendizado mora no meio do caminho. A riqueza e a verdadeira felicidade podem estar na procura e não no que é encontrado.

― Muito bonito isso, Mestre, mas a única riqueza que eu queria agora é um grande sanduiche de queijo que a minha mãe sabe fazer, e isso eu só vou ter quando chegar em casa ― respondeu Presto remexendo no fundo do seu chapéu de mágicas frustradas.

― Pois então, meus amigos. Como eu ia dizendo, hoje é um dia de grande alegria porque eu pude ter de volta o meu amado filho ― concluiu o velho mago com um olhar terno para o jovem ao seu lado.

― Filho? ― disseram todos juntos.

― Sim. Meu filho. E foi graças a vocês, pequenos guerreiros. Quando o jovem Eric decidiu abandonar as próprias certezas e abrir a catacumba, ele estava, na realidade, decidindo ser leal às orientações do seu líder. Desse modo, além de libertar meu filho do feitiço que o aprisionava, “vocês deram àqueles presos neste reino a sua liberdade e eu não posso fazer menos do que isso. Vocês podem ir para casa ou podem permanecer aqui. Ainda há muito mal a combater e muitas aventuras a percorrer. A escolha, meus jovens, é de vocês.” 

 

Enquanto olhávamos uns para os outros, ainda perplexos pelas revelações, vimos um outro grande clarão surgir de trás de nós enquanto o Mestre dos Magos desaparecia para sempre. No meio do clarão, vimos iniciar um redemoinho que aos poucos foi se abrindo e revelando paisagens conhecidas. A praça de árvores e flores em frente ao parque onde fomos tragados por aquele brinquedo maldito. Quanto mais o redemoinho se abria, mais casas e prédios iam se mostrando como num quadro de sonhos. 

 

― Olha a nossa casa! ― gritou Bobby abraçando o pescoço da sua amada Uni.

― Será que é de verdade? ― perguntei com um baita medo da resposta.

 

Vimos, então, quando surgiu na tela diante de nós um menino pedalando a sua bicicleta mais que real, com um fone de ouvido que ocupava quase toda a cabeça, agitando uma das mãos pra lá e pra cá como se o mundo à sua volta não existisse. Segundos depois, um carro cinza, outro preto, outro cinza.

 

― Sim, é de verdade, olha! ― gritou Presto jogando de lado o seu chapéu mágico.

― Vamos, gente! Vamos logo antes que essa coisa se feche e a gente continue preso aqui nesse mundo pra sempre ― ordenou o líder Hank.

 

Enquanto corríamos em direção ao grande portal e atirávamos as nossas armas para qualquer direção, ouvimos vindo de trás de nós um grunhido já conhecido. Uni permaneceu imóvel, lançando aquele seu olhar penoso e pidão para Bobby que a chamava com insistência.

 

― Vamos, Uni! Venha comigo. Eu cuido de você. 

 

Olhávamos uns para os outros, calados, porém aflitos, pois a cena da pequena unicórnio, como uma pedra de tropeço que nos impedia de sair daquele inferno, repetia-se mais uma vez.

 

― Vem, Uni! Não tenha medo. O nosso mundo é muito melhor do que tudo isso aqui ― disse Hank autorizando a passagem do ser mágico para o mundo real.

― Isso mesmo, Uni, venha! ― gritamos todos com a ansiedade de quem vira aquela passagem se fechar por tantas vezes.

 

A pequena unicórnio continuava afastando-se lentamente de Bobby. O garoto a implorava em meio a lágrimas e apelos. Nada a impedia de vir conosco. Nenhum perigo ou abismo a separava dessa vez. Nenhum monstro de muitas cabeças ou rajadas de fogo inimigas. Ela apenas repetia a ação de afastar-se do portal, terrivelmente assustada e com os mesmos olhos penosos como se para isso fora destinada.

 

― Eu que não vou perder essa oportunidade ― disse Eric chutando para longe o seu escudo.

― Olha! O portal. Começou a se fechar! ― gritei com toda a força da minha voz.

― Eu vou com você, Eric. Espere por mim ― respondeu Presto.

― Não! Por favor! Não podemos ir e deixar Bobby ― gritou Sheila aos prantos e já sobre os joelhos.

― Calma, pessoal! ― acudiu Hank ― Ninguém vai sair daqui sem ele. Não é mesmo, Bobby?

 

O pequeno garoto de grande coração, que por tantas vezes transformou-se num gigante remexendo a terra dos dragões com seu taco mágico, olhou para Uni uma última vez, afastou as lágrimas do rosto com as mãos sujas de terra e veio correndo em direção ao portal e aos seus amigos. Bobby primeiro, em seguida Sheila, eu, Eric aos atropelos com Presto e por fim, Hank. Mergulhamos naquele círculo de luz, cores, brisa, concreto e sonhos.

O redemoinho nos envolveu e, assim como quando fomos tragados pelo brinquedo traiçoeiro, eu podia ouvir os gritos dos meus amigos para além dos meus. Enquanto éramos sacolejados de um lado a outro no grande túnel feito de nuvem e vento, imagens recortadas das nossas aventuras passavam diante de nós. O medo do conhecido bagunçava meus pensamentos. E se o nosso mundo não fosse mais o mesmo? Quanto tempo havíamos passado na terra dos dragões? E se o Mestre dos Magos com seu filho misterioso também tivesse passado pela terra de nossos pais?

Senti meu corpo caindo sobre a grama macia da praça. Não tão brusco como foi o despencar de Presto sobre mim com seus ossos à mostra daquela fome interminável que todos sentíamos. Mais adiante vimos Eric, já de pé olhando para todos os lados e Sheila ao lado de Bobby cuidando para que nenhuma ferida passasse despercebida. Hank chegou depois. Vi lágrimas escorrendo dos seus olhos pela primeira vez. Mais pareciam de alívio por ver concluída a penosa missão de nos liderar e nos devolver vivos.

 

― Nem acredito! Alguém me belisca, por favor! Não, você não, Eric! Qualquer um menos você ― eu disse entre lágrimas ao companheiro mais chato daquela viagem. Um Eric de cabelos negros bagunçados e barba rala num rosto não mais infantil.

― Olha pra você, Diana! Quanto tempo você passou naquele lugar? A estadia não foi boa pra você não, hein! ― respondeu Eric me olhando com uma cara estranha.

 

Estávamos todos diferentes, não mais como crianças, como se tivéssemos permanecido por anos na terra dos dragões. 

 

― Meu Deus! Olha pra mim! Será que minha mãe vai me reconhecer? ― perguntou Presto, atônito, passando a mão pelos braços e pela face peluginosa.

― Claro que sim, amigos! ― ouvimos a voz sempre calma e firme do já homem Hank ― Parece que passamos mais tempo do que imaginávamos naquele lugar, mas não o suficiente para que não nos reconheçam. Agora é hora de irmos pra casa. Aliás, chegamos! Estamos em casa, ufaa! Nos falamos, pessoal. Espero não vê-los pelo menos até amanhã ― concluiu aos risos com todos.

 

A praça tinha mudado um pouco, nem sinal do velho parque traiçoeiro, mas os comércios ainda estavam lá. Logo reconheci a lojinha de enfeites da esquina, cuja rua dava direto no conjunto de prédios onde eu morava. Na medida em que eu avançava, ainda num rebuliço de pensamentos e sensações, vi que muitos usavam roupas como as nossas, de modo que as minhas vestes de heroína do bastão mágico nem pareciam mais tão estranhas. Meninos como Presto e Bobby. Jovens e homens como Hank. Crianças e bebês com roupa de Uni, com tiara de Uni, biquinho rosa de Uni. Foi como se todos estivessem indo a uma festa à fantasia ansiosos por brincar em alguma terrível caverna do dragão. Minha mente, já por demais embaralhada com tudo o que aconteceu, não conseguia organizar qualquer suposição a respeito daquela loucura toda. Após alguns minutos de caminhada apressada, senti o clima da rua mudando. As mães com bebês e os telefones nas mãos, senhoras deixando cair suas sacolas, meninos tropeçando entre os adultos nas calçadas. Pareciam chocados como quem recebe uma notícia trágica acontecida do outro lado do mundo. Muitos passavam correndo ao meu lado e percebi que iam em direção a bares ou qualquer lugar com uma TV ligada. Algumas crianças choravam e eram consoladas por seus pais. Alguns pais choravam junto. Outros tentavam afastar os filhos da movimentação tensa que se formou de repente. 

 

― O que foi? Que correria é essa? ― perguntei a um garoto com o chapéu de Presto.

― Conseguiram abrir o terceiro selo.

― Selo? Que selo?

― Do jogo. Alguém desvendou a última jogada. Não vão mais fabricar o jogo.

― Que jogo?

― Você não sabe? Então por que tá vestida assim? O jogo, o Dungeons and Dragons. Tá todo mundo louco porque o criador disse que não vai mais continuar.

 

Fui em direção a um das portas lotadas onde todos estavam vidrados na tela da TV. Consegui passar entre algumas pessoas mas preferi ficar mais de longe, numa penumbra em baixo dos cabides da loja, por medo de que, sei lá, tudo tão estranho, de que algo mais inesperado acontecesse.

 

― Não está mais ao meu alcance, caros aventureiros. Aliás, nunca esteve. Toda essa trajetória foi construída por cada um dos milhões de corajosos desbravadores Dungeons and Dragons pelo mundo ― dizia um velho baixinho, bem vestido, de rosto calmo, que estava sendo entrevistado por uma multidão de jornalistas no palco de um grande teatro decorado com dragões.

― Estão dizendo que alguém conseguiu romper o terceiro selo. O senhor pode confirmar essa informação e como isso aconteceu? ― perguntou a jornalista da FOX que conseguiu gritar a sua pergunta mais alto do que os outros.

― Sim, minha cara, o que você ouviu está correto.

― Quem? Quem? O clone de qual dos guerreiros conseguiu essa proeza? ― perguntaram todos aflitos.

― Calma, damas e cavalheiros. Eu lhes contarei tudo. Ao menos tudo o que eu puder. O terceiro grande selo da terra dos dragões foi aberto por quem escolheu ser o mais jovem dos nossos bravos guerreiros.

― Sabia! Yes! ― ouvi um garotinho ao meu lado dizer à sua mãe. ― Viu, mamãe? Eu estava certo. O Bobby é o mais corajoso.

― Mas, Sr. Bents! ― gritou outro jornalista de uma rede famosa ― O que tem a dizer para os milhões de fãs que dedicaram suas vidas nesse desafio e agora estarão impossibilitados de continuar? O senhor não acha que esse encerramento das atividades provocará uma grande comoção social com consequências devastadoras?

― Meu jovem, entenda! A vida é mesmo feita de perdas e ganhos. O mais importante é a jornada a ser percorrida. A todos os bravos aventureiros tenho a dizer que as maiores lições não estão na chegada, mas no caminho do meio. Cabe a cada um de vocês encontrá-las. 

― E qual é a virtude do terceiro selo, Sr. Bents? Vai nos dizer?

― Ah! Sim. Claro, claro.

 

O pequeno homem virou-se para um painel em que já estavam penduradas duas grandes placas descobertas. A primeira dizia Compaixão. Na segunda, Lealdade, e quando ele finalmente fez escorregar o pano que cobria a terceira placa, vimos sendo revelado letra por letra a palavra Sacrifício.

 

OBS: Essa adaptação contém algumas falas, que estão entre aspas, 

transcritas integralmente da obra original.

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Informação

Publicado em 24 de agosto de 2020 por em FanFic, FanFic - Grupo 1.