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Detox Literário.

Listando Desejos – O Encontro – Conto (Priscila Pereira)

Dizer que eu estava nervosa com o encontro daquela noite seria pouco, muito pouco. Eu estava apavorada! Petrificada! Morta de medo! Não diziam que depois de muito tempo de falta de uso a gente volta a ficar virgem? Então, eu estava novinha em folha outra vez…  as contradições da vida podiam ser hilárias. 

Três horas antes do encontro eu já estava me aprontando. Primeiro um bom banho, é claro. Por mais que cheiro de velho não saísse com água e sabão, mas ele não se importaria, teria o seu próprio para se preocupar. Passei gilete nas pernas e axilas, mesmo os pelos sendo tão finos e esparsos. Não me preocupei com outros lugares, não queria parecer uma criancinha, misericórdia!  Caprichei no creme hidratante, ajudava um pouco a tapear o efeito papel de seda em que se transformara a minha pele.

Já tinha escolhido, desescolhido e reescolhido previamente minha roupa, que estava cuidadosamente esticada sobre a cama. Uma calça social preta e uma blusa de seda verde esmeralda, que fazia meus olhos castanhos claros um tantinho mais brilhantes. Mas antes de me vestir, sentei em frente ao espelho e como sabia muito bem que maquiagem alguma disfarçaria minhas sete décadas, fiz o básico, muito bem feito aliás, graças a um curso de auto maquiagem para idosas que havia feito há algum tempo. No batom podia ousar, escolhi um vermelho mais escuro, intenso, quase vinho. Ajeitei os cabelos, coloquei pequenos brincos de diamante, uma correntinha de ouro com um pingente de pérola negra, falsificado, é claro, mas muito bonito e elegante. Agora só faltava o perfume. Perfeito!

Stella me levaria até o restaurante combinado. Chegou com meia hora de antecedência. Depois de me analisar, abriu um grande sorriso de aprovação. Me abraçou apertado.

— Tem certeza que está preparada pra ir até o fim, vó?

— Não estou não… mas vamos com calma, uma coisa de cada vez, primeiro o jantar, o que vier depois, depois eu encaro. 

— Tá levando camisinha?

— Mas sou eu que tenho que levar isso? É responsabilidade dele, não é não?

— Ai, vó, os tempos mudaram… A senhora tem que estar prevenida. 

— Certo, minha filha… onde arrumo isso?

— Eu trouxe algumas aqui pra senhora…— tirou da bolsa uma fileira com quatro camisinhas.

— Uma só é mais do que suficiente! Crendeuspai!

Coloquei dentro da bolsinha de mão que levaria. Estava pronta! Olhei no espelho e uma velhinha simpática e afogueada me encarava, coitadinha, olhinhos brilhando, preocupação e animação vibrando em meu reflexo. Quase perdi a coragem, isso não era para minha idade. Eu parecia tão frágil e angelical, totalmente assexuada. Mas não era bem assim… Bem, vamos lá.

O trajeto foi calmo e pouco conversamos, me despedi de Stella que me desejou boa sorte e pediu para ligar se alguma coisa desse errado.  O restaurante era elegante e acolhedor, e assim que passei os olhos pelo lugar já achei seu Joaquim, acenando para mim, de pé ao lado de uma mesa, todo elegante.  Parecia nervoso. 

O jantar foi calmo e descontraído, parece que o nervosismo dos dois acabou tendo um efeito calmante. Relaxamos e curtimos a refeição e a companhia um do outro. Joaquim estava bonito, calça e camisa social, os cabelos bem penteados, o perfume discreto e a conversa mansa e interessante. Não sabia como dizer para ele que não queria um namorado e sim uma noite de, como posso dizer… tirar as teias de aranha. Parecia horrível, pensando assim, mas não queria mal entendidos. E se por acaso ele quisesse algo descompromissado e livre, até podíamos ser parceiros. Mas como chegar a esse assunto?

— Então, Joaquim… eu estava pensando em estender nosso encontro, quem sabe uma coisa mais íntima? — Sustentei seu olhar incrédulo.

—Tem certeza? Digo, claro que eu gostaria, mas pensei que a senhora, digo, você ia querer ir mais devagar… —Desculpe se eu passei a ideia errada, Joaquim, mas não quero compromisso. Veja bem, eu nunca fiz isso antes, mas não me interesso por namoro, gosto da minha vida como está… Bem, um pouco mais animada, só isso. Você entende? 

— Não sei.. a senhora quer, hum, sexo sem compromisso? 

— Exatamente, quero um parceiro para aventuras esporádicas, sabe como é, na minha idade esse tipo de evento é bem raro. O senhor topa?

— Bem… é claro! Por que não?

Fomos em seu carro até um hotel nas redondezas. Era estranho sentar ao lado dele ao invés de atrás. Ele parecia estranhamente calmo. Chegamos e entramos. O sentimento de expectativa e apreensão parecia mútuo. O estranhamento se transformou em cumplicidade. Os beijos, a princípio duros e sem prática, foram se tornando macios e naturais. As mãos ásperas, frias e desajeitadas, ficaram quentes e hábeis.  É incrível como o corpo acaba se lembrando. Se adaptando. Reaprendendo.    

Não foi como eu esperava… tirar o amor da equação foi mais complicado do que parecia, não sei se a falta dele ou se o excesso dos anos que tornou tudo tão desapaixonado, mecânico.Não foi ruim, certamente que não. A coisa toda funcionou bem, sem desconfortos ou estranhamentos. Só não foi mágico, mas nada mais é, nessa altura da vida.

Estar saudável e dono de si mesmo já é mágico o suficiente!

6 comentários em “Listando Desejos – O Encontro – Conto (Priscila Pereira)

  1. iolandinhapinheiro
    9 de maio de 2020

    Ah, gostei muito, hein? Ficou tudo muito natural mas sem frescuras, subterfúgios. Tudo muito às claras informando o necessário para o leitor, sem pesar na caneta. Parabéns. Não é qualquer um que consegue escrever sobre sexo com esta desenvoltura e elegância.

    Acho que eu e a torcida do Flamengo estávamos esperando que tudo corresse bem para o casal, e foi como deveria ser. Nada fabuloso, mas também não decepcionante. Na medida.

    Beijos, querida. Deus a abençoe.

  2. Elisa Ribeiro
    19 de abril de 2020

    Que delícia ler essa sua continuação, Priscila. Vou te contar uma coisa. Na minha primeira participação no EC vc torceu pudicamente o nariz para uma cena bem menos apimentada do que essa retratada aqui. Muito bacana ver essa mudança acontecer. Sua escrita, assim como seus temas e seus experimentações literárias se expandindo. Adoreis essa sua velhinha atrevida e corajosa. Um beijo.

  3. Gustavo Araujo (@Gus_Writer)
    19 de abril de 2020

    Gostei da continuação. Como disse lá no post original, o que se destaca é a leveza como questões espinhosas são tratadas. E isso, aliado à personalidade cativante da protagonista, faz com que o texto se destaque e conduza o leitor a uma experiência interessante. Confesso que esperava um desfecho mais condizente com essa leveza. Achei que a imposição da vida como ela é tirou um pouco dessa sensação prazerosa, mas não ignoro que há méritos na escolha desse caminho. Dificilmente uma senhora septuagenária se atiraria de cabeça num novo romance. De todo modo, muito obrigado por escrever e matar nossa curiosidade 🙂

  4. Fernanda Caleffi Barbetta
    19 de abril de 2020

    Oi, Pri, gostei bastante da continuação do conto do desafio, brindou-nos com mais um belo texto. A personagem que já havia me conquistado, continuou me encantando. A sua escrita está muito desenvolta, frases bem colocadas, texto fluido, tudo bem encaixado. Parabéns. Só não teria usado o sublinhado aqui (uma excelente sacada no texto anterior) porque talvez aqueles que lerem somente este podem não compreender o motivo. Parabéns.

  5. Cilas Medi
    18 de abril de 2020

    Uma aventura esperta, em uma vida mais do que conhecida, um frescor de apreensão e, para finalizar, uma literatura de emoção de primeira. Parabéns!

  6. Fabio D'Oliveira
    18 de abril de 2020

    Olá, Priscila!

    Acho que vou ser o primeiro a comentar! Ou segundo, quem sabe, haha.

    Serei sincero: gostei mais da narrativa desse conto. Sem reforços desnecessários, mas mantendo a naturalidade dos diálogos. Gostei MUITO do início. A forma hábil como você descreveu o nervosismo da protagonista com o pré-encontro, todo seu preparo para ficar bonita, tornou a leitura envolvente e de fácil conexão. Digo: senti bastante empatia por ela.

    Mas nem tudo são flores!

    Senti uma variação relativamente brusca na personalidade da protagonista no meio do conto. Maria sempre mostrou-se relativamente ousada, sem frescura, então a cena da camisinha, as reações, os questionamentos e os termos usados por ela, como “crendeuspai”, não combina com a personagem já apresentada. O contraste fica ainda mais forte quando ela propõe Joaquim de manter uma amizade colorida sem pudor algum. Não vejo muito sentido a pessoa se mostrar antiquada num dado momento e no outro se mostrar completamente desencanada. Isso enfraquece o personagem.

    O início, como disse, ficou fantástico. Mas o encontro, que deveria ser o ato principal do conto, foi rápido demais e sem graça. Resumiu-se no convite pra sacanagem, haha. Na realidade, isso enfraquece o conto inteiro, pois há um preparo adequado inicialmente, situando o nervosismo, pretensões e vontades de Maria. E, simplesmente, quando chega no ponto alto da história, não existe conflito, não existe desenvolvimento. E você é capaz de fazer isso, Priscila. Poderia ser um encontro recheado de trapalhadas e diálogos interessantes. E o convite poderia nem existir, poderia ter acontecido naturalmente, numa cumplicidade silenciosa. Poderia aproveitar para falar um pouco mais do marido dela. É normal, num encontro, esse assunto vir à tona. Poderia explorar outros desejos já listados, pois não fez muito sentido adotar o método do conto passado (que amei, pois cria uma identidade para o conto) num único ponto. Ah, vale mencionar que o final ficou brusco demais. Foi o que senti, pelo menos, quando terminei de ler.

    Mas, Priscila, ainda tem flores no seu conto!

    A forma como você constrói frases é sensacional. Eu gosto muito do estilo simples que você adota. Apesar de singelo, é cheio de vida. Queria te parabenizar por isso. Você sempre escreveu muito bem, mas está evoluindo de forma eficiente ao longo dos desafios. Creio que esse crédito deve ser dado para sua humildade em absorver as críticas úteis e saber identificar os erros e melhorá-los. É assim que evoluímos para melhor, né, mas algumas pessoas são incapazes de reconhecer essas falhas e não sabem como superá-las. Sinto que estou começando a evoluir mais, apesar de algumas travas, mas admiro esse potencial que você tem.

    Outra coisa que gosto de seus textos, que se encontra presente aqui também, é a habilidade em poetizar alguns trechos, sem forçar, como faço, hahaha. Você levanta algumas reflexões no meio da narrativa de forma bem natural.

    Enfim, não tenha pressa na hora de escrever fora do desafio. Você tem MUITO potencial.

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Informação

Publicado às 18 de abril de 2020 por em Contos Off-Desafio e marcado .