EntreContos

Detox Literário.

Viridis (Anteros)

Abstract sea and tree on watercolor painting background

Epopeia de Viridis

Em algum lugar no mundo de Prisca, 
em águas distantes e solitárias, 
Pulchram vivia como sempre viveu: 
solitária numa ilhota. 

Ser de essência astral,
sem definição corporal,
mas com personalidade tão forte, 
que se fazia presente 
através de uma silhueta humana 
de tons fantasmagóricos.

Num dia frio, 
tão apático quanto a solidão que sentia, 
rogou ao Deus da Bondade por companhia. 

Chorou sem lágrimas. 
E seu pedido alcançou 
o coração da divindade.

Quando anoiteceu, 
e Pulchram observava as estrelas, 
surpreendeu-se com uma chuva de sementes. 

Elas caíram naquela terra morta, 
aparentemente inférteis, 
e trouxeram, em pouco tempo, 
vida para a ilhota. 

Em especial, 
uma árvore floresceu, 
bem no epicentro da bênção. 

Cresceu tanto, 
mas tanto, 
que as raízes invadiram o oceano 
e ergueram-se triunfantes.

Pulchram ficou tão feliz, 
tão realizada, 
que desmanchou-se em gratidão, 

fundindo-se às águas, 
dando-lhes uma cor bem peculiar: 
um verde tão vivo que lembrava uma esmeralda.

E assim nasceu Viridis, 
a árvore-estelar circundada pelo Mar Esmeralda, 
fruto da compaixão de um deus 
e da solidão de uma alma.

13 Anos

Era Primavera.

Vita corria pelas ruas enraizadas, desviando-se de todos, num ziguezague ágil e certeiro. Quando alcançou as escadarias da Espiral da Concha, pulando de dois em dois degraus, a menina puxou uma das alças da mochila e posicionou-a na sua frente.

Tinha pouco tempo.

— Desculpa. Desculpa… E desculpa — repetia sem parar, pois, diferente das ruas principais, a Espiral era bem mais estreita e, consequentemente, volta e meia esbarrava em alguém.

Perdia o ar sempre que chegava no Largo Alvo. Pessoas iam e vinham, num movimento constante. Vita amava aquela energia! Enquanto costurava o povo, com foco no píer principal, ela, habilmente, abria a bolsa, retirando seu caderno numa sincronia quase perfeita com o momento que sentava no banco que já era seu; mais por costume do que por direito.

E observava a Legião de Patinadores trabalhando. Vita anotava tudo: cada movimento nas águas, cada manobra de pesca, tudo, simplesmente tudo que faziam. Até seus sorrisos.

Estava decidida: seria uma Patinadora.

 

Trecho do livro

As Maravilhas de Prisca

Digo, com convicção, que uma das coisas mais belas que podemos vivenciar em Prisca é o festival principal de Viridis.

Imagine: uma cidade inteira, construída nas raízes de uma árvore-estelar, agrupando-se nos pontos mais altos, um silêncio sepulcral, até Pulchram, Guardiã do Mar Esmeralda, nascer das águas, envolta numa luz prateada, e começar o Balé da Gratidão. Agora complemente com isso: cada salto, cada giro, Pulchram cria um orbe dourado, que levita até as nuvens e, quem sabe, as terras das divindades. Presentes para o Deus da Bondade.

Essa é a Noite das Sementes.

 

18 Anos

Ainda era Primavera.

Num suspiro, Vita se inclinou e apanhou seus patins mágicos. Mas, antes que pudesse colocá-los, percebeu a aproximação do líder da Legião de Patinadores.

— Ah, o que fiz agora? — lamentou a jovem, largando os calçados e fazendo bico.

— Nada, por enquanto. Olha, arranjei uma dupla pra ti — anunciou.

— Quê? Mas não preciso de nenhum…

Não completou a frase. 

Um jovem esbelto e moreno aproximou-se e, um segundo depois, Vita percebeu que um sorriso poderia mudar tudo, incluindo seu habitual mal-humor matinal.

 

Jornal de Viridis

Tradição Quebrada na Noite das Sementes

Além da beleza e energia que o festival nos proporciona, tivemos, nesse ano, um pedido de casamento! 

Isso mesmo, população de Viridis, uma pessoa teve a coragem de quebrar a tradição do silêncio e, no momento que as orbes iluminavam o céu e Pulchram entrava no ápice do balé, Ata, que recentemente entrou para a Legião de Patinadores, declarava seu amor para Vita, que dispensa apresentação, claro.

Como muitos sabem, Ata é um jovem que veio do continente, motivado pela beleza de nossa matriarca, e, pelo visto, nossa pequena encrenqueira o enfeitiçou!

Parabéns para os noivos! Que sua união, sob o olhar de Viridis e Pulchram, seja tão bela quanto nossos dias.

 

21 Anos

Era Verão.

Folhas de Viridis caíam no altar, algumas, inclusive, na cabeça de Ata, que parecia paralisado. Estava nervoso, claro, Vita o conhecia muito bem. Ela também estava. Pensou que seria fácil, mas sentia as pernas tremerem.

Nunca imaginou que se casaria. Quando menina, olhava para os casais, mostrava a língua e bradava para os espíritos do ar que iria viver por si e apenas por si. Como a vida é engraçada… Mesmo com todo seu discurso, estava ali, derretendo-se com o sorriso de Ata, doida para dividir a vida com ele.

Alcançou o altar, pronta para começar uma nova caminhada.

 

Bênção de Viridis

Olhe com atenção,
muita disposição,
pois as folhas repousarão,
sob aquele que merece a bênção.

 

27 Anos

Ainda era Verão.

Vita conhecia algumas facetas do amor. Tinha ternas lembranças: observando os orbes dourados nos ombros de seu pai, o cafuné inconfundível de sua mãe, o olhar cuidadoso de Ata enquanto trabalhavam. E, agora, aquela risadinha gostosa de Zen.

Não desgrudava do pequenino, desde que nasceu, queria estar ao lado dele. Assim como esposa, nunca havia se imaginado mãe, mas aconteceu. E não se arrependia. Continuaria trabalhando, claro, e apreciando a rotina que somente Viridis conseguia proporcionar em Prisca.

Tudo era tão único naquele lugar… Vita era tão grata por ter nascido em ambiente tão abençoado.

 

Relato de um Marinheiro Azul

Alguma coisa ruim está acontecendo no Mar Esmeralda. É sério! A embarcação ia passar perto, então decidimos mudar o rumo para apreciá-lo. E, ao invés de encontrarmos aquele verde belíssimo, que, inclusive, já vi algumas vezes e é realmente estonteante, deparamo-nos com uma Mancha Negra. Parecia até piche. Nosso primeiro-imediato subiu no mastro principal e, bem ao longe, viu a parte esverdeada. Agora, presta atenção nisso: essa linha negra parece estar circundando esse oceano. E de acordo com um amigo que cruzou aquele caminho há alguns anos, essa água preta era menor. Está crescendo!

 

35 Anos

Era Outono.

A quantidade de peixes havia diminuído muito, mas as atividades da Legião não terminaram, muito pelo contrário, intensificaram-se. A demanda não baixaria, então foi necessário expandir as operações e duplas foram realocadas para regiões mais distantes do Mar Esmeralda.

E, assim, Vita foi morar num barco-casa, com Ata, claro, mas precisou deixar Zen em Viridis. Ainda estudava e seu avô cuidaria bem dele. Todo dia, quando calçava os patins mágicos e deslizava pelas águas, que não eram tão verdes quanto antigamente, ela pensava em seu menino, mas a presença do marido amenizava tudo.

Quanto tempo aquilo duraria?

 

Nota da Legião de Patinadores

Com o surgimento da Mancha Negra, a vida marítima do Mar Esmeralda está mudando. Os relatos mais preocupantes que tivemos nos últimos meses foi a presença de megalopeixes em nossas águas. No quadrante norte, um barco-casa foi destruído por um cardume dessas criaturas vorazes, num ataque sem precedentes, tendo em vista que, apesar de agressivos, não costumam atacar de forma coordenada e gratuita.

Assim, anunciamos o falecimento de Ata, um dos Patinadores de maior talento que a Legião teve o orgulho de ter em suas tropas. Vita, sua dupla e companheira de vida, conseguiu escapar com poucos ferimentos. Em respeito aos familiares, não iremos divulgar mais nenhuma informação sobre o ocorrido.

Nossos sinceros sentimentos e continuaremos lutando nesses tempos de escuridão.

 

47 Anos

Ainda era Outono.

Vita caminhava, cansada e levemente curvada, por entre as folhas secas de Viridis, contrariando o passado, que, mesmo em épocas frias, mantinha as folhagens exuberantes e fartas. Desde que o Mar Esmeralda fora parcialmente dominado pela Mancha Negra, tornando as águas perigosas, a Legião fora diminuída e ela, infelizmente, dispensada. Aquele incidente destruiu seu sonho. 

Agora, trabalhava numa pequena fazenda de ostras, na parte de baixo de Viridis, longe do sol.

Vivia por Zen. Sobreviveu por ele. Então, de alguma forma, não era torturante continua vivendo. Só era difícil. Tinha seu menino, agora rapazote, mas ainda era seu bebê. E isso bastava. Isso e Viridis, claro. Pensar nela era um pouco doloroso. A matriarca estava doente. Alguns pesquisadores suspeitavam que tinha relação com a Mancha Negra, mas não sabiam o que, de fato, estava acontecendo.

Um pouco antes de chegar em casa, sentiu algumas folhas caírem sobre sua cabeça e sentiu-se quente.

 

Resquícios de uma Lágrima no Oceano

Entre o verde e o negro, 
uma figura se preparava para partir, 
mas ansiava que, 
se tal bênção fosse permitida, 
alguém assumisse seu lugar.

 

59 Anos

Era Inverno.

— Você tem certeza, mãe? — insistiu Zen.

Vita sorriu carinhosamente e abraçou seu filho.

— Sim, querido. Ficarei em Viridis.

Encarou-o por longos segundos, o suficiente para memorizar cada detalhe daquele rosto lindo.

— Teimosa, como sempre… — desistiu.

— Você me conhece!

Também abraçou seus netinhos, dando-lhes uma última lembrança calorosa. Despediu-se da nora, dos vizinhos e ficou no Largo Alvo até as embarcações sumirem no horizonte.

Repousou as dores da velhice num banquinho, que, por sinal, era bem familiar. Sentia um pouco de raiva, sabe? Todos estavam abandonando a cidade… Pouco a pouco. E, agora, até seu menino tinha ido embora. Mas entendia porque procuravam um novo horizonte.

Como podia odiá-los por procurarem uma vida melhor?

 

O Silêncio do Deus da Bondade

(…)

E ele decidiu fazer algo.

 

???

Ainda era Inverno.

Quantos anos ela tinha…? Não importava. Vita estava tão cansada, tão tranquila… Naquela noite, em específico, decidiu pernoitar por ali, na beira d’água, em seu característico banquinho. Ela tinha a ligeira impressão que era um dia especial. 

Muito especial.

Às vezes, quando olhava para aquele mar negro, sentia que poderia sumir a qualquer momento. Aquela escuridão, tão insistente, tão poderosa, era bastante sedutora. Num sorriso, lembrou da época de Patinadora, quando deslizava por aquelas águas com Ata e acenava para seu filho.

Sua vida foi tão bonita…

Suspirou. E olhou para cima. Viridis. Sem folhas, sem brilho, sem vida. Sabia, desde que era criança, que viveria ao seu lado. 

Foi bom, mesmo com as dores que uma existência te obriga a sentir.

— Você realmente ama a matriarca, não é?

Meneou a cabeça. Anos em silêncio, em pura solidão, e mesmo assim não se assustou. E, como um sussurro, escutou mais uma vez aquela voz.

— Você quer que ela viva novamente?

Também não precisou responder. Uma figura humanóide e brilhante emergiu das águas negras. Ágil, lembrando uma bailarina, saltou até o píer, avançou velozmente até Vita, parando na sua frente e estendendo a mão. Sem hesitar, a senhora aceitou aquele convite.

Sentiu um intenso vigor, há muito não sentido, envolver seu corpo. Levantou-se do banquinho num salto, ainda velha, mas com aquela energia que tinha na juventude. Correu para o mar, acompanhando a entidade, que ria, ria e ria.

E elas dançaram. 

Cada movimento lançava um sopro luminoso no ar, que penetrava nas águas, renovando-as. E Vita rejuvenescia, aos poucos, transformando-se naquela bela jovem que, um dia, deslizou por aquele mar esverdeado com orgulho.

No ápice daquele show com uma única testemunha, um jovem aventureiro que viajava em busca de autoconhecimento, uma chuva dourada banhou Viridis, semeando-a em inúmeros pontos. Vita, naquele momento, percebeu que vivenciava uma nova Noite das Sementes. E então olhou para Pulchram, pois a reconheceu naquele momento, e sentiu um intenso amor.

Derreteu-se em gratidão, dando vida para o Mar Esmeralda como sua nova Guardiã.

 

Trecho do Livro

Ciclo da Vida

Conforme envelhecemos, contemplamos a morte. Ficamos com medo. Mas não precisamos. Todo fim simboliza, afinal, o começo de algo novo.

Olhem para o mundo. Olhem para a natureza. Tudo se transforma. Usarei como exemplo Flavo e o Mar Esmeralda. Muito tempo atrás, quando os deuses eram mais presentes, no lugar da árvore-estelar amarela, existia Viridis, que era da mesma espécie, porém, um pouco mais comum. Após séculos de existência, ela morreu, deixando a famosa cidade em ruínas, mas a bênção do Deus da Bondade perdurou. E a região renasceu com uma nova Chuva de Sementes.

A existência é assim mesmo. Como uma onda, que vem e vai em segundos. Mas nunca finda.

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Informação

Publicado em 22 de março de 2020 por em Envelhecer, Envelhecer - Grupo 1.