EntreContos

Detox Literário.

Bom Jesus do Monte, o meu avô Manuel e, as estórias (Pablo)

Imponente, no deslizar serpenteado por entre frondoso arvoredo encosta acima e no porte altivo do gasto granito que resiste sem lamúrias, aconchegado em degraus, pátios, muros e demais arquitetura, o escadório do Bom Jesus do Monte.

Com início no Pórtico, a longa e sinuosa escadaria é pejada de capelas no seu percurso com as suas caixas de esmolas e locais para colocar velas a arder – símbolos de fé – recheadas de belíssima estatuária sacra esculpida em madeira alusiva à Via-Sacra. De lanços suaves e pátios atenuadores de esforço, soberba incrustação na encosta até ao Largo da fonte dos cinco sentidos cuja sobranceria de miradouro, intuitivamente, me convida a descansar o olhar e o senso em repouso sobre o verde da paisagem e o colorido multifacetado do casario que se estende pelo vale e se quebra nas encostas onde o mato e a carrasca ainda têm flor. Lanços de escadarias e pátios que a partir deste local assumem uma forma simetricamente entrecruzada como que abraçando carinhosamente quem passa e a estatuária sacra diversa em granito abençoam. Em cada um destes pátios, se encontra uma fonte alusiva a um dos sentidos Humanos. A visão. O olfato. A audição. O paladar. São muitas as fontes espalhadas por todo o escadório. Todas elas jorram água, que “carrega” o simbolismo a que aludem, sobre pias em forma de concha. 

No cimo, surge o adro e o Santuário erigido ao Bom Jesus do Monte. 

Cansado, sento-me num dos bancos em granito paredes meias com o escadório de onde perscruto a imponente estatuária, toda ela em granito também, que conta histórias da História da Igreja Católica Apostólica Romana e histórias de gente simples e humilde que na construção deste Santuário trabalhou. 

De entre muitas dessas histórias ocorrem-me duas; A história do meu avô Manuel. Mestre pedreiro que neste complexo movimento estático da estatuária deixou o seu cunho e parte relevante da sua vida. Alguma destas estátuas saídas de toscos rochedos desbravou a cinzel, ponteiro, mascota, cunhas e marreta. 

O meu avô Manuel Fernandes. Baixote, atarracado pela idade, tez clara e face rosada, de palhinha na boca e chapéu de lado à “malandreco” – hábitos da época – de gesto afável, ao sabor da conversa, dizia-me que amor à arte não teve. O que teve foi de sustentar uma ninhada de filhos nos anos conturbados dos tempos muito difíceis em que viveu. 

Da primeira e segunda guerra mundial contava histórias. 

Do Salazar e da PIDE também. Entre muitas outras que a sabedoria da vida lhe ensinou e tão bem sabia contar, ensinando. História de um homem simples que a família e poucos mais sabem e recordam.

A segunda história é popular. Diz-se que o Mestre pedreiro, de quem não sei o nome, e que construiu a estátua do Longuinhos, um cavaleiro montado sobre o seu cavalo, se suicidou porque finda a feitura da mesma constatou que se tinha esquecido de calcular a pedra para os arreios do cavalo e a lança do cavaleiro. Artefactos construídos em metal. O desgosto tê-lo-á levado ao tresloucado ato.

Arribo a vista em direção ao centenário elevador de cor amarelada que dizem ser o único no mundo movido a peso de água e que após toques combinados de sineta entre os seu dois maquinistas, são destravados, iniciam viagem em que  um iça o outro em hora marcada no Inverno e sempre que esteja completo, no Verão.

Mais ao lado fica o local onde se encontrava um monóculo já carcomido pelo tempo e que diariamente era colocado e tirado do sítio. Aquele que tornou famoso o dito; «Ver Braga por um canudo». 

À minha frente o Santuário com as suas duas torres e os sinos que dobravam as horas porque se regulavam as gentes da Freguesia e de Freguesias vizinhas assim como os toques; Para a missa, a rebate, repenicado, batizados, a defunto distinguindo se homem mulher ou criança, e outros toques que não me ocorrem. Hoje em dia, batidos a martelos por equipamento eletrónico, os sinos já não dobram. As corujas já não podem fazer os seus ninhos porque a sua entrada foi com uma rede fina vedada. As pombas também não. Nem sequer nas cornijas, beirais, debruados e cavidades que envolvem o Monumento porque em toda a sua extensão foram afixadas finas e pontiagudas agulhas de aço mutiladoras.

Dentro do Santuário respira-se um ar de meditação e pondera-se o antes, o agora e o depois. Renova-se a frescura mental e temperamental. Percorrida a extensão dos bancos de madeira com apoios para ajoelhar, as altas colunas, as abóbadas e os seus frescos, os vitrais e o altar que conta a crucificação de Jesus Cristo, O Nazareno. Percorro também os diversos altares laterais. Saio pela Sacristia.

No adro, um conjunto de altas estátuas de Santos “contam” em pose de “linguagem gestual” uma, entre muitas, para além da simbologia religiosa, história popular profana singela:

– “Naquele restaurante, põe-te a pau com a conta!”. 

Porque ama das estátuas aponta o dedo indicador, uma outra corrobora com as duas mãos e uma terceira tem numa mão um livro que indica com a outra. Toda esta “linguagem gestual” “apontada” em direção a uma unidade de hotelaria no local. 

Sigo em direção ao casino, que de casino só tem o nome. Passo ao lado de um Hotel – que belos restauros lhe fizeram! – e entro no portão em ferro forjado de acesso ao jardim do casino. Viro à direita, sempre encostado ao muro com gradeamento, desço um pequeno lanço de escadas em pedra e chego a um pátio sobranceiro debruado com grade também. Encostado a uma parede, um banco corrido e uma mesa, ambos em granito como não poderia deixar de ser. Sobre o banco uma lápide recorda um seu frequente e assíduo utilizador. Camilo Castelo Branco. Homem grande do nosso universo literário. Que aqui, neste banco e a esta mesa escreveu obra! Neste banco corrido me sentei também com frequência há já alguns anos atrás e me sento hoje. Aqui, por baixo de um velho castanheiro, rodeado por uma área imensa de seculares árvores – a Cerca do Bom Jesus –, granito sem fim, canteiros ajardinados deslumbrantes e histórias. Sobre tudo as histórias. E, Este ar. Este ar que liberta o folgo. As narinas. A audição. A visão. Os cinco sentidos! 

Hoje vim a este local porque alguém me falou no Almeida Garrett. Atiçou-me a memória! Vim recordar, revivendo. 

A passo apressado retorno ao adro do Santuário que contorno e paro indeciso num largo fronteiro à casa de venda de recordações. À esquerda está o Hotel do Elevador, de traça simples ao estilo da “Belle Époque”. Em frente, o Hotel do Parque que julgo ser da mesma época também. Aliás, todo este complexo arquitetónico apresenta estilo semelhante na traça, de onde sobressai o granito, pedra abundante por aqui e nas redondezas. 

Opto por trilhar uma rampa em terra batida e degraus a espaços para atenuar a íngreme subida junto a uma gruta, onde antes de iniciar a subida, entro. Do seu teto “caem” imitações de estalactites feitas em cimento. O ambiente é húmido e fresco. Bebo da fresca água que cai numa bica enquanto olho os peixes vermelhos, brancos, azuis e sarapintados que nadam num pequeno lago cujo fundo está repleto de desejos efémeros que as moedas que lá estão incorporaram. Saciado, retomo a rampa embrenhando-me na cerca em direção ao lago. Não é grande o lago. 

– Como era grande quando adolescente para aqui vinha andar de barco a remos! Hoje, parece-me pequeno! – 

Tudo está igual. Pintado de fresco, mas igual. O lago. Os barcos. As duas pontes. O quiosque. O ponto de venda de bilhetes. O campo de ténis. Os jardins. Toda a área envolvente constituída por majestoso e diversificado arvoredo. 

A meio tem um caminho ladeado por uma sebe baixa de cedros que conduz ao sítio dos cavalos. – Local onde os homens do fanico, não há muitos anos agricultores rendeiros, hoje proprietários que alugam os seus cavalos para um passeio de uma hora. Conquistas que a Revolução de Abril trouxe e a memória esquece –. Junto a esta sebe lembro-me de uma pequena história de adolescente;

Naquele tempo a rapaziada tinha por hábito, para “meter conversa” com as moças e arranjar namorada, aos Domingos ir à Missa das sete horas da manhã ao Santuário do Sameiro. Hora que ao tempo, na maior parte do ano, era ainda escuro.

Aconteceu que numa dessas belas madrugadas lembrámo-nos de nos esconder por de trás da sebe e esperar que alguém passasse.

Não demorou muito tempo. As silhuetas de duas mulheres apareceram no início do caminho andando na nossa direção. Vinham a rezar.

– Beatas! Sussurrou o Luís ao meu ouvido. 

Quando as mulheres passaram junto à sebe onde estávamos aninhados começamos a imitar ruídos fantasmagóricos e uivos lúgubres!

Coitadas das senhoras. Apanharam tal susto que desataram a correr espavoridas. Uma delas deixou as socas e a outra tirou-as e apanhou-as para a pé descalço fugirem dali o mais depressa possível! 

Já não foram à missa ao Sameiro. 

Nós fomos, todos lampeiros e gargalhada solta! 

Quando, dias depois, começamos a ouvir dizer que na cerca do Bom Jesus apareceu o diabo fizemos um “pacto” de silêncio sobre o assunto com medo de represálias porque se em casa os pais soubessem é que era o diabo! 

Durante anos, disse-se que naquele sítio aparecia o diabo!

A hora é tardia. Como voou o tempo! Já não vou cumprimentar a rapaziada do fanico. Vizinhos que na Freguesia, ou por aí, encontrarei a miúde. Vou telefonar à cachopa para me vir buscar lá baixo aos cinco sentidos. Ainda é um bom pedaço. De caminho tomarei um café na esplanada do Elevador onde desfrutarei de um Pôr-do-sol indescritível como é costume.

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Informação

Publicado em 24 de agosto de 2020 por em FanFic, FanFic - Grupo 2.